sábado, 28 de dezembro de 2013

Serviços secretos dos EUA trabalham para derrubar o presidente do Equador

28/12/2013, [*] Nil Nikandrov, Strategic Culture  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Rafael Correa, Presidente do Equador
Rafael Correa é um dos presidentes latino-americanos que os círculos governamentais norte-americanos consideram incontroláveis e, portanto, especialmente perigosos. Para livrar-se desse tipo de político [eleito], Washington usa um vasto arsenal de meios, desde interferir no processo eleitoral até a eliminação física. Depois da estranha morte de Hugo Chavez, que liderava a resistência latino-americana contra o Império, é Correa que, cada dia mais, vem sendo visto como seu sucessor, o líder de “forças populistas” no continente.

No centro das atividades de política externa de Correa está o fortalecimento de organizações regionais latino-americanas nas quais não há representante dos EUA: a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (CELAC), a União das Nações Sul-Americanas (UNASUL), a Aliança Bolivariana para os Povos da América (ALBA) e outras. Correa sempre apoiou as iniciativas de Hugo Chávez que viabilizaram uma menor dependência da região em relação ao Império, o esvaziamento da Doutrina Monroe no Hemisfério Ocidental e a interação entre países latino-americanos com outros centros de poder. Nessa direção, o Equador está fixando um novo padrão e um exemplo, ao estabelecer relações amplas com China e Rússia nos campos político, econômico e militar. A presença dos EUA no país está diminuindo, e o governo Obama tenta romper essa tendência. O presidente Correa foi declarado principal responsável pela deterioração das relações EUA-Equador.

Foi Correa quem iniciou a campanha internacional contra a empresa Chevron. A Corte de Arbitragem em Haia dispensou a empresa de ter de pagar multas de vários bilhões de dólares por poluir a bacia do Rio Amazonas em território do Equador. Correa não aceitou a decisão, que o Equador considerou humilhante e injustificada. Visitou pessoalmente a zona do desastre e mostrou a jornalistas e câmeras de televisão as mãos cobertas de óleo cru deixado a vazar num antigo ponto de extração, e disse: “Esse é o resultado de a empresa usar aqui tecnologias ultrapassadas”.

Correa conclamou os consumidores a não comprar produtos da Chevron. Um tribunal equatoriano acolheu processo iniciado por índios que habitam a área do desastre ecológico, que exigiu que a empresa pagasse multa de 19 bilhões de dólares em danos ao meio ambiente e contra a saúde da população. Fazendo bom uso da grande experiência que acumulou nesses processos, Chevron conseguiu obter uma sentença favorável da Corte Internacional de Arbitragem em Haia.

UNASUL
Mas Correa não desistiu. Obteve o apoio da UNASUR e da ALBA e conclamou a comunidade internacional a manifestar solidariedade ao Equador. Já não há propriedades da empresa Chevron no Equador, mas a multa exigida pelos equatorianos poderá ser paga com propriedades da empresa na Argentina, Brasil ou Canadá – o que implica graves consequências financeiras para a empresa.

O governo Obama decidiu defender os interesses da Chevron a qualquer custo. Esse é um dos fatores pelos quais está direcionando os serviços secretos dos EUA para que deem solução radical ao “problema Correa”.

O presidente do Equador também trabalha contra o avanço da Aliança do Pacífico, um dos projetos geopolíticos dos neoliberais de Washington e que inclui México, Colômbia, Peru e Chile. A Aliança foi criada para neutralizar o bloco da ALBA, e a presença do Equador na ALBA não contribui para os objetivos estratégicos dos EUA naquela região do Pacífico.

A espionagem dos serviços secretos dos EUA contra o presidente do Equador é cada dia mais visível. Conversas telefônicas e comunicações em geral interceptadas no círculo mais próximo do presidente, de seus agentes de segurança e de sua escolta pessoal ajudam os norte-americanos a saber de todos os movimentos do presidente, eventos aos quais comparece, listas de participantes e sistemas de segurança. O monitoramento ininterrupto oferece farto material para identificar pontos de vulnerabilidade na organização da segurança. Recentemente, na sua já tradicional fala dos sábados, por televisão, o presidente Correa falou aos equatorianos sobre a suspeita concentração de pessoal militar na embaixada dos EUA em Quito.

Todas as embaixadas têm adidos militares – disse Correa. – A maioria, tem um. Mas aqui no Equador eles têm mais de 50!

Ricardo Patino
Disse também que instruiu o Ministro de Relações Exteriores, Ricardo Patino, que:

(...) verifique essa informação! Esse número gigante de militares norte-americanos aqui não é possível! Terão de reduzi-lo ao nível normal.

O presidente também exigiu que seja investigado um incidente na fronteira Equador-Colômbia, de queda de um helicóptero equatoriano, com vários militares dos EUA a bordo. A preocupação de Correa é compreensível; a base dos EUA em Manta foi fechada em 2009, mas assessores militares do Pentágono e agentes dos serviços secretos dos EUA continuam a manter operações em território equatoriano sem qualquer limitação.

A intensificação da espionagem e de atividades de subversão por agentes norte-americanos no Equador é óbvia. Segundo informação obtida de especialistas cubanos, divulgadas pelo site Contrainjerencia.com, só o número de agentes da CIA já dobrou, entre 2012-2013, na “base” equatoriana. Dúzias de novos agentes chegaram ao país. Operam não só a partir da embaixada dos EUA em Quito, onde há, no mínimo, uma centena de diplomatas (!), mas também usam o consulado em Guaiaquil. Para criar acomodações para o número crescente de agentes norte-americanos de espionagem (“pessoal de inteligência”) nessa importante cidade portuária, estrategicamente crucial, o Departamento de Estado teve de construir um novo prédio para o consulado, o qual, segundo agência de inteligência que colabora com o Equador, abriga o equipamento eletrônico da Agência de Segurança Nacional dos EUA. O cônsul dos EUA em Guaiaquil é David Lindwall, chegado ao país depois de ter servido no Iraque como Conselheiro de Assuntos Político-Militares. Lindwall também serviu como Adido Político nas embaixadas em Bogotá, Manágua, Tegucigalpa, Assunção e outras capitais latino-americanas.

David Lindwall
O nome de Lindwall aparece com alta ocorrência nos telegramas diplomáticos distribuídos por WikiLeaks. Qualquer rápida pesquisa nos telegramas assinados por ele obriga a concluir que Lindwall é experiente funcionário de carreira da CIA, muito informado sobre a América Latina, enviado ao Equador para resolver problemas muito sensíveis.

O presidente Correa várias vezes falou dos EUA como “potência arrogante” que tenta impor ao mundo o que entende que sejam “valores democráticos universais” e vive a dar aos outros “lições de moral e boas maneiras”. O presidente frequentemente repete que os EUA têm um dos sistemas eleitorais mais imperfeitos do mundo, que permite a eleição de candidatos derrotados nas urnas. Correa considera “insultantes” as tentativas da Agência de Desenvolvimento Internacional (USAID), para impor padrões da democracia norte-americana ao Equador e outros países, como se fossem colônias dos EUA. Recentemente, ao comentar o fim do financiamento que a USAID dava a projetos no Equador, no valor de 32 milhões de dólares, Correa sugeriu, não sem sarcasmo, que Washington aplicasse a mesma quantia para aprimorar a democracia norte-americana.

O escritório da USAID está deixando o Equador, mas as operações de espionagem dos EUA para desestabilizar o país continuam. Ao que tudo indica, novos ataques nessa área podem estar em conexão com planos de Correa para reduzir o tamanho das forças armadas e transferir parte do pessoal militar para as agências policiais. “Exércitos de dissidentes” anônimos já divulgaram declaração hostil a Correa e suas “tentativas para tomar o lugar de Chávez no continente”. Até o palavreado indica quais são as forças por trás da campanha que está sendo lançada contra Correa.

Durante levante policial em setembro de 2010, o presidente do Equador foi apanhado no fogo cruzado de atiradores postados em prédios; daquela vez, escapou ileso. É perfeitamente possível que a inteligência dos EUA esteja planejando coisa semelhante para futuro próximo. Afinal, depois dos ataques contra New York em 2001, as agências norte-americanas de espionagem receberam carta branca para eliminar todos os declarados inimigos dos EUA. Ninguém cancelou essa ordem.
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[*] Nil Nikandrov é um jornalista sediado em Moscou cobrindo a política da América Latina e suas relações com os EUA; crítico ferrenho das administrações neoliberais sobre as economias nacionais latino-americanas. Especializou-se em desmascar os esforços feitos pela CIA e outros serviços de inteligência ocidentais para minar governos progressistas na América Latina. Autor de vários livros - tanto de ficção e estudos documentais - dedicados a temas latino-americanos, incluindo a primeira biografia em língua russa de Hugo Chávez.


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A saga Snowden anuncia mudança radical no capitalismo

26/12/2013, [*] Evgeny Morozov, Financial Times
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

USA Spy & Co.
Depois das revelações, esse ano, sobre os excessos de Washington na espionagem, Edward Snowden enfrenta agora onda crescente de “fadiga da novidade” da vigilância, entre o grande público – e, isso, porque o empregado terceirizado da Agência de Segurança Nacional que se autoconverteu em “apitador-alertador” revelou quantidade imensíssima de verdades desconfortáveis sobre como funciona o mundo nos nossos dias. 

Infraestrutura técnica e poder geopolítico; consumismo rampante e vigilância absoluta, total; a retórica sublime-delirante da “liberdade da internet” e a dura realidade do controle sempre crescente sobre a internet – todas essas são vias interligadas que a maioria de nós nem perceberá ou considerará com atenção. Em vez disso, nos focamos num único elemento dessa longa cadeia – o estado que nos espiona – e ignoramos todos os demais.

Mas o debate sobre a espionagem foi rapidamente circunscrito, estreitado, e convertido em debate insuportavelmente técnico; questões como a consistência da política externa dos EUA; o futuro ambivalente do capitalismo digital; a relocação do poder, de Washington e Bruxelas, para o Vale do Silício – nenhuma dessas questões recebeu a devida atenção. 

"Os EUA nos espionam e nos roubam"
Fato é, contudo, que não só a Agência de Segurança Nacional dos EUA está quebrada: o modo como fazemos – e pelo qual pagamos – as nossas comunicações também está quebrado. 

E foi quebrado por razões políticas e econômicas, não só por razões “de lei” e tecnológicas: muitos estados, desesperados por dinheiro e carentes de imaginação infraestrutural, entregaram as suas redes de comunicação, rendidas, um pouco cedo demais, a empresas de tecnologia.

Snowden criou uma abertura para um muito necessário debate global que poderia ter iluminado várias dessas questões. Infelizmente, esse debate nunca começou. 

As revelações de que os EUA são viciados em vigilância só receberam resposta desbotada, unidimensional. Grande parte dessa retórica superaquecida – não raras vezes com tintas de antiamericanismo e canalizada para modalidades improdutivas de reformas – foi até agora inútil. Muitos governantes estrangeiros ainda se agarram à fantasia de que basta(ria) que os EUA lhes garantam um acordo de não espionagem, ou, pelo menos, a promessa de que pararão de monitorar os seus equipamentos e sistemas, para fazer sumir as perversões que Snowden revelou. 

Nesse ponto, os políticos estão cometendo o mesmo erro que o próprio Snowden comete: em suas raras, mas sempre consistentes manifestações públicas, Snowden sempre atribui os erros e vícios ao alcance desmesurado das agências de inteligência. Parece que, ironicamente, nem o próprio Snowden tem consciência clara do que encontrou e revelou. 

Complexo de Espionagem e instalações da ASN em Fort Meade, Maryland
Não se trata de abuso por instâncias isoladas de poder, que se possa corrigir com novas leis, mais controle sobre os espiões, novas ferramentas que zelem pela privacidade, e com súplicas, pelo estado, às empresas de tecnologia, para que se façam “mais transparentes”. 

É claro que tudo isso tem de ser feito: são os frutos políticos mais acessíveis, que todos sabemos como alcançar e colher. No mínimo, essas medidas criarão a impressão de que algo está sendo feito. 

Mas de que servirão essas medidas, para conter a tendência muitíssimo mais perturbadora, que já mostra que informações pessoais sobre nós mesmos – muito mais que o dinheiro – estão já convertidas em “moeda” que paga por serviços e em breve, talvez, também, pelos bens indispensáveis à vida diária? 

Não há lei nem ferramenta que proteja os cidadãos que, inspirados pelos contos de fadas do empoderamento do Vale do Silício, correm a converter-se em empresários “de dados”, sempre à procura do meio mais novo, mais rápido, mais lucrativo para monetarizar os próprios dados – seja informação sobre os próprios hábitos de compra, ou cópias do próprio genoma. Esses cidadãos querem ferramentas que os capacitem para abrir cada vez mais os próprios dados, não para escondê-los. 

Agora, quando cada dado ou fragmento de dado, por trivial que seja, também é capital disfarçado, só falta encontrar o comprador certo. Ou é o comprador que encontra o dado certo – e o respectivo proprietário – e oferece-se para criar um serviço convenientemente pago, a ser pago com aqueles dados. Esse, aliás, parece ser o modelo Google combinado ao g-mail, o serviço de correio eletrônico da mesma empresa.

Edward Snowden
O que Snowden parece não ver – nem ele nem seus detratores e apoiadores – é que é possível que estejamos passando por uma transformação no modo como o capitalismo opera: dados pessoais aparecem aí como um regime alternativo de pagamento. 

Os benefícios para o consumidor já são óbvios; os custos potenciais para os cidadãos, esses, absolutamente não são claros. Ao mesmo tempo em que proliferam os mercados de compra e venda de informações pessoais, também proliferam as externalidades. E a democracia é a principal vítima.

Nada sugere que a transição em curso, de dinheiro para dados, venha a enfraquecer o poder & mando da Agência de Segurança Nacional dos EUA. Ao contrário! É possível que se criem intermediários mais fortes e em maior número, todos unidos para manter e ampliar o mesmo vício, a mesma obsessão por mais e mais dados. 

Por isso, se quiser escapar da obscuridade do gueto legalista do debate sobre a privacidade; e para que continue relevante e ganhe pegada (e dentes) políticos, é indispensável que o debate sobre vigilância seja linkado ao debate sobre o capitalismo.

O CUSTO da espionagem e da NSA é ESCONDIDO do povo dos EUA
Há outras dimensões nisso tudo, também esquecidas ou subestimadas, e também cruciais. Não teríamos, nós, de criticar muito mais os argumentos trazidos à baila pela Agência de Segurança Nacional e outras agências, segundo os quais precisa(ria)m daqueles dados que coletam, para agir preventivamente sobre os problemas? 

Não devemos deixar passar sem criticar a ideia de que a prevenção (só porque parece ser hoje a ideia mais barata), substitui(ria) completamente todas as tentativas mais sistemáticas para identificar as origens do problema que temos de resolver, muito mais do que apenas impedir que aconteça hoje. 

Só porque as agências de inteligência dos EUA tanto se empenham para um dia ter mapeadas todas as crianças do Iêmen, porque entendem que elas manifestem tendência inata para explodir aviões, não implica que os EUA estejamos dando a devida atenção à fonte da insatisfação infantil iemenita: uma das quais pode ser o uso alucinado de drones para matar os pais e mães daquelas crianças. 

Infelizmente, essas questões não estão na agenda atual, em parte porque muitos de nós compramos a narrativa simplória – conveniente para Washington e para o Vale do Silício – de que só nos faltam mais leis, mais ferramentas, mais ‘transparência’. 

O que Snowden revelou ao mundo é a nova tensão nos pilares que dão/davam sustentação ao capitalismo e a vida democrática como os conhecemos. Para resolver os novos problemas é preciso um pouco mais de imaginação.
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[*] Evgeny Morozov nasceu em 1984 na Soligorsk, Bielorrússia. Frequentou a American University na Bulgária e mais tarde viveu em Berlim antes de se mudar para os Estados Unidos onde foi aluno-visitante na Stanford University. Atualmente é associado da New America Foundation e editor colaborador-blogueiro (blog New Effect) da revista Foreign Policy. Colabora com o noticiário do Yahoo!; é professor visitante na Georgetown University’s Walsh School of Foreign Service; associado do Open Society Institute; diretor de novas mídias da ONG Transitions Online e colunista do jornal russo Akzia.
Artigos de Morozov têm sido publicados em vários jornais e revistas em todo o mundo, incluindo The New York Times, The Wall Street Journal, Financial Times, The Economist, The Guardian, New Scientist, The New Republic, Corriere Della Sera, Times Literary Supplement, Newsweek International, International Herald Tribune, Boston Review, Slate e San Francisco Chronicle. 
Neste ano de 2013 está obtendo o título de Ph.D. em História da Ciência em Harvard.

As muitas faces da ira saudita (I, II, III)

24/12/2013, [*] MK Bhadrakumar, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

I

O rei Abdullah da Arábia Saudita está furioso...
Na última quinzena, a Arábia Saudita elevou muito o tom de sua retórica para manifestar fúria contra as políticas regionais dos EUA no Oriente Médio, especialmente para Síria e Irã. Semana passada, o tom chegou a picos altíssimos, com duas figuras chaves do regime saudita alternadamente satirizando e ameaçando o governo Obama.

O desafio estratégico pelo regime saudita contra os EUA é sustentável, ou logo se verá que não passa de bravado ou, até, de estratégia de defesa para encobrir os mais obscuros medos? Há inúmeras razões para supor-se que seja a expressão de uma ira de muitas faces. Há indicação de que os EUA enviaram luz de alerta à Casa de Saud, de que a discrição é a melhor face da coragem, e que os sauditas não estão em posição que lhes permita ameaçar a Casa Branca. É claro que os sauditas entenderam, mas teremos de esperar e observar, para saber como assimilarão a “dica”.

A retórica dos sauditas contra o governo Obama ao longo da última quinzena foi realmente espantosa, sem precedentes, pelo tom de desafio e forte agitar dos sabres.

Tal discurso seria impossível durante a presidência de George W. Bush (porque a família Bush mantém laços muito próximos com a Casa de Saud há três gerações), mas, além disso, esse tipo de retórica jamais foi estilo saudita. Riad sempre preferiu operar no subsolo, longe dos olhares de aves de rapina, em tudo que tivesse a ver com as suas absolutamente importantes relações com Washington.

Analisado o quadro pelo que se vê por fora, as duas coisas que enfureceram o regime saudita foram o visível empenho do presidente Obama de fazer avançar o engajamento dos EUA com o Irã e, em segundo lugar, o absolutamente claro movimento de Washington, que se desengaja do projeto de “mudança de regime” na Síria. Obama já fala abertamente sobre um acordo definitivo EUA-Irã sobre a questão nuclear e vozes de peso, além de funcionários, cada vez mais se fazem ouvir, inclusive em reunião recente dos “Amigos da Síria” em Londres, no sentido de que pode interessar à estabilidade síria e à luta contra a al-Qaeda – bem como à segurança regional em geral – que o presidente Bashar Al-Assad mantenha-se na liderança e concorra às eleições presidenciais marcadas para o próximo ano.

Certo é, em todos os casos, que longe vão os dias em que Washington falava de “todas as opções estão sobre a mesa”, ou de “Bashar tem de sair”. Claro que Riad já viu tudo isso, tanto quanto já viu também que pouco conseguiu com a robusta campanha do lobby saudita em Washington, inclusive com a ameaça implícita de que a Arábia Saudita se aproximaria de outras grandes superpotências, como contrapeso aos EUA – lobby e ameaça que não impressionaram o governo Obama. Dito de outro modo, os sauditas vivem hoje experiência absolutamente nova, a saber: que já não têm poder de veto contra políticas dos EUA para o Oriente Médio, as quais, doravante, serão construídas e implantadas como parte das estratégias globais de Washington. Para regime que investiu fé total no poder do dinheiro para ditar e comandar planos e navegar livremente pelos corredores do poder em Washington, é mudança de paradigma – que Riad não está digerindo bem.

Já era evidente, do ataque muito forte contra o governo Obama, vindo de um importante príncipe saudita, Turki-al-Faisal (irmão do Ministro de Relações Exteriores, Saud al-Faisal, ele próprio ex-chefe da inteligência saudita e embaixador em Washington) em recente conferência de segurança em Mônaco, da qual participavam políticos importantes, árabes e europeus, além de líderes do empresariado, e, também em entrevista que deu ao Wall Street Journal, à parte, mas durante a realização da conferência.

Turki al-Faisal ex-Espião-chefe e irmão de Saud al-Faisal atual MRE da Arábia Saudita
Turki virtualmente acusou o governo Obama de perfídia, por ter trabalhado pelas costas de Riad para fazer avançar a reaproximação com Teerã; disse que Washington é culpada por “negligência criminosa”, quando a violência na Síria já custou 130 mil vidas. “O que surpreende é que as conversas que estavam em andamento [entre Washington e Teerã] foram mantidas escondidas de nós [Riad]. Como é possível falar em confiança, se você mantém segredos, até para os supostos aliados mais próximos?” – disse Turki.

Obviamente, os sauditas ficaram lívidos ao saber que o governo Obama não só não notificou Riad sobre as conversas secretas com o Irã até o outono (“quando as coisas ficaram substantivas”), mas, para piorar, esfregou sal na vaidade ferida dos sauditas ao iniciar aqueles contatos no final de março em Omã, bem no nariz dos sauditas. Na verdade, o acordo provisório sobre a questão nuclear que foi discutido em Genebra mês passado, passou a perna nos sauditas, e Turki manifestou preocupação porque o acordo nada faz para garantir que Teerã não venha a desenvolver armas atômicas. Por trás de tudo isso, é claro, está a angústia existencial de que a détente EUA-Irã venha a erodir ainda mais o status da Arábia Saudita como aliado destacado de Washington no Oriente Médio.

Assim também, as marcadas diferenças quanto à Síria isolaram a Arábia Saudita, internacionalmente e na região. Dois dias depois da fala de Turki, o ataque contra o governo Obama prosseguiu, dessa vez pelo embaixador saudita no Reino Unido e membro da Casa de Saud, Mohammed bin Nawaf Abdulaziz al Saud, o qual, em coluna no New York Times publicada na 3ª-feira passada praticamente ameaçou que as políticas dos EUA tanto no Irã quanto na Síria são “jogo perigoso”, e que a Arábia Saudita “não pode permanecer calada, nem ficará de lado, inerte”. Alegou que “as políticas dos EUA ameaçam a estabilidade do Oriente Médio e a Segurança do mundo árabe [...]. O Reino da Arábia Saudita não tem outra escolha além de tornar-se mais assertivo nas questões internacionais: mais determinado que nunca em defender a genuína estabilidade de que nossa região carece tão desesperadamente. [...] Temos de agir para responder a essas responsabilidades, com ou sem o apoio de nossos parceiros ocidentais”.

Mais importante, o artigo diz claramente que os sauditas manterão – e aumentarão – o apoio que dão à Frente Islamista extremista na Síria. “A Arábia Saudita continuará nessa sua nova trilha, por quanto tempo prove-se necessário” – escreveu Mohammed bin Nawaf. [1]

Mas a grande questão é até que ponto o regime saudita avançará nessa sua perigosa “nova trilha” de desafio estratégico aberto aos EUA?

Para responder essa pergunta, temos de viajar para bem além de questões síria e iraniana; até, de volta, a setembro de 2001.

Inexplicavelmente, o governo Obama permitiu há algum tempo, pela primeira vez, que dois congressistas – Walter B. Jones (Republicano) e Stephen Lynch (Democrata) – tivessem acesso às 28 páginas do relatório da Comissão de Investigação de Inteligência Conjunta [orig. Joint Intelligence Committee Inquiry (JICI)] sobre o ataque do 11/9, que as famílias das vítimas, sobreviventes mutilados e o público em geral esperam ardentemente que tragam algumas respostas sobre conexões sauditas, naquele ataque. Afinal de contas, 15 dos 19 sequestradores envolvidos no ataque do 11/9 eram cidadãos sauditas e sempre houve notícias esporádicas de que tivessem ligações com a Casa de Saud e, até, que teriam recebido apoio financeiro do governo saudita, além do que receberam de vários estranhos misteriosos milionários sauditas que, naquele momento, moravam em San Diego.

     Walter B. Jones (R)                                     Stephen Lynch (D) 
Eis o que Jones escreveu, redação dele, depois de ler as 28 páginas top-top secret do relatório da JICI:

Fiquei absolutamente chocado com o que li. O que me surpreendeu é que aqueles homens nos quais pensávamos que pudéssemos confiar me desapontaram. Não posso dizer mais que isso. Tive de assinar um termo de compromisso/juramento, de que tudo o que li tem de continuar confidencial. Mas a informação que li ali me desapontou enormemente.

Para resumir a missa, no início de dezembro os dois congressistas, Jones e Lynch apresentaram projeto de resolução que exige que o presidente Obama levante o sigilo que impede a publicação daquelas 28 páginas (que Bush tornou absolutamente sigilosas, sob a explicação de que a divulgação daquelas páginas “viola a segurança nacional”).

Parece que já começou um jogo de gato-e-rato que envolve a Casa Branca, o Capitólio e a opinião pública doméstica – além do judiciário norte-americano – e a Casa de Saud.

II


Há muito tempo especula-se que aquele relatório de 28 páginas do Joint Intelligence Committee Inquiry [JICI] de 2002 demonstra que o governo saudita teve, pelo menos, papel indireto no apoio aos terroristas responsáveis pelo ataque de 11/9.

Bob Graham
De fato, o ex-senador Bob Graham, que presidiu a Comissão JICI já disse à imprensa, sem pedir sigilo, que está convencido de que:

(...) o governo saudita, sem dúvida alguma, apoiava os sequestradores que viviam em San Diego.

Ora, tudo persiste até hoje como simples objeto de curiosidade, ou material puramente especulativo, para diz-que-dizem de deputados, senadores ou mídia – e até, talvez, do judiciário...

Por estranha coincidência, semana passada a Corte de Apelação dos EUA manteve o direito das vítimas dos ataques do 11/9 a dar prosseguimento ao processo que iniciaram em 2003 para julgar o Reino da Arábia Saudita, acusado de ter assegurado apoio considerável à al-Qaeda, pouco antes do ataque terrorista. Na essência, a Corte confirmou que é necessário incluir a Arábia Saudita no conjunto de acusados (réus) naquele processo.

De fato, advogados que trabalham nos processos do 11/9 várias vezes já citaram o relatório JICI, como base para as alegações de que a Arábia Saudita foi principal fonte de financiamento para a al-Qaeda, mas os que defendem os sauditas sempre respondem que o relatório JICI disponível para a defesa não mostra qualquer evidência de que nem sauditas governantes nem funcionários do governo saudita ou cidadão saudita jamais financiaram a al-Qaeda.

Nesse ponto, precisamente, é onde ganha importância a liberação para o público de todo o relatório JICI, completo. É questão de timing estratégico para o Congresso (e para o governo dos EUA), ou será simples coincidência, que a Casa Branca tenha liberado aquelas 28 páginas do relatório JICI, para leitura de dois congressistas, sob estritas condições de confidencialidade, justamente nesse momento em que a Corte de Apelação se aprontava para manifestar-se sobre o possível envolvimento (criminal) do governo saudita nos ataques do 11/9?

Pela via oposta, o que acontece se, à luz desses desenvolvimentos, as partes que querem processar o governo saudita insistem em exibir, como prova, o relatório completo da JICI? Por aí se entra diretamente centro de um labirinto escuro.

Mas em última análise, a bola, como dizem os norte-americanos, está na quadra de Obama. Depende exclusivamente do governo Obama não vetar a resolução do Congresso para que o estado levante a proibição que impede a divulgação do relatório JICI, se for aprovada na Câmara de Deputados e no Senado.

Barack Obama
Aqui é onde a porca torce o rabo. É fato bem conhecido que, diferente de seus predecessores no Salão Oval – George Herbert Walker Bush, William Jefferson Clinton e George Walker Bush – Barack Hussein Obama não é presidente que se envolva diretamente e pessoalmente e profundamente nas relações com a Arábia Saudita. Obama é presidente que, como o New York Times escreveu há alguns meses no contexto da Síria,

(...) raramente manifestou opiniões de peso nas reuniões do gabinete, e [cuja linguagem corporal] sempre era bem clara: Obama sempre parecia impaciente ou desinteressado enquanto ouvia os debates, às vezes passando os olhos pelas mensagens que chegavam ao seu Blackberry, ou de olhos distantes, mastigando chiclete.

É verdade: pode não passar de crítica impiedosamente enviesada, de colunista do Times dedicado a fazer a sua própria opinião pessoal soar como se fosse opinião pública, porque é claro que Obama compreende a gravidade da crise; mas nesse caso ele também conhece bem os limites da capacidade dos EUA para influenciar os pontos mais quentes do Oriente Médio emergente. Como escreveu recentemente Robert Hunter, ex-embaixador dos EUA na OTAN e diretor de Assuntos do Oriente Médio no Conselho de Segurança Nacional dos EUA no governo de Jimmy Carter, os EUA têm alguns interesses específicos a buscar na atual situação no Oriente Médio e, portanto,

Robert Hunter
(...) a estratégia dos EUA sobre parceiros e aliados no Golfo Persa precisa ir além da fixação de instrumentos militares e focar-se em redesenvolver o engajamento e os compromissos dos EUA em termos não militares.

Enquanto isso, de volta ao relatório JICI, aumenta a pressão pública das “Famílias do 11/9 Unidas por Justiça contra o Terrorismo”, grupo ativista que reúne as vítimas do ataque, e nem a Casa Branca nem os Congressistas podem ser indiferentes a uma questão tão fortemente emocional como essa, que deixou marca indelével na psique nacional norte-americana. Os veículos da imprensa-empresa mostram o quanto as famílias das vítimas dos ataques do 11/9 apreciaram o veredito da Corte de Apelação. O pai de um jovem de 25 anos morto na Torre Norte do WTC disse à rede ABC News:

Esse ano, o Natal chegou antes, para as famílias do 11/9. Vamos festejar nosso Natal no Tribunal.

Na verdade, o processo, se efetivamente prosseguir e for bem-sucedido, pode resultar em o governo e membros da família real saudita que contribuíam para organizações que financiavam a al-Qaeda terem de pagar indenizações de dezenas, talvez centenas de bilhões de dólares. Depois que o paquiderme legal se puser em movimento, ninguém sabe até onde chegará.

O que torna toda a questão altamente explosiva é que o embaixador saudita nos EUA, na época dos ataques do 11/9 era ninguém menos que Bandar bin Sultan, atualmente o espião-chefe de Riad. Além do mais, diz-se que Bandar atuou direta e pessoalmente sobre Bush Jr., que lhe deu permissão especial, diretamente da Casa Branca, para a decolagem de um voo fretado (num momento em que o tráfego aéreo estava fechado sobre todo o território dos EUA), que partiu do Kentucky, com 144 pessoas a bordo, inclusive vários membros da família bin Laden, para que não fossem revistados, entrevistados, contatados nem de modo algum perturbados por efeito dos ataques de 11/9. Depois do voo, funcionários do FBI foram citados, dizendo que o pessoal que fugira dos EUA por intervenção de Bandar (com ativa colaboração pessoal de Bush) era “gente que interessa”.

De fato, a parte mais curiosa é que Bandar também é hoje o personagem chave que conduz avante o projeto saudita para derrubar o governo legítimo do presidente Bashar Al-Assad na Síria. Dito de outro modo: Bandar, que pode vir a ser intimado a depor num tribunal criminal norte-americano que julga o processo das famílias das vítimas do 11/9, é exatamente o mesmo Bandar que, no campo operacional, ameaça torpedear o mais bem construído plano de todo o governo Obama para chegar a um acordo político para a questão síria, na Conferência Genebra-2.

Elizabeth Dickinson
Interessante também, como digressão, que o Saban Center for Middle East Policy do Brookings Institute (o mesmo, cujo Fórum Obama escolheu recentemente para dar as primeiras notícias importantes sobre o novo engajamento dos EUA com o Irã) acaba de lançar estudo exaustivo, assinado por Elizabeth Dickinson, especialista em Oriente Médio, sob o título “BRINCANDO COM FOGO: Por que o financiamento privado do Golfo para extremistas na Síria pode incendiar o conflito sectário também em casa” [orig. PLAYING WITH FIRE: Why Private Gulf Financing for Syria’s Extremist Rebels Risks Igniting Sectarian Conflict at Home].

O trabalho de análise foca em como o Kuwait “emergiu como organização guarda-chuva financeiro e organizacional para organizações de caridade e indivíduos que apoiam vasta variedade de grupos rebeldes na Síria”; e diz que “doadores do Golfo contribuíram para o alinhamento ideológico e estratégico que há hoje entre os grupos rebeldes [na Síria], com os extremistas no comando militar das ações”.

O que se vê – e esse talvez seja o aspecto que Bandar deve observar com máxima atenção e seriedade – é que Washington está monitorando de perto o apoio a grupos jihadistas extremistas que operam na Síria, apoio que lhes é assegurado pelos petro-estados do Golfo Árabe e suas chamadas organizações de caridade. O documento diz claramente:

O Tesouro dos EUA tem conhecimento dessa atividade e manifestou preocupação sobre esse fluxo de financiamento privado.

Nesse ponto, pode-se acrescentar a esse caldeirão fervente mais um ingrediente: a luta interna pelo poder dentro do regime saudita, com Bandar convertido em alvo de críticas (raríssimas), na própria imprensa-empresa saudita.

Jamal Khashoggi
O bem conectado escritor e jornalista saudita Jamal Kashoggi escreveu recentemente no jornal Al Hayat do establishment saudita, crítica velada, mas perfeitamente inteligível, contra Bandar:

Seria erro desafiar o poder da história, com a ilusão de que os poderosos poderiam forjar acordos e planejar o futuro distanciados dos povos que, divididos e sem qualquer contato ou experiência com a democracia, acabam abusados por forças locais, regionais e internacionais. Mesmo assim, esses povos continuam em estado de liquidez e fúria. Sabem o que querem, mas estão confusos sobre como chegar lá. O que é certo é que não esperarão que um cavaleiro surja, montado num cavalo branco, para guiá-los a uma nova luminosa aurora. O tempo do só-eu-posso-tudo acabou.

Kashoggi não escreveria isso, se não tivesse firme convicção de que o que escreveu tinha de ser escrito.

III

Bandar bin Sultan, atual Chefe da Inteligência Saudita
A fuzilaria de Jamal Kashoggi contra o príncipe Bandar bin Sultan é o máximo a que pode chegar a crítica na imprensa-empresa saudita contra membro poderoso da Casa de Saud, mas, de fato, as tensões entre os príncipes rivais já respingam para os jornais; e as políticas que Bandar, atual chefe da inteligência saudita, já começam a ser atacadas.

Além do mais, a Síria não é o único front no qual Bandar está ou esteve envolvido. Bandar também pilotou, em nome dos sauditas, o golpe militar no Egito. De fato, em todos os teatros onde se veem as pegadas de Bandar – Egito, Iêmen, Líbano, Síria – as coisas vão mal para a Arábia Saudita e são teatros interconectados.

O Egito parece ser o albatroz no pescoço dos sauditas. [2] A expectativa saudita era que o país fosse rapidamente pacificado, mas a agitação só fermenta, sem fim à vista. O desenvolvimento mais recente é que a Fraternidade Muçulmana, de longe o grupo mais bem organizado e a plataforma política mais popular no Egito, foi declarado “organização terrorista”. Democracia e estabilidade “inclusivas” e a recuperação econômica do Egito são hoje quimera, algo que a atual geração não conhecerá. Pois mesmo assim a Arábia Saudita mantém e financia aquele estado paralisado e falido. Até quando poderá continuar?

Os Emirados Árabes Unidos já informaram ao Cairo que o apoio árabe para a junta não durará muito. Já se comparou a mais recente dose de ajuda enviada dos Emirados ao Egito ($3,9 bilhões) a transfusão de sangue a doente que sangra rapidamente, incessante e incontrolavelmente. De fato, o confronto entre a deposta Fraternidade Muçulmana no Egito teve impacto real nos alinhamentos regionais. Levou a Turquia para os braços do Irã. Teerã já começou a falar das relações iraniano-turcas como “de raízes profundas e fraternas”. Isso tudo considerado, o front egípcio está dando terrivelmente errado para Bandar. Bem claramente, as coisas chegaram a um ponto no qual as tensões em torno de tanto aventureirismo vão-se convertendo em disputas por poder dentro da própria Casa de Saud.

Em suma, a retórica estridente que cerca hoje as políticas externas sauditas, que sempre, tradicionalmente, foram discretas e cautelosas e conduzidas sem oposição, tem muitas faces. Tem de ser vista como a irrupção de várias tensões que se sobrepõem na matriz complexa que cerca a Casa de Saud, onde grupos rivais disputam as atenções do velho rei e as rivalidades já contaminam o rumo que o grupo de Bandar está dando às políticas externas sauditas. Elaborando sobre esse tópico recentemente, David Hearst, do The Guardian (UK), resumiu bem:

David Hearst
Intrigas de corte podem explicar por que a política externa saudita, que sempre foi discreta e cautelosa e conduzida quase sempre na coxias, está hoje tão exposta. Pode ser efeito de uma obsessão antiga, que sempre abala as monarquias absolutas: a luta pela sucessão.

Mesmo assim, a grande pergunta permanece sem resposta: até que ponto a Arábia Saudita empurrará o envelope e desafiará as estratégias dos EUA na Síria e no Irã? Chegará ao ponto de realmente comprometê-las? A intervenção saudita no Bahrain mostra que, onde seus principais interesses estejam envolvidos, Riad é capaz de agir com força extrema. Não há dúvidas de que Riad temia muitíssimo que o levante xiita no Bahrain viesse a ter ressonâncias nas províncias leste da Arábia Saudita, dominadas pelos xiitas, e um empoderamento de xiitas dessa magnitude teria efeitos em vários teatros da política regional. Não surpreendentemente, os sauditas patrocinaram a violenta repressão dos xiitas no Bahrain. Não havia crítica ocidental, por mais ampla ou forte que fosse, capaz de levar os sauditas a repensar sua política para o Bahrain.

Por tudo isso, devem-se acrescentar muitos pontos de interrogação no pedido-monstro que os sauditas encaminharam, para compra de 15 mil unidades de mísseis antitanques –, a serem comprados da empresa Raytheon, ao preço de mais de $1 bilhão. Não é concebível que a Arábia Saudita esteja sob risco de invasão por tanques, e, seja como for, o país já tem estoques gigantes, de mais de 4 mil mísseis antitanques. Como seria de esperar, os especialistas perguntam-se: mas... e de onde virá a ameaça?

Não há nem a mais remota chance de a Arábia Saudita envolver-se em guerra de solo, de contato, com o Irã. Qualquer contato entre os dois adversários, se houver, será naval ou aéreo. Sofisticados mísseis antitanques não têm utilidade nas operações sauditas no Bahrain ou no Iêmen. E a Arábia Saudita tampouco se vê ameaçada pelo Iraque.

Charles Freeman
A única explicação plausível a que chegaram os especialistas é que essa recente compra saudita pode estar conectada à guerra de Bandar na Síria. É possível que os sauditas tenham mandado para longe suas armas antitanques, servindo-se de outras fontes (não de fontes norte-americanas, porque os EUA monitoram de perto todos os deslocamentos de armas enviados a terceiros) e estejam substituindo as peças de seu próprio arsenal, com material recém-chegado dos EUA. Como disse o ex-embaixador os EUA na Arábia Saudita, Charles Freeman:

Eu diria, especulativamente, que, com um pedido desse tamanho ($1 bilhão), os sauditas estão descarregando seus atuais arsenais na direção da oposição, e substituindo-os por novos itens.

Se for isso, e Bandar estiver realmente pressionando à frente rumo à guerra saudita contra o regime sírio, inobstantes os recentes sinais emitidos pelas potências ocidentais, as conversas de Genebra-2, mês que vem, podem não levar à remoção do presidente Bashar Al-Assad; e não só sua minoria alawita permanecerá como presença chave em qualquer governo de transição: o presidente Bashar Al-Assad pode também concorrer outra vez à eleição presidencial.

Mas, sim, há outro modo de olhar para tudo isso. Para citar David Kenner, editor-associado da revista Foreign Policy:

Mas a intenção dos sauditas pode ser comprar as armas, mais que qualquer outra coisa. Num momento em que estão às turras com Washington por causa da diplomacia do governo Obama para o Irã e a não intervenção na Síria, os bolsos fundos do reino podem, pelo menos, providenciar para que seus laços com o Pentágono permaneçam tão fortes e firmes como sempre.

De fato. Há motivos para crer que grossas camadas de mentiras e enganação ofuscam as reais intenções que há por trás da retórica saudita.

Considerem, por exemplo, as reuniões supostamente secretas entre sauditas e israelenses. De repente, a cortina inexplicavelmente se abriu sobre essas reuniões, por mais que as cogitações sauditas-israelenses fossem segredo conhecido há anos, também em nível de inteligência, e um dos fios sempre entretecidos na complicada tapeçaria política do Oriente Médio. Bem claramente, os recentes vazamentos são parte da “guerra psicológica”. E, na realidade, tudo pode bem ser, só, uma limitada coincidência de interesses sauditas e israelenses.

Bernard Haykel
O que realmente importa é que Israel e Arábia Saudita operam em níveis enormemente diferentes em Washington. As conexões de Israel nos EUA são profundas e cobrem os padrões políticos, culturais e religiosos da sociedade norte-americana, enquanto o lobby saudita só opera em nível superficial. No coração da diferença está a realidade objetiva de que Israel tem a capacidade para agir para salvaguardar seus interesses de segurança, e por mais que vez ou outra faça pesar a atmosfera sobre os laços com a Casa Branca, esse sempre será traço transitório, e as relações em geral sempre se recuperam, sem grande dano. A Casa de Saud, por sua vez, depende completamente da proteção militar dos EUA.

Em interessante artigo recente, escrito em conjunto por Bernard Haykel, o conhecido professor de Estudos do Oriente Próximo em Princeton, e Daniel Kurtzer, ex-embaixador dos EUA em Israel e no Egito, eles resumem:

Diferente de Israel, a Arábia Saudita tem pequena influência na política doméstica dos EUA, além do apoio de alguns homens do petróleo e fabricantes de armas. Os reis sauditas sequer mantêm relação pessoal calorosa com o presidente Barack Obama, como mantiveram com os presidentes H. W. George Bush, George W. Bush e Bill Clinton, que geriam pessoalmente as relações bilaterais. Assim como não é provável que sauditas e israelenses rebaixem suas relações com os EUA, menos provável ainda é que se aproximem entre si.

Daniel Kurtzer
Haykel e Kurtzer estimam que qualquer “coordenação diplomática e militar entre israelenses e sauditas pode até gerar manchetes, mas, muito provavelmente, sempre será ficção”.

Por tudo isso, a que se resume o borbulhante descontentamento dos sauditas? A questão é que Riad está cada dia mais desesperada. Considera a Síria uma guerra por procuração contra o Irã e quer que os EUA apoiem o esforço saudita. Não está acontecendo. Em vez disso, Washington engaja o Irã e no processo está dando a Teerã uma nova legitimidade, o que é anátema para Riad. Essa é uma charada que não se deixará resolver facilmente e a Arábia Saudita terá de aprender a viver com ela – pelo menos durante o governo Obama...



Notas dos tradutores

[1] Ver também 22/12/2013, The Saker, Blog The Vineyard of the Saker, redecastorphoto em: A Casa de Saud ameaça: verdade ou encenação? (traduzido).

[2] É metáfora albatross frequente em inglês, a partir de versos de Coleridge, sobre um marinheiro que vê um albatroz a seguir seu navio (o que todos os marinheiros entendem como sinal de sorte), mas mata o albatroz (o que converte o bom presságio em mau presságio). Para tentar impedir as desgraças provocadas pelo assassinato do albatroz, o marinheiro que o matou é condenado a andar com o corpo do albatroz morto enrolado no pescoço, o que ele faz, até a morte. A metáfora, ligeiramente modificada, também ocorre em francês, pelo L'Albatros de Charles Baudelaire, em Les Fleurs du Mal .
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online, Strategic Culture, Global Research e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.