sábado, 1 de fevereiro de 2014

Conflicts Fórum: Comentário semanal de 17 a 24/1/2014

31/1/2014, Conflicts Forum 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Genebra II: O resultado do conflito na Síria afetará muitas coisas. Contribuirá diretamente para modelar o equilíbrio geoestratégico na região; ou imporá limites ao crescimento do jihadismo takfiri; ou, em vez disso, injetará oxigênio nesse fantasma, por toda a região – e também na Ásia Central e Norte da África; afetará o modo como a instável ordem mundial se desdobrará – e a Síria pode ainda provar ser a nêmese da Arábia Saudita; ou não. Menos certo é se Genebra II contribuirá substantivamente para esse resultado sírio definitório – seja qual for.

Walid Moallem, Ministro das Relações Exteriores da Síria (E) conversa com a chefe da política externa da UE, Catherine Ashton (D)  durante pausa nas conversações de paz de Genebra-2 em Montreux, 22 de janeiro de 2014. 
De fato, as possibilidades para Genebra permanecem envoltas em incerteza, e até a condução do “processo” como tal é duvidosa (dado que não há qualquer agenda real). É, isso sim, cedo demais para especular sobre o significado mais amplo, caso haja.

De que trata Genebra II? Antes (Genebra I), era claro: o encontro interessava aos EUA e aliados, para impor um “governo de transição”, decidido “no escalão superior” (EUA e aliados – e possivelmente também a Rússia), que simplesmente usurparia todos os poderes executivos e de segurança do presidente Assad – e deixaria Assad desinflado como bola murcha, capaz de colaborar, só, para sua própria “demissão” política. (Naquele momento, os EUA e alguns europeus assumiam que o presidente da síria não teria escolha além de curvar-se à “rua” e aos poderes arregimentados contra ele). Esse plano inicial foi, na essência, requentamento do modelo do Iêmen: as potências externas resolveram entre elas, antes, a receita para o Iêmen – e a decisão delas foi simplesmente comunicada aos iemenitas numa conferência, com ordens para implementá-la.

Genebra I fracassou, em primeiro lugar, porque os EUA naquele momento queriam manter algum tipo de “parceria” com a Rússia (o que só veio a ser possível com o Acordo das Armas Químicas); ou, em outras palavras, “o alto escalão” não conseguiu concordar com o projeto; e, em segundo lugar, porque “éditos” exarados pelos “altos escalões” visivelmente já não tinham impacto algum sobre os grupos em campo, sobretudo sobre os vários grupos jihadistas, que não querem saber de democracia, nem do próprio estado-nação, nem de secularismo. Em linguagem simples, o “alto escalão” simplesmente não mandava, porque os atores armados o ignoravam, sabendo que as potências externas continuariam, em todos os casos, a patrocinar o conflito militar.

Kerry e Lavrov reunidos com assessores discutem a situação na Síria
Agora, as coisas são muito diferentes (embora a retórica passada sobre a necessária “transição” de Assad se mantenha, especialmente com Kerry e o “coro” dos think-tanks ocidentais, mas – o que chama a atenção – não com os serviços ocidentais de segurança e inteligência). Medos sobre o crescimento do jihadismo, e sua irradiação para a região e para fora dela, só fizeram crescer, até serem hoje o medo principal. Já não é indispensável “tirar” Assad e, mais que isso: a permanência dele na presidência passou a ser uma necessidade de segurança (seja para implementar o Acordo das Armas Químicas, seja para fazer a guerra crucial contra os jihadistas).

Em certo sentido, Genebra II converteu-se numa espécie de ponte muito instável a ligar a antiga política (ocidental, de derrubar Assad) e uma nova política de assegurar a estabilidade regional mediante a destruição do jihadismo na “linha de frente” na Síria.

Nem todos nos EUA concordam com essa mudança (o Secretário de Estado absolutamente não consegue admiti-la explicitamente para o eleitorado doméstico).

A “contraestratégia” dos intervencionistas norte-americanos e do Golfo (em reação contra o movimento do governo dos EUA) é elevar as necessidades humanitárias do povo sírio até conseguir usá-las como Cavalo de Troia, que transportará dentro da barriga de madeira as forças do intervencionismo – ostensivamente pelo mais nobre dos motivos, é claro – dar proteção aos corredores humanitários, “para instalar pontos de passagem de fronteira para que a ONU entre na Síria, sem qualquer controle por Damasco... Para levar ajuda a centenas de milhares” e/ou para implantar “áreas seguras” para os refugiados.

Terroristas disparam metralhadora anti-aérea contra edifícios em Aleppo (19/1/2014)
Áreas “seguras” dentro da Síria – se vierem a ser implantadas – servirão como cabeça de ponte (ao estilo de Benghazi) para ampliar o envolvimento estrangeiro dentro de um estado soberano.

Rússia e Síria farejaram imediatamente o complô, e a Síria optou por apresentar preventivamente sua própria proposta de ajuda humanitária e de desescalada, em seus próprios termos. Esses termos não incluem ceder nem um milímetro da soberania da Síria.

Numa agenda de Genebra, da qual já se extraíram todas as questões sensíveis, a questão humanitária tende a ser inflada até converter-se em fachada para mais guerra, entre os intervencionistas presentes, de um lado; e, de outro, os que (como Síria, Rússia e Irã) estão decididos a repelir qualquer forma de intervenção ocidental (lição definitiva que aprenderam da Líbia).

Quanto ao governo dos EUA, o objetivo principal parece agora limitado a inventar um show em que se “confrontam” o governo sírio e uma “oposição” de espectro muito limitado, que conversam entre eles (daí as declarações do Departamento de Estado para a imprensa-empresa ocidental, de que esperam um “processo longo”).

Tendo perdido o bonde principal, o ocidente busca agora, sobretudo, conter o conflito, mais do que inflamá-lo sempre mais, o que ameaça os países vizinhos. É pouco provável que Washington creia que muita coisa possa emergir dessa conferência, sabendo, como sabe, que a delegação da “oposição” não tem, de fato, quase nenhuma legitimidade em campo, dentro da Síria; que a “oposição” está rachada por conflitos internos; e que a posição do presidente Assad em campo, na Síria, é forte.

Seja como for, é possível que EUA e Rússia esperem que esse começo tumultuado assinale, pelo menos, o ressurgimento de alguma política na Síria, depois de longo hiato. (O governo sírio também reconhece a necessidade de diálogo nacional para definir o futuro do estado. E já iniciou, discretamente, amplas discussões nacionais, em andamento já há algum tempo). Mas engendrar qualquer diálogo nacional não será tarefa simples: prova disso é o empenho fartamente noticiado com o qual o embaixador Ford dos EUA teve de ameaçar e chantagear a “oposição”, para que aparecesse em Montreux.

Entrincheirados nas colinas de Golan (território sírio roubado por Israel) soldados judeus
observam cidade Quneitra, zona fronteiriça Síria
Por tudo isso, não será fácil para o secretário Kerry manter – sem fazer papel ridículo –o movimento de os EUA deslizarem (o mais invisivelmente possível) na direção de uma nova posição e de aceitarem a realidade de que o presidente Assad ficará exatamente onde está (e, de fato, há praticamente nada que os EUA possam fazer para derrubá-lo, pelo menos no atual estágio) ao mesmo tempo em que os EUA mantêm uma pantomima de “fé” no Conselho Nacional Supremo, frente a uma opinião pública nos EUA que foi longamente condicionada a ver o presidente Assad como uma espécie de “monstro”. O público norte-americanos perceberá tudo isso.

Tema também complicado é que a questão síria vai-se misturando cada vez mais com as negociações com o Irã. Na verdade, as duas questões sempre estiveram entrelaçadas, mas surgiu agora mais um “nó”, depois que o Irã foi “desconvidado” à conferência de Genebra, exatamente quando os norte-americanos contavam com a influência do Irã – que facilitaria a “passagem”, de Kerry, para a nova política de guerra contra o jihadismo ressurgente. (A recente retomada de Falluja, pela “al-Qaeda”, é símbolo poderosíssimo dentro dos EUA).

Outra grande “virada” é que Rússia e Irã estão concluindo – fartamente noticiado – um gigantesco negócio de petróleo, o qual, do ponto de vista dos EUA, ameaça a doutrina norte-americana segundo a qual só se o Irã for “apertado” por sanções e mais sanções, será possível obter “solução” para a “questão nuclear”. A exportação de 0,5 milhão de barris/dia de petróleo iraniano para a Rússia, que não importará para seu uso, mas para embarcá-lo diretamente para seus clientes asiáticos, é vista em Washington como, potencialmente, o início do colapso da política de sanções. O Congresso dos EUA é obcecado com manter as sanções (com apoio de Israel); mas a Rússia, não.

Mohammad Javad Zarif, MRE do Irã (E) e Sergey Lavrov MRE da Rússia (D) em 16/1/2014, durante o fechamento de negócio de petróleo entre seus países

Daí que já haja “resmungos” de porta-vozes dos EUA, sobre aplicar sanções à Rússia; não passam de boatos. A Rússia jamais subscreveu sanções unilaterais, nem norte-americanas, nem europeias – a Rússia considera as sanções ilegais, dado que não têm aprovação do Conselho de Segurança da ONU. Assim, os russos têm repetido aos funcionários dos EUA que a possível troca por petróleo (o Irã receberá produtos e moeda) não é assunto que diga respeito aos EUA. (Evidentemente, acrescentará 182 milhões de barris/dia de petróleo à produção anual, o que fará aumentar a pressão pela OPEC e pela Arábia Saudita, para reduzir a produção em outros pontos – se quiserem manter o preço em torno de $100 por barril.).

A questão aqui é que o presidente Obama absolutamente não tem força para impedir que o Congresso imponha novas sanções ao Irã – movimento que detonará qualquer negociação política com os iranianos. Obama está muito vulnerável, mas, até agora, tem conseguido manter o Congresso “em ordem”. O negócio entre russos e iranianos pode fazer naufragar essa situação precária – criada pela (falsa) narrativa dos norte-americanos, segundo a qual só muitas sanções podem forçar o Irã a recuar do projeto de construir armas atômicas (que é a equação [israelense] sobre a qual o Congresso dos EUA opera).

É possível que a Casa Branca tenha interpretado que as duas coisas – o negócio Rússia-Irã e a presença do Irã em Genebra – seria demais para que o Congresso dos EUA digerisse. Algo teria de ceder: e o Irã foi “desconvidado”, para conter o fogo do Congresso contra Obama (que estaria sendo “mole” com os iranianos). Em resumo, tudo isso sugere que a Casa Branca espera mais das negociações com o Irã, do que de eventuais frutos aproveitáveis que brotem de Genebra.

Robert Ford
O que tudo isso diz sobre Genebra II? Diz que as condições cruciais ainda não estão presentes, para uma solução política. Sim, os “altos escalões” têm agora uma boa base de entendimentos alcançados; sim, uma delegação servil da “oposição” síria está, sim, obedientemente sentada em Montreux; e ambos, EUA e Rússia trabalham na direção da desescalada.

Mas... e os patrões regionais do conflito armado têm algum interesse em desescalar alguma coisa? O briefing do embaixador Ford para a oposição síria (se corretamente noticiado) parece dizer a eles que “Sim”: em março, a “oposição” verá grandes mudanças na política saudita (Bandar e Saud al-Faisal terão saído de cena); e o Irã prometeu à Rússia e aos EUA, que também deseja a desescalada.

A questão é: o embaixador Ford acertará em suas “previsões”? Será preciso esperar até março, para saber. Por hora, não se vê sinal de que o Golfo estaria interessado em qualquer desescalada em campo, em todo o Oriente Médio, exceto no Líbano, como observamos nos Comentários da semana passada.




[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.

Incrível Heloísa

[*] Barbara Newman, L. R . of  Books, vol. 36, Nº 2, 23/1/2014, pp. 5-7
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Resenha de: The Letter Collection of Peter Abelard and Heloise de David Luscombe - Londres: ed. Oxford, 654 pp., agosto de 2013 - ISBN 978 0 19 822248 4 (£165.00)

Abelardo e Heloísa

Há 900 anos, um filósofo-celebridade caiu de amores por sua aluna-estrela e seduziu-a. As antes brilhantes conferências-aulas de Abelardo amornaram, e canções de amor de sua lavra passaram a pôr o nome de Heloísa em todos os lábios. Voaram cartas apaixonadas, e a máquina parisiense de boatos pôs-se a operar em tempo integral – até que a gravidez, afinal, traiu o segredo. Muito contra a vontade de Heloísa, Abelardo insistiu no casamento, para acalmar a fúria de Fulbert, tio dela, que estava realmente enfurecido; e entregou o filho de ambos aos cuidados de seu irmão, que vivia numa fazenda na Bretagne. Casaram-se secretamente ao amanhecer e, dali, cada um seguiu seu rumo. Uma Heloísa ressentida negava todos os boatos sobre o casamento. E Abelardo, para protegê-la contra a ira de Fulbert, vestiu-a num hábito de monja e escondeu-a longe, em Argenteuil, o mesmo convento onde ela fora criada. Foi como a gota d’água que fez transbordar a paciência de Fulbert: contratou bandidos que surpreenderam Abelardo quando dormia e caparam-lhe a parte da anatomia mediante a qual ele cometera os crimes e pecados em discussão. Sem alternativa, o filósofo eunuco fez-se monge, e Heloísa aceitou votos perpétuos, incluindo neles, como prefácio, um lamento público.

David Luscombe
Quase imediatamente começaram a criar-se mitos sobre o casal. O poeta Jean de Meun, ao descobrir as cartas que o casal trocara durante a vida religiosa, traduziu-as ao francês e popularizou a história em seu Roman de la Rose [1]. Um dos personagens elogia Heloísa, sem par entre as mulheres, mas também usa a história, mesmo assim, para alertar os homens contra os perigos do casamento. Lenda gótica narra que, quando Heloísa foi enterrada ao lado de Abelardo, morto 21 anos antes dela, o esqueleto dele abriu os braços para abraçá-la. Em A morte de Arthur, Sir Thomas Malory fez de “Hellawes” uma bruxa, com interesses necrofílicos na direção de Lancelot. Uma versão do século 18, de versões romanceadas das cartas fizeram do casal o ícone do amor romântico. A tal ponto que Josephine Bonaparte os fez ressepultar no cemitério Père Lachaise.

Entre os medievalistas, poucas figuras foram mais profundamente discutidas. O conto epistolar foi lido como escândalo, romance trágico, edificante história de conversão, ficção espertamente construída e exemplo, às vezes do patriarcado às vezes do feminismo, em ação. Além de incontáveis pinturas, poemas, peças, romances e óperas, as cartas geraram debate acadêmico muito mais amplo do que supuseram merecer. O debate centrou-se não só na interpretação das cartas mas, mais fundamentalmente, na autoria. A autobiografia de Abelardo, intitulada A História das Calamidades Dele (orig. The Story of His Calamities [2]), reconta o infeliz caso de amor dentre outras muitas “calamidades”, supostamente como esforço para consolar um amigo anônimo, provando que as calamidades de Abelardo eram muito piores que as suas (dele). As desgraças do filósofo incluíam uma condenação por heresia, a incineração de seu livro sobre a Trindade, brigas com inimigos invejosos e sua nomeação para o posto de abade de Saint-Gildas, abadia bretã tão corrupta que os monges locais tentaram assassiná-lo, durante a missa, com um cálice envenenado. Ao mesmo tempo em que pinta retrato vívido de seu carismático, embora irascível e tolo autor, o texto também lança luz impressionante sobre a França do século 12. Muitos dos detalhes podem ser confirmados em outras fontes, razão pela qual é difícil contestar a veracidade do relato.

Heloísa, apesar da tantas vezes confessada falta de vocação, rapidamente se tornou abadessa de seu próprio monastério. Abelardo só teve elogios para a ex-esposa (os votos monásticos de ambos automaticamente anularam qualquer casamento): “os bispos a amavam como filha; os abades, como irmã; leigos, como mãe; e todos admiravam sua piedade e sua prudência, além da gentileza e da paciência sem iguais em todas as situações”. 

Aí começa o problema, porque, tão logo esse modelo de virtude pôs as mãos na autobiografia de Abelardo, pôs-se a desmantelar, ela mesma, aquela imagem de perfeita abadessa. Heloísa acusou seu “ex” de tê-la negligenciado durante a primeira década da vida monástica de ambos; reclama de que o que o atraíra foi “fogo de luxúria, não de amor” e exige que ele pague urgentemente a dívida de atenção que tem com ela. Quando ele não paga, ela lança uma torrente de ataques contra Deus, confessa que a religião, nela, é pura hipocrisia, porque até durante a missa sua alma é invadida por “visões lascivas”. Em vez de lamentar o que fez, Heloísa só suspira pelo que perdeu.

Inúmeros historiadores modernos, em reação contra o mito romântico dos dois amantes, consideraram difícil acreditar que uma verdadeira abadessa do século 12 tivesse escrito tais coisas. Pouca diferença fez que a evidência documental de toda a vida dela tendesse a confirmar mais os elogios de Abelardo, que as alegações de Heloísa. 

A abadia dela, Abadia do Paracleto, floresceu, atraindo inúmeras vocações e muitos fundos de doadores bem posicionados e, até, fundando casas afiliadas, para construir sua própria miniordem monástica. Tornou-se também centro para formação religiosa de mulheres. 

Da ravina entre romance trágico e fervor monástico brotou o Primeiro Debate sobre a Autenticidade, que começou no início do século 19, mas ardeu mais furiosamente nos anos 1970s e 1980s, quando a questão da autoria, sendo a autora mulher, caiu sob as lentes de exames feministas. Alguns medievalistas defenderam a autenticidade das cartas de Heloísa; uns poucos atribuíram a autoria a diferentes falsificadores.

Mas outros, entre os quais, principalmente, John Benton e D.W. Robertson, afirmaram que as cartas foram forjadas pelo próprio Abelardo, o qual, para os dois críticos, deu fama a – ou provavelmente, mesmo, inventou – aquela Heloísa apaixonada, jamais arrependida, para dar ainda mais brilho à glória dele, que a seduzira. 

Como as últimas cartas mostram, ela afinal se converteu, ou, no mínimo, aceitou “pôr rédeas” aos próprios lamentos sem limitações. Assim, o que os românticos tomaram como um fim trágico do romance entre os amantes foi, em vez disso, o início de uma frutuosa colaboração intelectual entre eles.

Embora Abelardo jamais tenha cedido à chantagem emocional que Heloísa lhe aplicou, ele, sim, se mostrou absolutamente disposto a cooperar com sua “amada irmã em Cristo”. O dossiê de escritos que Abelardo produziu para a ex-esposa e suas noviças e freiras incluiria um discurso sobre a origem da vida religiosa das mulheres (Carta n. 7, documento extraordinário do feminismo cristão); sobre a administração de monastérios; um hinário completo para o ano litúrgico; um ciclo de sermões; um comentário ao livro do Gênese; e um tratado sobre formação bíblica para mulheres (Carta n. 9), no qual Abelardo elogia Heloísa por seus (notáveis!) conhecimentos de hebraico e grego. 

Fossem quais fossem seus pensamentos privados, a abadessa que encomendou esses escritos tem de ser sido parceira formidável, energética, intelectualmente capaz. Mas essa colaboração não prova que ela não tivesse escrito as primeiras cartas de paixão, sobre as quais repousa praticamente, justa ou não, toda a fama de Heloísa.

Em 1999, a poeira levantada pelo Primeiro Debate sobre a Autenticidade já começara a baixar, e muitos especialistas já concediam que, sim, Heloísa escrevera as cartas que levam seu nome. Mas exatamente naquele ano, Constant Mews, medievalista em Melbourne, pôs fogo à fogueira do Segundo Debate sobre a Autenticidade: publicou um livro que levava o título ousado e provocador de The Lost Love Letters of Heloise  and Abelard [As cartas de amor perdidas de Heloísa e Abelardo]. 

Os dois amantes falam, nas cartas canônicas, sobre cartas anteriores, que haviam trocado “muitas e rápidas” enquanto durou o relacionamento amoroso. Em 1974, Ewald Könsgen publicou uma recém descoberta coleção de cartas medievais em latim, sugerindo, cautelosamente que podiam as cartas perdidas. 

O trabalho de Mews foi mais consistente e mais bem argumentado que o de Könsgen. Mas essas “cartas de amor perdidas”, diferentes das cartas canônicas, eram fragmentadas e sem qualquer assinatura; e chegaram até nós num único manuscrito datado de 1471. 

Procurando reunir uma coletânea de estilo eloquente em língua latina, um copista humanista em Clairvaux pôs-se a copiar partes de um manuscrito muito antigo. Enquanto copiava, o copista foi-se deixando envolver cada vez mais no caso dos amantes sem nome, e, meio sem perceber, passou a copiar não trechos, mas cartas inteiras. 

A linguagem das cartas é claramente do início do século 12; o cenário é Paris. As cartas narram relacionamento real, o idealismo romântico temperado por brigas e desilusões inevitáveis. A mulher elogia o amante como um grande professor, “ante o qual a teimosia nativa francesa se curva, e que a arrogância do mundo todo é obrigada a aplaudir”. A parte da “teimosia nativa francesa” só faz sentido se o professor não for francês; Abelardo era nascido na Bretagne, que não era parte da França medieval. O professor, por sua vez, fala da bem-amada como “a única aluna de filosofia que há entre todas as moças de nossa era”. 

Heloísa? Abelardo? David Luscombe, nessa nova edição magistral das cartas canônicas, mostra-se fortemente inclinado a dizer que não. Todos os professores, naquele tempo, escreve ele, trocavam cartas em que flertavam com alunas; era recurso pedagógico aceito para ensinar retórica em latim. E o tom daquela troca de correspondência variava entre comentários jocosos-adolescentes e cortesias “de salão” – uma paixão de aluna por professor, enfeitada com rostinhos inocentes corados. Aquelas adolescentes e jovens mulheres viviam em conventos; o que não acontece com a mulher das Cartas de Amor Perdidas; e, enquanto flertam e coram, só fazem repetir que são castas e virgens; nada aparece nas cartas típicas do período e do gênero, que se possa ver como declarada paixão erótica. 

O compromisso da mulher anônima das Cartas de Amor Perdidas é muito diferente e muito mais profundo e mais sério: “em toda a latinidade, não encontrei palavra que diga plenamente o quanto minha mente se aplica a você, deus é minha testemunha, amo você com um amor sublime e excepcional. Assim não há nem haverá destino que me possa separar do seu amor, exceto, só, a morte”. A retórica dessas cartas nada tem de convencional, como alguns se apressaram a dizer que teriam. O estilo é exuberante, as cartas são obcecadas com capturar a essência filosófica do amor. Definir o amor foi preocupação de toda aquela era; trovadores e monges lutavam entre eles para dissecar os traços e humores do que chamavam caritas (caridade) e fin’amors (amor refinado).

Para o filósofo das Cartas de Amor Perdidas, o amor é “um certo poder da alma, nem existente por ele mesmo, nem autocontido, mas sempre extravasado sobre outro, com um tipo de apetite e desejo, querendo tornar-se um com o outro, de tal modo que, de dois diferentes desejos, produza-se uma só coisa indiferenciada”. A frase soa como definição que Abelardo poderia ter redigido. O próprio termo “indiferenciada” (lat. indifferenter) é muito frequente na solução que Abelardo propôs ao problema dos universais, que teve forte influência nas melhores cabeças do início do século 12 francês. 

As paixões sempre giram em torvelinho em torno de Heloísa. Antes de Abelardo tê-la conhecido pessoalmente, ele já conhecia a reputação dela: “não era nada menos, na aparência; mas na abundância do seus saberes, ela era suprema”. Ele a descreve, quando ela estava nos seus primeiros 20 anos, como “famosa em todo o reino”. E há outros testemunhos. Educada pelas freiras de Argenteuil – professoras prodigiosas, ao que se sabe – Heloísa tornou-se uma das mais supremas estilistas da Idade de Ouro do Latim medieval. 

Um correspondente, Hugh Métel, é mais específico: seus melhores dotes eram para “a composição, para escrever poesia, para criar neologias e para usar palavras conhecidas dando-lhes novas significações”. Tão grande era seu talento literário, que ela “ultrapassava a suavidade feminina e esgrimia a dureza mais viril” (elogio padrão dirigido a mulheres, em tempos de misoginia brutal). 

À luz dos elogios de Métel, é fascinante descobrir que As Cartas de Amor Perdidas, ou, pelo menos, as cartas da mulher, são ricas em neologias e palavras raras, além de palavras familiares, usadas de modos nada familiares; e as cartas mostram a mais decidida, a mais valente mistura de poesia e prosa. Abelardo confessou que escolhera Heloísa para sua cama, principalmente porque antevira o prazer de trocarem cartas, “nas quais podemos escrever muitas coisas mais clara e firmemente do que poderíamos dizê-las”. Coisas, talvez, como o arrebatado vocativo que abre As Cartas de Amor Perdidas: “Ao bem amado do coração dela, mais cheiroso que todas as especiarias. Dela, que está no coração e no corpo dele: quando o viço da tua juventude fanar, para que revisites o frescor desse êxtase eterno”. 

Apesar de todo o sucesso dela como abadessa, Heloísa foi inegavelmente rebelde. Ela e Abelardo partilharam o que os filósofos chamam de “a pura ética da intenção”: não são as consequências reais, sequer as consequências previsíveis de um ato, que o fazem bom ou mau, mas, exclusivamente, a intenção do agente. Dado porém que só Deus pode conhecer e discernir intenções, essa posição complica muito qualquer tentativa de construir julgamentos morais. 

Outros pensadores adotaram versões mitigadas da premissa, mas Heloísa foi absolutamente rígida ao aplicá-la, sem nenhuma concessão. Por causa disso, via como absolutamente sem valor, aos olhos de Deus, a sua própria vida de religiosa exemplar: porque fizera tudo por amor a Abelardo, não por amor a Deus. Por outro lado, considerava seu caso de amor moralmente inatacável, porque amara Abelardo puramente por ele mesmo, sem qualquer consideração ou expectativa de vantagem material. Estilista brilhantíssima até a medula, ainda faz arrepiar a pele do leitor, pelo modo erótico-hiperbólico como constrói sua frase-gozo: “Se Augusto, imperador do mundo, houvesse por bem me honrar com o casamento e me conferisse toda a Terra, para que eu a possuísse para sempre, melhor me pareceria, e mais honrado, ser conhecida, não como imperatriz dele, mas como puta tua”. Nada de “amante” nem de “namorada”: puta – Heloísa servia-se das palavras mais amaldiçoadas que encontrava no latim (meretrix, scortum), para argumentar. Escreveu com todas as letras que a mais real das prostituições é o casamento, se as mulheres casam-se mais pelas propriedades e pelo dinheiro, que por amor. São sentimentos que teriam sido radicais no século 18. Imaginem no século 12! 

Considerando-se o quanto Heloísa empenhou-se para provar que vivia como pensava, é difícil não pensar sobre que futuro veria para si mesma quando, grávida, tentou dissuadir Abelardo da ideia de casamento. Profissões femininas nos idos do ano de 1115 não abundavam: esposa, freira e prostituta; as opções eram essas. Teriam de transcorrer 300 anos, até que Christine de Pizan converteu-se na primeira mulher que se sustentou e viveu de escrever. Mas há, sim, uma pequena pista, um pequeno sinal intrigante, de que, sim, Heloísa considerava já essa possibilidade como futuro para ela mesma.

Em A História das Calamidades Dele, Abelardo reproduz, com detalhes, a diatribe de Heloísa contra o casamento, presumivelmente discurso copiado diretamente de uma das cartas perdidas. Autores clássicos aprimoraram o gênero do discurso antimatrimonial, uma dissuasio carregada de argumentos machistas para provar que o filósofo em nenhum caso deveria casar-se. 

Heloísa escolheu a mesma lógica, para argumentar com o amante, contra o casamento; cita a imagem de São Jerônimo, nada agradável, da vida familiar, com apenas uma pequena modificação: “Que homem, curvado sobre pensamentos sacros ou filosóficos, poderá suportar o choro de crianças, as canções de ninar das criadas tentando acalmá-los, a barulheira de criados, homens e mulheres, naquele ir-e-vir pela casa? E que mulher suportará a eterna sujeira e o constante fedor dos bebês?”.

São Jerônimo escreveu duas vezes “que homem” (“quisquis?”). Heloísa discretamente mudou o segundo “quis” [lat. “quem”, interrogativo, masculino] por “que” [lat. Interrogativo, feminino]: “Que mulher?” Para resumir: vemos aí uma mulher ilustradíssima, de alta formação religiosa, no início do século 12, que absoluta e sinceramente não entende que alguém espere que ela deva ser obrigada a suportar a sujeira e o fedor dos bebês. É ideia que incomoda até nossas mentes dos séculos 20 e 21. 

Betty Radice, em sua tradução clássica de 1974 (reproduzida nessa edição de Luscombe, com pequenas revisões), simplesmente não viu esse “Que mulher?”, nesse ponto da carta, e traduziu os pronomes, nas duas frases, como “Quem...?”/”Quem...?”. Mais difícil de explicar e justificar, Luscombe suprimiu, de vez, todo o pronome interrogativo latino feminino “que”, já no texto em latim. 

Confrontado com uma diversidade de leituras de manuscritos, os editores guiam-se por vários princípios. Os manuscritos mais antigos são em geral preferidos aos mais recentes, e uma leitura consensual encontrada várias vezes ganha prioridade sobre uma ou duas variantes conhecidas – a menos que haja razão de peso para deixar de lado essas regras. Uma dessas razões pode ser uma difficilior lectio [3]. Quando se deparavam com anomalias nos textos que copiavam, os escribas antigos e medievais não raras vezes “corrigiam” algo que lhes parecesse inesperado ou inusual, para produzir texto convencional; essa “correção” é muito mais frequente que a que se faça na direção contrária (dar a texto “comum”, leitura “incomum”). Por isso, uma antiga regra editorial decreta que, quando duas leituras competem, a mais difícil é a que tem mais probabilidade de ser autêntica.

No caso do “que” [latim, pronome interrogativo feminino, “que mulher?”) de Heloísa, contudo, Luscombe viola todas as três regras. A “leitura mais dura” é “que mulher?” – que se encontra nos oito manuscritos mais antigos do texto de Abelardo. Por sua vez, o mais previsível “quis” (“que homem?”) só ocorre em dois dos manuscritos mais antigos e numa antiga edição impressa. Ainda assim, Luscombe imprime “que homem?” [lat. “quis”] depois da passagem de São Jerônimo e relega “que mulher?” às notas de pé de página. E, com essa operação, a Heloísa contrafatual – a que teria sido intelectual independente, rebelde, anticasamento, exultante na paixão livre – desaparece de vista, antes mesmo de que a tenhamos conseguido ver.

Mas Jean de Meun, que escreveu nos anos 1260s, sim, percebeu bem que ali havia o que ver: para o seu Romance da Rosa, ele interpretou corretamente a diatribe de Heloísa. Heloísa rejeitou o casamento, escreveu Meun, “para que [Abelardo] pudesse dedicar-se integralmente ao estudo, / Todo dela, todo livre, sem se amarrar a nada, / E para que ela também pudesse retomar seus estudos, / Porque ela muito queria saber”. 

Heloísa, em resumo, pensou o impensável e tentou viver conforme sua convicção.

Todas as discussões à parte, a edição bilíngue de Luscombe e importante realização que, pela primeira vez, permite que o leitor [de inglês] compare todos os manuscritos existentes e leia as cartas canônicas do começo ao fim, incluindo o texto integral das regras que Abelardo escreveu sobre como dirigir uma abadia – e que a Abadessa Heloísa, apesar do muito que se dizia obediente e apaixonada, jamais obedeceu com rigor. Depois de 900 anos, essa mulher espantosa ainda nos aparece cheia de surpresas. 

O Segundo Debate da Autenticidade está longe de acabar, e depois que a poeira baixar também sobre ele (porque fatalmente baixará), talvez precisemos de edição ainda mais longa, que retrace o relacionamento do casal, desde os primeiros momentos do nascimento da paixão, através da separação e da tragédia, até o re-encontro e o re-compromisso, numa parceira intelectual e espiritual tão excepcional quanto o amor deles.



Notas dos tradutores

[1] Romance da Rosa. Porto: Porto Editora, 2003-2014.

[2] Ver: Historia Calamitatum (em inglês)


[3] Lat. lectio difficilior (trad. “leitura mais dura”). Na reconstrução de textos (da Bíblia, por exemplo), a ideia segundo a qual, de duas leituras alternativas de texto manuscrito, a que imponha significado menos óbvio é a que tem menos probabilidade de ser alteração introduzida por copista; por isso, deve ter precedência.
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[*] Barbara Newman é professora de Inglês, Religião e Clássicos da Universidade Northwestern. Seu mais recente livro é Medieval Crossover: Reading the Secular against the Sacred (2013). Conhecida por seu trabalho sobre a cultura religiosa medieval, poesia alegórica, e da espiritualidade das mulheres. Ela também é o editora / tradutora de Tomás de Cantimpré: Thomas of Cantimpré: The Collected Saints' Lives '(2008), e autora de Frauenlob's Song of Songs: A Medieval German Poet and His Masterpiece (2006), God and the Goddesses: Vision, Poetry, e  Belief in the Middle Ages (2003), e From Virile Woman to WomanChrist: Studies in Medieval Religion and Literature (1995), bem como três obras sobre Hildegard de Bingen: um volume editado, Voice of the Living Light: Hildegard of Bingen and Her World (1998); uma edição e tradução de músicas coletadas de Hildegard, Symphonia Armonie Celestium Revelationum (1988, rev 1998.) e Sister of Wisdom: St. Hildegard's Theology of the Feminine (1987). 

Nova Análise: Eleições antecipadas no Egito “podem aliviar pressão estrangeira”

27/1/2014, [*] Mahmoud Fouly, Xinhuanet, China
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Karl Marx explica, no seu celebrado 18 brumário de Luis Bonaparte [1], que as experiências de 1848-51 comprovaram-se muito valiosas para a bem-sucedida revolução de trabalhadores de 1871. E o Egito? Terá interlúdio de 20 anos, antes que volte a revolução real? Ou pode acontecer muito antes? Perguntem à Esfinge (...). Quando se trata de anatomia de revoluções, ninguém provavelmente sabe mais que Moscou e Pequim. E ambas estão apoiando robustamente a antecipação de eleições presidenciais no Egito (o que implica que estão, hoje, com o general Sisi e o que ele representa). (MK Bhadrakumar, Arab Spring speaks through graffiti -9/1/2014, Indian Punchline)

Adly Mansour
CAIRO, 26/1/2014 (Xinhua) – A decisão do presidente interino do Egito, Adly Mansour, anunciada domingo, de realizar eleições presidenciais antes das eleições parlamentares, “pode aliviar pressões estrangeiras” contra o Egito relacionadas ao mapa do caminho do atual governo apoiado pelos militares, dizem alguns especialistas em segurança.

Dr. Gamal Salama
Nações estrangeiras estão encarando o Egito como estado “acéfalo”, porque tem presidente provisório e governo de transição; nesse contexto, a decisão sobre antecipar eleições dará ao Egito mais peso e mais credibilidade nas relações com a comunidade internacional - disse Gamal Salama, diretor do Departamento de Ciência Política na Universidade de Suez.

Salama observou que a decisão aliviará pressões de estrangeiros sobre o Egito, na implementação de seu mapa do caminho para o futuro, depois da derrubada do presidente islamista, Mohamed Mursi, por golpe militar, em julho de 2013.

O presidente interino assinou também no domingo um decreto presidencial, baseado na Constituição recentemente aprovada, no qual ordena que a comissão eleitoral comece, no prazo de 90 dias, os procedimentos para a eleição.

Eleições presidenciais antes das eleições parlamentares podem acelerar o processo de cristalizar uma personalidade egípcia, no relacionamento com outros países – disse Salama em entrevista à rede Xinhua.

Imagem aérea mostra vista geral da manifestação pelo terceiro aniversário da revolta que derrubou o autocrata Hosni Mubarak na praça Tahrir, no Cairo comício pró-militar. 49 pessoas foram mortas, 247 feridos, 1.079 presos em 25 de janeiro 2014 (Foto: AP)
A decisão também teve efeito interno positivo, segundo o especialista; para ele

(...) a mentalidade egípcia tende a acreditar no poder do presidente, mais que em qualquer outra autoridade.

A decisão de antecipar as eleições presidenciais e o decreto foram noticiados um dia depois que egípcios pró-militares organizaram manifestações de massa para comemorar o 3º aniversário do levante popular que derrubou o governo do ex-presidente Hosni Mubarak.

Durante as celebrações do sábado (25/1/2014), houve confrontos em todo o país, entre manifestantes antigoverno, tanto islamistas como secularistas, e forças de segurança, que dispersaram várias passeatas e tentativas de organizar bloqueios à passagem de pessoas e veículos [orig. sit-ins], deixando 49 mortos e cerca de 250 feridos. No sábado, a polícia também prendeu mais de 1.000 suspeitos de apoiar Mursi e manifestantes de grupos de esquerda acusados de incitar tumultos e violência.

Um enorme buraco em frente à sede da polícia egípcia depois que uma bomba explodiu - Cairo, 24 de janeiro de 2014. Uma série de quatro explosões atingiu Grande Cairo, no mesmo dia, matando pelo menos seis pessoas e ferindo dezenas de outras pessoas (Foto: Mai Shaheen)
Na 6ª-feira (24/1/2014) e no domingo (26/1/2014), houve atentados terroristas contra prédios e pessoal da polícia, inclusive várias explosões, na capital, Cairo, em Suez e no Sinai, que mataram pelo menos 20 pessoas e feriram cerca de 120.

Yousri al-Azabawi, pesquisador do Al-Ahram Center for Political and Strategic Studies, concorda com Salama, e também entende que modificações no mapa do caminho no que se refere à ordem das eleições podem, sim, “aliviar as pressões estrangeiras sobre o Egito”.

A decisão também pode reduzir o tamanho do financiamento para a Fraternidade Muçulmana de Mursi, já declarada organização terrorista - disse Azabawi em entrevista à rede Xinhua.

Enfrentamento entre partidários do Governo e da Fraternidade Muçulmana em 22/1/2014
Para Azabawi, a realização de eleições livres e justas para eleger um presidente dará ao eleito e às forças de segurança “chance real no enfrentamento contra o terrorismo e para adotar procedimentos mais efetivos apoiados pela população egípcia”.

Mas Azabawi entende que fazer eleições presidenciais antes das eleições parlamentares “dificilmente afetará a Fraternidade Muçulmana ou fará diminuir os protestos antigoverno que organizam regularmente”. Para ele, “muitos ainda acreditam na possibilidade de reconduzir Mursi à presidência”.

Abdel-Fattah al-Sisi
Eleger um novo presidente enviará mensagem forte à comunidade internacional, de que o Egito está, sim, implementando seu mapa do caminho pós-Mursi, com vistas a construir um estado forte, civil e democrático – disse à rede Xinhua o general Mohamed Okasha, especialista em segurança.

Sobre a popularidade entre os egípcios do chefe militar e Ministro da Defesa, general Abdel-Fattah al-Sisi, e rumores de que se candidará à eleição presidencial, Okasha disse que “as urnas terão a palavra final”.

Sobre isso, ver também:
O Egito realizará eleições presidenciais antes das eleições parlamentares – disse o presidente interino do Egito, Adly Mansour, em discurso transmitido pela televisão, no domingo [26/1/2014, Xinhua.net, China, em inglês]



Nota dos tradutores
[1] MARX, Karl [1851-1852]. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. Prefácio: Friedrich Engels. São Paulo: Boitempo, 2011, 176 pp. Trad. Nélio Schneider, ISBN: 978-85-7559-171-0. Ou online na Edições Avante (2ª Edição – Abril de 1984) Trad. de José Barata-Moura e Eduardo Chitas.
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[*] Mahmoud Fouly é correspondente do Xinhuanet no Egito