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quarta-feira, 24 de junho de 2015

Pepe Escobar: Putin e a caravana saudita

  
E como sempre, ninguém nem viu
o que estava para acontecer...


22/6/2015, [*] Pepe Escobar, Sputnik
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vladimir Putin trabalhando em S. Petersburgo...

Adivinhem quem entrou na sala, 5a-feira passada (18/6/2015), em São Petersburgo: o vice-príncipe coroado e Ministro da Defesa, Muhammad bin Salman, filho preferido do rei Salman; o Ministro do Exterior, Adel al-Jubeir (ex-embaixador nos EUA e ator muito próximo dos players do Departamento de Estado); e o todo poderoso Ministro do Petróleo, Ali al-Naimi. Todos lá estavam para um encontro com o Presidente Vladimir Putin, à margem do Fórum Econômico de São Petersburgo.
Em princípio, não poderia haver virada de jogo mais espetacular à vista. Uma caravana dos reis sauditas oferecendo tributo, ouro, incenso e mirra (ou, quem sabe, preços mais altos para o petróleo). Ninguém ainda sabe como tudo isso se articula no Novo Grande Jogo na Eurásia, no qual um dos principais frutos é a Guerra Fria 2.0 entre EUA e Rússia.
Putin e o rei Salman – muito discretamente – estiveram em contato por telefone durante semanas. O filho do rei convidou Putin a visitar Riad. Convite aceito. Putin convidou o rei a visitar Moscou. Convite aceito. Não há dúvidas de que o suspense já está matando gente, de tanta ansiedade. Mas é vida real? Ou são só fumaça e espelhos?
Quem é aliado de quem?
Para começar, o crucial front da energia. Putin discute agora o que, até aqui, foi guerra de preços, mas que pode (atenção: pode) vir a tornar-se uma “aliança de petróleo” (em palavras de Naimi), diretamente com a fonte: a Casa de Saud.

Assumindo-se que essa entente cordiale venha eventualmente a levar a uma subida no preço do petróleo, Putin marca importante vitória interna contra o que pode ser descrito como uma Quinta Coluna Atlanticista que tenta minar o impulso multipolar dos russos. Mais que isso, não machuca Moscou, em termos geoeconômicos, poder agregar a Arábia Saudita como grande comprador dos sistemas de defesa russos, de superior qualidade.

A inteligência russa está perfeitamente consciente de que a Casa de Saud ficou tremendamente “desapontada” – eufemismo monstro! – com a política do governo Obama que eles mesmos descrevem como “Não faça merda coisa estúpida”, e por alto número de motivos, das quais uma, nada insignificante, é a possibilidade concreta de um acordo nuclear Iran-P5+1 dia 30 de junho de 2015, o que será sinalização codificada de que Washington finalmente aceitou baixar seu próprio Muro da Desconfiança contra a República Islâmica, erguido há 36 anos.
Reunião de alto nível com a Casa de Saud e, pior, na Rússia, arrepia furiosas penas no Departamento de Estado. Não ficará sem castigo – contra Moscou e contra Riad. Afinal, os verdadeiros Masters of the Universe – não seus office-boys em diferentes setores do governo dos EUA – já há algum tempo procuram jeito para descartar a Casa de Saud.
Fórum Econômico de S. Petersburgo
A inteligência russa também sabe que, em Washington, a Casa de Saud depende hoje dos bons favores do lobby israelense – e tudo tem a ver com demonizar o Irã. E, agora, um acordo nuclear com o Irã – que tornará Teerã “normal”, na relação com o ocidente – já disparou o sinal mais vermelho possível de alarme, numa Riad já vulnerável.
A mensagem de Putin ao Irã é mais sofisticada. Moscou trabalhou muito ativamente a favor de um acordo nuclear bem-sucedido com o Irã; o que invalida a teoria de que Moscou esteja começando a jogar a carta saudita, para extrair “concessões” de Teerã.

Não há “concessão” alguma. A Rússia – e eventualmente também o Irã – fornecerão energia, ambos os países, para os mercados europeus. Não imediatamente, porque a modernização da infraestrutura iraniana exigirá anos e cataratas de investimentos. Mas logo no ano que vem, um Irã não sancionado pode ser afinal admitido como membro da Organização de Cooperação de Xangai (OCX).

Implica dizer que o Irã não virará fervorosamente pró-ocidente de um dia para o outro – como sonham algumas facções não neoconservadoras no Departamento de Estado. O Irã está consolidando seu poder regional; se engajará em relações normais, especialmente com europeus; mas, sobretudo, acelerará a integração na Eurásia, o que implica relações ainda mais próximas com ambas, Rússia e China. Para não dizer que na Síria, o Irã e a Rússia estão exatamente na mesma página geopolítica, o que é posição totalmente oposta à da Casa de Saud.
O movimento de Putin pode também isolar o Qatar – o qual, indiretamente, mas muito eficazmente, subsidia a al-Qaeda na Síria, com vistas a promover o próprio objetivo geoeconômico máximo: um gasoduto para gás natural do campo de Pars Sul, pela Arábia Saudita e Jordânia, até a costa do Mediterrâneo.
Sauditas estudam comprar armas russas

O projeto rival é o oleogasoduto Irã-Iraque-Síria, agora perenemente ameaçado, porque o grande acordo do “Siriaque” está já sob a mira do ISIS/ ISIL/ Daesh. Aqui, o que se vê é que o falso Califato apoia geoeconomicamente os projetos do Qatar; e geopoliticamente, os dos sauditas.
O que é certo é que a peregrinação de sauditas de alto escalão até São Petersburgo não poderia ser mais diametralmente oposta à cena em que se viu o (já tombado em desgraça) Bandar Bush a ameaçar Putin, em agosto de 2013, de atiçar os jihadistas chechenos contra os Jogos Olímpicos de Sochi, se Moscou não parasse de apoiar Bashar al-Assad da Síria.
Quem diz o quê?
É tentador ver nesse drama fabuloso uma subtrama do movimento dos BRICS – principalmente Rússia e China – em avançada no Oriente Médio, com Washington na ponta perdedora. Mas a coisa é mais como Putin jogando Mundo Multipolar, não Monopólio, e cuidando para que o Império do Caos tenha de suar muito para manter “no discurso previsto” [orig. “on message”] os seus blocos fantoches/vassalos, como o Conselho de Cooperação do Golfo.
Ainda falta verificar, no longo prazo, se tudo não passa de jogada desesperada dos sauditas para arrancar “concessões” do seu protetor imperial. Mas, assumindo-se que seja contato às veras, Moscou garante para si a capacidade para atender aos interesses dos dois lados, do Irã e dos sauditas; e assegura que esse “pivô [russo] para o Oriente Médio”, bem feito, de comum acordo, venha talvez a ser tão espetacular como o “pivô para a Ásia”, da Rússia; e as Novas Rotas da Seda, da China.
Até agora ainda não há provas de que a Casa de Saud tenha realmente percebido, mesmo, de que lado sopra o vento – quer dizer, o vento que empurra a caravana eurasiana da Rota da Seda do século 21, não importa o que o pensamento desejante dos excepcionalistas por aí viva a repetir.


Eles são medrosos; eles são paranoicos; eles são vulneráveis; e eles carecem de novos “amigos”. Ninguém melhor que Putin – e a inteligência russa – para tocar a nova batida, em várias tonalidades. A Casa de Saud absolutamente não merece confiança. É só ver os telegramas sauditas que WikiLeaks acaba de divulgar.
Tudo isso pode revelar-se uma bonanza geopolítica/geoeconômica. Mas também pode ser caso de manter os amigos próximos; e ainda mais próximos, os inimigos.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books

sábado, 20 de junho de 2015

WikiLeaks: Telegramas Sauditas


 
Revelados mais de meio milhão de telegramas e outros documentos do Ministério Saudita de Relações Exteriores


19/6/2015, 6ª-feira: 61.195 documentos Distribuídos hoje
Jornal parceiro: Al Akhbar - Lebanon
Para ler (documentos em inglês e árabe) clique em Pesquisar (search)
Traduzido do inglês pelo pessoal da Vila Vudu




Hoje, 6a-feira, 19/6/2015, às 13h GMT, WikiLeaks começou a publicar Os Telegramas Sauditas: mais de meio milhão de telegramas e outros documentos do Ministério Saudita de Relações Exteriores, onde se encontram comunicados secretos de várias embaixadas sauditas por todo o mundo. A publicação inclui relatórios “Top Secret” de outras instituições do Estado Saudita, inclusive do Ministério do Interior e dos Serviços Gerais de Inteligência do Reino. A quantidade massiva de dados também inclui grande número de comunicados por e-mail entre o Ministério de Relações Exteriores e entidades estrangeiras.
Os Telegramas Sauditas estão sendo e continuarão a ser publicados em pacotes de dezenas de milhares de documentos de cada vez, ao longo das próximas semanas. Hoje, WikiLeaks está divulgando cerca de 70 mil documentos do total, como primeiro pacote.
Para Julian Assange, editor de WikiLeaks,
Os Telegramas Sauditas levantam o véu de uma ditadura cada vez mais errática e cheia de segredos que não só celebrou esse ano sua 100ª execução por decapitação, mas que já se converteu em ameaça para os vizinhos e para o próprio povo.

Funeral do Rei Abdullah em Janeiro de 2015

O Reino da Arábia Saudita é ditadura hereditária, com território à beira do Golfo Pérsico. Apesar do portfólio infame do Reino, no campo dos direitos humanos, a Arábia Saudita permanece como aliada preferencial dos EUA e do Reino Unido no Oriente Médio, em boa medida por causa de suas reservas de petróleo, as maiores do mundo. O Reino frequentemente aparece na lista dos maiores produtores de petróleo, o que lhe dá poder desproporcional de influência nos negócios internacionais. A cada ano, os sauditas empurram bilhões de petrodólares para os bolsos de bancos britânicos e empresas norte-americanas fabricantes de armas. Ano passado, tornou-se o maior importador mundial de armas, eclipsando China, Índia e todos os países da Europa Ocidental somados.
Desde os anos de 1960, o Reino tem papel central na Organização dos Países Exportadores de Petróleo, OPEP, e no Conselho de Cooperação dos Estados Árabes do Golfo (CCG), e domina o mercado global da caridade islamista.
Durante 40 anos o Ministério de Relações Exteriores do Reino foi comandado pelo mesmo homem: Saud al Faisal bin Abdulaziz, da família real saudita, e o Ministro de Relações Exteriores que por mais tempo permaneceu no cargo, em todo o mundo. O fim do mandato de Saud al Faisal, que começou em 1975, coincidiu com a sucessão na casa real saudita, depois da morte do rei Abdullah em janeiro de 2015. O mandato de Saud al Faisal como ministro cobriu eventos chaves e questões de relações exteriores da Arábia Saudita desde a queda do Xá e a 2ª Crise do Petróleo até os ataques de 11 de setembro de 2001 e a ininterrupta guerra por procuração contra o Irã.

Saud al Faisal bin Abdulaziz Segredos revelados


Os Telegramas Sauditas oferecem informação importante sobre operações do Reino e como administrou suas alianças e consolidou a própria posição como potência regional no Oriente Médio, inclusive com suborno e pela cooptação de indivíduos e instituições chaves. Os telegramas também ilustram a estrutura burocrática altamente centralizada do Reino, onde até as mais mínimas questões são decididas pelos mais altos funcionários.
Desde o final de março de 2015 o Reino da Arábia Saudita está envolvido numa guerra contra o vizinho Iêmen. Em maio de 2015, o Ministro de Relações Exteriores saudita admitiu que sua rede de computadores havia sido invadida. A responsabilidade pela invasão foi atribuída a um grupo que se autodenomina Exército Ciber Iemenita [ing. Yemeni Cyber Army]. O grupo depois distribuiu, por sites de partilha de documentos, uma valiosa “amostra” de conjuntos de documentos então obtidos; imediatamente aqueles sites passaram a ser alvo de ataques de censores.
O bloco completo de documentos que WikiLeaks agora começa a distribuir compreende milhares de vezes mais documentos do que então apareceram, e inclui centenas de páginas de documentos em árabe, escaneados. Num gigantesco esforço de investigação jornalística, WikiLeaks extraiu o texto daquelas imagens e os acrescentou aos demais, na nossa base de dados para pesquisa. O bloco também inclui dezenas de milhares de arquivos de texto e planilhas, além de mensagens de e-mail, que agora ficam disponíveis para serem pesquisados pela ferramenta de pesquisa de WikiLeaks.

Julian Assange, fundador de WikiLeaks


Por coincidência, a distribuição ao público dos Telegramas Sauditas também marca dois outros eventos. Nessa 6ª-feira, 19/6/2015, completam-se três anos desde que o fundador de WikiLeaks, Julian Assange entrou na Embaixada do Equador em Londres, à procura de asilo que o protegesse da perseguição que lhe movem os EUA, depois de ter sido impedido de sair do Reino Unido por mais de cinco anos, sem qualquer acusação formalizada contra ele.
Também hoje, a empresa Google revelou que foi obrigada a entregar ainda mais dados ao governo dos EUA, requisitados pela acusação no processo que os EUA movem contra funcionários da empresa WikiLeaks, acusados de espionagem, por causa da publicação de telegramas diplomáticos dos EUA.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Pepe Escobar: Sonhos norte-americanos, do G1 a Bilderberg


11/6/2015, [*] Pepe Escobar, Russia Today – RT
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Obama discursa na reunião de Kruen, Alemanha
Qual a conexão entre a reunião do G7 na Alemanha, a visita do presidente Putin à Itália, o clube Bilderberg reunido na Áustria e as negociações do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT) [Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP)] – o acordo de livre comércio entre EUA e União Europeia – em Washington?
Comecemos pelo G7 nos Alpes da Bavária – de fato, um G1 cercado de uma leva de “parceiros juniores” – com o Presidente Barack Obama a regozijar-se nesse festim neoconservador induzido – arregimentando a União Europeia para ampliar sanções contra a Rússia, mesmo que provavelmente as sanções firam mais a União Europeia varrida pela austeridade [1] pelo ARROCHO, que a Rússia.
Como se podia prever, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês também caíram lá – depois de a realpolitik tê-los obrigado a conversar com a Rússia e a montar, juntos, o acordo Minsk-2.
O hipocrisiômetro já havia explodido pela tampa sobre os Alpes Bávaros, logo no discurso pré-jantar, do presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, ex-Primeiro Ministro da Polônia e russófobo de carteirinha/pró-guerra:
Todos nós preferiríamos ter a Rússia à mesa do G7. Mas nosso grupo não é simples grupo que partilha interesses políticos e econômicos. Antes de qualquer outra coisa, somos uma comunidade de valores. E é por isso que a Rússia não está entre nós.
Quer dizer que o negócio foi “valores” civilizados versus “agressão russa”.
O “civilizado” G1 + parceiros juniores não poderia jamais declarar lá que todos, coletivamente, se ariscam a pôr uma guerra nuclear em solo europeu, por causa de um “Banderastão” criado por Kiev, desculpe, é “agressão russa”.
Em vez disso, a parte realmente engraçada acontecia por trás das cortinas. Em Washington, grupos culpavam a Alemanha por o ocidente ter perdido a Rússia para a China; enquanto os adultos na União Europeia – bem longe dos Alpes Bávaros – culpavam Washington.
Ainda mais sumarenta é a visão contrária que circula entre os poderosos Masters of the Universe no mundo empresarial norte-americano sem política. Eles temem que nos próximos dois ou três anos, a França acabe por realinhar-se ao lado da Rússia (precedentes históricos abundam). E eles – mais uma vez – identificam a Alemanha como o problema-chave (com Berlim forçando Washington a envolver-se numa Mitteleuropa prussiana, que os norte-americanos guerrearam duas guerras para impedir que se formasse).
Quanto aos russos – do Presidente Putin e do Ministro Lavrov de Relações Exteriores, para baixo – já emergiu um consenso: não faz sentido algum discutir qualquer coisa substancial, se se considera o lastimável pedigree intelectual – ou absoluta imbecilidade neoconservadora – dos políticos e conselheiros do governo Obama que se autoapresentam como a turma do “Não faça merda coisa estúpida”. Quanto aos “parceiros juniores” – a maioria, gente da União Europeia – são irrelevantes, meros vassalos de Washington.
Seria delírio esperar que a gangue dos “valores civilizados” propusesse qualquer alternativa que ajudasse a vasta maioria dos cidadãos das nações G7 a conseguir coisa melhor que Mac-empregos, os mesmos que já mal sobrevivem, reféns que são do turbo-capitalismo dependente-viciado em finanças, que só beneficia o 1%. Muito mais fácil apontar o dedo para o bode expiatório proverbial – a Rússia – e tocar adiante com retórica da OTAN de distribuir medo e pregar guerra e guerra.
A Lady de Ferro Merkel também achou tempo para pontificar sobre mudança climática – pregando a todos por lá que invistam numa “economia global de baixo-carbono”. Poucos perceberam que o prazo para a total “descarbonização” ficou combinado para o final do século XXI, quando esse planeta estará em fundas, profundíssimas dificuldades.
Achtung! [Atenção!] Bilderberg!
A novilíngua soprada pelos neocons de Obama continua a pregar que a Rússia sonha com recriar o império soviético. Agora comparem com o que o Presidente Putin explica na Europa.
G1 e parceiros júniors em Kruen - Alemanha
Semana passada, o presidente Putin achou tempo para uma entrevista ao Corriere della Sera de Milão, às 2h da manhã. A entrevista foi publicada enquanto rolava a festa nos Alpes Bávaros, e antes da visita de Putin à Itália, dia 10/6/2015. Os interesses geopolíticos de EUA e Rússia foram expostos nos mais atrozes detalhes.
Quer dizer que Putin era persona non grata naquele G1 + parceiros juniores? OK. Na Itália ele visitou a Milan Expo;encontrou-se com o Primeiro-Ministro Renzi e com o Papa Francisco (vídeo no fim do parágrafo); fez com que todos recordassem os “laços econômicos e políticos privilegiados que unem Itália e Rússia”; e falou das 400 empresas italianas ativas na Rússia e no milhão de turistas russos que visitam a Itália anualmente.
Mais importante que tudo isso, Putin evocou também o tal dito consenso: a Rússia sempre representou visão alternativa como membro do G8. Agora, parece que “as outras potências” supõem que já não precisem disso. Em resumo: é impossível manter conversa de adultos com Obama e seus amiguinhos.
E na sequência, de Berlim – por onde andava exibindo suas impressionantes credenciais de política externa, Jeb Bush, irmão do destruidor do Iraque, Dábliu Bush, integralmente adestrado e “brifado” pelos seus conselheiros neoconservadores, declarou Putin “um agitador”; e seguiu pela Europa em luta contra (e o que mais seria?!) a “agressão russa”.
O véu retórico que encobriu o que realmente se discutiu nos Alpes Bávaros só começa a dissipar-se aos primeiros acordes dos verdadeiros nada-noviços nada-rebeldes: a reunião do Bilderberg Group que começa nessa 5ª-feira (11/6/2015), no Interalpen-Hotel Tyrol na Áustria, apenas três dias depois da reunião do G1+parceiros juniores.
Conspiracionismos possíveis à parte, Bilderberg pode ser definida como uma gangue ultrassecreta de lobbyistas de elite – políticos, chefões norte-americanos corporativos, funcionários da União Europeia, grandes industriais, chefes de agências de inteligência, cabeças europeias coroadas – anualmente organizada numa espécie de think-tank informal/formato lançador-de-políticas, para fazer avançar a globalização e todos os assuntos cruciais relacionados à agenda geral atlanticista. Pode chamar de Festival Mundial dos Masters of the Universe Atlanticistas.
Para lançar alguma luz sobre aquela escuridão – não que o pessoal lá seja adepto de alguma transparência – conhece-se a composição da comissão que dirige os trabalhos. E também a pauta da reunião na Áustria.
Naturalmente falarão sobre “agressão russa” (na linha de “e quem liga para Ucrânia falida? Queremos é impedir que a Rússia faça negócios com a Europa”).
Naturalmente falarão sobre a Síria (na linha da partilha do país, com o Califato já aceito como fato da vida-pós-Sykes-Picot).
Naturalmente falarão sobre o Irã (na linha do vamos-negociar: compramos a energia deles e os subornamos para que venham para nosso clube).
Mas o negócio realmente quente por lá é o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT) [Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP)] – suposto acordo “de livre comércio” entre EUA e UE.Pode-se dizer que todos os lobbyistas do big business/big finança lá estarão, praticamente todos eles, sob o mesmo teto austríaco.
Putin e o Papa Francisco em 10/6/2015
Não por acaso, Bilderberg começa exatamente na véspera do dia em que o Congresso dos EUA inicia o debate sobre a “tramitação de urgência” [orig. fast track”, lit. “trilha rápida”] para a lei que dá autoridade ao presidente para negociar a coisa.
WikiLeaks e muitos BRICS
Entra em cena WikiLeaks, com material que, num mundo justo, seria elemento crucial para emperrar toda a máquina de destruição.
A lei da “rápida tramitação”, se aprovada, prorrogará os novos poderes do Presidente dos EUA por nada menos que seis anos.Assim se inclui o próximo inquilino da Casa Branca que talvez venha a ser “The Hillarator” ou Jeb “Putin é agitador” Bush.
Essa autoridade presidencial para negociar acordos safados inclui não só o acordo da TTIP, mas também o da Parceria Trans-Pacífico (TPP) e também o Acordo de Comércio em Serviços (TiSA).

Em boa hora, WikiLeaks publicou o Anexo de Assistência à Saúde [orig. Healthcare Annex] do rascunho do capítulo “Transparência” da TPP, e a posição de cada país que está negociando. Não surpreende que o rascunho seja secreto. E nada há, nele, de “transparente”: é o sequestro não disfarçado, pela Big Pharma, de todas as autoridades nacionais da atenção à saúde pública.

O resumo da história é que esses três mega-acordos – TTP, TTIP e TiSA – são o mais completo modelo do que se pode, polidamente, descrever como governança global pelas grandes empresas – o mais molhado dos sonhos molhados deBilderberg.
Quem perde: os estados-nação e o próprio conceito de democracia ocidental.
Quem ganha: as megaempresas comerciais.
>
Julian Assange, em declaração de poucas palavras [também em espanhol, para facilitar a leitura (NTs)], disse tudo:
É erro supor que a Parceira Trans-Pacífico seria um simples tratado comercial. Na verdade, são três megatratados que operam em conjunto: o TiSA, o TPP e o TTIP, e os três se acrescentam, em termos estratégicos, como um único grande tratado unificado, que racha o mundo: o ocidente versus o resto. Esse “Grande Tratado” é descrito pelo Pentágono como o coração econômico do “Pivô para a Ásia” dos militares dos EUA. Os arquitetos miram nada menos que o arco da história. O Grande Tratado está tomando forma em total segredo, porque, com essas suas ambições estratégicas jamais discutidas fora das elites, ele alicerça firmemente uma forma agressiva de empreendimento comercial transnacional para o qual o apoio é mínimo entre as populações.
Portanto, aí está a verdadeira agenda atlanticista – os toques finais sendo aplicados no arco que vai do G1+parceiros juniores até Bilderberg (devem-se esperar telefonemas crucialmente importantes da Áustria para Washington, na 6ª-feira, 12/6/2015).É a OTAN comercial. Pivotagem para a Ásia, excluindo Rússia e China. Ocidente vs. o resto.
Agora, o contragolpe. Enquanto rolava o show nos Alpes Bávaros, acontecia em Moscou o primeiro Fórum Parlamentar dos BRICS – antes da reunião de cúpula dos BRICS em Ufa, mês que vem (julho/2015).
Reuniões dos BRICS e OCX em Ufa, Rússia (jul/2015)
Neoconservadores – com Obama puxando a fila – desfalecem de gozo, sonhando que a Rússia estaria “isolada” do resto do mundo, por causa das sanções deles. Desde o começo das sanções, Moscou já assinou acordos econômicos/estratégicos com, pelo menos, 20 nações. No próximo mês, a Rússia hospedará a reunião de cúpula dos BRICS – 45% da população do planeta, PIB equivalente ao da UE, e em pouco tempo já terá ultrapassado o do atual G7 – e também a reunião da Organização de Cooperação de Xangai, quando Índia e Paquistão, atualmente membros-observadores, serão incorporados como membros plenos.
G1 + parceiros juniores? Vão procurar que-fazer! Vocês não são o único show na cidade, em nenhuma cidade.
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Nota dos tradutores
[1] O substantivo abstrato “austeridade” tem em português do Brasil a seguinte sinonímia: “autocontrole, autodomínio, circunspeção, circunspecção, comedimento, compostura, continência, critério, desafetação, despojamento, discrição, equilíbrio, frugalidade, gravidade, juízo, lhaneza, método, moderação, modéstia, ordem, parcimônia, ponderação, prudência, recolhimento, regra, reserva, respeito, retraimento, rigor, sensatez, senso, seriedade, severidade, simplicidade, singeleza, siso, sisudez, sobriedade, sofrósina, têmpera, temperança, tino, virtude, vulto, além de restrição e vigor”.


Pretender que o FMI obraria para obrigar países pobres e chantageados a operar com gravidade, juízo, tino, temperança é piada (quando não é descarada poka vergonha). Não é porque no Grupo GAFE (Globo, Abril, FSP e Estadão), de cada duas palavras, três são para “informar” que o governo democrático do Brasil é formado de malucos e ladrões, dedicados a torrar dinheiro como doidos e sem qualquer sabedoria ou compostura, que deveríamos insistir nós também, sempre na mesma trilha de repetição.
  • Os marxistas SEMPRE sabemos mais e melhor que qualquer imprensa-empresa e mais, até, que muuuuita FGV e FEA-USP & Chicago Boys.
  • A coisa não é “austeridade”. A coisa é ARROCHO.
  • Melhor dar à coisa o nome certo.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.