quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Espetáculo em Kiev − A Revolução Marrom na Ucrânia

24/2/2014, [*] Israel ShamirCounterpunch
Traduzido por João Aroldo

Kiev "by night"- Opera House
Eu sou um grande fã de Kiev, uma cidade afável de caráter burguês agradável, com seus abundantes pequenos restaurantes, ruas arborizadas limpas e bonomia dos seus beer gardens. Cem anos atrás, Kiev era predominantemente um resort russo, e algumas áreas centrais mantiveram este sabor. Agora Kiev é patrulhada por bandidos armados da Ucrânia Ocidental, por combatentes do Setor Direita (Pravy Sektor) neonazista, descendentes de Stepan Bandera, soldados traidores ucranianos e por seus camaradas-em-armas locais de caráter nacionalista.

Membro da ABWEHR alemã Stepan Bandera (centro) com uniforme alemão, com a
patente de Tenente-Comandante, a ordem alemã da "Cruz de Mérito de 2ª classe com
espadas ". Essa ordem alemã era concedida àqueles que exibiam bravura pessoal, sem participar diretamente das hostilidades.
Após um mês de confronto, o presidente Viktor Yanukovitch cedeu, assinou a rendição preparada pela UE − e escapou da dura justiça revolucionária por um triz.

Os deputados do partido governista [Partido das Regiões] foram surrados e dispersos, os comunistas quase linchados, a oposição tem o parlamento só para eles, e nomeou novos ministros e tomou conta da Ucrânia. A Revolução Marrom ganhou na Ucrânia. Este grande país do leste europeu de cinquenta milhões de habitantes seguiu o caminho da Líbia.

Os EUA e a UE venceram nesta rodada, e empurraram a Rússia de volta para o leste, exatamente como eles pretendiam.

Resta saber se os bandidos neonazistas que venceram a batalha vão concordar em entregar os doces frutos da vitória para os políticos, que são, Deus sabe, desagradáveis o suficiente. E mais importante, resta saber se as parte leste e sudeste onde se fala russo vão aceitar o domínio Marrom de Kiev, ou vão se separar e seguir seu próprio caminho, como o povo de Israel (segundo a Bíblia) após morte do rei Salomão se rebelou contra o seu herdeiro, dizendo “para as suas tendas, ó Israel!” e proclamou a independência do seu feudo (I Reis 12:16).

Enquanto isso, parece que o desejo da parte leste de preservar a integridade do Estado ucraniano é mais forte do que sua antipatia pelos Marrons vitoriosos. Apesar de terem reunido os seus representantes para o que poderia ser uma declaração de independência, eles não se atrevem a reivindicar o poder. Essas pessoas pacíficas têm pouca resistência para conflitos.

O seu grande vizinho, a Rússia, não parece abertamente preocupada com esse desenvolvimento ameaçador. Ambas as agências de notícias russas, TASS e RIA, nem sequer colocam as terríveis notícias ucranianas no topo, como a Reuters e BBC fazem: para eles, os Jogos Olímpicos e o biatlon eram de maior importância, como você pode ver nessas telas:


A seguir a imagem aumentada:



Esta atitude “avestruz” é bastante típica da mídia russa: sempre que eles se encontram em uma posição embaraçosa, eles escapam mostrando o balé “O Lago dos Cisnes” na TV. Isso é o que eles fizeram quando a União Soviética entrou em colapso em 1991. Desta vez foram as Olimpíadas, em vez do ballet.

A oposição anti Putin na Rússia aprovou entusiasticamente o golpe ucraniano.

Ontem Kiev, amanhã Moscou, cantavam. Maidan (a praça central de Kiev, o local das manifestações antigoverno) é igual a Bolótnaya (uma praça em Moscou, o local das manifestações antigoverno em dezembro de 2012) é outro slogan popular.

A maioria dos russos ficou irritada, mas não surpresa. A Rússia decidiu minimizar seu envolvimento na Ucrânia algumas semanas atrás como se quisessem demonstrar ao mundo sua não interferência. Seu comportamento beirou a imprudência.

Enquanto ministros do exterior de países da UE e seus aliados se reuniam em Kiev, Putin enviou Vladimir Lukin, um emissário de direitos humanos, um político mais velho de baixo escalão com muito pouca influência, para lidar com a crise ucraniana. O embaixador russo, Sr. Zurabov, outra não entidade, desapareceu completamente de vista. (Agora ele foi chamado de volta a Moscou).

Putin não fez nenhuma declaração pública sobre a Ucrânia, tratando-a como se fosse a Líbia ou o Mali, não um país vizinho tão perto do interior da Rússia.

Esta abordagem de não intervenção se poderia esperar: a Rússia não interferiu nas desastrosas eleições ucranianas de 2004, ou nas eleições georgianas que produziram os governos extremamente antirrussos.

A Rússia se envolve apenas se houver uma verdadeira batalha em campo, e um governo legítimo pede ajuda, como na Ossétia, em 2008, ou na Síria, em 2011. A Rússia apoia aqueles que lutam por sua causa, caso contrário, a Rússia, de maneira um pouco decepcionante, fica de lado.

O Ocidente não tem tais inibições, e seus representantes foram extremamente ativos: a representante do Departamento de Estado dos EUA, Victoria "Foda-UE'' Nuland passou dias e semanas em Kiev, dando biscoitos aos insurgentes, entregando milhões de dólares contrabandeados para eles, se encontrando com seus líderes, planejando e traçando o golpe. Kiev foi inundada com os mais novos dólares americanos que saíram da prensa (de um tipo nunca visto em Moscou, me contaram amigos russos).

Victoria Nuland
A embaixada dos EUA espalhou dinheiro ao redor como um texano embriagado em um night club. Cada jovem disposto a lutar recebeu quinhentos dólares por semana, um lutador qualificado - até mil, um comandante de pelotão, dois mil dólares - um bom dinheiro para os padrões ucranianos.

Dinheiro não é tudo. Pessoas também são necessárias para um golpe bem-sucedido. Não havia uma oposição a Yanukovitch, que ganhou eleições democráticas e, consequentemente, três partidos perderam eleições. Os defensores dos três partidos poderiam reunir um monte de gente para uma manifestação pacífica. Mas eles lutariam na hora da verdade? Provavelmente não. Idem para os recipientes de generosos subsídios dos EUA e da UE (Nuland estimou o valor total de investimento americano na “construção da democracia” em cinco bilhões de dólares). Eles poderiam ser chamados para irem à praça principal para uma manifestação. No entanto, os beneficiários das ONGs são pessoas tímidas, não é provável que arriscassem o seu bem-estar. E os EUA precisavam de melhores combatentes para remover o presidente democraticamente eleito do poder.

Os Ovos da Serpente

No oeste da Ucrânia, eclodiram os ovos da serpente: os filhos e netos de colaboradores nazistas que absorveram o ódio aos russos com seu leite materno.

Seus pais formaram uma rede sob Reinhard Gehlen, o chefe espião alemão. Em 1945, enquanto a Alemanha era derrotada, Gehlen jurou obediência aos EUA e entregou suas redes à CIA. Eles continuaram sua guerra de guerrilha contra os sovietes até 1956. Sua crueldade era legendária, porque eles tinham como objetivo aterrorizar a população até a total obediência. Notoriamente, eles estrangulavam ucranianos suspeitos de serem amigáveis aos russos com suas próprias mãos.

Reinhard Gehlen - General do Exército alemão - Chefe da Inteligência 
A confissão terrível de um participante fala de suas atividades em Volyn:

Uma noite, nós estrangulamos 84 homens. Nós estrangulamos adultos, já as crianças, segurávamos suas pernas, balançávamos e quebrávamos suas cabeças em um batente. Duas crianças bonitas..., Stepa e Olya, 12 e 14 anos de idade... nós retalhamos o mais jovem em duas partes, e não precisamos estrangular sua mãe Julia, ela morreu de ataque cardíaco, e assim por diante.

Mataram centenas de milhares de poloneses e judeus, mesmo o terrível massacre Baby Yar foi feito por eles, com a conivência alemã, um pouco semelhante a conivência de Israel nos massacres de Sabra e Chatila de palestinos pelos fascistas libaneses da Falange.

Os filhos desses “Stepan Bandera” assassinos foram criados para odiar o comunismo, os soviéticos e russos, e na adoração dos atos de seus pais. Eles formaram a ponta de lança dos rebeldes anti-governamentais pró-EUA na Ucrânia, o Pravy Sektor (Setor Direita) liderado pelo fascista descarado Dmytro Yarosh. 
Dmytro Yarosh

Eles estavam prontos para lutar, morrer e matar. Tais unidades atraem potenciais rebeldes de diferentes origens: seu porta-voz é um jovem russo que se tornou nacionalista ucraniano, Artem Skoropadsky, um jornalista do diário mainstream de propriedade de oligarcas, Kommersant-UA.

Há jovens russos similares que se juntam às redes salafistas e se tornam homens-bomba nas montanhas do Cáucaso - jovens cujo desejo de ação e sacrifício não poderiam ser satisfeitas na sociedade de consumo. Esta é uma al-Qaeda eslava - tropas reais de assalto neonazistas, um aliado natural dos EUA.

E eles não lutam apenas pela associação com a UE e contra aderir ao acordo com a Rússia. Seus inimigos são também os russos na Ucrânia, e ucranianos étnicos de língua russa. A diferença entre os dois é discutível. Antes da independência, em 1991, cerca de três quartos da população preferiu falar russo. Desde então, os sucessivos governos têm tentado forçar as pessoas a usar o ucraniano. Para os ucranianos neonazistas, quem fala russo é um inimigo. Você pode comparar isso com a Escócia, onde as pessoas falam inglês, e os nacionalistas gostariam de forçá-los a falar a língua de Robert Burns.

Atrás da ponta de lança do Setor Direita, com seus lutadores anticomunistas e antirrussos fervorosos, há uma organização maior: a neonazista Liberdade (Svoboda), de Tyagnibok. Alguns anos atrás, Tyagnibok chamava para uma luta contra os russos e judeus, agora ele tornou-se mais cauteloso em relação aos judeus.  Ele ainda é tão antirrusso como John Foster Dulles. Tyagnibok foi tolerado, ou mesmo encorajada por Yanukovitch, que queria tomar uma página do livro do presidente francês, Jacques Chirac. Chirac venceu o segundo turno das eleições contra o nacionalista Le Pen, enquanto, provavelmente, teria perdido contra qualquer outro adversário. Do mesmo modo, Yanukovitch desejou Tyagnibok para tornar-se o seu adversário a ser derrotado no segundo turno das eleições presidenciais.

Os partidos parlamentares (o maior deles é o partido de Yulia Timoshenko, com 25% dos assentos, o menor, o partido de Klitschko, o boxeador, com 15%) apoiariam a turbulência como uma forma de ganhar o poder que perderam nas eleições.

Vitali Klitschko e John McCain em Kiev

União dos nacionalistas e liberais

Assim, uma união de nacionalistas e liberais foi formada. Esta união é a marca registrada de uma nova política dos EUA na Europa Oriental. Ela foi testada na Rússia, há dois anos, onde os inimigos de Putin são compostos por estas duas forças, liberais pró-ocidentais e seus novos aliados, os nacionalistas étnicos russos, neonazistas suaves e os mais radicais.

Os liberais não vão lutar, eles são impopulares com as massas, que incluem um percentual acima da média dos judeus, gays, milionários e colunistas liberais; os nacionalistas podem incitar as grandes massas quase tão bem quanto os bolcheviques, e vão lutar. Este é o coquetel anti Putin preferido pelos EUA.

Essa aliança, na verdade, levou mais de 20% dos votos nas eleições da cidade de Moscou, depois de sua tentativa de tomar o poder por golpe foi rechaçada por Putin. A Ucrânia é sua segunda ação conjunta, bem-sucedida.

Tenham em mente: os liberais não precisam apoiar a democracia. Eles fazem isso somente se eles estão souberem que a democracia vai proporcionar o que eles querem. Caso contrário, eles podem unir forças com a al Qaeda, como agora na Síria, com os extremistas islâmicos, como na Líbia, com o Exército, como no Egito, ou com neonazistas, como agora na Rússia e na Ucrânia.

Historicamente, a aliança liberal-nazista não funcionou, porque os velhos nazistas eram inimigos dos banqueiros e do capital financeiro, e, portanto, antissemitas.

Este obstáculo poderia ser evitado: Mussolini foi amigável com judeus e tinha alguns ministros judeus em seu governo, ele contestou a atitude antissemita de Hitler dizendo que “os judeus são úteis e amigáveis”. Hitler respondeu que se ele permitisse isso, milhares de judeus iriam entrar para seu partido. Hoje em dia, este problema desapareceu: os neonazistas modernos são amigáveis com os judeus, os banqueiros e os gays.

O assassino norueguês Breivik é uma amostra exemplar de um neonazista simpático aos judeus. Assim são os ucranianos e russos neonazistas.

Enquanto os bandidos originais de Bandera matavam todos os judeus (e poloneses) que cruzavam seu caminho, seus herdeiros modernos recebem algum apoio judeu valioso.

Os oligarcas de origem judia (Kolomoysky, Pinchuk e Poroshenko) os financiam, enquanto um proeminente líder judeu, presidente da Associação das Organizações Judaicas e Comunidades da Ucrânia, Josef Zissels, apoiou-os e os justificou.

Há muitos apoiadores de Stepan Bandera em Israel, pois eles geralmente afirmam que Bandera não era um antissemita, porque ele tinha um médico judeu (assim como Hitler). Os judeus não se importam com nazistas que não os incomodem.

Os russos neonazistas atacam trabalhadores imigrantes tadjiques, e os ucranianos neonazistas atacam os falantes de russo.

Revolução: Esboço

A revolução pode ser descrita em poucas linhas: Yanukovitch não foi um presidente tão ruim, prudente, mas fraco. Ainda assim, a Ucrânia chegou à beira do abismo financeiro. (Você pode ler mais sobre isso no meu artigo anterior). Ele tentou salvar a situação, aliando-se à UE, mas a UE não tinha dinheiro de sobra. Em seguida, ele tentou fazer um acordo com a Rússia, e Putin ofereceu-lhe uma saída, sem sequer exigir dele que a Ucrânia se juntasse ao grupo liderado pela Rússia. Isto provocou a resposta violenta da UE e dos EUA, já que estavam preocupados que isso iria fortalecer a Rússia.

Yanuk, como as pessoas o chamam, tinha poucos amigos. Oligarcas poderosos ucranianos não ficaram impressionados por ele. Além das razões de costume, eles não gostavam dos hábitos predatórios do filho de Yanuk, que rouba as empresas dos outros. Aqui eles podem ter razão, porque o líder da Bielorrússia, o valente Lukashenko, disse que as formas não ortodoxas de aquisição de empresas do filho de Yanuk causaram desastre.

O eleitorado de Yanuk, as pessoas falantes de russo da Ucrânia (e eles são a maioria no país, como os escoceses que falam inglês são maioria na Escócia) ficaram desapontados com ele porque ele não lhes deu o direito de falar e educar seus filhos em russo.

Yulia Timoshenko
Os seguidores de Yulia Timoshenko não gostavam dele porque ele prendeu sua líder (ela mereceu: contratou assassinos, roubou bilhões de dinheiro do Estado ucraniano em conluio com um ex-primeiro-ministro, fez um acordo escuso com a Gazprom às custas dos consumidores ucranianos, entre outras coisas).

Os nacionalistas radicais o odiavam por ele não erradicar o idioma russo. O ataque ao presidente eleito orquestrado pelos EUA seguiu as instruções de Gene Sharp para um golpe, a saber:

(1) tomar uma praça central e organizar uma manifestação pacífica,
(2) falar sem parar do perigo da dispersão violenta,
(3) se as autoridades não fizerem nada, provocar derramamento de sangue,
(4) acusar assassinato,
(5) a autoridade fica horrorizada e estupefata e
(6) é removida e
(7) novos poderes assumem.

O elemento mais importante do sistema nunca foi expressado pelo astuto Sharp, e é por isso que o movimento Occupy Wall Street (que folheou o livro) não conseguiu alcançar o resultado desejado. Você tem que ter os Mestres do Discurso™, isto é, a mídia ocidental, do seu lado. Caso contrário, o governo vai esmagar você como fizeram com o Occupy e muitos outros movimentos similares. Mas aqui, a mídia ocidental ficou totalmente do lado dos rebeldes, porque os eventos foram organizados pela embaixada dos EUA.

No início, eles reuniam algumas pessoas conhecidas para uma manifestação pacífica na Praça da Independência (ou “Praça Maidan”): beneficiários de subvenções da USAID através da rede de ONGs, escreveu um especialista ucraniano, Andrey Vajra, redes de oligarca fugitivo Khoroshkovski, neonazis do Setor Direita e radicais de causa comum.

A reunião pacífica foi ricamente entretida por artistas, alimentos e bebidas foram servidos gratuitamente, sexo livre foi encorajado − era um carnaval no centro da capital, e começou a atrair as massas, como aconteceria em todas as cidades do universo conhecido. Este carnaval foi pago pelos oligarcas e pela embaixada dos EUA.

Sergey Levochkin
Mas o carnaval não poderia durar para sempre. De acordo com (2), rumores de dispersão violenta foram espalhados. As pessoas ficaram com medo e se afastaram. Apenas uma pequena multidão de ativistas permaneceu na praça. Provocação de acordo com (3) foi fornecida por um agente ocidental dentro da administração, o Sr. Sergey Levochkin. Ele escreveu sua carta de demissão, a enviou e ordenou à polícia dispersar violentamente a manifestação. A polícia chegou e dispersou os ativistas. Ninguém foi morto, ninguém ficou gravemente ferido – hoje, depois de cem mortos, é ridículo sequer mencionar essa surra – mas a oposição acusou que houve mortes na época.

A mídia mundial, essa poderosa ferramenta nas mãos dos Mestres do Discurso, denunciou “Yanukovitch massacrador de crianças”.

A UE e os EUA ameaçaram sanções, diplomatas estrangeiros vieram, todos alegando que queriam proteger os manifestantes pacíficos, enquanto, ao mesmo tempo melhorar a multidão de Maidan com homens armados e combatentes do Setor Direita.

Nós citamos Gene Sharp, mas a Maidan teve uma influência adicional, o de Guy Debord e seu conceito de Sociedade do Espetáculo.

Não era uma coisa real, mas um faz-de-conta muito bem-feito, como foi o seu antecessor, o golpe de Moscou de agosto de 1991. Yanukovitch fez de tudo para formar a resistência Maidan: ele enviava a polícia de choque para dispersar a multidão, e depois que eles faziam apenas metade do trabalho, ele os chamava de volta, e ele fez isso todos os dias. Após esse tratamento, mesmo um cão muito tranquilo mordia.

A qualidade irreal de espetáculo dos eventos de Kiev foi enfatizada pela chegada do belicista imperial, o filósofo neo-com, Bérnard-Henri Levy. Ele foi a Maidan como foi à Líbia e à Bósnia, reivindicando direitos humanos e ameaçando sanções e bombardeios. Sempre que ele aparece, a guerra está por vir. Espero estar longe de todos os países que ele pretenda visitar.

Bernard-Henri "Lévyshenko"
As primeiras vítimas da Revolução Marrom foram os monumentos - os de Lenin, porque eles odeiam o comunismo em todas as formas, e os da IIª Guerra Mundial, porque os revolucionários se solidarizam com o lado derrotado, os nazistas alemães.

A história nos dirá até que ponto Yanukovich e seus assessores entenderam o que eles estavam fazendo. De qualquer forma, ele incentivou o fogo de Maidan por seus ataques ineficientes por uma força policial desarmada. Os neonazistas de Maidan usaram snipers (franco-atiradores) contra a força policial, dezenas de pessoas foram mortas, mas o presidente Obama mandou Yanukovich desistir, e ele desistiu.

Após novo tiroteio, ele enviava a polícia novamente. Um diplomata UE ameaçava com o tribunal de Haia, e ele chamava sua polícia de volta. Nenhum governo pode funcionar em tais circunstâncias.

Eventualmente, ele caiu, assinou na linha pontilhada e partiu para destino desconhecido.

Os rebeldes tomaram o poder, proibiram o idioma russo e começaram a saquear Kiev e Lvov. Agora, a vida das pessoas tranquilas de Kiev foi transformada em um verdadeiro inferno: assaltos diários, espancamentos, assassinatos.

Os vencedores estão preparando uma operação militar contra as áreas de língua russa no sudeste da Ucrânia. O espetáculo da revolução ainda pode ficar realmente sangrento.

Alguns ucranianos esperam que Yulia Timoshenko, recém-libertada da prisão, será capaz de controlar os rebeldes. Outros esperam que o presidente Putin vá prestar atenção aos eventos da Ucrânia, agora que seus Jogos Olímpicos, felizmente, terminaram.

O espetáculo não acabou até que a gorda senhora (ref. à Russia) cante, mas ela vai cantar – sua canção será vista e ouvida.
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[*] Israel Shamir é um escritor, colunista da e jornalista antissionista. De origem russa, ele nasceu em Novosibirsk, na Sibéria, e emigrou para Israel em 1969. Lá, trabalhou como jornalista e tradutor. Seus artigos sobre a ocupação da Terra Santa pelo sionismo estão reunidos no sítio eletrônico e em três livros: Galilee Flowers, Cabbala of  Power e Masters of  Discourse, também disponíveis em francês, espanhol, italiano, alemão e russo. Em 2004, ele abraçou a fé cristã ortodoxa, sendo batizado na Igreja Ortodoxa de Jerusalém e Terra Santa pelo arcebispo Theodosius Attalla Hanna.  Shamir. Vive atualmente em Jaffa e viaja frequentemente a Moscou e Estocolmo.


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

EUA declararam guerra à democracia

Puro fascismo!

26/2/2014, [*] Kevin Barrett, Press TV, Irã
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Thomas Woodrow Wilson  (1856 - 1924) 
Desde os dias do presidente Woodrow Wilson – quer dizer, por quase 100 anos – os EUA têm estado empenhados numa cruzada à sua própria moda, para “tornar o mundo seguro para a democracia”.

Guerras colossais, quentes e frias, combatidas contra kaisers e fuhrers alemães, contra comunistas russos e contra nacionalistas no Terceiro Mundo. E em todos os casos o povo norte-americano ouviu que estariam “defendendo a democracia”.

Os norte-americanos massacraram 3,5 milhões de vietnamitas, e quase mais outro milhão de cambojanos, para “defender a democracia” no sudeste da Ásia.

Assassinaram milhões de iraquianos com guerras e sanções para “defender a democracia” no Oriente Médio.

André Vltchek
Segundo Andre Vltchek e Noam Chomsky em seu livro On Western Terrorism, [1] o governo dos EUA já assassinou algo entre 55 e 60 milhões de pessoas desde o fim da IIª Guerra Mundial, em guerras e intervenções por todo o mundo. Se se acredita no que dizem os propagandistas do império, esse holocausto promovido pelos norte-americanos teria sido grande defesa da democracia.

Mas o que se vê hoje, às vésperas da a Iª Guerra Mundial completar o 100º aniversário, é que os EUA já embarcaram em nova cruzada – dessa vez para tornar o mundo ainda mais INSEGURO para a democracia.

Na Ucrânia, na Venezuela e na Tailândia, os EUA estão gastando bilhões de dólares para derrubar – inconstitucionalissimamente – governos democraticamente eleitos. 

Na Palestina, os EUA estão tentando derrubar o governo democraticamente eleito do Hamás desde o dia em que chegou ao poder. 

No Egito, os EUA – por pressão dos sionistas – derrubou recentemente o único governo jamais eleito democraticamente no país, em 5 mil anos de história documentada. 

Noam Chomsky
Na Síria, os EUA insistem que o povo sírio não teve a oportunidade e os meios democráticos para reeleger democraticamente Assad, e não importa quantos observadores internacionais estejam presentes para comprovar que as eleições são livres e limpas. 

E na Turquia, os EUA só fazem minar o governo democraticamente eleito do primeiro-ministro Erdogan, favorecendo Fethullah Gulen – o fantoche que a CIA quer “eleger” lá.

Considerando o longo prazo, os EUA trabalham incansavelmente para destruir a democracia no Irã, na Rússia e na América Latina.

Por que, diabos, o governo dos EUA odeia a democracia?

Porque os banqueiros internacionais que são proprietários do governo dos EUA e comandam o império norte-americano nem sempre podem comprar votos em quantidade suficiente para impor o desejo deles a um país inteiro. Assim sendo, a democracia é ótima – desde que os eleitores elejam o candidato da Nova Ordem Mundial. Mas se acontece de os eleitores votarem em candidato que não convém aos oligarcas... Preparem-se, que aí vem golpe!

Os banqueiros derrubarão qualquer governo que se oponha a eles – mesmo nos EUA. O “término com detrimento extremo” [orig. termination with extreme prejudice] da presidência de John F. Kennedy foi mensagem clara enviada a todos os futuros presidentes dos EUA.  

Mayer Rothschild
Mayer Rothschild disse, em frase que ganhou fama, que “Deem-me o controle sobre o dinheiro do país e pouco me importa quem escreva as leis”. Exagero, é claro. Os banqueiros da Nova Ordem Mundial gastam muito dinheiro para derrubar governos democraticamente eleitos por todo o mundo, precisamente porque eles se importam, sim, E MUITO, com quem escreva e faça cumprir a lei.

Agora, os banqueiros da Nova Ordem Mundial estão destruindo a Ucrânia em movimento geoestratégico contra a Rússia, onde Putin impôs rédea curta aos oligarcas russo-sionistas e meteu uma pedra no caminho do projeto de governança mundial dos banqueiros. Sim, o presidente Yanukovich da Ucrânia venceu eleições livres e justas. Mas a democracia nada significa para os faraós psicóticos da grande finança e seus pistoleiros neoconservadores alugados.

Os banqueiros (e os governos ocidentais que eles controlam) estão também tentando derrubar o presidente Nicolas Maduro da Venezuela, que chegou ao poder, pelas urnas, depois que a CIA assassinou o presidente Hugo Chávez. O presidente Maduro superou todos os esforços que os banqueiros empreenderam para derrotá-lo nas eleições do ano passada; agora, é o presidente democraticamente eleito da Venezuela. Nada disso impediu os banqueiros de tentarem derrubá-lo com um golpe pseudo populista.

Hugo Chávez
Na Tailândia, os banqueiros e seus cleptocratas locais estão tentando derrubar o governo democraticamente eleito da primeira-ministra Shinawatra. Aparentemente, os esforços de Shinawatra para garantir educação e assistência à saúde públicas aos cidadãos, e infraestrutura, e um salário mínimo, ofendeu os oligarcas.

Na Ucrânia, na Venezuela, na Tailândia, como antes na Síria e no Egito, os banqueiros está acrescentando violência ao seu joguinho de “revoluções coloridas”, o plano que conceberam para destruir a democracia. Parece incoerente, porque o intelectual-pau-mandado da Nova Ordem Mundial, Gene Sharp, chamado “o Maquiavel da não violência”, pregava que as “revoluções coloridas” originais sempre seriam levantes pacíficos e democráticos.

George Soros
Mas as chamadas “revoluções coloridas” inventadas por Sharp, a começar pela Revolução Rosa, na Geórgia, em 2003 e pela Revolução Laranja, na Ucrânia, em 2004, jamais foram genuínas revoluções do povo. Foram tentativas de golpe, orquestradas pelos banqueiros, e desde o primeiro momento. George Soros cuidaria de encaminhar o dinheiro dos Rothschild para o bolso de apparatchiks sedentos de poder, que inundariam seus países-alvos com propaganda e alugariam paus-mandados para vestirem camisetas de uma ou outra cor, posarem para as imagens de jornais e televisões e fazerem-se, eles mesmos, de “o espetáculo”, na esperança de, assim, seduzir jovens tolos (ou arrogantes) ou ingênuos para que se unam à “revolução” – cujo objetivo real é sempre instalar no poder um fantoche da Nova Ordem Mundial.

Mas agora, até a falsidade da não violência já desapareceu. A máscara risonha de Mickey Mouse da Nova Ordem Mundial caiu, revelando a bocarra sedenta de sangue dos banqueiros satânicos, empenhados em impor ao mundo uma só grande ditadura orwelliana.

Na Síria, o “levante pacífico” de março de 2011 tornou-se pretexto para mandar para lá bandidos e terroristas pesadamente armados, com a missão de desestabilizar o país. No Egito, o “levante” gerado pelos banqueiros no verão passada virou desculpa fabricada para um violento golpe de Estado. Na Tailândia, Venezuela e Ucrânia, os banqueiros pagam torcidas organizadas para encenar protestos violentos, destruir propriedade pública, combater contra a polícia e incitar cada vez mais violência – na expectativa de, assim, conseguir derrubar governos democraticamente eleitos.

Isso é puro fascismo.

O fascismo é falsamente “das massas”. Sempre há fascistas fantasiados de “revolucionários”, pagos para usar uniformes de uma ou outra cor, marchar em passo-de-ganso pelas praças, derrubar governos democraticamente eleitos... e pôr no poder uma ditadura velada dos mais ricos, na qual se misturam o poder das empresas e o poder do estado/governo.

Mussolini e Hitler desfilam em Berlim (1937)
Foi o que fez Mussolini em 1922. Foi o que fez Hitler em 1933. E é o que os neoliberais neoconservadores e seus patrocinadores banqueiros estão fazendo hoje... por todo o mundo. O incêndio do Reichstag de 11/9, que pôs a única superpotência na direção do total fascismo, foi o tiro que desencadeou a avalanche.

Objetivo da jogatina: uma ditadura fascista global, que faria o IIIº Reich parecer piquenique no parque.

Só há um meio para derrotar esses monstros. Todas as grandes fortunas, a começar pelos tesouros de trilhões de dólares das hordas de Rothschilds e amigos, têm de ser confiscadas e devolvidas aos cofres públicos. Todos os grandes bancos têm de ser estatizados e suas operações terão de ser tornadas absoluta e completamente transparentes. Todas as maiores empresas, a começar pelas empresas proprietárias dos veículos da chamada “grande” imprensa têm de ser estatizadas, em seguida partidas em várias pequenas empresas regidas por legislação antitruste.

Essa revolução – para derrubar a oligarquia global – é a única revolução que realmente importa.



Nota dos Tradutores
[1] CHOMSKY, Noam; VLTCHEK, André. On Western Terrorism, Londres: Pluto Press, 2013, 208 p.
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[*] Dr. Kevin Barrett, é Ph.D., arabista-islamologista e um dos principais críticos norte-americanos da Guerra ao Terror. Comentou muitas vezes na FoxNews, CNN, PBS e outros canais de mídia eletrônica; publicou artigos de opinião no New York Times, no Christian Science Monitor, no Chicago Tribune e em outras publicações líderes. Lecionou em faculdades e universidades em San Francisco, Paris e Wisconsin, onde ele concorreu para o Congresso em 2008. É co-fundador da Muslim-Christian-Jewish Alliance, e autor dos livros Truth Jihad: My Epic Struggle Against the 9/11 Big Lie (2007) e Questioning the War on Terror: A Primer for Obama Voters (2009). Seu site é www.truthjihad.com

Parece que os EUA jogaram duro (e sujo) na Ucrânia

(e contra a União “Foda-se” Europeia)

24/1/2014, [*] Peter Lee, China Matters blog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Catherine Ashton cumprimenta Yulia Timishenko ao final da reunião entre a
"nova cúpula" ucraniana e representantes da União Europeia, ontem, 25/2/2014.
Quando se falou de um acordo mediado pela União Europeia entre a oposição e o governo na Ucrânia, achei que Yanukovich conseguira escapar do tiro.

Nada disso.

Ao analisar as circunstâncias da queda de Yanukovich, é interessante examinar as maquinações de Victoria Nuland, neoconservadora do Departamento de Estado (casada com Robert Kagan), a qual, pelo que se vê, recebeu carta branca, de Obama, para fazer na Ucrânia o que lhe desse na telha.

Considere-se o seguinte:

Por trás do já famoso áudio de “Foda-se a União Europeia” vê-se o sentimento, nela, de que a União Europeia não estava suficientemente confrontacional, contra o governo ucraniano; sobretudo na questão das sanções.

Para saber o que seria considerado “suficientemente confrontacional”, considere-se a matéria da AFP de janeiro passado, exibida no canal Yahoo! Sports – porque o personagem, Rinat Akhmetov, é proprietário do mais bem-sucedido time de futebol da Ucrânia:

O homem mais rico da Ucrânia, Rinat Akhmetov, dono do clube de futebol Shakhtar Donetsk, está tendo influência, possivelmente decisiva, no impasse na Ucrânia entre forças de segurança e manifestantes.

Akhmetov é, há muito tempo, considerado o principal aliado do presidente Viktor Yanukovych. Financiou o Partido das Regiões, atualmente no governo, e que Akhmetov também representou como deputado, no Parlamento; e vem da mesma região a leste do (rio) Donetsk, a mesma base eleitoral do presidente.

Mas, numa virada possivelmente crucial, numa crise que gerava temores de um conflito civil prolongado, Akhmetov distribuiu, no sábado, uma declaração, em termos fortes, alertando que o uso da força contra manifestantes era inaceitável e que a única saída possível seriam negociações.

Rinat Akhmetov 
Poréééééém… 

... os motivos de Akhmetov para opor-se tão furiosamente à implantação de estado de emergência para pôr fim aos protestos podem não ter sido completa e perfeitamente altruístas.

Segundo o influente site de notícias Ukrainska Pravda, a secretária-assistente de Estado dos EUA Victoria Nuland, em dezembro, em visita à Ucrânia, manteve encontro secreto com Akhmetov em Kiev, no qual lhe disse que ele e outros ricos apoiadores do Partido das Regiões enfrentariam sanções da União Europeia e dos EUA, se a Polícia usasse força contra os “manifestantes”.

Para um empresário de reputação internacional e propriedades fora da Ucrânia, inclusive uma casa luxuosa em Londres, a ideia soou, com certeza, bem pouco interessante.

E há ainda muuuuuuuuuuuuuuuuuito mais, por favor:

Akhmetov controlava um grupo de pelo menos 40 deputados do Partido das Regiões, governante, no parlamento Verkhovna Rada.

Mas... O que aconteceu depois que a União Europeia negociara um acordo transicional, de partilha de poder, com o governo da Ucrânia?

Foi o fim da trégua. Acabou-se o cessar-fogo. O fogo recomeçou.

E como a trégua acabou e o fogo recomeçou? (Veja como, em No mínimo 70 manifestantes mortos em Kiev hoje:

Sem apoiar a trégua, “manifestantes” usaram coquetéis molotov e avançaram contra os policiais na 5ª-feira (20/2/2014) na capital da Ucrânia. Atiradores do governo revidaram os tiros e seguiu-se tumulto quase medieval que fez pelo menos 70 mortos e centenas de feridos, segundo um médico que participava do protesto..


A trégua anunciada no final da 4ª-feira (19/2/2014) pareceu não merecer confiança dos “manifestantes” linha dura. Um comandante de campo, Oleh Mykhnyuk, disse à AP que, mesmo depois da chamada “trégua”, os “manifestantes” continuaram a lançar coquetéis molotov contra os policiais antitumultos na praça. Ao raiar do dia a polícia recuou, os “manifestantes” perseguiram os policiais e os policiais atiram contra os “manifestantes”, segundo Mykhnyuk.

Deputados comemoram a "mudança de lado" de 15 colegas que se bandearam
Mas... e no Parlamento? O que aconteceu no Parlamento? Veja em: Thirteen more Party of Regions’ members leave parliamentary faction (trad. Mais 13 deputados das Regiões abandonam a coalizão parlamentar):

O vice-presidente do Parlamento ucraniano, Ruslan Koshulynsky anunciou que mais deputados haviam deixado o Partido das Regiões.

Citou Oleksandr Volkov, Yuriy Polyachenko, Vitaliy Hrushevsky, Volodymyr Dudka, Yaroslav Sukhy, Artem Scherban e mais um deputado, cujo nome Koshulynsky pronunciou de modo ininteligível; todos eles haviam deixado o Partido das Regiões.

Mais tarde, Koshulynsky anunciou os nomes de mais quatro deputados que haviam deixado o Partido das Regiões – Viktor Zherebniuk, Ivan Myrny, Hennadiy Vasylyev e Nver Mkhitarian. Mais tarde, acrescentou àquela lista os nomes de Larysa Melnychuk e Serhiy Katsuba.

O Partido das Regiões, pois, perdera 42 deputados, 28 na 6ª-feira (21/2/2014) e outros 14 no sábado (22/2/2014) .

Não sei se algum deles seria gente de Akhmetov. Seria interessante investigar. Seja como for, saíram deputados do Partido das Regiões em número suficiente para dar a maioria às forças pró-União Europeia e carta branca ao Parlamento para tomar outras iniciativas de “limpar” o campo, como impor o impeachment do presidente sem o devido processo legal, repudiar todas as revisões constitucionais (e reimpor a Constituição de 2004), e livrar Yulia Timoshenko da cadeia.

Yulia Timoshenko
Com olhos menos generosos, pode-se, sim, suspeitar que os EUA estimularam as manifestações e incentivaram os grupos a romper a trégua, apostando em que

(a) haveria violência e

(b) os gatos gordos que ainda apoiavam Yanukovich, como Akhmetov, logo abandonariam o barco, porque os EUA já os haviam informado de que o dinheiro deles depositado no ocidente seria congelado (sob sanções que os EUA imporiam imediatamente).

Se isso tiver acontecido bem assim, a União Europeia tem razões extras para sentir-se traída pelos EUA. Ao romper a trégua e o acordo de transição, Nuland demoliu Yanukovich e pôs na roda o preferido dos EUA, “Yats” – Arseniy Yatsenyuk. Mas ao custo de alienar definitivamente o segmento pró-Rússia da Ucrânia, segmento, deve-se lembrar, que realmente conseguira eleger Yanukovich em eleições livres e justas, há pouco tempo.

Em todos os casos, graças a uma interpretação “criativa” da Constituição ucraniana, o Parlamento, agora a favor do ocidente, autoconstituiu-se, ele sozinho, como o órgão primário e legítimo de governo, já nomeou novo primeiro-ministro e já marcou eleições para dezembro.

Dado que esse novo governo já nasce quebrado e precisando de cerca de $30 bilhões de novos empréstimos para chegar ao fim do ano, pode-se conjecturar que o ocidente não fez negócio, afinal, muito lucrativo. Mas parece que todos no novo governo estão alegremente dispostos a aceitar um pacote completo do FMI, graças ao qual, pelas minhas contas, a Ucrânia se autoacorrentará em posição de vassalagem, presa ao ocidente pela dívida, por muitos e muitos anos, incapaz de voltar aos sempre acolhedores braços da Rússia.

Se o leste e o sul da Ucrânia – fortalezas onde persistem os sentimentos pró-Rússia – conseguirão enfrentar a catástrofe da “restruturação” à moda do FMI que seus vizinhos ocidentais parecem tão ansiosos para aceitar, já é outro problema.

Que ninguém se surpreenda, se, desse miraculoso novo broto nascido da arrogância obamiana e da super arrogância dos neoliberais neoconservadores, nascer mais um grande triunfo no processo da “construção de nações” assemelhado ao que fizeram na Líbia e no Sudão do Sul, só que, dessa vez, com o fiasco bem à vista e depositado no colo dos vizinhos da Ucrânia, bem ali, na União Europeia.

Será também interessante ver se a Rússia cede aos seus mais baixos instintos e suspende a entrega dos $15 bilhões que prometeu originalmente para ajudar Yanukovich. (Pensamento interessante: será que esse golpe estimulado pelos EUA foi “cronometrado” para coincidir com os Jogos Olímpicos de Sochi, sob a hipótese de que Putin não interviria, com certeza, enquanto estivessem em andamento os seus preciosos jogos? Hmmm).

Mas me parece que, ao apoiar abertamente a insurreição e pôr-se ao lado de um grupo de militantes, com o objetivo de impor tal nível de estresse ao governo ucraniano que ele – e especialmente o aparentemente incapaz e incompetente presidente, Yanukovich – não conseguiu aguentar, os EUA, me parece, atravessaram uma espécie de Rubicão.

Os EUA apoiaram abertamente e entusiasticamente um violento putsch contra governo democraticamente eleito do qual os EUA não gostavam.

“Jornalistas” fãs entusiastas neoliberais, não se pode deixar de anotar, flanaram por sobre toda essa lama, sem nem molhar os sapatos... Nada, exceto a tediosa babação rotineira dos “correspondentes” ocidentais, aparentemente hipnotizados pela ostensiva queima de pneus e pelos coquetéis molotov da narrativa dos “combatentes da liberdade” organizados para ocultar a luta política.

Fazem-me lembrar de como a imprensa-empresa deixou-se enganar durante a Guerra do Iraque, período histórico que sou suficientemente velho para lembrar, mas jornalistas mais jovens não lembram... ou decidiram esquecer.

Na Ucrânia... como na Venezuela

A recém descoberta paixão do governo Obama por agitação de rua para derrubar governos eleitos não cúmplices de Washington passa agora pelo seu segundo teste em campo, na Venezuela.

Caracas começa a aparecer nas imagens “jornalísticas” como cidade gêmea de Kiev.

A juventude neoliberal conservadora das universidades privadas já está nas ruas procurando briga e pretextos para treinamento pró violência direitista e golpista, como viram fazerem os seus irmãos fascistas ultranacionalistas na Ucrânia.

Estudantes bolivarianos exigiram o desame de seus colegas terroristas em
manifestação de 16/2/2014
Se o artigo de Carl Gibson em Reader Supported News cita corretamente documento autêntico, a USAID, com a ajuda de consultores e da Colômbia, já tinha mapeados planos para desestabilizar a Venezuela mediante sabotagem econômica no final de 2013; e, pelo relato de Gibson, também para incitar os tumultos e confrontações de rua:

Sempre que possível, a violência deve causar mortos e feridos. Encorajar greves de fome de vários dias, mobilizações massivas, problemas nas universidades e em outros setores da sociedade que atualmente estão identificados com instituições do governo [de Nicolás Maduro].

Não tenho dúvida alguma de que Leopoldo Lopez, o líder da oposição na Venezuela, é o homem dos EUA em Caracas. O artigo de Gibson também acrescenta, como detalhe, que há um telegrama distribuído por Wikileaks que parece ligá-lo ao Centre for Applied NonViolent Action and Strategies, CANVAS, a ONG de fachada, mantida com dinheiro norte-americano, para promover democracia cum golpe de mudança de regime, que o presidente Yanukovich expulsou de Kiev pouco antes de ser deposto.

A Venezuela parece ser fraturável por linhas de classe (não por linhas étnicas, de russos vs ucranianos; nem regionais/ tribais, de cirenaicos vs tripolitanos, como a Líbia; nem confessionais, de sunitas vs xiitas, como a Síria). Assim sendo, o trabalho de catapultar para o poder um grupo pró-elites norte-americanas pode ser mais sangrento e mais prolongado que a aventura ucraniana.

Mas não há dúvidas de que os EUA têm dinheiro e paciência para luta prolongada, sobretudo porque os povos sacrificados estão a mais de mil quilômetros de distância de Washington.

Na China

Acho que, no caso da República Popular da China, os EUA planejam a seguinte jogada de intercepção:

(1) os EUA promoverão ativamente a subversão política de todos os inimigos dos EUA (promover a subversão política dos inimigos dos EUA não é “mito” nem é “teoria conspiratória” com os quais os governos alvos ou se consolam ou se autoaterrorizam!);

(2) os chineses não deixarão que se constitua nenhum partido de oposição (na China), muito menos que chegue às urnas; e não permitirão nenhuma aglomeração na praça central da cidade; e

(3) a China ameaçará preventivamente todos os ativistas que tenham laços com os EUA ou o ocidente, como sendo subversivos de facto e contrarrevolucionários.

Xi Jinping e Barack Obama em 11/6/2013
Nada garante que a vigilância ampliada na República Popular da China se traduza em algo próximo da liberalização democrática pela qual o ocidente tanto anseia, para os estúpidos cidadãos chineses. Em vez disso, o plano prevê que o regime chinês atire-se com unhas e dentes sobre os dissidentes, bem rapidamente e como uma tonelada de tijolos.

É terrível ironia que Barack Obama, exemplo glorioso e premiado de progressista, tenha dado tapa rápido no cachimbão da mudança-de-regime de Dick Cheney... e, agora, já parece que não vive sem ele.

É provável que Obama esteja tentando só passar a mão em uma ou duas vitórias bem baratinhas de política exterior e fodam-se as consequências, porque daqui a dois anos ele cai fora e a presidenta Clinton dará jeito em tudo.

Aquele Alfred Nobel que se vê na medalha do Prêmio da Paz que deram ao presidente Obama já deve estar chorando lágrimas de sangue.




[*] Peter Lee é jornalista norte americano de origem chinesa que escreve sobre assuntos dos países do sul e leste da Ásia e a intersecção de negócios entre essa região e os EUA. Além de articulista de várias publicações anima o blog China Matters.