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sábado, 9 de novembro de 2013

Drones: vingança da CIA e bloqueio da estratégia do Paquistão

7/11/2013, [*] Gareth Porter, Inter Press Service
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Manifestação de integrantes do partido PTI contra os drones já em 2009
WASHINGTON, (IPS) – Depois que um ataque de um veículo aéreo armado pilotado à distância, um drone, matou, segundo o noticiário, o comandante dos Talibã-No-Paquistão Hakimullah Mehsud dia 1/11, o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA declarou que, se a notícia fosse verdadeira, seria “uma séria perda” para aquela organização terrorista. A reação refletiu acuradamente o argumento da Agência de Inteligência Central [orig. Central Intelligence Agency, CIA] para promover aquele ataque.

Mas a história de fundo que realmente interessa nesse episódio é por que o presidente Barack Obama apoiou os interesses corporativistas, paroquiais da CIA na guerra de drones, e atropelou o esforço do governo do Paquistão, que tenta uma nova abordagem política na crise do seu país contra o terrorismo.

O fracasso da estratégia dos drones e das operações militares dos paquistaneses nas Áreas Tribais sob Administração Federal [orig. Federal Administrated Tribal Areas, FATA], que não conseguiram conter a maré terrorista, levou o primeiro-ministro, Nawaz Sharif, a tentar a via do diálogo político com os Talibã.

Mas o ataque de um drone que matou Mehsud pôs fim às conversações de paz, antes mesmo de elas começarem.

Chaudhry Nisar Ali Khan
O ministro do Interior, Chaudhry Nisar Ali Khan, denunciou imediatamente o ataque do drone que matou Mehsud como “uma conspiração para sabotar as conversações de paz”. Acusou os EUA de terem “detonado” a iniciativa, na véspera, 18 horas antes de uma delegação de respeitados ulemá [clérigos islâmicos] decolar para Miranshah e entregar o convite formal”.

Funcionário não identificado do Departamento de Estado recusou-se a comentar a crítica que o ministro paquistanês acabava de fazer aos EUA; declarou, sem se alterar, que a questão era “assunto interno do Paquistão”.

Três diferentes comandantes Talibã disseram à Agência Reuters, dia 3/11, que estavam organizando os preparativos para participar das conversações de paz, mas que, depois do assassinato de Mehsud, sentiram-se atraiçoados e juraram vingá-lo com uma onda de ataques.

A estratégia de engajar os Talibã em conversações de paz, que recebeu apoio unânime de uma “Conferência de Todos os Partidos”, dia 9/9, não foi ingenuidade ou sinal de ignorância sobre os Talibã, como sugeriu uma coluna do dia 3/11 do New York Times, sobre a reação dos paquistaneses ao drone e ao assassinato.

Uma das principais fraquezas dos Talibã-No-Paquistão [orig. Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP)] está em ser uma coalizão de cerca de 50 diferentes grupos, cujos comandantes, em muitos casos são menos comprometidos, que outros, com a campanha terrorista contra o governo paquistanês. No dia seguinte, depois do assassinato de Mehsud, vários comandantes Talibã disseram à Agência Reuters que ainda havia comandantes a favor das conversações com o governo.

O mais importante sucesso que o Paquistão alcançou na luta contra a violência dos Talibã nos últimos vários anos foi ter-se aproximado e construído uma base de entendimento e acomodação com alguns líderes militantes que haviam sido aliados dos Talibã, mas passaram a opor-se aos ataques contra funcionários do governo e soldados das forças militares e de segurança paquistanesas.

Sharif e outros funcionários do governo do Paquistão sabiam bem que os EUA poderiam impedir unilateralmente o prosseguimento dessas conversações; que bastaria que assassinassem Mehsud ou outro alto comandante dos Talibã; e que, para isso, os EUA têm os drones.

Protestos de 2/11/2013 contra o ataque de drone que assassinou Mehsud 
Em setembro e outubro, o governo paquistanês trabalhou para conseguir que os EUA dessem fim à guerra dos drones no Paquistão – ou que, pelo menos, dessem algum tempo ao governo do Paquistão para tentar sua nova estratégia política.

Dia 23/5, em discurso na Universidade de Defesa Nacional, Obama já sugerira que a necessidade de usar os drones estaria acabando, porque já praticamente não restavam “alvos de alto valor” a serem assassinados, e porque os EUA estariam retirando seus soldados do Afeganistão. Em agosto, o secretário de Estado, John Kerry, dissera que o fim dos ataques com drones poderia estar “muito, muito próximo”.

Depois da reunião com Sharif, dia 23/10, Obama disse que os dois haviam feito acordo para cooperarem “por modos que respeitem a soberania do Paquistão e considerem as preocupações de nossos dois países”; e falou favoravelmente dos esforços de Shariff para “reduzir esses incidentes de terrorismo”.

Pouco depois da reunião, o conselheiro de segurança nacional e assuntos exteriores de Sharif, Sartaj Aziz, disse em entrevista à rede Al-Jazeera que o governo Obama prometera “considerar” o pedido do primeiro-ministro, para que os EUA suspendessem os ataques com drones enquanto o governo fazia avançar seu plano de diálogo político.

John Kerry e Sartaj Aziz
Um “alto funcionário paquistanês” disse ao Express Tribune que Obama havia “assegurado ao premiê Nawaz que os ataques com drones só seriam usados como uma última opção” e que ele estava planejando pôr fim à guerra dos drones tão logo “uns poucos alvos remanescentes” fossem eliminados.

O funcionário disse que o governo paquistanês acreditava agora que os ataques unilaterais terminariam “em questão de meses”.

Mas a reunião de Obama com Sharif aconteceu, evidentemente, antes que a CIA procurasse Obama com inteligência específica sobre Mehsud, para propor usar os drones para assassinar o comandante Talibã.

A CIA tinha uma “questão” institucional a acertar com Mehsud, desde que ele distribuiu um vídeo ( logo abaixo) com Humam Khalil Abu-Mulal al-Balawi, o suicida-bomba jordaniano que enganara a CIA e fizera-se convidar para o interior do complexo de Camp Chapman na província de Khost, onde o suicida se autodetonou e matou sete altos funcionários e fornecedores da CIA, dia 30/12/2009.


A CIA já havia tentado matar Mehsud em dois ataques com drones, em janeiro de 2010 e janeiro de 2012.

Assassinar Mehsud não reduzirá a maior ameaça do terrorismo e com certeza disparará outra onda de ataques de suicidas-bombas dos Talibã-No-Paquistão, nas principais cidades paquistanesas.

Embora talvez satisfaça a sede de vingança da CIA, e melhore a imagem da CIA junto ao público norte-americano na luta contra o terror, o assassinato de Mehsud tornará impossível para o governo paquistanês eleito tentar uma abordagem política contra o terrorismo dos Talibã-No-Paquistão.

Obama parece ser simpático ao argumento de Sharif na luta contra o terrorismo e não tem ilusões de que alguns ataques a mais ou a menos de drones impedirão que a organização continue a mobilizar seus seguidores, inclusive os suicidas-bombas.

Drones atiram em vários alvos, quase sempre em civis
Mas a história da guerra de drones no Paquistão mostra que a CIA tem conseguido fazer o que quer, mesmo quando os alvos propostos foram altamente questionáveis. Em março de 2011, o embaixador dos EUA no Paquistão, Cameron Munter, opôs-se à proposta da CIA para um ataque de drones, pouco antes de Raymond Davis ser solto da prisão em Lahore.

Munter fora informado de que a CIA insistia no ataque de drones porque estavam irados com os serviços secretos (ISI) do Paquistão, que consideravam o grupo Haqqani como aliados, no caso da prisão de Davis, segundo matéria publicada pela Associated Press dia 2/8/2011. O grupo Haqqani estava pesadamente envolvido em combates contra tropas dos EUA e OTAN no Afeganistão, mas se opunha aos ataques terroristas dos Talibã-No-Paquistão em território paquistanês.

Leon Panetta, então diretor da CIA, rejeitou a objeção do embaixador Munter ao ataque, e Obama apoiou Panetta. Só mais tarde revelou-se que, naquele ataque, a CIA confiara em informação errada de inteligência. O míssil lançado pelo drone, naquele caso, não atingiu reunião do grupo Haqqani, mas uma reunião de líderes tribais de toda a província, que tratavam de uma questão econômica.

A CIA simplesmente se recusou a reconhecer o erro e continuou a repetir para os jornalistas que só havia terroristas naquela reunião.

Cameron Munter
Depois daquele ataque, Obama deu ao embaixador, como disse, um “cartão amarelo” [Munter renunciou ao posto de embaixador)]. De fato, apesar da evidência de que a CIA executara o ataque por razões corporativas, não por qualquer avaliação objetiva da inteligência de que dispunha, Obama deu ao diretor da CIA o poder para passar por cima de um embaixador discordante... ainda que o embaixador tenha o apoio do secretário de Estado.

O extraordinário poder que tem o diretor da CIA sobre a política “dos drones”, que Obama formalizou depois daquele ataque, estava novamente confirmado na decisão de Obama de aprovar a proposta da CIA, de usar um míssil disparado por um drone, para assassinar Mehsud.

Hoje, o diretor da CIA já é John Brennan, que trabalhou a opinião pública dos EUA a favor dos drones, em declarações, entrevistas e vazamentos, desde quando foi vice-conselheiro de Obama para segurança nacional, de 2009 a 2013.

Ainda que Obama estivesse decidido a reduzir a guerra dos drones no Paquistão e, ainda que, aparentemente, simpatizasse com a necessidade dos paquistaneses de por fim aos ataques dos EUA em seu território, mesmo assim Obama não soube rejeitar um pedido da CIA, que insistia em ataque no qual, mais uma vez, só se consideravam os interesses corporativos da própria agência.

No final de julho de 2013, uma pesquisa ainda mostrava que 61% dos cidadãos dos EUA apoiavam o uso dos drones. Depois de já ter modelado a percepção dos norte-americanos para a questão do terrorismo, Obama em seguida deixou que os interesses da CIA atropelassem, de uma só vez, os interesses dos EUA e do Paquistão.
___________________________

[*] Gareth Porter (nascido em 18 junho de 1942) é um historiador americano, jornalista investigativo, autor e analista político especializado na política de segurança nacional dos EUA.Especialista em Vietnã e ativista anti-guerra durante a Guerra do Vietnã, servindo em Saigon como chefe do departamento de expedição do News Service International nos anos 1970-1971 e, mais tarde, como co-diretor do Centro de Recursos da Indochina.Foi muito criticado por seu entusiasmo pelo Khmer Rouge, partido do governo do Camboja, na época. Escreveu vários livros sobre os conflitos no Sudeste Asiático e no Oriente Médio, o mais recente dos quais é Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War in Vietnam; uma análise de como e por quê os Estados Unidos foram à guerra no Vietnã. Porter também tem escrito para Al Jazeera – em inglês, The Nation, Inter Press Service, The Huffington Post e Truthout. Foi vencedor em 2012 do Prêmio Martha Gellhorn de jornalismo, que é atribuído anualmente pelo Club Frontline em Londres. Porter é formado na Universidade de Illinois. Recebeu seu mestrado em Política Internacional na Universidade de Chicago e seu Ph.D. em Estudos sobre o Sudeste Asiático na Universidade de Cornell. Ministrou cursos sobre Estudos sobre Política Internacional no City College of New York e na American University. Atualmente atua como jornalista free-lancer para inúmeras publicações internacionais.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

“Se não provam que são Talibã, bang”

6/11/2013, [*] Blog Moon of Alabama - USA
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Em 2010, Seymour Hersh fez uma palestra em Genebra, na qual, às tantas, disse que: O que fazem em campo agora é: dizem aos soldados “vocês têm um dia ou dois, para saber se os prisioneiros, gente que vocês pegaram, são ou não são Talibã. Vocês têm de arrancar deles o máximo de inteligência tática que tenham a entregar, inteligência estratégica, inteligência de longo alcance, e imediatamente. E se não conseguirem concluir que são Talibã, é preciso soltar os prisioneiros. “Assim é que acontecem, e ouvi a mesma história, contada como piada, de cinco ou seis pessoas diferentes, as execuções em campo”. É assim. Se eles não provam que os prisioneiros são Talibã, bang. Se não fazemos a coisa nós mesmos, nós entregamos os prisioneiros aos soldados afegãos mais próximos e mal viramos as costas e damos dois passos, já é só tiro que se ouve. É exatamente o que estão fazendo agora.

Como Matthieu Aikins noticia em Rolling Stone era o que ainda acontecia há três anos e provavelmente está acontecendo hoje:

Em fevereiro de 2013, os locais denunciaram que 10 civis haviam sido sequestrados pelas Forças Especiais dos EUA e desapareceram; e que outros oito haviam sido mortos pela equipe durante suas operações.
...

Os homens passaram duas noites presos, uma das quais num sufocante contêiner sem ventilação, antes de alguns deles serem soltos, entre os quais Hekmatullah, que diz que Kandahari e um soldado dos EUA selecionavam os que iam sendo soltos. Quando Hekmatullah, estudante de 16 anos, finalmente reapareceu de volta em casa, a família alegrou-se e passou a esperar que logo os norte-americanos soltariam também Esmatullah e Sediqullah. Jamais voltaram a vê-los.
...

Evento semelhante aconteceu dia 6/12/2012 na vila próxima de Deh Afghanan, quando desapareceram quatro prisioneiros que estavam na base dos EUA.


Depois que as Forças Especiais dos EUA deixaram a base, moradores locais encontraram cadáveres enterrados próximos da base. Eram os homens que haviam sumido. Aikins encontrou testemunhas que confirmaram alguns dos assassinatos. Outros foram descobertos por indícios fortes demais para ignorar.

Se coisas desse tipo acontecessem uma vez, ainda se poderia falar de alguma unidade pervertida, a maçã podre do pomar. Mas isso aconteceu durante anos e anos e anos a fio, tanto no Iraque como no Afeganistão. É uma política dos EUA, adotada e ensinada, a pior possível.

Desde a 2ª Guerra Mundial, os EUA não venceram nenhuma das guerras que fizeram. Essa atitude viciosa e pervertida contra populações locais, exatamente como também aconteceu na Guerra da Coreia e na Guerra do Vietnã, explica, provavelmente, essas derrotas.



[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou Moon over Alabama) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertold Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blog Moon of Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir:

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Assassinatos por drones no Paquistão: “Imran exige bloqueio de suprimentos para a OTAN”

1/11/2013, DAWN.com, Lahore, Paquistão
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sobre Imran Khan, ver também: 20/6/2012, Rússia Today, redecastorphoto em: “Assange entrevista Imran Khan Niazi, candidato à presidência do Paquistão.

Imran Khan, presidente do Pakistan Tehrik-i-Insaf (PTI) 
Lahore. Em resposta a mais um ataque por drones dos EUA contra o Paquistão, no qual morreu o comandante dos Talibã no Paquistão, Hakimullah Mehsud, o presidente do Partido Pakistan Tehrik-i-Insaf (PTI) [Movimento Paquistão pela Justiça], Imran Khan, exigiu, na sexta-feira, que o governo do Paquistão bloqueie o trânsito dos suprimentos que atravessam o país, com destino à OTAN no Afeganistão.

Cinco militantes, entre os quais Abdullah Bahar Mehsud e Tariq Mehsud, ambos altos comandantes e auxiliares próximos do comando central dos Talibã no Paquistão também foram mortos, e outros dois resultaram feridos naquele ataque norte-americano em território do Paquistão.

Em reunião com a imprensa, Imran Khan culpou os EUA, os quais, para ele, estão sabotando todos os esforços para que se construa a paz no Paquistão, com seus repetidos ataques com veículos aéreos armados tripulados à distância – os drones – contra áreas tribais do Paquistão, nas regiões de fronteira com o Afeganistão.

Drones bombardeando o Paquistão
Cada vez que se organizam iniciativas para promover a paz no Paquistão, os drones dos EUA atacam em território paquistanês, e sabotam as iniciativas – disse Khan.

Khan, jogador estrela do críquete no Paquistão, que se tornou líder político e cujo partido foi eleito para o governo da sempre agitada Província Khyber Pakhtunkhwa, no noroeste do Paquistão, disse que seu partido não apenas está encaminhando àquela assembleia provincial, nessa 2ª-feira, um projeto de lei para que a província bloqueie o trânsito de suprimentos para a OTAN, mas que, simultaneamente, o mesmo projeto será encaminhado à Assembleia Nacional.

Khan já dissera na 5ª-feira que seu partido tem meios para cortar a linha de suprimentos da OTAN, e alertou para que suas palavras não fossem ignoradas. A província Khyber Pakhtunkhwa é uma das duas únicas rotas existentes para os suprimentos da OTAN que entram e saem do Paquistão.

Makhdoom Javed Hashmi
O principal líder do Movimento Paquistão pela Justiça, de Imran Khan, Makhdoom Javed Hashmi, presente na ocasião, disse que elementos anti-estado estão conspirando para sabotar o processo de paz. Disse também que até os Talibã estão-se organizando para participar do processo de paz.


O primeiro-ministro do Paquistão disse que seu governo havia sido criticado, por apoiar a paz. O presidente da Assembleia Nacional do Paquistão, Asad Qaiser disse que o governo nacional da Liga Muçulmana do Paquistão-Nawaz [orig. Pakistan Muslim League-Nawaz (PML-N)] demorou tempo demais para iniciar as conversações de paz e disse que apóia Islamabad, para que inicie o diálogo com os Talibã.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Cada dia mais difícil a posição dos EUA no Afeganistão, enquanto EUA-OTAN continuarem a matar civis


13/4/2013, Abdul Haleem, Xinhuanet, Pequim
Traduzido do inglês pelo pessoa l da Vila Vudu

Abdul Haleem
KABUL – A matança de civis inocentes, entre os quais mulheres e crianças, em ataques recentes pela Força Internacional de Assistência à Segurança [orig. International Security Assistance Force (ISAF)] comandada pelos EUA-OTAN, contra insurgentes Talibãs, só faz aumentar os sentimentos antiamericanos entre os afegãos e põe sob risco qualquer possibilidade de assinar-se qualquer acordo bilateral de segurança entre Cabul e Washington.

Nos recentes ataques do dia 6/4, na província de Kunar, forças dos EUA-OTAN assassinaram 11 crianças afegãs e feriram seis mulheres.

O presidente Hamid Karzai denunciou a matança de civis pela coalizão EUA-OTAN e alertou que os repetidos ataques contra civis afegãos pode ter impacto negativo nas relações entre EUA e Afeganistão.

Declaração emitida pelo gabinete da presidência do Afeganistão diz que Karzai fez saber ao presidente dos EUA, Barack Obama de suas graves preocupações com a continuada matança de civis afegãos, e citou especificamente a recente operação militar das forças de EUA-OTAN na província de Kunar.

Karzai (E) e Obama (D)
Karzai disse a Obama na 3ª-feira que a repetição desse tipo de ação cria impedimentos adicionais à assinatura de qualquer acordo bilateral de segurança, pelo qual os EUA esperam conseguir manter presença militar, embora limitada, no Afeganistão, mesmo depois da retirada de todas as tropas estrangeiras, em 2014.

Não há dúvidas de que a matança de civis por tropas da coalizão EUA-OTAN tem impacto adverso na percepção, entre os afegãos, de qual é o objetivo das forças estrangeiras no país. E já está comprometendo a credibilidade de nosso governo, ao qual cabe proteger os cidadãos nessa sempre prolongada guerra ao terror” – disse Pariani Nazari, editor-chefe do jornal afegão Daily Mandegar.

Residentes em Shalton, no distrito de Shigal na província de Kunar, onde as 11 crianças foram mortas, levaram os cadáveres para o centro administrativo do distrito, semana passada. Exigiam que o governo levasse a julgamento os responsáveis pela carnificina.

Mortes de civis pelas forças de EUA-OTAN são fonte de tensão crescente entre Cabul e Washington.

Karzai tem dito em várias ocasiões que a guerra contra terroristas nas vilas afegãs não é abordagem acertada, dado que, segundo o presidente afegão, os verdadeiros esconderijos e santuários dos Talibãs e outros grupos insurgentes armados não estão em território afegão, mas nas áreas de fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. O Paquistão porém negou que haja bases dos Talibã em solo paquistanês.

Aimal Faizy
Em março, o principal porta-voz de Karzai, Aimal Faizy, criticou a guerra ao terror liderada pelos militares de EUA-OTAN no Afeganistão, como “pouco inteligente e sem objetivo claro”; disse também que a maioria dos afegãos querem o fim dos ataques que se fazem como parte daquela “guerra ao terror”.

Ao longo de todo o ano passado, funcionários do Afeganistão e dos EUA tentaram alinhavar um Acordo do Estado das Forças [ing. State of the Forces Agreement, SOFA], até agora sem terem chegado a coisa alguma.

Washington insiste em que o acordo assegure plena imunidade aos militares norte-americanos que permanecerão em território afegão depois de 2014, cláusula que existe, como uma espécie de cláusula padrão, em todos os acordos SOFA que os EUA mantêm com outros países.

Karzai tem dito que a imunidade – que porá os militares dos EUA fora do alcance da lei afegã – é cláusula a ser decidida pela Loya Jirga – a grande assembleia constituída de chefes tribais, personalidades afegãs e servidores públicos.

No início de fevereiro, depois de reclamações de funcionários na província de Wardak, Karzai ordenou a retirada das Forças Especiais dos EUA da província central, decisão recebida com festas pela população local.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O legado macabro dos EUA no Iraque


25/3/2013, Joy Gordon, Foreign Policy In Focus
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Joy Gordon
Quando os EUA, o Reino Unido e a “coalizão de vontades” atacaram o Iraque em março de 2003, milhões protestaram em todo o mundo. Mas a guerra de “choque e pavor” foi só o começo. A subsequente ocupação do Iraque pela Autoridade Provisória da Coalizão comandada pelos EUA reduziu a infraestrutura a ruínas e acabou de levar o país à bancarrota.

Não é só questão de segurança. Embora a violência que converteu o Iraque em pesadelo de sectarismos já esteja bem documentada em inúmeras “retrospectivas” jornalísticas dessa guerra que já dura uma década, poucos são os jornalistas e “especialistas” que cuidam de noticiar, por padrões bem mais objetivos, que os EUA fizeram serviço sujíssimo, de incompetência realmente espetacular, quando lhes coube governar o Iraque invadido e ocupado.

Não que, antes da invasão e ocupação norte-americana, o Iraque estivesse “florescendo”. De 1990 a 2003, o Conselho de Segurança da ONU impusera sanções econômicas ao Iraque, as mais violentas de toda a história da governança global. Mas, daquela vez chegava, pelo menos, com as sanções, também um elaborado sistema de supervisão e prestação de contas que mobilizava o Conselho de Segurança, nove agências da ONU e o próprio secretário-geral.

O sistema tinha muitos defeitos, e os efeitos das sanções sobre o povo iraquiano foram devastadores. Mas o principal problema foi que, quando chegaram as forças norte-americanas de invasão e ocupação, sumiram do Iraque todas as instituições e mecanismos de supervisão internacional.

Sob violenta pressão de Washington, em maio de 2003 o Conselho de Segurança da ONU reconheceu formalmente a ocupação do Iraque pela Autoridade Provisória da Coalizão, pela Resolução n. 1.483. Essa Resolução, dentre outras coisas, dava à Autoridade Provisória da Coalizão controle completo sobre todos os bens e patrimônio do estado iraquiano.

O tacão dos EUA assassinando a população civil do Iraque
Simultaneamente, o Conselho de Segurança da ONU removeu todos os mecanismos e estruturas de monitoramento, fiscalização e cobrança de contas que haviam sido implantados para fiscalizar o governo iraquiano: e nunca mais a ONU fez qualquer relatório sobre a situação humanitária no país. Também se extinguiram as comissões do Conselho de Segurança encarregadas, até ali, de monitorar a ocupação norte-americana.

Previam-se algumas poucas e limitadas auditorias do que tivesse a ver com o uso do dinheiro, mas sempre depois de gasto; mas nenhum mecanismo ou estrutura da ONU cuidaria de supervisionar diretamente os negócios do petróleo. E nenhuma agência de atenção humanitária haveria, encarregada de garantir que o dinheiro iraquiano estivesse sendo consumido em benefício do povo iraniano, mais do que das autoridades da ocupação, das grandes empresas de petróleo e em outras finalidades menos decentes.

Preocupações humanitárias

Em janeiro de 2003, a ONU preparou um plano de trabalho, no qual antecipava o impacto de uma possível guerra no Iraque. Trabalhando ainda sob a hipótese de que a invasão e a ocupação pelos EUA viessem a ter apenas “médio impacto”, a ONU já previa consequências catastróficas, no plano humanitário..

Resultado do uso de urânio empobrecido  pelos EUA nos nascituros iranianos
Dado que a população iraquiana dependia pesadamente do sistema estatal de distribuição de comida (uma das consequências das furiosas sanções internacionais impostas ao país), a ONU previa que, com a derrubada do regime, a própria segurança alimentar da população ficaria sob risco. E, dado que a população já padecia de má nutrição, com grande número de atingidos, a interrupção do sistema estatal de distribuição de alimentos teria consequências rapidamente letais e punha sob risco de morte cerca de 30% das crianças iraquianas com menos de cinco anos.

O mesmo relatório da ONU observava também que, se as usinas de tratamento de esgotos e água fossem atingidas nos ataques, ou se o sistema de distribuição de energia elétrica não pudesse operar, os iraquianos perderiam completamente o acesso a água potável – o que precipitaria o país em ondas de epidemias de doenças causadas por contato com ou ingestão de água não tratada. E se eletricidade, transportes e equipamentos médicos fossem comprometidos nos ataques, o sistema de assistência médica e à saúde perderia até as condições mínimas necessárias para fazer frente às epidemias.

Com a invasão e ocupação norte-americana, aconteceu quase exatamente tudo o que a ONU previra. Relatório da ONU de junho de 2003 observava que os sistemas de água e esgotos que deveriam servir Bagdá e outros governorados no centro e no sul do país estavam “em crise”. Só em Bagdá, o relatório estimava que 40% da rede de distribuição urbana de água sofrera ataques e apresentava danos, o que reduzia a menos da metade a oferta de água potável na cidade, por efeito de vazamento e destruição de tubulações do sistema. E, ainda pior: a ONU relatava que nenhuma das duas usinas de tratamento de esgotos de Bagdá estava operante, o que levava a uma descarga massiva de esgotos sem tratamento diretamente no rio Tigre.

Soldados dos EUA assassinam civis
A situação alimentar era semelhante. A ONU relatou que as plantações e criações de animais estavam em colapso, dados “os saques e a insegurança generalizada, o colapso total de ministérios e agências estatais – únicos agentes provedores de serviços e insumos para aquele tipo de atividade econômica – e dado, também, o fornecimento irregular ou inexistente de energia elétrica”.

Também o sistema de assistência à saúde deteriorara-se já dramaticamente. Menos de 50% da população do Iraque tinha acesso a atendimento médico, em parte pela impossibilidade de as pessoas viajarem, pelos muitos riscos de qualquer deslocamento por estrada. Além disso, a ONU estimava nesse relatório que 75% de todas as instituições de atendimento a doentes do país haviam sido afetadas por saques e pelos bombardeios, no caos que se seguiu ao início da guerra. Em junho de 2003, estava em relativo funcionamento apenas 30-50% da capacidade que havia antes da invasão e ocupação pelos EUA e da guerra. O impacto foi imediato. No início do verão, haviam duplicado os caos de mal-nutrição aguda; havia disenteria epidêmica, e praticamente não havia qualquer tipo de assistência médica ou hospitalar. Em agosto, quando houve pane no sistema elétrico e falta de luz em New York, circulou uma piada em Bagdá: “Tomara que ninguém chame os norte-americanos para consertar a coisa por aqui!”.

A Autoridade Provisória da Coalizão outorgou a responsabilidade pelo socorro humanitário aos militares norte-americanos – não a agências com experiência em graves crises humanitárias – e marginalizou todas as agências da ONU para socorro humanitário. Ao longo dos 14 meses de governo da Autoridade Provisória da Coalizão, a crise humanitária só se agravou. Doenças preveníveis, como disenteria e tipo tornaram-se epidêmicas. A má nutrição aprofundou-se, com número crescente de mortes de mães e recém-nascidos e de crianças pequenas. No total, estima-se em 100,000 o número de “mortes evitáveis” durante os anos de invasão e ocupação norte-americana no Iraque, número muitíssimo superior às taxas de mortalidade que havia durante o governo de Saddam Hussein, mesmo com o país sob fortes sanções internacionais. 

Famílias inteiras assassinadas pelo soldados dos EUA
As prioridades da Autoridade Provisória da Coalizão eram bem evidentes. Depois da invasão, quando os saques e assaltos aconteciam sem qualquer controle, as autoridades da ocupação nada fizeram para proteger as usinas de tratamento de água e esgotos, nem os hospitais, sequer os hospitais pediátricos. Mas deram, isso sim, integral proteção aos prédios onde funcionavam os ministérios do petróleo; contrataram empresa norte-americana para apagar incêndios em poços de petróleo; e garantiram ampla e reforçada proteção às instalações para extração de petróleo.

Corrupção

Como se não bastasse, a Autoridade Provisória da Coalizão comandada pelos EUA sempre esteve profundamente corrompida. Grande parte do que caberia ao Iraque receber, das vendas de petróleos e de outras fontes, foi entregue, sob contrato comercial a empresas dos EUA. Dos contratos de mais de $5 bilhões, 74% foram passados a empresas norte-americanas; o restante foi todo, praticamente, a empresas de países aliados dos EUA. Apenas 2% foram passados a empresas iraquianas.

Durante os anos de ocupação norte-americana no Iraque, quantidades imensas de dinheiro simplesmente desapareceram. Kellogg, Brown & Root (KBR), empresa subsidiária da Halliburton, recebeu 60% dos contratos pagos com fundos iraquianos, apesar de repetidamente denunciados por auditores, por déficit de seriedade e competência comprovadas. Nas últimas seis semanas da ocupação norte-americana no Iraque, os EUA embarcaram $5 bilhões de fundos iraquianos, em dinheiro, para dentro do Iraque, para serem gastos antes de que o novo governo de iraquianos tomasse posse. Relatório de auditor contratado indicavam que os fundos iraquianos repatriados eram sistematicamente partilhados ilegalmente em funcionários da Autoridade Provisória da Coalizão:

“Uma empresa contratada recebeu pagamento de $2 milhões, em notas de dinheiro amarradas em pequenos pacotes, metidos num saco de papel pardo” – disse um dos auditores em relatório oficial apresentado à Comissão de Supervisão e Reforma do Governo, do Senado dos EUA, em 2007: “Funcionário do governo dos EUA recebeu $6,75 milhões em dinheiro, com ordens para gastar em uma semana, antes de o governo iraquiano assumir o controle dos fundos do país”.


Os funcionários dos EUA, ao que já se sabe, faziam vistas grossas para o desvio de fundos, cuja guarda era responsabilidade deles, como força de ocupação. Numa das operações, a Autoridade Provisória da Coalizão controlada pelos EUA transferiu cerca de $8,8 bilhões de dinheiro iraquiano, sem qualquer documentação sobre como foi gasto o dinheiro. Questionado sobre como o dinheiro havia sido gasto, o almirante David Oliver, vice-ministro da Autoridade Provisória da Coalizão encarregado de questões financeiras, respondeu que “não tenho ideia” de como o dinheiro foi gasto; e acrescentou que a informação não lhe parecia importante. “Bilhões de dólares deles?” – perguntou ao interlocutor. – “Que diferença fariam?”

Afinal de contas, nada disso deve nos surpreender muito – a corrupção, a indiferença às necessidades humanas, a obsessão, única, com controlar o petróleo iraquiano. Tudo podia ser previsto a partir do instante em que o Conselho de Segurança da ONU, sob terrível pressão dos EUA, aprovou a Resolução n. 1.483.

No movimento de remover sistematicamente todas as estruturas e mecanismos de supervisão dos gastos e das ações do governo-fantoche que impuseram ao Iraque, os EUA e seus aliados deram o passo inaugural do que seria assalto incontrolado à riqueza do Iraque. 

Os EUA e aliados autorizaram-se, eles mesmos, a absolutamente não tomar conhecimento dos padecimentos que infligiam ao povo iraquiano e a saqueá-lo irrestritamente.

Dez anos depois de iniciada a guerra, o governo-desastre da Autoridade Provisória da Coalizão e os EUA ainda insistem em não ver a descida do Iraque aos infernos da violência mais ensandecida. A violência também é legado da invasão e ocupação norte-americanas.