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sábado, 3 de janeiro de 2015

Pepe Escobar: 2015 terá a ver com Irã, China e Rússia

31/12/2014, [*] Pepe EscobarSputnik
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Integração Irã - Rússia - China
PEQUIM, 31/12 – Apertem os cintos. 2015 virá como redemoinho que porá China, Rússia e Irã contra o que tenho chamado de Empire of Chaos [Império do Caos].

Assim sendo, sim – tudo terá a ver com novos movimentos na direção da integração da Eurásia, com os EUA progressivamente empurrados para fora da Eurásia. Veremos um complexo intercurso geoestratégico, progressivamente minando a hegemonia do dólar dos EUA como moeda de reserva e, principalmente, do petrodólar.

Por maiores que sejam os desafios que os chineses enfrentam, tudo em Pequim indica fortemente sinais indiscutíveis de superpotência autônoma, autoconfiante, já plenamente desabrochada. O presidente Xi Jinping e os líderes atuais continuarão a investir pesadamente na urbanização e na luta contra a corrupção, incluindo os mais altos escalões do Partido Comunista da China (PCC). Internacionalmente, os chineses acelerarão o movimento na direção das novas “Rotas da Seda” – por terra e por mar – que coroará a estratégia chinesa máster, de longo prazo, de unificar a Eurásia com comércio e negócios.

Os preços globais do petróleo continuarão, ao que tudo indica, baixos. E estão abertas as apostas sobre se haverá ou não acordo nuclear entre o Irã e o P5+1 ainda nesse verão. Se as sanções (de fato, é guerra econômica) contra o Irã forem mantidas e continuarem a ferir seriamente a economia do país, a reação de Teerã será firme e com certeza incluirá integração ainda maior com a Ásia, não com o “ocidente”.

Washington sabe perfeitamente que não é possível chegar a acordo amplo com o Irã sem ajuda da Rússia. E seria o único – repito: o único – sucesso da política exterior do governo Obama. Um retorno à histeria de “bombardeiem o Irã” só agradaria aos proverbiais suspeitos neoconservadores de sempre. Fato é que, não por acaso, os dois países, Irã e Rússia são hoje alvos de sanções ocidentais. Não importa como foi planejado, fato é que o colapso financeiro/estratégico dos preços do petróleo é ataque direto contra (e contra quem seria?) Irã e Rússia.

A tal guerra derivada

Examinemos alguns fundamentos da economia russa: a dívida pública do governo Putin mal alcança 13,4% do PIB. O déficit em orçamento em relação ao PIB é de apenas 0,5%. Se assumirmos um PIB norte-americano de US$16,8 trilhões (número de 2013), o déficit em orçamento dos EUA alcança 4% do PIB, versus 0,5% para a Rússia. O Fed é, de fato, corporação privada que pertence a bancos privados regionais dos EUA, embora se faça passar por instituição do estado. A dívida dos EUA alcançou, no ano fiscal de 2014, estonteantes 74% do PIB. Na Rússia, é de apenas 13,4%.

Variação do preço do Brent e do Rublo até 12/2014
A declaração de guerra econômica pelos EUA e pela União Europeia contra a Rússia – via ataque ao rublo e ataque derivado ao petróleo – foi essencialmente ataque de derivativos. Em teoria, os derivativos podem ser multiplicados ao infinito. Operadores de derivativos atacaram simultaneamente o rublo e os preços do petróleo, para destruir a economia russa. Problema é que a economia da Rússia é mais firmemente financiada que a economia dos EUA.

Considerando que o movimento de ataque foi concebido como um xeque-mate, a estratégia de defesa de Moscou não foi tão ruim quanto os EUA haviam previsto que seria. No front de energia, o problema continua a ser problema do ocidente, não da Rússia. Se a União Europeia não comprar o que a Gazprom tem para vender, a União Europeia desaba.

O erro chave de Moscou foi permitir que a indústria doméstica fosse financiada do exterior, dívida denominada em dólares. É coisa como uma dívida-armadilha-monstro, que pode ser facilmente manipulada pelo ocidente. O primeiro passo em Moscou teria de ter sido supervisionar de perto os próprios bancos. Empresas russas teriam de tomar empréstimos domésticos e vender produtos no exterior. Moscou também teria de considerar a possibilidade de implementar um sistema de controle da moeda, de modo que a taxa básica de juros possa ser derrubada rapidamente.

E não esqueçamos que a Rússia sempre pode declarar uma moratória de dívida e juros, coisa como mais de US$ 600 bilhões. Sacudiria todo o sistema bancário mundial, até o âmago. Coisa como indisfarçada “mensagem” para forçar a guerra econômica movida por EUA-EU a dissolver-se.

A Rússia não carece de nenhuma matéria-prima que tenha de ser importada. A Rússia é capaz de facilmente fazer a engenharia reversa de virtualmente toda e qualquer tecnologia importada de que precise. Mais importante que tudo, a Rússia pode gerar – da venda de matérias-primas – crédito suficiente em EUA-dólares ou em euros. Pode acontecer de a venda da riqueza energética russa declinar – ou de sofisticados equipamentos militares. Mas sempre será gerada a mesma quantidade de rublos – porque o rublo também declinou.

Substituição de importações traz nova vida à indústria alimentícia da Rússia
Substituir importações por produto doméstico russo faz total sentido. Haverá uma inevitável fase de “ajuste” – mas não demorará muito. Fábricas de carros alemães, por exemplo, já não podem vender seus carros na Rússia, por causa da queda do rublo. Significa que terão de trazer as fábricas para dentro da Rússia. Se não se “relocalizarem”, a Ásia inteira, da Coreia do Sul até a China – os varrerá para fora do mercado.

Urso e dragão à espreita

A declaração de guerra econômica da União Europeia contra a Rússia, essa, não faz sentido algum. A Rússia controla, diretamente ou indiretamente, a maior parte das reservas de petróleo e gás natural que há entre Rússia e China: praticamente 25% da oferta mundial. Tudo sugere que o Oriente Médio continuará em total confusão. A África é instável. A União Europeia está fazendo tudo que pode para se separar de seu mais estável fornecedor de hidrocarbonetos, facilitando o processo para que Moscou redirecione sua energia para a China e o resto da Ásia. É presente caído dos céus para Pequim – que minimiza o perigo de a Marinha dos EUA vir com “contenções” por alto mar.

Ainda assim, um axioma jamais dito em Pequim é que os chineses permanecem extremamente preocupados com o risco de o Império do Caos perder cada vez mais e mais o controle, e pôr-se a ditar os termos mais tempestuosos na relação entre União Europeia e Rússia. Resumo dessa ópera é que Pequim jamais, em nenhum caso, se deixará prender numa posição na qual os EUA possam interferir nas importações de energia para a China. Foi exatamente o que aconteceu com o Japão, em julho de 1941, quando os EUA declararam guerra ao impor um embargo ao petróleo, que cortou 92% das importações japonesas de petróleo.

Todos sabem que a exigência chave, que gerou a espetacular avançada no poder industrial chinês, foi que os fabricantes teriam de produzir na China. Se a Rússia fizer o mesmo, sua economia estará crescendo acima de 5% ao ano, em pouco tempo. Pode até crescer mais, se o crédito bancário for necessariamente combinado a investimento produtivo.

Rússia - Reservas em ouro - 11/2014
(clique na imagem para aumentar)
China - Reservas em ouro - 11/2014
(clique na imagem para aumentar)
Agora imaginem Rússia e China investindo conjuntamente numa nova união monetária apoiada em ouro, petróleo e recursos naturais, como alternativa crucial ao modelo fracassado de “democracia & dívida” que os Masters of the Universe de Wall Street, o cartel ocidental dos bancos centrais e políticos neoliberais meteram goela abaixo do ocidente. Poderiam mostrar ao Sul Global, para começar, que financiar a prosperidade e melhorar padrões de vida acorrentando gerações futuras aos grilhões da dívida nunca foi pensado como “método” para dar certo.

Até lá, haverá sempre uma tempestade ameaçando a própria vida de cada um de nós – hoje e amanhã. O combo Masters of the Universe/Washington não desistirá de sua estratégia de fazer da Rússia estado pária, separado do comércio, proibido de transferir fundos, alijado dos mercados de banking e de crédito ocidentais e, nessas condições, perfeito para ser submetido a “mudança de regime”.

Mais adiante, se tudo sair conforme o planejado, eles mudarão de alvo e tentarão atacar (e quem mais seria?!) a China. Pequim sabe disso. Enquanto isso, esperem algumas bombas bombásticas, para abalar as fundações da União Europeia. O tempo está acabando – mas para a União Europeia, não para a Rússia. E, seja como for, a tendência principal não será mudada: o Império do Caos está, lenta mas firmemente, sendo ejetado para fora da Eurásia.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, que acaba de ser publicado pela Nimble Books.


segunda-feira, 30 de junho de 2014

Mais uma vitória de Putin − Gasoduto “Ramo Sul” será construído com a Áustria

25/6/2014, [*] Tyler Durden, ZeroHedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entradas e saídas de gasodutos na Ucrânia
Nunca foi segredo que o prêmio para quem controle a Ucrânia é a posse da vasta infraestrutura do gasoduto que parte da Rússia e chega à Europa. Mas, dado que todo o gás pertence, em primeiro lugar, à [empresa russa] Gazprom, realmente não importa se Kiev tinha posse do gás que enchiam os dutos que levavam o gás para a Europa; nem se, como é hoje o caso, a Ucrânia seria apenas um duto de transferência do gás totalmente russo, entregue a países europeus, sem que gás algum permanecesse na Ucrânia, hoje destroçada pela guerra civil.

Afinal de contas, a Ucrânia absolutamente não consegue mais comprar gás russo, porque não tem crédito nem dinheiro para pagar adiantado; mas, se roubar gás destinado à Alemanha e outros países, a Ucrânia estará simplesmente antagonizando seus novos “melhores amigos” na OTAN, os quais são, todos, clientes da [russa] Gazprom.

Não, o gasoduto que emergiu no papel de estrela principal no conflito na Ucrânia nada tem a ver com a Ucrânia, mas é gasoduto que percorre várias centenas de quilômetros do sul da Ucrânia – o chamado Projeto Ramo Sul (orig. South Stream Project) – que deixa o litoral sul da Crimeia no Mar Negro russo, cruza o Mar Negro e atravessa Bulgária, Sérvia, Hungria, e termina na central de distribuição de gás em Baumgarten, Áustria, de onde partem gasodutos de distribuição para toda a Europa Central, principalmente para a Alemanha.

O projeto, de 2007, foi concebido para não passar pela Ucrânia e servir como alternativa para o agora congelado gasoduto Nabucco apoiado por EUA e Europa; e recolheria o gás do Cáspio (principalmente do Azerbaijão e do Turcomenistão) e atravessaria a Turquia, antes de emergir na Bulgária, de onde seguiria a via europeia do Ramo Sul até a central austríaca de distribuição e dali adiante. Mapa a seguir:

Oleogasodutos que abastecem a Europa
(clique na imagem para aumentar)

Não surpreendentemente, foi a central de trânsito do Ramo Sul, a Bulgária, que começou a criar problemas para Putin, apesar de Putin ter conseguido “atropelar” o projeto Nabucco (quando, em junho de 2013, o presidente da gigante austríaca de energia OMV, Gerhard Roiss, anunciou que o projeto estava “superado”, depois que o consórcio turco Shah Deniz preferiu o Gasoduto Trans-Adriático (mapa no fim do parágrafo) ao Nabucco, como rota de exportação para suprir a Itália, em vez da Áustria).

Oleogasoduto Trans Adriático
(clique na imagem para aumentar)

Lembrem que aconteceu em janeiro, quatro meses antes de o governo ucraniano ser derrubado: o primeiro-ministro da Bulgária – país que mantém relação especialíssima de amor & ódio com a Rússia, e relação na qual os EUA adorariam injetar mais ódio – Plamen Oresharski, surpreendentemente ordenou a suspensão dos trabalhos no gasoduto Ramo Sul, por recomendação da união europeia. A decisão foi anunciada depois de conversações entre Oresharski e senadores norte-americanos.

Há agora um pedido, da Comissão Europeia, depois do qual suspendemos os trabalhos que estavam em andamento. Eu mesmo ordenei a suspensão “Outros procedimentos serão decididos depois de novas consultas com Bruxelas – Oresharski disse a jornalistas, depois de conversar com John McCain, Chris Murphy e Ron Johnson durante visita que fizeram à Bulgária.

Naquela ocasião, McCain, comentando a situação, disse que “a Bulgária deve resolver os problemas do [gasoduto] Ramo Sul, em colaboração com colegas europeus”. E acrescentou que na atual situação, queriam menos envolvimento russo.

Os EUA decidiram que querem pôr-se em posição de excluir todos os que querem excluir países nos quais os EUA tenham algum interesse; não há absolutamente nenhuma racionalidade econômica. Os europeus são muito pragmáticos, estão procurando fontes de energia – recursos de energia limpa, que a Rússia pode fornecer. Mas o problema com o [gasoduto] Ramo Sul é que ele não se encaixa na política da situação, disse Ben Aris, editor de Business New Europa, à RT.

Foi também em janeiro, quando autoridades da União Europeia (UE) ordenaram à Bulgária que suspendesse a construção de sua conexão com o gasoduto, planejada para transportar gás natural russo através do Mar Negro até a Bulgária e dali em diante para o leste da Europa. Bruxelas quer o projeto congelado, à espera de uma decisão sobre se violaria as regras sobre concorrência na UE para um único mercado de energia. Entende que o Ramo Sul não respeita as regras que proíbem produtores de controlarem também o acesso aos dutos.

Aí, claro, está a questão, porque, como a Europa tantas vezes teve de aprender pela via difícil, sua super dependência da Rússia para a produção e para o trânsito do gás implica que não tem qualquer meio para pressionar o Kremlin – o que os recentes eventos na Ucrânia só fizeram confirmar.

Projeto Ramo Sul (South Stream) em azul
Projeto (falido) Nabucco (em vermelho)
Agora, Putin apenas cimentou a realidade que não tem tanto a ver com quem controla o trânsito da energia pelos dutos, mas com quem controla a Europa: EUA ou Rússia. “Os EUA opõem-se ao projeto do gasoduto russo Ramo Sul, porque querem fornecer gás à Europa, como únicos fornecedores, eles mesmos”, disse o Presidente Putin, na 3ª-feira (24/6/2014). Chamou a situação de “mera disputa concorrencial”.

[Os EUA] têm feito de tudo para quebrar esse contrato. Nada há aqui de excepcional. É mera disputa concorrencial. Nessa disputa, usam-se também instrumentos políticos – disse o presidente da Rússia, depois de conversar com presidente da Áustria, Heinz Fischer, em Viena.

Estamos em conversações com nossos parceiros num contrato comercial, não com estranhos ou terceiros. Nossos amigos dos EUA estão infelizes por causa do Ramo Sul... Bem... Também ficaram infelizes em 1962, quando o projeto “gás em troca de gasodutos”, com a Alemanha, estava começando. Agora, estão outra vez infelizes. Mas nada mudou, exceto que os EUA querem fornecer gás à Europa, como únicos fornecedores, eles mesmos. Se acontecesse como os EUA prefeririam, o gás norte-americano não seria mais barato que o gás russo – gás de gasoduto é sempre mais barato que gás liquefeito – disse Putin.

O que, por sua vez, nos leva ao auge da disputa política em torno do Ramo Sul, quando, hoje cedo, em mais um tento a favor do Kremlin, a Áustria, um dos países mais estáveis e respeitados na Europa, com crédito padrão AAA, deu a aprovação final ao projeto do tal “controverso” projeto de gasoduto russo. A aprovação é claro sinal de desafio à União Europeia. É, simultaneamente, aceno de boas vindas ao presidente Putin da Rússia em sua chegada, agora, à Áustria – país neutro e cliente consumidor, há muito tempo, da energia que Moscou lhe fornece.

Como a Agência Reuters noticiou:

(...) os principais executivos da Gazprom russa e da OMV austríaca selaram o acordo para construir um trecho do gasoduto Ramo Sul até a Áustria, país que firmemente defendeu o projeto ante a oposição que lhe fez a Comissão Europeia.

Oleogasodutos "Santo Graal" - Rússia e China
(clique na imagem para aumentar)
Em outras palavras, apenas um mês depois de Putin ter assinado o contrato “Santo Graal” com Pequim,  ele não apenas conseguiu formalizar essa conquista russa em pleno território europeu, com mais um gasoduto – e gasoduto que absolutamente nada tem a ver com a Ucrânia (o que é importante por várias razões, mas, sobretudo, porque é o que se pode chamar de um “Plano B”), mas também obteve massiva vitória política, conseguindo cavar uma fissura no coração da Eurozona, com a Áustria desafiando abertamente os seus pares europeus e se posicionando ao lado de Putin.

Desnecessário dizer, a Comissão Europeia está furiosíssima, aos gritos de que o Ramo Sul descumpriria normas e leis que protegem a livre concorrência na UE, porque não garantiria acesso também a terceiros. O gasoduto Ramo Sul, como dito acima, também contraria a política da UE de diversificar fontes, para reduzir o muito que a Europa depende da Rússia.

Mas o presidente da OMV, Gerhard Roiss, em surpreendente momento de realpolitik clarividente, só fez, de fato, reconhecer que, no que tenha a ver com o futuro da energia na Europa, Putin é mais importante que Mario Draghi.

Numa conferência de imprensa depois de assinar o contrato, Roiss disse:

A Europa precisa do gás russo. A Europa mais precisará de gás russo no futuro, porque a produção de gás na Europa já está caindo (...) Creio que a União Europeia também sabe disso.

É claro que sabem disso. A questão é que não querem admitir, porque a admissão sela o destino da Europa como estado-vassalo da Rússia, em matéria de energia. Como sonho “cheirado” em “gases” de má qualidade (perdoem o trocadilho), a alternativa seria a Europa receber gás natural liquefeito dos EUA.

Sobre isso, ninguém menos que o presidente da Cheniere Energy, Charif Souki disse em abril, quando perguntado se o terminal da Cheniere “conseguiria salvar” os países do leste europeu da dependência da Rússia, que:  

(...) é lisonjeiro que alguém suponha que sejamos capazes de tal coisa, mas é total loucura. É tal nonsense, que não acredito que alguém realmente acredite nisso.  

É claro que não acreditam, mas tudo é política. E na política sempre se trata de adquirir mais poder, ou de se submeter ao poder de outros. Hoje a Áustria adquiriu mais poder; ao desertar do campo de seus pares europeus pode ter iniciado um processo que leve ao racha da própria Eurozona; e com Vladimir Putin a manobrar o cordame.


O projeto pôs a indústria europeia contra os políticos da UE e dividiu os apoiadores do Ramo Sul gasoduto que se estende da Alemanha por toda a Europa Central e Sudeste da Europa pesadamente dependentes da Rússia dos demais estados-membros da UE.

Em visita de trabalho de um dia a Viena, que mereceu críticas na UE, Putin falou dos laços comerciais muito estreitos que ligam a Rússia à Áustria, o primeiro país europeu que assinou, em 1968, acordos de longo termo de fornecimento de gás com Moscou.

Disse que a Áustria é parceiro “importante e confiável” para a Rússia, que é o terceiro maior parceiro comercial da Áustria fora da UE depois de EUA e Suíça.

O presidente austríaco Heinz Fischer também defendeu o projeto do [gasoduto] Ramo Sul: “Ninguém conseguiu me explicar – nem consigo explicar ao povo austríaco – por que um gasoduto que corta a União Europeia e vários países-membros da OTAN deveria ser proibido de andar por 50 km em território austríaco”.

Ah! Para registrar: o presidente da Áustria disse também que é “contra sanções contra Moscou” (para o caso de a Europa tentar aprovar por unanimidade sanções contra a Rússia a propósito da Ucrânia).

E por falar de Ucrânia, as coisas ficaram realmente bizarras em Viena, quando o presidente da Câmara de Comércio da Áustria relembrou Putin de que parte da Ucrânia pertencia à Áustria em 1914. Ao que Putin respondeu de bate-pronto “Mas... O que você está querendo dizer? Diga logo: qual é sua proposta?” – o que levou às gargalhadas a elite comercial presente. Mais um pouco, sacomé, Putin estará contando piadas, na Europa, sobre a anexação da Hungria.

E aí está, para que todos vejam, no caso de alguém ainda não ter percebido: o que está acontecendo na Ucrânia não passa de piada para os corretores do poder na Europa, a “elite comercial”. A decisão já está tomada há muito tempo: Putin não encontrará nenhuma objeção vinda dessa dita “elite”, faça o que fizer em relação ao tal país irrelevante e devastado pela guerra. Exceto, claro, as objeções “televisivas” da CIA e dos EUA, no teatrinho montado para consumo do mínimo denominador comum.

50% do projeto conjunto Ramo Sul-Áustria pertencerá à Gazprom – maior produtora russa de gás – e 50% pertencerá ao Grupo OMV da Áustria, maior empresa austríaca de petróleo e gás.

O presidente da Áustria disse que, se alguém criticar a Áustria, terá também de criticar outros países-membros [da UE] e suas empresas.

Espero que nunca chegue o momento em que um país como a Áustria não possa manter conversações com país-parceiro que tenha intensas relações conosco e não esteja em posição de negociar com a EU – disse o presidente austríaco.

Sabemos que diálogo desse tipo não contradiz qualquer decisão da UE.

Quis dizer com isso que ninguém, na Europa, pode meter-se a dizer a Putin o que fazer.

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Alexei Miller (Gazprom) e Gerhard Roiss (OMV) (E) assinam contrato de construção 
do Projeto Ramo Sul (South Stream) em 24/6/2014
Quanto às questões logísticas do gasoduto, agora que o acordo já está assinado, serão resolvidas a seu tempo: o presidente da Gazprom, Alexei Miller disse que está em contato semanal, quando não diário, com o Comissário Europeu de Energia, Guenther Oettinger, cuidando da aprovação do projeto do Ramo Sul.

Resolvemos os problemas à medida que surgem; e agora o problema de construir o gasoduto está a um passo de ser solucionado – disse Miller.

O acordo do gasoduto não trata da questão do acesso de terceiros, o que a lei da União Europeia exige, para impedir que o proprietário de uma fonte de energia monopolize seus canais de distribuição. Roiss, da OMV, disse que a questão tem de ser negociada com Bruxelas. Roiss disse que:

(...) a parte austríaca do gasoduto, planejada para ser construída em 2016 e começar a entregar gás no início de 2017, será construída em perfeito acordo com a lei europeia. (...)

**********

Obviamente... Putin quer dividir a União Europeia. Nada de novo. É o que os russos sempre fazem, quando estão encurralados – disse o ministro de Relações Exteriores da Suécia Carl Bildt em entrevista à televisão, na 2ª-feira (23/6/2014).

Bem, bem, Mr. Bildt... a Rússia ainda consegue semear muita discórdia na União Europeia, é claro, se o país mais estável do bloco acaba de alinhar-se ao lado de Putin e diz a todos os próprios “parceiros” europeus, Merkel e Cameron incluídos, um grande “fodam-se”. Quanto à sua avaliação completamente errada de quem está “encurralado”, deixemos-prá-lá: afinal, como outro político europeu de destaque “no bloco”, Jean-Claude Juncker, já nos explicou, quando a coisa fica realmente séria “no bloco”, “o bloco” tem de mentir.
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[*] Tyler Durden é o apelido de numerosos blogueiros que comentam no Zero Hedge. O nome foi copiado de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta).

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Pepe Escobar: “Mursi distribui cartões de visita”


31/8/2012, Pepe EscobarAsia Times Online  - Blog Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Pepe Escobar
Melhor você não fazer graças com o Irmão Muçulmano Mursi.

Saído diretamente da China “comunista” – onde foi recebido com tapete vermelho pelo presidente Hu Jintao e pelo vice-presidente Xi Jinping – Mursi do Egito aterrissou em terras do “Irã-do-mal” como verdadeiro líder do mundo árabe. [1]

Imagine pesquisa feita em Tampa, Florida, com delegados da Convenção Republicana bajuladores do sinistro duo Mitt Romney-Paul Ryan, candidatos. As chances são de Mursi ficar abaixo de Hitler, nas preferências (Oh, não... abaixo de Hitler já está Saddam. Talvez Osama. Ou, quem sabe, Ahmadinejad...).

De Tampa para Teerã. A mais recente foto da atual divisão geopolítica. De um lado, a massa dos 1% clamando por sangue, seja sangue de Barack Obama ou de bandeja de muçulmanos sortidos. De outro lado, o grosso da verdadeira “comunidade internacional”, praticamente todo o Sul Global (incluindo observadores como China, Brasil, Argentina e México) que se recusa a curvar-se ante os diktats imperiais militares/financeiros. Reafirmando suas impecáveis credenciais jornalísticas, a imprensa-empresa dos EUA dá de mão, e desqualifica tudo: não passa de “baboseira terceiro-mundista”.

Seja como for, a notícia é que o Egito voltou. A segunda notícia é que o eixo Washington-Telavive está apoplético.

Mohamed Mursi
É possível que Mursi pareça estar, como o egípcio do provérbio na imaginação popular, andando de lado. De fato, não para de avançar, nem por um segundo. A essa altura, já é evidente que a nova política externa do Egito está focada em repor o Egito, historicamente o centro intelectual do mundo árabe, na posição que lhe compete, de liderança – e que lhe foi usurpada pelos bárbaros sauditas milionários do petróleo, nas décadas durante as quais o Egito não passou de lava-penicos servil, dos desígnios geopolíticos de Washington.

Longe vão (bem longe) os dias – mais de 30 anos! – quando Teerã rompeu relações com o Cairo, quando o Egito assinou os acordos de Camp David. O fato de Mursi ter ido à Conferência dos Não Alinhados em Teerã pode não indicar reatamento pleno de relações diplomáticas, como anda explicando o porta-voz de Mursi, Yasser Ali. Mas é golpe diplomático com magnitude de terremoto.

Começa o novo grande jogo

Indispensável uma rápida recapitulação. A primeira viagem crucial de Mursi presidente foi à Arábia Saudita, para a reunião da Organização da Conferência Islâmica (OCI), em Meca. A Casa de Saud olha a Fraternidade Muçulmana com extrema desconfiança, para dizer o mínimo. Imediatamente depois, Mursi recebeu visita pessoal do Emir do Qatar, que levava um cheque de US$2 bilhões, sem cláusulas de reciprocidade. E Mursi, na sequência, mandou passear o velho líder do orwelliano Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA).
Fraternidade Muçulmana

No entretempo, Mursi já havia lançado o plano egípcio para por fim à interminável tragédia síria: um grupo de contato em que se reúnam Egito, Irã, Turquia e Arábia Saudita. Nenhuma solução síria será jamais alcançada sem esses atores estrangeiros chaves – com o Egito tendo tomado o cuidado de se autoinstalar como mediador entre os interesses de Irã e de Turquia/sauditas (que são praticamente os mesmos: em 2008, a Turquia firmou acordo estratégico, político, econômico e de segurança com o CCG).

Num único movimento, Mursi cortou a cabeça da falsa serpente que há anos estava sendo vendida a Washington pelo rei de Playstation da Jordânia e pela Casa de Saud, segundo os quais um “Crescente Xiita do Mal”, que iria do Irã ao Líbano via Iraque e Síria, estaria minando a “estabilidade” do Oriente Médio.

O que o rei Abdullah da Arábia Saudita e o Abdullah mais jovem da Jordânia temem, de verdade, é a agitação e a fúria de suas próprias populações (para nem citar, nem de longe, qualquer ideia de democracia). Então é hora de culpar o xiismo rampante por tudo que aconteça, dado que Washington é suficientemente otária – ou esperta – para comprar a tese.

O mito do “Crescente Xiita” pode ser desmascarado de vários modos. Eis um deles – em cena de que fui testemunha ocular, ao vivo, por bom tempo, em meados dos anos 2000s. Teerã sabe que a maioria do poderoso clericato iraquiano é totalmente contrário ao conceito khomeinista de República Islâmica. Não surpreende que Teerã ande tão preocupada com o renascimento de Najaf, no Iraque, como principal cidade santa do Islã Xiita, em detrimento de Qom, no Irã.

Washington compra essa propaganda porque está bem exatamente no coração do Novo Grande Jogo. Seja qual for o governo de plantão, de Bush a Obama, e adiante, uma obsessão chave de Washington é neutralizar o que é visto como um eixo xiita do Líbano, via Síria e Iraque, passando pelo Irã e direto até o Afeganistão.

Mera espiada no mapa diz-nos que esse eixo está no centro do vastíssimo deslocamento militar dos EUA na Ásia – de frente para China e Rússia. Obviamente, a melhor inteligência em Pequim e Moscou já o identificou há anos.

Russos e chineses veem como o Pentágono “administra” – indiretamente – grande parte das reservas de petróleo da região, incluindo o nordeste xiita da Arábia Saudita. E veem como o Irã – centro de gravidade de toda a região – só pode ser a absoluta obsessão de Washington. A conversa “nuclear” não passa de pretexto, de fato o único disponível no mercado. Em síntese, não é questão de destruir o Irã, mas de subjugá-lo e reduzi-lo à condição de aliado dócil.

Ban Ki-Moon, Ahmadinejad e Mursi na Conferência de Teerã
Nesse jogo barra pesadíssima de poder, entra o Irmão Mursi, jogando uma mão de cartas com a rapidez fulminante de um crupiê empregado, em Macau, de Sheldon Adelson. Cartada que poderia ter exigido meses, talvez anos – o descarte da velha liderança do CSFA do Egito; o Qatar privilegiado, em detrimento da Arábia Saudita; uma visita presidencial a Teerã; o Egito voltando ao centro do palco como líder do mundo árabe – foi completada em apenas dois meses.

Claro que tudo depende de como se desenvolvam as relações entre Egito e Irã, e de se o Qatar – e mesmo o Irã – serão capazes de ajudar a Fraternidade Muçulmana a impedir o colapso do Egito (falta dinheiro para tudo: o déficit anual é de $36 bilhões; quase metade da população é analfabeta; e o país importa metade de tudo que come).

Levem-me de volta a Camp David

O problema imediato com o grupo de contato do Egito para a Síria é que a Turquia – em mais uma instância de sua política externa espetacularmente contraproducente – decidiu boicotar a Conferência do Movimento dos Não Alinhados. Nem isso deteve o Egito, que propôs acrescentar Iraque e Argélia ao grupo de contato. [2]

E entra em cena Teerã, com mais uma proposta diplomática “de amplo espectro”, segundo o Ministério de Relações Exteriores: uma troika de Não Alinhados – Egito, Irã e Venezuela, plus Iraque e Líbano, vizinhos da Síria. Quer dizer: todos querem conversar – exceto, dadas as evidências, a Turquia. A Rússia apoia plenamente a proposta de Teerã.

Aliatolá Ali Khamenei, Supremo Líder do Irã
E bem quando a cobertura da imprensa-empresa dos EUA lambuza-se com os discursos de ódio da convenção de milionários em Tampa, em Teerã, no “isolado” Irã, o Supremo Líder, Aiatolá Khamenei recebe o secretário-geral da ONU Ban Ki-moon, e conclama a ONU a trabalhar a favor de um Oriente Médio sem armas nucleares. [3]

Não é precisamente atitude de algum “novo Hitler” que deseje a bomba atômica, como ainda tentava repetir, ontem, em Israel, o duo Bibi-Barak, inventadores de guerras. Mais parece, com certeza, denúncia vinda de um sul global muito popular, da hipocrisia cósmica de Washington, que espertamente ignora o arsenal nuclear de Israel, enquanto tenta apertar o Irã e seu programa nuclear.

Desnecessário dizer que nada disso foi notícia na imprensa-empresa norte-americana.

Simultaneamente, todos os olhos do sul global estão postos em Mursi. Pelo andar da carruagem, não é fantasioso imaginar que a Fraternidade Muçulmana, mais dia menos dia, jogue a carta de Camp David. Nesse caso, deve-se esperar que Washington entre em modo balístico – e talvez viaje no tempo, de volta à América Latina dos anos 1970s, e tente (mais um) golpe militar.

Em resumo, se a Fraternidade Muçulmana realmente articular uma política externa independente nos próximos meses, que dê pelo menos um sinal de que Camp David tenha de ser renegociado (movimento que terá o apoio de 90% dos egípcios), a única saída que sobrará para o duo Bibi-Barak, inventadores de guerras, será cair na real.

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Notas de rodapé:
[1]  30/8/2012, China Daily, em: Chinese VP, Egypt president vow to boost ties.
[2]  28/8/2012, Al-Akhbar, em: The Egyptian Initiative: Banking on Syrian Fatigue.
[3]  29/8/2012, PressTV, em: Leader urges UN to help create nuclear-free Middle East.