quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A geografia do Califato da Al-Qaeda (mapas e vídeos)

2/1/2014, Assad Frangieh, Oriente Mídia
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Com o apoio logístico de armas, munições, inteligência e facilidades para agregar militantes de todos os países, o Líbano, a Jordânia, a Turquia e a Arábia Saudita tornaram-se o corrimão da esteira desses grupos em direção à Síria e ao Iraque. Entre os grupos de ideologia Takfiristas, Wahabistas e Jihadistas ( três facções que pregam o Califato Islâmico ao invés do Estado Independente), o Exército Islâmico do Iraque e do Levante constitui a organização mais bem disciplinada e organizada. Apesar de atuar em grupos pequenos de 20-100 homens, tais grupos seguem a hierarquia e as ordens de seu “Estado-Maior”. Os mapas abaixo mostram como os acontecimentos na Síria e, antes, do Iraque acabaram definindo uma geografia da Al-Qaeda.

Mapa 1. (clique na imagem para aumentar)
A linha vermelha é a fronteira da Turquia com a Síria, a linha azul é a fronteira da Turquia com o Iraque, a linha amarela é a fronteira do Irã com o Iraque, a linha verde é a fronteira Síria como o Iraque, a linha laranja é a fronteira da Jordânia e a linha lilás é a fronteira da Arábia Saudita. O mapa mostra também as fronteiras do Kuwait. A área hachurada em preto é a região onde Al-Qaeda consegue se movimentar com maior liberdade apesar dos confrontos ao nordeste com os curdos e ao sul com o Exército Sírio. Esta área se estende desde Azaz na Síria, na região rural de Aleppo e vai ao leste até próximo de Bagdá. São quase 900 Kms de leste ao oeste. No Iraque, a presença de comunidades sunitas em proporções maiores ao noroeste da capital acabou criando em certas regiões, áreas simpatizantes da Al-Qaeda ou simplesmente contrárias ao Governo Central apelidadas de “berços protetores”.

Mapa 2. (clique na imagem para aumentar)

A imagem mostra os dois estados iraquianos (Al-Anbar ao sul e Salah Al Dinn ao norte) onde a movimentação e a concentração da Al-Qaeda são maiores. Na atual ofensiva do Exército Iraquiano, os militantes receberam duros golpes ao longo da fronteira com a Síria, principalmente na passagem de Bou-Kamal. Vídeo a seguir mostrando bombardeio de helicópteros das forças iraquianas:


Fala-se em centenas de militantes mortos. As cidades em vermelho no Estado de Al-Anbar (Hit, Ramadi, Habbanyah) mostram onde houve fortes confrontos com recuo principal dos militantes em direção à Fallouja. 

Ao noroeste de Bagdá, principalmente em Samarra e Tikrit, a presença do Exército Iraquiano é mais intensa e recebe o apoio da maioria dos chefes tribais habitantes da região. Da fronteira da Síria até as cidades “acolhedoras” da Al-Qaeda, muitas delas habitadas por ex-oficiais de Saddam Hussein e seus familiares, há uma distância de 350-450 quilômetros. As montanhas mais ao sul também representam um importante reduto para campos de treinamento, guarda de munições e esconderijos; têm na sua retaguarda a fronteira da Arábia Saudita e ao sudoeste, a fronteira da Jordânia. São imensas áreas para supervisionar, porém sem importância vital em razão da ausência de aglomerados populacionais.

Vídeo a seguir mostrando outras ações das forças iraquianas::



Quebrar o feitiço neoliberal: Europa, terreno de luta

2/1/2014, Euronomade, [*] Autores: Sandro Mezzadra e Toni Negri
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Países da Zona do Euro (moeda única da Europa)
(clique na imagem para aumentar)
Quem, como nós, não tem interesses eleitorais, está na melhor posição para reconhecer a grande importância que terão em 2014 as eleições ao Parlamento Europeu. É fácil prever que na maior parte dos países implicados haverá alta abstenção e significativa afirmação das forças “eurocéticas”, unindo à retórica da “soberania nacional”, a hostilidade contra o euro e contra os “tecnocratas de Bruxelas”. Para nós, não é nada bom.

Estamos convencidos há tempos de que por baixo do perfil normativo, como por baixo da ação governamental capitalista, há uma Europa cuja integração já ultrapassou o portal do irreversível. O realinhamento geral dos poderes na crise – em torno da centralidade do Banco Central Europeu e o que se define como “federalismo executivo” – modificou sem dúvida a direção do processo de integração, mas não pôs em discussão a continuidade daquele processo. A própria moeda única mostra-se hoje consolidada na perspectiva da união bancária: é necessário responder à violência com que essa união bancária manifesta o mando capitalista; mas volta às moedas nacionais significa não entender qual é o terreno no qual se disputa hoje a luta de classes.

É verdade que a Europa é hoje uma “Europa alemã”, cuja geografia econômica e política vai-se reorganizando em torno de relações concretas de força e de dependência, que se refletem até no nível monetário. Mas só o feitiço neoliberal explica que se confundam a irreversibilidade do processo de integração, de um lado; e de outro a impossibilidade de modificar os conteúdos e as direções; de fazer agitarem-se dentro do espaço europeu a força e a riqueza de uma nova hipótese constituinte.

Quebrar esse feitiço neoliberal significa redescobrir hoje o espaço europeu como espaço de luta, de experimentação e de invenção política. Como terreno sobre o qual a nova composição social dos trabalhadores, das trabalhadoras e dos pobres abrirá talvez uma perspectiva de organização política. Lutando sobre o terreno europeu, uma organização assim terá a possibilidade de golpear diretamente a nova acumulação capitalista. E só no terreno europeu é possível propor tanto a questão do salário como da renda; redefinir os direitos como nova dimensão do Welfare; tanto as transformações constitucionais internas nos países individuais, como a questão constituinte europeia. Hoje, não há realismo político se não nesse terreno.

Parece-nos que as forças de direita compreenderam há tempo que a irreversibilidade da integração assinala hoje o perímetro do que resulta política e praticamente pensável na Europa.

Angela Merkel
Em torno da hipótese de aprofundamento substancial do neoliberalismo, já se organizou um bloco hegemônico que inclui variantes significativamente heterogêneas (das aberturas não só táticas na direção de uma hipótese socialdemocrata de Angela Merkel, à violenta constrição repressiva e conservadora de Mariano Rajoy). As mesmas forças de direita que se apresentam como “antieuropeias”, pelo menos nos seus componentes mais informados, jogam sua opção sobre o terreno europeu, com vistas a ampliar os espaços de autonomia nacional que estão bem presentes na Constituição Europeia, e recuperando, num plano meramente demagógico, o ressentimento e a fúria disseminados em amplos setores da população, depois de anos de crise.

A referência à nação mostra-se como o que é: transfiguração de um sentido de impotência em agressividade xenófoba; defesa de interesses particulares imaginados como arquitrave de uma “comunidade de destino”. Por outro lado, a esquerda socialista, embora não fazendo parte do bloco hegemônico neoliberal, não consegue diferençar-se eficazmente daquele bloco no momento de elaborar propostas programáticas de signo claramente inovador. A candidatura de Alexis Tsipras, líder do partido Syriza, à presidência da Comissão Europeia, tem importância indubitável nessa ordem de coisas; já determinou em muitos países uma positiva abertura do debate de esquerda. Em outros países, contudo, ainda parecem prevalecer os interesses de pequenos grupos ou “partidos”, incapazes de desenvolver discurso político plenamente europeu.

Com as coisas nesse pé, por que as eleições europeias de maio próximo nos parecem importantes?

Alexis Tsipras
Em primeiro lugar, porque tanto o relativo reforço dos poderes do Parlamento, como a designação pelos partidos de um candidato à Presidência da Comissão, fazem da campanha eleitoral, necessariamente, um momento de debate europeu, no qual as diversas forças ficarão obrigadas a definir e anunciar, pelo menos, algum esboço de programa político europeu. Parece-nos pois que aqui se apresenta a ocasião para uma intervenção política dos que se batem para quebrar tanto o feitiço neoliberal como seu corolário, segundo o qual a única oposição possível à atual forma da União Europeia seria o “populismo” antieuropeu.

Não se exclua, de início, que essa intervenção possa encontrar interlocutores entre as forças que se movem no terreno eleitoral. Mas estamos pensando, antes de tudo, numa intervenção de movimento, que consiga deitar raízes no interior das lutas que se desenvolveram nos últimos meses, embora de diferentes maneiras, em muitos países europeus – com intensidade significativa inclusive na Alemanha. É decisivamente importante voltar a habilitar um discurso programático – e isso não é possível exclusivamente dentro e contra o espaço europeu.

Mariano Rajoy
Não vemos como se poderia questionar sociologicamente, de modo adequado, a “composição técnica de classe” de um ponto de vista messiânico acima da “composição política” adequada. Do mesmo modo, não haverá movimentos de classe vitoriosos que não tenham interiorizado a dimensão europeia. Não seria a primeira vez, mesmo na história recente das lutas, que esses movimentos ver-se-iam forçados pelo marco político a se modificarem, voltando a experiências locais, até se verem asfixiadas em clausuras sectárias. Trata-se de reconstruir imediatamente um horizonte geral de transformação, de elaborar coletivamente uma nova gramática política e um conjunto de elementos de programa que possam agregar força e poder no interior das lutas. Aqui e agora – repetimos – a Europa nos parece ser o único espaço no qual isso é possível.

Um ponto nos parece particularmente importante. A violência da crise fará sentir seus efeitos ainda por muito tempo. Não há “recuperação” à vista, se por recuperação se entender diminuição significativa do desemprego, diminuição do precarismo [1] e relativo reequilíbrio dos ganhos. Mesmo assim, parece que se possa descartar o aprofundamento da crise. O acordo sobre o salário mínimo, sobre o qual de fundamenta a nova coalizão na Alemanha, parece indicar, mais, um ponto de mediação no terreno do salário social que pode funcionar – em geometria e geografia variáveis – como critério de referência geral para a definição de um cenário de relativa estabilidade capitalista na Europa.

É um cenário, não a realidade atual, e é um cenário de relativa estabilidade capitalista. Para a força de trabalho e para as formas da cooperação social, esse cenário assume como dados de partida a extensão e a intensificação do precarismo, a mobilidade forçada dentro do espaço europeu e fora dele, o desclassamento de quotas relevantes do trabalho cognitivo e a formação de novas hierarquias dentro do trabalho cognitivo, determinados pela crise.

Mas em geral, o cenário de relativa estabilidade de que falamos constata a plena hegemonia de um capital cujas operações fundamentais têm natureza extrativa, quer dizer: combinam a persistência de uma exploração de tipo tradicional, com intervenções de “subtração” direta da riqueza social (mediante dispositivos financeiros, mas também porque assumem “bens comuns”, como, dentre outros, saúde e educação, como terreno privilegiado de valoração). Não por acaso, os movimentos compreenderam que nesse terreno travam-se as lutas que podem golpear o novo regime de acumulação.

Nesse cenário trata-se, obviamente, de saber perceber a especificidade das lutas que se desenvolvem, de analisar sua heterogeneidade; e de medir sua eficácia em contextos políticos, sociais e territoriais que podem ser muito diferentes.

Mas trata-se também de propor os problemas de tal modo que as lutas possam convergir, multiplicando sua própria potência “local”, mas dentro do marco europeu. Enquanto isso, delinear os novos elementos do programa pode ser feito mediante a escrita coletiva de uma série de princípios dos quais não se pode abrir mão, no terreno do Welfare e do trabalho; da fiscalidade e da mobilidade; das formas de vida e do precarismo, em todos os terrenos sobre os quais se expressaram os movimentos na Europa.

O que estamos pensando não seria uma carta de direitos redigida de baixo para cima que se apresentaria a alguma instância institucional: é, mais, um exercício de definição programática que, como começa a mostrar a “Carta de Lampeduza” essas semanas, no que tenha a ver com migração e asilo, possa converter-se em instrumento de organização no nível europeu. Sem esquecer que, nesse trabalho, podem aparecer impulsos decisivos, mesmo, imediatos, para construírem-se coalizões de forças locais e europeias, sindicais e cooperativas, em movimento.


[1] Há uma tendência no Brasil, a preferir-se “precariedade” a “precarismo”. Optamos por “precarismo” para evitar uma arapuca semântica: todos os substantivos construídos com o sufixo “-idade” (como “precariedade”) são, necessariamente, sempre, substantivos abstratos (de fato, em praticamente todas as línguas em que o sufixo ocorre). Não nos parece razoável acrescentar, a todas as dificuldades do precariato, mais essa dificuldade – terrível! – apresentar precariato mediante exclusivamente por um traço abstrato. Por piores que sejam os “-ismos”, entendemos que nenhum deles seria o que é sem a luta muito concreta dos que lutaram por eles, ou neles e, claro, também contra eles.
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[*] Autores: Sandro Mezzadra e Toni Negri

Sandro Mezzadra é professor na Universidade de Bolonha. Os seus estudos concentram-se na história das ideias políticas e na teoria política. Nos últimos anos, tem-se debruçado sobre a relação entre globalização, migração e cidadania. Esteve igualmente envolvido na luta pelo direitos dos migrantes, nomeadamente no âmbito do primeiro dia de acção contra a reunião do G-8 em Génova (Itália) em 2001, dedicado às questões da migração, bem como nos fóruns sociais italianos. Entre as suas publicações, destacamos Diritto di fuga. Migrazioni, cittadinanza, globalizzazione, Verona, Ombre corte, 2001.

Antonio Negri, também conhecido como Toni Negri é um filósofo político italiano, tradutor dos escritos de Filosofia do Direito de Hegel, especialista em Descartes, Kant, Espinosa, Leopardi, Marx e Dilthey, tornou-se conhecido no meio universitário sobretudo por seu trabalho sobre Espinosa, mas sua atividade acadêmica sempre foi intimamente ligada à atividade política. Negri ganhou notoriedade internacional nos primeiros anos do século XXI, após o lançamento do livro Império - que se tornou um manifesto do movimento anti-globalização - e de sua sequência, Multidão, ambos escritos em co-autoria com seu ex-aluno Michael Hardt.



quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Dupla explosão em Volgogrado (1ª avaliação)

30/12/2013, The Saker, Blog The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
A recente dupla explosão em Volgogrado (ex-Stalingrado) manifesta escalada considerável na guerra de baixo nível, mas ininterrupta, que opõe insurgentes wahhabistas não só ao Kremlin, mas também às tradicionais autoridades muçulmanas na Rússia. Antes de examinar o que esses dois recentes ataques podem significar para a Rússia em geral e para os próximos Jogos Olímpicos de Sochi, será útil reunir aqui alguns fatos básicos.

Explosão de um ônibus, um dos 2 atentados em Volgogrado na Rússia em 23/12/2013
Chechênia

Primeiro, é erro assumir que qualquer ato terrorista “islâmico” cometido na Rússia, sempre envolveria chechenos. A realidade é que a Chechênia não apenas “foi pacificada”: está hoje realmente em paz. O líder checheno, Ramzan Kadyrov, realmente operou um milagre, quando converteu o “buraco negro” checheno, devastado pela guerra, em república próspera e REALMENTE em paz.

O fato de esse milagre não ter sido jamais nem noticiado nem ridicularizado pelos veículos da imprensa-empresa anglo-sionista, que chegou a publicar que a insurgência chechena jamais seria destruída, faz perfeito sentido: seria politicamente impensável, para o bloco anglo-sionista, admitir esse sucesso local.

Mesmo assim, o fato de um jovem, com perfeita aparência externa de bandido checheno, ter-se revelado líder político extremamente capaz, inteligente e esperto, é inegável. Embora nenhuma “guerra ao terror” possa ser jamais realmente “vencida”, é justo dizer que, pelo menos atualmente, o fenômeno do terrorismo checheno foi, sim, reduzido a quase zero. Infelizmente, se o futuro se abre radioso, para a Chechênia, as coisas estão infinitamente piores no vizinho Daguestão.

Mapa do sul da Rússia caucasiana com as repúblicas vizinhas
Daguestão

Chechênia e Daguestão são vizinhos, mas se fossem antípodas não seriam mais diferentes. Para começar, a Chechênia é habitada predominantemente, por chechenos, mas não existe sequer o adjetivo pátrio “daguestanês”: no Daguestão vivem mais de uma dúzia de diferentes grupos étnicos. De fato, o Daguestão é a mais diversificada de todas as repúblicas russas; ali, nenhum grupo constitui qualquer tipo de maioria. Esse aspecto é crucial, porque o fato de não haver um grupo étnico dominante significa que não há como surgir um “Kadyrov daguestanês”.

Segundo, a economia do Daguestão está em mãos de elites muito corruptas, que lutam entre elas e entre outros clãs. Em termos práticos, significa que a “receita” usada na Chechênia (dar a um líder checheno local nível máximo de autonomia e autoridade) seria um desastre para o Daguestão. A”‘solução” para o Daguestão envolve provavelmente intervenção forçada do Centro Federal e a destruição do atual sistema clânico baseado nas etnias – coisa que ninguém no Kremlin vê como possibilidade a tentar.

Por hora, contudo, o Daguestão é o ninho, para o terrorismo wahhabista. Alguém pode dizer que o câncer wahhabista tomou conta, primeiro, da Chechênia, e disseminou-se para o Daguestão enquanto era destruído na Chechênia. A extrema pobreza do Daguestão, combinada aos milhões de dólares fornecidos pelos sauditas aos seus aliados e agentes facilitou muito para eles a operação de implantar sua griffe de wahhabismo no Daguestão e recrutar agentes locais de influência e terroristas.

Mapa étnico do cáucaso russo e a diversidade do Daguestão
(clique no mapa para aumentar)
Os terroristas daguestaneses aprenderam bem as lições da Chechênia e jamais tentaram tomar posse de qualquer território ou criar alguma espécie de “estado” wahhabista no Daguestão. Exatamente o contrário disso: dia após dia, após dia, após dia, as forças de segurança combatem os terroristas daguestaneses, os quais, na maioria das vezes acabam presos ou mortos (mais frequentemente, mortos). A razão disso é óbvia: os terroristas daguestaneses são fracos e não conseguem impor-se nem à polícia local. Mas são suficientemente fortes para amarrar um colete de explosivos na cintura de um adolescente ou de um adulto jovem, homem ou mulher, e mandá-los explodirem-se numa estação de ônibus ou de trem.

Wahhabistas no resto da Rússia

Também seria erro assumir que todo o terrorismo wahhabista na Rússia teria de vir do Daguestão ou mesmo do Cáucaso. Os wahhabistas financiados pelos sauditas estão recrutando literalmente por todos os cantos – do sul da Rússia a São Petersburgo e, nas duas direções, do Tartarstão a Moscou. Resultado disso, há russos étnicos envolvidos em atos terroristas wahhabistas. Resumo disso tudo: o terrorismo wahhabista na Rússia não é nem problema regional nem problema étnico; é problema ideológico. Assim sendo, que ninguém pule diretamente a qualquer conclusão. Não se pode assumir coisa alguma sobre quem estaria por trás dos últimos ataques; literalmente, pode ser qualquer um.

De Volgogrado a Sochi?

Volgogrado tem sido cenário de vários ataques terroristas no passado recente, e os dois mais recentes são apenas isso: os mais recentes de uma longa série. Por que Volgogrado?

Bem... Volgogrado – com Rostov-sobre-o-Don e Krasnodar – é uma das maiores cidades do sul da Rússia e é suficientemente perto do Daguestão para permitir que os wahhabistas dagestaneses (assumindo-se que estejam envolvidos) organizem um ataque terrorista naquela cidade. Na verdade, entre Daguestão e Volgogrado a distância é praticamente igual à que separa o Daguestão e Sochi. Não é pensamento agradável.

Os estados caucasianos do sul da Rússia e as distâncias referidas
Outro fator que deve ter pesado na decisão dos terroristas de atacarem em Volgogrado é que a expressiva maioria dos esforços contraterroristas russos estão atualmente concentrados em, e em torno de, Sochi. Uma das regras básicas do contraterrorismo ensina que sempre há mais alvos a proteger, que recursos para protegê-los. Ainda que Volgogrado estivesse totalmente fechada e protegida, o terrorista poderia ter escolhido Astracã, Elista, Savropol ou qualquer outra cidade. Meu palpite é que a infraestrutura local e federal de segurança está focada, basicamente, em proteger a infraestrutura dos Jogos Olímpicos; assim, Volgogrado pode ter ficado mais exposta que o “normal”.

O que se sabe até agora?

Pavel Pechenkin
Recebi muitas mensagens, diretas, por e-mail, ou na seção de comentários, de pessoas que me perguntam se penso que os recentes ataques são efeito de ameaças recentes dos sauditas. Honestamente: ainda não sei, é muito cedo para dizer. Os russos estão trabalhando rápido e a imprensa noticiou que o suicida-bomba que explodiu a estação de trem ontem foi identificado como Pavel Pechenkin.

Que eu saiba, ainda não há confirmação oficial, e ainda estão sendo feitas análises de DNA. Se for verdade, o indício apontará para um grupo de russos étnicos que deve incluir Dimitri Sokolov, recentemente morto por forças de segurança; era russo étnico que vivia no Daguestão e que se ligou a um grupo terrorista na cidade de Makhachkala. Contudo, é interessante registrar que seu contato com os wahhabistas clandestinos não começou no Daguestão, mas numa mesquita em Moscou, onde se inscreveu para aulas do idioma árabe. Sokolov era amante de Naida Asiialova, também suicida-bomba, que se autoexplodiu num ônibus lotado em Volgogrado em outubro desse ano. Pechenkin, Sokolov e Asiialova aparentemente eram parte da mesma célula terrorista que, embora baseada no Daguestão, incluía russos étnicos.

Dimitri Sokolov                                           Naida Asiialova
Esse grupo é muito bem conhecido dos serviços de segurança russos. Os pais de Sokolov e Pechenkin apareceram várias vezes na mídia russa, implorando que os filhos não cometessem atos violentos e que abandonassem a vida de terroristas. Embora evidentemente trabalhassem com cúmplices, Sokolov e Pechenkin eram a imagem pública desse grupo e, tanto quanto sei, não há outras figuras importantes nessa célula, que os serviços de segurança já não tenham apanhado.

Por enquanto – e essa é uma avaliação muito preliminar – não se veem “impressões digitais” sauditas nesses ataques. Parecem ser o que os norte-americanos chamam de “terror doméstico”. Se alguma pegada saudita há aí, está na quantidade massiva de dinheiro que os sauditas fornecem a mesquitas wahhabistas na Rússia (e em todo o mundo).

Opções russas internas

Como H.L.Mencken escreveu, “para todo problema complexo sempre há uma resposta clara, simples e errada”. Nesse caso, a solução simples é fechar todas as mesquitas ligadas a wahhabistas na Rússia, e algumas cabeças-fracas na Rússia já manifestaram desejo de ver acontecer precisamente isso. Há inúmeros problemas com essa “solução”.

Vladimir Putin
1). Seria, numa palavra, ilegal. A Rússia (finalmente!) tornou-se país no qual (mais ou menos) a lei é respeitada, ou, pelo menos, a Rússia está a caminho de vir a ser esse tipo de país. Certo é que a vasta maioria dos russos querem que o país deles torne-se país normal, civilizado, onde a lei está no centro da vida política. Fechar mesquitas seria, simplesmente, ilegal. Para começar, fechar mesquitas por quê? Por “suspeita de wahhabismo”? Não há lei na Rússia que proíba o wahhabismo. Por receberem dinheiro? Também não é proibido. Por estarem ligadas a redes terroristas? Sim, seria ilegal, mas é preciso provar a ligação, o que é muito difícil, e não há meio para fazer “colar” esse tipo de “acusação”, em tribunais legais, contra muitas daquelas mesquitas.

Resumo, até aqui: Putin não é ditador e não pode agir à margem da lei russa. De fato, nem quer.

2). Seria também imoral. Vivi durante muitos anos literalmente ao lado de uma grande mesquita integralmente financiada pelos sauditas e, que eu saiba, nem aquela mesquita jamais teve algo a ver com terrorismo, nem as pessoas que frequentavam aquela mesquita jamais cometeram sequer algum pequeno crime. Deus sabe que odeio, do fundo do coração e da mente, a ideologia wahhabista. Mas isso não implica que a maioria dos wahhabistas sejam bandidos, ou ligados ao terrorismo. A maioria não é, nem se pode convertê-los em, bodes expiatórios para ações de outras pessoas. Sou absolutamente a favor da destruição física de todos os terroristas wahhabista que haja no mundo, mas, enquanto não se armam e põem-se a matar seres humanos, os seguidores de Ibn Taymiyyah, Ahmad ibn Hanbal e Muhammad ibn Abd al-Wahhab não podem ser forçados a pagar por atos de outros.

3). Seria contraproducente. A favor de deixar livres para operar as mesquitas ligadas aos wahhabistas, pesa, sim, também, a evidência de que muitas delas oferecem às forças de segurança um “elo fraco” e alvo perfeito, pelo qual podem entrar e mantê-las sob observação. Fechem aquelas mesquitas, e os terroristas que ali haja serão empurrados para a clandestinidade, espaço sempre muito mais difícil para qualquer tipo de infiltração. De fato, as mesquitas ligadas aos wahhabistas podem até ser usadas como pote de mel para atrair, identificar e prender terroristas domésticos.

Não. O melhor modo de lidar com a propaganda e o terror financiados pelos sauditas é apoiar organizações islamistas tradicionais, anti-wahhabistas, e líderes religiosos. Há muitos, muitos muçulmanos inteligentes e bem educados na Rússia, inclusive alguns imãs bem conhecidos, que podem fazer a luta espiritual e de ideias contra os terroristas wahhabistas e denunciá-los pelo que realmente são. O estado russo deve:

(a) proteger fisicamente essas pessoas;
(b) ouvi-los e ouvir a avaliação que façam da situação atual;
(c) explicar à população não muçulmana que aquelas figuras religiosas são aliados vitalmente importantes na luta contra o terrorismo wahhabista.

E se se encontrarem pegadas sauditas?

Aí está um grande “se”! Mas assumamos, só para argumentar, que os russos descubram alguma espécie de “impressão digital” saudita nesses ataques, ou em outros, durante os Jogos Olímpicos, e examine várias respostas russas:

Base naval russa de Tartus na Síria (vista aérea)
1). Ataque aberto, de retaliação, contra a Arábia Saudita:

Em termos puramente militares, coisa facílima de fazer. Os russos poderiam atacar com bombardeiros, mísseis cruzadores disparados de submarinos, mísseis balísticos – de fato, tudo, qualquer coisa. Os EUA manifestariam todas as variantes de ofensa e ultraje, mas o CENTCOM faria absolutamente nada, porque o propósito original do CENTCOM era impedir invasão soviética no Irã, não defender os sauditas contra ataque russo de retaliação. O problema, nessa resposta, é que seria ilegal nos termos da lei internacional; e a Rússia não quer saber desse tipo de problema. Se a Rússia decidir acusar oficialmente e publicamente a Arábia Saudita, de ataques terroristas contra a Rússia, terá de ir ao Conselho de Segurança da ONU ou à Corte Internacional de Justiça, e encaminhar legalmente o próprio caso.

Conselho de Segurança da ONU
2). Registrar queixa oficial na Corte Internacional de Justiça e tentar arrancar do Conselho de Segurança da ONU um voto de condenação contra o Reino da Arábia Saudita:

Essa é opção clara e limpa, porque poria os sauditas em posição política muito embaraçosa. Dependendo dos termos da Resolução, os EUA podem ou abster-se de votar ou vetar a proposta de resolução, porque, não importa quantos e quais problemas haja atualmente entre os dois lados, EUA e Reino Saudita são ainda aliados estratégicos. Mesmo assim, a queixa oficial russa contra o regime saudita jogaria mais um ovo no nariz dos macacos medievais no poder em Riad. Pessoalmente, gostaria que acontecesse. Mas não faz o estilo de Putin – que prefere diplomacia em chave muito mais discreta.

3). Ataque não aberto de retaliação, contra a Arábia Saudita:

Também nada difícil de fazer com os meios do Kremlin, não só porque poderia usar capacidades russas para atingir um ou dois príncipes sauditas, mas porque poderia facilmente subempreitar o serviço, transferindo-o a força aliada. O problema nesse caso é que, ainda que resposta de retaliação, mesmo assim seria ato de terrorismo.

Ibn al-Khattab
Até hoje, o único caso que eu conheça de os russos assassinarem alguém foi quando mataram Ibn al-Khattab, terrorista conhecido e procurado: os serviços especiais russos interceptaram uma carta endereçada a Khattab, trataram a carta com um veneno especial que nada causaria a ninguém, exceto ao próprio Khattab (coisa muito mais efetiva e método muito mais sofisticado que a bobagem de que os russos são acusados, de que usariam polônio para matar alguém). Mas naquele caso, os russos admitiram o papel que tiveram, e até fizeram declarações mais ou menos oficiais, fornecendo detalhes da operação. Foi assassinato que usou métodos não abertos, mas não foi propriamente operação não aberta completa, porque os russos voluntariamente admitiram que estavam por trás de tudo aquilo. Khattab era bandido de tal ordem que ninguém mentalmente são manifestou qualquer problema contra a ação: é um daqueles raros casos, claros, branco e preto, caso em que ninguém discorda, em que praticamente toda a humanidade concorda que o executado realmente teve o que merecia e que se fez justiça. Mas aquele caso foi absolutamente excepcional. Na grande maioria das vezes, as chamadas “operações secretas” não passam de eufemismo para (contra)ataque terrorista, vale dizer: ato que nenhum país civilizado deve cometer ou admitir.

4). Nesse caso... fazer o quê? Com vistas ao longo prazo:

Dick Cheney
Numa luta contra o terrorismo, é absolutamente vital manter alta a moral em campo: você tem de fazer o máximo, para negar ao inimigo o status de “combatente da liberdade”. Para fazer isso, é absolutamente necessário que você conserve as suas mãos o mais limpas possível; e você só deve engajar-se em ações que, se descobertas, o mostrarão como gente honrada. A noção de Dick Cheney, segundo o qual, em dado momento, “[agora] tiramos as luvas” é reflexo de seu pensamento absolutamente sem refinamento e sofisticação. O mesmo se pode dizer da negabilidade plausível, da CIA. O resultado dessa autoilusão é que os EUA são odiados e desprezados em todo o mundo, e literalmente, não há ação vil, vergonhosa ou estúpida que alguém não acredite facilmente que possa ter sido cometida pela comunidade norte-americana de operações secretas. Por que a Rússia desejaria tornar-se “o vilão da hora” (outra vez)?!

Pessoalmente, entendo que é crucial, para país civilizado, manter sua política oficial, pública, declaratória, em harmonia com o que faz por trás do palco. Nada há de inerentemente errado em operações clandestinas, se forem conduzidas de modo tal que os que as ordenam continuem a mostrar atitude racional e honrada, no caso de a operação ser descoberta. A Rússia não pode falar constantemente do papel crucial que deve ter a lei internacional nas relações internacionais, e, de repente, sem mais nem menos, pôr-se a violar as leis internacionais mais básicas.

Por essa razão, qualquer uso de força (militar ou de serviços especiais) pela Rússia terá de basear-se nos seguintes princípios:

a). Só depois de todas as opções não violentas terem sido tentadas ou quando seja absolutamente impossível pô-las em prática.
b) A força usada tem de ser proporcional ao ataque que a provocou.
c) Todos os esforços devem ser empreendidos, para evitar que inocentes sejam mortos, feridos ou atingidos de qualquer modo.

Soa como fala de Poliana? Pois não deveria soar assim.

Décadas de uso absolutamente irresponsável, temerário e impiedoso da força, por EUA, Israel, europeus, e soviéticos acabaram por nos dessensibilizar: já poucos percebem que a violência é fundamentalmente imoral. “Educados” como fomos muitos de nós pelos filmes de John Wayne e pelos governos de Ronald Reagan, perdemos a capacidade de nos horrorizar, como se horrorizaria qualquer pessoa civilizada, com a feiúra e a imoralidade da violência. Pior: estamos tão condicionados por décadas de audiência ante os televisores, assistindo a “reportagens especiais” da CNN, a repetir o mais recente briefing sobre uma ou outra intervenção militar norte-americana, que já esquecemos que “atirar sem sacar a arma do coldre” é o meio menos eficiente de lidar com qualquer problema.

Quando se enfrenta questão como o terrorismo, o melhor é, sempre, planejar para o longo prazo. Desse ponto de vista, entendo que o regime saudita é problema suficientemente grande, para merecer ser considerado como ameaça inerente à segurança nacional da Rússia; e isso, por sua vez, implica que a Rússia deve ter, como objetivo de sua estratégia de segurança nacional, obter mudança de regime no Reino da Arábia Saudita.

Mas essa meta deve ser buscada exclusivamente ou, no mínimo, principalmente, mediante meios legais. Por exemplo, armando iranianos e sírios os quais, por sua vez, armarão o Hezbollah. A mesma meta pode também ser alcançada isolando a Arábia Saudita no cenário internacional, mediante “consultas” com aliados e nações amigas. Além disso, a Rússia deve buscar ampliar seu papel e sua influência no mundo muçulmano e árabe, para contra-atacar a atual influência dos sauditas e de outras monarquias do Golfo.

No curto prazo, o público russo tem de ser abertamente informado de que o terrorismo não pode ser erradicado; que qualquer ideia nessa direção é delírio de fumaças alimentadas por políticos desonestos. Mas se nenhuma nação ou governo conseguirá jamais erradicar o terrorismo, é possível aprender a conviver com ele. Afinal, o número total de vítimas de terrorismo é extremamente pequeno; muito, muito menor que o número de vítimas, digamos, de acidentes de carro. O real poder do terrorismo está no efeito psicológico que tem, não sobre as vítimas diretas, mas sobre as testemunhas. Tão logo a opinião pública aceite a ideia de que é possível reduzir ao mínimo o número de ataques terroristas, mesmo que alguns sempre possam ocorrer, o terrorismo perderá a única força que realmente tem.

O terrorismo tem de ser aceito como fato da vida [exatamente o que a imprensa-empresa do capital existe para IMPEDIR que aconteça (NTs)], porque, se não for assim, qualquer país sempre acabará arrastado para uma interminável espiral de medidas perfeitamente inócuas de contraterrorismo, que são, de fato, muito mais daninhas à vida social que o terrorismo que as inspirou.

Será que interessa à Rússia converter-se em estado paranoico fascista aterrorizado, como são hoje os EUA? Não será mais produtivo aceitar o fato de que o terrorismo jamais será “derrotado”, e tocar a vida do melhor modo possível, nesse mundo sempre tão perigoso?

Já há políticos russos debatendo acaloradamente a importância de suspender a atual “moratória” que suspendeu a pena de morte no país: Nikolay Pligin, deputado do Partido Rússia Unida, e presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Parlamento Russo, declarou que:

(...) nenhum grupo social será discriminado, nenhuma atividade especial será dirigida contra nenhum grupo específico – todas as atividades serão conduzidas estritamente segundo as normas constitucionais e a lei vigente.

Ramzan Kadyrov
E Ramzan Kadyrov exigiu que o Parlamento

(...) aumente infinitamente a pena para os que, não apenas cometam atos terroristas, mas também partilhem as ideias dos terroristas, disseminem sua ideologia e lhes deem treinamento. Estou absolutamente convencido de que não venceremos esse mal só com democracia e humanidade.

Ora... Pelo menos os dois concordam que o lugar certo para discutir a questão e decidir sobre quais políticas adotar é o Parlamento. Espero que a Duma se manifeste com clareza e dê ao Kremlin as leis de que o Kremlin precise. Porque, de fato, a decisão real estará nas mãos de Putin.

Pessoalmente, tenho confiança de que Putin se pautará estritamente pela letra e pelo espírito da lei nacional russa e pela lei internacional. E que não haverá excessos, na reação russa.

[assina] The Saker