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segunda-feira, 7 de julho de 2014

Primeira aparição pública e sermão de Abu Bakr al-Baghdadi como Califa (ISIL/ISIS/DAASH)


Data escolhida a dedo: dia de Ramadã e de 4 de  Julho!

5/7/2014, TwitLonger de François Gatete (Traduzido para o inglês)
Traduzido da transcrição pelo pessoal da Vila Vudu


“Em nome de Alá, o Mais Misericordioso, o Especialmente Misericordioso. Misericordioso, al-Furqan [1] apresenta sermão e pregação coletiva na grande mesquita na cidade de Mosul, no 6º [dia do mês] de Ramadã, [ano de] 1.435 [da Hégira]”.

....

Baghdadi: “Que a paz e as bênçãos de Alá desçam sobre vocês” [O cantor recita a oração; Baghdadi usa um siwak (instrumento para limpar os dentes)].

Abertura do sermão [Khutbah, inna alhamdullilahi (...)], com os trechos do Corão associados. Fim da abertura, “Oh vocês que creram, foi-lhes ordenado que jejuassem e foi-lhes ordenado antes disso que todos se tornassem dignos”.

Alá, o Altíssimo, disse “O mês do Ramadã [é o mês no qual] foi revelado o Corão, guia para o povo e provas claras de orientação e critério. Por isso, todos que vejam surgir o [a lua nova do] mês, que jejuem”.

Oh, muçulmanos! Quem cresceu até ver o Ramadã recebeu grande bênção. E grande missão que lhe deu Alá, o Altíssimo.

É mês cujo começo é doação. Cujo meio é perdão. Cujo fim é proteger-se contra o fogo do inferno. Um mês no qual, se o crente jejua com convicção e espera perdão, ele será perdoado. Com a autoridade que é sua, Abu Hurayrah, que Alá esteja satisfeito com ele, o mensageiro de Alá, que Sua paz e Suas bênçãos desçam sobre ele, disse: “A quem jejua o Ramadã com convicção e esperança de ser perdoado, seus pecados lhe são perdoados. E a quem guarda o Ramadã com esperança e convicção do perdão, seus pecados lhe são perdoados”.

Um mês que traz a abertura das portas do paraíso eterno e fecha as portas do fogo do inferno. E encarcera os demônios. Um mês portanto que é uma noite que vale mais que mil noites. Quem não o tenha deixado descer sobre si, tornou impossível que todo o bem [khair] desça sobre si.

(Corão) “A Noite do Decreto é melhor que mil meses. Os anjos e o Espírito descem portanto por permissão de Seu Senhor para todos os casos. É a Paz que fará raiar o dia”.  

Um mês em que há divórcio: divórcio e separação do fogo do inferno. E é verdade para cada uma e todas as noites desse mês. Um mês que se põe como obstáculo na perseguição contra a jihad. [2] E o mensageiro de Alá – que a paz e todas as bênçãos desçam sobre ele –, disse [Segue a narrativa profética sobre a jihad].

Assim sendo, colham as vantagens desse mês santo, Oh, cultuadores de Alá! Lutem, portanto, Oh, muçulmanos! Alá, o Abençoado e Altíssimo criou-nos para amá-Lo e só Ele no monoteísmo, e para estabelecê-Lo em Seu modo completo de viver [o Islã]. Ele, o Altíssimo, disse:

(Corão) “Não criei o jinn [3] e a humanidade senão para que Me cultuem”. E Alá ama que matemos os inimigos de Alá e que façamos jihad em Seu nome.

Ele, o Altíssimo, disse:

(Corão 2:216) “A guerra foi imposta a vocês, embora vocês odeiem a guerra”.

E Ele, o Altíssimo, disse:

(Corão, Surat Al-‘Anfal [verso 39]) “E lhes deem combate até que não haja fitnah [ateísmo e politeísmo], e até que toda a religião, toda, seja de Alá. E, se pararem, mesmo ainda assim, Alá Vê o que fazem”.

Oh, povo na religião de Alá, sejam justos Nele, levantem-se por Ele e afirmem a verdade d’Ele, e não se dispersem e não se afastem do que Alá nos deu. E mantenham-se firmes com a Xaria de Alá, e a referência a ela, e apliquem e aceitem o hudud (castigos islâmicos).

(Corão) “Nós já mandamos Nossos mensageiros com provas claras e mandamos com eles a Escritura e o equilíbrio [para que] o povo possa manter [seus negócios] em justiça. E mandamos o ferro, pelo seu grande poder militar e benefícios para o povo [de tal modo que] Alá possa tornar visíveis os que O apoiam e os Seus mensageiros invisíveis. Em verdade a verdade vos digo, que Alá é Potente e Elevado em Força”.

E essa é a aplicação da religião de Alá. E esse é o Livro que dá orientação, e a espada que garante rápidas vitórias [refere-se ao Surat al-Fath (49 Sura do Corão, “A vitória”, “A Conquista”)].

E aos seus irmãos, os mujahidin (pl. de mujahid [4]) (“combatente(s) na jihad”), Alá, o Abençoado, o Altíssimo, deu-lhes vitórias e conquistas que vieram depois de muitos anos de privações e paciência. E mantiveram-se firmes contra os inimigos de Alá, e Ele os tornou poderosos na terra, até a declaração do Califado e a escolha de um Imã. E esse é assunto obrigatório para todos os muçulmanos. É Waajib! [5] E tem de ser aplicado inteiramente a toda a terra. Mas a maioria do povo é ignorante.

(Elogio aos que restabeleceram o Califado): E eles restabeleceram o Califado, e glória e graças a Alá! E vocês desperdiçarão essa bênção imensa, se recusarem a missão, a tarefa pesada, se derem as costas a ela, nesse caso estarão rejeitando a bênção que cairia sobre vocês. Eu fui submetido a uma prova por Alá, na minha eleição ao Califado. É carga imensa. Não sou melhor que vocês. Aconselhem-me quando erro e sigam-me se acertar. E me socorram contra os tawagheet [6].

E lhes trago a boa nova do que Alá prometeu aos crentes que O venerem:

(Corão) “Alá prometeu aos que, dentre vós, creem e praticam boas ações, que Ele lhes garantirá a sucessão no poder sobre a terra, assim como Ele garantiu o poder àqueles de antes dele, e Ele com certeza implantará para eles a religião que Ele preferiu para eles e que Ele substituirá: depois do medo, a segurança,  para que ME cultuem, nada associando a MIM. Mas quem não creia nisso – esses são os desafiantemente desobedientes”.

A Sua promessa:

(Corão) “Não enfraqueçam e não lamentem, e vocês prevalecerão, se creem verdadeiramente” (mais ayat corânicos sobre vitórias).

E Ele disse: (Corão) “Toda a Honra pertence a Alá e ao Seu Mensageiro, e aos crentes, mas os hipócritas não sabem”.

Essas são as promessas de Alá. E se as promessas de Alá alegram vocês, temam-No e vivam retamente em boa consciência [orig. taqwa [7]].

Temam Alá em todas as bênçãos e em todas as situações. E disseminem a verdade. E sejam firmes, pela verdade. E a disseminem para todos os que vocês amam e todos que vocês odeiam.

Se a promessa de Alá lhes agrada, então dediquem-se a ela com fervor de jihad! E conclamem os crentes para que façam o mesmo. E tenham paciência nesses tempos de dúvida. Se vocês soubessem o que há na jihad, desde a recompensa [ajr], as bênçãos generosas [karama], a ascensão na vida, a honraria, nessa vida e na outra, nenhum de vocês jamais se desviaria do caminho da jihad!

(Corão) “Creiam em Alá e Seu Mensageiro e lute pela causa de Alá com suas riquezas e a própria vida.” É o melhor para vocês, e vocês sabem ou deveriam saber que é. Alá perdoará vocês e os acolherá em jardins onde riachos correm, onde poderão viver para sempre. Nenhum feito ou realização da vida assemelha-se a chegar lá.

E isso que vocês amam, a vitória vinda de Alá e a conquista, estão próximas!

(Fim do sermão [Khutbah]. Daí até o final, o xeique recita o Corão).



Notas dos tradutores

[1] O critério.
[2] Sobre o conceito islâmico de Jihad (“empenho”, “dedicação” em busca da perfeição).
[3] jinn”.
[4] Mujahidin”.
[5] “Waajib”: obrigação máxima, absoluta, para o muçulmano: “Wajib (o mesmo que fiqh): obrigação que o muçulmano tem de cumprir, tão obrigatória como as cindo orações diárias”.
[6] Tawagheet. Entendemos que significa os que creem e seguem comandos que não lhes sejam dados por Alá. Todas as correções e comentários são bem-vindos. 
[7] Taqwa”. 

terça-feira, 1 de julho de 2014

IRAQUE: Relatório de Situação, SITREP − 30/6/2014, Mindfriedo

Mindfriedo, The SakerThe Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
● − 29/6/2014: No 1º dia do Ramadan, o DAASH declarou-se, com o território que controla, um Estado Islâmico. Mudou de nome, para Daulat Islamia, DI [ár.], que significa “governo/estado islâmico” e correspondentes acrônimos: EI [port.] e IS [ing.].

O novo califa, “sucessor” de Muhammad (sawa) e “comandante dos fieis” (Amerul Momineen)” do Estado Islâmico é Abu Bakr al-Baghdadi. O EI convocou todos os combatentes dentro de suas “fronteiras” a jurar fidelidade ao seu califa.

NB: O título Ameerul Momineen (Comandante dos Fiéis) é título que os sunitas usaram para todos os seus califas ou sultões. Os xiitas só usam esse título para Ali Ibn Abi Talib; nem os demais imãs recebem esse título.

Outros notáveis que se autonomearam Amerul Momineen em tempos recentes:

− o rei do Marrocos / o mulá Umar dos Talibã / Nawaz Sharif tentou, mas não conseguiu, incorporar o título ao seu nome. / E há notícias de que Zia ul haq do Paquistão  tenha usado o título.

Abu Bakr al-Baghdadi
● − 30/6/2014: Outros grupos islamistas no Iraque e na região, além de alguns clérigos salafistas, reagiram com frustração e desapontamento à declaração de um Estado Islâmico. Disseram que tal estado e a fidelidade que ele visa a obter podem pôr a perder todos os ganhos que os islamistas tenham obtidos por todo o mundo.

● − 30/6/2014: Transcrição de uma mensagem do EI em vídeo: um combatente aponta a fronteira agora “apagada”: “O exército safavida [persas] costumava postar-se aqui. Mas não há fronteira. É o que agora se chama ponto de controle. E os soldados de Maliki costumavam parar aqui...” [sobe num carro militar], “o único batalhão aqui é o de Alá. Abi Bakr al Baghdadi costuma dizer que ele é o rompedor de fronteiras. Nós romperemos Inshallah as fronteiras do Iraque, Líbano, Jordânia. Só haverá uma bandeira: do Estado Islâmico. Todas as bandeiras dos kufr deixarão de existir. Somos um país, todos os muçulmanos. E temos um imã”.

● − 30/6/2014: Link importante, indicado por David Hungerford nos comentários do Relatório anterior.

O artigo mostra ressentimento amplamente disseminado contra o governo em Bagdá e a firme disposição da sociedade sunita iraquiana para livrar-se do “governo fantoche, corrupto e sectário” − de Nouri Al Maliki.

Rebeldes contra o governo são tribos árabes iraquianas sunitas, ex-oficiais do exército, ex-Ba’athistas e jihadistas islâmicos. O governo refere-se ao todos os seus inimigos como “DAASH”. As autoridades curdas e a imprensa-empresa mostram tendência similar de chamar a revolução sunita de “DAASH”.

Ali Hatem Suleimani
● − 30/6/2014: O líder da maior tribo sunita no Iraque, Ali Hatem Suleimani, declarou que sua tribo continuará a apoiar os islamistas enquanto Maliki permanecer no poder.

● − 30/6/2014: O governo tem falado das cidades de Rawa, Ahna e al-Qaem como se não tivessem importância alguma. Tem dito que nada há, de estrategicamente importante, nessas cidades.

● − 30/6/2014: O Irã tem apresentado como prioridade fornecer gás ao Iraque, para alimentar quatro usinas de energia iraquianas movidas a gás.

● − 30/6/2014: A rede CNN noticia que a maioria dos voluntários xiitas tiveram de 7 a 10 dias de treinamento, mas estão cheios de fé e convicção, antes de serem mandados combater contra o Estado Islâmico (EI).

● − 30/6/2014: Um mulher, que se declara moradora de Tikrit, enviou vídeo-mensagem à CNN:

28/6/2014. Graças a Deus, Tikrit está salva e continua em mãos das tribos, não de “al-Haliki” (‘al-Haliki’ é forma ofensiva de referir-se a Maliki, que faz referência à morte dele).

Contra-Almirante John Kirby
● − 30/6/2014: O contra-almirante John Kirby do Pentágono declarou que os jatos americanos não estão demorando para serem entregues e que os primeiros dois jatos que ainda não foram entregues terão fraco impacto em solo. (Pelo visto, os oficiais russos têm os SU-25 em muito mais alta conta, que os militares dos EUA, os seus F-16).

● − 30/6/2014: Sua Santidade o Papa Francisco I pediu que as autoridades de Bagdá constituam um governo de unidade nacional e ponham fim à violência no país. Manifestou solidariedade aos cristãos iraquianos refugiados.

● − 30/6/2014: O rei da Arábia Saudita, rei Abdullah, demitiu o vice-ministro da Defesa príncipe Khaled bin Bandar bin Abdul-Aziz, por recomendação do ministro da Defesa, príncipe Salman.

Shimon Peres
● − 30/6/2014: Um comandante militar iraniano Hassan Firouzabadi manifestou alarme ante a condenação à morte do clérigo saudita xiita aiatolá Nimr al-Nimr. Disse ter esperança de que o governo da Arábia Saudita (terra de príncipes turbulentos, monarcas caquéticos e princesas encarceradas) cancelará essa sentença injusta.

● − 30/6/2014: Shimon Peres manifestou esperanças de que a presença do DAASH ajude a unir árabes e israelenses contra ameaça maior.

● − 30/6/2014: Em outros noticiários vindos da terra prometida/amaldiçoada, o primeiro ministro Benjamin Netanyahu ‘exige’ a criação de um estado curdo independente.

● − 30/6/2014: Artigo do New York Times diz que o investigador do Dep. de Estado que investigava atrocidades da Blackwater no Iraque foi ameaçado de morte.

Barack Obama
● − 30/6/2014: Obama referiu-se à ameaça que os jihadistas europeus que estão retornando aos seus países de origem representam, para a segurança nacional dos EUA. Lição que as crianças aprendem na escola: quem sofre maldades e maus tratos, responde com maldades e maus tratos.

● − 30/6/2014: Contabilidade do dia, do governo do Iraque:

  1. – Polícia prendeu cinco em Basra
  2. – Dispositivo explosivo improvisado [orig. IED] explodiu no subúrbio de al-Ghazaliya, área oeste de Bagdá, matando um e ferindo sete.
  3. – Governo matou três militantes em Injana, norte de Diyala, em ataques aéreos. O comando operacional em Bagdá diz ter impedido uma tentativa de infiltração, por membros do EI.
  4. – Três civis foram mortos no nordeste de Baqouba, por fogo de morteiro.


segunda-feira, 30 de junho de 2014

Conflicts Fórum: Comentário semanal de 14 a 21/6/2014

28/6/2014, [*] Conflicts Forum
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O Novo Califato e sua intersecção com a Geopolítica do Oriente Médio

Iraque - Grupos étnicos-religiosos
Como ler os eventos no Iraque? Agora afinal temos alguns “pontos de ancoragem” de compreensão nos quais nos apoiar, suficientemente “firmes” e que parecem lançar alguma luz sobre os eventos recentes. Mas a verdade é que – mesmo para os que vivem cá na região – ainda há mais perguntas, que respostas. E por que as coisas estão assim? Desconfiamos, considerando a própria opacidade das motivações que movimentam os eventos (ruidoso salto do DAASH ou ISIS para dentro do Iraque), estamos ante uma complexa interpenetração de psicologia religiosa de raízes profundas (o que é mais que mero sectarismo) com fatores de geopolítica. Se se examina esse quadro exclusivamente mediante a ótica de considerações geoestratégicas, há excesso de enigmas e quebra-cabeças. Mas se se procura ler o mesmo quadro, no contexto de uma psicologia religiosa (uma psicologia mediante a qual os mesmos eventos estão recebendo significações a eles atribuídas por membros do DAASH e por os muitos simpatizantes sunitas deles), então as duas esferas – a geoestratégica e a psicológica – podem se encontrar e cruzam-se.

Que pontos de ancoragem “firmes” são esses? O grupo DAASH “caminhou para dentro de Mosul” sem encontrar resistência alguma. Ao contrário, a tomada da cidade foi claramente facilitada com antecedência por grupos da sociedade iraquiana (inicialmente não jihadistas), a saber: ex-oficiais militares do exército desmobilizado de Sadam Hussein – alguns dos quais eram, ou são, do Partido Ba’ath. A tomada sem derramamento de sangue de uma cidade de 2 milhões de habitantes, por um grupo de 1.300 homens também contou com certo grau de aquiescência de membros do atual exército do Iraque.

Em resumo, a tomada de Mosul foi claramente preparada com antecedência; e não há dúvida de que foi fertilizada com quantias substanciais de dinheiro (cuja fonte original permanece ignorada).

ISIS/ISIL/DAASH ocupa Mosul
Em segundo lugar, o estabelecimento desse “Califato” do DAASH recebeu apoio de muitos sunitas no Iraque e em outros pontos, sunitas cuja história pregressa poderia levar a supor que eles temeriam regime desse tipo. O que, afinal, ba’athistas seculares e ex-militares com formação e treinamento profissionais poderiam ter em comum com a intolerância violenta do DAASH e a insistência com que o grupo exige submissão ampla e irrestrita ao seu domínio? Será que não sabem da amarga experiência dos reformistas utópicos urbanos de Allepo, nas mãos dos vingativos revolucionários jihadistas que chegaram?

Seja como for, há fato claro (embora difícil de admitir): muitos sunitas iraquianos (e sunitas em geral) – grupo bem mais amplo do que se poderia definir como “eleitorado” do DAASH – dizem hoje que prefeririam viver a precariedade da vida sob a guilhotina e um regime revolucionário “jacobino”, que sob o governo “xiita” de Maliki. Isso nos diz algo bastante profundo sobre a psicologia daqueles sunitas. (Embora se deva considerar também que muitos sunitas estão fugindo de lá; e que também há sunitas que se opõem ao DAASH).

Em terceiro lugar, a “guerra-relâmpago” [orig. blitzkrieg] contra o Iraque foi muito bem executada (profissionalmente) em termos militares; e é politicamente muito astuta.

O DAASH conseguiu arrancar-se da ignomínia da já inevitável derrota de sua missão “divina” na Síria – com todos os sobretons da história antiga do Islã que aquela derrota – fatalmente implicaria – e saiu-se vitorioso contra a fragilidade, de cristal, do Iraque. O que era derrota iminente foi convertido em gesto de audácia, o qual (até aqui) fez voar em cacos o delicado cristal iraquiano – e expôs cruelmente todos os pontos fracos do estado iraquiano.

A audácia do assalto, e o caminho aberto para que os sunitas imaginem o nascimento de uma esfera sunita (um “paraíso-seguro” num paraestado [orig. statelet] que recobriria Síria e Iraque com certeza tocou numa corda profunda da psique dos sunitas e do Golfo. Um ex-embaixador do Qatar nos EUA alertou o governo Obama contra qualquer intervenção militar a favor de Maliki: segundo ele, seria vista como ato de guerra por toda a comunidade dos sunitas árabes. (Embora não esteja sendo vista como tal pela psicologia sunita síria: encontramos sírios que zombavam do segundo colapso militar dos iraquianos, comparando-o à invencível resistência que os sírios impuseram ao ISIS). 

Norte do Iraque - Petróleo & Gás
É possível atribuir esse repentino entusiasmo pelo DAASH simplesmente a um desejo dos ba’athistas  de vingar-se? Não há dúvidas de que os ba’athistas foram derrubados do poder, foram expurgados politicamente do governo, foram expulsos do exército, foram atacados, primeiro pelos EUA e, depois, pelas milícias do novo governo iraquiano; e também não há dúvidas de que muitos em Mosul, Tikrit e Anbar cultivam profunda antipatia pelo Irã e pelo novo governo, orientado a favor do Irã, em Bagdá – velhas antipatias que tem raízes na Revolução Iraniana. Muitos sunitas iraquianos estão (com razão) ofendidos e furiosos.

Mas só o ba’athismo per se não dá conta de todo esse improvável pacto faustiano entre alguns ba’athistas e o DAASH. O ba’athismo iraquiano foi profundamente esvaziado de conteúdo ideológico; e no início da guerra de 2003 já se provou insuficiente como alguma espécie de “identidade”. A identidade ba’athista tende sempre a dissolver-se em circunstâncias em que as tensões sectárias aumentem; e tende a ganhar potência máxima quando as tensões sectárias adormecem. Quando as tensões sectárias aumentam, a realidade é que elas, com muita facilidade, superam outras identidades. (Não implica dizer que tudo que está acontecendo no Iraque possa ser reduzido a sectarismos. Há política e geoestratégia também envolvidas; mas é a tensão sectária – não alguma ideologia – que está estimulando a atração que está arrastando os ba’athistas na direção desses takfiris do ISIS).

Outro modo de olhar esses eventos é imaginar como apareceriam se considerados sob uma ótica religioso-psicológica. Essa, em todos os casos, pode ter sido a via pela qual os seduzidos pela “guerra-relâmpago” do ISIS parecem estar percebendo a história toda que veem desenrolar-se à sua frente. O chamado “Despertar” foi visto por muitos sunitas como algum renascimento especificamente sunita.

Recrutamento xiita em Bagdá - Exames Médicos
De início, o “Despertar” pareceu oferecer vitórias indiscutivelmente claras. Prometia ser um triunfo da batalha de Badr (quando uma pequena força de 313 seguidores do Profeta, em 624, derrotou um exército de Meca, três vezes maior. Mas depois veio o revide (a atual Síria), ou, para acompanhar a mesma alegoria, a batalha sunita do Uhud (na qual os seguidores do Profeta foram derrotados, em 625, efeito de um contingente chave ter desobedecido às instruções que recebera). Mas depois desse fracasso, que pareceu pôr em risco todo o projeto muçulmano, as forças do Profeta nunca mais perderam sequer uma batalha.

É possível que o DAASH veja a derrota que sofreram na Síria por um prisma similar a esse: como vitória xiita que ameaçaria todo o projeto sunita (sobretudo porque estados-modelo sunitas ruíram nesse período). As primeiras vitórias surpreendentemente fáceis do DAASH no Iraque, portanto, nesse modo de ver, podem ser tomadas como as trombetas que anunciam a próxima derrota de Maliki e do Irã – assim como vieram as vitórias do Profeta, depois do fracasso no Uhud.

Essa mitologia pode ter ecos profundos e fortes nos Estados do Golfo, mas, mais prosaicamente, os sauditas podem bem sentir (em sua batalha contemporânea de “Uhud” que, hoje, é a Síria), que o Irã seguiu a “política do sangue” – como me disse um interlocutor que conhece bem a Arábia Saudita: foi derramado sangue sunita na Síria; e, se se trata de restaurar o “equilíbrio” na região, a política do sangue tem de ser também equilibrada.

Se as únicas ferramentas com que os sunitas podem contar são o ISIS e os restos do antigo exército de Sadam Hussein, que seja. É possível que alguns, no Golfo, vejam tudo isso como meio para trazer de volta um equilíbrio geoestratégico: os protegidos do Irã pagaram com sangue (algumas das fragilidades do Irã foram expostas no Iraque), e emerge algo que se pode ver como território sunita (embora seja o “califato” do ISIS). Alguns líderes no Golfo podem, sim, especular que aí há uma base para interpretar a aproximação dos EUA com o Irã; e pode ser a base de um acordo político entre Arábia Saudita e Irã.

Jovens alistam-se aos milhares nas milícias xiitas
Há algo de realista nisso? Provavelmente, não: a atual ardente paixão dos sunitas do Iraque e do Golfo pelo ISIS pode esfriar de repente, e provar-se volúvel (como se viu acontecer na Síria, quando o ISIS foi “testado” no poder). É improvável que o DAASH venha a “tomar” militarmente o Iraque (só até aqui, suas incursões já uniram contra o inimigo, facções de xiitas iranianos tradicionalmente adversárias), e o novo “califato” encarará hostilidades vindas de todas as suas fronteiras: do exército sírio, na porção síria do “califato”; dos curdos; do Irã, em Diyala; e da maioria dos iraquianos.

Se o Irã fizer seu jogo com máxima cautela – como está fazendo até aqui – mantendo unidas as facções xiitas; cuidando para impedir que os sunitas iraquianos não satisfeitos com o ataque pelo DAASH sejam jogados nos braços do ISIS por efeito da super violência dos xiitas iraquianos; e se Teerã conseguir gerenciar a desconfiança instintiva inata de Maliki, os iranianos muito provavelmente conseguirão evitar o seu próprio “sangramento”, bem longe disso. Mas todos esses planos e cálculos até aqui bem-sucedidos podem ruir por águas (areias) abaixo, no caso de o ISIS atacar com sucesso os santuários [xiitas] em Samarra, Kerballah ou Najaf. Nesse caso, deve-se esperar guerra sectária total, com força máxima.

Claro que é fácil para observadores externos culpar o primeiro-ministro Maliki por todos os padecimentos do Iraque. Mas não foi Maliki quem criou a região autônoma curda, ou quem armou a guerrilha curda Peshmerga; nem foi Maliki quem desmantelou o exército de Sadam Hussein e iniciou a des-ba’athificação ou quem promoveu o expurgo dos sunitas, do poder. É verdade que o primeiro-ministro é neuroticamente desconfiado de conspirações urdidas contra ele – patologia que esclerosou e esterilizou toda a política iraquiana. Mas suas desconfianças e cautelas, por mais que sejam exageradas e politicamente danosas, têm, indiscutivelmente, alguma base na realidade.
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[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás de narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.



terça-feira, 24 de junho de 2014

IRAQUE: Relatório de Situação, SITREP − 23/6/2014, Mindfriedo

23/6/2014, The SakerVineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker

● −20/6/2014: Putin confirmou integral apoio da Rússia aos esforços do governo do Iraque para livrar de terroristas o território, o mais rapidamente possível.

● −20/6/2014: 30 milicianos xiitas foram mortos em Muqdadiyah, cidade ao nordeste de Bagdá. A cidade está na estrada para Baqouba na província de Diyala. Os militantes que atacavam a cidade foram contidos. 

Aiatolá Khamenei
● −22/6/2014: O líder supremo do Irã, aiatolá Khamenei, opôs-se a qualquer tipo de intervenção dos EUA no Iraque:“Os EUA não gostaram do resultado das eleições, com alto comparecimento de eleitores e o povo escolhendo os próprios governantes, porque os EUA querem dominar o Iraque e pôr no poder gente que OBEDEÇA aos EUA”.  

● −22/6/2014: Um assessor de Moqtada As Sadr disse que “conselheiros” norte-americanos enviados ao Iraque serão vistos como forças de ocupação e, portanto, como alvos legítimos.

● −23/6/2014: O secretário de estado dos EUA, John Kerry encontrou-se com políticos em Bagdá. Maliki diz a ele que a atual crise “é uma ameaça não só ao Iraque mas à paz regional e internacional” (para nem falar dos preços do petróleo).

● −23/6/2014: Kuwait nega que tenha retirado seu embaixador do Iraque.

● −23/6/2014: O destino de Tal Afar é desconhecido. Tudo sugere que o aeroporto e a própria cidade caíram sob controle de rebeldes. Mas o porta-voz do Exército do Iraque, Qassim Atta informa que o exército continua a lutar pelo controle da cidade.

● −23/6/2014: DAASH (ISIS/ISIL) enviou um ultimato aos moradores do distrito de Sinjar para que entreguem Abu Walid, o major-general iraquiano que comandava a resistência em Tal Afar antes de seus soldados se retirarem. O major-general teria retrocedido com seu corpo de guarda-costas.

● −23/6/2014: Líderes tribais sunitas e xiitas de Tal Afar enviaram uma delegação a Erbil. Pedem que as autoridades curdas incluam Tal Afar no Curdistão iraquiano.

Hugh Evans
● −23/6/2014: Hugh Evans, conselheiro britânico no Curdistão iraquiano teria dito que “espera ver logo a República do Curdistão”. Teria acontecido durante celebrações organizadas para comemorar o aniversário da rainha. Evans também teria pedido a autoridades curdas que trabalhem com as autoridades em Bagdá, elogiou os curdos por acolherem refugiados de outras partes e destacou a ajuda dada por seu governo, de US$ 8 milhões.

● −23/6/2014: Há combates no momento na província de Salahuddin entre combatentes do DAASH (ISIS/ISIL) e combatentes do Exército Islâmico. As disputas acontecem em torno da exigência feita pelo DAASH de que todos os grupos se reunissem sob a bandeira do DAASH. Há notícias de cinco militantes mortos.

● −23/6/2014: O líder da tribo Al-Abeed no Iraque, Sheikh Anwar al-Assi, recusou-se a jurar fidelidade ao DAASH. A casa dele foi atacada, teve propriedades saqueadas e sua vida foi ameaçada. Foi retirado para Sulaymaniyah, pelo governador de Kirkuk.

● −23/6/2014: Iraquianos na Austrália participaram de um comício para denunciar publicamente o DAASH e seus discursos. Abu Yahya ash Shami, militante australiano do DAASH distribuiu vídeo em que diz “Alô irmãos australianos. Eis a mensagem que tenho para vocês. Do coração de um irmão muçulmano para o coração de outro irmão. Olhem à volta, acordem e compreendam por que tudo isso acontece. Acordem. Acordem para participar desse esforço”. A Austrália decidiu deportar qualquer pessoa que tenha relações com o DAASH.

Refinaria de petróleo de Baiji, ao norte de Bagdá
● −23/6/2014: A refinaria de Baiji permanece sob controle do governo. Mas há menos de 300 guardas de segurança para defendê-la. A refinaria continua cercada por militantes.

● −23/6/2014: DAASH tomou 57 famílias como reféns no nordeste de Baiji. As famílias (mulheres, crianças e velhos) fugiam de Al Alam, subdistrito da cidade de Hawija. O DAASH está exigindo que o distrito de Al Alam renda-se, ou os reféns serão afogados no Rio Tigre.

● −23/6/2014: Oficiais iraquianos tentaram convencer John Kerry da necessidade de ataques aéreos. John Kerry se declarou preocupado com “baixas entre os civis”. E há quem diga que os EUA não têm senso de humor e de honra...

● −23/6/2014: O porta-voz do Exército do Iraque, Qassem Atta, informou que o exército retirou-se das cidades de Rawa e Anah no oeste do país, como movimento tático.

● −23/6/2014: Algumas seções da sociedade sunita na Síria estão preocupadas com que os avanços do DAASH no Iraque venham a intensificar os combates na Síria. Conhecem bem o tipo de “liberdade” que espera os civis de Mosul.

Richard Barrett
● −23/6/2014: A Grã-Bretanha prendeu mais de 40 pessoas por acusações relacionadas ao DAASH nos primeiros três meses de 2014. O ex-diretor do MI6, Richard Barrett, alertou autoridades britânicas de que é “missão impossível” rastrear todos os súditos da rainha relacionados ao DAASH.

● −23/6/2014: Milhares reuniram-se em Al Jouf, Arábia Saudita, para o enterro do estudante saudita assassinado a facadas na Grã-Bretanha.

● −23/6/2014: Aviões de Israel têm atacado posições sírias nas colinas de Golan.

O próximo grande confronto que o governo de Bagdá enfrentará é Haditha. Tropas oficiais estão protegendo a cidade (onde há uma barragem de grande importância estratégica. Mas a cidade fica no coração do território sunita. Até agora, os rebeldes têm-se mostrado mais tenazes e motivados que o governo.

Até agora, parece que cada lado se firma nas atuais posições. Grande parte do Iraque sunita está sob controle dos rebeldes; e quase todo o sul e o leste do país está com o governo (sunita). O nordeste está com os curdos, única força que, até aqui, está mantendo os rebeldes à distância. Qualquer luta para recuperar as áreas dos sunitas será longa e, se a Síria serve de exemplo, muito destrutiva. E não parece que um avanço sunita no sul e leste venha a ser bem-sucedido.
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Leia também (em inglês):

●− Robert Fisk in US slang “ripping” the Americans and Saudis a new one: 22/6/2014, The Independent em: If history and petropolitics teach us anything, it's that the collapse of Iraq shouldn’t come as surprise.
●−On Iranian and Kurdish cooperation in the past. And the price the Kurds paid: Operation Mersad.