Mostrando postagens com marcador Clube de Bilderberg. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Clube de Bilderberg. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Pepe Escobar: Sonhos norte-americanos, do G1 a Bilderberg


11/6/2015, [*] Pepe Escobar, Russia Today – RT
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Obama discursa na reunião de Kruen, Alemanha
Qual a conexão entre a reunião do G7 na Alemanha, a visita do presidente Putin à Itália, o clube Bilderberg reunido na Áustria e as negociações do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT) [Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP)] – o acordo de livre comércio entre EUA e União Europeia – em Washington?
Comecemos pelo G7 nos Alpes da Bavária – de fato, um G1 cercado de uma leva de “parceiros juniores” – com o Presidente Barack Obama a regozijar-se nesse festim neoconservador induzido – arregimentando a União Europeia para ampliar sanções contra a Rússia, mesmo que provavelmente as sanções firam mais a União Europeia varrida pela austeridade [1] pelo ARROCHO, que a Rússia.
Como se podia prever, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês também caíram lá – depois de a realpolitik tê-los obrigado a conversar com a Rússia e a montar, juntos, o acordo Minsk-2.
O hipocrisiômetro já havia explodido pela tampa sobre os Alpes Bávaros, logo no discurso pré-jantar, do presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, ex-Primeiro Ministro da Polônia e russófobo de carteirinha/pró-guerra:
Todos nós preferiríamos ter a Rússia à mesa do G7. Mas nosso grupo não é simples grupo que partilha interesses políticos e econômicos. Antes de qualquer outra coisa, somos uma comunidade de valores. E é por isso que a Rússia não está entre nós.
Quer dizer que o negócio foi “valores” civilizados versus “agressão russa”.
O “civilizado” G1 + parceiros juniores não poderia jamais declarar lá que todos, coletivamente, se ariscam a pôr uma guerra nuclear em solo europeu, por causa de um “Banderastão” criado por Kiev, desculpe, é “agressão russa”.
Em vez disso, a parte realmente engraçada acontecia por trás das cortinas. Em Washington, grupos culpavam a Alemanha por o ocidente ter perdido a Rússia para a China; enquanto os adultos na União Europeia – bem longe dos Alpes Bávaros – culpavam Washington.
Ainda mais sumarenta é a visão contrária que circula entre os poderosos Masters of the Universe no mundo empresarial norte-americano sem política. Eles temem que nos próximos dois ou três anos, a França acabe por realinhar-se ao lado da Rússia (precedentes históricos abundam). E eles – mais uma vez – identificam a Alemanha como o problema-chave (com Berlim forçando Washington a envolver-se numa Mitteleuropa prussiana, que os norte-americanos guerrearam duas guerras para impedir que se formasse).
Quanto aos russos – do Presidente Putin e do Ministro Lavrov de Relações Exteriores, para baixo – já emergiu um consenso: não faz sentido algum discutir qualquer coisa substancial, se se considera o lastimável pedigree intelectual – ou absoluta imbecilidade neoconservadora – dos políticos e conselheiros do governo Obama que se autoapresentam como a turma do “Não faça merda coisa estúpida”. Quanto aos “parceiros juniores” – a maioria, gente da União Europeia – são irrelevantes, meros vassalos de Washington.
Seria delírio esperar que a gangue dos “valores civilizados” propusesse qualquer alternativa que ajudasse a vasta maioria dos cidadãos das nações G7 a conseguir coisa melhor que Mac-empregos, os mesmos que já mal sobrevivem, reféns que são do turbo-capitalismo dependente-viciado em finanças, que só beneficia o 1%. Muito mais fácil apontar o dedo para o bode expiatório proverbial – a Rússia – e tocar adiante com retórica da OTAN de distribuir medo e pregar guerra e guerra.
A Lady de Ferro Merkel também achou tempo para pontificar sobre mudança climática – pregando a todos por lá que invistam numa “economia global de baixo-carbono”. Poucos perceberam que o prazo para a total “descarbonização” ficou combinado para o final do século XXI, quando esse planeta estará em fundas, profundíssimas dificuldades.
Achtung! [Atenção!] Bilderberg!
A novilíngua soprada pelos neocons de Obama continua a pregar que a Rússia sonha com recriar o império soviético. Agora comparem com o que o Presidente Putin explica na Europa.
G1 e parceiros júniors em Kruen - Alemanha
Semana passada, o presidente Putin achou tempo para uma entrevista ao Corriere della Sera de Milão, às 2h da manhã. A entrevista foi publicada enquanto rolava a festa nos Alpes Bávaros, e antes da visita de Putin à Itália, dia 10/6/2015. Os interesses geopolíticos de EUA e Rússia foram expostos nos mais atrozes detalhes.
Quer dizer que Putin era persona non grata naquele G1 + parceiros juniores? OK. Na Itália ele visitou a Milan Expo;encontrou-se com o Primeiro-Ministro Renzi e com o Papa Francisco (vídeo no fim do parágrafo); fez com que todos recordassem os “laços econômicos e políticos privilegiados que unem Itália e Rússia”; e falou das 400 empresas italianas ativas na Rússia e no milhão de turistas russos que visitam a Itália anualmente.
Mais importante que tudo isso, Putin evocou também o tal dito consenso: a Rússia sempre representou visão alternativa como membro do G8. Agora, parece que “as outras potências” supõem que já não precisem disso. Em resumo: é impossível manter conversa de adultos com Obama e seus amiguinhos.
E na sequência, de Berlim – por onde andava exibindo suas impressionantes credenciais de política externa, Jeb Bush, irmão do destruidor do Iraque, Dábliu Bush, integralmente adestrado e “brifado” pelos seus conselheiros neoconservadores, declarou Putin “um agitador”; e seguiu pela Europa em luta contra (e o que mais seria?!) a “agressão russa”.
O véu retórico que encobriu o que realmente se discutiu nos Alpes Bávaros só começa a dissipar-se aos primeiros acordes dos verdadeiros nada-noviços nada-rebeldes: a reunião do Bilderberg Group que começa nessa 5ª-feira (11/6/2015), no Interalpen-Hotel Tyrol na Áustria, apenas três dias depois da reunião do G1+parceiros juniores.
Conspiracionismos possíveis à parte, Bilderberg pode ser definida como uma gangue ultrassecreta de lobbyistas de elite – políticos, chefões norte-americanos corporativos, funcionários da União Europeia, grandes industriais, chefes de agências de inteligência, cabeças europeias coroadas – anualmente organizada numa espécie de think-tank informal/formato lançador-de-políticas, para fazer avançar a globalização e todos os assuntos cruciais relacionados à agenda geral atlanticista. Pode chamar de Festival Mundial dos Masters of the Universe Atlanticistas.
Para lançar alguma luz sobre aquela escuridão – não que o pessoal lá seja adepto de alguma transparência – conhece-se a composição da comissão que dirige os trabalhos. E também a pauta da reunião na Áustria.
Naturalmente falarão sobre “agressão russa” (na linha de “e quem liga para Ucrânia falida? Queremos é impedir que a Rússia faça negócios com a Europa”).
Naturalmente falarão sobre a Síria (na linha da partilha do país, com o Califato já aceito como fato da vida-pós-Sykes-Picot).
Naturalmente falarão sobre o Irã (na linha do vamos-negociar: compramos a energia deles e os subornamos para que venham para nosso clube).
Mas o negócio realmente quente por lá é o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT) [Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP)] – suposto acordo “de livre comércio” entre EUA e UE.Pode-se dizer que todos os lobbyistas do big business/big finança lá estarão, praticamente todos eles, sob o mesmo teto austríaco.
Putin e o Papa Francisco em 10/6/2015
Não por acaso, Bilderberg começa exatamente na véspera do dia em que o Congresso dos EUA inicia o debate sobre a “tramitação de urgência” [orig. fast track”, lit. “trilha rápida”] para a lei que dá autoridade ao presidente para negociar a coisa.
WikiLeaks e muitos BRICS
Entra em cena WikiLeaks, com material que, num mundo justo, seria elemento crucial para emperrar toda a máquina de destruição.
A lei da “rápida tramitação”, se aprovada, prorrogará os novos poderes do Presidente dos EUA por nada menos que seis anos.Assim se inclui o próximo inquilino da Casa Branca que talvez venha a ser “The Hillarator” ou Jeb “Putin é agitador” Bush.
Essa autoridade presidencial para negociar acordos safados inclui não só o acordo da TTIP, mas também o da Parceria Trans-Pacífico (TPP) e também o Acordo de Comércio em Serviços (TiSA).

Em boa hora, WikiLeaks publicou o Anexo de Assistência à Saúde [orig. Healthcare Annex] do rascunho do capítulo “Transparência” da TPP, e a posição de cada país que está negociando. Não surpreende que o rascunho seja secreto. E nada há, nele, de “transparente”: é o sequestro não disfarçado, pela Big Pharma, de todas as autoridades nacionais da atenção à saúde pública.

O resumo da história é que esses três mega-acordos – TTP, TTIP e TiSA – são o mais completo modelo do que se pode, polidamente, descrever como governança global pelas grandes empresas – o mais molhado dos sonhos molhados deBilderberg.
Quem perde: os estados-nação e o próprio conceito de democracia ocidental.
Quem ganha: as megaempresas comerciais.
>
Julian Assange, em declaração de poucas palavras [também em espanhol, para facilitar a leitura (NTs)], disse tudo:
É erro supor que a Parceira Trans-Pacífico seria um simples tratado comercial. Na verdade, são três megatratados que operam em conjunto: o TiSA, o TPP e o TTIP, e os três se acrescentam, em termos estratégicos, como um único grande tratado unificado, que racha o mundo: o ocidente versus o resto. Esse “Grande Tratado” é descrito pelo Pentágono como o coração econômico do “Pivô para a Ásia” dos militares dos EUA. Os arquitetos miram nada menos que o arco da história. O Grande Tratado está tomando forma em total segredo, porque, com essas suas ambições estratégicas jamais discutidas fora das elites, ele alicerça firmemente uma forma agressiva de empreendimento comercial transnacional para o qual o apoio é mínimo entre as populações.
Portanto, aí está a verdadeira agenda atlanticista – os toques finais sendo aplicados no arco que vai do G1+parceiros juniores até Bilderberg (devem-se esperar telefonemas crucialmente importantes da Áustria para Washington, na 6ª-feira, 12/6/2015).É a OTAN comercial. Pivotagem para a Ásia, excluindo Rússia e China. Ocidente vs. o resto.
Agora, o contragolpe. Enquanto rolava o show nos Alpes Bávaros, acontecia em Moscou o primeiro Fórum Parlamentar dos BRICS – antes da reunião de cúpula dos BRICS em Ufa, mês que vem (julho/2015).
Reuniões dos BRICS e OCX em Ufa, Rússia (jul/2015)
Neoconservadores – com Obama puxando a fila – desfalecem de gozo, sonhando que a Rússia estaria “isolada” do resto do mundo, por causa das sanções deles. Desde o começo das sanções, Moscou já assinou acordos econômicos/estratégicos com, pelo menos, 20 nações. No próximo mês, a Rússia hospedará a reunião de cúpula dos BRICS – 45% da população do planeta, PIB equivalente ao da UE, e em pouco tempo já terá ultrapassado o do atual G7 – e também a reunião da Organização de Cooperação de Xangai, quando Índia e Paquistão, atualmente membros-observadores, serão incorporados como membros plenos.
G1 + parceiros juniores? Vão procurar que-fazer! Vocês não são o único show na cidade, em nenhuma cidade.
_____________________________________________________________
Nota dos tradutores
[1] O substantivo abstrato “austeridade” tem em português do Brasil a seguinte sinonímia: “autocontrole, autodomínio, circunspeção, circunspecção, comedimento, compostura, continência, critério, desafetação, despojamento, discrição, equilíbrio, frugalidade, gravidade, juízo, lhaneza, método, moderação, modéstia, ordem, parcimônia, ponderação, prudência, recolhimento, regra, reserva, respeito, retraimento, rigor, sensatez, senso, seriedade, severidade, simplicidade, singeleza, siso, sisudez, sobriedade, sofrósina, têmpera, temperança, tino, virtude, vulto, além de restrição e vigor”.


Pretender que o FMI obraria para obrigar países pobres e chantageados a operar com gravidade, juízo, tino, temperança é piada (quando não é descarada poka vergonha). Não é porque no Grupo GAFE (Globo, Abril, FSP e Estadão), de cada duas palavras, três são para “informar” que o governo democrático do Brasil é formado de malucos e ladrões, dedicados a torrar dinheiro como doidos e sem qualquer sabedoria ou compostura, que deveríamos insistir nós também, sempre na mesma trilha de repetição.
  • Os marxistas SEMPRE sabemos mais e melhor que qualquer imprensa-empresa e mais, até, que muuuuita FGV e FEA-USP & Chicago Boys.
  • A coisa não é “austeridade”. A coisa é ARROCHO.
  • Melhor dar à coisa o nome certo.

_____________________________________________________________

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

sábado, 31 de maio de 2014

Pepe Escobar: “Bravo antiquado (excepcionalista) mundo”

30/5/2014, [*] Pepe Escobar, RT - Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


“Nada a perguntar. Não, não, nunca explicar coisa alguma.
E removeram os ossos e a pele de Harry para o necrotério, na Ala Oeste”
[King Diamond, em “To The Morgue”/Para o necrotério]


“Acrescente-se o risco real de guerra nuclear, e a questão se impõe: por que nós, cidadãos do mundo, toleramos os EUA?”.


Barack "excepcional" Obama discursando para cadetes de West Point em 28/5/2014
“Acredito com cada fibra do meu ser no excepcionalismo dos EUA” [1]. Pois foi isso. Saído diretamente da boca do leão, quer dizer, do presidente Barack Obama dos EUA.

O resto são detalhes: detalhes mortíferos, como os EUA ainda plantados “no núcleo” da visão de mundo excepcionalista; o Pentágono a reservar só para ele o “poder de lançar ataques unilaterais sempre que interesses dos EUA sejam diretamente ameaçados”; oito ou nove guerras bem longe de casa já arquitetadas para o futuro imediato e sem final à vista; e a mais espantosa das ideias, ali claramente admitida: o “fulcro” da política exterior dos EUA de agora em diante será limitar/controlar [orig. curb] a “agressão” russa e chinesa!

Quer dizer que correr atrás dos restos da Al-Qaeda, como se podia prever e previu-se, sempre foi brincadeira preparatória de jardim-de-infância; agora é negócio de gente grande, o dragão e o urso.

Quer dizer, mesmo, é que Obama continua a ser refém incapaz e impotente da lógica da “guerra ao terror” do governo de Dick Cheney, sempre a enfatizar a “capacidade dos terroristas para causar dano”. Mas agora o modus operandi foi suavizado: podem chamar de doutrina do “Removam-o-Cadáver-para-o-Necrotério [2] – Sem alarde”.

A doutrina do “Removam-o-Cadáver-para-o-Necrotério – Sem alarde” será aplicada ao renovado “apoio” para a “moderada” oposição síria, que continuará a arrastar para o fundo do poço a Jordânia, o Líbano, a Turquia e o Iraque. Leslie Gelb, ex-presidente do ultra-pró-establishment Conselho de Relações Exteriores, sugere que o governo Obama pode ter finalmente compreendido que a verdadeira luta é contra os jihadis do tipo Frente al-Nusra e Estado Islâmico do Iraque e Levante [orig. Islamic State of Iraq and the Levant (ISIL)], não contra Bashar Assad. Mas... ainda não está provado que o governo Obama tenha compreendido coisa alguma.

Enquanto isso, a doutrina do “Removam-o-Cadáver-para-o-Necrotério – Sem alarde” já está em ação nesse instante, em Donetsk, com os mudadores de regime em Kiev – totalmente apoiados por Washington – negando, à moda do Pentágono, que haja sequer um civil morto na operação “antiterroristas” em andamento. Civis de Donetsk são os novos alvos em voga, substituindo os noivos e convidados de casamentos pashtuns em áreas tribais paquistanesas.

É a doutrina do “Removam-o-Cadáver-para-o-Necrotério – Sem alarde”

Obama quer que o Congresso aprove um novo “Fundo de Parcerias Contra-Terrorismo” de $5 bilhões, cuja tradução é “Removam-o-Cadáver-para-o-Necrotério – Sem alarde”, com chuva de dinheiro dos contribuintes, aplicada ao Iêmen, Somália, Líbia, Mali e às mais variadas latitudes não especificadas a serem saqueadas e destruídas pelo Comando [dos EUA] na África, AFRICOM.

Vladimir Putin, Rússia ; Nursultan Nazarbayev, Casaquistão; Alexander Lukashenko, Bielorússia reunidos em Astana para o Supremo Conselho Econômico Eurasiano em Astana 
Obama quer “mobilizar aliados e parceiros para empreenderem ação coletiva”, tipo ressurreição da era da “coalizão de vontades” que foi marca registrada do regime de Dick Cheney. Ferramentas de ação “ampliadas” podem – e a palavra de trabalho é “podem” – incluir diplomacia e desenvolvimento. Mas se trata, sim, de fato, só de “sanções e isolamento”, como se aplicaram ao Irã, à Síria e, agora, à Rússia.

Haverá também “apelos à lei internacional; e, se justa, necessária e efetiva, ação militar multilateral”. Tradução: a “lei internacional” será descaradamente atropelada e os EUA zombarão dela, como em casos do besteirol sobre “responsabilidade de proteger” [orig. “responsibility to protect” (R2P)]; e quando tudo falhar, uma boa velha e “justa” guerra à moda da tal “coalizão de vontades” volta à pauta.

Todo o planeta deve engolir tudo isso sem estrilar, porque, afinal, o governo Obama será “transparente sobre as bases de nossas ações e o modo como as executaremos, sejam ataques com drones ou treinamento de parceiros”.  

Claro: que ninguém jamais esqueça que “os EUA devem liderar pelo exemplo” e não dão sequer a mínima bola a coisa alguma que não seja “levar a paz e a prosperidade à volta do globo”. Quer dizer: calem o bico, todo mundo aí, nada de perguntas sobre a imundície secreta da guerra de drones da CIA no Paquistão, ou sobre “danos colaterais” em Donetsk.

Pânico em Bilderberg

Imediatamente depois de Obama anunciar seu novo pivoteamento comandado pelo Pentágono em torno dos próprios calcanhares, os Mestres do Universo reúnem-se em conclave anual e sempre secretíssima conferência de Bilderberg no Marriott em Copenhagen. Bilderberg é puro excepcionalismo atlanticista em ação. Sempre uma gozosa experimentação em matéria de preliminares, por ali.

E a lista de convidados de Bilderberg, só ela, já é delícias sós – de Breedlove, Lagarde e Rasmussen-Fog-da-Guerra-da-OTAN, a Petraeus, Kissinger e Zoellick, o livro inteiro do “Quem é Quem” da banqueiragem ocidental, os suspeitos de sempre, no campo “jornalístico”, de The Economist a Financial Times, Eric Schmidt da Google, O Princípe das Trevas, Richard Perle, e também – o que é fascinante! – pela primeira vez, um alto funcionário do governo chinês.

Liu He
O homem é Liu He – vice-diretor da Comissão de Desenvolvimento Nacional e Reforma e a verdadeira eminência parda por trás da complexa rede pequinesa de comissões e políticos encarregados de implementar ampla, ambiciosa, reforma econômica. Liu He terá sido convidado para Bilderberg como operação de sedução? Ou Pequim conseguiu infiltrar Liu He, graças a seus vastos, vastíssimos, contatos atlanticistas?

Seja como for, fato é que os “Mestres do Universo” estão em pânico. Há dois principais temas interconectados a discutir em Copenhagen, e nos dois a figura central é o presidente Vladimir Putin: o confronto entre Rússia e OTAN na Ucrânia; e a avançada dos BRICS para construir uma nova ordem mundial multipolar.

Bilderberg acontece imediatamente depois do Fórum de São Petersburgo, que consolidou a aliança Rússia-China; e exatamente quando a União Econômica Eurasiana acaba de ser lançada oficialmente em Astana. A marcha inevitável rumo a um sistema multipolar faz avançar o progressivo ultrapassamento do dólar norte-americano e, consequentemente, enfraquece o eixo OTAN/atlanticistas. A lista de convidados para Bilderberg é negócio, eminentemente, da OTAN.
Marriott Hotel em Copenhague - local da Conferência de Bilderberg

Quer dizer: imaginem várias reuniões para discutir, por exemplo, o fato de que o Banco da China e o VTB, segundo maior banco da Rússia, fazem e recebem agora os pagamentos de seus negócios em yuan ou em rublos; e estabeleceram uma comissão bilateral de investimentos. Para nem falar das reuniões para discutir o modo como os BRICS e as 115 nações do Movimento dos Não Alinhados (MNA) estão desenvolvendo parcerias estratégicas NADA EXCEPCIONALISTAS, que incluem, crucialmente, negócios feitos nas respectivas moedas nacionais, sem dólares norte-americanos.

E há também a revolta das massas contra a União Europeia cristalizada nas eleições do domingo passado para o Parlamento Europeu. Com muitas nuances de cinza, é revolta anti-excepcionalismos. Ameaça diretamente uma nova frente de ataque à moda Bilderberg: os cidadãos europeus opõem-se ampla e declaradamente à Parceria Trans-Atlântica de Comércio e Investimentos [orig. Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP)] negociada sempre secretamente.

Não é acaso que o principal negociador dos EUA das duas parcerias, na TTIP e na Parceria Trans-Pacífico (orig. Trans-Pacific Partnership (TPP)] – cerebradas para “isolar” a China na Ásia – seja Michael Froman, representante comercial de Obama, típico excepcionalista de Wall Street.

Entrementes, em Xangrilá...

Ah! Há também o Diálogo Shangri-La, em Cingapura, que descrevi ano passado como os Spielbergs & Clooneys do universo militar, todos numa única sala de Guerra nas Estrelas (de fato, é o salão de baile do Shangri-La Hotel). É excepcionalismo marinado em temperos asiáticos.

E mais uma vez, a China atrai todas as atenções, mandando para lá a formidável Fu Ying, (vídeo, em inglês, no fim do parágrafo) também conhecida como “A Dama de Ferro”, atualmente presidente da Comissão de Relações Exteriores do Congresso Nacional do Povo Chinês. É negociadora duríssima, do tipo que não carrega prisioneiros. Será fascinante vê-la em ação, em luta contra, cara a cara, o convidado de honra desse ano em Xangrilá, o primeiro-ministro japonês, militarista e protégé dos EUA, Shinzo Abe.


Tradução: seja em Copenhagen seja em Cingapura, Pequim ganhou assento às mais privilegiadas mesas da ordem unipolar excepcionalista. Autoconfiante, a China simplesmente não se interessa por degustar o banquete dessa festa feia: quer estragar aquele banquete, pouco a pouco, de dentro para fora. A massa excepcionalista é suficientemente esperta para já ter visto que a crescente aliança Rússia-China e a avançada no rumo de uma ordem alternativa estão lentamente fazendo derreter seu sonho de bravo antiquado (excepcionalista) mundo.

Não surpreende que estejam com muito muito medo.



Notas dos tradutores

[1] 28/5/2014: Na Academia de West Point, o presidente Obama diz:


  • (...) acredito no excepcionalismo dos EUA com cada fibra do meu ser – mas, na sequência, no mesmo discurso, repete 16 vezes a palavra “parceiro” ou “parceria” [risos, risos].
  • É prova provada de política externa contraditória, sem rumo.
  • Obama trocou a expressão “ação coletiva” pela expressão “ação multilateral” várias vezes.
  • Sobre a evidência clara de que OTAN e ONU dominarão toda a política externa dos EUA, Obama disse: Essa é a liderança dos EUA, a força dos EUA. [risos, risos]

[2] Orig. To The Morgue, King Diamond (ouve-se a seguir):


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.