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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Pepe Escobar: Agora, é guerra total contra os BRICS

4/11/2014, [*] Pepe EscobarRússia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

BRICS - Reunião de Fortaleza - 15/7/2014 
Apertem os cintos, a guerra de informação já desencadeada contra a Rússia deve expandir-se para Brasil, Índia e China.

Brasil, Rússia, Índia e China, como o mundo inteiro sabe, são os quatro principais países do grupo BRICS de potências emergentes, que também inclui a África do Sul e em futuro próximo incorporará também outras nações do Sul Global. Os BRICS perturbam imensamente Washington – e sua Think-Tank-elândia – porque são a corporificação do impulso concertado do Sul Global rumo a um mundo multipolar.

Podem-se apostar garrafas de champanhe crimeano que a resposta dos EUA a esse processo deve ser alguma espécie de guerra total de informação – não muito diferente, em espírito, do “Conhecimento Total de Informação” [orig. Total Information Awareness (TIA)], elemento central da Doutrina da Dominação de Pleno Espectro, do Pentágono. Os BRICS são vistos como importante ameaça –, e conseguir contratorpedeá-los implica dominar toda a grade informacional.

Vladimir Davydov, diretor do Instituto de América Latina da Academia de Ciências da Rússia, acertou o olho do alvo quando observou que:

(...) a situação atual mostra que há tentativas para suprimir não só a Rússia, mas também os BRICS, dado que o papel global daquela associação só faz crescer.

A demonização da Rússia escalou rapidamente nos EUA, das sanções relacionadas à Ucrânia, para Putin o “novo Hitler” e a ressureição do bicho-papão bem testado ao longo da Guerra Fria, tipo “Os Russos estão chegando”.

Dilma Rousseff
No caso do Brasil a guerra de informação já começou antes da reeleição da presidenta Dilma Rousseff. Assim como Wall Street e suas elites comprador locais faziam de tudo para bombardear o que definem como economia “estatista”, Dilma foi também pessoalmente demonizada.

Passos não inimagináveis para futuro próximo talvez incluam sanções contra a China, por causa de sua posição “agressiva” no Mar do Sul da China, ou Hong Kong, ou Tibet; sanções contra a Índia por causa do Kashmir; sanções contra o Brasil por causa de violações de direitos humanos ou excesso de desflorestamento. Seletos diplomatas indianos, lamentam, off the record, que o primeiro dos BRICS a ser afivelado sob pressão será a Índia.

Dado que os BRICS são tijolos realmente chaves na construção de um sistema global de relações internacionais e um sistema financeiro mais inclusivo – e não há outros no mercado – eles que, pelo menos, mantenham-se bem alertas. Se não, cada um deles será abatido, um depois do outro.

Georgy Toloraya, diretor executivo da Comissão Nacional Russa de Pesquisa sobre os BRICS, lembra que hoje, pelo menos, há “mais e mais comunicação acontecendo pelos canais BRICS.”

Os brasileiros, por exemplo, estão particularmente interessados em cooperação de investimentos. O Banco de Desenvolvimento dos BRICS será realidade já em 2015. E uma equipe russa está preparando relatório detalhado sobre perspectivas futuras para cooperação entre os BRICS, para ser discutido em Pequim, em profundidade, durante uma semana, enquanto acontece a reunião de cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico [orig., Asia-Pacific Economic Cooperation, APEC].

Da guerra de energia à guerra da moeda

O novo choque do petróleo dos sauditas – que, no mínimo, recebeu luz verde do governo Obama – combina perfeitamente com o padrão “Conhecimento Total de Informação” (TIA), em termos de ofensiva contra os BRICS, com dois deles no papel de alvos chaves: Rússia e Brasil.

O preço do petróleo é a questão
Mais de 50% do orçamento da Rússia vem da venda de petróleo e gás. Cada redução de US$ 10 no preço do barril de petróleo significa que a Rússia deixa de receber coisa como US$ 14,6 bilhões por ano. Pode ser, de certo modo, compensado pela desvalorização do rublo – mais de 25% contra o dólar norte-americano, desde o início de 2014. E a Rússia, claro, ainda tem cerca de US$ 450 bilhões em reservas. Mesmo assim, a economia russa pode crescer só de0,5 a 2% em 2015.

Com a redução de US$ 1 nos preços do petróleo cru, a maior empresa brasileira, Petrobras, perde mais de US$ 900 milhões. Aos preços atuais do petróleo, a Petrobras estará perdendo em torno de US$ 14 bilhões por ano. A queda dos preços portanto mina a expansão de longo prazo da Petrobrás para financiar novos projetos de infraestrutura e de exploração conectados aos seus valiosos depósitos de petróleo do pré-sal. A Petrobras foi alvo preferencial para a demonização de Rousseff.

O Irã não é membro dos BRICS, mas partilha o impulso do grupo com vistas a um mundo multipolar. Para equilibrar o próprio orçamento, o Irã precisa de petróleo a US$ 136 o barril. Um acordo nuclear a ser firmado com o P5+1 em três semanas, dia 24/11/2014, pode levar a um alívio nas sanções – pelo menos as vindas da Europa – e permitir que o Irã melhore suas exportações de petróleo. Mas em Teerã não há ilusões sobre o quanto a manipulação dos preços foi cerebrada para desestabilizar ainda mais a economia iraniana e minar sua posição nas negociações nucleares.

 Acordo nuclear Irã e P5+1
No front econômico, a doutrina do “Conhecimento Total de Informação” [orig. Total Information Awareness (TIA)] manifesta-se em o Fed pôr fim ao quantitative easingQE [injeção de dólares recém impressos na economia, lit. “facilitação quantitativa” ou “alívio quantitativo”]: significa que o dólar dos EUA continuará a subir e mais dólares dos EUA deixarão os mercados emergentes. A rede chinesa Xinhua expôs e discutiu seriamente essa questão.

O dólar norte-americano e o Yuan estão efetivamente ligados. Quando o dólar norte-americano sobe, o Yuan também sobe. Mas é a economia chinesa que sofre. O que preocupa Pequim é que é possível que a manufatura chinesa torne-se excessivamente cara, em muitíssimos países nos quais as margens de lucro já são muito estreitas.

Portanto, o que com certeza acontecerá é o Banco Central da China determinar uma queda controlada do Yuan – e ao mesmo tempo desenvolver mecanismos para combater a saída de dinheiro quente, sobretudo para Hong Kong.

A China pode até ser relativamente imune ao fim do QE. Mas todos na Ásia lembram ainda muito bem da crise financeira de 1997, que respingou na Rússia em 1998. Os únicos beneficiados então foram – e quem seria?! – os interesses privados norte-americanos e a hegemonia de Washington.

O centro não se mantém coeso [orig. The center cannot hold]

A demonização dos BRICS, em graus diferentes, prossegue sem parar – com o foco central na Rússia, a qual, por falar dela, iniciará a IIIª Guerra Mundial. Por quê? Porque os EUA dizem que sim.

A adesão de outros países do Sul-Global fortalece os BRICS
A mais recente ação envolve o Serviço de Inteligência da Defesa Dinamarquesa [orig. Danish Defense Intelligence Service (DDIS)], que noticiou, semana passada que a Rússia simulara um ataque com jatos e mísseis sobre a ilha de Bornholm em junho/2014.

DDIS não distribuiu qualquer detalhe concreto sobre o ataque simulado. Mas enfatizou que foi o maior exercício militar russo sobre o Mar Báltico desce 1991. DDIS distribuiu um documento “Avaliação de Risco 2014” [orig. Risk Assessment 2014], no qual prevê que:

(...) ao longo dos próximos poucos anos, a situação no leste da Ucrânia tem alta probabilidade de converter-se em novo conflito europeu frio.

Mas os dinamarqueses foram muito claros:

Não há indicações de que a Rússia constitua crescente ameaça militar direta ao território dinamarquês.

Immanuel Wallerstein
Nada disso impediu que os chefes militares norte-americanos de sempre se pusessem a repetir que a Rússia se prepara para iniciar a IIIª Guerra Mundial.

Não há absolutamente nenhuma prova de que Washington esteja preparada sequer para discutir a possibilidade de modificar o atual sistema-mundo, como teorizado por Immanuel Wallerstein, na busca por gestão mais democrática. A próxima reunião do G20 na Austrália, mais uma vez, deixará isso bem claro.

O que se vê, portanto, é o sistema, cada dia mais fragmentado, deslizando inexoravelmente rumo a um catastrófico ponto de ruptura.  O “Conhecimento Total de Informação” [orig.Total Information Awareness (TIA)] e suas reviravoltas e circunvoluções não passam de “estratégia” desesperada para adiar uma decadência inevitável.

No fim, Wallerstein estava certo. O mundo do pós-Guerra Fria está condenado a permanecer imensamente volátil.

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Seu novo livro,  Empire of Chaos, será publicado em novembro/2014 pela Nimble Books.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Alemanha e EUA: distanciamento sem precedentes

15/7/2014, [*] Immanuel Wallerstein, Al-Jazeera
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


[Os conservadores estão desnorteados e] Não é pequeno o número de agentes políticos nos EUA que têm clamado por alguma espécie de “ação” decisiva – seja lá o que isso signifique. E as eleições nos EUA podem depender em grande parte de como os atores políticos norte-americanos jogam esse jogo.


Entreouvido na Viela do Xôxo na Vila Vudu: Anotem aí: Leilane Neubarth, Maitê Proença, FHC e Ana Maria Brega “acham que não”; mas sim-sim-sim e sim: as eleições no Brasil TAMBÉM podem depender, em grande parte, de como “os atores políticos norte-americanos [conservadores desnorteados] jogam” lá aquele jogo [violentíssimo!] deles.

Angela Merkel e Barack Obama, 4/7/2014 (G7)
Dia 10/7/2014, o governo alemão exigiu a imediata saída do país do chefe da missão da CIA-EUA em Berlim. Não é exigência absolutamente inusual, mesmo entre aliados ostensivos. Inusual é que a expulsão tenha sido anunciada publicamente com barulho máximo. O que explicará o que para alguns já é “um distanciamento sem precedentes” nas relações entre EUA e a República Federal Alemã Federal, sempre muito próximas desde 1945?

Em apenas um dia o assunto apareceu em dois espaços importantes: num editorial do Los Angeles Times e em reportagem da revista alemã Der Spiegel. Os dois artigos são pessimistas quanto à possibilidade de o tal distanciamento poder ser “reparado” rapidamente, se é que será possível alguma reparação.

O editorial do Los Angeles Times, escrito por Jacob Heilbrun, leva o título de A ruptura germano-estadounidense. A palavra “ruptura” é inequívoca. Ou quase. Depois de fazer um panorama de vários comentários alemães, Heilbrun finaliza com uma nota de alerta:

Se Obama não conseguir controlar a espionagem contra a Alemanha, logo descobrirá que seus espiões estão ajudando a converter um aliado em adversário. Obama, se disser auf wiedersehen [adeus] a aliado de tantos anos, estará aplicando tal golpe contra a segurança nacional, que quantidade alguma de informação secreta conseguirá jamais justificar.

Angela Merkel...
Se Heilbrun já parece ter bem pouca esperança de que seu ponto de vista seja levado em consideração em Washington, ainda pior é o que se lê na matéria de fundo de Der Spiegel da mesma data. É texto longo e leva o título de “Quem a Alemanha escolherá: EUA ou Rússia?” Um dos subtítulos da matéria é “A gota que fez transbordar o copo” (ing. The Last Straw). A opinião citada não é de alguém da “esquerda” ou que tivesse trabalhado a favor de relações mais próximas com a Rússia. A fonte é, bem diferente disso, um típico promotor da economia de livre mercado, conservador e pilar de sustentação das relações com os EUA, presidente de uma organização chamada “Ponte Atlântica”. Em tom de desespero, diz:

Se for verdade o que se ouve sobre espionagem, tem de parar imediatamente.

A fonte é bem clara: não fala de iniciar discussões e negociações para “reduzir” a espionagem. Fala de “parar” e de “parar imediatamente”.

Há ainda alguns detalhes que têm de interessantes o que têm de incômodos para os EUA: o embaixador dos EUA na Alemanha não fala alemão. O embaixador russo, por sua vez, é falante tão competente do alemão, que praticamente não se percebe o sotaque. A entrada do gabinete do embaixador dos EUA é cercada de mais segurança do que a se vê no Salão Oval da Casa Branca. A entrada da embaixada russa é tão fácil e desimpedida que até surpreende.

O distanciamento em que se veem hoje EUA e Alemanha será mesmo sem precedente, repetitivo e imprevisível? Por hora, todos os jornais importantes e menores na Alemanha, EUA, França, Grã-Bretanha e outros países estão publicando comentários, analisando causas e tentando prever desdobramentos. De modo geral, todos os comentaristas procuram alguém a quem atribuir responsabilidades. Os suspeitos de sempre são a Agência de Segurança Nacional dos EUA e o presidente Obama. Mas será só isso, ou serão só esses os culpados?

Em outras palavras: as coisas poderiam ser diferentes? Poderiam, com certeza, nos detalhes. O governo dos EUA agiu de modo torpe, estúpido, sem dúvida. Mas o problema é estrutural. Não se trata só de erros conjunturais ou da estupidez de que esteja no poder nos EUA.

Vladimir Putin explica...
O problema básico é que os EUA estão, já há algum tempo, em rota de decadência geopolítica. A coisa não agrada aos EUA. De fato, os EUA não “aceitam” essa realidade, não sabem como lidar com ela e tendem sempre a minimizar o que os EUA estão perdendo. Assim, tentam restaurar o que já é irrestaurável: a “liderança” norte-americana (leia-se: a hegemonia) dos EUA no sistema−mundo. E isso faz dos EUA ator muito perigoso. Não é pequeno o número de agentes políticos nos EUA que têm clamado por alguma espécie de “ação” decisiva – seja lá o que isso signifique. E as eleições nos EUA podem depender, em grande parte, de como os atores políticos norte-americanos jogam esse jogo.

Contra isso, precisamente, é que líderes europeus em geral começam a tomar suas próprias providências preventivas. Agora, chegou a vez da chanceler Angela Merkel. Os EUA converteram-se em sócio muito pouco confiável. Por isso, mesmo os que, na Alemanha e em outros países da Europa vivam ainda a nostalgia do ninho quente do “mundo livre” começam a aproximar-se dos menos nostálgicos e cuidam de encontrar meios para sobreviver geopoliticamente sem os Estados Unidos. ISSO, precisamente, os está empurrando para a alternativa lógica: um teto europeu que inclua a Rússia.

E conforme alemães e europeus em general movem-se inexoravelmente nessa direção, os seus problemas mudam. Se não não podem confiar nos EUA, poderão realmente confiar na Rússia? E o mais importante: poderão chegar a algum acordo com os russos que os russos considerem importante e necessário cumprir?

Podem apostar: ISSO é o que se discute nos círculos internos do governo alemão, hoje.

Absolutamente ninguém está discutindo como reparar a brecha irreparável na confiança que afastou os alemães dos EUA.



[*] Immanuel (Maurice) Wallerstein, nascido em New York em 28/9/1930, é um  sociólogo estadunidense, conhecido pela sua contribuição fundadora para a Teoria do Sistema-Mundo. Seus comentários bimensais sobre questões globais são distribuídos pela Agencia Global para publicações como Le Monde Diplomatique e The Nation, dentre muitas outras. Wallerstein se interessou pela política internacional quando ainda era adolescente, se encantando com a atuação do movimento anticolonialista na Índia. Obteve os graus de bacharel (1951), mestrado (1954) e Ph.D. (1959) na Universidade de Columbia, New York, onde lecionou até 1971. Tornou-se depois professor de Sociologia na Universidade McGill, Montreal, até 1976, e na Universidade de Binghamton, New York, de 1976 a 1999. Foi também professor visitante em várias universidades do mundo. Foi esporadicamente Diretor de Estudos Associado na École de Hautes Études en Sciences Sociales, Paris, e Presidente da Associação Internacional de Sociologia entre 1994 e 1998. Desde 2000, é investigador sênior na Universidade de Yale. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra em 2006 e pela Universidade de Brasília em 2009.

Comentário de Rafael Alfonso Serrano Cancino postado no La Jornada (traduzido do espanhol):
A relação entre Alemanha e Rússia é cada vez mais próxima, ainda que discreta e sem arroubos.
Após a queda do Muro de Berlim a Alemanha (Ocidental) reorganizou o canal da Alemanha (Oriental) com a Rússia o que permitiu revitalizar o comércio, até então sob influência quase total dos EUA.
Por outro lado, é desnecessário mencionar os benefícios desta reaproximação face aos parcos benefícios de se manter relações comerciais dominadas pelos EUA. Imaginam uma União Europeia SEM o comércio com a Rússia?
É provável que devido ao crescimento do papel protagônico da Rússia no cenário global, não podemos duvidar de que a “queda” do avião da Malasya Airlines possa corresponder a uma cruel provocação dos EUA causando seu próprio descrédito internacional e, como menciona Wallerstein, “os falcões estão desorientados”, e eu diria que esses “neocons” se converteram em ameaça global.


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Pepe Escobar: Tabuleiro de xadrez encharcado de sangue

23/7/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


“A inteligência e os fatos estão sendo acomodados em torno da política”. Todos recordam o memorando de Downing Street, que revelou a “política” de Bush/Blair em torno do bombardeio/ invasão/ ocupação do Iraque em 2003. A “política” foi livrar-se de Saddam Hussein via guerra-relâmpago. A justificativa foi “terrorismo” e (inexistentes) armas de destruição em massa, que teriam “desaparecido”, montadas em caminhões, no interior da Síria. Esqueçam os tais de “inteligência e os fatos”.

A tragédia do voo MH17 – convertido incidentalmente em arma de destruição em massa – pode ser vista como reaplicação distorcida da política imperial no Iraque. Dessa vez, nem se precisou de memorando. A “política” do Império do Caos é clara e tem vários braços: diversificar o “pivô para a Ásia” estabelecendo uma cabeça de ponte na Ucrânia para sabotar o comércio entre Europa e Rússia; expandir a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, até a Ucrânia; quebrar a parceria estratégica Rússia-China; impedir por todos os meios a integração comercial/econômica da Eurásia, da parceria Rússia-Alemanha às Novas Rotas da Seda que convergem da China ao Ruhr; manter a Europa sob a hegemonia dos EUA.

Nova Rota da Seda: Xangai - Duisburg
A razão chave pela qual o presidente Vladimir Putin da Rússia não “invadiu” a Ucrânia do Leste – por mais que tenha sido provocado por Washington/OTAN – para deter o massacre de civis que está em andamento aconselhado-facilitado por conselheiros militares norte-americanos – é que Putin não quer antagonizar a União Europeia, principal parceiro comercial da Rússia.

Crucialmente significativo é que a intervenção por Washington no Kosovo invocando a “Responsabilidade de Proteger” [orig. R2P - Responsibility to Protect] foi justificada por exatamente as mesmas razões pelas quais uma intervenção russa em Donetsk e Lugansk poderia ser totalmente justificada agora. Exceto que Moscou não intervirá – porque o Kremlin está jogando jogo muito longo.

A tragédia do MH17 pode ter sido erro horrendo. Mas também pode ter sido um gambito desesperado tentado pelos asseclas do Império do Caos em Kiev. É provável que agora a inteligência russa já conheça todos os fatos chaves. O previsível modus operandide Washington foi atirar sem sacar do coldre; disparar e em teoria vencer a guerra “da mídia”, e subir a aposta, soltando o proverbial exército de “altos funcionários” para incendiar a discussão com “provas” de mídias sociais. Moscou cuidará de construir caso meticuloso, e só então o fará chegar em detalhes precisos à opinião pública.

Putin joga simultânea contra TODO o "ocidente"
Hegemonia perdida

O Grande Quadro mostra que as elites do Império do Caos vivem tempos de grave perturbação. Tome-se o Dr. Zbigniew “O Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski, o qual, como seu ex-mentor de política exterior, ainda merece toda a atenção do cada vez mais desprestigiado amanuense da Casa Branca. O Dr. Zbig apareceu domingo na tela da CNN, para desafiar os líderes europeus a “erguer-se contra Putin”. Cogita que a Europa talvez esteja querendo “tornar-se satélite europeu”, e preocupa-se com “momento de significação decisiva para o futuro do sistema – do sistema mundial”.

Zbigniew Brzezinski
E tudo, claro, é culpa de Putin:

Não estamos iniciando a Guerra Fria. Foi ele [Putin] quem começou a Guerra Fria. Mas meteu-se numa enrascada horrível. Suspeito seriamente que há muita gente na Rússia, inclusive gente bem perto dele, que se preocupa por o status da Rússia no mundo estar sendo tão dramaticamente solapado, com a Rússia estar começando a fracassar economicamente, com a Rússia estar hoje ameaçada de converter-se em satélite da China, com a Rússia acabar autoisolada e desacreditada.

Obviamente o Dr. Zbig é abençoado pela ignorância de todos os detalhes da parceria estratégica Rússia-China, e nem sabe que os dois países falam pelo mesmo diapasão dentro do grupo dos BRICS, do G-20 e de muitos outros mecanismos. Mas é a russofobia, marca registrada do Dr. Zbig, que o eleva aos píncaros da visão de futuro. Em seu livro mais recente, Strategic Vision (2012), o Dr. Zbig ainda fala de um “Ocidente” ampliado, para o qual ele recomenda que os EUA anexem Turquia e Rússia, com o Império do Caos fazendo pose de “promotor” e “garantidor” de ampla unidade no Ocidente, e de “equilibrador” e “conciliador” entre as grandes potências do leste. É passar os olhos pelos registros desde 2012 – Líbia, Síria, Ucrânia, cercamento da China – e já se vê que o Império do Caos só fomenta, mesmo, o caos.

Immanuel Wallerstein
Comparem agora um amedrontado Dr. Zbig com Immanuel Wallerstein – que foi uma das grandes influências em Globalistan, meu atormentado livro de viagem geopolítica, de 2007. Em seu artigo Alemania y Estados Unidos: una brecha sin precedente19/6/2014 (em espanhol), Wallerstein diz que o Império do Caos simplesmente não pode aceitar a própria decadência geopolítica – e por isso se tornou tão imensamente perigoso. A obsessão suprema do Império do Caos passou a ser restaurar a própria hegemonia no sistema mundial; e é onde a “política”, pano de fundo inafastável e essencial da tragédia do MH17, mostra que a Ucrânia é o campo da batalha final, definitiva, de conseguir ou morrer.

Na Europa, tudo depende da Alemanha. Especialmente depois do escândalo da Agência de Segurança Nacional dos EUA e suas ramificações, o debate chave que se trava em Berlim é sobre como o país se autoposicionará geopoliticamente, contornando e ultrapassando os EUA. E a resposta, a favor da qual pressionam grandes porções do big business alemão, está numa parceria estratégica com a Rússia.

Quero ver o míssil!

The Saker
Lentamente, sem tumulto nem futrica, os militares russos começam a explicar o que interessa. Cortesia do blog Vineyard of the Saker [traduzido ao português] ali está a principal exposição de fatos, até agora. Como o Saker já disse, a Rússia tinha – e continua a ter – “visão de radar 20/20”, vigilância de pleno espectro, sobre tudo, absolutamente tudo, que acontece na Ucrânia. E a OTAN, pode-se dizer, também tem. O que o Ministério da Defesa da Rússia está dizendo é tão importante quanto as pistas que está apontando, para que os especialistas prestem atenção a elas e as sigam.

Os restos calcinados da turbina direita do MH17 sugerem que tenha sido atacada por míssil ar-ar – não por sistema Buk; é consistente com o que o Ministério da Defesa russo mostrou muito clara e convincentemente: que havia um avião ucraniano de combate, um SU-25, acompanhando o voo MH17. Cada vez mais o cenário Buk – histericamente promovido pelo Império do Caos – vai sendo descartado. Para nem repetir que, até agora, nenhuma testemunha ocular viu a trilha de fumaça, muito clara, visível, espessa, que qualquer míssil terra-ar teria traçado do céu, se tivesse havido tiro de equipamento Buk.

À parte o fato já estabelecido de que havia um avião SU-25 seguindo o MH17, muitas perguntas permanecem sem resposta, algumas das quais sobre um estranhíssimo procedimento de segurança no aeroporto Schphol de Amsterdam – onde a segurança é feita pela empresa ICTS, empresa israelense com sede na Holanda, fundada por ex-agentes da agência de inteligência Shin Bet de Israel. E há também a inexplicada presença de conselheiros “estrangeiros” na torre de controle em Kiev.


Assim como Bashar al-Assad na Síria jamais teve motivo algum para “matar o próprio povo com gás venenoso” – como pretendia a narrativa histérica naqueles dias – os federalistas da Ucrânia Leste não têm motivo algum para derrubar um avião de passageiros. E, assim como Washington não dá a mínima para o massacre de civis em curso em Gaza, Washington tampouco dá a mínima para os mortos civis do voo MH17. A única obsessão dos EUA é forçar os europeus a aplicar sanções, se possível, sanções mortais, contra a Rússia. Tradução: aos EUA só interessa quebrar a integração comercial e geopolítica Europa-Rússia.

Uma semana antes da tragédia do MH17, o Instituto Russo de Estudos Estratégicos [orig. Russian Institute of Strategic Studies] já fizera soar o alarme quanto à “política” do Império do Caos e sua recusa a “aderir aos princípios e normas da lei internacional e as regras e ao espírito do sistema existente de relações internacionais”.

Moscou, enquanto vai reconstruindo detalhadamente os passos que levaram à tragédia do MH17, trabalha para desmascarar a farsa de Kiev e maximizar a própria credibilidade. Agora, o jogo está chegando às caixas pretas e ao gravador da cabine dos pilotos. A Ucrânia permanece como campo de batalha de vida ou morte – tabuleiro de xadrez encharcado de sangue.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire, Counterpunch e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today,The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
 Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Geopolítica do cisma da Ucrânia

15/2/2014, [*] Immanuel Wallerstein, Common Dreams – La Jornada
Traduzido para o português pelo pessoal da Vila Vudu
Traduzido para o espanhol por Ramón Vera Herrera



Manifestantes antigoverno Yanukovich em Kiev (23/2/2014)
A Ucrânia está sofrendo cisma interno profundo já há algum tempo, cisma que ameaça converter-se em mais uma dessas guerras civis que acontecem em, cada dia, mais países. O território da Ucrânia atual inclui uma clivagem entre leste e oeste do país, que é linguística, religiosa, econômica e cultural, cada lado com perto de 50% do total.

O atual [hoje, ex] governo (que se diz que é dominado pela metade leste) tem sido acusado em comícios, pela outra metade, de corrupção e autoritarismo. Não há dúvidas de que é verdade, pelo menos em parte. Mas nada assegura que governo dominado pela metade oeste venha a ser menos corrupto e menos autoritário. Seja como for, a questão está internamente posta em termos geopolíticos: a Ucrânia deve ser parte da União Europeia ou deve tecer laços mais fortes com a Rússia?

Victoria Nuland
Nessa linha é, talvez surpreendentemente, a gravação que está sendo distribuída por YouTube, na qual a secretária-assistente de Estado dos EUA para Assuntos de Europa e Eurásia é ouvida em discussão de estratégia política norte-americana para a Ucrânia, com o embaixador dos EUA. Na gravação, Nuland põe a questão como luta geoestratégica entre EUA e Europa (mais particularmente contra a Alemanha). É apanhada num momento em que diz “Fodam-se os europeus” – os europeus, não os russos! (...)

Consideremos Victoria Nuland. Quem é ela? É membro sobrevivente da gangue neoconservadora que cercava George W. Bush, governo para o qual trabalhou. Seu marido, Robert Kagan, é um dos mais afamados ideólogos do grupo neoconservador. Questão interessante: o que está ela fazendo em posição chave no Departamento de Estado do governo Obama? O mínimo que o secretário de Estado John Kerry deveria já ter feito é remover os neoconservadores desses papéis chaves no governo.

Donald Rumsfeld
Agora, relembremos qual, exatamente, era a linha dos neoconservadores para a Europa, nos dias de Bush. O então secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, como se sabe, falava de França e Alemanha como “a Europa velha”, em contraste com o que via como “a nova Europa” – vale dizer, os países que partilhavam a visão de Rumsfeld a favor da então iminente invasão do Iraque. A Europa velha era, para Rumsfeld, a Grã-Bretanha, especialmente, e a Europa leste e central, os países que formaram o bloco soviético. Nuland parece ter exatamente a mesma percepção da Europa.

Permito-me oferecer minha opinião, de que a Ucrânia não passa de simples desculpa conveniente ou de encobrimento, para divisão geopolítica maior que nada tem a ver com o cisma interno no próprio país. O espectro que assombra as/os nulands do mundo não é uma talvez “absorção” da Ucrânia pela Rússia – eventualidade que não tiraria o sono das /dos nulands. O que aterroriza ela e os que partilham seu modo de ver é a aliança geopolítica de Alemanha/França e Rússia. O pesadelo de um eixo Paris-Berlin-Moscou havia retrocedido um pouco, depois do ápice em 2003, quando todos os esforços dos EUA para conseguir que o Conselho de Segurança da ONU apoiasse a invasão dos EUA ao Iraque, em 2003, foram derrotados por França e Alemanha.

O pesadelo havia retrocedido um pouco, mas permaneceu aí, sob a superfície, e por boa razão. Essa aliança faz perfeito sentido geopolítico para Alemanha / França e para a Rússia. E, em geopolítica, o que faça sentido tem grande peso, que nenhuma insistência em diferenças ideológicas consegue abalar muito. As escolhas geopolíticas podem ser alteradas, nunca muito profundamente, pelos que passem pelo poder, mas a pressão dos interesses nacionais de longo prazo permanecem fortes.

Rússia, França e Alemanha seria o eixo temido pelos neo-conservadores dos EUA?
Por que um eixo Paris-Berlin-Moscou faz sentido? Há boas razões. Uma delas é a virada dos EUA na direção de um Pacífico-centrismo, interrompendo sua longa história de Atlântico-centrismo. O pesadelo da Rússia, e também da Alemanha, não é uma guerra EUA-China, mas uma aliança EUA-China (que poderia incluir também o Japão e a Coreia). O único modo de a Alemanha reduzir essa ameaça à própria prosperidade e ao próprio poder é construir uma aliança com a Rússia. E a política alemã para a Ucrânia mostra, precisamente, a prioridade que a Alemanha dá a resolver as questões europeias mediante a inclusão, não a exclusão, da Rússia.

Quanto à França, Hollande tem tentado seduzir os EUA agindo como se a França fosse parte da “nova Europa”. Mas desde 1945 a posição geopolítica básica da França é o gaullismo. Presidentes supostamente não-gaullistas, como Mitterrand e Sarkozy, seguiram, ambos, de fato, políticas gaullistas. E Hollande não demorará a descobrir que não tem escolha, se não o gaullismo. O gaullismo não é “esquerdismo’”. Mas o gaullismo é a convicção de que os EUA ameaçam qualquer papel geopolítico continuado que a França aspire a ter; e a França tem de defender seus interesses abrindo-se para a Rússia, para conseguir um contrapeso contra o poder dos EUA.

Rei Canuto afastando o mar
Quem vencerá esse jogo? É preciso esperar para saber. Mas Victoria Nuland parece um pouco o Rei Canuto, [NTs. ler: O rei Canuto à beira-mar] ordenando ao mar que se afaste. E os infelizes ucranianos talvez descubram que estão obrigados a curar, eles mesmos, suas feridas internas, queiram ou não queiram.




[*] Immanuel Maurice Wallerstein (Nova Iorque, 28 de Setembro de 1930) é um sociólogo estadunidense, mais conhecido pela sua contribuição fundadora para a Teoria do Sistema-Mundo. Seus comentários bimensais sobre questões globais são distribuídos pela Agence Global para várias publicações. Interessou-se pela política internacional quando ainda era adolescente, se encantando com a atuação do movimento anticolonialista na Índia. Wallerstein obteve os graus de B.A. (1951), M.A. (1954) e Ph.D. (1959) na Universidade de Columbia, Nova Iorque, onde ensinou até 1971. Tornou-se depois professor de Sociologia na Universidade McGill, Montreal, até 1976, e na Universidade de Binghamton, Nova Iorque, de 1976 a 1999. Foi também professor visitante em várias universidades do mundo. Foi esporadicamente diretor de estudos associado na École de Hautes Études en Sciences Sociales, Paris, e presidente da Associação Internacional de Sociologia entre 1994 e 1998. Desde 2000, é investigador sênior na Universidade de Yale. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra em 2006 e pela Universidade de Brasília em 2009.