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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Na Ucrânia, a estocada final − Empréstimos do FMI: dois socos rápidos, em sequência

16/2/2015, [*] Michael Hudson, em Naked Capitalism
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também:
15/2/2015, redecastorphoto: Michael Hudson: “O FMI anexou a Ucrânia?” (entrevista)  


NÃO ESQUEÇAM: Não fossem os governos Lula-Dilma, que varreram para longe do poder no Brasil os tucanos neoliberais de PSDB-DEM & imprensa-empresa no Brasil, o Brasil estaria hoje no estado em que estão Grécia, Ucrânia, Portugal, Espanha etc.. 



Esse campo de batalha foi aberto porque os EUA recusam-se obsessivamente, em décadas recentes, a admitir a criação de um corpo internacional autorizado a avaliar a capacidade de pagamento dos países. Sem esse corpo legal de estabilização, todas as crises de dívidas soberanas convertem-se em “vale-tudo”, em “roube-o-que-puder”, em que o Tesouro dos EUA sempre pode intrometer-se, para assaltar-ocupar-dominar.

A prática, nesses casos, é manter à tona os países da órbita de influência diplomática dos EUA (embora, sim, sob rédea curta), mas não qualquer país que insista em manter políticas independentes dos EUA (por exemplo, a Argentina e todos os países BRICS).

Analisada à frente, essa posição ameaça fraturar a finança global e criar uma esfera de influência monetária dos EUA versus uma esfera dos BRICS.


Lagarde anuncia "empréstimo" de US$ 17,5 bilhões para a Ucrânia
O destino da Ucrânia está passando, do campo de batalha, para a arena que realmente mais conta: a finança internacional. Kiev está quebrada, sem reservas em moeda estrangeira que consumiu na guerra que destruiu a capacidade industrial de exportação e a minas do Donbass, (sobretudo em relação à Rússia, que em condições normais comprava 38% das exportações da Ucrânia). Profundamente endividada (com 3 bilhões de euros a serem pagos à Rússia, devidos desde 20/12/2014), a Ucrânia está condenada à bancarrota, se FMI e Europa não liberarem novos empréstimos, mês que vem, para pagar por novas importações, bem como à Rússia e a credores detentores de papéis ucranianos.

A Ministra das Finanças, Natalia Yaresko, anunciou na 6ª-feira (13/2/2015) que espera que o dinheiro comece a chegar no início de março/2015. Mas a Ucrânia terá de atender a condições quase impossíveis: terá de implantar orçamento honesto e começar a reformar seus oligarcas corruptos (que controlam o Parlamento (Rada) e toda a burocracia); impor forte arrocho [orig. austerity]; abolir as leis de proteção ambiental; e tornar sua indústria “atraente” a investidores estrangeiros interessados em comprar terras, outros recursos naturais, monopólios e outros bens do estado ucraniano, presumivelmente a preços de liquidação, dada a recente devastação que o país sofreu.

O empréstimo do FMI é ameaçado também pela situação militar. Dia 28/1/2015, Christine Lagarde disse que o FMI não repassaria dinheiro algum enquanto a Ucrânia permanecesse em guerra. Há um cessar-fogo iniciado no domingo pela manhã. Mas o líder do partido neonazista Setor Direita, Dmytro Yarosh, anunciou que seu exército privado e o Batalhão Azov ignorarão o acordo de Minsk e continuarão a combater contra a população falante de russo. Os neonazistas são ainda força considerável dentro do Parlamento.

Dmytro Yarosh (C) e seus neonazistas
Quanto, do orçamento da Ucrânia será gasto em armas? Alemanha e França já deixaram bem claro que se opõem a mais aventureirismo militarista dos EUA na Ucrânia, e também se opõem a Ucrânia ser tornada membro da OTAN. Mas será que a Alemanha cumprirá a ameaça de impor sanções a Kiev, para impedir que recomecem os combates? Para os EUA, meter a Ucrânia dentro da OTAN seria o coup de Grace para impedir a criação de uma usina eurasiana, que integraria as economias russa e alemã, além de outras economias europeias continentais.

O governo Obama está aumentando a aposta e partindo para o tudo ou nada, na esperança de que a única saída para a Europa seja aceitar fatos consumados. Mas a “estratégia” já começa a ameaçar sair-lhes pela culatra. Em vez de fazer a Rússia “perder a Europa”, os EUA podem ter-se superestimado muito, a tal ponto que, hoje, já se tenha de considerar o risco de os EUA virem a perder a Europa. A aventura na Ucrânia está-se revelando como, talvez, o primeiro passo na trilha de os EUA perderem a Europa.

Pode acontecer de a “aventura ucraniana” afastar interesses europeus para bem longe da OTAN, se a Rússia convencer o mundo de que o tempo das ocupações armadas de nações industrializadas é coisa do passado; e que é possível que, de fato, já nem haja qualquer real ameaça militar – exceto se a Europa acabar apanhada no fogo cruzado de uma Guerra Fria 2.0.

Para que a estratégia geopolítica dos EUA seja bem-sucedida, seria necessário que Europa, Ucrânia e Rússia agissem contra todos os próprios autointeresses econômicos. Até quando os EUA podem continuar a apostar que todos esses países aceitarão sacrifício tão radical? Em que momento os próprios interesses econômicos levarão a reconsiderar velhas alianças geopolítico-militaristas e velhas lealdades políticas pessoais?

Alguma solução já é mais urgente a cada dia, porque é a primeira vez que a Europa continental enfrenta guerra desse tipo dentro das próprias fronteiras (exceto Iugoslávia). Qual a vantagem para a Europa em comprometer-se e apoiar uma das oligarquias mais corruptas acima do Equador?

A tresloucada aventura ucraniana comandada por Victoria Nuland (nomeada por Hillary e mantida e aplaudida por John Kerry), e pela OTAN, está obrigando a Europa ou a comprometer-se no tresloucamento dos EUA, ou a buscar linha independente.

George Soros (cuja voz agressiva já emerge como uma espécie Sheldon Adelson do Partido Democrata) exigiu recentemente pelas páginas da New York Review of Books, recentemente convertida aos neocons, que o ocidente entregue US$ 50 bilhões para que a Ucrânia se rearme, e que contabilize o dinheiro como um pagamento adiantado para conter militarmente a Rússia. O objetivo é a velha estratégia de Brzezinski: impedir que a economia russa seja integrada à economia europeia. Assume-se aí que alianças econômicas são, no mínimo, potencialmente alianças também militares, de tal modo que qualquer centro de poder sempre implica ameaça de independência econômica e, assim, também de independência política.

O Financial Times [só para assinantes] imediatamente passou a “exigir” o subsídio de US$ 50 bilhões de que Soros falara. Quando o presidente Obama disse que a ajuda militar dos EUA só incluiria “armas defensivas”, Kiev imediatamente o desmentiu: declarou que tinha planos de defender a Ucrânia até a Sibéria, para criar um “cordão sanitário”.


Primeira confrontação: o Acordo de Empréstimo do FMI tentará engessar a Rússia?

O FMI participa do confronto EUA x Rússia, na função de coordenar o refinanciamento da dívida externa do governo de Kiev. Já declarou que credores privados serão prejudicados, porque Kiev não poderá pagar o dinheiro que seus oligarcas gastaram na guerra ou roubaram diretamente para si. Mas e quanto aos 3 bilhões de euros que a Rússia emprestou, do seu fundo soberano, à Ucrânia, sob as condições de Londres, que impedem qualquer redução no valor a pagar? A Rússia reclamou que o orçamento da Ucrânia não prevê esse pagamento. Será que o FMI aceitará esse orçamento como aceitável para ‘resgate’, embora ameace a Rússia e a converta em credor de ódio? Se acontecer, que tipo de precedente estar-se-á criando, para negociações em dívidas soberanas, para o futuro?

As regras para quitação de acordos internacionais de dívidas foram atiradas em total confusão e torvelinho ano passado, quando o juiz Griesa, dos EUA, ofereceu interpretação altamente “personalizada” para a cláusula pari passu, relacionada a dívidas soberanas argentinas. Essa cláusula determina que todos os credores têm de receber igual tratamento. Mas, segundo Griesa (e só ele, em todo o mundo), significaria que, se qualquer credor ou fundo-abutre recusar-se a participar de algum recálculo da dívida que resulte em redução, todo o acordo de recálculo ficaria cancelado, e o governo soberano não poderia pagar nenhum de seus outros credores, e não interessa a jurisdição sob a qual os bônus das dívidas tenham sido emitidos.

Essa muito bizarra interpretação do que seja o princípio do “igual tratamento” jamais foi aplicada antes. As dívidas entre governos, devidas ao FMI, ao Banco Central Europeu e a outras agências internacionais não foram quitadas em pés de igualdade com dívidas do setor privado. Para o empréstimo que fez à Ucrânia, a Rússia tomou o indispensável cuidado de pôr-se sob a proteção das regras de Londres. Pois os diplomatas dos EUA não fazem outra coisa – aliás, abertamente, publicamente e muito barulhentamente – além de discutir meios para “engessar” a Rússia.

Pensaram até em “declarar” que os empréstimos da Rússia à Ucrânia (para ajudar a pagar pelo gás necessário para operar as fábricas e aquecer as residências) seriam “dívida de ódio”, ou forma de ajuda externa, ou que estariam sujeitos a sanções anti-Rússia. A meta é tornar a Rússia “menos igual”, transformando o conceito de pari passu que se aplica à dívida soberana.

Ucrânia - VENDIDA!
Assim como os fundos especulativos saltavam rapidamente para dentro da roda para complicar a quitação das dívidas argentinas, assim também há especuladores tentando arrancar restos de carne do cadáver da Ucrânia financeira – porque viram alguma possibilidade nessa área cinzenta. O Financial Times noticiou que um investidor norte-americano, Michael Hasenstab, has US$ 7 billion of Ucrânia debts, como também o Templeton Global Bond Fund. Novos especuladores podem estar comprando bônus da dívida da Ucrânia por metade do valor real, esperando recolher fortunas, caso a Rússia receba integralmente o que lhe é devido – ou, no mínimo, se assinar acordo com algumas concessões, para rápida quitação.

A confusão patrocinada pelos EUA pode manter presas as demandas financeiras da Rússia, em processos judiciais que se arrastarão por anos, exatamente como já se vê acontecer com a dívida argentina. Está em jogo, aí, a função do FMI como coordenador da dívida: será que o FMI insistirá em que a Rússia aceite cortes profundos no valor do que lhe é devido, como se fosse um fundo privado de especulação?

Esse tipo de conflito financeiro está-se tornando uma nova modalidade de guerra. As regras de empréstimos já aparecem submetidas à geopolítica da Nova Guerra Fria.

Esse campo de batalha foi aberto, porque os EUA têm-se recusado obsessivamente, em décadas recentes, a admitir a criação de um corpo internacional autorizado a avaliar a capacidade de pagamento dos países. Sem esse corpo legal de estabilização, todas as crises de dívidas soberanas convertem-se em “vale-tudo”, em “pegue-o-que-puder”, em que o Tesouro dos EUA sempre pode intrometer-se, para assaltar-ocupar-dominar.

A prática, nesses casos, é manter à tona os países da órbita de influência diplomática dos EUA (embora, sim, sob rédea curta), mas não qualquer país que insista em manter políticas independentes dos EUA (por exemplo, a Argentina e todos os países BRICS).

Analisada à frente, essa posição ameaça fraturar a finança global e criar uma esfera de influência monetária dos EUA, e uma esfera dos BRICS.

BRICS - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul
Os EUA têm-se oposto à criação de qualquer instância internacional para avaliar a capacidade das nações devedoras para saldar as próprias dívidas. Outros países têm pressionado para que se crie esse organismo, de modo a proteger as respectivas economias contra a anarquia reinante. Para os diplomatas dos EUA, a anarquia oferece oportunidade à diplomacia norte-americana para recompensar amigos e punir não amigos e “independentes.” Mas a anarquia financeira resultante parece menos admissível a cada dia, se se veem Argentina, Grécia, Irlanda, Espanha, Portugal, Itália e outros devedores soberanos, cujas obrigações já são impagavelmente altas.

O golpe de dois socos do FMI leva a privatização de bens nacionais e a ganhos extraordinários para os especuladores

Os empréstimos do FMI são feitos principalmente para permitir que governos paguem detentores de bônus e banqueiros. Não são feitos para serem usados em programas sociais ou na recuperação da economia doméstica. Os devedores soberanos têm de aceitar as “condicionalidades” do FMI, para receber dinheiro suficiente para pagar aos proprietários de papéis da dívida, que assim “livram-se” dos tais papéis e voam para longe, fugindo de qualquer redução na dívida e deixando para os “contribuintes” a carga do custo do capital voador e da corrupção.

A primeira condicionalidade é o princípio-guia de toda a economia neoliberal: dívidas externas podem ser pagas com o que se espreme de qualquer superávit em orçamentos nacionais.

O mito é que programas de arrocho [orig. austerity] e cortes em investimentos públicos pode(ria)m capacitar governos a pagar dívidas em moeda estrangeira – como se não houvesse “problema de transferência”.

A realidade é que o arrocho [orig. austerity] causa ainda maior encolhimento econômico e amplia o déficit no orçamento. E não importa o quanto se arroche a renda doméstica e o quanto dela seja desviado para fora da economia, só há dois meios possíveis para que algum país pague alguma dívida externa: ou exporta mais, ou vende mais patrimônio nacional a investidores estrangeiros. Essa segunda via leva à privatização da infraestrutura pública, substituindo serviços básicos subsidiados, por extração de lucros e futura fuga de capitais.

Economias fracas - FIQUEM CALMOS. TEMOS AS MAIS ATRATIVAS OPÇÕES DE SALVAMENTO!
Assim sendo, a “solução” do FMI para problemas de dívida só faz piorar o que já está ruim, piora que, por sua vez, exige mais liquidações para privatização.

Implica dizer que o FMI errou gravemente nas suas previsões econômicas para a Ucrânia, ano após ano. As mesmas “previsões” que devastaram a Irlanda, a Grécia e economias do 3º Mundo a partir dos anos 1970s. As políticas financeiras destrutivas do FMI têm de ser vistas como política deliberada, não como erros inocentes de previsão. Mas o castigo por seguir caninamente essas receitas econômicas podres cai sempre sobre o povo dos estados que se endividaram.

Imediatamente, na sequência das políticas de arrocho [orig. austerity], o FMI dispara o segundo golpe, em sequência. A economia devedora tem de pagar mediante a venda de patrimônio nacional que interesse aos investidores estrangeiros. No caso da Ucrânia, os investidores querem a rica terra agricultável do país. Monsanto tem arrendado terra ali, mas prefere comprar. A Ucrânia ainda tem uma lei que proíbe a venda de terras a estrangeiros. Não há dúvidas de que o FMI insistirá em que essa lei seja modificada, como insistirá também no desmonte de leis que criam condicionamentos para o investimento estrangeiro.

Finanças internacionais como arma de guerra

O que a negociação da dívida Ucrânia-FMI mostra é por que a finança tornou-se a modalidade preferida de guerra geopolítica, sempre escolhida pelos EUA. Os objetivos, aí, são os mesmos de todas as guerras: apropriação de terras e de matérias primas (os direitos ao gás no Mar Negro) e de infraestrutura (que são oportunidades para extrair lucros), e a compra de bancos.

Pentágono, nova sede do FMI
O FMI já se parece a um escritório especial, dentro do Pentágono, com sala alugada em Wall Street, dentro do prédio onde funciona a sede central do Partido Democrata, e quem paga o aluguel é George Soros. Os fundos que Soros comanda estão preparando uma lista de bens que ele e seus colegas querem comprar de oligarcas ucranianos e do governo controlado pelos oligarcas. A parte que os oligarcas receberão pela parceria não ficará na Ucrânia, e será rapidamente transferida para Londres, Suíça, Nova York. A economia ucraniana perderá patrimônio nacional com o qual emergiu da União Soviética em 1991, e continuará profundamente endividada (devendo principalmente aos próprios oligarcas ucranianos que operam em paraísos fiscais e bancos offshore).

E em que pé ficam, com tudo isso, as relações dos europeus com EUA e OTAN?

Dois futuros

Há uma geração, o futuro lógico para a Ucrânia e outros estados pós-soviéticos prometia ser integração com a economia alemã e outras economias da Europa Ocidental. Essa complementaridade que parecia natural veria o ocidente modernizar a indústria e a agricultura russas e de outros estados pós-soviéticos (também a indústria da construção), para criar uma potência regional eurasiana autossuficiente e próspera. Ainda recentemente, o Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, enunciou, na Conferência de Segurança de Munique, a esperança da Rússia, de ver uma União Eurasiana, ao lado da União Europeia, que se estenda de Lisboa a Vladivostok.

Há uma geração, a política alemã e outras políticas europeias olhavam para o leste, para investir as suas poupanças nos estados pós-soviéticos.

Essa possibilidade e a correspondente esperança sempre foram anátema para os neoconservadores norte-americanos, que defendem a geopolítica britânica vitoriana de opor-se à criação de qualquer centro de poder econômico na Eurásia. Foi o pesadelo da Grã-Bretanha antes da Iª Guerra Mundial, e levou os britânicos a praticar uma diplomacia de dividir para conquistar a Europa continental, para assim impedir que surgisse ali qualquer eixo de poder com possibilidade de tornar-se dominante.

Os EUA começaram sua estratégia para a Ucrânia com a ideia de separar Rússia e Europa, e sobretudo, de separar Rússia e Alemanha. No manual dos EUA, é simples: não há poder econômico que não seja potencialmente poder militar; e qualquer poder militar pode obrigar outros países a seguir suas políticas, em vez de deixá-las para sempre subordinadas aos objetivos políticos, econômicos e financeiros dos EUA. Assim sendo, os estrategistas norte-americanos veem como ameaça militar potencial toda e qualquer potência econômica – e todas têm de ser contidas antes de ganhar fôlego.

NÃO ALIMENTE O URSO RUSSO
Só assim se consegue compreender por que Yanukovich rejeitou o plano de “austeridade” proposto por UE/FMI: aquela “austeridade” toda, que extinguiria subsídios ao consumo e desmontaria os serviços públicos, teria levado a uma reação anti-ocidente, e empurraria a Ucrânia fortemente na direção da Rússia. E aí está também o motivo pelo qual os EUA patrocinaram o golpe de fevereiro em Kiev.

O golpe de Maidan visou a impedir que a Ucrânia optasse pela “saída” em direção à Europa. Para conseguir isso, o “ocidente” tratou de criar uma área de guerra que separasse a Ucrânia ocidental, deixando o país como se não houvesse outra saída que não seja recorrer ao ocidente... o que, pelo cálculo estratégico dos EUA, custará à Ucrânia toda a infraestrutura instalada no país, perdida para os privatistas e neorrentistas.

Mas o plano dos norte-americanos também pode levar a Europa a buscar uma ponte econômica para a Rússia e os BRICS, que a afaste da órbita dos EUA. Esse é risco diplomático inescapável, sempre que uma grande potência põe-se a forçar outras nações a escolher um ou outro lado.

O eloquente silêncio da Hilária

Depois de ter nomeado Victoria Nuland como herdeira representante do governo de Dick Cheney dentro do governo Obama, a ex Secretária de Estado Hillary já tem de ser vista claramente como instrumento dos falcões republicanos [e dos sionistas]; começou por pintar Putin como se fosse Hitler. Ao mesmo tempo, os US$ 10 milhões que Soros doa à campanha do Partido Democrata fazem dele voz que tem de ser ouvida. Os Democratas, assim, parecem prontos para o desafio final contra a Europa, pela modelagem da futura diplomacia geopolítica, já pressionando por uma Nova Guerra Fria.

Hoje, o silêncio eloquente em que a Hilária mergulhou depois de tudo que fez e disse como Secretária de Estado sugere que ela sabe o quanto sua política pró-falcões neoconservadores [e sionistas] é impopular entre os eleitores democratas – mas muitíssimo popular entre os doadores para a campanha dela à presidência. A questão é a seguinte: a maioria dos Republicanos concordarão com não discutir nada disso, durante a campanha presidencial de 2016? E se nada discutirem, que alternativa haverá para os eleitores em 2017?

Putin, Merkel, Hollande e Poroshenko em Minsk (11/2/2015)
Esse quadro provoca calafrios na Europa. Há notícias de que Putin disse bem claramente a Merkel e Hollande em Minsk, semana passada, que a Europa Ocidental só tem dois caminhos a escolher:


  1. a Europa Ocidental e a Rússia podem criar uma zona econômica forte e próspera, com as matérias primas russas e as tecnologias europeias; ou
  2. a Europa pode apoiar a expansão da OTAN, o que empurrará a Rússia à guerra que incendiará toda a Europa.

Funcionários alemães discutiram a criação de sanções contra a Ucrânia, não contra a Rússia, se persistir em sua guerra étnica e na visível tentativa de provocar a Rússia e arrastá-la à guerra. E se a estratégia neoconservadora de Obama sair-lhe pela culatra e os EUA perderem a Europa? E se os futuros livros de história trouxerem lições sobre o(s) governo(s) dos EUA que perderam a Europa – depois, claro, de também terem perdido a Rússia?
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[*] Michael Hudson (nascido em 1939, Chicago, Illinois, EUA) é pesquisador emérito e professor de Economia da Universidade do Missouri, em Kansas City. e pesquisador associado do Bard College. É ex-analista e consultor em Wall Street; presidente do “Instituto para o Estudo de Tendências Econômicas de Longo Termo” (Institute for the Study of Long-term Economic Trends - ISLET) e membro-fundador da “Conferência Internacional de Pesquisadores de Economias do Antigo Oriente Próximo” (International Scholars Conference on Ancient Near Eastern Economies - (ISCANEE). 
Seus dois livros mais recentes são The Bubble and Beyond e Finance Capitalism and its Discontents. O próximo livro tem o título de Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Bondage Destroy the Global Economy.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O nacionalismo ucraniano – natureza e raízes

24/2/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Outra vez, por falta de tempo e espaço, não entrarei na história da Organização dos Ucranianos Nacionalistas [orig. Organization of Ukrainian Nationalists, OUN] de Stepan Bandera ou da Divisão SS Galizien “Ucraniana” – vocês podem ler sobre isso na Internet.

Direi apenas que essas forças estiveram entre as mais mortíferas e cruéis de todas, na IIª Guerra Mundial. De fato, as piores atrocidades da IIª Guerra Mundial, não foram cometidas pelas forças de Hitler, nem pela SS, mas por forças integralmente inspiradas e apoiadas pelo Vaticano: a Croatian Ustashe de Ante Pavelic e os nacionalistas ucranianos.

Afinal, a Ustashe e os Banderovsty foram derrotados, mas muitos de seus membros não apenas sobreviveram à guerra como também prosperaram no exílio, a maioria nos EUA e Canadá, onde a Anglosfera os manteve longe da política real, mas suficientemente ativos para serem “descongelados” no caso de haver necessidade deles.

Não há dúvida possível de que, depois do final da Guerra Fria, o Império Anglo-sionista viu uma oportunidade para subverter e enfraquecer seus inimigos: os descendentes dos Ustashe foram encarregados de destruir a Iugoslávia; e os descendentes de Bandera foram encarregados de destruir a Ucrânia, pondo os restos o mais longe possível da Rússia. Ao mesmo tempo, nos dois locais, na Iugoslávia e na Rússia, os anglo-sionistas dirigiram outra de suas franquias terroristas – o wahabismo internacional, também chamado “al-Qaeda”, para unir-se aos neonazistas e papistas, numa luta comum contra a Iugoslávia e a Rússia ortodoxa/socialista. Depois disso, todos sabemos o que aconteceu na Iugoslávia.

Parte III: Ucrânia, de volta para o futuro

2014 – O ventre do qual nasceu a besta continua fértil

Agora, quero falar um pouco sobre a (agora ex-) “oposição” ucraniana. Durante os últimos meses, fomos informados de que estaria representada por três homens: Vitalii Klichko e seu movimento UDAR; Arsenii Iatseniuyk e seu Partido Batkivshchyna; e Oleh Tiagnibok, conhecido líder do Partido Liberdade. Claro que o verdadeiro líder do Partido Batkivshchyna sempre foi Yulia Timoshenko; mas dado que estava na cadeia, para onde foi mandada por Yanukovich, ela não podia participar diretamente dos mais recentes eventos.

A maioria dos observadores ocidentais descuidaram de perguntar se qualquer dessas figuras políticas realmente poderia controlar os “manifestantes” da Praça Maidan. Tampouco cuidaram de verificar como uma multidão armada só de pedras, tacos de beisebol, barras de ferro e coquetéis molotov foi “repentinamente” substituída por uma força bem organizada e bem armada que só se pode chamar de insurgentes. A força que realmente reunia mais poder de fogo, não era constituída de membros do UDAR, nem do partido Batkivshchyna, nem sequer do partido Liberdade. Os reais senhores da Praça Maidan e agora já de toda a capital Kiev é o chamado “Setor Direita” (Pravy Sektor), organização terrorista chefiada por Dmytro Yarosh

Dmytro Yarosh fala às suas tropas
Se a foto acima parece ter sido feita na Chechênia durante a guerra, é porque bem pode ter sido feita lá mesmo: muitos nacionalistas ucranianos combateram ao lado dos wahabistas na Chechênia, não raro sob a bandeira da organização terrorista UNA-UNSO. Também combateram na Geórgia contra a Rússia, daí as duas visitas de Saakashvili à Praça Maidan.

Seria lógico perguntar qual porcentagem do povo ucraniano apoia Yarosh e seu Setor Direita. É difícil dizer, mas não passa de minoria considerável, mas pequena. Segundo muitas estimativas, os líderes mais populares do novo governo são Timoshenko e Klitschko, seguidos por Tiagnibok – ou pelo menos eram, antes do golpe armado de domingo passado. Mas é detalhe pouco importante: a maioria dos chechenos nunca foi wahabista; a maioria dos croatas nunca foi Ustashe; e a maioria dos albaneses do Kosovo não era pró Exército de Libertação do Kosovo [ing. KLA]. E nada disso impediu que esses grupos minoritários, mas bem armados, obtivessem controle decisivo dos eventos.

Isso põe o novo governo da Ucrânia em posição muito difícil: ou aceita a agenda de gente como Yarosh e seu Setor Direita, ou arrisca-se a ser varrido por insurreição armada. Não esqueçamos que as forças militares da Ucrânia só existem no papel, e que as forças policiais não estão em condições de impor sua autoridade aos terroristas.

Selo emitido pelo Governo Yushchenko com o retrato de Stepan Bandera
Pior que isso: a presidência de Yushchenko demonstrou que os chamados nacionalistas “moderados” constantemente unem-se aos terroristas. Yushchenko chegou a fazer de Bandera “herói da Ucrânia” (decisão depois rescindida) e imprimiu selos com o retrato dele. O problema é que esse tipo de ação aparentemente inócua é, na realidade, a reabilitação de uma ideologia de genocídio; e envia mensagem aterrorizante e revoltante aos ucranianos do leste e aos russos que vivem na Ucrânia: estamos de volta e não viemos para brincar.

O detalhe tem passado despercebido, mais houve situação semelhante na Croácia, no momento em que a Iugoslávia partiu-se: os croatas, mesmo os chamados “moderados” não acharam nada mais inteligente a fazer que reintroduzir imediatamente a conspurcada bandeira dos Ustashe de Pavelic, como “símbolo nacional da Croácia”. Pode-se discutir até que ponto isso estimulou os sérvios de Krajinas a pegar em armas, mas com certeza contribuiu.

O mesmo está acontecendo agora na Ucrânia. Ao lado das bandeiras amarelo-azuis do oeste da Ucrânia, já se veem muitas bandeiras preto-vermelhas, a bandeira do Banderovsty, ao lado de todos os tipos e variantes de símbolos neonazistas. Outra vez, não importa, de fato, como muitos ucranianos estejam manifestando tendências genocidas; o que importa é como essas bandeiras genocidas são vistas no leste da Ucrânia ou pelos 7 milhões de russos que vivem na Ucrânia.

A reação ao golpe em Kiev foi imediata. Este foto mostra um comício na cidade de Sebastopol:

Manifestação pró-Russia (ver bandeiras) em Sebastopol em 23-2-2014
Estão vendo as bandeiras? Antes do golpe, comícios no leste mostravam quase exclusivamente a bandeira amarelo-azul da Ucrânia. Agora, as bandeiras são quase todas russas, com algumas bandeiras, também, da Marinha da Rússia: o povo está ou furioso ou assustado. Provavelmente as duas coisas. E o potencial de violência, assim, aumenta rapidamente.

Observem esse vídeo de uma tentativa de ativistas pró-governo organizarem uma manifestação na cidade de Kerch e vejam, vocês mesmos, como a situação sai rapidamente de controle. A multidão enfurecida começa a gritar “Fora!” e “Fascistas!”, mas os policiais perdem logo o controle da situação, e uma multidão ataca os ativistas nacionalistas. É olhar e ver o vídeo:


Exatamente como aconteceu na Croácia e na Bósnia, políticos da União Europeia e dos EUA ignoraram (por estupidez ou deliberadamente) que o medo gera violência a qual gera mais medo, depois mais violência, num ciclo de realimentação positiva praticamente impossível de deter.

Assim sendo, vamos, daqui, para onde?

Bem francamente, tinha alguma esperança de que Yulia Timoshenko conseguiria salvar a Ucrânia. Não porque goste dela, mas porque reconheço a força da personalidade dela, sobretudo se comparada aos políticos ucranianos terminalmente imbecis (Tiagnibok, Klichko) ou sem espinha dorsal (Iatseniuk, Yanukovich). Como disse ontem um jornalista russo: é bom ver aparecer, afinal, “um homem de verdade” no cenário político da Ucrânia. E, apesar dos seus muitos erros, Yulia tem, pelo menos, três coisas a seu favor: é muito inteligente; é mulher de vontade forte e é muito popular. Ou, pelo menos, era, antes de Yanukovich metê-la na cadeia.

Mas quando a vi, pela televisão, falando na Praça Maidan, numa cadeira de rodas, o rosto inchado, soando histérica e completamente indiferente ao fato de que estava cercada por neonazistas, comecei a ter minhas dúvidas. É claro que ela passou tempos muito difíceis nos calabouços de Yanukovich. E aos que digam que ela sempre foi tão completamente corrupta quanto os demais oligarcas, eu responderia o seguinte: enquanto os demais oligarcas veem o poder como meio para fazer dinheiro, Timoshenko vê o dinheiro como meio para chegar ao poder. Aí há enorme diferença.

Assim sendo, e diferente de Tiagnibok ou Yarosh, Timoshenko não tem ares de genocida, nem jamais se interessou pelo papel de “um Bandera moderno”. E, também diferente dos neonazistas típicos, Yulia é nominalmente ortodoxa, não “católica grega” (quer dizer, latina). Não que eu suponha que alguém aí seja muito religioso, não. Mas Timoshenko pelo menos não foi criada no ódio maníaco contra tudo que seja russo, no qual os “católicos gregos” são tipicamente criados.

Por fim, Timoshenko, com certeza absoluta, é suficientemente esperta para compreender que não há meio para manter a Ucrânia como estado unitário, se os neonazistas forem o poder de facto, seja diretamente ou através de fantoches “moderados”.

Yulia Timoshenko em cadeira de rodas  fala aos ocupantes da Praça Maidan 22/2/2014
Fui provavelmente ingênuo, mas tive esperanças de que Yulia pudesse manter a Ucrânia unida. Não, não, não porque eu seja defensor da “Ucrânia Independente”, mas porque entendo que qualquer solução será preferível à divisão da Ucrânia que, inevitavelmente se tornará violenta.

Por que a violência é aí inevitável?

Paradoxalmente, a principal causa, aqui, não são os seguidores de Bandera. Alguns deles, até, já falaram a favor de uma separação do oeste da Ucrânia, do resto do país. Tanto quanto sei, são minoria, mas mesmo assim é interessante que pelo menos alguns deles estejam percebendo que a ideia de converter toda a Ucrânia numa Galícia é simplesmente ridícula. Muitos nacionalistas, contudo, opõem-se furiosamente a qualquer divisão, por duas razões. Prestígio: sabem que a Ucrânia “deles” é, de fato, muito menor que a Ucrânia herdada da era soviética. E dinheiro: eles sabem que toda a real riqueza da Ucrânia está no leste. E também, por último mas não menos importante, os verdadeiros patrões dos fantoches nacionalistas ucranianos (os EUA) querem privar a Rússia de toda a riqueza do leste da Ucrânia, e da costa ucraniana do Mar Negro. Assim sendo, se há alguém à espera que os nacionalistas cedam graciosamente o divórcio civil entre oeste e sudeste do país, desista. É delírio. Não acontecerá, não, pelo menos, por referendo ou qualquer outra modalidade de consulta ou conversações.

A história também ensina que é impossível obrigar dois grupos a conviver, quando se odeiam e se temem reciprocamente. É impossível, pelo menos, sem MUITA violência.

Viktor Yanukovich
A situação no leste é tão simples quanto desoladora: Yanukovich está politicamente morto. O Partido das Regiões praticamente explodiu e novos políticos estão surgindo em Carcóvia, em Sebastopol e em outras cidades. Estão-se organizando grandes forças de autodefesa local, e a população está basicamente pronta para a luta. Dadas as atuais circunstâncias, são desenvolvimentos positivos. Pelo lado negativo, há o fato de que os oligarcas do leste ainda estão ali, prontos para trair o próprio povo por mais lucros (como as elites ucranianas fizeram durante a União de Brest); e de que as forças políticas locais estão, segundo a maioria dos relatos, sendo organizadas de modo amadorístico. Por fim, ainda há muita incerteza sobre o que a Rússia realmente quer.

E a Rússia, em tudo isso?

Entendo que a Rússia realmente quer evitar uma guerra civil na Ucrânia e que prefere uma Ucrânia separada, a qualquer divisão. Por quê? Consideram o seguinte:

Para a Rússia, uma Ucrânia separada e independente é, em primeiro lugar e principalmente, um meio para evitar ser arrastada para uma guerra civil. Se, digamos, Timoshenko conseguir suprimir os neonazistas e negociar algum tipo de modus vivendi entre, por um lado, o oeste da Ucrânia e Kiev, e, por outro lado, o leste e o sul da Ucrânia, não há dúvidas de que ela e Putin podem encontrar algum meio pacífico e pragmático de coexistência. Oh, não estou falando de um mar de rosas, que não acontecerá, mas pode-se pensar, pelo menos, em relações mutuamente benéficas, civilizadas e pragmáticas. Essa quase certamente é a opção preferencial do Kremlin (e ajuda a demonstrar o quanto são estúpidos e paranoicos os nacionalistas ucranianos – e Susan Rice – quando se põem a alucinar sobre uma invasão russa na Ucrânia).

A outra opção é os nacionalistas tomarem pleno controle de toda a Ucrânia. É extremamente improvável, mas... sabe-se lá. Já me decepcionei tantas vezes com políticos ucranianos, que raciocino como se sempre fossem capazes de tudo, qualquer coisa, por pior que seja.

Isso implicaria converter a fronteira russo-ucraniana em alguma coisa como o Muro que separava as duas partes da Alemanha durante a Guerra Fria, ou a Zona Desmilitarizada entre as duas partes da Coreia. De um ponto de vista militar, não é problema. Já escrevi que, ainda que a OTAN desloque tropas para a Ucrânia, o que farão, a OTAN, ali tão perto do território russo, ficará automaticamente convertida em alvos lucrativos: a Rússia deslocará número suficiente de mísseis Iskander para dar conta da lista de alvos, e estaremos conversados.

Base naval russa em Sebastopol, Crimeia- Mar Negro
Quanto à Frota do Mar Negro, a Rússia pode simplesmente se recusar a sair e pagar para ver se a OTAN tem estômago para tentar expulsá-la; ou pode preferir a opção custosa, mas possível, de voltar a ancorar sua frota em Novorossiysk (não que seja boa opção; não é; mas é melhor que nada). Seja como for, repito, esse cenário é muito, muito improvável.

O que nos deixa com a opção três: os nacionalistas tentam subjugar o sul e o leste, e não conseguem. A violência escalará e, eventualmente, a Rússia acabará envolvida. Em termos puramente militares, a Rússia pode derrotar muito facilmente qualquer exército ucraniano que tente opor-se a ela. Quanto à OTAN e aos EUA, não têm meios para deslocar algum tipo de “força tarefa conjunta combinada” para repelir os militares russos que se instalem na Ucrânia. Assim, ante a iminência de iniciar uma guerra nuclear mutuamente destrutiva, eles terão de aceitar os fatos em campo. Mas imaginem o pesadelo que resultará de uma operação militar russa no leste da Ucrânia! Seria uma volta a uma nova Guerra Fria, mas, dessa vez, inchada com muitos esteroides: políticos ocidentais se engalfinharão entre eles, tentando todos ser o primeiro a denunciar, declarar, ameaçar, condenar, proclamar, sancionar e prometer só deus sabe que tipo de delírios e estupidezes.

A russofobia histérica se tornará ordem do dia, e o Império Anglo-sionista terá finalmente encontrado o tipo de eterno inimigo que procura tão desesperadamente desde o final da 1ª Guerra Fria.

Se a coisa ficar realmente feira, e provavelmente ficará, a China provavelmente também acabará envolvida. Assim teremos exatamente o tipo de planeta com que a plutocracia do 1% sonha há tantos anos: a Oceania presa numa guerra total contra Eurásia e Ásia do Leste, exatamente como Orwell previu em 1984. Vide mapa a seguir:

Clique na imagem para aumentar
Rússia – ou China – absolutamente não precisam de nada disso. Mas, sim, há risco real de guerra civil na Ucrânia. Opção “menos ruim” para evitar esse cenário é providenciar para que os ucranianos do leste e do sul sejam suficientemente fortes, eles mesmos, para repelir uma invasão nacionalista, de modo que os militares russos possam manter-se fora do conflito.

Por tudo isso, há uma difícil ponderação-julgamento a ser feita pelo Kremlin. O Kremlin tem de decidir se:

(a) o povo do leste e do sul da Ucrânia são gente desorganizada, desmoralizada, tornada passiva pela ação de oligarcas corruptos e, basicamente, gente incapaz de se autodefender;

ou se

(b) o povo do leste e do sul da Ucrânia são gente unida, organizada e decidida a fincar pé e dar combate aos neonazistas até o último tiro.

No primeiro caso, o Kremlin terá basicamente de proteger as fronteiras russas e preparar-se para gerir as grandes ondas de refugiados que inevitavelmente cruzarão a fronteira.

No segundo caso, o Kremlin garantirá forte incentivo para ajudar os ucranianos do leste e do sul por todos os meios possíveis, até o limite de intervenção militar direta.

As duas vias são perigosas e nenhuma delas é preferível a uma Ucrânia unida e governada por líder que seja, no mínimo, mais ou menos racional. Por isso eu, pelo menos no estágio inicial desse confronto, espero que a Rússia REALMENTE apoie qualquer governo que seja só 50% mentalmente são em Kiev, na esperança de evitar a divisão da Ucrânia.

E EUA e União Europeia, em tudo isso?

Escrevi recentemente que EUA e União Europeia têm objetivos muito diferentes na Ucrânia: a União Europeia quer mercado para seus bens e serviços; os EUA querem ferir a Rússia, o mais possível. Já vimos a total falta de capacidade e competência dos burocratas da União Europeia e suas ingênuas tentativas para encontrar uma solução negociada. O objetivo da política externa dos EUA tem a vantagem de ser simples além de clara: “foda-se a Rússia” e “foda-se a União Europeia”!


Do ponto de vista dos EUA, quanto pior a situação, melhor para o Tio Sam. No pior dos mundos, a Rússia sai ferida; no melhor dos mundos, o sacrifício da Ucrânia dá aos EUA um maravilhoso pretexto para “proteger” a Europa contra o “re-emergente urso russo”, ao mesmo tempo em que defende a civilização, a democracia e o progresso. O sonho molhado de qualquer neoliberal neoconservador...

É onde entra o “Fator E” (“E”, de Estupidez pura e simples). O que muitas vezes parece ser resultado de algum plano maquiavélico cozinhado num porão profundo da Casa Branca, da CIA ou do Pentágono é muitas vezes exemplo quase inacreditável da estupidez verdadeiramente fenomenal de nossos governantes. Eles se creem tão poderosos a ponto de estarem dispensados de compreender uma cultura, uma história, uma língua estrangeira.

Afinal, se alguma política dos EUA fracassar completamente aqui ou ali, a resposta pode ser sempre a mesma: que se fodam! Fodam-se os iugoslavos! Fodam-se os sérvios! Fodam-se os iraquianos! Fodam-se os afegãos! Fodam-se os paquistaneses! Fodam-se os líbios e os egípcios e os palestinos e fodam-se os coreanos, os colombianos e os venezuelanos e, claro, fodam-se os canadenses, os mexicanos, todos os africanos e, claro, fodam-se os russos, fodam-se os chineses e foda-se o mundo inteiro. Não importa o quanto estúpida e destrutiva seja uma política dos EUA contra alguém, ou a política funciona ou fodam-se eles por lá!  A frase da Sra. Nuland bem poderia ser impressa como lema oficial no logotipo do Departamento de Estado ou da CIA.

Minha conclusão? Pessimista, é claro :-)

Os que têm lido meu blog nos últimos tempos não se surpreenderão se eu disser que, mais uma vez, cheguei a conclusão muito pessimista: o futuro da Ucrânia me parece terrível: o país está arruinado, não tem economia, é socialmente, culturalmente e politicamente não viável, e o mais provável é que seja governado ou por imbecis ou por racistas maníacos – e a maior potência do planeta não poupará esforços para acrescentar gasolina à fogueira. Tenham em mente que nenhum político ucraniano, nem um, um, que fosse, tem qualquer coisa remotamente semelhante a um plano para ressuscitar a economia ucraniana que, hoje, jaz morta. A única e última chance que havia para a Ucrânia foi o “respirador financeiro russo” – mas já foi desligado, pelo menos para o futuro próximo: os ucranianos, se quiserem que façam sua Revolução Banderovita; mas os russos não pagarão por ela.

O inferno da Ucrânia está escondido atrás da bandeira...
Em novembro passado publiquei um postado intitulado: Ucrânia “colorida”: abrem-se as portas do inferno, no qual previ boa parte do que aconteceu desde então:

Assumo que os euroburocratas e os nacionalistas ucranianos podem, sim, prevalecer; e que o presidente Yanukovich ou ficará no “zag” e reverterá a decisão anterior, ou perderá poder. De um modo ou de outro, me parece, os nacionalistas ucranianos prevalecerão. Haverá festa e fogos de artifício em Kiev, tapinhas em mútuas costas arrogantes em Bruxelas, e, na sequência, abrir-se-ão as portas do inferno, para a Ucrânia.

Estamos agora nesse ponto: a Ucrânia já atravessou as portas do Inferno e mergulhou já num longo ciclo de tragédia e violência. É verdadeira e imensamente triste. E a culpa por tudo o que acontecerá cabe, em primeiro lugar, àquelas forças que temerariamente abriram a Caixa de Pandora de ódios medievais e do século 20, e que estimularam o demônio nacionalista a atacar novamente; a culpa cabe também aos que a tudo assistiram sem nada fazer: políticos e líderes dos EUA e da União Europeia, dentre os quais não apareceu um, que fosse, para dizer a verdade.

Que ardam no inferno pelo que fizeram à Ucrânia.

The Saker