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segunda-feira, 31 de março de 2014

Diplomacia infantilóide e neodemonização da Rússia

24/3/2014, [*] Frank Furedi, Spiked Online e 30/3/2014, 4th Media, Pequim
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A arrogância autista dos neodemonizadores da Rússia no ocidente é espantosa.

Vladimir Putin
Será que diplomatas e jornalistas ocidentais falam sério quando acusam o governo russo de estar lançando uma nova Guerra Fria? Será que realmente acreditam em sua própria retórica, quando dizem que Putin tem ambições expansionistas e quer reconstruir o Império Soviético?

Será que Hillary Clinton, ex-secretária de Estado dos EUA falava a sério quando disse que as ações da Rússia na Crimeia seriam semelhantes “ao que Hitler fez antes, nos anos 1930s”? Outros observadores anti-Rússia disseram também que a incorporação da Crimeia na Rússia seria análoga à anexação da Áustria pela Alemanha nazista nos anos 1930s. Será que toda essa gente acredita sinceramente na própria interpretação dos atuais eventos geopolíticos?

É sempre difícil, se não perigoso, especular sobre o processo mental que leva diplomatas poderosos e líderes políticos a dizer certas coisas. É especialmente difícil dar conta do significado da dinâmica que converteu a crise na Ucrânia em perigosa disputa internacional.

Em entrevista recente, um jornalista russo perguntou-me por que a imprensa-empresa ocidental tornara-se tão descuidada no trabalho de checar informações sobre a Ucrânia e, em geral, sobre a Rússia. Senti-me sem argumentos para responder e fui forçado a pedir tempo para pensar melhor.

Depois de analisar as declarações sobre a Ucrânia feitas por diplomatas ocidentais ao longo das duas últimas semanas, cheguei à conclusão, nada confortável, de que os motivos por trás da demonização da Rússia são decorrência de convicções sinceras. [1] Claro que há muita propaganda, distorções propositais e muita fantasia nessa campanha – mas a ‘'ideia geral'’ que a campanha manifesta foi tão profundamente internalizada por tantos no ocidente, que, agora, já constitui a realidade deles, uma espécie de para-realidade.

E o fato de que uma nova ninhada de pressupostos cruzados da Guerra Fria tenham-se autoconvencidos da ‘'verdade'’ da própria retórica pode ter consequências ainda mais desestabilizadoras do que se a campanha fosse só exemplo cínico de realpolitik à moda antiga. A realpolitik tinha o mérito, pelo menos, de ter raízes plantadas no mundo real; a atual campanha anti-Rússia, ao contrário, é baseada em confusão generalizada e, ainda pior, em autoengano.

A hitlerização infantil de Putin
Dois pesos e duas medidas

O autoengano do qual padece a atual diplomacia ocidental pode ser mais claramente percebido no modo como aplica dois pesos e duas medidas em suas avaliações dos assuntos globais. O autoengano simplório, quase infantil, do modo como o ocidente se posiciona em relação à Rússia foi-me apresentado, bem visível, em maio passado, numa visita a Budapeste. Depois de várias reuniões sobre o papel dos jovens na sociedade civil, tive oportunidade de conversar com jovens norte-americanos empregados de uma ONG que tem sede nos EUA e que trabalhavam na Rússia.

Durante a conversa, uma jovem ongueira, de Seattle, disse que muito se surpreendera ao descobrir que alguns funcionários do governo russo a tratavam como se ela fosse “agente de uma potência estrangeira”. Vários colegas dela também se mostravam muito surpresos ante o fato de eles e a ONG para a qual trabalham serem tratados pelos russos... ora bolas!... como o que eles e elas realmente são: empregados de organizações que promovem os valores norte-americanos em outros países.

Quando me mostrei surpreso ante a reação deles, e perguntei “Mas vocês não sabem que trabalham para uma organização estrangeira e, ainda mais importante, para uma organização que critica muito ativamente o governo do país onde vocês estão trabalhando?”, eles e elas simplesmente não entenderam a pergunta. Quando perguntei: “E como o governo dos EUA classificaria uma ONG russa que estivesse promovendo valores da Igreja Grego Ortodoxa nas ruas de NY”?, ninguém me respondeu.

Só quando perguntei qual seria a reação do governo do país deles, se um grupo de ongueiros de ONGs russas tivesse oferecido ajuda financeira e de pessoal para o movimento Occupy ou para o Tea Party, um dos meus interlocutores, afinal, reconheceu que eu talvez tivesse alguma razão.

O movimento Occupy Wall Street em New York City
Essa minha experiência em Budapeste mostrou-me o quanto é profunda a pressuposição autista, autorreferente, de autoperfeição, nas ações, e de retidão, nos próprios motivos, entre esses agentes que promovem valores ocidentais; a tal ponto, que jovens muito inteligentes, nem por isso, conseguiam ver que, claramente, estavam-se servindo de dois pesos e duas medidas: promover valores norte-americanos na Rússia seria “certo”; mas promover valores russos nos EUA seria “errado”. Por que pensam assim? Porque essa diplomacia de dois pesos e duas medidas é construída sobre o implícito de que haveria diferença essencial entre os países, no plano moral.

Esse pressuposto autorizaria os líderes ocidentais a “dar aulas” aos seus contrapartes estrangeiros sobre comportamentos certos e errados, aceitáveis e não aceitáveis. Diplomacia de dois pesos e duas medidas, que leva um lado a tratar o outro como se o outro lado fosse criança ou, no limite, como se fosse perfeito imbecil.

Observem, por exemplo, o à vontade com que importantes líderes políticos dos EUA e da União Europeia apareceram em Kiev, há poucas semanas, para manifestar sua solidariedade aos manifestantes golpistas.

Imaginem a reação, nos EUA e na Grã-Bretanha, se Putin ou algum alto governante russo aparecesse, distribuindo sanduíches em praças, no auge do movimento Occupy ou durante os tumultos de rua em Londres, e declarasse o apoio do governo russo aos grupos na rua. O ultraje seria cataclísmico. Mas, graças à diplomacia de dois pesos e duas medidas, com a Rússia tratada como se fosse criança, os líderes norte-americanos não veem problema algum em agir de modo que considerariam inaceitável, em outros.

Num ambiente global, onde o tráfego (tráfico?) cultural cresce sempre mais numa direção que na outra, com pequena variação e praticamente nenhuma oposição ativa, a Rússia é demonizada como sociedade atrasada e moralmente inferior, a ser condenada e, se necessário, a ser castigada, até que se modifique e aceite como seus os valores de seus críticos iluminados. E como ficam as coisas se o povo russo tiver outro padrão moral, diferente do que reina em Washington, Londres ou Hollywood? Pouco importa aos diplomatas que só sabem ver o próprio umbigo, especialistas em moral dupla, que querem-porque-querem que todos vejam o mundo como eles veem.

O ethos dos dois pesos e duas medidas é particularmente danoso no campo político. Formalmente, as elites culturais e políticas que dominam a sociedade ocidental creem nos ideais da democracia representativa. E falam da democracia representativa como pré-requisito para uma sociedade aberta.

Infortunadamente, contudo, a atual coorte de líderes ocidentais adotaram, de fato, uma atitude altamente seletiva e desonesta em relação à democracia. Entendem que eleições são maravilhosas, se eles são eleitos, ou partido ou candidato aprovado por eles. Se um partido não apreciado pelos iluminados diplomatas ocidentais vence eleições, então, para os norte-americanos, o processo democrático teria falhado; e os norte-americanos passam a trabalhar para a “mudança de regime” mediante golpe; e o golpe se torna(ria) solução legítima.

Assim, em dezembro de 1991, a Frente de Salvação Islamista obteve vasta maioria dos votos – 181 cadeiras, de 231 – no primeiro turno das primeiras eleições legislativas livres na Argélia. O exército da Argélia reagiu com cancelamento das eleições e entregou o poder a uma comissão de cinco membros não eleitos. Ouviu-se um suspiro de alívio no ocidente e – surpresa, surpresa! – nenhuma sanção foi imposta à Argélia em resposta àquele golpe de estado.

Ano passado, foi a vez de o Egito descobrir que, quando são eleitos “os errados”, o ocidente num segundo esquece seu compromisso com o princípio da democracia representativa. Outra vez, o golpe militar no Egito derrubou o islamista Mohamed Mursi; e outra vez não se ouviu qualquer pregação, pelos políticos ocidentais, em defesa das virtudes das instituições democráticas.

E assim chegamos à Ucrânia. O governo livremente eleito do presidente Yanukovich foi derrubado pelo que se conhece convencionalmente como golpe, ilegal; pois para a imprensa-empresa ocidental a coisa não passou de “desenvolvimento democrático”. Hoje, temos uma situação na qual a imprensa-empresa ocidental apresenta o novo governo ucraniano como entidade legal e, ao mesmo tempo, diz que o regime legal que realizou um referendo na Crimeia seria regime ilegal. Extraordinários dois pesos e duas medidas!

Claro, os que foram escolhidos pelo povo na Argélia, Egito e Ucrânia ao longo das décadas recentes não eram democratas agradáveis, de ideias arejadas. Nos últimos anos, os governos da Ucrânia, incluído o de Yanukovich, apresentaram poucas qualidades recomendáveis. Yanukovich, como virtualmente toda a elite política ucraniana, é membro de uma oligarquia corrupta e interesseira.

Mas, diferente de Oleksander Turchynov, que foi posto em seu lugar, Yanukovich, pelo menos, é oligarca eleito! Se os governos ocidentais agem como se não houvesse problema algum em derrubar governos eleitos que não os satisfaçam, o que aqueles governos ocidentais fazem e minar a autoridade moral da própria democracia.

Por isso na Ucrânia hoje a maior ameaça à democracia vem do comportamento dos que são cúmplices na desestabilização e no golpe que derrubou regime democraticamente eleito. Os que protestaram em Kiev tinham todo o direito de protestar e desafiar o governo. Mas, se o veredito das urnas pode ser tão facilmente desmoralizado, o maior problema é que a genuína política democrática está sendo desmoralizada. A política de dois pesos e duas medidas de Washington e da União Europeia em Kiev desmoraliza a autoridade da política democrática em toda aquela região.

Diplomacia Ocidental Infantil
Diplomatas infantilóides

Qualquer pessoa que acredite no que vê e lê na mídia ocidental encontrará motivos para pensar que a Rússia seria potência expansionista e agressiva, à espera de uma chance para capturar o vizinho estado da Ucrânia. Nada mais falso. A realidade é que, apesar de uma ou outra posição nacionalista do presidente Putin, a Rússia está convertida em potência em status quo defensivo clássico. Desde a ruptura da União Soviética, a Rússia viveu um processo no qual seu poder e influência só diminuíram.

A Rússia lutou para preservar posições no Cáucaso e enfrenta movimento islamista radical muito maior que qualquer das forças que desafiam diretamente as sociedades ocidentais. E em seu front oeste, a Rússia sente-se ameaçada por pressões políticas e culturais que lhe chegam da Europa. Nessas circunstâncias, é compreensível que muitos, na elite russa, sintam que próprio tecido nacional russo esteja sendo esgarçado.

A principal realização do ocidente, especificamente da diplomacia da União Europeia na Ucrânia, foi empurrar a Rússia para posição ainda mais defensiva. A ação da Rússia na Crimeia é, pelo menos em parte, uma reação ao que os russos percebem como interferência estrangeira sistemática na Ucrânia. Mas... o que a União Europeia esperava que acontecesse, quando tentou anexar a Ucrânia à sua esfera de influência?

Stephen Cohen
Como o professor Stephen Cohen observou, esse perigoso conflito foi desencadeado:

(...) pelo temerário ultimato, em novembro, feito pela União Europeia, para que um presidente democraticamente eleito em país profundamente dividido, escolhesse entre Europa e Rússia .

O ocidente alega que já vão longe os velhos tempos do século 20, quando potências globais buscavam consolidar e dominar suas esferas de influência. Mas, desde o esfacelamento da União Soviética, o que sempre se viu foram tentativas sistemáticas para aproximar das fronteiras da Rússia, cada vez mais, a esfera de influência ocidental. A linha que dividia Leste e Oeste mudou de lugar: saiu do meio de Berlim, para a fronteira da Rússia.

Nenhum russo, hoje, dará sinais de paranoia se sentir que seu país está sendo cercado e lentamente minado por forças hostis à sua própria existência. Diplomatas ocidentais que não percebam nem isso são, esses sim, os paranoicos que já perderam completamente o contato com a realidade geopolítica.

A União Europeia e os EUA agem como se não tivessem nenhuma responsabilidade pela crise na Ucrânia e pelas tensões nas relações entre o ocidente e a Rússia. É possível que o ocidente se tenha autoenganado a tal ponto sobre os assuntos globais, que já nem consiga ver o quanto o próprio ocidente é cúmplice na atual crise. Esse autoengano delirante implica que as regras normais que regem as relações internacionais já nada regem, substituídas por “sermões” e pregações do moralismo mais oco, sempre interessado em gerar a reação mais bombástica, na mídia.

Essa corrosão da diplomacia ocidental é hoje um real perigo a ameaçar a estabilidade global. Ela mina também a autoridade moral da democracia. Num certo ponto, a política dos dois pesos e duas medidas em assuntos internacionais desmoralizará a tal ponto os ideais democráticos, que até a integridade das instituições democráticas dos próprios países agressores também ruirá, minada por dentro.
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Nota dos tradutores
[1] Impossível não lembrar Film Socialisme (Godard, 2010): “O que nunca muda é que sempre haverá fascistas. O que mudou hoje é que os fascistas são sinceros”) [aqui traduzido]. Trailer a seguir:

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[*] Frank Furedi (nascido em 1947, em Budapeste , Hungria) é Professor Emérito de Sociologia na Universidade de Kent, Reino Unido. É conhecido por seus trabalhos sobre Sociologia do Medo, Educação, Terapia pela Cultura, Paranoia Parental e Sociologia do Conhecimento.
Nos últimos anos, seu trabalho tem sido orientado para explorar a Sociologia do Risco e Baixas Expectativas. Furedi, autor de vários livros sobre o tema, mais recentemente escreveu Wasted: Why Education Isn't Educating (Continuum 2009) e Invitation to Terror: The Expanding Empire of the Unknown (Continuum 2007), uma análise do impacto do terrorismo pós 9 / 11. Suas publicações mais recentes: On Tolerance: A Defence of Moral Independence (Continuum 2011) e Authority: A Sociological Introduction (Cambridge University Press), debatendo os problemas de inter-relacionamento entre liberdade e autoridade. Ele é, segundo pesquisas, o sociólogo mais citado na imprensa britânica.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A briga da Arábia Saudita na ONU é contra os EUA (1/2)


21/10/2013, [*] MK Bhadrakumar, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu (revisado por João Aroldo)

Saudi Arabia e a ONU
A Arábia Saudita está divulgando que a rejeição ao posto de membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU é questão de altos princípios. Mas a grande pergunta é: quem, de fato, Riad está querendo desqualificar? Pode talvez ser o sistema das Nações Unidas, mas as aparências podem enganar.

Fato é que Riad muito trabalhou para obter o privilégio de ver-se representada no Conselho de Segurança pela primeira vez, nos 60 anos de existência da organização mundial. Aplicou-se dedicadamente por mais de um ano, na luta para conquistar apoio de outros membros para sua candidatura, depois de ser indicada como escolha unânime do bloco árabe. Claro que houve muito de realpolitik nesse cálculo e, se algum alto princípio pesou na mente dos sauditas, só pode ter sido fenômeno muito recente.

Os sauditas decidiram introduzir uma “correção de rota”. É isso. Ponto. Parágrafo. É movimento teatral e caminha contra a reputação dos sauditas, cujo establishment é notório pela lentidão com que toma decisões. Acima de tudo, é decisão surpreendente; de certo modo, é movimento “pouco saudita”, dado o longo currículo de excesso de cautela.

Na declaração do Ministério de Relações Exteriores saudita, lê-se que:

(...) o modo, os mecanismos das ações, os duplos critérios que se vêem no Conselho de Segurança o impedem de cumprir os próprios deveres e de assumir suas responsabilidades na preservação da paz e da segurança internacional, como deve fazer, o que tem levado a continuado rompimento da paz e da segurança, à expansão da injustiça, à violação de direitos e à disseminação de conflitos e guerra por todo o mundo.

Em resumo, Riad depôs toda a culpa à porta de entrada da ONU. Não há dúvidas de que foi declaração dura, que se soma às acusações de que o Conselho de Segurança não tem manifestado qualquer inclinação para qualquer reforma, apesar dos esforços internacionais “dos quais a Arábia Saudita tem participado muito efetivamente”.

Na sequência, os sauditas listam três áreas específicas nas quais o Conselho de Segurança falhou: em primeiríssimo lugar, foi incapaz de assegurar ao povo palestino os seus direitos legítimos; daí decorre, mas sem nada explicitar, o problema dos arsenais nucleares israelenses (“o Oriente Médio como área livre de armas de destruição em massa”); e o programa nuclear do Irã (“conter os programas nucleares de todos os países”). A Síria aparece na terceira explicação: o fracasso “na aplicação de qualquer sanção paralisante contra o regime de Damasco”.

Mas... Riad sempre soube que os EUA jamais permitiriam que o Conselho de Segurança forçasse Israel a retirar-se da Cisjordânia. Além do mais, a Arábia Saudita diz apoiar a “causa palestina”, mas jamais teve qualquer militância ativa nessa direção; em vez disso, chegou até a manter contatos secretos com Israel, os quais, hoje, já acontecem, pode-se dizer, às claras.

Reunião do Conselho de Segurança da ONU
A dura verdade é que a operação saudita para obter um assento no Conselho de Segurança da ONU começou há vários meses, quando os prospectos de engajamento EUA-Irã eram praticamente zero, e estava em plena implantação uma agenda de “mudança de regime” na Síria. Aconteceu então que as placas tectônicas começaram a mover-se nas últimas semanas, movimento que ninguém havia previsto, com a extraordinária iniciativa do presidente russo Vladimir Putin sobre os arsenais químicos da Síria.

A implementação do acordo russo-EUA sobre a destruição das armas químicas da Síria efetivamente torna o governo do presidente Bashar Al-Assad o interlocutor chave da “comunidade internacional”, cuja cooperação o governo Obama busca. Por outro lado, a oposição síria comandada pelos sauditas implodiu, está literalmente se autopulverizando e radicalizando-se cada vez mais, além do fato de que está perdendo terreno para as forças do exército sírio.

A sabedoria convencional sugeria também que o poder formidável que o lobby pró-Israel exerce sobre o establishment norte-americano forçaria o presidente Obama a desistir do projeto de engajar o Irã. Os sauditas trabalharam em íntima colaboração com o lobby israelense nos corredores do poder em Washington, mas hoje sentem-se abandonados, depois que Obama decidiu explorar as possibilidades de um engajamento com Teerã.

Os sauditas podem também estar deixando transparecer que seu jogo enfrenta dificuldades graves na Síria, e que a incansável, robusta diplomacia russa, na direção de fazer avançar o processo de Genebra-2 já não poderá ser minada. Nessas circunstâncias, restou aos sauditas uma opção de desafiar estrategicamente os EUA e montar uma campanha militar na Síria; e, sim, há notícias de que Riad está mobilizando os grupos islamistas extremistas sob seu controle, como nova força combatente na Síria. Mas desafiar assim a comunidade internacional é ação que pode sair muito cara, e pode revelar-se difícil de sustentar, porque os sauditas não estão conseguindo arrastar os países árabes sunitas para a sua nova guerra contra o Irã.

Iraque e Argélia opõem-se declaradamente ao projeto de “mudança de regime” na Síria. Hoje, o Qatar mantém-se distante, ruminando, depois de briga feia com os sauditas pelo Egito (e a Síria). A Turquia está no auge de um processo de reavaliar, e dá sinais de preocupação ante a presença de grupos afiliados da al-Qaeda nas áreas da fronteira com a Síria. O Egito já saltou fora do projeto de “mudança de regime” na Síria e, bem ao contrário, está expulsando os grupos de rebeldes sírios refugiados no Cairo. Os demais estados do Conselho de Cooperação do Golfo também começam a mostrar-se ambivalentes, ante a pressão exercida pelos EUA. Recentemente, o International Crisis Group previu que, em pouco tempo, os sauditas começarão a enfrentar um problema logístico para contrabandear armas para a Síria, com dois países, Turquia e Jordânia, já se mostrando relutantes.


Fato é que a Arábia Saudita também sabe que, se o acordo Rússia-EUA sobre as armas químicas sírias for bem-sucedido, será imperativo que se inicie um diálogo intra-Síria, e o Conselho de Segurança da ONU com certeza favorecerá uma solução política e diplomática para o conflito sírio. Significa que, como membro do Conselho de Segurança, a Arábia ter-se-ia posto na posição ridícula de ter de elogiar a cooperação dada, pelo governo sírio, à Comissão para Proibição de Armas Químicas. O que já se sabe é que na última 5ª-feira (17/10/2013), a declaração da CPAQ dizia que já haviam sido destruídas as armas de seis dos 20 depósitos a serem destruídos, e que o prazo previsto anteriormente para a destruição de todo o arsenal sírio (até meados de 2014) é realista e poderá ser cumprido. A Comissão manifestou explicitamente sua satisfação com a cooperação que recebeu das autoridades sírias.

Contudo, o conflito sírio é, na essência, uma guerra por procuração, e a causa basilar, que explica a fúria dos sauditas hoje, é os EUA estarem engajando o Irã. A Síria torna-se uma espécie de subtrama da rivalidade sauditas-iranianos. A derrubada do regime sírio é importante para os sauditas, como meio para reduzir o alcance regional do Irã, especialmente sua capacidade para influenciar, como big player, o jogo no Líbano, que Riad considera seu vassalo no Levante (como o Bahrain no Golfo Persa). E o Líbano (o Hezbollah) explica em boa parte, também, a convergência de sauditas e israelenses.

Tudo considerado, os sauditas estão “pirando”. A decisão de não ocupar o assento ao qual foram eleitos do Conselho de Segurança da ONU só pode ser definida como “piração”. De fato, os sauditas foram colhidos de surpresa pelos dois fluxos de eventos: pelos eventos relacionados à Síria e pelo início das conversações diretas entre EUA e Irã. A “piração” dos sauditas impressionará alguém? Em última análise, os sauditas só têm eles mesmos, para culparem. É mais que hora de repensarem seriamente, para se arrancarem do fundo do poço – que os próprios sauditas cavaram para eles mesmos, movidos pela obsessão contra o crescimento da importância do Irã na região. Os sauditas são movidos por uma fé obcecada, segundo a qual basta jogar muito dinheiro sobre qualquer problema, e o problema se autorresolverá.

Agora, pela primeira vez, estão obrigados a constatar que o dinheiro, sim, pode levar qualquer um até muito longe, mas nem em todos os casos, nem para sempre, em política.


Assim sendo, mesmo com a pródiga ajuda ao governo de transição no Cairo, não se vê nem sinal de qualquer renascimento na economia egípcia, nem de apaziguamento no descontentamento e na revolta do povo egípcio, nem de que o país se movimente na direção de voltar à estabilidade. Igualmente, depois de consumir bilhões de dólares no projeto de “mudança de regime” na Síria, os sauditas não veem nem sinal de luz no fim do túnel. E ainda mais: depois de muito tentar “influenciar” os atores no circuito político de Washington, para que impedissem a qualquer custo qualquer ação dos EUA para engajar o Irã... a Arábia Saudita percebe que nada conseguiu e que o engajamento está em andamento.

Mas há ainda mais alguma coisa envolvida nisso tudo – talvez muito mais do que apenas “alguma coisa”. Posto em termos sucintos, Riad quer que sua decisão de “boicotar” o Conselho de Segurança da ONU seja vista como duro golpe para conter e subjugar o governo Obama. As relações EUA-sauditas estão sendo esbofeteadas por subcorrentes muito fortes.

[Continua]
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online, Strategic Culture, Global Research e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Egito e Argélia, só diferenças

22/8/2013, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Robert Zaretsky
O autor e acadêmico Robert Zaretsky traça alguns paralelos interessantes entre o ataque dos militares argelianos aos islamistas, no início dos anos 1990s, e o que está acontecendo atualmente no Egito. Em Foreign Policy,  Zaretsky avalia que o Egito também se encaminha para uma “década negra”.

Há semelhanças logo à primeira vista, porque os militares argelianos também se autoapresentavam como defensores da democracia e também caricaturizavam os islâmicos como “antidemocráticos” e fanáticos. O ocidente fez-se de cego ante a carnificina na Argélia e mostra-se ambivalente hoje, ante o golpe no Egito.

Mas os paralelos praticamente acabam aí.

Diferente dos islamistas argelianos, a Fraternidade Muçulmana existe há décadas como movimento clandestino e sobreviveu à repressão pelo estado. A Fraternidade é capaz de adaptar-se e assume protoformas e muitas caras – no início da revolução da Praça Tahrir, trabalhou secretamente com os militares egípcios. E a Fraternidade Muçulmana sabe distinguir entre tática e estratégia.

Praça Tahrir durante Ramadan de 2012
Além disso, a Fraternidade é, pode-se dizer, um conglomerado de pequenos grupos de bairro que fazem trabalho caritativo, o que a liga de modo quase inseparável às massas miseráveis que não podem ser destruídas nem dizimadas em operações cirúrgicas.

E há ainda um ambiente regional no Oriente Médio hoje, que não era o mesmo há 20 anos passados. Diferente dos islamistas argelianos, a Fraternidade tem uma extensa rede por todo o Golfo Persa, a Jordânia, a Síria e além.

O Hamás é fruto da Fraternidade, o que a torna protagonista do problema palestino e do conflito árabes-israelenses. Muito diferente disso, os islamistas argelianos foram duas vezes removidos da questão do Oriente Médio.

A Primavera Árabe enfrenta ameaça extrema, mas a demanda por reformas e mudanças continuará a se fazer ouvir. O acordo construído para o Oriente Médio pelas antigas potências coloniais e a ordem política de então, depois da desintegração do Império Otomano há 100 anos, foram desmontados. O Egito portanto, continuará preso no torvelinho regional do qual não há saída. O Egito não é a Argélia, mas o coração pulsante do mundo árabe – e a Argélia é mais mediterrânea que oriental.

O dilema da junta egípcia será que não pode sustentar alguma total supressão permanente dos islamistas. Questão tortuosa que já surge é o papel do Partido Nour salafista,   que gozou de consistente apoio clandestino dos sauditas, e ficou na corda bamba depois da deposição do governo da Fraternidade. Antes do que se pensa, será forçado a assumir posição ao lado do Islã político, e a junta egípcia depende criticamente dos bilhões do Golfo, como diz a Agência Reuters, para sobreviver.

Mohamed El Baradei                                         Mohamed Mursi
E o processo está apenas começando e ainda não se sabe como o Egito reage à libertação de Hosni Mubarak. Os alinhamentos políticos focados na antipatia contra Mohamed Mursi já duram mais do que a utilidade que tiveram para seus protagonistas. Quem algum dia previu que o rápido flerte entre Mohamed El Baradei e a junta tomaria o rumo bizarro que tomou? Basta isso, para saber que o novo alinhamento das forças políticas no Egito pode ainda trazer surpresas.




[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Elites árabes insistem em repelir o Islã político

7/8/2013, [*] Ramzy Baroud, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Egito - Cairo -Praça Tahrir em 11/2/2011
As estações vão e vêm, e os países árabes continuam em convulsão sem fim. Falou-se muito de “Primavera Árabe”. Mas ainda que tivesse sido algum tipo de primavera, como a empresa-imprensa a pintou, não prosperou. E, hoje, já está metamorfoseada em algo muito mais complexo.

Mas tampouco se vê algum “Inverno Islâmico”, expressão muito apreciada por políticos e analistas israelenses. A dimensão islâmica das rebeliões árabes – algumas das quais convertidas em sangrentas guerras civis ou regionais – deveria ser muito clara e palpável, desde o início, para quem compreenda as realidades políticas além do modo como são usadas como ferramentas políticas.

O Islã sempre foi e sempre será componente da modelagem das compreensões coletivas das nações árabes. O Islã político está no coração da luta em curso, a qual, em alguns sentidos, é manifestação de um século de lutas entre o Islã como plataforma de expressão política, governança e jurisprudência, contra tendências ocidentais e ocidentalizantes.

Ao longo da história, jamais houve sequer uma união estável e bem-sucedida entre o Islã e as classes governantes árabes – bem-sucedida no sentido de ter contribuído para o progresso, para avanços nos direitos e para a prosperidade para todos. Ou os islamistas foram cooptados, ou reinou o conflito. A atrocidade dos resultados desses conflitos variou conforme a arte e a esperteza, maiores ou menores, dos governantes árabes aos quais coube gerir os conflitos.

Na Jordânia, sempre houve discórdia nos baixos escalões, entre partidos da oposição islâmica e a classe governante. Oscilou entre inclusão parcial de forças islâmicas num Parlamento que operava com pouca autoridade e surtos ocasionais ou crises políticas de pequenas consequências.

Mas nem todos os experimentos falhados falharam com o mesmo custo relativamente baixo. Na Argélia, uma tentativa de harmonização deu terrivelmente errada. A guerra civil argelina de 1991 durou mais de uma década e fez 200 mil mortos. E nada começou com sangue; as coisas começaram com uma eleição. A Frente Nacional de Libertação que governava cancelou as eleições depois do primeiro turno, temendo o que parecia ser sua derrota certa nas mãos da Frente de Salvação Islâmica.

Prisioneiros argelinos vigiados por soldados franceses
Guerra da Argélia 1954-1952 
A promessa converteu-se no segundo pior pesadelo da Argélia; o primeiro fora a luta ainda mais sangrenta, de 1954 a 1962, de libertação colonial, contra o império francês. Naquele momento, reuniam-se todos os ingredientes para um desastre completo. Havia um exército forte que governava o país mediante partido que enriquecera muito; uma oposição política que estava a um passo de alcançar o poder político pela via eleitoral; e uma massa de cidadãos prontos para avançar além de slogans gastos e da miséria econômica.

Ainda mais, uma geração de jovens radicalizados tinha sérias dúvidas, para começar, quanto à sinceridade da classe governante. O cancelamento das eleições foi a gota d’água, e o derramamento de sangue parecia ser o único denominador comum. Até hoje, a Argélia ainda vive enredada nas consequências daquele conflito, num impasse político sem mapa do caminho para lugar algum.

Por mais que não se deva generalizar, sabendo o quanto a imprensa-empresa obra para meter todos os árabes e muçulmanos num só e conveniente discurso, as similitudes entre a experiência argeliana e a experiência egípcia são espantosas.

Dia 25/1/2011, os egípcios revoltaram-se, com a esperança de que afinal romperiam o jugo das elites reinantes, do Partido Nacional Democrático e de seus aliados – o exército e a classe comercial-empresarial – que operavam como se toda a economia egípcia fosse eles e só deles.

Hosni Mubarak
Mas, por extensão, a revolução teria de ter mirado também o conglomerado mais amplo, regional e internacional, que apoiou e ajudou o regime de Hosni Mubarak e todo seu massivo aparelho corrupto de poder. De fato, sem elaborada rede de apoiadores, sob o comando dos EUA, Mubarak jamais se teria sustentado no poder durante 30 anos. Mas os egípcios não tiveram nem o tempo nem os necessários recursos para desenvolver uma agenda de política externa, e sua revolução já enfrentava obstáculos terríveis e empenhadas tentativas de sabotagem.

Por um lado, o exército continuava no poder, embora se autoproclamasse guardião da nação e de sua revolução, servindo-se para isso da mesma velha empresa-imprensa corrompida. Por outro lado, jamais houve qualquer estrutura coesa que permitisse que os egípcios traduzissem sua aspiração coletiva em algo tangível.

Os únicos fóruns disponíveis eram as eleições e os referendos, e todas as eleições e todos os referendos foram sempre, infalivelmente e democraticamente vencidos por partidos islamistas. Eleições justas e transparentes, sim, talvez; mas graças a elas, o regime de Mubarak ressurgiu à superfície da vida do Egito.

Servindo-se dessa infraestrutura jamais desmontada, com destaque para o aparato da empresa-imprensa mais corrupta, cujos empresários-proprietários eram industriais e comerciantes poderosos, o velho regime conseguiu inverter o sinal da revolução e virou-a contra ela mesma. Espertamente, venderam os protestos de 30/6/2013 como se fossem a via para corrigir o caminho errado tomado depois da revolta do 25/1/2011.

Mohamed Mursi
Numa estranha sucessão de eventos, milhões dos mesmos que haviam protestado contra Mubarak voltaram às ruas para protestar contra um Mohamed Mursi democraticamente eleito, aliados às mesmas velhas forças políticas que durante anos haviam devastado a economia do país; convocando o exército ao poder; e aliados às hordas de baltajiya – gangues de criminosos que, apenas dois anos antes, haviam aterrorizado os manifestantes.

Agora, o Egito está dando seus primeiros passos para tornar-se outra Argélia durante a guerra civil. Os líderes do golpe entenderão, de fato, as verdadeiras repercussões do que fizeram?

A Tunísia, a pequena nação que inspirou o mundo em dezembro de 2010, não está muito distante desse ponto, nessa triste saga. Houve recentemente mais um assassinato, dessa vez de um político nacionalista, Mohamed Brahmi, logo depois de outro assassinato de outro político muito conhecido, Chokri Belaid. A Tunísia permanece dividida entre os que querem derrubar o governo e os que insistem em defender seu direito democrático de governar. De um modo ou de outro, não há dúvidas de que mãos suspeitas tentam empurrar a Tunísia para um abismo chamado de “islamistas versus secularistas”.

A Síria é, de longe, o exemplo mais sangrento. Embora na guerra civil síria as apostas tenham subido muito mais e muito rapidamente, assim como a correspondente discussão, a guerra muito rapidamente assumiu traços de um perigoso conflito sectário, cujas implicações se ressentem na região e também longe dali.

Por uma via atormentada, os regimes árabes estão acumulando ganhos. Alguns os estão obtendo mediante guerra; outros mediante golpes militares; e alguns conspiram ativamente, na esperança de conseguir começar a jogar as próprias cartas.

Mas, por mais alto que seja o preço pago e a pagar pelas revoltas, uma coisa é certa – o velho paradigma do Oriente Médio, de elites poderosas apoiadas em aliados poderosíssimos e a oprimir povos enfraquecidos não parece estar dando sinais de que possa ser ressuscitado.
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[*]Ramzy Baroud é colunista internacional e editor do jornal Palestine Chronicle. seu último livro foi My Father was A Freedom Fighter: Gaza's Untold Story (Pluto Press) ainda sem tradução em português.