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quarta-feira, 17 de junho de 2015

EUA: Da Guerra Fria II ao McCarthyismo II


16/6/2015, [*] Robert ParryConsortiumnews
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 
Exclusivo: Com a Guerra Fria II em pleno andamento, o New York Times está tirando a poeira do que pode ser chamado de macarthyismo II e “sugere” que quem não entrar em consonância com a propaganda dos EUA deve estar trabalhando para Moscou relata Robert Parry.


Profetas


Talvez não seja surpresa que o mergulho do governo dos EUA nessa Guerra Fria II esteja trazendo de volta todos os temas da propaganda anticomunista e anti-Rússia e de promoção dos “valores” norte-americanos que dominaram a Guerra Fria I. Mesmo assim, é gravemente preocupante a rapidez com que a grande imprensa-empresa norte-americana já retomou os temas daqueles anos, especialmente o New York Times, que já emergiu como veículo preferencial de propaganda da Washington Oficial.
O que mais espanta no comportamento do NYT e de muitos outros veículos da grande imprensa-empresa comercial nos EUA é a absoluta falta de autocrítica e de autopercepção. Todos esses “grandes veículos” acusam a Rússia de fazer propaganda e comprar solidariedades, aparentemente sem ver que o que a Rússia talvez faça não é nem sombra do que o governo dos EUA faz comprovadamente e rotineiramente, servindo-se para tanto das empresas de imprensa & noticiário. O NYT e todos os demais veículos de comunicação de massa agem como se só Moscou fizesse o que todos eles fazem mais aplicadamente e mais frequentemente.
Caso exemplar foi a matéria de primeira página da domingo (7/6/2015) do NYT, sob a manchete Russia Wields Aid and Ideology Against West to Fight Sanctions [Rússia usa Ajuda e Ideologia contra o Ocidente, em luta contra sanções], o jornal “esclarece”:
Moscou mobilizou três diferentes armas, na avaliação de funcionários norte-americanos e europeus: dinheiro, ideologia e desinformação. [1]
O artigo, de autoria de Peter Baker e Steven Erlanger, pinta o governo Obama como se estivesse sem defesas, ante o massacre dos despudorados russos:
Com o governo Obama e seus aliados europeus já tendo de impedir que se alastre a intervenção russa, eles também têm de enfrentar luta interna, contra o que veem como ação planejada por Moscou para alavancar o próprio poder, financiar partidos e movimentos políticos europeus e disseminar versões diferentes sobre o conflito.
Como muitos outros artigos recentes do NYT, esse também reproduz acusações feitas por funcionários europeus e dos EUA, mas absolutamente sem qualquer investigação jornalística, sem provas e sem ouvir o lado russo, sobre as acusações.
Ao final da longa matéria, os autores citam palavras de uma funcionária da Brookings Institution, Fiona Hill, ex-funcionária da inteligência dos EUA, que faz rápida referência à ausência de provas: “O que não se sabe é quantas provas sólidas há de tudo isso”. E só. O leitor do NYT, caso esteja à procura de reportagem séria, nada encontrará além dessa suposta “voz do outro lado”.
Escrever/falar muito, para NÃO informar sobre os fatos
Com tudo isso, o aspecto que mais chama a atenção no artigo é o quão amplamente os jornalistas deixam de lado a gigantesca quantidade de provas de que o governo dos EUA e seus aliados estão financiando operações de propaganda e apoiando ONGs que nada têm de “não governamentais”, porque são constituídas e mantidas exclusivamente para favorecer e divulgar pelo mundo as políticas do governo dos EUA.


Além do mais, o jornal fracassa ao não reconhecer que muitos dos relatos dos próprios funcionários do governo Obama, quando falam de questões globais, são relatos de propaganda, para ativamente desinformar a opinião pública.
Por exemplo, já se sabe com certeza que praticamente tudo que o Departamento de Estado “informou” sobre o ataque com gás sarín dia 21/8/2013 na Síria era mentira. Inspetores da ONU só encontraram um foguete carregado com sarín – não a imensa quantidade de foguetes de que falaram inicialmente os funcionários do governo dos EUA – e era foguete de curto alcance, muito mais curto alcance do que “informavam” o governo dos EUA e o New York Times [ver NYT Backs Off Its Syria-Sarin Analysis (NYT obrigado a desmentir as próprias análises sobre Síria e gás sarin)].
Na sequência, depois do golpe de 22/2/2014 na Ucrânia apoiado pelos EUA, o governo dos EUA e o NYT converteram-se em fontes inesgotáveis de propaganda, mentiras e desinformação. Além de recusar-se a ver o papel chave que os neonazistas e outras milícias também de extrema direita haviam tido [e continuam a ter] no golpe e na violência subsequente, o Departamento de Estado só fez passar “informes” falsos, como adiante se comprovou, para que fossem publicados no NYT.
Em abril de 2014, o NYT publicou matéria de primeira página baseada em fotos que supostamente mostrariam soldados russos na Ucrânia. Dois dias depois foi obrigado a desmentir-se, porque se descobriu que o Departamento de Estado mentira sobre a ocasião e o local onde havia sido feita uma das fotos que “comprovariam” a invasão russa. Sem a foto-prova crucial, toda a matéria desmoronou como castelo de cartas [vide NYT Retracts Ukraine Photo Scoop (NYT obrigado a retratar-se, depois de publicar como verdadeira foto alterada em laboratório)].
Outras vezes, a propaganda veio diretamente de altos funcionários do governo dos EUA. Por exemplo, dia 29/4/2014, Richard Stengel, Subsecretário de Estado para Diplomacia Pública, emitiu uma Dipnote na qual denunciava que a rede russa RT estaria pintando “quadro perigoso e falso do legítimo governo da Ucrânia”. “Legítimo governo”, para Stengel, seria o grupo golpista que assumiu o poder depois que o presidente eleito Viktor Yanukovych foi deposto. Nesse contexto, Stengel definiu a rede RT como “máquina de distorção; não é organização de distribuição de notícias”.
Sem oferecer nem as datas nem o horário em que os tais programas que tanto o ofenderam teriam ido ao ar, Stengel reclamou da “incansável repetição, sem qualquer questionamento, da ridícula afirmação (...) de que os EUA teriam investido US$ 5 bilhões na mudança de regime na Ucrânia. Não são fatos, nem opiniões. São mentiras, e quando a propaganda se traveste de noticiário, ela cria novos perigos reais e dá luz verde à violência”.
Pois a “ridícula afirmação” de RT, sobre os EUA terem aplicado US$ 5 bilhões no golpe para derrubar o governo eleito na Ucrânia, logo foi confirmada em discurso público feito pela Secretária de Estado Assistente para Assuntos Europeus e Eurasianos Victoria Nuland e dirigido a empresários norte-americanos e ucranianos, dia 13/12/2013. Nuland informou àqueles empresários que “já investimos mais de US$ 5 bilhões” no que tem de ser feito para a Ucrânia alcançar sucesso em suas “aspirações europeias”. [Vide Who’s the Propagandist: US or RT?(Quem é propagandista: EUA ou RT)].
Pode-se seguir adiante com os muitos casos em que o governo dos EUA mentiu ou falseou informação verdadeira nessa ou em outras crises internacionais. O que importa é deixar bem claro que a Washington oficial não tem as mãos limpas no que tenha a ver com fazer propaganda e impô-la à opinião pública como se fosse noticiário e jornalismo, por menor que seja a probabilidade de você ser informado sobre esse perigo pela matéria do NYT na domingo (7/6/2015).
Financiar golpes, golpistas e golpismos
À parte a disseminação direta de desinformação, por ação comunicativa do governo dos EUA, o mesmo governo dos EUA também distribuiu centenas de milhões de dólares para manter organizações “jornalísticas”, ativistas políticos e ONGs que existem para promover as metas políticas dos EUA dentro de países-alvos. Antes do golpe de 22/2/2014 na Ucrânia, havia centenas de operações desse tipo no país, mantidas pela “Dotação Nacional para a Democracia” [ing. National Endowment for Democracy, NED]. O orçamento dessa NED, pago pelo Congresso dos EUA, é superior a US$ 100 milhões/ano.

Mas a NED, que é presidida pelo neonconservador Carl Gershman desde que foi fundada em 1983, é só uma parte do quadro. Há inúmeras outras frentes de propaganda ativas sob o guarda-chuva do Departamento de Estado dos EUA e de sua USAID (US Agency for International Development). [2] Dia 1º de maio passado, a USAID lançou informe em que faz relatório resumido do seu serviço de pagar jornalistas “amigos” em todo o mundo, incluindo
(...) formação e treinamento de jornalistas, desenvolvimento de empresas-imprensa, construir capacidades para instituições de apoio a empresas-imprensa, e fortalecimento do marco legal regulatório de proteção à liberdade de imprensa.
A agência USAID estimava em US$ 40 milhões anuais o seu orçamento para “programas de fortalecimento da mídia independente em mais de 30 países”, incluindo ajuda a “organizações de midialivrismo e blogueiros defensores da liberdade de imprensa em mais de 12 países”. Na Ucrânia, antes do golpe, a USAID deu treinamento a jornalistas interessados em “segurança na telefonia móvel e websites”.
A USAID, trabalhando com a ONG Open Society do bilionário George Soros, também financia o Projeto de Reportagem sobre Crime Organizado e Corrupção, engajado em “jornalismo investigativo” que se dedica a perseguir governos que tenham caído em desgraça em Washington, contra os quais se organiza sempre verdadeira barragem de acusações de corrupção. A ONG Projeto de Reportagem sobre Crime Organizado e Corrupção [ing. Organized Crime and Corruption Reporting Project, OCCRP], foi fundada pela USAID e também colabora com Bellingcat [3], website dito “investigativo”, fundado pelo blogueiro Eliot Higgins. [4]
Já várias vezes Higgins distribuiu informação falsa pela Internet, inclusive longos “relatórios” já desmentidos, que atribuíam ao governo sírio integral responsabilidade no ataque com gás sarín de 2013 (...), além de outras notícias que, na sequência, também foram desmentidas.
Apesar de seu duvidoso currículo no campo da seriedade jornalística e acuidade, Higgins é elogiadíssimo por jornalistas das imprensa-empresas comerciais, com certeza porque os “resultados” das “investigações” dele sempre coincidem perfeitamente com o tema de propaganda em que o governo dos EUA e seus aliados estejam promovendo. Enquanto outros blogueiros mais genuínos e visivelmente menos dependentes de empresas e governos dos EUA são ignorados (quando não são execrados e desqualificados) pelas empresas jornalísticas “amigas dos EUA” e seus jornalistas empregados, Higgins só ouve elogios.
Em outras palavras: faça a Rússia o que fizer para dar a conhecer a sua versão dos fatos na Europa e nos EUA e nos países da órbita das “comunicações” norte-americanas, o governo dos EUA, servindo-se de seus agentes diretos e indiretos de influência, sempre está a postos para fazer calar, seja a versão russa, seja qualquer outra versão que não seja... a dos EUA.
Guerra Fria I - Cortina de Ferro

De fato durante a Guerra Fria original, a CIA e a antiga Agência de Informação dos EUA [orig. US Information Agency] refinaram a arte e as técnicas da “guerra da informação”, incluindo a criação/invenção de alguns dos traços e formulações que estão hoje em circulação, como a presença de entidades ostensivamente autodeclaradas “independentes” [mas não se sabe (a) do que/quem seriam independentes, nem (b) do que/quem dependem para subsistir (NTs)]; e a implantação na sociedade da ideia de que noticiário distribuído por entidades públicas de informação e comunicação não teria qualquer credibilidade; mas qualquer autodeclarado “jornalista-cidadão” ou “jornalismo-cidadão” e/ou qualquer blogueiro autodeclarado “independente”, esses, sim, seriam confiáveis.
Assim se construiu a rede conceitual e prática da moderna propaganda. Nessa rede insere-se hoje o New York Times que apareceu ao mundo, domingo passado (7/6/2015), para “noticiar” que quem não repita a propaganda do governo dos EUA... com certeza já foi subornado pelo “ouro de Moscou”.
Assim sendo, agora que já temos ativada a propaganda mais ensandecida da Guerra Fria II, só resta temer, para breve, o macarthyismo II.
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Notas dos tradutores
[1] Ainda assim, D. Eliane Cantanhede faz pior que o NYT. Ela mobiliza dinheiro, ideologia, desinformação plus as “marketagens” do marido dela, publicista a soldo do tucanato udenista golpista no Brasil. O Estado de S.Paulo incluído nele D. Eliane Cantanhede, é jornalismo de segunda mão, fora de lugar, atrasista, golpista chato de ler e muuuuuuuuito tolo.
[2] A USAID norte-americana foi ativíssima no Brasil desde os primeiros dias da ditadura, em conluio com sucessivos Ministérios da Educação e Cultura da ditadura, colaboração que ficou conhecida como “Acordos MEC-USAID”. Para saber mais, leia Fora MEC-USAID!.
[3] Bellingcat é grupo de “jornalismo investigativo” [só rindo!] muito citado na Folha de S.Paulo: “Analista critica alegações de manipulação no caso do voo da Malaysia Airlines. O grupo de pesquisa Bellingcat acusou a Rússia de manipulação das imagens por satélite do desastre do voo 17 de Malaysia Airlines”. A notícia é incopiável, só acessível a assinantes do UOL, o que ninguém aqui é e jamais será.
[4] O que se lê na wikipedia, nesse verbete, deve ter sido redigido pelo próprio Higgins: é pura autopropaganda.
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[*] Robert Parry é um jornalista investigativo norte-americano.Recebeu Prêmio George Polk de Reportagem Nacional em 1984 por seu trabalho na Associated Press sobre o caso Irã-Contras quando descobriu envolvimento de Oliver North. Trabalhou como correspondente em Washington para a Newsweek. Em 1995 fundou o ConsorctiumNews, um espaço de noticiário liberal online dedicado ao jornalismo investigativo. De 2000 a 2004, trabalhou para agência Bloomberg. Parry escreveu vários livros, incluindo Lost History: Contras, Cocaine, the Press & “Project Truth” (1999) e Secrecy & Privilege: Rise of the Bush Dynasty from Watergate to Iraq (2004).

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Os anglo-americanos estão loucos

14/6/2015, [*] Finian CunninghamStrategic Culture
Tradução: mberublue

Philip Hammond, Secretário de Relações Exteriores

Se vivêssemos em um mundo são, o Secretário de Relações Exteriores da Inglaterra deveria ser obrigado a deixar seu posto de principal diplomata do país, coberto de desgraça e desaprovação, na sequencia de suas desastrosas declarações de que a Inglaterra deveria estar pronta para receber mais armas nucleares dos Estados Unidos, supostamente para conter a “ameaça russa”. Assim sendo, nós teríamos uma escalada alarmante das tensões internacionais e militarismo causados por ambos os países – Estados Unidos e Inglaterra – e tudo por causa de palavras imprudentes baseadas em fatos não provados. Claramente, os aliados anglo-americanos estão trabalhando em conjunto.
A regressão sem pejo de Hammond para o ambiente da Guerra Fria vem na mesma medida de Washington, que também tornou pública sua intenção de estar considerando colocar em vários países europeus, mísseis nucleares de “ataque preventivo”. Declaram os norte-americanos que esse movimento viria “em resposta” às supostas violações pelos russos do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Médio (INF). Moscou está sendo acusada de testar mísseis de cruzeiros baseados em terra que estariam proibidos sob o tratado. A Rússia tem negado sistematicamente as alegações acusatórias de Washington, que – como parece estar se tornando uma espécie de norma em outros assuntos contenciosos – não tem sustentação em nenhum tipo de evidência ou prova da parte de Washington.
Tal atitude difamatória contra a Rússia é duplamente desprezível, porque não se trata apenas de uma calúnia. A mentira também serve como cobertura moral que permite aos anglo-americanos perpetrar outras etapas ultrajantes que resultam em perigo flagrante para a paz mundial, com a alocação sem precedentes de armas nucleares.
No que se refere à questão da colocação na Inglaterra de armas nucleares dos Estados Unidos, Hammond afirmou ao jornal de direita Daily Telegraph:
(...) penso que é correto de nossa parte estarmos preocupados se a direção tomada pela Rússia é o que chamam de “doutrina de guerra assimétrica”. Nós precisamos enviar um sinal muito claro para a Rússia, de que não permitiremos qualquer transgressão às nossas linhas vermelhas. Poderemos considerar a proposta [de permitir a instalação de armas nucleares norte-americanas em solo Britânico]. Trabalhamos lado a lado com os norte-americanos. Caso essa decisão seja mesmo colocada sobre a mesa, deve ser tomada em conjunto. Quanto a nós, devemos pesar os prós e os contras e chegar a uma conclusão.
Para justificar a si mesmo, o Ministro britânico de Relações Exteriores buscou relacionar a questão nuclear à alegada agressão russa no leste ucraniano, aduzindo:
Há sinais bem preocupantes de que aumentam as atividades tanto pelas forças russas quanto pelas forças separatistas controladas pelos russos.
Hammond tentou parecer ambíguo sobre a instalação de armas nucleares dos Estados Unidos em território Britânico – as quais se somariam ao próprio arsenal nuclear da Inglaterra – mas o simples fato de que seu governo está considerando a possibilidade, já é um movimento flagrantemente imprudente. Se tal acontecesse, reverteria a proibição relativa a essas armas que ocorreu na sequência do fim da Guerra Fria há mais de 20 anos.
Guerra fria 2.0 - Manobras da OTAN

Ironicamente, enquanto Hammond estava nesta semana se esforçando para que o Parlamento permitisse um referendo sobre a permanência da Inglaterra como membro da União Europeia, sequer uma palavra foi dita ao público inglês, para saber se a população inglesa quer mais uma vez tornar-se parte da força de ataque nuclear dos Estados Unidos.
Mas talvez a infração merecedora de cartão vermelho cometida por Hammond seja o fato de que ele está militarizando perigosamente a política externa da Inglaterra sem estar lastreado em nenhuma evidência razoável; na realidade, baseia-se em desinformação total. Exatamente como seus aliados em Washington, o Ministro do Partido Conservador está fazendo toda sorte de acusações mentirosas e histéricas contra a Rússia, que vão desde constituir uma ameaça para a Europa, até usar “doutrina de guerra assimétrica”, passando pela suposta invasão do leste ucraniano e chegando à sabotagem do acordo de cessar fogo de Minsk (aliás, uma tentativa de paz que Moscou trabalhou duramente para implementar, juntamente com a Alemanha e França em fevereiro, com a significativa ausência de Washington e Londres).
Sem qualquer informação confiável, os norte-americanos e britânicos parecem estar se movendo deliberadamente no sentido de incrementar a capacidade de um ataque nuclear preventivo contra a Rússia. Como relatou a Associated Press na última semana, embora usando uma linguagem eufemística:
(...) as opções chegaram apenas ao nível de insinuações – mas não de declarações enfáticas – de que certamente melhorariam a capacidade das armas nucleares dos EUA para atingir alvos em território russo.
A verdade é que os norte-americanos, os britânicos ou a OTAN não produziram sequer um fiapo de evidência verificável de que a Rússia tenha violado o Tratado INF, ou esteja subjugando a Ucrânia ou ameaçando qualquer outro país europeu.
No leste ucraniano os relatos mais confiáveis sobre a situação emanam tanto do grupo de monitoração do cumprimento do acordo de Minsk feita pela Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) quanto de fontes da mídia local e de oficiais separatistas de que o recente incremento da violência vem do regime de Kiev, apoiado pelo ocidente. A violência inclui o bombardeio de centros residenciais na cidade de Donetsk e nos arredores de pequenas cidades e vilas, que resultaram na morte de dúzias de civis durante a última semana.
Exército da Junta de Kiev bombardeia áreas civis em Donetsk

A maneira pela qual os britânicos e norte-americanos distorcem os fatos para fazer da Rússia o agressor e destruidor do cessar fogo de Minsk é apenas uma assertiva prejudicial que se baseia em qualquer coisa, menos nos fatos. Desta forma, essa visão é uma distorção dos fatos que chega às raias da mentira descarada.
Que o Secretário para a Política Externa possa fazer comentários tão enganosos e aparentemente desorientados sobre o conflito na Ucrânia e sobre a Rússia em geral, e pensar em mudar a política militar da Inglaterra para instalar no território inglês armas nucleares dos Estados Unidos é digno de expulsão do ministério por extrema e grosseira incompetência.
A adoção por Hammond de um militarismo nuclear em meio a um tenso impasse político entre Oriente/Ocidente não passou em brancas nuvens na Inglaterra. Suas teses e afirmações belicosas causaram controvérsia, com várias campanhas antiguerra em repúdio à imprudente reversão para a mentalidade de Guerra Fria. Contudo, o fato de que a incompetência de Hammond não tenha causado ainda mais celeuma é um preocupante sinal da dormência moral do povo inglês, que não fez com que Hammond incorresse numa condenação pública ainda maior.
Nas entrelinhas, a política externa dos governos dos Estados Unidos e da Inglaterra trata-se apenas disso: uma ideologia de Guerra Fria, que os faz ver o mundo inteiro como inimigos ou “ameaças externas”. Mais uma vez, Rússia e China são vistos e retratados como inimigos.
Na última semana, em uma entrevista para o jornal italiano Corriere dela Sera, o Presidente russo, Vladimir Putin observou:
Já que muitos países têm preocupações sobre possíveis agressões pela Rússia, eu penso que apenas uma pessoa insana, louca, e apenas em sonhos maus poderiam imaginar que a Rússia poderia subitamente atacar a OTAN.
Assista a seguir entrevista completa com legendas em italiano:
Ora, por dedução, esse raciocínio lista pessoas com a visão dos fatos de Hammond como “insanas”. O mesmo vale para o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama e sua administração. Discursando na recente reunião de cúpula do G7 na Alemanha, Obama pontificou: “precisamos encarar a agressão russa”.
A pergunta lógica é: por que tanto Washington como Londres em particular, interpretam o mundo em termos de inimigos, ameaças e agressões?
Parte da resposta pode ser a de que essas mesmas potências são as maiores praticantes de agressões ilegais na perseguição de seus objetivos na política externa. O Imperialismo – uso de força militar na sustentação de metas políticas e econômicas – é parte indissociável da forma pela qual Estados Unidos e Inglaterra operam no mundo. Agressão e militarismo são instrumentos fundamentais do imperialismo anglo-americano, assim como acordos para atividades bancárias, de investimento e comércio (TPP e TTIP).

TPP, TTIP, TISA, CETA - Assalto à DEMOCRACIA


Não se pode negar que existe uma espécie de “consciência do mal” que rola nas relações internacionais tanto de Inglaterra como dos Estados Unidos. Ambos temem (com razão) retribuição e vingança causadas por seus comportamentos agressivos e criminosos em relação ao resto do mundo. Numa palavra, a visão de mundo dos anglo-americanos se resume em: paranoia.
A militarização das relações exteriores também é uma eficiente via indireta para controlar eventuais aliados nominais. Se ameaças externas são retratadas de maneira suficientemente forte, cria-se então uma espécie de senso restrito de “defesa” entre “aliados”, que passam a ver a potência dominante como líderes para “proteção”. Esses jogos mentais são típicos da forma pela qual Washington e Londres promoveram a OTAN  ao status de protetor de seus “aliados europeus” frente “agressão russa”.
O mesmo jogo mental está rolando na região da Ásia/Pacífico, onde os norte-americanos estão tentando marcar a China como um “agressor do mal” para pequenas nações, que então se voltam para Washington em busca de “proteção” – e montes de dinheiro para comprar armas dos Estados Unidos, cortesia das máquinas impressoras de dólares do FED.
Sobre a questão das alegadas agressões russas, Putin, na entrevista acima, comentou de maneira muito apropriada:
(...) penso que alguns países estão simplesmente se aproveitando do medo das populações ocidentais no que diz respeito à Rússia... Suponhamos que os Estados Unidos gostariam de manter sua liderança na comunidade atlântica (União Europeia). Precisaria então de uma ameaça externa, um inimigo comum para garantir sua liderança. Claramente, o Irã não é suficiente – a ameaça que representa não é tão assustadora ou grande. Quem poderia ser assustador o bastante? Então, subitamente, a crise se desdobra na Ucrânia. A Rússia se viu forçada a responder. Talvez toda essa situação tenha sido criada de propósito... não sei. Mas sei que não fomos nós, russos, que a criamos.
Putin acrescentou, falando ao editor do Corriere dela Sera:
Deixe-me dizer uma coisa: não é preciso temer a Rússia. O mundo mudou de forma tão drástica que atualmente qualquer pessoa com um mínimo de bom senso não pode sequer imaginar um conflito militar em larga escala. Eu garanto que temos outras coisas com as quais nos preocuparmos.
É por isso que políticos como o Ministro de Relações Exteriores da Inglaterra, Philip Hammond, são compelidos a demonizar a Rússia e conjurar pesadelos de invasões, conflitos militares em larga escala e armas nucleares. Sem alarmismo, não pode haver belicismo; e sem belicismo o capitalismo anglo-americano não pode exercer a hegemonia da qual sempre desfrutou e que necessita para funcionar.
Essa forma de ver o mundo adotada pelos anglo-americanos continua atrelada a uma era que já deveria estar esquecida, na qual a gestão da relações internacionais se dava através de violência e agressões ou até da instigação de uma guerra total, se necessário.
A origem do APOCALIPSE
 Hammond, Obama, Kerry e Cameron

Se vivêssemos em um mundo são, pessoas como Philip Hammond, o Primeiro Ministro Cameron e do outro lado do Atlântico, Obama e seu Secretário de Estado Kerry, não seriam merecedores de estar em uma posição de poder e governo. Se vivêssemos em um mundo são.
Ocorre que em nosso mundo capitalista e louco, são pessoas desse tipo que são selecionadas, porque dão ao sistema tudo o que é essencial para a sua sobrevivência, ainda que através de uma mentalidade draconiana de agressão, violência e guerra. A inominável e diabólica vergonha é que essas pessoas insanas são perfeitamente capazes de trazer o apocalipse para milhões e milhões de pessoas inocentes.
Botando para fora esses políticos estaríamos praticando uma forma inteligente de evitar a guerra. Talvez fosse ainda melhor se pudéssemos chutar para a estratosfera todo esse sistema, no qual alguns enriquecem obscenamente à custa do sofrimento da maioria.
Esse “custo” inclui suportar o risco perene de guerra e, ouso dizer, aniquilação.
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[*] Finian Cunningham nasceu em Belfast, Irlanda do Norte, em 1963. Especialista em política internacional. Autor de artigos para várias publicações e comentarista de mídia. Recentemente foi expulso do Bahrain (em 6/2011) por seu jornalismo crítico no qual destacou as violações dos direitos humanos por parte do regime barahini apoiado pelo Ocidente. É pós-graduado com mestrado em Química Agrícola e trabalhou como editor científico da Royal Society of Chemistry, Cambridge, Inglaterra, antes de seguir carreira no jornalismo. Também é músico e compositor. Por muitos anos, trabalhou como editor e articulista nos meios de comunicação tradicionais, incluindo os jornais Irish Times e The Independent. Atualmente está baseado na África Oriental, onde escreve um livro sobre o Bahrain e a Primavera Árabe.