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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Geopolítica do cisma da Ucrânia

15/2/2014, [*] Immanuel Wallerstein, Common Dreams – La Jornada
Traduzido para o português pelo pessoal da Vila Vudu
Traduzido para o espanhol por Ramón Vera Herrera



Manifestantes antigoverno Yanukovich em Kiev (23/2/2014)
A Ucrânia está sofrendo cisma interno profundo já há algum tempo, cisma que ameaça converter-se em mais uma dessas guerras civis que acontecem em, cada dia, mais países. O território da Ucrânia atual inclui uma clivagem entre leste e oeste do país, que é linguística, religiosa, econômica e cultural, cada lado com perto de 50% do total.

O atual [hoje, ex] governo (que se diz que é dominado pela metade leste) tem sido acusado em comícios, pela outra metade, de corrupção e autoritarismo. Não há dúvidas de que é verdade, pelo menos em parte. Mas nada assegura que governo dominado pela metade oeste venha a ser menos corrupto e menos autoritário. Seja como for, a questão está internamente posta em termos geopolíticos: a Ucrânia deve ser parte da União Europeia ou deve tecer laços mais fortes com a Rússia?

Victoria Nuland
Nessa linha é, talvez surpreendentemente, a gravação que está sendo distribuída por YouTube, na qual a secretária-assistente de Estado dos EUA para Assuntos de Europa e Eurásia é ouvida em discussão de estratégia política norte-americana para a Ucrânia, com o embaixador dos EUA. Na gravação, Nuland põe a questão como luta geoestratégica entre EUA e Europa (mais particularmente contra a Alemanha). É apanhada num momento em que diz “Fodam-se os europeus” – os europeus, não os russos! (...)

Consideremos Victoria Nuland. Quem é ela? É membro sobrevivente da gangue neoconservadora que cercava George W. Bush, governo para o qual trabalhou. Seu marido, Robert Kagan, é um dos mais afamados ideólogos do grupo neoconservador. Questão interessante: o que está ela fazendo em posição chave no Departamento de Estado do governo Obama? O mínimo que o secretário de Estado John Kerry deveria já ter feito é remover os neoconservadores desses papéis chaves no governo.

Donald Rumsfeld
Agora, relembremos qual, exatamente, era a linha dos neoconservadores para a Europa, nos dias de Bush. O então secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, como se sabe, falava de França e Alemanha como “a Europa velha”, em contraste com o que via como “a nova Europa” – vale dizer, os países que partilhavam a visão de Rumsfeld a favor da então iminente invasão do Iraque. A Europa velha era, para Rumsfeld, a Grã-Bretanha, especialmente, e a Europa leste e central, os países que formaram o bloco soviético. Nuland parece ter exatamente a mesma percepção da Europa.

Permito-me oferecer minha opinião, de que a Ucrânia não passa de simples desculpa conveniente ou de encobrimento, para divisão geopolítica maior que nada tem a ver com o cisma interno no próprio país. O espectro que assombra as/os nulands do mundo não é uma talvez “absorção” da Ucrânia pela Rússia – eventualidade que não tiraria o sono das /dos nulands. O que aterroriza ela e os que partilham seu modo de ver é a aliança geopolítica de Alemanha/França e Rússia. O pesadelo de um eixo Paris-Berlin-Moscou havia retrocedido um pouco, depois do ápice em 2003, quando todos os esforços dos EUA para conseguir que o Conselho de Segurança da ONU apoiasse a invasão dos EUA ao Iraque, em 2003, foram derrotados por França e Alemanha.

O pesadelo havia retrocedido um pouco, mas permaneceu aí, sob a superfície, e por boa razão. Essa aliança faz perfeito sentido geopolítico para Alemanha / França e para a Rússia. E, em geopolítica, o que faça sentido tem grande peso, que nenhuma insistência em diferenças ideológicas consegue abalar muito. As escolhas geopolíticas podem ser alteradas, nunca muito profundamente, pelos que passem pelo poder, mas a pressão dos interesses nacionais de longo prazo permanecem fortes.

Rússia, França e Alemanha seria o eixo temido pelos neo-conservadores dos EUA?
Por que um eixo Paris-Berlin-Moscou faz sentido? Há boas razões. Uma delas é a virada dos EUA na direção de um Pacífico-centrismo, interrompendo sua longa história de Atlântico-centrismo. O pesadelo da Rússia, e também da Alemanha, não é uma guerra EUA-China, mas uma aliança EUA-China (que poderia incluir também o Japão e a Coreia). O único modo de a Alemanha reduzir essa ameaça à própria prosperidade e ao próprio poder é construir uma aliança com a Rússia. E a política alemã para a Ucrânia mostra, precisamente, a prioridade que a Alemanha dá a resolver as questões europeias mediante a inclusão, não a exclusão, da Rússia.

Quanto à França, Hollande tem tentado seduzir os EUA agindo como se a França fosse parte da “nova Europa”. Mas desde 1945 a posição geopolítica básica da França é o gaullismo. Presidentes supostamente não-gaullistas, como Mitterrand e Sarkozy, seguiram, ambos, de fato, políticas gaullistas. E Hollande não demorará a descobrir que não tem escolha, se não o gaullismo. O gaullismo não é “esquerdismo’”. Mas o gaullismo é a convicção de que os EUA ameaçam qualquer papel geopolítico continuado que a França aspire a ter; e a França tem de defender seus interesses abrindo-se para a Rússia, para conseguir um contrapeso contra o poder dos EUA.

Rei Canuto afastando o mar
Quem vencerá esse jogo? É preciso esperar para saber. Mas Victoria Nuland parece um pouco o Rei Canuto, [NTs. ler: O rei Canuto à beira-mar] ordenando ao mar que se afaste. E os infelizes ucranianos talvez descubram que estão obrigados a curar, eles mesmos, suas feridas internas, queiram ou não queiram.




[*] Immanuel Maurice Wallerstein (Nova Iorque, 28 de Setembro de 1930) é um sociólogo estadunidense, mais conhecido pela sua contribuição fundadora para a Teoria do Sistema-Mundo. Seus comentários bimensais sobre questões globais são distribuídos pela Agence Global para várias publicações. Interessou-se pela política internacional quando ainda era adolescente, se encantando com a atuação do movimento anticolonialista na Índia. Wallerstein obteve os graus de B.A. (1951), M.A. (1954) e Ph.D. (1959) na Universidade de Columbia, Nova Iorque, onde ensinou até 1971. Tornou-se depois professor de Sociologia na Universidade McGill, Montreal, até 1976, e na Universidade de Binghamton, Nova Iorque, de 1976 a 1999. Foi também professor visitante em várias universidades do mundo. Foi esporadicamente diretor de estudos associado na École de Hautes Études en Sciences Sociales, Paris, e presidente da Associação Internacional de Sociologia entre 1994 e 1998. Desde 2000, é investigador sênior na Universidade de Yale. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra em 2006 e pela Universidade de Brasília em 2009.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O Irã deve ter meios para responder à “finesse” de Obama

28/8/2013, [*] MK Bhadrakumar, Strategic Culture

Iran Can Finesse Obama’s Legacy

Traduzido por Resistir e adaptado para o português do Brasil pelo pessoal da Vila Vudu

Heil, Obama!
O presidente Barack Obama está fixando um novo precedente na história dos EUA como potência imperialista. Ele já praticamente pediu desculpas, antes de ordenar um ataque militar contra um país soberano com o qual os EUA não estão em guerra e que não ofendeu, nem remotamente, interesses e preocupações vitais dos EUA.

A administração Obama divulga antecipadamente que os EUA farão um ataque militar “limitado” à Síria. Quis informar, até, para quando se pode esperar o referido ataque – mais provavelmente na 5ª-feira. Quem agora duvidará de que Obama seria estadista humano e respeitoso?

Bashar al-Assad
Por ataque “limitado”, Obama quer dizer que não atacará diretamente arsenais de armas químicas, mas só os “sistemas de entrega”; significa que só atacará a Força Aérea Síria e as unidades do Exército capazes de efetuar um ataque com armas químicas. E quem esteja no comando das forças armadas do país e, portanto, nos sistemas de “comando e controle” das forças armadas sírias, também serão alvejados.

Em suma, o plano, por trás do ataque “limitado”, é degradar as forças armadas sírias. O objetivo político é claro. A administração Obama insiste em que não se trata de ataque para “mudança de regime”. Significa que os EUA e seus aliados teriam esperança de que, submetidas à imensa pressão da morte e da destruição, as forças armadas sírias automaticamente se porão, afinal, a questionar a qualidade da liderança do presidente Bashar Al-Assad, o que, por sua vez, pode levar a golpe contra ele, o que não seria “mudança de regime”, mas, mesmo assim, seria “mudança de regime” bem satisfatória.

Donald Rumsfeld
A experiência do Iraque ensinou aos EUA sobre a importância crucial de manter intactas tanto quanto possível as estruturas e instituições do Estado – leia-se, as forças armadas, o establishment de segurança e a burocracia – em países nos quais o regime mude de mãos de acordo com a vontade dos EUA.

O risco envolvido é grande porque, implícita nessa situação está tanto o “sabido” (o que se sabe que se sabe) como o “não sabido não sabido” (o que não se sabe que não se sabe e é, portanto, desconhecido), como advertiu certa vez o antigo Secretário da Defesa, Donald Rumsfeld. Para citar a declaração à imprensa de Rumsfeld em fevereiro de 2002: “Há saberes conhecidos; é o que sabemos que sabemos. Há incógnitas conhecidas, isto é, há coisas que agora sabemos que não sabemos. Mas também há incógnitas que não vemos; é o que não sabemos que não sabemos”.

Rumsfeld falava então no contexto do Iraque e prognosticava que os principais perigos da confrontação vinham das “incógnitas que não vemos”, que eram ameaças de Saddam e completamente imprevisíveis.

Situação na Síria em meados de junho/2013

Basta isso, para que se possa dizer que está muito longe de estar claro, seguro e garantido que o governo Obama alcançará seu objetivo, porque até agora só se considerou o que se sabe que se sabe da Síria. Mas, sim, está bem claro, num sentido muito mais vasto e profundo, o seguinte;

Primeiro: este movimento para atacar a Síria decorre de um plano mestre que os EUA (e a OTAN) mentem, desde o início, que não existiria. A arte da dissimulação, aperfeiçoada ao ponto supremo. Os EUA fizeram uma conversão abrupta na estrada que levaria a Genebra-2, sem se darem o trabalho de explicar por que, e unilateralmente concluíram, sem ter nenhuma prova real, que o governo sírio deveria ser considerado responsável pelos mais recentes ataques com armas químicas perto de Damasco.

Segundo: quando os tempos são difíceis, os EUA unem seus aliados e formam uma “coligação de vontades”. A desordem que houve entre, de um lado os EUA e de outro seus aliados do Golfo Pérsico (e Israel), sobre a mudança de regime no Egito, afinal, não passou de pequena altercação entre vendedores de mercado de peixe. Quando surge a necessidade e aparece o momento, eles infalivelmente se deslocam juntos, como lobos em alcateia.

Terceiro: os EUA interpretam unilateralmente o direito internacional e não têm pruridos para lançar ataques militares sem mandado do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Embora regidos por democracia que declara os valores da democracia “inclusiva”, os governos norte-americano agem sem qualquer atenção à opinião pública interna. Pesquisas de opinião nos EUA já mostraram que não chega a 10% a fatia dos norte-americanos que quer que seu país se envolva, seja como for, na guerra civil da Síria.

Quarto: Obama tem-se dedicado a jogar areia nos olhos da opinião pública mundial, criando a impressão de que não haveria mais “Afeganistões” e “Iraques” e que ainda cambaleia de sofrimento cada vez que chega mais um saco de cadáver, da guerra afegã, e ele tem de assinar a carta de condolências à família enlutada. A invasão dos EUA ao Iraque resultou na morte de centenas de milhares de civis inocentes, que não deixam cicatrizes na sensibilidade de Obama.

Mas a melhor e mais profunda lição que se pode extrair disso tudo, desde que os EUA começaram a contagem regressiva para atacar a Síria é outra, e exige outra pergunta: por que a Síria? Por que não a Coreia do Norte?

Coreia do Norte desfila sua força
Não é difícil responder. Como os analistas militares da CNN não se cansam de explicar, a nova guerra será operação militar sem risco de baixas norte-americanas. O ataque à Síria será encenado a partir do mar azul, com mísseis cruzadores. Não se usarão sequer aviões tripulados por norte-americanos, de medo que sejam abatidos.

Os analistas americanos explicam que as forças armadas sírias já estão super-tensas após dois anos de combate aos rebeldes por todo o país. Insistem que a Síria sequer conseguiu retaliar, contra repetidos ataques aéreos israelenses – algo impensável há apenas um par de anos. Em suma, a Síria não tem poder de dissuasão.

É onde Kim Il-Sung e Kim Jong-il mostram suas qualidades de líderes visionários. Ambos deixaram como herança ao atual governo de Kim Jong-un em Piongiang um poder de disuasão que obrigará Obama a pensar, não duas vezes, mas várias vezes, antes de atacar militarmente a Coreia do Norte. [1] E nesse ponto, exatamente, o pai de Bashar parece ter vacilado.

Kim Jong-un acena para o povo coreano (foto de 8/4/1013)
Para o Irã, doravante, tudo isso pode ser lido como peça dramática, com “moral da história”. Naturalmente, o regime iraniano observa com muito respeito e seriedade os decretos islâmicos (fatwas) que lhe vêm de seu Líder Espiritual e Supremo Líder, e que proíbem o estado de iniciar um programa para produzir armas nucleares. Mas, será sábio insistir na obediência?

Afinal de contas, é preciso primeiro estar vivo para obedecer decretos islâmicos – vale também para os persas. A questão é: o iminente ataque dos EUA à Síria deve ser escutado como estridente campainha de despertador, pelo regime iraniano. Deve despertá-lo, bem alerta, para a luta existencial que terão pela frente.

Mohamed Mossadeq
Como Teerã poderia levar a sério a palavra de Obama? Ainda na semana passada emergiu oficialmente dos materiais de arquivo dos EUA, que o golpe de 1953 contra Mohamed Mossadeq foi operação da CIA; e que os horrendos ataques com armas químicas das forças de Saddam Hussein só foram possíveis, porque Saddam contava com informações cruciais de inteligência que a CIA lhe fornecia.

O que, de tudo isso, teria mudado sob Obama? A liderança iraniana deve ponderar calmamente e coletivamente.

Seja qual for o resultado do iminente ataque dos EUA à Síria, e que está destinado a ter trágicas consequências, Teerã deve tomar uma decisão, que é crucial para salvaguardar-se contra agressão semelhante. O único meio de conseguir isso é construir para si o poder dissuasivo que a Coreia do Norte possui – e poder que mantém os predadores à distância.

A opinião pública mundial entenderá. Os mansos também têm direito moral à autodefesa – ainda que estejam longe de herdarem a terra como Deus profetizou. Essa seria, então, a mais refinada herança do governo Obama, ao mundo: um Irã nuclear.
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Nota dos tradutores
[1] Sobre isso, ver também, interessante: 5/9/2011, redecastorphoto em: Pepe Escobar: “O Amado Líder e o Oleodutostão, Asia Times Online.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

EUA: A guerra do Iraque foi impingida aos cidadãos


5/2/2013, Melvin A. Goodman, Consortium News
Traduzido e comentado (em vermelho) pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido num quiosque da Vila Vudu: Na imprensa-empresa nada é questão de “comunicação”, nem de “informação”. Na imprensa-empresa é questão de a quem interessar mais cada versão, a cada vez.


O jornal Washington Post continua a permitir que ex-membros do governo Bush [para o Brasil, pode-se ler: “O Grupo GAFE – Globo, Abril, Folha de SP, Estado de SP-  continuam a permitir que ex-membros de governos do PSDB-PFL/DEM...”], inclusive o ex-presidente George W. Bush, distorçam a informação sobre os EUA terem declarado guerra ao Iraque em 2003 [...“distorçam a informação sobre o que, para aqueles personagens do passado, teriam sido “sucessos” daqueles governos conservadores e neoliberais], atribuindo à CIA a decisão de usar força militar.

Na sessão “Outlook” do dia 3/2/2013 (Still Fighting over a flawed case for war/ Ainda defendendo uma guerra indefensável), o Post cita memórias de seis decisores chaves, que ainda não reconhecem, mesmo dez anos depois, que a Guerra do Iraque foi decisão preparada por longa sequência de mentiras e dissimulações.

George W. Bush
Jamais se discutiu a fundo sobre se a Casa Branca distorceu informações de inteligência que recebeu sobre o Iraque, ou se a CIA forneceu inteligência falhada à Casa Branca. A verdade é que os dois lados, a Casa Branca e a CIA participaram da distorção de informações e os dois lados montaram uma narrativa construída de mentiras, a qual foi impingida ao Congresso e ao povo dos EUA.

O artigo do Post elabora em torno da ira do secretário de Estado, Colin Powell contra funcionários da CIA que não o teriam informado de que seu discurso à ONU, em fevereiro de 2003, incluía afirmativas sem qualquer confirmação; e contra si próprio, por não ter “farejado” a fragilidade dos argumentos que a inteligência da CIA reunira a favor da declaração de guerra [Powell, em seu livro It Worked for Me: In Life and Leadership].

Colin Powell
O que Powell não diz é que o diretor do Gabinete de Inteligência e Pesquisa do Departamento de Estado esforçou-se o máximo possível para impedir que o Secretário de Estado, ao construir o discurso que faria à ONU, apostasse todas as suas fichas na inteligência que a CIA lhe encaminhara; que ele trabalhara durante quatro dias e noites nos escritórios da CIA, para elaborar um discurso à ONU; e que alertou Powell sobre os “informes” inventados reunidos na National Intelligence Estimate de outubro de 2002 (que Powell usou para fundamentar seu discurso).

De fato, Powell não deu qualquer atenção às várias fontes confiáveis que a CIA citava e que negavam qualquer presença de armas de destruição em massa nos arsenais do Iraque; e ignorou o que lhe dizia o ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Hans Blix, que lhe disse que “Jamais antes nação alguma confiou 100% na própria inteligência, trabalhando com 0% de informação”.

O ex-diretor da CIA, George Tenet, reconhece que “informação viciada” chegou, sim, ao texto do discurso de Powell, porque a CIA teve de perder tempo demais “fazendo a faxina, para excluir o lixo que havia no texto que a Casa Branca redigiu” para o discurso do secretário de Estado à ONU. [At the Center of the Storm: the CIA During America’s Time of Crisis, livro de Tenet].

A minuta da Casa Branca foi preparada por Lewis “Scooter” Libby e Steve Hadley; o secretário Powell leu e disse: “Isso, eu não leio. É só lixo”. Na CIA, ninguém perdeu tempo com “remendar” o tolo rascunho que Libby apresentou.

O ex-vice-presidente Dick Cheney foi fator decisivo que levou Powell a rejeitar a minuta da Casa Branca preparada por Libby e Hadley; principalmente porque omitia a informação sobre laços entre Saddam Hussein e o terrorismo, que incluíam “acusações que resistirão ao teste do tempo”. [In My Time: A Personal and Political Memoir, livro de Cheney].

A fonte primária da inteligência que associava o Iraque ao treinamento para a al-Qaeda, para uso de armas biológicas e químicas, foi um empresário que fabricava essas armas, fonte da Agência de Inteligência de Defesa, e informação já existente um ano antes do discurso de Powell. Outra fonte foi prisioneiro que os EUA entregaram aos egípcios para ser interrogado sob tortura; forneceu a informação em fevereiro de 2004, sete anos antes de Cheney escrever suas memórias.

O “Outlook” que o Post publica essa semana ainda omite a ordem que o secretário de Defesa Donald Rumsfeld deu aos comandantes militares várias horas antes dos ataques de 11/9, para que “avaliassem se havia [informação de inteligência] suficientemente confiável para atacar SH [Saddam Hussein] ao mesmo tempo (não só OBL [Osama bin Laden])”.[Known and Unknown: A Memoir, livro de Rumsfeld].

Donald Rumsfeld
Um assessor militar concedeu que era “difícil construir argumento forte”, mas o Pentágono “meteu tudo num pacote só [orig. sweep it all up]. Coisas que tinham e coisas que nada tinham a ver com o caso”. (Faz lembrar o que disse Tenet, diretor da CIA, ao presidente Bush: que reunir informes para oferecer ao povo dos EUA a favor da guerra seria “uma enterrada” [orig. slam dunk” – jogada de basquete, na qual o atacante chega sozinho à cesta e consegue “enterrar” a bola, sem marcação que o atrapalhe]).

O Post limita-se a citar Rumsfeld, que diz sempre “Eu não menti. A verdade, muito menos dramática, é que erramos”.

Assim também o presidente Bush diz, em seu livro Decision Points, que o discurso de Powell “refletiu o julgamento bem informado e bem pensado das nossas agências de inteligência, em casa e por todo o mundo” – o que também ajuda a denegrir o quadro do trabalho real que as agências fizeram e que Washington distorceu e desfez.

Condoleezza Rice
Além dessas vozes, também a então conselheira do secretário nacional de Defesa, Condoleezza Rice, argumenta que a CIA acreditava que Saddam Hussein teria reconstruído sua capacidade para usar armas químicas e biológicas e, inclusive, a capacidade nuclear do Iraque – embora toda a comunidade de inteligência tenha dito repetidamente ao governo Bush que os iraquianos estavam a anos de distância de poderem desenvolver alguma arma nuclear. [No Higher Honor: A Memoir of My Years in Washington, livro de Rice].

A única fonte de informação que confirmava a existência de laboratórios biológicos móveis era um agente conhecido pelo codinome “Curveball,” o qual, na verdade, negociava informação com os alemães, para tentar receber a cidadania alemã. Os alemães alertaram a CIA contra qualquer informação que lhes chegasse de Curveball; mas ninguém deu qualquer importância aos avisos dos alemães.

David Kay, chefe do Grupo de Acompanhamento do Iraque [orig. Iraq Survey Group], disse a Tenet que Curveball mentia e que não havia laboratórios móveis no Iraque, nem qualquer arma ilícita. O único resultado é que foi posto “de castigo” numa sala sem janelas, sem telefone e sem qualquer tipo de comunicação.

David Kay
Todas essas memórias de ex-funcionários do governo Bush culpam os serviços de inteligência pela decisão de ir à guerra no Iraque. Mas os discursos dos próprios personagens políticos, inclusive do presidente e do vice-presidente, confirmam que estavam decididos a seguir adiante, atropelando qualquer informe que os desaconselhasse a prosseguir com os planos já existentes para criar um estado de “guerra permanente” contra o terrorismo.

Todas as falas oficiais, que foram evidentemente revistas e aprovadas dentro da Casa Branca, tanto quanto pela comunidade de inteligência, são excelentes provas de que o governo Bush operou como elo indispensável para levar informação falsa ao Congresso, ao povo dos EUA e à comunidade internacional.

O jornal Washington Post, hoje, já poderia usar memórias já registradas em livro e nos próprios arquivos, para denunciar um presidente que servia de fachada a um processo de segurança nacional já marcado por decisões sem qualquer consistência ou coerência, um processo disfuncional de segurança nacional minado internamente por tensões entre o Pentágono e o Departamento de Estado e uma CIA também já viciada por interesses político-eleitorais-empresariais.

Mas, não! Em vez disso, o Post usou aquelas memórias para “informar” que teria havido alguma espécie de disputa de vida ou morte, em torno da guerra, entre o presidente e seus principais assessores-decisores políticos.

Quase uma década depois de iniciada essa inconcebível Guerra do Iraque, o povo dos EUA merece, afinal, receber melhor informação sobre o quanto foi organizadamente engambelado por seus principais representantes eleitos e pela imprensa-empresa a qual, parece, nunca muda.





Melvin A. Goodman* é ex-analista da CIA; é pesquisador sênior no Centro de Política Internacional e professor adjunto da Johns Hopkins University.  Seu livro mais recente é National Insecurity: The Cost of American Militarism [Insegurança Nacional: o custo do militarismo dos EUA] (City Lights Publisher, fev. 2013).

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Por que não deixam a OTAN bombardear sossegada?!

Pepe Escobar
9/4/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Se o ex-supremo do Pentágono Donald (“não sabidos sabidos”[1] Rumsfeld ainda está no ramo, deve andar furioso por não haver alvos bombardeáveis na Líbia – como tampouco havia no Afeganistão em 2001. Em matéria de pântano nos quais os EUA metem-se, a Líbia é pântano maior que o Vietnã, o Iraque e o Afeganistão somados. Mas há alguns “alvos” possíveis em umas poucas cidades ao longo da costa mediterrênea. 

A chuva de Tomahawks que Barack Obama fez chover sobre as forças de Muammar Gaddafi (e uns poucos prédios) já passou. Agora, o negócio foi entregue à OTAN, que deve impor lá a tal “ação militar cinética” (na novilíngua da Casa Branca), para assim fazer acontecer a tal “mudança de regime”. Com precisão à Tag Heuer, o desastre já tem hora marcada. A OTAN adoraria bombardear tudo que aparecesse, ao estilo “choque & pavor” – mas não pode. As forças de Gaddafi são invisíveis até nas telas de computador. 

Ninguém permanece no poder por 40 anos em país em desenvolvimento, sem aprender um ou dos truques militares de muito ilustres antecessores como Mao Tse Tung, chinês, ou Ho Chi Minh, vietnamita, para não falar do que sempre se aprende até de bandidos como Saddam Hussein no Iraque. Aprendida a lição que se aprende quando se deixam os próprios tanques no deserto, parados como pato, para serem bombardeados pela “coalizão de vontades” (uns poucos membros da OTAN, mais o Qatar), Gaddafi agora faz guerra leve, no melhor estilo guerrilheiro, contra os “rebeldes”. 

A resposta da OTAN tem sido mais previsível que as falas nas reuniões plurilíngues que acontecem em Bruxelas: acusações de que Gaddafi estaria usando escudos humanos e teria “dispersado” os próprios tanques em Misrata, pelas ruas e praças, dentro do perímetro urbano. Tradução: os Tornado/Rafale da OTAN são inúteis; só servem para bombardear colunas de tanque que desfilem ao sol do deserto, lustrosos, brilhando, resplandecentes como em dia de desfile-de-sete-de-setembro. 

Se a OTAN está furiosa, aquela malta de esfarrapados conhecida como “os rebeldes” está ainda muito mais furiosa – acusando a OTAN de não conseguir bombardear nem as cidades, nem os tanques, nem coisa alguma. O que prova que os próprios “rebeldes” – que já praticamente suplicaram que o ocidente assuma o trabalho sujo – tampouco dão alguma importância aos “danos colaterais”, mesmo que o dano colateral seja eles mesmos. Uma coisa é certa: se a OTAN fizer o que os “rebeldes” querem que ela faça, os danos colaterais serão horrendos. E a opinião pública europeia arrancará da tomada o fio que mantém em movimento essa tal de ação para mudar regime.

O circo só faz evidenciar uma vez mais que essa guerra nem guerra é: é só farsa. Franceses e britânicos já se autoconvenceram das próprias mentiras e repetem que o governo de Gaddafi agoniza. Também acreditaram nos próprios boatos segundo os quais esse saco de gatos de desertores do regime de Gaddafi, exilados de várias origens, jihadistas associados à al-Qaeda, empresários oportunistas e jovens sinceramente revolucionários teriam construído entre eles alguma coerência política e militar e – a piada máxima – seriam realmente representativos de toda a Líbia. 

Há algumas semanas, a Religare Capital Markets, em Londres, estimou em 75% a probabilidade de impasse total na Líbia [“guerra empatada”], com o preço do barril de petróleo Brent crude chegando a US$130). Até parece que o neolibertador de árabes Nicolas Sarkozy e consorte, o primeiro-ministro britânico David Cameron, não leem jornais. 

E a única ideia que ocorreu ao grupo não-OTANcêntrico – que veteranos das tropas de forças especiais britânicas treinariam os “rebeldes” e fariam deles máquina de combate ágil, pequena, competente, como se isso pudesse ser feito em dias ou semanas – foi proposta como “condição” para o cessar-fogo. 

A guerra que, de fato, ninguém quer, exceto Sarko e Cameron, está nas telas como refilmagem ridícula de filme dos Três Patetas (aceitam-se indicações para o papel de terceiro pateta). Dá nisso, meter-se em guerra civil africana, quando até os “mocinhos” são mais imundos que as águas do Golfo do México. O condomínio governo Obama/Pentágono já tirou de campo seu equipamento novinho em folha, modelos recém-lançados no mercado. O nome do jogo agora é “estratégias & ilusões da rápida retirada” [orig. mission creep. Sobre a expressão, ver ]. 

Na Sérvia, pelo menos, a OTAN sabia o que estava fazendo. Apoiou um “exército de libertação” (UCK) infestado de assassinos e traficantes, bombardeou empresas estatais (nenhuma empresa privada), usou bombas de fragmentação e de urânio baixo-enriquecido, de modo que, em seguida, as corporações multinacionais puderam assumir os negócios. E o Pentágono logo instalou enorme base militar no local (Camp Bondsteel) para policiar seu protetorado. 

A Resolução n. 1973 da ONU não permite que a OTAN faça tudo isso. Os membros ocidentais dessa “coalizão de vontades”, sobretudo franceses e ingleses, para não falar do Pentágono, rezam para que, no final do túnel, brote petróleo da terra aos borbotões e surja logo, por ali, a primeira base estratégica de AFRICON/OTAN no norte da África. Mas... quem garante? 

A única e última esperança de sanidade nessa loucura é a Turquia. O primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan propôs versão turca de um mapa do caminho para a paz na Líbia – criando corredores para chegada de ajuda humanitária e passos que levem em direção à democracia. A Turquia está em negociações com os dois lados e – pelo menos abertamente – não fala de “mudança de regime”. O mapa do caminho será discutido por alguns europeus, os EUA, alguns estados clientes do Oriente Médio e alguns poucos corpos internacionais, na próxima 4ª.feira no Qatar – reunião que, como já previmos, tem tudo a ver com orientar uma “transição” na Líbia. 

Esperemos. No pé em que estão as coisas, qualquer mapa do caminho terá de comaçar por conseguir arrancar de lá a OTAN das bombas.

Nota de tradução
[1] Orig. “knows unknows”. É expressão que o ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld usou, dia 12/2/2002: “Há sabidos sabidos, coisas que sabemos que sabemos. Também há sabidos não sabidos, coisas das quais sabemos que há detalhes que não sabemos. Mas também há não sabidos não sabidos: as coisas que não sabemos que não sabemos”. Na ocasião, falava sobre a absoluta falta de provas de que houvesse qualquer arma de destruição em massa no Iraque.