Mostrando postagens com marcador Glenn Greenwald. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Glenn Greenwald. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

E que fim levaram os “humanitários” que iam salvar os líbios com bombas e drones?!

11/11/2014, [*] Gleen Greenwald e [**] Murtaza Hussain, The Intercept
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

David Cameron (E), Mustafa Abdul Jalil (C) e Nicolas Sarkozy os "herois" de fancaria na Líbia
Apenas três anos depois da intervenção militar pela OTAN contra a Líbia e com a intervenção elogiada pelos interventores como se tivesse sido retumbante sucesso, a Líbia é país em colapso total. A violência e a anarquia são de tal modo disseminadas, que “praticamente nenhum líbio consegue viver vida normal” – escreveu Stephen Kinzer, da Brown University, no Boston Globe, semana passada.

Mês passado, o Parlamento líbio, sem exército funcional que lhe garanta proteção contra milícias fortemente armadas, foi obrigado a fugir de Trípoli e abrigar-se num barco grego.

O New York Times noticiou em setembro que

(...) o governo da Líbia declarou (...) que perdeu o controle de seus ministérios para uma coalizão de milícias que tomou a capital, Trípoli, em mais um sinal claro do esfacelamento do estado.

A luta sectária e atraso nos pagamentos destruíram quaisquer tentativas que EUA e Grã-Bretanha tenham feito para treinar soldados líbios, o que levou os dois países, semana passada, a abandonar completamente programas futuros:

(...) nenhum único soldado foi treinado pelos EUA, porque o governo líbio não compareceu com o dinheiro prometido.

A Agência Associated Press noticia hoje que uma cidade inteira, Derna, rendeu-se e jurou fidelidade ao Estado Islâmico no Iraque e Levante [ing. ISIS],

(...) tornando-se a primeira cidade fora do Iraque e da Síria a unir-se ao ‘califado’ anunciado pelo grupo extremista.

Derna, invadida pelo ISIS, fica entre Benghazi e Tripoli
Relatório distribuído pela ONG Anistia Internacional há duas semanas, documentava que

(...) milícias foras-da-lei e grupos ilegalmente armados de todos os lados do conflito na Líbia ocidental, cometem cada vez mais e maiores crimes de abusos de direitos humanos, inclusive crimes de guerra.

Em suma, é quase impossível exagerar os horrores que os líbios são obrigados a enfrentar diariamente, e a miséria tomou conta do país.

Tudo isso leva a uma pergunta óbvia: que fim levaram todos os “humanitários” que tanto insistiram que seriam movidos por profunda e nobre preocupação pelo bem-estar do povo líbio, quando clamavam a favor da intervenção pela OTAN? Quase sem exceção, os que advogavam a favor de ação militar da OTAN em campo na Líbia sempre disseram que a ação seria motivada, não por objetivos primariamente estratégicos, ou pelos recursos naturais líbios, mas por puro altruísmo.

Nicholas Kristof, do New York Times, escreveu:

(...) a Líbia nos faz lembrar que às vezes é possível usar ferramentas militares para fazer avançar causas humanitárias.

Anne-Marie Slaughter, ex-assessora do governo Obama, clamava que

(...) a intervenção tinha a ver com manter “valores universais” os quais, por sua vez, encaminhariam na direção de alcançar os objetivos estratégicos dos EUA.

ISIS/ISIL chega em Derna, Líbia 
Ao justificar a guerra ante os norte-americanos (mais de uma semana depois de os ataques já terem começado), o presidente Obama decretou:

(...) há nações capazes de fingir que não veem atrocidades em outros países. Os EUA, não. Os Estados Unidos da América são diferentes.

O caso é que “fingir que não veem” as atrocidades atuais – e atualmente ainda muito piores que antes – na Líbia é, precisamente, o que fazem hoje os EUA, seus aliados e a grande maioria dos “humanitários” que tanto pregaram guerras e mais guerras. De fato, depois que o bombardeio foi suspenso, os pró-guerra só se mantiveram interessados na sorte do povo líbio por tempo suficiente para se vangloriarem da própria “clarividência” e para vingar-se dos que haviam discordado deles.

Slaughter teve sua “volta da vitória” com uma coluna assinada no Financial Times do dia 24/8/2011, sob o título:“Por que se comprovou que os céticos quanto à ajuda humanitária à Líbia sempre estiveram errados” [orig. Why Líbia sceptics were proved badly wrong]. Nessa coluna ela desqualifica todos que diziam que “ainda é cedo para avaliar” e que:

(...) em um ano, ou numa década, a Líbia corre o risco de desintegrar-se em conflitos tribais ou em insurgências islamistas, ou racha ao meio, ou apenas passa, de um ditador, para outro.

O parlamento líbio se esconde em um "ferry-boat"... grego!
E insiste que nada jamais poderia ser pior que deixar Gaddafi no poder. Assim sendo, então,

(...) a Líbia é a prova de que o ocidente, afinal, é capaz de fazer escolhas com sabedoria.

Assim também Kristof aproveitou seu momento de fama para celebrar o quanto sempre acertara em suas avaliações e previsões e balanços, para visitar Trípoli no mesmo mês de agosto, e de lá anunciou que os norte-americanos eram vistos como heróis pelos líbios agradecidos. Embora toda sua coluna fosse carregada de ressalvas, sobre inúmeras coisas que ainda poderiam acabar terrivelmente mal, o colunista mesmo assim não se envergonhou de escrever que:

(...) essa foi das raras forças de intervenção militar movidas por razões humanitárias, e teve sucesso (...) e que (...) só em raros momentos há forças militares capazes de promover direitos humanos. A Líbia até aqui é modelo para esse tipo de intervenção.

Quando a derrota de Gaddafi já era iminente o blog Think Progress, que apoia a Casa Branca, explorou as emoções resultantes (exatamente como os Republicanos fizeram quando Saddam foi capturado), para provocar os Republicanos: “Será que John Boehner ainda acha que as operações militares dos EUA na Líbia são ilegais?” – Como se assassinar Gaddafi pudesse justificar aquela guerra, mesmo depois de o Congresso ter negado autorização para os ataques, ou, então, como se o assassinato de Gaddafi pudesse, só ele, assegurar resultado que favorecesse os líbios.

Gaddafi assassinado
A mesma cena de patética autocongratulação repetiu-se também em outros países que participam da guerra.

No momento em que o Canadá encenava um espantoso desfile militar comemorativo da vitória na Líbia, com exibição de aviões da Força Aérea sobre o Parlamento em Ottawa, a Líbia mergulhava rapidamente na mais absoluta anarquia, noticiou The Chronicle Herald.

Em setembro de 2011, o Christian Science Monitor narrou como

(...) líderes ocidentais voam paraTrípoli para celebrar a vitória dos rebeldes e oferecer apoio à nova Líbia, cujo sucesso eles veem como modelo para outras revoluções árabes. O presidente francês Nicolas Sarkozy e o primeiro-ministro britânico David Cameron (na foto acima) mergulharam com prazer nos agradecimentos dos líderes favoritos da OTAN para a transição líbia, por terem combatido uma guerra “por razões exclusivamente humanitárias”.

Manchete da revista alemã Der Spiegel do dia 15/9/2011, anunciava:

Sarkozy e Cameron na Líbia: Heróis por um Dia.

Finalmente, o ocidente encontrara sua Boa Guerra, após a qual podia sentir-se puro e orgulhoso.

O mais espantoso aqui não é o quanto, ou como, tudo na Líbia saiu tão terrivelmente, tão tragicamente errado. Que sairia muito errado sempre foi dolorosamente previsível: qualquer um que preste atenção superficial que seja, hoje, sabe que matar “O” ditador-do-mal-do-momento (quase sempre algum ditador que os EUA apoiaram com muito empenho durante muito tempo) nada absolutamente gera, de bom, para o povo diretamente envolvido, a menos que, depois do fim da ditadura, venham anos e anos de apoio sustentado, para reconstruir as instituições civis. E mesmo assim, é difícil alcançar os melhores resultados. Esse, é claro, foi um dos principais argumentos de todos que se opuseram à intervenção Líbia: que nada se obteria de bom para o povo líbio, ao mesmo tempo em que a guerra custaria a vida de muitos líbios e geraria caos inenarrável.

Na Líbia os bombardeios “humanitários” pelos EUA-OTAN ocasionaram mais de 150.000 mortes diretas, 285.000 ferimentos incapacitantes e destruição quase completa da infraestrutura do país. Objetivos: ROUBAR o petróleo e a água.
(clique na imagem para aumentar)

O mais espantoso aqui não é o quanto, ou como, tudo na Líbia saiu tão terrivelmente, tão tragicamente errado. Que sairia muito errado sempre foi dolorosamente previsível: qualquer um que preste atenção superficial que seja, hoje, sabe que matar “O” ditador-do-mal-do-momento (quase sempre algum ditador que os EUA apoiaram com muito empenho durante muito tempo) nada absolutamente gera, de bom, para o povo diretamente envolvido, a menos que, depois do fim da ditadura, venham anos e anos de apoio sustentado, para reconstruir as instituições civis. E mesmo assim, é difícil alcançar os melhores resultados. Esse, é claro, foi um dos principais argumentos de todos que se opuseram à intervenção Líbia: que nada se obteria de bom para o povo líbio, ao mesmo tempo em que a guerra custaria a vida de muitos líbios e geraria caos inenarrável.

O mais espantoso é o descaramento, a temeridade desses advogados pró-guerra, que absolutamente apagaram a Líbia do seu horizonte, no instante em que acabaram os mais excitantes bombardeios aéreos e tiveram fim as suas gloriosas danças de vitória na guerra. Com raras notáveis exceções – como Juan Cole, que visitou a Líbia – praticamente todos os destacados advogados pró-intervenção na Líbia, tanto no governo quanto no “colunato-comentariato” midiático, esqueceram completamente a Líbia e o povo líbio – cujo bem-estar tanto os havia emocionado e comovido no plano humanitário: foi como se já não existissem! Com o país mergulhado em caos, violência, as ruas tomadas por milícias armadas, anarquia generalizada, resultado direto da intervenção pela OTAN, passaram a manifestar o mais total desinteresse; não buscaram, sequer, algo a fazer, alguma providência, alguma medida para conter ou para tentar reverter aquele colapso. O que aconteceu ao tal “humanitarismo” tão profundamente sentido?! Onde se meteram todos aqueles “humanitários”?!

O aeroporto de Trípoli é atacado por milícias 
Há todos os tipos de motivos para opor-se às chamadas “intervenções humanitárias”. Para começar, porque virtualmente todas as guerras, até as mais visível e declaradamente agressivas guerras de conquista (como a Guerra do Iraque) sempre são mostradas em embalagem “humanitária”.

Além do mais, seria de esperar que surgissem dúvidas imensas quanto à capacidade do ocidente para usar bombas e força militar – em terras tão distantes, com culturas complexas e radicalmente diferentes – de tal modo que, no fim, o ocidente ainda tivesse meios para manipular os desdobramentos políticos e sociais da guerra (exceto quando o objetivo das bombas é, precisamente, gerar o mais desgraçado caos, caso em que, sim, sempre se pode esperar que o ocidente seja bem-sucedido). Além disso, os custos da devastação e os custos humanos de pôr os poderosos militares norte-americanos a bombardear países distantes são imensos, e jamais seriam ‘compensados’ por supostos “benefícios”.

Mas a razão de mais peso pela qual se opor a essas guerras é que o “humanitarismo” não é o que motiva os EUA ou a maioria dos governos a enviar soldados armados para outros países. Se você duvida, basta ver como aquela suposta preocupação humanitária pelos líbios sumiu instantaneamente, no momento em que acabou a diversão, a sensação de glória, a autossatisfação pelas bombas disparadas.

Se houvesse alguma autenticidade naquele ostentoso humanitarismo, não teríamos visto tanto grande empenho em consumir enormes quantidades de dinheiro para destruir a Líbia. Por que não se viu empenho algum em estabilizar e reconstruir a Líbia, nem antes, nem durante, nem hoje, nem nunca? Por que, afinal, ante todo o horror do sofrimento dos líbios, não se ouve falar de programas de ajuda, e tudo o que se vê e ouve é envio de mais e mais drones, mais prédios e pessoas que voam pelos ares e aquela risadinha pervertida, doentia, sociopática, do “nós” vimos, conquistamos e O Vilão morreu? Vídeo a seguir: 


(...)

No desfile privado da vitória que promoveu para si mesmo, Kristof, do New York Times, escreveu que:

(...) a questão da intervenção humanitária voltará a aparecer aos olhos do mundo e, quando isso acontecer, nos lembremos da lição da Líbia.

Nisso, pelo menos, está absolutamente certo...
__________________________

[*] Glenn Greenwald (6 de março de 1967) é advogado um norte-americano, especialista em Direito Constitucional dos EUA, colunista, blogueiro, comentarista político e escritor estadunidense. Atualmente (2014), vive no Rio de Janeiro Brasil. Divulgou, inicialmente através do jornal britânico The Guardian, as informações sobre os programas de Vigilância Global dos Estados Unidos, que vieram as claras através dos documentos fornecidos por Edward Snowden. Foi colunista do sítio Salon.com, do jornal britânico The Guardian e atualmente, desde o início de 2014 lançou o site de notícias The Intercept, uma publicação da First Look Media, criado pelo próprio Glenn Greenwald juntamente com Laura Poitras e Jeremy Scahill.
Greenwald é premiado colunista de política nos Estados Unidos e autor dos best-sellers, How Would a Patriot Act? (2006), A Tragic Legacy (2007), e Great American Hypocrites (2008). Suas análises sobre a vigilância governamental americana e a Teoria da separação dos poderes são usualmente citados nos jornais The New York Times, The Washington Post e em debates no Senado e na Câmara de Representantes dos EUA.


[**] Murtaza Hussain é jornalista e comentarista político. Seu trabalho tem como foco Direitos Humanos, Política Internacional e Assuntos Culturais. Seus artigos são usualmente publicados no The New York Times, The Guardian, The Globe and Mail, Salon e vários outros meios de comunicação.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Para criticar a “mídia”, é preciso dar nomes aos bois!

A PROPÓSITO DE: 28/3/2014, [*] Glenn Greenwald, The Intercept [excerto]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 
A hipocrisia de tratar o Rei Abdullah como democrata e Maduro como ditador

Entreouvido na Viela do Xixi na Vila Vudu: Esse artigo não é nenhuma brastemp, não tem novidade, ainda não é propaganda política de democratização, mas já é jornalismo de democratização E É MUITO BOM, como exemplo disso. Greenwald é jornalista liberal e ainda crê no jornalismo liberal. Além disso, trabalha em ambiente de (muuuito) melhor jornalismo, que nós, cá no Brasil, condenados todos ao monopólio e à mediocridade quase INACREDITÁVEL do “jornalismo” das empresas imprensa do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão). Mas até Greenwald, por jornalista liberal que seja, JÁ SABE que se pôr a criticar “a mídia”, sem dar nomes aos bois, é perder tempo e energia.
Criticar “a mídia” só faz algum sentido e tem alguma serventia no mundo real, se a crítica inclui nome, RG, CPF, profissão e residência , bem divulgados, dos agentes da tal de “mídia”, os próprios jornalistas (editores e repórteres, todos, agentes discursivos MUITO MAIS DIRETAMENTE ATIVOS de fascistização da opinião pública, até, que os patrões deles), caso a caso: é indispensável dar nomes aos bois.
Ou só se critica uma palavra (a tal de “mídia”) e não se critica nem o pensamento (sujo) nem o serviço (ainda mais sujo) que OS JORNALISTAS, alguns políticos que sabem servir-se da tal de “mídia” e seus marketeiros são pagos para fazer e fazem (e alguns, jornalistas empregados fascistas sinceros, fascistas convictos, fariam também, igualzinho, mesmo que tivessem de PAGAR pra fazer).
Vejam aí que a crítica é personalizada, dirigida, nome, história, profissão e endereço e tuuuudo.

 
Tommy Vietor em casa
Tommy Vietor foi porta-voz do Conselho de Segurança Nacional do presidente Obama, no primeiro mandato. Deixou o posto para criar uma empresa de consultoria (associado a Jon Favreau, que escrevia discursos para Obama), a serviço da qual pôs seus contatos na Casa Branca, para construírem estratégias de ação nas redes sociais e na mídia em geral para empresas que negociam (grandes negócios) com o governo. Sua sala de trabalho, hoje, é adornada com pôsteres do presidente Obama (como se vê no vídeo).

A função de Vietor [não são INCRÍVEIS esses jovens empreendedores?! 8-))))))) [NTs]), que ele cumpre aplicadamente é simples: expressar e incorporar as ideias mais definitivas, mais convencionais, do que a Washington imperial pensa sobre ela mesma.

Na 2ª-feira (24/3/2014), Vietor foi ao Twitter, para atacar publicamente Oliver Stone, por ter manifestado seu apoio ao governo de Maduro na Venezuela:


[no tuíto:] @Oliver Stone: Como você pode apoiar Maduro, quando ele mantém ilegalmente presos líderes da oposição como #LeopoldoLopez?

Aí, claro, nada se vê além da velha tática preferida da Washington oficial: fingir cinicamente que se preocupa com direitos humanos, ao mesmo tempo que trabalha para minar governos que não obedeçam às ordens dos EUA.

Para os tommy vietors do mundo, o governo de Maduro não é ruim porque “mantém ilegalmente presos líderes da oposição”; é ruim porque se opõe a políticas dos EUA, recusa-se a obedecer ordens dos EUA e derrota, em eleições livres e populares, os candidatos neoliberais subservientes preferidos dos EUA. Até aí, nada de novo.
 
Tommy Vietor, vestindo trajes patrióticos
A coisa para de me parecer cômica, contudo, quando vejo a habilidade dos tommy vietors do mundo para convencerem, em primeiro lugar eles mesmos e, na sequência, também outros, de que conseguem distribuir esse tipo de “comentário”, sem serem imediatamente arrastados para praça pública, em desgraça. A mesma pessoa que invoca preocupações com direitos humanos a ponto de condenar publicamente Stone por apoiar governo democraticamente eleito na Venezuela passou anos apoiando tiranias – essas sim! – brutais e viciosas, que jamais foram eleitas para governar coisa alguma.

O governo Obama, do qual Vietor foi porta-voz, várias vezes forneceu armas ao governo do Bahrain para esmagar brutalmente manifestações democráticas de opositores do ditador. O mesmo governo Obama apoiou vigorosamente o repelente regime de Mubarak, aliado dos EUA por muito tempo, até que a queda tornou-se inevitável; Hillary Clinton, logo depois de nomeada Secretária de Estado, não teve pejo:

Realmente considero o Sr. e a Sra. Mubarak amigos de minha família.

Obama várias vezes abraçou os monarcas do Qatar, dos Emirados Árabes Unidos e do Kuwait. E tudo isso, independente do apoio político, financeiro, diplomático e militar inigualável que os EUA dão com prodigalidade a Israel, mesmo depois de décadas ininterruptas de ocupação, repressão e agressão aos palestinos.

E há também o mais íntimo dos aliados dos EUA, o principal, que é também uma das ditaduras mais brutalmente repressivas do mundo: a Casa de Saud. Durante o mandato de Vietor, o governo Obama revelou planos para entregar aviões de guerra à Arábia Saudita, negócio de mais de US$ 60 bilhões, o maior negócio de vendas de armas nos EUA em toda a história, e “conversações com o reino saudita sobre upgrades nos sistemas naval e de mísseis de defesa que poderiam chegar a mais dezenas de bilhões de dólares”.

Há cinco meses, o Pentágono anunciou “planos para vender à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos US$ 10,8 bilhões em armamento avançado, incluindo mísseis Cruiser ar-terra e munição de precisão”, um pacote que “inclui as primeiras vendas dos EUA a aliados no Oriente Médio das novas armas fabricadas por Raytheon e Boeing que podem ser lançadas à distância pelos aviões F-15 da Arábia Saudita, e F-16 dos Emirados Árabes Unidos”.

A Casa Branca de Obama repetidas vezes afirmou sua forte parceria com a tirania saudita.

Hoje [anteontem, 28/3/2014)], Obama chega a Riad, para garantir aos monarcas sauditas que os EUA continuam tão firmes como sempre na íntima parceria entre os dois governos, e tentar acalmar as ansiedades sauditas. Vai-se encontrar com o rei Abdullah, “terceiro encontro entre Obama e o rei, em seis anos”.


(...) tentar suavizar as relações com a Arábia Saudita, mostrando ao antigo aliado dos EUA que não está esquecido.

De fato “altos conselheiros do presidente dizem que a visita é um investimento numa das mais importantes relações dos EUA no Oriente Médio”.

Se você quer justificar tudo isso e argumentar cinicamente que seria benéfico para os EUA apoiar tiranias brutais e repressoras, OK, vá em frente. Pelo menos, será falar conforme age, postura honesta. Mas não se ponha a falar como se os EUA fossem alguma espécie de bastião contra a repressão política e a violação de direitos humanos, quando já se sabe que a verdade é, tão dolorosamente, o contrário disso.

E se você já trabalhou tanto, por tanto tempo, para garantir todos os tipos do mais irrestrito apoio vital a todos os regimes mais brutais do mundo, não se meta, agora, a fazer pose de líder da gangue, a criticar os que defendem governos mais democráticos e benignos.



[*] Glenn Greenwald (6 de março de 1967) é advogado um norte-americano, especialista em Direito Constitucional  dos EUA, colunista, blogueiro, comentarista político e escritor estadunidense. Atualmente (2014), vive no Rio de Janeiro Brasil. Divulgou, inicialmente através do jornal britânico The Guardian, as informações sobre os programas de Vigilância Global dos Estados Unidos, que vieram as claras através dos documentos fornecidos por Edward Snowden. Foi colunista do sítio Salon.com, do jornal britânico The Guardian e atualmente, desde o início de 2014 lançou o site de notícias The Intercept, uma publicação da First Look Media, criado pelo próprio Glenn Greenwald juntamente com Laura Poitras e Jeremy Scahill.3
Greenwald é premiado colunista de política nos Estados Unidos  e autor dos best-sellers, How Would a Patriot Act? (2006), A Tragic Legacy (2007), e Great American Hypocrites (2008). Suas análises sobre a vigilância governamental americana e a Teoria da separação dos poderes são usualmente citados nos jornais The New York Times, The Washington Post e  em debates no Senado e na Câmara de Representantes dos EUA.


quinta-feira, 6 de março de 2014

A propaganda domina as notícias

5/3/2014, [*] Paul Craig RobertsInstitute for Political Economy
Traduzido por João Aroldo


Gerald Celente chama a mídia ocidental de presstitutes, um termo sagaz que eu uso frequentemente. Presstitutes vendem-se a Washington para acesso e fontes do governo e para manter seus empregos.

Desde que o regime corrupto Clinton permitiu a concentração dos meios de comunicação dos EUA, não há independência jornalística nos Estados Unidos, exceto para alguns sites da Internet.

Glenn Greenwald
Glenn Greenwald ressalta a independência que a RT (Russia Today), uma organização de mídia russa, permite a Abby Martin, que denunciou uma suposta invasão da Ucrânia pela Rússia, em comparação com os destinos de Phil Donahue (MSNBC) e Peter Arnett (NBC), ambos os quais foram demitidos por expressar oposição ao ataque ilegal do regime Bush ao Iraque.

O fato de que Donahue tinha o programa com a maior audiência da NBC não lhe deu independência jornalística. Qualquer pessoa que fale a verdade na imprensa americana ou em rede de TV ou na NPR (National Public Radio) é imediatamente demitida.

A RT da Rússia parece realmente acreditar e observar os valores que os americanos professam mas não honram.


Greenwald é totalmente admirável. Ele tem inteligência, integridade e coragem. Ele é um dos bravos, a quem meu livro recém-publicado, How America Was Lost, é dedicado. Quanto a Abby Martin da RT, eu a admiro e tenho sido um convidado em seu programa várias vezes.

Minha crítica de Greenwald e Martin não tem nada a ver com a sua integridade ou seu caráter. Eu duvido das alegações de que Abby Martin fez exibicionismo quanto à “invasão da Ucrânia pela Rússia”, a fim de aumentar suas chances de passar para a “grande mídia” mais lucrativa. Meu ponto é bem diferente. Mesmo Abby Martin e Greenwald, que nos trazem tanta luz, não conseguem escapar totalmente da propaganda ocidental.

Por exemplo, a denúncia de Martin de que a Rússia “invadiu” a Ucrânia é baseada em propaganda ocidental de que a Rússia enviou 16.000 soldados para ocupar a Crimeia. O fato é que esses 16 mil soldados russos estão na Crimeia desde os anos 1990. Sob o acordo russo-ucraniano, a Rússia tem o direito de basear 25.000 soldados na Crimeia.

Abby Martin
Aparentemente, nem Abby Martin nem Glenn Greenwald, duas pessoas inteligentes e conscientes, sabiam desse fato. A propaganda dos EUA é tão penetrante que dois dos nossos melhores repórteres foram vitimados por ela.

Como já escrevi várias vezes em minhas colunas, os EUA organizaram o golpe de estado na Ucrânia a fim de promover sua hegemonia mundial, capturando a Ucrânia para a OTAN e colocando bases de mísseis na fronteira da Rússia, a fim de degradar a dissuasão nuclear da Rússia e forçar a Rússia a aceitar a hegemonia de Washington.

A Rússia não tem feito nada além de responder de uma forma muito discreta a uma grande ameaça estratégica orquestrada pelos EUA.

Não é só Martin e Greenwald que caíram pela propaganda de Washington. A eles junta-se Patrick J. Buchanan. A coluna de Pat convidando os leitores a Resistir ao partido da guerrana Crimeia abre com a afirmação propagandística de Washington: “Com o envio de Vladimir Putin de tropas russas na Crimeia...”.

Tal envio não ocorreu. Putin teve permissão da Duma russa de enviar tropas para a Ucrânia, mas Putin já declarou publicamente que o envio de tropas seria um último recurso para proteger os russos da Crimeia de invasões pelos ultranacionalistas neonazis que roubaram o golpe de Washington e se estabeleceram no poder em Kiev e na Ucrânia ocidental.

Então, temos aqui três dos jornalistas mais inteligentes e independentes do nosso tempo, e todos os três estão sob a impressão criada pela propaganda ocidental de que a Rússia invadiu a Ucrânia.

Parece que o poder da propaganda dos EUA é tão grande que nem mesmo os melhores e mais independentes jornalistas podem escapar de sua influência.

Que chance a verdade tem quando Abby Martin recebe elogios de Glenn Greenwald por denunciar a Rússia por uma suposta "invasão" que não ocorreu, e quando o independente Pat Buchanan abre sua coluna que discorda da turma que acusa a Rússia aceitando que houve uma invasão?

Toda a história que os presstitutes têm contado sobre a Ucrânia é uma produção de propaganda.

Urmas Paet
Os presstitutes disseram que o presidente deposto, Viktor Yanukovich, ordenou que os atiradores disparassem contra os manifestantes. Com base nestes relatórios falsos, os fantoches de Washington, que compõem o não-governo existente em Kiev, emitiram ordens de prisão para Yanukovich e querem que ele seja julgado em um tribunal internacional. Em uma ligação telefônica interceptada entre a ministra das Relações Exteriores da UE, Catherine Ashton e o Ministro das Relações Exteriores da Estônia, Urmas Paet, que tinha acabado de voltar de Kiev, Paet relata:

Agora há compreensão mais forte de que por trás dos snipers (franco-atiradores), não estava Yanukovich, mas alguém da nova coalizão.

Paet passa a relatar que:

(...) todas as evidências mostram que pessoas de ambos os lados foram mortas por franco-atiradores, tanto policiais como as pessoas das ruas, que eram os mesmos atiradores matando as pessoas de ambos os lados... e é realmente preocupante que agora a nova coalizão não queira investigar o que aconteceu exatamente.

Ashton, absorvida com planos da UE para orientar as reformas na Ucrânia e preparar o caminho do FMI para obter o controle sobre a política econômica, não ficou particularmente satisfeita ao ouvir o relatório de Paet de que as mortes foram uma provocação orquestrada. Você pode ouvir a conversa entre Paet e Ashton em: Kiev snipers hired by Maidan leaders - leaked EU's Ashton phone tape e a seguir a confirmação de Paet da veracidade do vazamento:


O que aconteceu na Ucrânia é que os EUA conspiraram contra e derrubaram um governo legítimo eleito e, em seguida, perderam o controle dos neonazis que estão ameaçando a grande população russa no sul e leste da Ucrânia, províncias que anteriormente faziam parte da Rússia. Estes russos ameaçados apelaram pela ajuda da Rússia e, assim como os russos na Ossétia do Sul, eles vão receber ajuda da Rússia.

O governo de Obama dos EUA e seus presstitutes vão continuar a mentir sobre tudo.
_____________________

[*] Paul Craig Roberts (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.