Mostrando postagens com marcador Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 15 de julho de 2014

Pepe Escobar: “BRICS contra o Consenso de Washington”

15/7/2014, [*] Pepe EscobarAsia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

BRICS - Construindo com "bricks" (tijolos)
A notícia do dia é que a partir de hoje, 3ª-feira (15/7/2014), em Fortaleza, nordeste do Brasil, o grupo dos BRICS, das potências emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul) começa a combater a (Des)Ordem (neoliberal) Mundial, com um novo banco de desenvolvimento e um fundo de reserva criado para contrabalançar crises financeiras.

O diabo, claro, reside nos detalhes de como farão tudo isso.

Foi estrada longa e sinuosa desde Yekaterinburg em 2009, na primeira reunião de cúpula do mesmo grupo, até o contragolpe longamente aguardado, dos BRICS contra o Consenso de Bretton Woods – do FMI e do Banco Mundial – e do Banco Asiático de Desenvolvimento [orig. Asian Development Bank (ADB)] dominado pelo Japão, mas sempre respondendo às prioridades dos EUA.

Banco de Desenvolvimento dos BRICS – com capital inicial de US$ 50 bilhões – não visará só a projetos dos BRICS, mas também investirá em projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável em escala global. O modelo é o BNDES brasileiro, que apoia empresas brasileiras que investem em toda a América Latina. Em poucos anos, alcançará capacidade para financiamento de mais de US$ 350 bilhões. Com fundos extras vindos de Pequim e Moscou, a nova instituição pode fazer o Banco Mundial comer poeira. Comparem:

(I) acesso a capital realmente existente gerado por poupança, e
(II) acesso a papel pintado de verde que o governo dos EUA imprime sem lastro.

Dilma Rousseff discursa na abertura da Reunião dos BRICS - Fortaleza, Brasil - 2014
E há também o acordo que estabelece um pool de US$100 bilhões de moedas de reserva – o CRA [orig. Contingent Reserve Arrangement, Acordo de Reserva de Emergência], que o ministro de Finanças da Rússia, Anton Siluanov, descreveu como “uma espécie de mini-FMI”. É um mecanismo de não-Consenso-de-Washington, contragolpe para neutralizar a fuga de capitais. Para esse pool, a China contribuirá com US$ 41 bilhões; Brasil, Índia e Rússia, com US$ 18 bilhões cada; e África do Sul com US$ 5 bilhões.

O banco de desenvolvimento deverá ter sede em Xangai – embora Mumbai muito se tenha empenhado em causa própria. (Para conhecer mais a posição da Índia sobre os BRICS, vide India Tribune, 14/7/2014, “Construindo sobre tijolos [ing. bricks] de solidariedade”)

Muito mais que de economia e finança, aqui se trata de geopolítica: potências que estão emergindo oferecem uma alternativa ao fracassado Consenso de Washington. Ora, afinal, como dizem os apologistas do Consenso, os BRICS podem bem conseguir “aliviar os desafios” que lhes são impostos pelo “sistema financeiro internacional”. A estratégia é também é um dos elos-chaves da aliança progressivamente mais firme entre China e Rússia, que já se viu firmemente amarrada no negócio do século, de gás, e no Fórum Econômico de São Petersburgo.

Vladimir Putin e Xi Jinping reencontram-se em Fortaleza, BR (15/7/2014)
Vamos ao jogo de bola geopolítica

Assim como o Brasil conseguiu, contra muitas expectativas, construir e oferecer uma Copa do Mundo inesquecível – apesar de a seleção nacional do Brasil ter-se liquefeito – Vladimir Putin e Xi Xinping chegam agora à mesma grande área para uma exibição de geopolítica categoria top.

O Kremlin considera altamente estratégica a relação bilateral com Brasília. Putin não se limitou a assistir ao jogo final da Copa do Mundo no Rio de Janeiro; além do encontro com a presidenta Dilma Rousseff do Brasil, também se reuniu com a chanceler alemã Angela Merkel (discutiram detalhadamente a Ucrânia). Um dos membros mais importantes da comitiva do presidente Putin é Elvira Nabiulin, presidenta do Banco Central da Rússia; ela tem divulgado em toda a América Latina o conceito de que as negociações com os BRICS devem deixar de lado o dólar norte-americano.

O encontro extremamente potente, emocionante, simbólico, entre Putin e Fidel Castro em Havana, além do cancelamento de US$ 36 bilhões da dívida cubana, não poderiam ter impacto mais significativo em toda a América Latina. Comparem a visita e o perdão da dívida, ao embargo perene e doentiamente vingancista que o Império do Caos impõe a Cuba.


Na América do Sul, Putin reúne-se não só com o presidente Pepe Mujica do Uruguai, com quem discutirá, dentre outros itens, a construção de um porto de águas profundas, mas também com Nicolás Maduro, da Venezuela e com Evo Morales, da Bolívia.

Xi Jinping também está em Fortaleza, Brasil. Visitará, além do Brasil, Argentina, Cuba e Venezuela. O que Pequim anda dizendo (e fazendo) complementa Moscou: a América Latina também é vista pela China como altamente estratégica. É ideia que se pode traduzir em mais investimentos chineses e maior integração Sul-Sul.

Essa ofensiva comercial/diplomática russo-chinesa integra-se ao movimento dessas potências na direção de um mundo multipolar – lado a lado com líderes sul-americanos. Exemplo claríssimo disso é a Argentina. Enquanto Buenos Aires, já mergulhada em recessão, ainda combate contra os fundos-carniceiros norte-americanos – o ápice da especulação financeira – nos tribunais de New York, Putin e Xi chegam a oferecendo investimento para tudo, de estradas de ferro à indústria da energia.

Claro que a indústria russa de energia precisa de investimentos e de tecnologia das multinacionais ocidentais privadas. E é verdade que a “Made in China” que se conhece desenvolveu-se sem investimento ocidental, mas explorando mão de obra barata. Agora, os BRICS tentam apresentar ao Sul Global uma escolha.

De um lado, a especulação financeira, os fundos-carniceiros e a hegemonia dos EUA, Patrões do Universo. Do outro lado, um capitalismo produtivo – uma estratégia alternativa para o desenvolvimento capitalista, se comparada ao que sempre fez e faz o “Trio” (EUA, UE e Japão).

Os fundos-carniceiros atacam...
Seja como for, ainda falta muito para que os países BRICS projetem um modelo produtivo independente do “modelo” de especulação & jogatina do capitalismo de cassino, o qual, por falar dele, ainda mal se recupera da crise massiva de 2007/2008 (a bolha financeira não rebentou “bem”...).

Há quem talvez veja a estratégia dos BRICS como parte de uma crítica construtiva, em andamento, em processo, em que o criticado é o próprio capitalismo: como livrar o sistema de ter perenemente de financiar o déficit fiscal dos EUA e sua síndrome da militarização planetária – relacionada ao complexo militar orwelliano/Panopticon – subordinado a Washington.

Como diz o economista argentino Julio Gambina, o importante não é ser “emergente”; o importante é ser “independente”.

Em coluna publicada essa semana em RT, Claudio Gallo, jornalista de La Stampa, introduz a questão que talvez seja a questão definitiva de nossos tempos: o fato de que o neoliberalismo – regendo quase todo o mundo, diretamente ou indiretamente – parece estar produzindo uma desastrosa mutação antropológica que nos está jogando, todos nós, num totalitarismo global (por mais que tantos falem tanto, praticamente sem parar, das “liberdades” das quais goza(ria)m no “ocidente”).

É sempre instrutivo voltar ao caso da Argentina. A Argentina está presa a uma crise de dívida externa gerada, há mais de 40 anos, pelo FMI – e atualmente “assumida” e perpetuada pelos fundos-carniceiros. O banco dos BRICS e o fundo de reserva, como alternativa ao FMI e ao Banco Mundial oferece a possibilidade de que dezenas de outros países escapem ao suplício argentino. Para nem falar da possibilidade de que outras nações emergentes, como Indonésia, Malásia, Irã e Turquia também passem a contribuir para as novas instituições.


Não surpreende que a gangue de Patrões do Universo ainda hegemônica esteja agitada, nas suas poltronas estofadas. O Financial Times resume o pensamento da City de Londres, notório paraíso do capitalismo de cassino.

Vivem-se dias entusiasmantes na América do Sul, em mais de um sentido. A hegemonia atlanticista ainda permanecerá por aí, como parte do quadro, é claro. Mas é a estratégia dos BRICS que indica o rumo a tomar, na marcha para futuro mais adiantado. E é a roda multipolar que continua a rodar.



[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire, Counterpunch e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today,The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
 Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O pesado passivo sino-russo

26/05/2014, [*] Philippe Grasset, Blog DeDefensa
Notes sur un monde à mille temps” (Le lourd passif sino-russe)
Excerto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo - 22 a 24/5/2014
Foi semana agitada e quase histórica, se não plenamente histórica, pelas regras dos eventos humanos. Veremos o que a história fará dessa semana. Navegamos da reunião de cúpula Putin+Xi às eleições europeias, com um pouco mais de exotismo achocolatado de uma Ucrânia que fez sua eleição presidencial, enquanto, um pouco antes, a partir de 23 de maio, o Fórum Econômico de São Petersburgo (espécie de Fórum de Davos à moda russa) reunira uma elite do mundo econômico globalizado na qual não se via – ausência proclamada e anotada – a parte americanista. (...)

Em todos os casos, numa dessas raras vezes nas quais podemos nos deleitar, é preciso registrar que essa sucessão de eventos, toda ela, aconteceu sem a presença alardeada e oficial da “nação indispensável” que finge ter arregimentado à sua volta o resto do mundo que conta; e que toda essa sucessão de eventos fez-se em torno quase sempre, mas nunca muito longe da nação que os EUA tanto querem isolar do resto do mundo. Em outras palavras, os EUA são a nação ‘indispensável’, mas dispensável; e a Rússia é a nação em torno da qual tudo está convergindo, mas “isolada”.

O que se vê nessa constatação irônica, não é nem “tendenciosidade” nem viés de classificação, mas, mais simplesmente, a demonstração já fatigada, de tanto que se repete, de que é preciso desconfiar sempre do que parece ser o ‘fato’ em cuja produção as narrativas washingtonianas tanto obram; e que é mais que hora de admitir que, nesse mundo de 2014, reina a desordem. Habemus Barack Hussein Obama (...)

The Economist: revista burríssima

Mas nem por isso passemos tão rapidamente por The Economist. É inegável que a revista tem talento para expor a narrativa do suprematismo anglo-saxão, para dar novo ânimo a certezas periclitantes, para reinflar a húbris quando ela murcha e tomba, como vela de dentro da qual o vento escapou. Mas, de fato, The Economist só faz deixar perceber uma completa ignorância. Tudo isso se condensa numa frase lá publicada, que retomamos aqui para desenvolvê-la, porque esse desenvolvimento nos permitirá explicar melhor a “aliança” sino-russa e o que pensam dela os anglo-saxões:

Há apenas 40 anos, Richard Nixon e Henry Kissinger persuadiram a China a voltar-se contra a União Soviética e aliar-se aos EUA.  

Não e não. Tal coisa nunca aconteceu!

Que erro! Que absoluto nada saber das realidades das grandes culturas, nos turbilhões ideológicos do século XX! E a revista The Economist quer fazer-nos crer, aliás, porque a própria revista crê, ela mesma, nessa tolice – é a ignorância que brota da húbris anglo-saxônica – que Nixon-Kissinger teriam conseguido, em 1971 o prodígio de desfazer a formidável aliança sino-russa! Assim se reforça a ficção que inventou a habilidade maquiavélica do anglo-saxonismo (Nixon-Kissinger). Mas fato é que dois anos antes, no verão de 1969, no rio Amour que separava as duas potências comunistas, guardas-de-fronteira chineses e guardas-de-fronteira soviéticos trocavam tiros. A URSS preparava planos de ataque nuclear contra a China, antes de a China ter tempo para organizar força nuclear considerável. (Os EUA, que foram indiretamente informados, intervieram com todo o seu peso, para convencer os soviéticos a não reagir).

Richard Nixon e Henry Kissinger passeiam em Viena, Áustria  - Maio de 1972
Se, durante os anos 1960s, os soviéticos armaram o Vietnã do Norte por envios marítimos que passavam por Haiphong (definida como alvo fora dos limites para aviões dos EUA, de medo de atingirem, por erro, algum cargueiro russo), foi porque a via por estrada de ferro, que seria mais simples, passaria necessariamente pela China, e as primeiras viagens-teste terminaram em pilhagens sistemáticas dos trens russos, pelos chineses (nenhuma pilhagem foi jamais feita pelo Vietnã).

Só um único acordo sino-soviético satisfatoriamente firme foi jamais assinado entre 1949 (vitória de Mao na China) e 1953 (morte de Stálin), porque Mao tinha certa proximidade de métodos com Stálin, e, isso, apesar da experiência de uma URSS mais disposta a apoiar Chang Kai-Check contra o PC chinês durante os anos 1930. Quanto ao resto, os chineses jamais pararam de fazer chover cataratas de insultos contra os dirigentes soviéticos que vieram depois (Mao detestava Krutschev e nunca nem quis saber de Brejnev), todos classificados como “revisionistas” insuportáveis. O aggiornamento de 1971, de Nixon-Kissinger, com um Mao já envelhecido e um Chou En-lai que se curvava fleumático, era previsível, escrito na natureza das coisas, e evidentemente agradava aos chineses.

Tudo isso para dizer que não se trata, absolutamente, de ressuscitar, hoje, uma aliança sino-russa que nunca existiu.

William Rogers, Secretário de Estado (E); o então presidente dos EUA, Richard Nixon (C) e o presidente da China, à época, Chu Enlai, reunidos em Xangai em Fevereiro de 1972
Estereótipo à maneira anglo-saxônica

Assim, o espírito anglo-saxão que dirige o juízo geral do Bloco Atlanticista Ocidentalista (“bloco BAO”), persuadido do próprio brio e da própria visão avançadíssima, acabou por ficar, ele próprio, totalmente cativo dos estereótipos da Guerra Fria. (O grande experimento de Nixon-Kissinger – porque sim, foi um experimento – não foi, é claro, desfazer uma aliança que não existia, mas, isso sim, fazer EUA e Washington engolirem uma aproximação com a China, no momento em que a pulsão anticomunista dominava todas as cabeças, e metia a China de Mao, necessariamente, como parceira fundamental da URSS.

Essa situação explica também a tática adotada, de segredo total das negociações EUA-China, guardado até o último momento, da primeira viagem-surpresa de Kissinger, e tudo isso por medo de que as forças burocráticas em ação em Washington fizessem gorar o processo. Essa manobra bem-sucedida foi uma das causas do Watergate e da derrubada de Nixon pela versão verdadeira [sobre isso, ver comentário nesse blog Obama “é” Nixon, de 28/12/2009].)

Há pois dois paradoxos na atual situação.

O primeiro é que a política americanista desenvolveu-se depois da aceleração pela qual passou a crise ucraniana, segundo esse estereótipo da Guerra Fria, como se russos e chineses fossem novamente os aliados fundamentais da Guerra Fria (o que jamais foram), vale dizer: como se a aliança sino-russa se resumisse a uma dinâmica natural.

Samantha Power
O desestruturamento dessa política americanista é de tal ordem, reforçado por uma extraordinária arrogância de opinião e comportamento, que esse movimento que involuntariamente reforçou a aproximação russo-chinesa desenvolveu-se ao mesmo tempo em que os serviços do sistema de comunicação de Washington garantiam que a Rússia estaria “isolada” e que a China votaria conforme o desejo dos EUA, na Assembleia Geral da ONU. (A estupidez dessa sequência alcançou o auge quando a embaixadora Samantha Power dos EUA afirmou, no tom de certeza histérica que a caracteriza, que a abstenção dos chineses no voto que condenaria o referendo da Crimeia teria sido “prova” do alinhamento dos chineses às posições dos EUA. Como se sabe, era exatamente o oposto [ver o comentário de 28/3/2014).

Em outras palavras e para voltar à questão da dinâmica, a inacreditável pressão que Washington aplicou – seja contra a Rússia, na questão ucraniana, seja contra a China, na visita de Obama e no encorajamento anti-China que inflou entre os japoneses – provocou uma aceleração decisiva na aproximação sino-russa, que, a partir do encontro Putin+Xi tomou dimensão verdadeiramente estratégica. O cúmulo do ativismo americanista manifestou-se quando os EUA, adotando postura cenográfica à Snowden, acusaram a China de crime de “ciber-hostilidade” e inculparam quatro funcionários chineses (com fotos em cartazes de “Procurados”), no dia em que Putin chegava a Xangai.

Chama a atenção, aí, a rapidez da sequência de movimentos de política de arrogância patética dos EUA, em que se reuniram todas as imbecilidades possíveis, em sequência rapidíssima, para expor ao mundo o aspecto estratégico da aproximação sino-russa. Os EUA, excepcionais efetivamente, não fazem serviço pela metade.

A narrativa da entente Putin Obama

O segundo paradoxo é que o endurecimento dos antagonismos e o aspecto estratégico da aproximação sino-russa em pleno auge de crises desestabilizantes para os dois, faz-se em nome, principalmente, da moderação dos dois parceiros. Tanto Putin como a direção chinesa não deixam de exibir tendência centrista de extrema moderação na questão de suas relações com o Bloco Atlanticista Ocidentalista, por mais que o ‘ocidente’ os condene pelo oposto.

É essa moderação que impede chineses e russos de reagir com mais vigor, cada um de seu lado, às pressões do Bloco Atlanticista Ocidentalista, e é essa pressão antagonista do BAO que os empurra, para compensar o que se poderia tomar por fraqueza – com risco real de converter-se, sim, em fraqueza – a reforçarem-se mutuamente, exaltando a aproximação, até que a comunicação assuma o esboço de uma aliança estratégica fundamental.

Russos e chineses, adeptos obcecados da estabilidade e do equilíbrio nas relações internacionais, nada temem mais do que temem a desordem que a política dos EUA e do BAO suscita. Essa moderação de julgamento conduziu-os, paradoxalmente, por causa das pressões e desse sistema-extremismo do BAO que alimenta a desordem, a proclamar implicitamente uma aliança que também é vista como ato estratégico fundamental.

Pode-se ver facilmente que Putin a todo momento recoloca sobre a mesa sua vontade de moderação e apaziguamento. Diz que não se trata de segundo episódio da Guerra Fria, que ninguém quer (vide RT, 24/5/2014), – e todos lhe desejamos boa sorte!

Robert Parry
Robert Parry, do ConsortiumNews, em artigo de 24/5/2014, no qual detalha a política do Departamento de Estado dos EUA para a Ucrânia como “manual do fiasco diplomático”, garante que, segundo a narrativa habitual e à qual ele mesmo já muito contribuiu, que há uma nova tentativa de entente pessoal Putin-Obama, prevista para a ocasião das comemorações do desembarque de 6 de junho:

A questão chave na Ucrânia agora é: conseguirão Putin e Obama superar a histeria de bater no peito da Washington oficial, e desescalar a violência – bem como a retórica – para melhor sorte de todas as partes racionais que estão em confronto? Tenho informações de que Putin, embora irritadíssimo por Obama ter, de início, seguido a manada anti-Rússia, já recomeçou a trabalhar com Obama, com vistas a um possível encontro na Normandia, dia 6 de junho, nas cerimônias em honra aos 70 anos do Dia D.

Essa postura de Putin, que se considera ainda como tática e que é bem mais que apenas tática, acabou por atrair as críticas de seus principais seguidores, entre os quais dissidentes do bloco BAO.

Finian Cunningham
Por exemplo, eis o que disse Finian Cunningham, à rede PressTV.ir, dia 24/5/2014, sobre a declaração de Putin na qual reiterava que respeitaria “o veredito das urnas” na Ucrânia, dia 25 de maio:

O presidente Vladimir Putin da Rússia disse no Fórum Internacional de Negócios em São Petersburgo, que seu governo reconhecerá os resultados da eleição presidencial que se realiza nesse fim-de-semana na Ucrânia. Parece sinalizar considerável concessão que o líder russo faz, para aplacar o regime de Kiev apoiado pelo ocidente [...].

Mesmo assim, parece ser erro tático de Putin concordar com o que faça a operação de mudança de regime patrocinada pelo ocidente na Ucrânia e a campanha terrorista a que o regime está submetendo a população dissidente, e dar uma falsa credibilidade a uma eleição-farsa. Não se aplaca uma fera sem lei, com tapinhas no ombro. A fera sem lei – a Junta em Kiev apoiada por Washington – só entende a linguagem da força. Moscou melhor faria se condenasse aquele regime, como vinha fazendo até recentemente, e a ridícula eleição-farsa que a junta impostora está impondo ao povo ucraniano. Um governo de terroristas não deixa de ser governo de terroristas porque se oferecem algumas poucas urnas ao povo.

Sejam essas críticas fundamentadas ou não, e que Putin (e Xi) sigam visivelmente uma concepção moderada de política, nada disso impediu que se fizesse a aproximação sino-russa; assim sendo, as pressões prosseguirão pelo bloco BAO – o que implica que os dois países (Rússia e China), consequentemente, enfrentarão a necessidade de manter uma linha firme contra o bloco BAO. É uma lógica irresistível, que domina todos os atores, e que, para russos e chineses, os põe, finalmente e decididamente, no campo anti-Sistema.

Xi Jinping e Vladimir Putin em Pequim (maio/2014) - Acordo Santo Graal
Deslegitimação: fecha-se o círculo

Esses vários episódios mostram a grande desordem e a confusão das diversas políticas maquinadas pelo Sistema sapiens [orig. sapiens-Système] com as respostas antissistema que as acompanham e completam, ao final dessa “semana histórica”, “histórica” em sentido corriqueiro e “histórica” também por causa das notícias que saem do front democrático do exercício do direito de votar.

Por enquanto, não nos demoraremos na eleição triunfal do “rei do chocolate”, aplaudido como o salvador-mediador da Ucrânia dividida pela fúria e pela desordem. (Afinal, as notícias sobre o possível envolvimento do presidente checheno e de seus batalhões no caldeirão ucraniano podem revelar-se mais importantes...) Consideraremos aqui, agora, essas sim, a eleição do novo Parlamento Europeu, escrutínio em geral sem sabor nem vigor algum, mas que, dessa vez, toma dimensão extraordinária e inscreve-se sem hesitação nessa “semana histórica”.

Já se conhecem os resultados, e pode-se dizer que já se os conheciam antes, mas ver a coisa, aí, à nossa frente, é enorme choque psicológico. A compreensão do significado dessa eleição europeia vai contribuir um pouco mais a favor da empreitada já bem avançada de deslegitimar os sistemas-governança e sistemas-direção na Europa, e, com eles, a “ideia europeia”.

Enquanto o bloco BAO aí está em todos os cantos, de olho na brecha para ensinar suas surpreendentes lições de governança realista e moralista, mesmo assim ele continua a dissolver-se por dentro. De que valem tantas lições políticas na França e no Reino Unido, com essas eleições que dão o primeiro lugar ao Front National francês (25% dos votos) e ao UK Independence Party [Partido Independente do Reino Unido], UKIP britânico (28%), partidos que se situam necessariamente na lógica anti-Sistema?

Sobretudo a França, com seu sistema presidencial fortemente apoiado sobre a legitimidade, está hoje feito navio sem leme e timão para dirigi-lo, como bandeira sem mastro para içá-la. Há nisso tudo uma bela lógica: a crise da legitimidade francesa é perfeitamente proporcional à impostura das políticas feitas em nome da tal “legitimidade” depois de 2008-2009.

José Bové
Pode-se dizer, como dizia ontem à noite, em tom de lástima, o bravo José Bové, que trocou sua foice de insurgido anti-Sistema pela habitual recuperação-Sistema, que são apenas eleições europeias, “que as pessoas aproveitaram para votar na direita e manifestar sua cólera”. Parece ser bem verdade – embora pouco gentil com a Europa – mas é falar a favor do 25 de maio 2014, e sem avaliar o impacto do “fato democrático”, quer dizer: para ser séria a deslegitimação das autoridades oficiais, ela implica, pelo efeito contrário, a legitimação dos atos anti-Sistema, e seja qual for a via usada para impô-los.

... Mas o essencial, para nosso objetivo, continua a ser conectar esse evento à série que estamos examinando, a partir da reunião de cúpula sino-russa e do caldeirão ucraniano. Pode-se conectá-lo mediante uma observação sobre uma inesperada convergência, que amplia ainda a percepção desse fato maior da deslegitimação no interior do Sistema, essa terrível empreitada de cupins; vale dizer, a convergência entre a fúria popular contra as orientações políticas que as eleições europeias manifestam – o que legitima as eleições, curiosamente, pela via inversa – e a fúria das elites econômicas e investidoras, manifesta à meia-voz por um Reiner Hartmann, contra “essa gente que toma decisões políticas irresponsáveis” que captura as tais elites como reféns e atrapalha seus magníficos negócios russos...

Esses mesmos “irresponsáveis” deslegitimados pela sua base popular, que sofre sem alívio sob os golpes do sistema econômico que o Big Business lhes impõe, Big Business o qual, por sua vez, volta-se contra os “irresponsáveis” que o mesmo Big Business privou de poder político real... Fechou-se o círculo, full circle como dizem os amigos anglo-saxões, fechou-se o círculo das contradições do sistema levadas a um ápice de exacerbação particularmente rico e “federador” de várias crises, ao mesmo tempo crônicas e paroxísticas, segundo o dia, os humores e o gesto político. A infraestrutura crísica funciona que é uma beleza...

Uma escolha espiritual

... Porque, não há dúvidas, tudo está conectado, da aliança apertada e estratégica dos dirigentes ao mesmo tempo dentro do Sistema e anti-Sistema que são Putin e Xi, à estranha convergência da fúria dos oprimidos e dos opressores contra os mesmos “irresponsáveis” dos rumos políticos vítimas das manobras secretas do Sistema ao qual as manobras servem. O Sistema é efetivamente impiedoso. Devora seus filhos, os faz entre-destruirem-se uns os outros; semeia a tempestade e colhe os desastres do dia seguinte, até o ponto de sofrer, o próprio Sistema, em seus fundamentos; ele se autodestrói com a mesma voracidade que aplica a destruir toda e qualquer estrutura que atrapalhe seu caminho.

Nada disso tem qualquer sentido se não se lhe atribui um sentido de autoridade, vestindo o espetáculo dessa imensa desordem que se agarra com furor a quantos nós górdios e a quantas crises haja hoje dessa dimensão metafísica à qual recorremos constantemente, nós também. Ou nada compreendemos, porque nada há a compreender, e então nós balançamos sobre o nada a que fomos conduzidos por nosso niilismo; ou nada compreendemos, porque nosso olhar sempre habituado apenas aos sinais de nossa razão subvertida tampouco tem a necessária acuidade para franquear as dimensões decisivas.

Mais que uma conclamação objetiva da situação do mundo, há aí uma escolha para o espírito. É boa hora para falar do famoso “livre arbítrio” deles – que eles exerçam então o livre arbítrio, pela audácia do pensamento, mais que pelo respeito às encomendas [orig. audace de la pensée plutôt que par respect des consignes]...


[*] Philippe Grasset é argelino emigrado para a França em 1962. Bacharel em  Filosofia, três anos como publicitário e ao final de 1967 mudou-se para Liège (Bélgica), casou-se pela primeira vez (2 filhos 1970/71) e iniciou-se no jornalismo no diário La Meuse - La Lanterne, como cronista de política internacional e de segurança e também como crítico literário; Entre 1978/80 colaborou com publicações internacionais com crônicas sobre assuntos militares e de literatura. Tornou-se jornalista independente em 1985 lançando diversas publicações (Lettre d’Analyse); a editora Euredit SPRL (1987); Context (1994); e o sítio dedefensa.org (1999).

Quatro livros editados (3 ensaios; La drôle de détente em 1978, Le monde malade de l’Amérique em 1999, Chronique de l’ébranlement em 2003; e um romance histórico: Le regard de Iéjov em 1989) além de centenas de artigos.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Pepe Escobar: “O futuro visível em São Petersburgo”

30/5/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“O modelo de ordem mundial unipolar falhou”
22/5/2014, Vladimir Putin, São Petersburgo

Centro de Convenções do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo
Em mais de um sentido, o último fim de semana viu nascer um século eurasiano. Claro, com o negócio de gás de US$400 bilhões entre Rússia e China, anunciado no último minuto em Xangai, na 4ª-feira (28/5/2014)(complemento do negócio de petróleo, para 25 anos, assinado em junho de 2013, de $270 bilhões, entre a Rosneft russa e a CNPC da China).

Depois, na 5ª-feira (29/5/2014), a maioria dos principais atores lá estavam, no Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo – resposta russa a Davos. E na 6ª-feira (30/5/2014), o presidente Vladimir Putin, ainda sob a aura da glória alcançada em Xangai, falou aos participantes do FE; a casa veio abaixo, de tantos aplausos.

Será preciso mais tempo para avaliar o redemoinho que se viu semana passada, em todas as suas complexas implicações. Nessa página veem-se alguns dos destaques de São Petersburgo, em algum detalhe. Haveria menos altos executivos e presidentes de empresas ocidentais na cidade, porque o governo Obama pressionou-os a não ir – como parte da política de “isolar a Rússia”? Talvez um ou outro a menos, mas não muitos a menos; Goldman Sachs e Morgan Stanley não deram as caras, mas os europeus que realmente contam lá estavam, foram, viram, falaram e suplicaram por negócios.

Mais importante, havia asiáticos por todos os lados. Considere isso aqui como mais um capítulo do contragolpe-revide à chinesa contra o tour do presidente dos EUA Barack Obama pela Ásia em abril, amplamente descrito como tour de contenção contra a China.

Li Yuanchao e Vladimir Putin no 18o. Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo
No primeiro dia do fórum em São Petersburgo, assisti a sessão crucial (vide o programa), sobre a parceria estratégica Rússia-China. Prestem bem atenção: o mapa do caminho está, inteiro, ali. Como o vice-presidente da China, Li Yuanchao declarou:

Planejamos combinar o programa para o desenvolvimento do Extremo Leste da Rússia e a estratégia para o desenvolvimento do Nordeste da China, num conceito integrado.

É apenas um aspecto da coalizão Eurásia que está emergindo muito rapidamente, destinada a desafiar até o osso os excepcionalistas “indispensáveis”. Comparações com o pacto sino-soviético são infantis. O putsch na Ucrânia – parte do “pivô” de Washington para “conter” a Rússia – só serviram para acelerar o pivô da Rússia em direção à Ásia, o qual, mais cedo ou mais tarde se tornaria inevitável.

Tudo começa em Sixuan

Em São Petersburgo, de sessão em sessão e em conversas cuidadosamente selecionadas, o que vi foi a construção de blocos cruciais da(s) Nova(s) Rota(s) da Seda chinesa, cujo objetivo final é unir, pelos negócios e pelo comércio, nada menos que China, Rússia e Alemanha.

Para Washington, é além e muito pior que anátema. A resposta foi empurrar alguns negócios que, em tese, garantiriam o monopólio dos EUA sobre dois terços do comércio global: a Parceria Trans-Pacífico [orig. Trans-Pacific Partnership (TPP)] – que, na essência, foi rejeitada por asiáticos-chave como Japão e Malásia durante a viagem de Obama; e a ainda mais problemática Parceria Trans-Atlântico [orig. Trans-Atlantic Partnership (TAP) com a União Europeia, que os europeus médios absolutamente detestam. Esses dois negócios estão sendo negociados em segredo e só são lucrativos, de fato, para as corporações multinacionais norte-americanas.

Para a Ásia, a China por sua vez propõe uma Área de Livre Comércio do Pacífico Asiático; afinal, a China já é o maior parceiro comercial da Associação de Nações do Sudeste Asiático [orig. Association of Southeast Asian Nations (ASEAN)], de dez membros.

E para a Europa, Pequim propõe uma extensão da estrada de ferro que em apenas doze dias de viagem liga Chengdu, a capital de Sichuan, a Lodz na Polônia, cruzando o Cazaquistão e a Bielorrússia. O negócio total é a rede Chongqing-Xinjiang-Europa, com uma estação final em Duisburg, Alemanha. Não surpreende que esteja sendo planejada como a mais importante rota comercial do mundo.

Nova Rota da Seda entre Chongqing-Xinjiang-Duisburg na Alemanha
E tem mais. Um dia antes de ser assinado o negócio Rússia-China de gás, o presidente Xi Jinping pregou a criação de nada menos que uma nova arquitetura de cooperação para segurança asiática, incluindo é claro Rússia e Irã e excluindo os EUA. Ecoando de certo modo o que Putin dissera, Xi descreveu a OTAN como relíquia da Guerra Fria.

E adivinhem quem estava presente ao anúncio em Xangai, além dos “-stões” da Ásia Central: o primeiro-ministro do Iraque, Nouri al-Maliki; o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai e, crucialmente importante: o presidente Hassan Rouhani do Irã.

Os fatos em campo falam por eles mesmos. A China está comprando pelo menos metade da produção de petróleo do Iraque – e está investindo pesadamente na infraestrutura de energia iraquiana. A China investiu pesadamente na indústria afegã de mineração – especialmente na mineração do lítio e do cobalto. E é óbvio que China e Rússia continuam a fazer negócios no Irã.

Quer dizer... Eis o que Washington conseguiu com uma década de guerras, abusos incessantes, sanções as mais sórdidas e trilhões de dólares desperdiçados, mal gastos.

Não surpreende que a sessão mais fascinante à qual assisti em São Petersburgo foi sobre as possibilidades comerciais e econômicas em torno da expansão da Organização de Cooperação de Xangai [orig. Shanghai Cooperation Organization (SCO)], cujo convidado de honra foi ninguém menos que Li Yuanchao. Pode-se dizer com razoável certeza que eu era o único ocidental na sala, cercado por um oceano de chineses e centro-asiáticos.

A SCO trabalha para converter-se em algo que superará em tamanho uma espécie de contraparte da OTAN, focada principalmente no combate ao terrorismo e ao tráfico de drogas. Quer fazer grandes, grandes negócios. Irã, Índia, Paquistão, Afeganistão e Mongólia são observadores, e mais cedo do que se supõe serão aceitos como membros plenos.

Mais uma vez, eis aí a integração eurasiana em ação. O desdobramento em vários ramos da(s) Nova(s) Rota(s) da Seda é inevitável; o que faz ver, na prática, integração mais íntima com o Afeganistão (minérios) e o Irã (energia).

O boom na nova Crimeia

São Petersburgo também expôs bem claramente como a China quer financiar uma série de projetos na Crimeia, cujas águas, por falar delas, cheias de riqueza energética ainda não explorada, são hoje propriedade russa. Os projetos incluem uma ponte crucialmente importante que atravessará o Estreito de Kerch para conectar a Crimeia à Rússia continental; expansão dos portos crimeanos; usinas de energia solar; e até zonas econômicas especiais [orig. special economic zones (SEZs)] de manufaturas; Moscou, obviamente, interpretou tudo isso como gesto de aprovação, por Pequim, da reintegração da Crimeia à Rússia.

Depósitos de petróleo e gás no Mar Negro e oleogasodutos da Crimeia 
Quanto à Ucrânia, é preciso, sim, como Putin voltou a dizer em São Petersburgo, que pague as próprias contas. E quanto à União Europeia, como o presidente em final de mandato da Comissão Europeia, Jose Manuel Barroso afinal entendeu, é o óbvio: antagonizar a Rússia não é precisamente estratégia vencedora.

Dmitry Trenin, diretor do Carnegie Moscou Center, foi um dos raros bem informados a aconselhar o ocidente, embora de pouco tenha adiantado o conselho:

Rússia e China certamente passarão a cooperar cada vez mais intimamente (...). Esse resultado com certeza beneficia a China, mas dará à Rússia uma oportunidade para fazer frente à pressão geopolítica dos EUA, compensar pela reorientação da energia na União Europeia, desenvolver a Sibéria e o Extremo Leste da Rússia e ligar-se à região do Pacífico-Asiático.

De novo na estrada (da seda)

A aliança estratégica agora simbiótica China-Rússia – com a possibilidade de estender-se na direção do Irã – é O FATO fundamental em campo nesse jovem século XXI. Terá extrapolações para os BRICS, para a Organização de Cooperação de Xangai, para a Organização do Tratado de Segurança Coletiva e para o Movimento dos Não Alinhados.

Claro que os laranjas & testas-de-ferro de sempre continuarão a “ensinar” e a “noticiar” que o único futuro possível tem de ser qualquer um, desde que liderado por império “benigno”. Como se bilhões de pessoas em todo o mundo real – inclusive atlanticistas bem-informados – fosse idiotas o suficiente para acreditar nisso. É. A unipolaridade pode estar morta, mas o mundo, ainda tem, tristemente, de arrastar às costas o cadáver da unipolaridade. Segundo a nova doutrina Obama, aliás, o cadáver anda “empoderando parceiros”.

Parafraseando Dylan (“I left Rome and landed in Brussels[1] [Deixei Roma e aterrissei em Bruxelas]), eu deixei São Petersburgo e aterrissei em Roma, para acompanhar mais um episódio da lenta decadência da Europa – as eleições parlamentares. Mas antes disso, tive a felicidade de viver uma iluminação estética.

Visitei um quase deserto Instituto de Manuscritos Orientais da Academia de Ciências da Rússia, onde dois pesquisadores importantes, extremamente dedicados e a quem muito agradeço, ofereceram-me um tour privado por algumas peças da coleção que bem se pode dizer que é a mais fantástica do planeta, de manuscritos asiáticos. Como viajante serial fanático da Rota da Seda, eu já ouvira falar de muitos daqueles documentos, mas jamais vira qualquer deles. Até que... lá estava eu, às margens do Neva, menino em loja de doces (históricos), imerso naquelas maravilhas de Dunhuang à Mongólia, em védico ou sânscrito, sonhando passadas e futuras Rotas da Seda. Por mim, lá ficava até o fim dos meus dias.



Nota dos tradutores
[1] Música e letra de “When I Paint My Masterpiece” a seguir:


Oh, the streets of Rome are filled with rubble,
Ancient footprints are everywhere.
You can almost think that you're seein' double
On a cold, dark night on the Spanish Stairs.
Got to hurry on back to my hotel room,
Where I've got me a date with Botticelli's niece.
She promised that she'd be right there with me
When I paint my masterpiece.

Oh, the hours I've spent inside the Coliseum,
Dodging lions and wastin' time.
Oh, those mighty kings of the jungle, I could hardly stand to see 'em,
Yes, it sure has been a long, hard climb.
Train wheels runnin' through the back of my memory,
When I ran on the hilltop following a pack of wild geese.
Someday, everything is gonna be smooth like a rhapsody
When I paint my masterpiece.

Sailin' 'round the world in a dirty gondola.
Oh, to be back in the land of Coca-Cola!

I left Rome and landed in Brussels,
On a plane ride so bumpy that I almost cried.
Clergymen in uniform and young girls pullin' muscles,
Everyone was there to greet me when I stepped inside.
Newspapermen eating candy
Had to be held down by big police.
Someday, everything is gonna be diff'rent
When I paint my masterpiece.
_______________________

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.