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domingo, 19 de abril de 2015

Um Iêmen Revolucionário


Quatro anos depois da Revolução Iemenita, quais
as chances de outro movimento democrático?


16/4/2015, [*] Bilal Zenab AhmedJacobin Magazine
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Dezembro de 2011, Marcha no Iêmen
(shehabart1 / Flickr)
Semana passada, recebi mensagem perturbadora de um amigo no Iêmen:

A situação é desesperada – disse ele. – Os bombardeios continuarão por, no mínimo, outros seis meses. Vão faltar itens básicos. Meus filhos estão assustados e eu ainda não sei o que fazer.

Mensagens como essa têm sido frequentes, assim como a correspondente ira. Como é possível que, em apenas cinco anos, tenhamos ido de um impressionante movimento revolucionário com base ampla na sociedade iemenita, para os jatos sauditas a bombardearem grandes áreas do país, enquanto os houthis (“houthis” é o modo como os sauditas chamam o movimento Ansarullah” [1]) consolidam-se no poder?

Por causa da posição marginal do Iêmen – é o país mais pobre de todo o mundo árabe –, há agora poucos especialistas confiáveis, que falem inglês, no país. Depois do declínio dos governos revolucionários durante a Guerra Fria, já praticamente não havia qualquer interesse geoestratégico que justificasse a tensão ocidental.

Resultado disso, há hoje poucos especialistas não militares com suficiente conhecimento sobre o Iêmen para que se possa levar a sério o que dizem.

A maioria deles mal têm tempo para escrever, poucas linhas que sejam, sobre o que está acontecendo. Contatos com editores e jornalistas no Iêmen acontecem, quase sempre, nos seguintes termos:

PERGUNTA: O que você pode nos dizer sobre os houthis/ Ansarullah?

RESPOSTA: Os houthis/Ansarullah são uma aliança de militantes tribais com base em Sa’ada, um governorado no norte do Iêmen. Os analistas nos veículos dominantes só fazem repetir que não passam de agentes do Irã. Mas a história é mais complicada.

Muita gente acredita que o deposto presidente Ali Abdullah Saleh sentiu-se ameaçado pelo vasto apoio religioso e tribal dado a Hussein Badreddin al-Houthi, o líder da organização “Juventude Crente” (JC), que havia antes dos houthis/Ansarullah e da qual o movimento dos houthis/Ansarullah brotou, a JC começou a operar no início dos anos 1990s, preocupada, sobretudo, com projetos educacionais e culturais para fazer reviver o xiismo zaidista.

Mas Saleh temia que os houthis/Ansarullah viessem a declarar al-Houthi um novo Imã xiita zaidista e que ele passasse a comandar uma revolução tribal que começaria no norte do Iêmen. Dia 18/6/2004, a organização “Jovens na Grande Mesquita de Sana’a” organizaram manifestações, em repúdio à invasão do Iraque pelos EUA e à repressão, por Israel, contra a Intifada de Al-Aqsa. Aquelas manifestações foram parte de uma onda muito maior de protesto dos iemenitas.

Em resposta, as forças de Saleh atacaram. Mataram grande número de seguidores de al-Houthi, ofereceram um prêmio a quem o capturasse e deflagraram amplas operações de combate no norte do Iêmen.

Mas a estratégia saiu-lhes pela culatra. Al-Houthi foi assassinado em setembro de 2004, e seus seguidores organizaram-se em torno dos irmãos dele. O movimento rapidamente se tornou uma insurgência armada, ativa num prolongado conflito, que o Departamento de Estado dos EUA, em 2010, chamou de A Guerra de Sa’ada. Adiante, participaria no que se tornou conhecido como a Revolução Iemenita de 2011 – que aconteceu e cresceu no bojo do que se chama “Primavera Árabe”.

Abdrabbuh Mansour Hadi
“Os houthis” tomaram o poder como um dos resultados do fracasso do governo pós-insurreição que EUA e Arábia Saudita organizaram em torno do ex-vice-presidente, Abdrabbuh Mansour Hadi. O governo de Hadi arrastava com ele vários problemas: não tinha qualquer legitimidade democrática e não dava sinal de qualquer interesse em atender as demandas do levante. Foi convocada uma Conferência para Diálogo Nacional [orig. National Dialogue Conference   (NDC)],  para construir um adequado contexto de democracia. Os houthis / Ansarullah afirmam que o que fazem hoje visa a pôr em prática o que ficou decidido naquela NDC, com o objetivo de constituir um novo governo.

PERGUNTA: Mas o Irã apoia os houthis/ Ansarullah?

RESPOSTA: Não é assim tão simples. Parece que os houthis/ Ansarullah expandiram seus laços com o Irã. Mas tudo sugere que isso só tenha acontecido muito recentemente. Esses laços absolutamente nada têm a ver com o sucesso dos houthis/ Ansarullah no processo de conquistar o controle sobre grande parte do país, que é resultado de uma bizarra aliança com Saleh, que deu aos houthis/ Ansarullah acesso aos recursos militares e de aliados do antigo presidente. Circula também [do New York Times para o Haaretz] o mito de que os houthis/ Ansarullah seriam um “Hezbollah iemenita”. É “notícia” inventada; é simplesmente mentira.

O que se sabe é que há muito tempo Saleh dizia aos EUA que o Irã estaria ajudando os houthis/ Ansarullah, mas os diplomatas jamais acreditaram nele. Telegramas diplomáticos distribuídos por WikiLeaks provam isso. Um dos telegramas, da Embaixada de EUA-Canadá em Sana’a, com data de 9/12/2009, diz:

Ao contrário do que diz o Governo da República do Iêmen (GRI), que o Irã estaria armando os houthis, a maioria dos analistas informam que os houthis obtêm suas armas no mercado negro iemenita e, até, dos militares do próprio Governo da República do Iêmen.

Até hoje os houthis/Ansarullah obtêm muitas de suas armas dessas fontes, independente de qualquer possível apoio que recebam do Irã. A mais brutal ironia é que praticamente todas as armas que estão hoje em mãos dos houthis/Ansarullah foram fabricadas na Europa e nos EUA.

Nada impede que o Irã esteja realmente apoiando os houthis/Ansarullah. Talvez esteja. Mas os fatores que realmente permitiram que se constituísse o impressionante arsenal com que eles hoje contam foi a proliferação de armas, veículos, munição e equipamentos militares de todo tipo, de fabricação euro-norte-americana, em todos os mercados negros de todo o Oriente Médio; além, também, claro, de vendas oficiais dos mesmos equipamentos, feitas ao exército iemenita. De fato, ainda que o Irã esteja ajudando o grupo, o que não é fato confirmado, o mais provável é que, para fazê-lo, os “ajudadores” explorem as mesmas vias e redes de contrabando pré-existentes.

PERGUNTA: E quais os interesses dos EUA no país?

RESPOSTA: Os EUA têm algum interesse “de grupo” em mostrar que combatem a al-Qaeda na Península Árabe [orig. al-Qaida in the Arabian Peninsula (AQAP), principalmente porque o grupo opera em áreas próximas à Arábia Saudita. A AQAP foi formada no Iêmen em janeiro de 2009, depois que a al-Qaeda na Arábia Saudita [orig. al-Qaida in the Saudi Arabia (AQAS)] foi efetivamente expulsa para o outro lado da fronteira depois de vários ataques.

AQAS fundiu-se com a al-Qaeda no Iêmen. Desde o nascimento da AQAP, e especialmente depois da prisão de um de seus principais especialistas em explosivos Ibrahim Hassan Tali al-Asiri, agentes norte-americanos e britânicos de contraterrorismo focaram-se em destruir o grupo, servindo-se de vários recursos, inclusive drones armados. Para isso, deixaram de lado qualquer atenção a outros terríveis problemas relacionados à segurança humana no Iêmen, como a desesperadora falta de água.

O Iêmen enfrenta catastrófica falta d'água
A única verdade indiscutível é que o Iêmen está sob ataque. Sem qualquer visão por trás desses ataques, parece óbvio que o país continuará a deteriorar-se. Quanto às potências estrangeiras, ou mudam sua abordagem ou acabarão expulsas de lá por algum movimento de libertação nacional. A expulsão seria muito prejudicial aos interesses dos EUA, no longo prazo. Diz-se que se emprega hoje a mais terrível violência, porque se trataria de impedir um arranjo revolucionário que se pode espalhar para todas as monarquias do Golfo e destruir toda a ordem regional.

Os especialistas não saem da mídia, e nos intervalos só trocam de terno, para a próxima entrevista. As perguntas, também sempre repetidas, só dizem respeito, infalivelmente, a supostas “rixas” entre sunitas e xiitas. Ninguém fala de disputa mais ampla entre Arábia Saudita e Irã. Os especialistas mal conseguem disfarçar o mal-estar e lá ficam, sempre repetindo variações sobre o seguinte:

Temos de lembrar que o Iêmen é país onde, historicamente, nenhum dos grupos religiosos jamais mostrou antagonismo declarado contra o outro. Verdade é que a Arábia Saudita apoiou um Imanato xiita zaidista durante a Guerra Civil no Norte do Iêmen. Saleh ajudou a disseminar o wahabismo sunita.

O sectarismo é fenômeno recente, resultado de três fatores:

1) é uma das consequências regionais das ações dos EUA no Iraque;

2) é um dos efeitos das doutrinas, disseminadas pelos sauditas, de uma suposta supremacia do sunismo; e

3) é efeito da tendência, que se constata no neoliberalismo, de aprofundar as identificações sectárias e todas as linhas de divisão. O sectarismo é uma combinação de intervenção militar com intensos processos de interferências culturais mútuas, não só no Iêmen, mas em toda a região mais amplamente.

Não significa que o Iêmen fosse, antes, um paraíso sem sectarismos. Significa, só, que a tensão sectária no país, como se a vê hoje, é efeito de fatores bem tangíveis.

O Iêmen nunca foi um paraíso sem sectarismos
A identificação sectária acabou por implicar acesso garantido à segurança, a bens e serviços, nos períodos de instabilidade doméstica e escassez de recursos. As tensões também sofreram a influência da violência em curso em outras regiões (na Síria, por exemplo).

Nada disso foi alguma espécie de fatalidade ou seria inevitável. O que se vê hoje no Iêmen é o resultado de decisões políticas tomadas pelos muitos atores presentes no Oriente Médio.

E vai e vem, entrevista após entrevista, especialista após especialista, o nonsense continua, e ninguém jamais expõe o nonsense de todo aquele palavreado. A maior dificuldade de ser especialista em Iêmen é que se vive sob pressão constante, obrigado(a) a reprimir o desejo de berrar palavrões e mais palavrões, pela TV e na universidade, ao vivo.

Aí está a razão pela qual a empresa-mídia ocidental só trata, quase exclusivamente, de sectarismos e guerras à distância, como se bastassem para explicar todo o conflito. O sectarismo, bem claramente, é apresentado como resultado “natural” da “natural” selvageria que reina em todo o Oriente Médio. Falar sempre sobre o sectarismo permite que nenhum especialista jamais precise falar diretamente sobre os resultados das políticas de EUA–Arábia Saudita. Esse é movimento–truque intencional: os fracassos dessas políticas, se fossem adequadamente expostos e discutidos, serviriam como útil ferramenta a favor do movimento antiguerra nos EUA.

A ideia de fazer “guerra à distância”, ou “guerra por procuração”, também contribui para esvaziar ainda mais qualquer potencial oposição interna, nos EUA: afinal, a Arábia Saudita está(ria) respondendo à agressão iraniana. A ninguém, portanto, ocorrerá a ideia de que os EUA estão fazendo guerra não provocada contra país soberano, para alcançar objetivos essencial e profundamente reacionários. O mesmo discurso também apaga o fato de que, em todos os sentidos e para as mais sórdidas finalidades, trata-se de uma invasão saudita–norte-americana: a Arábia Saudita defende os próprios interesses, ao mesmo tempo em que oferece o próprio exército e os próprios aviões e armas como projeção do poder dos EUA.

Abdel Fattah al-Sisi, ditador do Egito e Rei Salman da Arabia Saudita em guerra de agressão contra o Iêmen
Já é óbvio que autocratas regionais relativamente novos, como o rei Salman da Arábia Saudita e o general Abdel Fattah al-Sisi do Egito estão usando a guerra no Iêmen para legitimar os respectivos governos. Defender o “governo legítimo do Iêmen” faz esses ditadores parecerem heróis da Primavera Árabe, não os responsáveis pelo massacre de movimentos democráticos. Sisi e Salman viraram “líderes” de vários outros governantes em situação como a deles. Assim surgiu uma coalizão regional de sete monarquias e duas ditaduras militares, todas empenhadas em defender Hadi, cuja principal credencial é ter sido eleito em 2012 numa eleição em que foi o único candidato.

O silêncio histórico da esquerda ocidental sobre a situação claramente de opressão em que vive o povo do Iêmen é, para começar, inadmissível. Afinal, o absurdo total da “ordem” no Oriente Médio aparece perfeitamente à vista no Iêmen, e já faz tempo. Faltam olhares críticos já há anos, que tentem dar conta da total irracionalidade do que se passa naquele país.

Além de questões que surgiram depois de iniciados os ataques, há também questões que já vêm de antes. Por que os países que compõem o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) foram autorizados a assumir papel tão importante na mediação de uma situação revolucionária que claramente os ameaçava diretamente? Por que o mundo sabe tão pouco sobre a República Popular Democrática do Iêmen, que pode ter sido apenas superficialmente marxista, mas com certeza nunca foi mais que a Coreia do Norte? E por aí vai.

O silêncio e a falta de conhecimento especializado confiável tornam-se mais fáceis de compreender, se reconhecemos um dos traços da questão: bem pouca gente sabe sobre o Iêmen ou, que fosse, procura aprender sobre o país. Interessa a países como a Arábia Saudita que assim seja e assim permaneça, o que é um dos motivos pelos quais houve muito menos noticiário sobre a Revolução Iemenita, que sobre os levantes no Egito ou na Tunísia.

E isso apesar de a coalizão revolucionária ser mais forte no Iêmen, como se viu na organização notável da Conferência para Diálogo Nacional, onde se reuniram Saleh, Hadi, os houthis/Ansarullah, a coalizão dos separatistas do sul conhecida como al-Hirak, o grupo islamista de oposição al-Islah, vários líderes da sociedade civil e outras pessoas. Historicamente, o país sempre foi vítima de um isolamento “midiático” e discursivo forçado, o que explica em parte a relativa marginalização do Iêmen nos estudos do Oriente Médio.

John Earnest
John Earnest, secretário de imprensa da Casa Branca defendeu recentemente a política dos EUA no Iêmen, no programa Morning Joe da rede MSNBC, nos seguintes termos:

Não de deve aferir a política dos EUA pelo sucesso ou estabilidade do governo do Iêmen; essa é empreitada à parte. O objetivo da política dos EUA para o Iêmen nunca foi construir lá uma democracia jeffersoniana. O objetivo da política dos EUA para o Iêmen é assegurar que o Iêmen não venha a ser paraíso seguro que extremistas possam usar para atacar o ocidente e atacar os EUA.

Como se responde a tal declaração? Pode-se denunciar a irracionalidade dos juízos, mas é impossível não reconhecer que Earnest não mente, ao descrever nesses termos a política dos EUA. Washington só presta atenção ao Iêmen por causa da Al-Qaeda na Península Arábica,AQAP. Pouco importa aos EUA o que aconteça por lá, desde que os EUA e seus aliados tenham carta branca para matar “terroristas” e impedir que uma instabilidade revolucionária espalhe-se até a Arábia Saudita e o resto das monarquias do Golfo.

A deprimente realidade é que Earnest e Obama enfrentam tão pouca oposição doméstica pelo fato de absolutamente não darem nenhuma importância ao destino dos iemenitas, que podem dizer coisas como “nunca pensamos em construir lá uma democracia jeffersoniana” e o Iêmen nunca foi “uma ilha de estabilidade”.

Aí está o resultado direto do fato de que os norte-americanos não se sentem no dever de pensar no povo do Iêmen. Por isso é tão fácil para os militares expandir pelo mundo a violência nua do poderio militar. Resta esperar que o movimento antiguerra nos EUA consiga enfrentar e derrotar essa narrativa, e obter apoio para o direito de os iemenitas decidirem sobre o próprio destino, seja nas instituições do Estado seja na vida pública.

Parece que, com a intervenção estrangeira cada dia mais violenta, e a situação política doméstica cada dia mais deteriorada, os iemenitas talvez sejam forçados a formar uma nova coalizão revolucionária com a missão, em primeiro lugar, de expulsar os exércitos invasores e ocupantes. Isso feito, o Iêmen precisará de um governo de reconciliação nacional, que implemente os protocolos da Conferência para Diálogo Nacional, com o objetivo de atender as demandas éticas e materiais do levante de 2011.

Khaled Bahah, Presidente do Iêmen
É difícil predizer o que acontece a seguir e como os houthis/Ansarullah agirão como força revolucionária no Iêmen ao longo da próxima década.

Desde que deixou o país, Saleh buscou refúgio no CCG, o que pode não passar de mais um artifício noutra luta pelo poder. É possível que, no final das contas, Khaled Bahah, ex-embaixador e recentemente indicado Primeiro-Ministro, consiga romper o impasse. A melhor coisa sobre o Iêmen é que o país parece ter capacidade infinita para surpreender observadores. Em outras palavras, temos de fazer o que pudermos pela paz, nos agarrar à esperança de paz e esperar para ver o que acontece.

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Nota dos tradutores
[1] Ver sobre isso, 10/4/2015, Sua Eminência Sayyed Hassan Nasrallah, Secretário-Geral do Hezbollah (Líbano) – Discurso de 27/3/2015, vídeo legendado em francês e transcrição traduzida.
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[*] Bilal Zenab Ahmed é estudante de graduação na SOAS (School of Oriental and African Studies), University of London. É editor associado da Revista Souciant e articulista frequente da revista eletrônica Jacobin.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Mas... Que culpa teria o Irã pela agitação dos xiitas em todo o Oriente Médio?!

8/4/2015, [*] Gary LeuppCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Troncos falantes das TVs
Uns poucos minutos à frente das telas de TV com os noticiários das redes a cabo nos EUA bastam para convencer o telespectador de que o Irã não faz outra coisa que não seja trabalhar para cavar um império para si, no Oriente Médio. É ideia quase tão absurda quanto a ideia de que Vladimir Putin anseie por recriar o império dos czares.

Os troncos falantes, hemicorpos formados de tronco e mesa, que se veem na telinha – e que nunca, em tempo algum, mencionam qualquer das muitas guerras de agressão feitas por Israel desde quando Israel foi concebida (e menos ainda falariam das bombas atômicas de Israel), ou do padrão da expansão da OTAN (que acompanha a expansão imperial dos EUA), estremecem de indignação cada vez que “noticiam” mais um embarque de armas iranianas destinadas a xiitas em qualquer lugar do mundo, ou algum esforço russo para conter a expansão de uma aliança militar agressiva e hostil bem junto às suas fronteiras.

Fato é que desde 1730 não se tem notícia de o Irã invadir ou tentar invadir país algum. Naqueles anos, Nader Shah fez guerra simultaneamente contra dois impérios, o Otomano e o Mughal; e estabeleceu um novo império efêmero que se estendia do Cáucaso ao Vale do rio Indo. Em tempos modernos, o Irã foi vítima de repetidos ataques e violências contra sua soberania – pelos britânicos, pela Rússia czarista, pelo Império Otomano, pela União Soviética logo depois da IIª Guerra Mundial, e pelo Iraque (com bênçãos e apoio dos EUA) de setembro de 1980 a agosto de 1988. Mas jamais atacou diretamente qualquer dos seus vizinhos.

Em 1953, os EUA planejaram e executaram um golpe contra o Primeiro-Ministro democraticamente eleito no Irã (para deter seus planos de nacionalizar a indústria do petróleo). E os EUA impuseram ao povo iraniano a ditadura tirânica, brutal do Xá, até 1979. Nesse ano, pela revolução mais genuinamente popular e de raízes populares da história do Islã, o Xá foi derrubado. Desde então, os EUA mantém o Irã em sua alça de mira, aplicando-lhe sanções econômicas, congelando depósitos nos EUA, até, nos anos 80’s, fornecendo ao Iraque a mais avançada inteligência militar e de satélites, que serviram a Saddam Hussein na guerra que fazia contra o Irã. Tudo isso, para punir o povo iraniano por ter tido a audácia de (pelo menos tentaram) livrar-se das algemas da hegemonia imperialista norte-americana.

Recentemente, como se lia na manchete de USA Today:

Liga Árabe acerta-se para usar força militar contra o Irã [orig. Arab League agrees on military force to combat Iran.

Mas por que seria necessário que essa liga (são 22 estados, todos apoiados pelos EUA) combatesse país pacífico que não agredira ninguém? Porque, como disse Nabil Elaraby, o egípcio que é hoje Secretário-Geral da Liga Árabe, durante recente conferência de imprensa, o Irã interveio “em vários países”.

Esq para Dir: Pres. do Egito, Abdel-Fattah al-Sissi; Pres. sudanês, Omar al-Bashir; Emir do Kuwait, Cheque Sabah Al-Ahmad Al-Jaber Al-Sabah; Rei da Arábia Saudita, Salman al-Saud e o presidente que renunciou do Iêmen, Abdel Rabbo Mansour Hadi, saindo da reunião da Liga Árabe em Sharm el-Sheikh - 29/3/2015
Como teria sido a intervenção? Por que contribuiu com dinheiro e armas, para as forças libanesas que lutavam no sul do Líbano contra a agressão e a ocupação israelense? E por que a Liga Árabe veria aí alguma coisa de errado? A Liga Árabe opor-se-ia talvez ao Hezbollah, talvez o mais poderoso partido libanês, que arregimentou todo o prestígio e a importância que tem hoje porque derrotou os invasores-ocupantes israelenses e os expulsou do Líbano em 2000?

O Irã interveio na Síria, porque apoia o governo internacionalmente reconhecido do Presidente Al-Assad, que enfrenta guerra que lhe fazem uma oposição armada controlada por forças da Frente al-Nusra da al-Qaeda e o odioso Estado Islâmico? Se for assim, interveio mais que os EUA – que não se cansam de ladrar ordens para que Bashar al-Assad “saia de lá”, enquanto fornece armas à oposição, muitas das quais vão diretamente para as mãos do ISIL) e abertamente discute seus planos para criar na Jordânia um exército de mercenários para derrubar o governo sírio?

Nem faz muito tempo, os EUA ameaçavam atacar a Síria com mísseis, sob o muito duvidoso pretexto de que o governo sírio teria usado armas químicas contra o próprio povo e assim se qualificava para receber castigo exemplar, que só lhe poderia ser aplicado pela nação “excepcional” e policiais do mundo.

Obama estava a um passo de puxar o gatilho, quando a competente diplomacia russa prendeu-lhe a mão. Teria o Irã algum dia agido com tal irresponsabilidade, como os EUA – no Iraque, no Afeganistão, na Síria, na Líbia, no Paquistão, no Iêmen, e onde quer que metam os pés?

Foi talvez intervenção do Irã no Iraque – nação orgulhosa de seu passado, hoje miseravelmente destruída e humilhada pela invasão e ocupação sádicas, pervertidas dos EUA e que agora enfrenta o pesadelo do Estado Islâmico, obviamente criado pela destruição estúpida do estado secular baathista – a ajuda que deu ao governo que lá está (posto lá pelos EUA, não por Teerã) contra o avanço dos doidos do ISIL? E se foi, por que os EUA agradeceram tanto (secretamente) por aquela intervenção, depois que as tropas treinadas por instrutores norte-americanos mostraram-se impotentes contra degoladores de crianças?

E teria o Irã intervindo no Bahrain, país onde, durante a Primavera Árabe de 2011, houve gigantescas manifestações pacíficas, sistematicamente esmagadas pelo exército saudita? A oposição no Bahrain cresce entre os xiitas, que são 65% da população da ilha-nação, governada por um monarca sunita cujo regime oprime a religião da maioria. Mas não há nenhum sinal, ali, de envolvimento de iranianos. Nem seria necessário. O descontentamento e a oposição nasceram das circunstâncias locais.

Teria talvez o Irã intervindo no Iêmen, país cuja história moderna foi modelada pelas rivalidades entre britânicos, sauditas e soviéticos, cuja complexa configuração étnico-religiosa inclui população xiita acentuadamente minoritária (mal chegam a 35%) que, de algum modo é simpática ao Irã governado por xiitas? O Iêmen foi forçado pelos EUA, no final de 2001, a cooperar com a tal “guerra ao terror”, que era rejeitada, segundo conhecida pesquisa, por 99% da população iemenita?

Pode haver alguma substância na alegação de que Teerã está apoiando materialmente os houthis. Em 2013, o barco iraniano “Jihan 1” foi abordado na costa do Iêmen, e nove homens da tripulação a bordo foram presos acusados de contrabando. O cargueiro levava foguetes Katyusha, mísseis terra-ar sensíveis ao calor, granadas disparadas por foguetes, explosivos, munição e óculos para visão noturna fabricados no Irã. Mas oito dos nove presos foram logo libertados; soube-se que o navio viajava para a Somália; e o Irã negou qualquer responsabilidade.

É claro que os Guardas Revolucionários do Irã estão ajudando materialmente os houthis, e surpresa seria se não os ajudassem. Quantos movimentos de oposição armada os EUA já apoiaram, desde a “Frente Revolucionária Cubana Democrática” derrotada vergonhosamente na Baía dos Porcos em 1961, ao Partido Democrático Curdo peshmerg  no Iraque nos anos 1970s, aos “Contras” na Nicarágua e os Mujahedeen no Afeganistão nos anos 1980s; e ao Conselho Nacional de Transição na Líbia em 2011 e o hoje já reduzido a quase nada e em desintegração “Exército Sírio Livre” que guerreava contra o presidente Assad?

Em setembro passado, quando os houthis tomaram a capital Sanaa (praticamente sem luta e com apoio visivelmente generalizado entre a população), o governo e a imprensa iranianos exultaram. Podem ter considerado que um governo dos houhtis seria uma volta ao status quo que havia entre 1918 e 1962, quando o norte do Iêmen era governado por imãs xiitas. Nada deviam ao distante Irã e desde os anos 50s recorriam ao Egito, em busca de apoio.

Iêmen - protesto dos houthis  (2014)
Mas agora, a Arábia Saudita – a qual, em sua intolerância fanática contra a “heresia” xiita, e por causa do medo-pânico que inspira à monarquia reinante os 25% de xiitas que há no país, até já sinalizou que está disposta a cooperar com Israel para derrubar o regime de Teerã – tenta mostrar os eventos na nação vizinha como se fossem uma conspiração de iranianos, mancomunados com os heréticos locais, dentro do reino saudita.

A “coalizão” liderada pelos sauditas que se formou para combater os houthis é uma coalizão de sunitas fanáticos, obcecados com a urgência de conter o crescente poder dos xiitas na região. Essa é a questão central aqui. O Irã é, de longe, o maior estado governado por xiitas em todo o mundo, e embora a política externa iraniana não seja modelada por nenhuma estratégia pan-xiita, o país é apresentado pelos intransigentes inimigos dos xiitas como quartel-general dos avanços xiitas em todo o mundo.

De fato, o xiismo pelo qual rezam os houthis (uma das três modalidades de xiismo praticada atualmente no Iêmen) difere substancialmente da religião prevalente no Irã. Muitos xiitas iemenitas são zaidistas; a maioria dos xiitas iranianos são “seguidores dos 12 imãs” [ing.Twelvers]. São grupos que têm ideias diferentes sobre as origens da autoridade religiosa, sobre o papel das figuras históricas e sobre o conceito de “ocultação” (ghaybah) do Mahdi (figura messiânica descendente do profeta que um dia voltará para estabelecer paz e justiça no mundo).

As diferenças religiosas entre eles são tão significativas como as que há entre luteranos e batistas, duas modalidades do protestantismo (igualmente opostos aos católicos romanos), mas que nem sempre foram aliados ao longo da história. Pretender que todos os xiitas, do Afeganistão ao Iêmen estariam mancomunados para estabelecer um novo império persa é rematada estupidez.

Com certeza há operante aqui um importante fator de medo grave. Talvez 25% dos 16 milhões da população da Arábia Saudita são crentes xiitas. Estão concentrados no leste do país (a parte rica em petróleo), numa fatia de território de frente para a ilha-nação do Bahrain, cuja população é majoritariamente xiita. Como os xiitas do Bahrain, os xiitas da Arábia Saudita também abraça a versão “dos doze imãs” do xiismo que prevalece também no Irã. (As fés zaidista e ismaelita do xiismo florescem ao longo da fronteira com o Iêmen.) Os wahhabistas que governam a Arábia Saudita são opressores, historicamente, dessas minorias, a ponto de destruírem seus locais sagrados. Clérigos influentes no estado teocrático saudita repetidamente os denunciam como apóstatas, traidores do Islã.

Na 5ª-feira passada (2/4/2015), uma manchete que li dizia: “Imã da grande mesquita em Meca conclama para guerra total contra os xiitas”. Segundo essa matéria, um clérigo sunita saudita de nome Abdul Rahman al-Sudais disse, num vídeo, que:

Nossa guerra contra o Irã, proclamem em alta voz, é guerra entre sunitas e xiitas. Nossa guerra contra o Irã (...) é realmente guerra sectária. E se não é sectária, nós a converteremos em guerra sectária (...). Juro por Alá que judeus e cruzes [cristãos] estão com os dias contados. O profeta disse que Roma seria conquistada (...). Nosso desacordo com os Rafidha [“os que rejeitam Alá”, termo depreciativo para “xiitas”] não será removido, nem nosso suicídio na luta contra eles (...) enquanto houver um deles sobre a face da Terra (...).

Abdul Rahman al-Sudais
Eu diria que é mensagem que perfeitamente clara.

Alguém dirá que os EUA nada têm a ver com essa luta. E nem deveriam ter. Mas o caso é que os EUA têm tudo a ver com essa luta! CNN e MSNBC não se cansam de repetir que

(...) acredita-se que o Irã esteja apoiando os rebeldes houthis no Iêmen.

Como assim “acredita-se”? O que significa “acredita-se”? As mesmas pessoas também nunca se cansam de repetir que “acredita-se” que o Irã tem armas atômicas, embora toda a comunidade de inteligência dos EUA não se canse de repetir que ninguém que seja bem informado acredita na existência dessas armas. Esse “acredita-se” da CNN e MSNBC deve ser traduzido como “queremos que você acredite”. É simples.

Fica-se com vontade de perguntar QUEM “acredita-se” que o Irã esteja apoiando os houthis? Citei acima algumas provas não conclusivas. Mas aqui quem fala é a voz da verdadeira convicção, é o eco dos “pontos para divulgação” do press-release do Departamento de Estado. Quantos norte-americanos acreditariam em tal coisa se a coisa não fosse repetida e repetida e repetida, sem descanso e sem qualquer tipo de comprovação?

Em telegrama vazado por WikiLeaks, datado de 9/12/2009, o embaixador dos EUA no Iêmen, Stephen Seche, relatava, como tema corriqueiro:

Ao contrário do que diz o governo do Iêmen, que o Irã estaria armando os houthis, a maior parte dos analistas relatam que os houthis recebem as armas que têm do mercado negro iemenita e, até, do próprio governo do Iêmen.

ISSO, precisamente, é o que realmente se sabe. Quem ganha com fazer-crer em outras versões que discrepam dos fatos?

Minha opinião é que os que veem as coisas em termos religiosos (como os governantes sauditas), e temem a possibilidade de qualquer pluralismo religioso dentro do mundo islâmico, e o razoável empoderamento dos xiitas ao longo do litoral da Península Arábica, beneficiam-se de massiva campanha de propaganda que pintam todos os xiitas como se, todos eles, tivessem associações com o Irã.

Mais uma vez, como na Guerra Fria, trata-se de desqualificar todos os tipos de gente e de movimentos, acusando-os de receberem apoio dos soviéticos ou dos chineses. E os que nesse país querem atacar o Irã, e vivem a procurar pretextos para esse ataque, embarcam logo em qualquer acusação que os sunitas façam sobre “agressões” iranianas (xiitas), para ter o que dizer (e repetir, repetir, repetir) a favor de os EUA também se envolverem nos ataques contra a República Islâmica.

Claro que os xiitas do Irã sentem-se indignados ante a opressão de seus irmãos de fé em muitos outros países do Oriente Médio. Mas a resposta deles são ameaças tonitruantes a favor de um novo império, ou são simples gestos de solidariedade e simpatia? Não se trata de os capitalistas em Teerã e Masshad sonharem com os lucros que possam advir da ajuda que dão a aliados na Síria, no Líbano ou onde for.

O acordo anunciado dia 2/4/2015 entre as P5+1 e o Irã é obstáculo importante aos planos dos EUA de irem à guerra contra o Irã encorajados por aqueles estranhíssimos neoaliados, israelenses e sauditas. É sinal de que os neocons que dominaram toda a política externa dos EUA mesmo com a era Obama já bem adiantada, sempre em aliança com políticos que tem bases na direita cristã–sionista norte-americana, estão encontrando menos facilidade para demonizar e distribuir informação falsificada, no esforço para alcançar o objetivo que mal conseguem esconder: a total destruição do mundo muçulmano, e a rendição mais abjeta ao Império dos EUA.

Israel e Arábia Saudita aliados contra o Irã
Mesmo assim, com o odioso Netanyahu a empurrá-los, eles tentam. E isso, por estranho que seja, implica os sauditas pintarem, como se fossem revelações as mais espantosas e sensacionalistas, o que não passa de contatos regulares e simples entre o Irã e várias comunidades xiitas por toda a região.

O sionista sarcástico dá a mão ao salafista e à sua cultura de antissemitismo, e põem-se contra um país como o Irã que, por força de sua Constituição, assegura pleno direito de exercer a própria religião e dá, às minorias religiosas, espaço de representação no Parlamento.

O Irã tem de ser apresentado como país totalmente entregue ao esforço de expansão, mesmo que não haja nem uma mínima prova disso. E mesmo que os EUA desistam da histeria nuclear, superando nesse ponto os medos do Galinho [orig. Chicken Little (O fim do mundo está próximo!”)] do seu aliado (contra o Irã), mesmo assim os EUA continuam a colaborar para vilificar o Irã, apresentando-o como país com aspirações imperiais.

A juventude iraniana bem educada troca tuítos sobre o que dizem os EUA, e riem da manifesta ignorância sobre o país deles. Eles sabem que os aiatolás deles nada têm a ver com os baathistas na Síria, com o Hezbollah no Líbano, com os ativistas bahraini ou com militantes houthis no Iêmen.

Mas eles sabem como os maniqueus em Washington, cujos neurônios são atados entre si para só pensar em termos de “o Bem (eles) versus o Mal (o resto do mundo)”, estão felizes por pegar o mote dos sunitas sauditas seus amigos, que querem esmagar a presença xiita onde ela apareça com destaque. Os sauditas, em troca, confiscaram a imprensa-empresa norte-americana e a puseram a repetir sem parar que “acredita-se” que o Irã “é” fonte de todo o mal no Oriente Médio. E nunca, em tempo algum, aquela imprensa-empresa e aquele reino saudita ou os maniqueus de Washington dão sinal de terem algum conhecimento ou alguma intuição aproveitável sobre um conflito histórico significativo entre comunidades religiosas no Oriente Médio.
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[*] Gary Leupp é professor de História na Universidade Tufts, e dá aulas também no Departamento de Religião. É autor de Servants, Shophands and Laborers in in the Cities of Tokugawa JapanMale Colors: The Construction of Homosexuality in Tokugawa Japan; e Interracial Intimacy in Japan: Western Men and Japanese Women, 1543-1900É autor de um dos ensaios recolhidos em Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press).
Recebe e-mails em gleupp@tufts.edu

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Conflicts Fórum, Comentário Semanal − ISIS: Retorno a estruturas árabes pré-islâmicas

15/7/2014, [*] Conflict Forum
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mundo muçulmano - xiitas e sunitas
(clique na imagem para aumentar)
O sunismo sempre teve um vínculo especial com o estado. (Não em termos de Westphalia, com suas identidades nacionais homogêneas, mas relação mais complexa, com diferentes etnias, seitas e tribos reunidas sob uma única autoridade forte). Os sunitas sentem-se de algum modo intimamente conectados ao estado, de modo diferente dos demais. O que se quer dizer com isso é que os sunitas sentem que fundaram o estado, que de algum modo são “o estado” e são “do estado”. Concomitantemente, os xiitas são frequentemente chamados, pejorativamente (quase sempre por sunitas), de “os rejeicionistas” (do estado “dos sunitas”), e são vistos como excessivamente ligados às próprias noções de justiça, para fazerem adaptações confiáveis, na pragmática arte de construir estados.

Em resumo, os sunitas veem os xiitas como potencialmente naturalmente subversivos, e, até, revolucionários. E os xiitas veem os sunitas como excessivamente pragmáticos no exercício do poder, a ponto de perderem de vista o componente espiritual radical da mensagem do Profeta.

Mas no período recente, os estados sunitas não têm dado muito certo. Os chamados “modelos” de governança para os sunitas, ou implodiram ou estão largamente desacreditados. A “esfera” sunita está visivelmente em processo de degradação. E, dado que a “identidade” sunita está tão intimamente ligada à noção de um estado poderoso (o ideal é os primeiros anos da expansão islâmica, depois da morte do Profeta), o processo de degradação surge acompanhado por uma fragmentação psicológica e profundo senso de que o “modo de ser” sunita – seus “valores culturais” estão sendo de algum modo ignorados e atropelados.

E tudo isso vem à luz precisamente num momento de renovação e de nova energia no âmbito dos xiitas, o que só faz aumentar ainda mais o desconforto dos sunitas. Não é surpresa portanto que estejamos testemunhando ressentimentos profundos na Sunnah, de desconstituição e perda de posições de liderança “mantidas por direito”; sentimentos de frustração (pelo que ressentem como redução de status dos sunitas no comando do futuro do Islã e da região – e ressentimento pelo que os sunitas veem como marginalização deles, na discussão das questões.

ISIS no Iraque
Grande parte disso é mais imaginado, que real – o que em nada reduz significação psicológica e política. Mas, sim, os modelos de “estado” sunita estão em crise: e, sim, os sunitas foram marginalizados no Iraque; mas na região em geral (incluindo a Síria), não é correto sugerir que os sunitas seriam de algum modo “vítimas”, ameaçados de serem varridos pela maré cultural “estrangeira” que emana do Irã. Os sunitas são a maioria (mas não na extensão frequentemente sugerida para toda a região), e continuam a controlar predominantemente as alavancas de controle político e econômico. Mas a região está se reequilibrando; e isso, compreensivelmente, é fator desestabilizante e causa do torvelinho.

Mais significativo politicamente é que Europa e EUA tenham absorvido de modo tão pouco crítico a narrativa dos sunitas “vítimas”, que o dito “ocidente” tenha ficado confuso e passivo ante a ascensão do ISIS. Sim, o Islã xiita está conhecendo um renascimento, mas é raciocínio simplório atribuir a perturbação psicológica dos sunitas simplesmente ao ressurgimento dos xiitas. Os fracassos dentro do próprio Islã sunita têm também muito a ver com isso – como também tem a crescente autoconfiança do Irã. Em resumo, os sunitas têm, sim, de responder à própria circunstância deles: não é possível atribuir tudo a forças externas.

Afinal de contas, os governantes mais desacreditados nos recentes levantes árabes foram governantes sunitas. No coração daqueles levantes estava o rompimento do contrato social dos sunitas, não alguma “maquinação” que emanasse do Irã. Apesar disso, essa visão simplória (de que a perturbação que os sunitas estão sofrendo seria causada basicamente pelo “ativismo” dos xiitas e do Irã) tornou-se consenso estabelecido, definitivo, para europeus e para os EUA. Europeus e norte-americanos estão (e tinham de estar), é claro, sinceramente desentendidos e perturbados pelo ISIS e a inesperada tomada de porções de território do Iraque, mas também foram colhidos de surpresa pelo apoio de alguns sunitas populares e do Golfo ao ISIS: como observou um importante comentarista político, funcionários dos EUA percebem que o ISIS obtém apoio significativo da população sunita, o que leva à percepção de que os EUA deveriam tomar medidas antissunitas [se interviessem para apoiar o Iraque]”. De fato, um ex-embaixador do Qatar nos EUA alertou o governo Obama contra qualquer intervenção militar a favor de Maliki: seria vista como ato de “guerra” por toda a comunidade dos árabes sunitas, disse ele.

Nouri al-Maliki, Primeiro-Ministro do Iraque
Essa aceitação da narrativa sunita (a ideia descabida e sem lógica de que a ascensão do ISIS seria atribuível ao presidente Assad e ao sectarismo do primeiro-ministro Maliki) paralisou as reações iniciais do ocidente ao pedido de ajuda feito pelo Iraque, e deixou a política externa ocidental em estado de contradição explícita fundamental – com os EUA aumentando o apoio financeiro à insurgência síria (campo fértil do qual, aí sim, o ISIS emergiu e foi armado), enquanto, simultaneamente, os EUA hesitavam em oferecer ajuda crucialmente necessária ao governo do Iraque para que derrotasse o ISIS.

Já escrevemos sobre a natureza radical do ISIS e a significação verdadeiramente revolucionária de seu historicismo revisionista, mas o que é mais importante para compreender a significação do ISIS é essa mudança paradigmática da ênfase, das ações do próprio Profeta e de Medina, como modelo societal – para privilegiar a conduta do primeiro e segundo Califas (Abu Bakr, cujo nome o novo “Califa” assumiu como “nome de guerra”; e o segundo Califa, Umar). Essa mudança diz muito sobre essa nova orientação de pensamento, e por que está tendo apelo tão amplo, cobrindo todo o espectro, de jovens muçulmanos sunitas irados, até líderes do Golfo.

Num sentido, o pensamento do ISIS parece oferecer a jovens muçulmanos uma solução romântica, “heróica”, à crise sunita de modelos de governança desacreditados (no Boston Globe, 28/6/2014, lê-se coluna cheia de elogios a um novo modelo de cidadania que o ISIS estaria criando, e praticamente sem nenhuma referência ou crítica ao apoio saudita e do Golfo ao ISIS e a jihadistas radicais).

Abu Bakr e Umar, sim, à maneira deles, consolidaram o “estado”. Fizeram guerras contra apóstatas e inimigos de Deus, e não hesitaram em usar “terrível violência”, queimando pessoas vivas e executando inimigos por degolamento. (Vê-se a mesma abordagem no Iraque hoje).

Mas Abu Bakr e Umar são também conhecidos por mitigar a espiritualidade e a radicalidade da mensagem do Profeta, cercando-as nos, e apresentando-as conforme aos hábitos e práticas culturais árabes do período. Não só adotaram o estilo de guerra tradicional – um tradicional estilo árabe bélico – mas também o patriarcado tradicional, com primado do homem, foram reinseridos nas interpretações e comentários às falas e ações do Profeta. As mensagens do Profeta sobre relações sociais foram “temperadas” por uma recuperação da cultura árabe tradicional (foi o que fez Umar, principalmente, como Califa).

Abu Bakr al-Baghdadi
Assim, se se lê a literatura do ISIS, a ênfase em Abu Bakr e Umar sugere nem tanto um retorno ao modelo de Medina (ao qual aspira a Fraternidade Muçulmana, como a maioria dos salafistas); mas, mais, a um modelo do Estado Islâmico que é pré-islâmico, nas principais características. A noção da Constituição de Medina como modelo de sociedade política (redigida durante a estadia do Profeta em Medina) não aparece na narrativa do ISIS, como tampouco aparece ali a noção, cara à Fraternidade Muçulmana, de que as primeiras Comunidades basearam-se na soberania dos povos. A reorientação do ISIS representa mudança dramática e significativa no islamismo dos sunitas, que se move na direção de estruturas pré-islâmicas de estado e de sociedade.

Essencialmente, o ISIS está empurrando o paradigma, do período Profético (a era de Maomé), para o período pós-Profético (i.e. para o período do Império Islâmico), caracterizado mais pela eficácia militar como seu ethos regente. Nesse espírito foi que os dois primeiros Califas reinstauraram muitos dos modos pré-islâmicos de governar e de guerrear.

O que se tem então é o ISIS a apresentar aos jovens muçulmanos o governo pré-islâmico como “solução” para o sofrimento contemporâneo dos sunitas. É o mesmo que dizer que a “solução” do ISIS é o Islã implantando no modelo de estado árabe pré-islâmico tradicional – com Abu Bakr e Umar na função de protagonistas modelos.

Esse é modelo autocrático e que exige completa submissão e obediência sob pena de morte aos que se rebelem. Sob esse aspecto (a insistência no quesito autoridade), não é difícil entender por que os autocratas do Golfo são seduzidos pelo “modelo” – apesar de o ISIS ter rejeitado a alegada legitimidade daqueles monarcas. O romantismo de “lutar pelo Islã” como fizeram os primeiros “mestres combatentes”, e a irrestrita entrega exigida a um “ideal”, sempre atrairão os mais jovens, que se veem afinal conseguindo livrar-se e superar a corrupção e a putrefação de uma sociedade degradada.

Em resumo, o ISIS é uma manifestação mais de fragmentação e de esgotamento psicológico, que algum tipo de real solução política. Pode ressoar na psique contemporânea de muitos sunitas, por enquanto; mas é difícil ver os luminares da inteligência sunita suportando por muito tempo a vida nesse novo califado. Ele é, em todos os casos, um modelo no qual a eficácia se sobrepõe à moralidade, e permanece com a mesma falha essencial que assombrava o Islã nos primeiros tempos: a opacidade na metodologia para escolher quem se torna Califa. Se a eficácia é o critério decisivo, então terá de ser julgado por esse padrão (e muito provavelmente não corresponderá integralmente).

Abdulrahman Al-Rashed
A resposta saudita (exposta num editorial assinado por colunista top da empresa-imprensa do establishment saudita, Abdulrahman Al-Rashed, presidente da TV Al-Arabiya) foi que a ameaça imposta pelo ISIS tem de ser corretamente compreendida – porque há uma “genuína” [quer dizer, sunita] revolução contra um governo sectário repugnante tanto na Síria como no Iraque. O ISIS foi contagiado por essa “ira sunita” e tornou-se “a estrela do show para sunitas por todo o mundo” (...). Mas “não fosse por Assad e Maliki, o ISIS e a Frente al-Nusra nunca teriam existido”. (Esse é o refrão-meme saudita, a “narrativa” que foi quase universalmente acolhida e reproduzida por toda a grande imprensa-empresa ocidental).

A Arábia Saudita está preparada, Abdulrahman sugere, para o confronto contra o ISIS, mas só e somente só “se se impuser alguma solução política contra Síria e Iraque” – mudança de regime que leve a mobilização mais ampla de sunitas. As políticas sectárias de Assad e Maliki “geraram esse caos. Portanto, a solução está em governos centrais fortes em Bagdá e Damasco, com apoio dos EUA, do ocidente e regional”.  

Mas sejamos claros: quando Abdulrahman insiste que Nouri al-Maliki “tem de sair”, não está propondo que outro xiita assuma seu posto – como aconteceria no atual quadro político, no qual os xiitas chegam a 60-65% do eleitorado. Está clamando por derrubada do sistema – com um “homem-forte” sunita (ou um Iyad Alawi aprovado por Riad) posto no poder (à moda Sisi). O mesmo, para a Síria. É o chamamento pelo expurgo do Oriente Médio.

É difícil ver essa grandiosa demanda saudita levando os demandantes a lugar algum. Com o passar do tempo, o ISIS perderá o fulgor; os xiitas do Iraque estão-se mobilizando; e se reorganizarão, eles mesmos, para iniciar a tarefa de derrotar o ISIS. Não será rápido, mas já começou.

O que temos aqui? A Arábia Saudita realmente acredita que o modelo ISIS seja sustentável além do pico de adrenalina das vitórias militares iniciais do ISIS? A Síria aí está para mostrar que não. E se o ISIS não é senão genuína revolução contra governo sectário repugnante, como Abdulrahman sugere, então por que a Arábia Saudita está reunindo 30 mil soldados na fronteira com o Iraque? Bem visivelmente os sauditas estão mais nervosos do que estão admitindo publicamente.

Arábia Saudita - Família al-Saud
A família al-Saud está em conflito e dividida. O que essa validação (qualificada) do ISIS, por agente bem posicionado, sugere é, isso sim, que a Arábia Saudita está sem leme, à deriva – e está mostrando-se incapaz de “desfazer” velhas políticas – mesmo quando elas já ameaçam diretamente o bem-estar do reino. “Assad tem de sair”; “Maliki tem de sair” e o ISIS encaixam-se como luva velha: política no piloto automático, e ninguém – pelo que se vê – tem os meios para mudar coisa alguma, pelo menos por enquanto.

Mas a situação se encaminha para futuro muito incerto. Maliki pode não ser muito admirado, e está sendo pesadamente criticado pelos fracassos do exército em Mosul, mas, sem dúvida, é mestre na pilotagem da política iraquiana. Até aqui, está sobrevivendo. Verdade é que a própria tentativa de derrubá-lo que os EUA fizeram pode ter tido efeito inverso – atraindo a rápida ajuda militar de russos e iranianos – interessados em bloquear a tentativa dos EUA para chantagear o parlamento iraquiano (os EUA condicionaram a ajuda militar contra o ISIS, à derrubada de Maliki). “Os sapatos estão nos pés trocados: se os EUA não se envolverem militarmente, ninguém sentirá a falta deles”, como escreveu um comentarista.

Irã e Rússia estão operando em estreita coordenação, e o Irã define a incursão do ISIS como a entrada da Arábia Saudita na guerra regional contra o país. Políticos iranianos apontam o dedo responsabilizando a Arábia Saudita pelo ISIS e (como só fazem muito raramente) bem explicitamente: “A Arábia Saudita é patrocinadora-apoiadora espiritual, material e ideológica do ISIS, e o rei saudita nomeou o ex-chefe de inteligência do país [príncipe Bandar], para a missão especial de apoiar o ISIS”. (Mohammad Hassan Asafari, membro destacado do Parlamento iraniano). E a imprensa conservadora iraniana é ainda mais dura: “A segunda maior aposta dos EUA no Iraque já começa a cheirar a derrota. Enquanto o exército popular do Iraque e as forças de voluntários vão limpando a cidade de Tikrit (...) os norte-americanos não se dispõem a ajudar o governo legalmente eleito do Iraque a derrotar terroristas; até tomaram posições que garantem apoio ao ISIS. Em vez de desacreditar os terroristas, (...) funcionários dos EUA acusaram [Maliki] de monopólio e de guerra sectária!” (Keyhan, 30/6/2014).

A ambivalência de EUA e Europa (o ocidente dançando pela música do Golfo, de que o ISIS seria apenas um “fato” com o qual o ocidente tem de reconciliar-se, não uma frente terrorista dedicada a assassinar todos os “apóstatas”) – está gerando suspeitas crescentes e reação hostil entre os mais altos políticos iranianos. Estamos nos aproximando do 20 de julho/2014, data limite para as negociações nucleares. Difícil ver como esse clima deixará de fortalecer ainda mais os iranianos, determinados a defender seus interesses na última rodada das negociações do P5+1, antes de que se esgote o prazo. Por enquanto, tampouco há sinal algum de “entendimentoentre Arábia Saudita e Irã, que estabilizaria a região: só se veem sinais de movimento na direção contrária.


[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás de narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.