Mostrando postagens com marcador WSWS - World Socialist Web Site. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador WSWS - World Socialist Web Site. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Marine Le Pen “legitimada”

20/1/2015, Joseph Kishore e Alex LantierWorld Socialist Website
Traduzido por mberublue


A lição básica das experiências dos anos 1930s, é que a luta contra o fascismo deve ser travada e sempre será travada como guerra contra o sistema capitalista e suas representações políticas.


Marine Le Pen - The New York Times
A campanha internacional para “legitimar” os políticos fascistóides da Frente Nacional (FN) francesa alcançou um novo estágio nesta segunda-feira (19/1/2015) com a publicação no jornal The New York Times de um artigo assinado pela líder do partido, Marine Le Pen, sobre o tiroteio na sede do jornal satírico Charlie Hebdo. [1]

Ao franquear suas portas para Le Pen, o jornal, degradado pilar do liberalismo americano, sinaliza que significativas partes da classe dominante americana consideram que as ideias da líder fascista são parte fundamental do debate público sobre assunto. O The Times ainda tomou a medida de incluir uma tradução simultânea em francês, assegurando-se de que a coluna receba a maior divulgação possível também na França.

Le Pen está sendo promovida, como parte de um esforço comum empreendido pela elite da classe dominante, no desenvolvimento de uma corrida anti-islâmica para confrontar ao mesmo tempo a oposição anti-imperialista no Oriente Médio e os distúrbios sociais em casa. As charges anti-islâmicas do Charlie Hebdo foram proclamadas pomposamente como símbolos da democracia, e neste instante Le Pen representa nada menos que alguém para “salvar a pátria”.

Os argumentos chauvinistas de Le Pen no The Times (sob a manchete “Chamar essa ameaça de ameaça”) foram claramente inspirados no arsenal ideológico dos EUA em sua “Guerra ao Terror”. A França, “terra dos direitos humanos e da liberdade, foi atacada em seu próprio solo por uma ideologia totalitária: o fundamentalismo islâmico” – escreveu ela.

Não à Mesquita - Front National
Em seguida, Le Pen clama pelo desmantelamento efetivo das liberdades e dos direitos humanos na França, a fim de mover uma guerra contra os mais de cinco milhões de muçulmanos que fazem parte do povo francês, propondo nada menos que “uma política restritiva à imigração”, novas medidas para retirar deste povo a cidadania, e uma luta contra o “comunitarismo e estilos de vida que estariam em desacordo” com as tradições francesas.

Enquanto providencia uma plataforma política para Marine Le Pen, o The Times não se preocupa minimamente em informar a seus leitores o pedigree político da francesa. A Frente Nacional foi formada em 1972 por antigos apoiadores do regime colaboracionista de Vichy, que efetivamente apoiou os nazistas na Segunda Guerra Mundial, e por defensores do brutal domínio francês na Argélia.

A Frente Nacional é conhecida por seu ativo racismo antimuçulmano e antissemita, seu nacionalismo virulento e seus ataques, por capangas violentos, a oponentes políticos. Como justificativa para a decisão de publicar a coluna de Le Pen, os editores do The Timesargumentam que, gostando-se dela ou não, Le Pen não pode ser ignorada. Os defensores do jornal provavelmente argumentarão, que, dada a Le Pen uma plataforma, ela na realidade estará se expondo.

Não passa de rematado absurdo.

A verdade é que Le Pen está sendo deliberadamente “legitimada” pelo The Times, assim como foi “legitimada” também pelo presidente francês, François Hollande, que, ao convidar Le Pen para o palácio Eliseu, logo após o tiroteio fatídico no jornal satírico Charlie Hebdo, deu a ela e à Frente Nacional uma estatura política que, antes, nunca haviam tido.


A promoção de Le Pen faz parte de um notável crescimento, no plano internacional, de organizações de caráter fascista e de extrema direita. No último ano, os EUA e a Alemanha trabalharam em conjunto com os partidos [de fascistas ucranianos] Setor Direita (Pravy Sektor e Svoboda) – organizações que celebram como heróis os nazistas ucranianos que colaboraram com os nazistas alemães durante a Segunda Guerra Mundial – para derrubar o governo eleito e pró-Rússia de Viktor Yanukovich. A movimentação foi apresentada, em termos políticos, como se fossem esforços em direção à democracia.

Jörg Baberowski
Na Alemanha, a classe dominante está em movimentação para livrar o país de todas e quaisquer restrições impostas ao militarismo germânico logo após o final da Segunda Guerra Mundial, e trabalha ainda para minimizar e justificar os crimes cometidos no passado. Jorg Baberowski, um dos principais historiadores da Universidade Humboldt de Berlim recentemente argumentou que “Hitler não era cruel”; e que sairia ganhando, se se comparassem suas ações e as de Stalin ou outros líderes soviéticas.

A Chanceler Angela Merkel referiu-se em um discurso recente, à necessidade de que os cristãos “fortaleçam sua identidade” e “falem sempre com mais confiança sobre seus valores cristãos” – um indisfarçado encorajamento dos sentimentos antimuçulmanos, calculado para reforçar ainda mais e também para “legitimar” a agitação racista do movimento PEGIDA, de extrema direita, na Alemanha.

Parece que as vozes dos nazistas devam ser consideradas, ao mesmo tempo em que aumenta o prestígio e a influência da aristocracia corporativa financeira. Ao mesmo tempo em que veio à luz a coluna de Le Pen no New York Times, Le Pen destacou-se também em fulgurante entrevista ao Wall Street Journal. Coerente com os cálculos da classe dominante o jornal esclareceu que

(...) se há algum tempo a senhora Le Pen não passava de uma espécie de aberração política, hoje ganhou proeminência na medida em que os problemas da França – uma economia moribunda e uma população muçulmana não assimilável – tornaram-se mais e mais agudos e aparentemente sem solução possível nas mãos da classe política tradicional.

Neste ponto, o jornal se refere ao fato de que, devido à demorada crise econômica, o establishment político está profundamente desacreditado na França, tanto interna como internacionalmente. No esforço para criar apoio ao seu domínio, a elite financeira está buscando apoio na pequena burguesia, da qual busca mobilizar algumas porções dessa classe baseada em extremado nacionalismo.

Ao mesmo tempo, as forças de extrema direita estão explorando as condições de colapso da “esquerda” apresentando-se como a principal força de oposição.

Hitler é eleito Chanceler da Alemanha em 1933
A lógica dos desenvolvimentos segue caminho previamente traçado. As políticas contemporâneas parecem assumir cada vez mais as características dos anos 1930s, quando as elites dominantes na Europa se voltaram para os partidos fascistas, na tentativa de defender seu domínio. Hoje, a promoção e pseudo-legitimação de pessoas como Marine Le Pen fazem parte de um esforço mais amplo, que busca usar o racismo antimuçulmano como apoio para operações imperialistas no exterior e desculpa para o ataque aos direitos democráticos em casa. As classes dominantes na França, Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e outros poderes imperialistas estão conspirando e iniciando novas guerras no Oriente Médio e no Norte da África.

Quem “salvará” as elites europeias?

Internamente, a classe dominante a cada dia mais se preocupa com o crescimento de oposição social na classe trabalhadora. Nesta semana, na reunião de bilionários no fórum econômico mundial de Davos, um relatório mostrou que em 2016 os 1% mais ricos da população mundial deterão mais riqueza que todos os demais 99% restantes. Os 80 indivíduos mais ricos terão mais riqueza que a metade mais pobre da população do planeta Terra (cerca de 3,5 bilhões de pessoas – 3.500.000.000 de pessoas). Estas condições são insustentáveis. A oposição das massas é inevitável.

Juntamente com uma campanha asquerosa contra a população imigrante, a classe dominante está apoiando e pseudo-legitimando movimentos fascistas e chauvinistas, para direcioná-los contra as classes trabalhadoras como um todo.

A lição básica das experiências dos anos 1930s, é que a luta contra o fascismo deve ser travada e será travada como guerra contra o sistema capitalista e suas representações políticas.


Nota dos revisores

[1] A Folha de S.Paulo, cujo jornalismo-de-fascistização-do-Brasil, hoje, é a vergonha de várias gerações de jornalistas em todo o mundo, publicou, uma “entrevista por e-mail” com Marine Le Pen, DEZ DIAS ANTES DE O NYT dar voz àquela pervertida, em que ela diz precisamente as mesmas barbaridades fascistas que, quase duas semanas depois, o NYT e o WST consagrariam para o mundo.
SANTO DEUS! Em matéria de fascismo ativo, a FSP dá de dez no NYT! [Nota dos revisores]

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A hipocrisia do meme “Eu Sou Charlie” e da tal “livre manifestação”

9/1/2015, [*] David NorthWorld Socialist Web Site
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A miséria religiosa é, de um lado, a expressão da miséria real; de outro, é o protesto contra a miséria real. A religião é o soluço da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito de uma situação carente de espirito. É o ópio do povo. (Marx)


A meme "Eu sou Charlie"
O ataque à redação de Charlie Hebdo chocou o público, horrorizado pela morte violenta de 12 pessoas, no centro de Paris. As imagens de vídeo, vistas por milhões, dos pistoleiros disparando e matando um policial já ferido, deram extraordinária atualidade aos eventos da 4ª-feira (7/1/2015).

Imediatamente depois do tiroteio, estado e imprensa-empresa imediatamente se puseram a tentar explorar o medo e o estado de confusão em que a opinião pública foi lançada. Mais uma vez, aí está exposto o caráter do terrorismo, de total fracasso político e de ação essencialmente reacionária. Serve aos interesses do Estado, que se serve da ocasião que os terroristas lhe dão, para mobilizar o apoio ao militarismo e ao autoritarismo.

Em 2003, quando o governo Bush invadiu o Iraque, a oposição do público francês foi tão clara e avassaladora que o governo do então presidente Jacques Chirac foi obrigado a opor-se à guerra, mesmo sob a mais furiosa pressão política que os EUA aplicavam à França.

Hoje, 12 anos depois, com o presidente François Hollande dedicado a fazer da França o principal aliado dos EUA na “guerra ao terror”, o ataque em Paris lhe cai ao colo.

Novo cão de Obama - Um poodle francês chamado "Hollande"
Para o sucesso de seus esforços, Hollande pode confiar na imprensa-empresa, que nessas circunstâncias dirige todas as próprias energias para manipular emocionalmente os públicos audientes e para desorientá-los o mais possível, na discussão política. A imprensa-empresa capitalista sabe combinar astutamente a supressão da informação, meias verdades e deslavadas mentiras; e assim “monta” uma narrativa que é pensada para apelar não só aos instintos mais basais da população, mas, simultaneamente, também aos seus mais elevados sentimentos democráticos e idealistas.

Por toda a Europa e nos EUA, o que se diz é que o ataque contra a revista Charlie Hebdo foi assalto contra a liberdade da imprensa-empresa e contra o inalienável direito de jornalistas, em sociedade democrática, de expressarem-se com liberdade, sem, por isso, terem a vida ameaçada. O assassinato dos cartunistas e editores de Charlie Hebdo está sendo proclamado um assalto aos princípios da liberdade de manifestação que, supostamente, seriam muito importantes e sempre respeitados pela Europa e pelos EUA.

O ataque à revista Charlie Hebdo é, então, apresentado como mais um ultraje perpetrado por muçulmanos que não conseguiriam tolerar as “liberdades” ocidentais. A partir disso, dever-se-ia concluir que a “guerra ao terror” – quer dizer, o massacre, pelos imperialistas, de populações inteiras no Oriente Médio, Ásia Central e África do Norte e Central – seria necessidade urgente e inevitável.

Nessa orgia de hipocrisia democrática, ninguém faz qualquer referência aos militares norte-americanos, cujas guerras no Oriente Médio resultaram na morte de, pelo menos, 15 jornalistas. Na narrativa em curso, segundo a qual a “Liberdade de Expressão Está sob Ataque”, ninguém faz qualquer menção ao míssil ar-terra disparado em 2003 contra a redação de Al Jazeera em Bagdá, que matou três jornalistas e feriu quatro.

Nem nada se escreveu sobre o assassinato de dois jornalistas da Reuters, em julho de 2007, que trabalhavam em Bagdá, o fotógrafo Namir Noor-Eldeen e seu assistente, Saeed Chmagh. Os dois foram mortos num ataque deliberado de atiradores a bordo de um Apache norte-americano, quando trabalhavam no leste de Bagdá.

O público norte-americano e planetário viu pela primeira vez o vídeo que prova que aqueles jornalistas foram assassinados a sangue frio, com um grupo de civis iraquianos, filmado por um dos soldados norte-americanos matadores – porque o vídeo foi “vazado” por Wikileaks, com outros materiais sigilosos, depois que chegou às mãos do ex-soldado dos EUA, cabo Bradley-Chelsea Manning.

Bradley Chelsea Manning e Julian Assange
E como agiram os EUA e a Europa, quando se tratou de proteger o direito ao livre exercício de expressão de WikiLeaks? Julian Assange, fundador e editor de WikiLeaks, foi e continua alvo da mais incansável perseguição. Figuras conhecidas no mundo político e “midiático” nos EUA e no Canadá denunciaram Assange como “terrorista” e exigiram que fosse preso. Houve “democratas” que pregaram publicamente, até, o assassinato de Assange.

Até hoje prossegue um processo fraudulento, em que Assange foi alvo de acusações falsas de “estupro”, armado por serviços de inteligência dos EUA e da Suécia. Foi obrigado a buscar abrigo na Embaixada do Equador em Londres, onde permanece sob vigilância constante da polícia britânica – que pode prendê-lo se Assange deixar o território da embaixada. Quanto a Chelsea Manning, continua presa, já condenada a 35 anos de prisão por crime de traição.

Eis como as grandes “democracias” capitalistas dos EUA e da Europa demonstraram, até hoje, o seu compromisso com a livre expressão e a segurança dos jornalistas!

A narrativa desonesta e hipócrita que estado e imprensa-empresa encarregam-se de construir e distribuir exige que Charlie Hebdo e os cartunistas e jornalistas assassinados sejam convertidos em mártires da livre manifestação e representantes de uma sempre reverenciada tradição democrática do jornalismo hardcore pressuposto “iconoclasta”.

Em coluna publicada no Financial Times na 4ª-feira (7/1/2015), o historiador liberal Simon Schama inclui Charlie Hebdo numa gloriosa tradição de irreverência “jornalística”, que seria “o próprio sangue vital da liberdade”. Relembra os grandes satiristas europeus entre os século XVI e XIX, que não poupavam os grandes e poderosos. Dentre seus alvos ilustres, Schama nos relembra do brutal Duque de Alba, que, nos anos 1500s afogou em sangue os holandeses que lutavam por liberdade; o “Rei Sol” francês, Luiz XIV, o primeiro-ministro britânico William Pitt; e o Príncipe de Gales.

Simon Schama
A sátira, ensina Schama, passou a ser o oxigênio da política, permitindo a risada saudável que tudo ventila nos cafés e nas tavernas, onde caricaturas circulavam todos os dias, todas as semanas.

Schama tenta pôr Charlie Hebdo numa tradição à qual, por justiça, a revista não pertence.Todos os grandes satiristas aos quais Schama refere-se foram manifestação de um Iluminismo democrático e esclarecido – que usava o escárnio como arma contra os poderosos e corruptos defensores do privilégio aristocrático. Em todos os seus muitos retratos em que Charlie Hebdo degradou os muçulmanos, a revista e seus autores zombaram, exclusivamente, dos mais pobres dos pobres e dos mais fracos dos fracos.

Falar com clareza sobre o caráter sórdido, cínico e degradado de Charlie Hebdo não é pactuar com os assassinatos. Mas quando o slogan “Eu Sou Charlie” passa a ser adotado e promovido pela imprensa-empresa [Murdoch é Charlie” (NTs)] como “lema” das manifestações de protesto, todos os que não tenham sido completamente dominados e já sejam controlados pelo estado e pela imprensa-empresa de propaganda do capital são obrigados a replicar:

Nos opomos ao ataque violento contra o jornal, mas não somos, nem nada temos a ver com a revista Charlie Hebdo: nós não somos Charlie.

Os marxistas conhecemos há muito tempo a luta para superar a influência da religião nas massas. Mas os marxistas sempre fazemos essa luta com clara compreensão de que a fé religiosa é mantida por condições adversas e por miséria e sofrimentos desesperados. Não se zomba de nenhuma religião: temos de compreender e criticar a religião, como Marx compreendeu e criticou:

O fundamento da crítica não religiosa é: o homem cria a religião; não é a religião que cria o homem. E a religião é, bem entendido, a autoconsciência e o autossentimento do homem que ainda não é senhor de si mesmo ou que novamente se perdeu (...) A miséria religiosa é, de um lado, a expressão da miséria real e, de outro, o protesto contra ela. A religião é o soluço da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito de uma situação carente de espirito. É o ópio do povo.

A abolição da religião como felicidade ilusória do povo é uma exigência formulada pela felicidade real. Exigir que alguém renuncie às ilusões acerca da própria situação é exigir que renuncie a uma situação que precisa de ilusões. Criticar a religião é pois, em germe, a crítica deste vale de lágrimas, de que a religião é a auréola. [Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, 1843-1844, marxists.org]

E basta ler essas palavras para perceber a grande distância moral que separa o marxismo, de um lado, e, de outro lado, o cinismo político doentio de uma “ex-esquerda”, que se manifesta no discurso de Charlie Hebdo.

A imprensa-empresa
Nada há, em Charlie Hebdo que ilumine alguém ou alguma coisa, muito menos que ajude algum pobre a viver. Tudo, ali, é achincalhe obsceno, pueril, tolo, arrogante, zombaria para desqualificar a religião muçulmana (e também outras religiões) e suas tradições.

As caricaturas antimuçulmanos, cinicamente provocativas, que apareceram em tantas capas de Charlie Hebdo alimentaram, inflaram e facilitaram o crescimento de movimentos chauvinistas de direita na França. É absolutamente absurdo pretender, como argumento para defender Charlie Hebdo, que as charges eram objetos de “boa fé, bom riso” e não buscavam consequências políticas.

À parte do fato de que o governo francês busca desesperadamente apoio para sua agenda cada dia mais militarista na África e no Oriente Médio, a França é país no qual a influência da Frente Nacional neofascista cresce sem parar, rapidamente. Nesse contexto político, Charlie Hebdo facilitou o crescimento de uma forma de sentimento politizado, antimuçulmanos, que se aproxima, muito preocupante e perturbadoramente, do antissemitismo politizado que emergiu como movimento de massas na França, nos anos 1890s.

Ao servir-se sempre de caricaturas horrorosas, vulgares, que criam e simultaneamente divulgam uma imagem sinistra e estereotipada dos muçulmanos, Charlie Hebdo faz lembrar as publicações racistas, baratas, que tiveram papel significativo no processo de incendiar a violência antissemita que enlouqueceu a França durante o famoso Caso Dreyfus, que irrompeu em 1894, quando um oficial judeu foi falsamente acusado e, na sequência condenado, por espionar a favor da Alemanha.

O mais infame dos jornais, usado para inflar o ódio aos judeus entre a população francesa levava o título, precisamente, de “A palavra livre”, La Libre Parole, animado pelo jornalista antissemita Edoard Adolfe DrumontEsse jornal fazia uso efetivo e intensivo de charges, todas carregadas da mais empenhada propaganda antissemita. Aquelas caricaturas antissemitas inflamaram a opinião pública, incendiaram as massas contra Dreyfus e os que o defendiam, como Emile Zola (J’accuse).

O jornal antissemita "A Palavra Livre"
Este nosso website, The World Socialist Web Site, assentado sobre princípios políticos há muito tempo definidos e afirmados, opõe-se inequivocamente ao ataque terrorista contraCharlie Hebdo.

Mas absolutamente nos recusamos a aceitar que Charlie Hebdo seja apresentado como mártir da casa da democracia e da livre manifestação do pensamento. Ativamente alertamos nossos leitores para que não se deixem seduzir pela agenda reacionária que está motivando e dando alento à campanha hipócrita e desonesta que está chegando às ruas.


[*] David North (nasceu em 1950) é norte-americano. Atualmente  é Presidente nacional do Partido da Igualdade Socialista nos Estados Unidos (SEP), anteriormente chamado Liga dos Trabalhadores. Serviu como secretário nacional do SEP. Foi o principal líder político e teórico do Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) após a cisão da organização com o Partido Revolucionário dos Trabalhadores. É também Presidente do Conselho Editorial Internacional do World Socialist Web Site , a voz do CIQI. Autor de vários livros e artigos sobre a história do movimento socialista. Ele ministra palestras sobre Política e História do marxismo.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Como Hitler, em 1932: Ministro alemão Steinmeier convoca o “big business” alemão

6/12/2014, [*] Johannes SternWorld Socialist Website
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Frank-Walter Steinmeier, MRE da Alemanha
No discurso de abertura de um Fórum Econômico (27-29/11/2014) organizado pelo jornal conservador Süddeutsche Zeitung, o Ministro de Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, convocou empresários e lideranças do empresariado alemão a apoiar o avanço alemão na direção de converter-se em potência mundial.

A reunião não aconteceu no Dusseldorf Parkhotel, mas no Hotel Adlon de Berlim. Na plateia não estavam Fritz Thyssen e Gustav Krupp von Bohlen und Halbach, mas o presidente executivo da Thyssen-Krupp, Heinrich Hiesinger e outros pesos pesados atuais do big business alemão. E, claro, o Ministro Frank-Walter Steinmeier, de Relações Exteriores [membro do “alto tucanato” alemão, o PSDA, Partido da Social Democracia da Alemanha (NTs)], não é Adolf Hitler.

Mesmo assim, a fala de Steinmeier fez lembrar o discurso de Hitler no Clube Industrial de Dusseldorf, dia 26/1/1932. Como Hitler, que estava a poucos passos de tornar-se o capo(Führer) dos alemães, Steinmeier apelou diretamente essa semana ao big business alemão, para que apoiasse o avanço da Alemanha rumo à posição de potência mundial. Explicitamente convocou o big business a apoiá-lo na direção de uma política exterior militarista, contrária ao que deseja o povo alemão.

O programa de Steinmeier faz lembrar muito a ânsia por poder ilimitado para a Alemanha que se acreditava que já fosse coisa do passado. “A Alemanha deve conduzir a Europa a conduzir o mundo”. Deve “europeizar a Rússia”. E deve “multilateralizar os EUA” – exigiu Steinmeier, citando um ensaio que permaneceu publicado durante meses no website do Ministério de Relações Exteriores da Alemanha. E acrescentou: “Nada de pensar pequeno!”.

É impossível não ver as implicações desse discurso. A volta da Alemanha a esse tipo de política exterior agressiva acompanha exatamente as mesmas linhas do que se viu na primeira metade do século XX. As elites alemãs voltam a ver como “missão” delas dominar a Europa, para tornar-se potência mundial. E hoje, como antes, esse programa do imperialismo alemão implica confronto contra a Rússia e contra os EUA.

“Europeizar a Rússia” significa nada menos que subordinar a Rússia a uma Europa controlada pela Alemanha. “Multilateralizar os EUA” significa contestar os EUA como hegemon mundial. Em outras palavras, a política exterior da Alemanha vai-se desenvolver no futuro cada vez mais crescentemente em oposição às duas potências contra as quais o país já guerreou duas guerras mundiais.

Hotel Adlon em Berlim
Depois dos crimes do regime nazista, as elites alemãs voltam, pelo menos por hora, ainda tentando apresentar um terceiro programa para “assumir o poder mundial”, como se algum poder vindo do exterior estivesse sendo imposto aos alemães. Todos os dias, protestou Steinmeier no Hotel Adlon, “a expectativa de maior envolvimento que a Alemanha vive, encontra a oposição de nossos parceiros no exterior”. Na sequência, convocou “um grande grupo de especialistas em questões internacionais”, para que formulasse “as expectativas da política externa alemã”.

Das várias respostas que recebeu, Steinmeier destacou uma, intitulada “Destino da Alemanha: conduzir a Europa a conduzir o mundo”. Nasceu na pena do professor indiano Kishore Mahbubani, da Universidade Nacional de Cingapura, país de partido único.

Das principais demandas de Mahbubani, Steinmeier disse, em tom rude: “E sabem quem disse isso? Não é francês, não é norte-americano. Quem disse isso para nós foi um professor indiano”.

O discurso de Steinmeier é notável não só porque volta a falar da Alemanha “líder do mundo”. O discurso manifesta também, abertamente, um programa imperialista. No centro dele, estava a conclusão de que num mundo cada vez mais crescentemente dominado por conflitos nacionais, os interesses globais da Alemanha já não podem ser buscados por meios exclusivamente econômicos: a busca exige também política externa e força militar.

Na abertura de sua fala, Steinmeier disse que não acontecia por acaso que, “no final desse turbulento ano de 2014”, ali estava ele, inaugurando um congresso de empresários, com “discurso assumidamente sobre política exterior”. Em toda sua “biografia política” – disse Steinmeier – “não me lembro de qualquer outro momento em que número tão alto de crises internacionais, em tantos pontos do mundo, de tantos e tão diferentes tipos, nos assaltassem simultaneamente, como hoje”.  

Kishore Mahbubani
O Ministro de Relações Exteriores da Alemanha pintou quadro da situação global que faz lembrar fortemente o mundo de antes da IIª Guerra Mundial. Mundo no qual prevalece “a luta por mais influência e mais dominação”, “crise é o novo estado de normalidade”, claras “rachaduras e divisões” nos aguardam e “há espanto ante as diferenças entre estados, povos e culturas”. Mesmo “no contato com nossos parceiros mais próximos, especialmente os EUA”, o “debate público é dominado por diferenças e oposições, sem qualquer referência a pontos comuns a todos”.

Economicamente, vê-se uma “volta a fronteiras nacionais fortificadas”, desde a crise financeira e econômica de 2008. Esse desenvolvimento é desafio tanto para a política econômica como para a política externa, sobretudo para a Alemanha – disse o ministro. A “recessão da globalização” ameaçada pela “economia orientada para a exportação”, enquanto “o auge das contradições” torna fracas e inservíveis “as ferramentas dos diplomatas”.

Disso tudo Steinmeier concluiu que é do interesse do big business alemão apoiar uma política externa mais agressiva, ainda que, no curto prazo, implique desvantagens econômicas.

O “primeiro passo para a recuperação” tem de vir da “consciência dos que já perceberam que nós, alemães, não temos como nos manter alheios à crise da ordem global! Onde consigamos fazê-lo, nós – políticos e líderes empresariais – temos de arrancar nós mesmos, os alemães, do pensamento insular e das nossas ilhas de conforto e apatia!”. Os que reconheçam essa urgência imediata, que “deem também o passo seguinte: como o país mais fortemente conectado em rede, nós dependemos de uma ordem mundial pacífica e sob o império da lei. Temos também de trabalhar a favor disso! Não só na Europa, mas em todo o planeta”.

(...)

Steinmeier insistiu, ante os representantes do big business que o crescimento da Alemanha na direção de tornar-se potência global não pode ser bem-sucedido só através de meios comerciais pacíficos: “A globalização econômica, só ela, não assegura qualquer convergência política (...). Mais BMWs nas ruas de Moscou e mais fábricas da Volkswagen em áreas metropolitanas da China não levam necessariamente a maior espaço político de convergências”.

Crimeia em festa pós-plebiscito de 16/3/2014
Os empresários, pois, devem, sim, se engajar nas sanções que o ocidente está impondo à Rússia. “Mediante a anexação da Crimeia [atenção: o ministro alemão mente. Não houve “anexação”, em nenhum sentido da palavra. A população da Crimeia votou, em plebiscito, e aprovou, por maioria gigante, a reintegração da Crimeia à Federação Russa (NTs)] e suas ações no leste da Ucrânia, a Rússia violentou a “lei internacional e pôs em perigo a ordem mundial sob o império da lei” e assim “violentou os pilares de nossa segurança e de nosso bem-estar”. As potências ocidentais reagiram com sanções “que também têm alto preço econômico que nós mesmos temos de pagar”. O “preço de deixar a Europa sob ameaça permanente é contudo muito superior” e as sanções, portanto, obram a favor dos interesses das empresas e dos empresários” – na avaliação de Steinmeier.

Ao mesmo tempo, o ministro alemão disse que o objetivo das sanções não deve ser “subjugar economicamente a Rússia”. É perigoso demais. “Uma Rússia desestabilizada ou mesmo já em colapso é risco muito maior para os próprios empresários e outros. Mas [conversas contra as sanções] causam grave dano à segurança da Europa”.

Steinmeier acrescentou: “Os que dizem vamos acabar com os russos! podem talvez até receber aplausos em algumas áreas, mas a verdade é que jamais acabaremos com eles. Ainda recordo, no início da crise da Ucrânia, quando o Ministro de Relações Exteriores do Canadá disse numa reunião: “Agora temos de decidir se a Rússia é amigo ou inimigo, parceiro ou opositor”. E eu disse a ele: “No Canadá, vocês talvez possam pôr a questão nesses termos. Para a Europa, a Rússia sempre será vizinho gigante, e sempre terá influência, positiva ou negativa, no nosso desenvolvimento”.

Foi golpe direto no plexo solar dos EUA. Steinmeier disse “Canadá”, mas criticou de fato Washington, que tem tomado as posições mais agressivas no conflito com a Rússia. Como seu vizinho imperialista subalterno, o Canadá apoia a política externa dos EUA, que está preparada para enfrentar, até, confronto militar direto com a Rússia, para derrubar o presidente Putin e entronizar um “regime amigo” em Moscou.

A Alemanha quer pôr a Rússia na defensiva, mas não quer o colapso das relações econômicas bilaterais. Ao mesmo tempo, a Alemanha ainda não tem meios para confrontar diretamente os EUA. Mas já começa a perseguir seus interesses imperialistas de modo mais independente e mais “assumido” em relação a outras potências. Steinmeier não deixou dúvidas de que, como no passado, o futuro também pode incluir uso de força militar e guerra.

Para combater o Estado Islâmico do Iraque e Levante [ing. ISIL], disse ele, “É claro que a solução militar é uma parte das providências, e não fugimos de nossas responsabilidades. No verão, decidimos apoiar a luta e enviamos armas para a guerrilha curda Peshmerga”. Embora ainda seja vigente o princípio de “não enviar armas para áreas em conflito”, fazer política externa é escolher em várias possibilidades não perfeitas”, e “em tais casos, é preciso considerar se estamos defendendo princípios ou nos escondendo por trás deles”.

Todo o discurso de Steinmeier deixa claro que as elites governantes alemãs não querem “esconder-se por trás” de nenhum princípio ou restrição das muitas que lhes foram impostas depois da derrota na IIª Guerra Mundial. Nesse momento, preparam o novo programa de política externa alemã, que será empurrado goela abaixo do povo alemão.

Debates no SZ Economic Forum
Na conclusão de sua fala, Steinmeier referiu-se a uma pesquisa feita pela Körber Foundation, que perguntou aos alemães: “a Alemanha deve engajar-se internacionalmente com mais força que antes?” Só 38% responderam “Sim”. 60% responderam “Não, por favor, continuem contidos”.

O Ministro de Relações Exteriores da Alemanha disse, sobre esses números, o seguinte: “Esse é o golfo que separa as expectativas externas e a prontidão interna, senhoras e senhores. Temos de lidar precisamente com esse golfo. Honestamente, se fosse engenheiro, nunca construiria, de boa consciência, ponte alguma sobre esse golfo. Como político, tenho de construir a tal ponte! E seria motivo de grande felicidade para mim – se eu não estiver errado e esse for também o interesse dos senhores – se os empresários alemães me ajudarem um pouco. Muito obrigado”.

Steinmeier está claramente propondo uma aliança entre Estado e grande capital contra a população absolutamente hostil a esse caminho que leva à guerra. Como aliança, combinando os ricos e poderosos contra a maioria, é fortemente antidemocrática. Depois das experiências terríveis de duas guerras mundiais, a oposição à guerra é força de raízes muito profundas, sobretudo na Alemanha. Pois mesmo assim as elites governantes decidiram a favor de uma política de guerra. E passam a trabalhar para impô-la à população.

Ao final do discurso de Steinmeier, ouviram-se fortes aplausos no salão de festas do Hotel Adlon, Berlim.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Imperialismo australiano: Cão de ataque na guerra dos EUA

20/10/2014, [*] Nick BeamsWorld Socialist Web Site
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vladimir Putin e Tony Abbott
Declarações recentes do primeiro-ministro australiano Tony Abbott, de que “confrontará, com cabeçada na camisa” o presidente Vladimir Putin da Rússia, na reunião de líderes do G20 em Brisbane no próximo mês, sobre a derrubada na Ucrânia do avião malaio que fazia o voo MH17 podem parecer bizarras, à primeira vista.

Mas, longe de ser alguma espécie de explosão de “oposição” violenta sem sentido, a fala de Abbott é manifestação de um processo para intensificar as tensões geopolíticas, especialmente o movimento dos EUA contra a Rússia, com a crescente substituição da diplomacia pelo militarismo e pela mais ativa provocação.

A expressão “com cabeçada na camisa” vem das regras do futebol australiano; é uma cabeçada no peito de jogador adversário, com intenção de derrubá-lo e risco assumido de provocar ferimento grave.

Embora a escolha do vocabulário seja obra de Abbott e nesse sentido casual, a beligerância da expressão não é casual. É expressão do aumento no papel global que o imperialismo australiano vem tendo como força avançada do impulso para guerra dos EUA – dirigido contra a Rússia e contra a China. O governo russo deixou claro que compreendia perfeitamente que, embora a voz fosse de Abbott (“desequilibrado, urgentemente necessitado de atenção psiquiátrica”), o “recado” vinha de Washington.

A Austrália já está plenamente integrada no “pivô para a Ásia” dos EUA, contra a China. Seu papel começou a ser preparado com a derrubada do ex-primeiro-ministro do Partido Trabalhista, Kevin Rudd, por golpe interno no partido em junho de 2010, orquestrado por operadores instalados dentro do partido e com laços estreitos com a embaixada dos EUA. A remoção de Rudd, que havia falado sobre a necessidade de o país acomodar-se ao crescente poder econômico da China no Leste Asiático, aconteceu logo depois da renúncia do primeiro-ministro japonêsYukio Hatoyama (“por não ter cumprido promessas de campanha, dentre as quais a relocação da base aérea dos EUA em Okinawa”), apenas poucas semanas depois de o japonês ter exposto a orientação de sua política externa, favorável a uma aproximação com a China.

Yukio Hatoyama

Desde os eventos de junho de 2010, a política externa da Austrália tem andado exatamente sobre as pegadas dos EUA. O “pivô” para a Ásia foi anunciado pelo presidente Obama em discurso no Parlamento Australiano em novembro de 2011; e tem sido seguido por integração sempre crescente da Austrália na ofensiva militar e política dos EUA contra a China. Em novembro passado, depois que a China anunciou a implantação de uma “Zona Aérea de Defesa, com Identificação Obrigatória” incluindo os arredores das ilhas Senkaku/Diaoyu que China e Japão ainda disputam, a Ministra de Relações Exteriores da Austrália, Julie Bishop, lançou contra Pequim uma das mais estridentes “denúncias”. 

Em Janeiro, Bishop, em contradição com a opinião política convencional, segundo a qual a Austrália seria economicamente dependente da China, insistiu que, dados os profundos laços financeiros e o nível de investimentos norte-americanos, os EUA seriam, não só o mais importante parceiro estratégico da Austrália, mas também o mais importante parceiro econômico.

Esse ano está assistindo a um crescimento na atividade política, diplomática e militar em linha com os interesses dos EUA, e que já assumiu caráter cada vez mais beligerante.

Quando o MH17 caiu, dia 17 de junho de 2014, a reação inicial de Abbott foi, de certo modo, cautelosa, lembrando que os fatos do desastre ainda não estavam esclarecidos. Mas horas depois, na sequência de uma conversa com Washington, mesmo que nenhum fato tivesse ainda sido esclarecido, Abbott distribuiu declaração em que denunciava a Rússia como agente naquele caso – posição que todo o establishment político australiano continua a manter ao longo dos últimos três meses.

Quase desde o início já se discutia se a Austrália, nação anfitriã da próxima reunião do G20, deveria cancelar o convite feito ao presidente da Rússia. O assunto foi resolvido nos bastidores da reunião do FMI no fim de semana de 11-12 de outubro de 2014, quando os EUA deixaram claro que não aprovavam a exclusão de Putin. Mas o fator decisivo foi a clara oposição dos demais membros do Grupo BRICS – Brasil, Índia, China e África do Sul – àquele movimento. A Rússia, antes, já fora excluída de reuniões do G8, e os EUA entenderam que não seria possível repetir a exclusão do G20.

Tony Abbott (por Jeremy Goodchild)
Mas os EUA decidiram que a retórica anti-Rússia deve ser intensificada em todas as oportunidades. E, nisso, a Austrália tem papel único. Como potência imperialista de nível intermediário, completamente dependente estrategicamente dos EUA e sem laços, nem econômicos, nem de qualquer tipo com a Rússia, a Austrália está disponível para atuar como uma espécie de cão de guerra a serviço de Washington, enquanto os EUA trabalham para manter a ação de dominação global. A única área onde poderia haver algum conflito seria a China. Mas essa questão já ficou resolvida pelo golpe contra Rudd, há quatro anos.

O novo papel global do imperialismo australiano também apareceu plenamente exemplificado no total apoio que a Austrália deu às novas intervenções norte-americanas no Oriente Médio. A Austrália foi um dos primeiros países a assinar a nova “coalizão dos dispostos/desejantes” de Obama, comprometendo sua força aérea para operações de bombardeio no Iraque, além de suas forças militares especiais.

Como parte desse papel no front político e militar, a Austrália também se envolveu pesadamente no serviço de fazer calar a oposição antiguerra, inventando uma “ameaça terrorista” depois de outra, para amplificar a suposta “ameaça” que viria do Estado Islâmico no Iraque e na Síria (ISIS/ISIL/EI). A maior operação policial na história da Austrália aconteceu dia 18/9/2014, supostamente para deter um complô do ISIS que culminaria numa decapitação pública. A ação foi freneticamente divulgada pelo Secretário de Estado, John Kerry, dos EUA, enquanto tentava mobilizar apoio do Congresso e internacional para a ação militar dos EUA. Os raids resultaram na prisão de apenas uma pessoa, que foi acusada da prática de ações só muito duvidosamente relacionadas a algum terrorismo.

Esse é outro aspecto chave do crescente militarismo do governo australiano, que também necessariamente manifesta processos globais – o empenho em projetar para fora do país tensões sociais crescentes.

O capitalismo australiano foi de certo modo isolado do impacto inicial da quebradeira financeira de 2008 – e por causa das conexões econômicas que mantinha com a economia chinesa em expansão. Mas agora os plenos efeitos da crise global estão chegando lá e, em alguns casos, com redobrada força, por causa do adiamento.

Mina de ferro da Rio Tinto Group's Pilbara, Austrália
O boom da mineração, que foi crucialmente importante para sustentar a economia australiana já vai bem longe. Tem havido saques em minas de carvão, ao mesmo tempo em que a renda da venda de minério de ferro, que constitui 1/5 das exportações australianas e é item chave da arrecadação de impostos, está sendo duramente atingida pela queda dos preços, que só até aqui, esse ano, já chegou a 40%.

A desigualdade é crescente, os salários reais permanecem estagnados ou estão sendo cortados, e a pobreza está aumentando. Como se vê acontecer em todas as grandes potências capitalistas, o establishment político oficial é visto com crescente hostilidade por setores cada vez mais amplos da população.

Posta nesse contexto, a “cabeçada na camisa” de Abbott contra Putin é mais uma expressão do crescimento internacional do militarismo norte-americano, que tenta nos empurrar para outra guerra mundial, e que conseguirá o que tanto deseja, se não for contido pela ação política da classe trabalhadora em todo o mundo.


[*] Nick Beams é o Secretário Geral do Partido da Igualdade Socialista (Socialist Equality Party − SEP) e membro do Conselho Editorial do WSWS − World Socialist Web Site. O SEP foi criado em 2010 como partido sucessor da Liga Socialista Trabalhista (Socialist Labour League − SLL) da Austrália que foi fundada em 1972 como a seção australiana do CIQI − Comitê Internacional da Quarta Internacional. O SEP oferece as notícias e informações on-line do CIQI e é um partido político registrado na Comissão Eleitoral Australiana e participa de eleições em todos os níveis de governo.