sábado, 1 de março de 2014

Na Crimeia: o movimento de resistência contra o golpe

1/3/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Soldados armados vigiam prédios públicos em Sinferopol, Crimeia (1/3/2014)
O golpe patrocinado por EUA e União Europeia contra o governo e o presidente eleitos da Ucrânia tem várias implicações e objetivos estratégicos. Um deles é a base no Mar Negro que a Marinha Russa usa para garantir suprimentos e defender a Síria. A derrubada do governo em Kiev era necessária, mas não suficiente para neutralizar essa base de alto valor estratégico.

Para que o golpe dê integralmente “certo” é preciso ainda derrubar o governo local da Crimeia. A Crimeia é historicamente russa e quase toda a população é russa. E há ali também uma pequena minoria de tártaros de tradição muçulmana. [1]

Parece haver planos, já em execução, para usar aquela minoria de tártaros muçulmanos como força auxiliar na derrubada do governo da Crimeia, pelo governo golpista de Kiev, patrocinado pelo “ocidente”.

Em meados de dezembro de 2013 (!) o website turco Aydinlik Daily noticiou:

Conforme notícias publicadas em jornais franceses, ucranianos e russos, a inteligência turca tem um dedo nos protestos pró-União Europeia, em curso na Ucrânia. Noticiários desses três países informam que o serviço secreto do governo da Turquia (Organização de Inteligência Nacional/National Intelligence Organization (MİT) organizou a transferência de jihadistas separatistas tártaros treinados na Turquia, para a Ucrânia. Segundo o website de notícias Egalite et Réconciliation, francês, dúzias de jihadistas tártaros da Crimeia foram retirados da Síria pelo serviço secreto turco e transferidos para a Ucrânia, via Turquia, num voo Istambul-Sebastopol das Turkish Airlines, dia 22/11/2013.

Segundo essa informação baseada em fontes do Serviço de Segurança da Ucrânia [orig. Security Service of Uckraine (SBU)], os tártaros da Crimeia que participaram dos protestos em Kiev, capital da Ucrânia dia 21/11 ficaram encarregados de controlar a segurança da Praça Maidan. Esses tártaros da Crimeia, apoiados pelo movimento separatista “Azatlık” que opera na cidade russa de Kazan recebeu apoio político de Nail Nabiullin, atual presidente da Liga da Juventude Tártara em Azatlık.

Separatistas tártaros podem estar combatendo na Crimeia
Dia 26 de fevereiro, pouco depois de instalado o governo golpista em Kiev, grupos tártaros promoveram tumultos nas ruas da capital da Crimeia:

Na Crimeia, houve rixas e brigas entre manifestantes rivais na capital regional de Simferopol, quando 20 mil muçulmanos tártaros que se manifestavam em apoio aos novos líderes da Ucrânia cruzaram com manifestação pró-Rússia de menores dimensões.

Os manifestantes gritaram e jogaram pedras e garrafas uns contra outros, e trocaram socos, enquanto a Polícia e líderes dos dois grupos tentavam manter separadas as duas manifestações.

Um médico presente disse que houve pelo menos 20 feridos e o ministério de Saúde local informou que uma pessoa morreu, aparentemente de ataque cardíaco. Líderes tártaros disseram que houve mais uma morte, de uma mulher, pisoteada pela multidão. As autoridades não confirmaram essas notícias.

O jornal Voice of Rússia fala de um suposto ataque por hackers Anonymous, que interceptaram e-mails trocados entre os planejadores do golpe em Kiev e um líder tártaro: [2]

[Hackers] postaram um trecho de um dos e-mails:

“Tudo está andando conforme o plano. Estamos prontos para passar à segunda parte do jogo. Como acertado no início da semana passada, meus rapazes e o pessoal de “Karpatskaya Sech” e da UNA-UNSO chegarão onde seja necessário e com o armamento necessário. Você só tem de nos informar o endereço dos armazéns em Simferopol, Sebastopol, Kerch, Feodosia e Yalta, e a hora da reunião (...) Não se preocupem com o dinheiro, tudo será acertado, só um pouco mais tarde. No fim, você sabe que se tivermos sucesso, você receberá muito mais”.

Segundo a mensagem, a organização neonazista “Trizub imeni Stepan Bandera”, com a “Karpatskaya Sech” e UNA-UNSO, estão preparados para fazer o serviço sujo: matar, queimar e banir da Crimeia todos os que se oponham ao novo governo de Kiev. Os tártaros da Criméia ‘só’ terão de fornecer “instrumentos”, armas e lugar para guardá-las nas principais cidades da Crimeia.

Muita gente talvez suponha que os fascistas ucranianos e os tártaros da Crimeia têm objetivos diferentes, e que a aproximação entre eles pareça, à primeira vista, improvável. Mas, sim, eles têm um objetivo comum que é eliminar da região da Crimeia os falantes de russo; e entendem que por isso é preciso que os grupos se unam, para alcançar o objetivo estratégico comum.

É importante notar também que Aslan Omer Kyrymly é empresário, proprietário de várias empresas e presidente da Associação de Comércio Internacional da Crimeia [orig. Crimean International Business Association (CIBA)]. É homem que controla grandes fluxos financeiros relacionados a seus vários negócios, na Ucrânia e em outros países. Acredita-se que Aslan Omer Kyrymly seja o verdadeiro líder do Congresso dos Tártaros da Crimeia.

Antes [dia 23/2], os Anonymous (ou a inteligência russa) já haviam publicado e-mails trocados entre um dos golpistas, o ex-boxeador Klitschko, e o governo da Lituânia.

Dia 27/2, forças russas estacionadas na Crimeia acompanhadas por supostos paramilitares locais, assumiram o controle de dois aeroportos e de alguns prédios públicas em algumas cidades da Crimeia. Um voo que vinha da Turquia para o aeroporto de Simferopol voltou para a Turquia e outros voos da Turquia para a Crimeia foram em seguida cancelados. O ministro Davutoglu, das Relações Exteriores da Turquia, anunciou que visitará hoje o governo golpista em Kiev. 

Ahmet Davutoglu, Ministro das Relações Exteriores da Turquia
A Crimeia é importante na Ucrânia por sua posição estratégica e pela formação multiétnica e multirreligiosa. É difícil manter a paz na Eurásia, se não se garantir a paz na Ucrânia. Assim também, é difícil manter a paz no Mar Negro, se não se garantir a paz na Crimeia, Davutoglu acrescentou.

...

O status da Crimeia na crise da Ucrânia não se decidirá sem a Turquia – disse, ontem, um deputado do partido AK de Erdogan.

A visita do ministro de Relações Exteriores da Turquia à Ucrânia é indicação de que a Turquia tem intenção de ser proativa, nos desenvolvimentos na Crimeia – disse Samil Tayyar, à Agência Anadolu.

...

Dois voos da empresa Turkish Airlines de Istambul para Simferopol, capital da Crimeia, parecem ter sido cancelados ontem, por causa das tensões crescentes na península.

...

Na 6ª-feira pela manhã, outro avião turco, um Atlasjet, cancelou o pouso em Simferopol e retornou à Turquia, ante boatos de que o Aeroporto Internacional de Simferopol estaria ocupado por grupos armados.

Oleksandr Turchynov 
Uma suposta tentativa, por grupos aliados ao governo golpista de Kiev, para ocupar o ministério do Interior da Criméia na 6ª-feira (28/2/2014), foi repelida. Notícias de hoje (1/3/2014) informam que, em Kiev, tártaros anti-Rússia procuram mais briga:

Enquanto isso, o deputado tártaro Mustafa Dzhemilev do partido Batkivshchyna já exigiu que o presidente golpista Oleksandr Turchynov envie todo o exército da Ucrânia para a Crimeia.

“Já disse a Turchynov que todo o nosso poder militar deve ser mobilizado para a Crimeia. Não há ameaças vindas de outras frentes. Declare estado de emergência e tome o controle” – disse Dzhemilev citado pela rede RBK-Ucrânia.

O quadro que emerge hoje disso tudo parece mostrar que:

  • A inteligência turca ajudou a treinar tártaros, em apoio a um golpe local na Criméia, anti-Rússia.
  • A inteligência russa já invadiu as comunicações dos arquitetos do golpe (vide, por exemplo, a divulgação da gravação da fala de Victoria Nuland) e sabia dos planos de Kiev com os turcos, para a Crimeia.
  • A ocupação dos aeroportos por apenas algumas horas, visava a impedir que mais tártaros e talvez também armas vindos da Turquia fossem desembarcados na capital da Crimeia.
  • Na Crimeia, como em outras áreas pró-Rússia no leste da Ucrânia (Donetsk, Mykolaiv e Dnipropetrovsk), estão-se organizando forças de resistência contra golpes em regiões dispersas, que pedirão o apoio dos russos e eventualmente a incorporação na Federação Russa.
  • Se tudo sair como os russos esperam, o golpe “ocidental” em Kiev trará, como resultado, que o “ocidente” ficará com o oeste falido e miseravelmente pobre da Ucrânia; e a Rússia ficará com o leste da Ucrânia, industrializado e rico em recursos; e manterá a Crimeia como seu importante ativo estratégico.
  • No contexto da guerra na Síria, o golpe na Ucrânia foi ‘resposta’ (há quem diga que foi ‘vingança’ do governo Obama) ao apoio que os russos dão à Síria. A menos que a Crimeia caia ante o assalto dos golpistas, a tal ‘resposta’ saiu pela culatra.

Há pouco que os EUA possam dizer contra a presença de tropas russas na Crimeia.

Nos termos do Acordo Sobre o Estado das Tropas entre Rússia e Ucrânia, a Rússia pode manter ali até 30 mil soldados. O número normal de forças ali estacionadas não chega nem à metade disso. Se a Rússia dobrar o número de soldados na Crimeia, pode fazê-lo, sem agredir nenhuma lei nacional ou internacional. [3]

Hoje, o governo da Crimeia anunciou um referendo sobre o status da região, marcado para o dia 30/3/2014, e pediu ajuda aos russos. O que o “ocidente” dirá sobre isso? Se a autodeterminação se aplica ao Kosovo, é claro que se aplica também à Crimeia e a outras áreas do leste da Ucrânia.



Notas dos tradutores

[1] Os tártaros veem-se como bons muçulmanos. Os tártaros mais jovens e mais letrados consideram os turcos fanáticos e veem-se como moderados – o que consideram uma vantagem. Entrevistados distinguem entre as duas comunidades, pela segregação das mulheres (entre os turcos) e a ausência dessa discriminação entre os tártaros, assim como pela atitude em relação aos cristãos e aos alawitas (xiitas): os tártaros são tolerantes com os xiitas alawitas; os turcos (que são sunitas), não. [Valha o que valer, é o que se lê em: Crimean Tatars in Bulgária.

[2] O conhecido grupo de hackers Anonymous distribuiu por uma rede social a correspondência entre Andrei Tarasenko, vice-presidente da organização fascista ucraniana “Trizub imeni Stepan Bandera”, e Aslan Omer Kyrymly, vice-presidente do Congresso dos Tártaros da Crimeia.
Um dos hackers escreve (em 28/2/2014): “Foi difícil, mas conseguimos invadir um e-mail dos ativistas da Praça Maidan. Surpreendentemente, os nacionalistas fascistas têm laços com os tártaros da Crimeia”.

[3] Como o caso do Afeganistão mostra claramente, esses tratados internacionais são assinados entre estados, não entre presidentes ou governos. Assim como não importa quem assine o tratado entre EUA e Afeganistão, se Hamid Karzai ou o presidente que o sucederá, assim também não importa que o golpe troque o presidente da Ucrânia: o tratado assinado com a Rússia é válido e continua vigente até 2042.

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[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça  Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny.  Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blog Moon of  Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir:

Aos poucos, a resposta do Kremlin vai-se tornando mais visível

27/2/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker

Русские долго запрягают, но быстро едут
Ditado russo:  Os russos demoram para selar o cavalo. Mas depois que montam, andam depressa.

Mapa linguístico da Ucrânia
Ao longo dos últimos dias, os eventos na Ucrânia entraram em fantástica aceleração e houve vários eventos simultâneos. Vou tentar apontá-los um a um.

  • Em Kiev, os líderes da insurgência assumiram controle total do Parlamento e imediatamente aprovaram leis que revogam o status de língua oficial para o idioma russo.
  • Os líderes políticos foram à Praça Maidan para obter a aprovação dos membros propostos para o novo governo.
  • Exatamente como a sra. Nuland ordenou, Iatseniuk ficou com o cargo de primeiro-ministro.
  • Na própria Praça Maidan, aparecem profundas diferenças entre partes, que agora se opõem entre elas, da multidão.
  • O neonazista líder das “forças de segurança Maidan” e um dos fundadores do Partido Liberdade, Andrei Parubii, tornou-se chefe do Conselho de Segurança.
  • O líder do Setor Direita (Pravy Sektor) neonazista, Dmitri Iarosh, é agora Delegado-chefe do Conselho de Segurança.
  • O resto do novo governo é, a maioria, de apoiadores do ex-presidente Yushchenko, em outras palavras: leais agentes dos EUA.
  • O novo regime dissolveu a polícia antitumultos e, assim, liquidou a última força que restava ainda capaz de manter a lei e a ordem nas regiões controladas pelos insurgentes. Agora reina a lei das gangues, nua e crua.
  • A moeda está em queda livre. Iatseniuk diz que são necessários $35 bilhões imediatamente, para evitar um calote. A dívida total é de $170 bilhões.
  • Nas áreas controladas pelo novo regime, estão acontecendo “expropriações” (roubos e assaltos) por toda a parte; a rua é governada pelos bandidos.
  • Yanukovich foi retirado da Ucrânia por forças da segurança russas (mais sobre isso, adiante).
  • O Parlamento do Tartaristão e o Congresso Mundial dos Tártaros apelou aos tártaros da Crimeia, basicamente para parar a merda toda (disseram em termos mais polidos). Honra e glória, à sabedoria dessas duas organizações!
  • Homens armados, não identificados, tomaram o prédio do Parlamento da Crimeia às 4h da madrugada, só para assegurar que, dessa vez, os membros eleitos daquele Parlamento pudessem entrar e reunir-se. Uma bandeira russa foi hasteada no topo do prédio do Parlamento.
  • O governador de Carcóvia, Mikhail Dobkin, renunciou ao cargo, para concorrer à presidência da Ucrânia, nas eleições de 25 de maio.
  • O Parlamento da Crimeia assumiu as funções do governo central e anunciou um referendo sobre o futuro da Crimeia, marcado para 25 de maio.
  • O recém-eleito prefeito de Sebastopol reuniu-se com o Comandante-em-chefe da Frota do Mar Negro. Os dois declararam que não será tolerada nenhuma violência, seja de que tipo for.
  • Novas milícias populares de defesa formaram-se na Crimeia, com número estimado entre 5 mil e 15 mil membros, organizados em brigadas. Estão controlando todas as principais estradas e no momento estão filtrando o tráfego de quaisquer “visitantes” provenientes das áreas controladas pela insurgência.
  • ·Membros importantes do Parlamento russo visitaram a Crimeia para manifestar apoio à população local e reunir-se com parlamentares da Crimeia.
  • Na Rússia, as opiniões estão divididas sobre o que fazer: Vladimir Zhirinovksy e seu partido LDPR dizem que a Rússia deve ficar de fora e não dar um único rublo aos ucranianos. Os comunistas querem que a Rússia leve a questão ao Conselho de Segurança da ONU. O Partido “Só Rússia” (mais “moderado”) está manifestando pleno apoio ao povo da Crimeia e diz que a Rússia tem de intervir e ajudá-lo. Feitas as contas, a tomada do governo por neonazistas em Kiev parece estar despertando uma mistura de desgosto e fúria, que pressionará o Kremlin para que faça alguma coisa.
Assim sendo... E o Kremlin? De fato, acho que começo a discernir o que me parece ser uma estratégia de resposta em várias camadas, que o Kremlin porá em andamento, todas as camadas simultaneamente:

1) No plano da legislação vigente:

Yanuk
Ao retirar Yanuk do país e permitir que se refugiasse na Rússia, o Kremlin deixou claro que o presidente legitimamente eleito da Ucrânia estará fisicamente disponível para desafiar qualquer e todas as decisões do novo governo, do Parlamento controlado pelos insurgentes e do governo nacionalista fascista. É evidente que Yanuk está politicamente morto, mas, em termos da legislação vigente, continua a ser extremamente poderoso e ator importante que tem de ser mantido vivo.

2) No plano ucraniano:

O (agora ex-) governador da Carcóvia, Mikhail Dobkin, fez “discreta” viagem à Rússia e voltou com a decisão de renunciar ao cargo de governador, para concorrer à presidência. 

Mikhail Dobkin
À primeira vista, a ideia de participar de eleições controladas pelos fascistas pode parecer estúpida, mas repense: em primeiro lugar, no caso totalmente improvável de uma eleição que seja pelo menos 50% decente, ele quase com certeza será eleito (a maioria dos ucranianos não apoia os fascistas). 

Segundo, se a eleição for “manejada”, Dobkin, candidato, poderá questioná-la. 

Terceiro, pelo simples fato de concorrer, ele pode forçar a imprensa controlada pelos fascistas (sobretudo a TV) a dar-lhe tempo de televisão no ar para responder à propaganda nacionalista fascista. Assim, tudo considerado, é movimento astuto.

3) Na Crimeia – nível político:

Mapa geofísico da Crimeia
Para a Crimeia, eu diria que é assunto resolvido: em maio, se tornará estado independente. Esse estado terá alternativas abertas para ele. Se, por algum milagre inesperado e basicamente impossível, Dobkin for eleito presidente, a Crimeia pode aceitar um statu quo ante [lat. “estado em que as coisas estavam antes”], mas com o claro entendimento de que aquele será arranjo federativo do qual a Crimeia poderá separar-se a qualquer momento. Se algum dos doidos nacionalistas for “eleito”, nesse caso a Crimeia romperá todos seus laços com a Ucrânia e se unirá à União Econômica com Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão e Armênia, como estado independente.

4) Na Crimeia – nível de segurança:

A Rússia usará a força para defender a Crimeia se for necessário. A solução preferível é ajudar as autoridades locais a defenderem-se, elas mesmas, fornecendo fundos, armas (se necessárias), expertise (se necessária), inteligência (se necessária), etc.. Mas em praticamente todos os casos, nada disso será necessário, simplesmente porque tudo isso pode ser fornecido pela Frota do Mar Negro, com base ali mesmo. No máximo, os ucranianos nacionalistas podem mandar para lá as gangues de bandidos que já usaram em Kiev.

102º Destacamento independente Spetsnaz da Marinha da Rússia
Por outro lado, a Frota do Mar Negro pode mobilizar a 810ª Brigada Independente de Infantaria Naval, o 382º Batalhão Independente de Infantaria Naval e, até, o 102º Destacamento independente Spetsnaz da Marinha [emblema, na imagem], o que significa algo entre 1.300-1.400 soldados de elite, todos eles oficiais super treinados, com longa experiência de combates, apoiados por artilharia, força aérea, blindados, etc.. De fato, minha expectativa é que as autoridades locais e as forças policiais (inclusive os Berkut da polícia antitumulto local e as milícias populares de defesa) serão suficientes para conter qualquer “visitante” da insurgência que apareça por lá, sem precisar de qualquer ajuda da Frota do Mar Negro. Em resumo: a insurgência ucraniana jamais controlará a Crimeia.

5) Leste da Ucrânia:

É onde as coisas ficam muito mais nebulosas. Meu palpite é que o Kremlin está adotando uma atitude de “esperar para ver” em relação ao leste da Ucrânia, esperando pelo que aconteça num nível local. O princípio básico por trás da política do Kremlin é “só ajudamos os que se ajudem eles mesmos e façam por merecer nossa ajuda”. A Crimeia é exemplo perfeito dessa abordagem. Fato é que os nacionalistas têm forte presença em Carcóvia, Dniepropetrovsk ou Poltava. Assim sendo, o desenlace aí é muito mais difícil e delicado de antever.

6) Restante da Ucrânia:

Aqui, entendo que a política correta é autoevidente: primeiro, deixar que os doidos lutem entre eles até aplacarem o coração. Eles que comandem a já arruinada economia real; eles que descubram até onde conseguem sobreviver movidos só a hinos nacionalistas e gritos de “Бий жидів та москалів - Україна для українців” (Fora, judeus e russos, Ucrânia para os ucranianos). A União Europeia e os EUA que compareçam com os $35 bilhões para pagar por mais essa “revolução colorida” e evitar um calote; e, depois, eles que deem jeito de administrar esse novo regime “popular pró-ocidente”.

Então, quando o dinheiro deles acabar, é esperar que recorram ao Kremlin e peçam ajuda. Aí, basicamente, se tratará de “comprar a parte deles para tirá-los do negócio”, item a item, fábrica a fábrica, político a político, oligarca a oligarca, região por região.

Brigada neonazista do Pravy Sektor na Praça Maidan em 13/2/2014
A Rússia NADA deve a esses nazistas odiadores de russos. E nada lhes dará gratuitamente. Os nacionalistas ucranianos tentarão retaliar, sobretudo com ataques aos gasodutos russos que atravessam a Ucrânia, mas essa é estratégia inviável: ferirá, em primeiro lugar e mais fundo, a Europa; e, afinal, a Rússia construirá dois gasodutos que não passam pela Ucrânia. Eventualmente, a Ucrânia acabaria por romper com o ocidente.

Quanto à China, já está processando judicialmente o novo regime por quebra de contratos comerciais (ou, pelo menos, já há notícias disso, em algum dos noticiários que ouvi). A China seguirá a Rússia, neste caso.

7) Violência previsível no leste da Ucrânia:

A menos que ocorra um milagre, haverá muita violência nas províncias do leste da Ucrânia. No ponto em que estão as coisas hoje, não vejo qualquer intervenção militar russa para proteger a população falante de russo, que terá de defender-se, ela mesma. A Rússia garantirá:  

(a) apoio político,
(b) financeiro e, possivelmente, quantidade limitada de
(c) apoio secreto.

Por hora, pelo menos, é isso. É possível que eu tenha de corrigir/refinar essa análise.

Bandeira do Partido Svoboda
neonazista
Quanto a EUA/OTAN, não acredito que intervirão militarmente. Haverá MUITA propaganda anti-Rússia, muita propaganda pró-nacionalistas fascistas, milhões de dólares norte-americanos continuarão a encher as burras dos líderes do golpe, mas, mais cedo ou mais tarde, os EUA e seus fantoches europeus terão de se conformar ante a evidência de que fracassaram: não expulsaram da Crimeia a Frota do Mar Negro; e a Crimeia se encaminhará na direção da Rússia: será o tiro pela culatra, da “revolução colorida” que EUA e União Europeia inventaram em Kiev.

Mas em nenhum caso EUA/EU reconhecerão qualquer tipo de autoridade pró-Rússia em nenhuma parte da Ucrânia. Por isso é possível que o país rache, como a Geórgia ou as duas Coreias. OK. Absolutamente não tirará o sono, nem da Crimeia, nem da Rússia – EUA/EU que tenham sua própria versão do Kosovo, só para variar :-)

O que lhes parece? O que escrevi faz sentido?

Muito obrigado e saudações.

The Saker

Ucrânia: Corda e nó no pescoço da diplomacia dos EUA

28/2/2014, [*] Nikolai Bobkin, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Casa Branca por Matteo Bertelli
A Casa Branca resolveu que a Ucrânia entrará num período de transição, embora não se saiba para onde, exatamente, caminha o país. O presidente Obama prometeu cooperar com todos os partidos, sem ter sequer ideia do que, exatamente, estava dizendo.

Não se sabe, sequer, quem ganhou e quem perdeu, por efeito da intervenção norte-americana, mas o massacre pelo qual está passando a Ucrânia permite dizer que já é estado não existente. Os EUA não podem se mostrar distantes dos eventos na Ucrânia, mas tampouco têm meios para agir sozinhos.

Os EUA sabem como desestabilizar outros países, mas, como agora, gostariam muito de contar com a ajuda de Moscou para acertar as coisas na Ucrânia...

Washington nunca pensou na Ucrânia, quando o país vivia em calma, pelo menos jamais manifestou qualquer interesse em desenvolver laços bilaterais. Os EUA estão no décimo lugar, na lista dos maiores investidores na economia da Ucrânia, com estoque de apenas 1 bilhão de dólares. Nunca se dedicaram a conhecer os interesses do parceiro. 

Centenas de pessoas em  New Brunswick protestaram entre 26/10 e 5/1/2013 contra a
extração de gás de xisto (shale gas) a mesma coisa que os EUA pretendem fazer na Ucrânia
Os EUA promovem a produção não tradicional de gás, nos depósitos ocidentais pouco lucrativos, onde a população não está inclinada a apoiar a “amizade do xisto” com os EUA [1]. Nenhum projeto de investimento em outro setor de energia existe e nada há que vise a aumentar as trocas comerciais. As trocas, aliás, são mínimas: as exportações dos EUA para a Ucrânia não passam dos 200 milhões de dólares, e as exportações ucranianas para os EUA mal chegam a $60-70 milhões.

Diferente disso, os laços entre Ucrânia e Rússia são muito mais próximos; de fato, não há comparação possível. O comércio entre Rússia e Ucrânia ultrapassa 40 bilhões de dólares; a Rússia é o principal mercado para a Ucrânia (aproximadamente 10 bilhões de dólares).

Quando Yanukovich chegou ao poder em 2010, os EUA concentraram seus esforços em desenvolver alguma cooperação no campo da não proliferação nuclear; as partes concordaram que a Ucrânia não teria urânio altamente enriquecido. Os EUA prometeram ajuda na descontaminação do território afetado pelo desastre nuclear de Chernobyl. Essa ajuda jamais chegou. Já faz muito tempo que os EUA vêm substituindo dinheiro por promessas, em ouvidos sempre prontos a acreditar em palavras ocas.

Os cérebros da política exterior de EUA e Grã-Bretanha, John Kerry e William Hague, jamais discutiram qualquer ajuda urgente à Ucrânia, em nada que se parecesse a alguma reunião especial. No máximo, trocaram ideias sobre o tema, quando se cruzaram nos corredores da Conferência sobre Abusos Sexuais e Conflitos Armados que se realizou em Washington (?).

William Hague (E) e John Kerry (D)
O Secretário do Exterior da Grã-Bretanha disse que os novos líderes políticos em Kiev ainda teriam de comprovar que seriam capazes de implementar reformas e combater a corrupção. Hague acredita que, assim, melhorarão as chances de o país obter ajuda financeira da comunidade internacional. Quer dizer, portanto, que é outra vez, como sempre, chantagem e queda-de-braço, dessa vez aplicadas contra gente que depositou suas esperanças na ajuda ocidental. A única coisa sobre a qual não há dúvida alguma é que não haverá dinheiro dos EUA para a Ucrânia.

Do ponto de vista dos EUA, Yanukovich nunca foi o pior presidente da Ucrânia. Foi derrubado por golpe, movimento que anda ao arrepio dos princípios norte-americanos de respeito à lei e à democracia.

Os norte-americanos perguntam-se o que Obama faria se seus adversários se armassem e se pusessem a lançar coquetéis molotov contra o Capitólio, invadissem a Casa Branca e quebrassem as vidraças do Salão Oval? O presidente dos EUA aceitaria calmamente que o Congresso, de repente, lhe tirasse todos os seus poderes e o demitisse, sem aviso prévio e sem nenhum dos procedimentos que a lei exige para demitir o presidente, e em momento em que agitações e o caos tomassem conta do país?

Barack Obama
Norte-americanos sérios e respeitadores da lei absolutamente não entendem como é possível que Obama tenha dito a Yanukovich que tirasse as forças de segurança das ruas, quando havia combate nas ruas de Kiev e já havia mortos. Como é possível?

Para muitos, nos EUA, a reação de Obama foi, de fato, de incitamento ao golpe e à violência. Na verdade, o governo dos EUA emitiu uma licença para matar, e é responsável por dúzias de vidas humanas perdidas em Kiev. Vergonha, para os EUA.

O fato de que Obama tentou esconder-se por trás de funcionários nomeados por ele e que trabalham para ele e fugiu de qualquer encontro direto com Yanukovich, não é desculpa para suas ações. A política dos EUA para a Ucrânia foi entregue nas mãos do vice-presidente Joe Biden naqueles dias críticos. Foi Biden quem falou NOVE VEZES com Yanukovich pelo telefone... Agora, é o secretário de Estado John Kerry que se põe a falar sobre a Ucrânia do modo mais absurdo e confuso, tentando encobrir o estúpido fracasso da diplomacia dos EUA.

Sergey Lavrov, Ministro das Relações Exteriores da Rússia
Falando sobre os eventos, Kerry diz que não é “jogo de soma zero”. Ora essa! Em jogo de soma zero, o vencedor ganha tudo que o perdedor perca. O ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, observou que Kerry tinha dificuldades com números, quando falou sobre a Ucrânia na Conferência de Munique. O secretário de Estado disse que Kiev teria de escolher entre o mundo todo e um único país. Agora, o mesmo secretário de Estado já começou a falar de “trabalhar em conjunto com a Rússia”.

A Casa Branca expôs seu apoio à integridade territorial da Ucrânia. Já começou a enfatizar, até, a importância da participação da Rússia no gerenciamento da crise. O Secretário do Exterior da Grã-Bretanha William Hague admitiu que seria importante que a Ucrânia cooperasse com ambos: com a Rússia e com a União Europeia.

Sim, mas... A questão importante não é o que eles pensem. A questão importante é se a Rússia quer cooperar com o novo regime em Kiev. 

Moscou condena resoluta e veementemente o crescimento de sentimentos neonazistas e neofascistas na parte ocidental da Ucrânia, as ideias de proibir o idioma russo, de converter os falantes de russo em “não cidadãos”, de limitar a liberdade de expressão e de extinguir todos os partidos políticos não prestigiados pelo novo regime. Washington precisa entender também que os líderes da Praça Maidan, que juraram fidelidade a valores europeus, lá estavam em flagrante violação de normas fundamentais da Constituição da União Europeia, relacionadas ao modo de tratar nacionalidades minoritárias, inclusive minorias que falem seus próprios idiomas.

Zbigniew Brzezinski
Nesse contexto, as predições de Zbigniew Brzezinski, essa semana, no Financial Times, de que a maioria dos ucranianos converter-se-ão em inimigos da Rússia soam, só, como piada macabra de russófobo decrépito. Essa semana, Zbigniew Brzezinski recomendou explicitamente a finlandização da Ucrânia. [2] Implica respeito mútuo, amplos laços econômicos com Rússia e com a União Europeia, não alinhamento com nenhuma das alianças militares que a Rússia vê como hostis. Assim, a cooperação entre Rússia e Europa faria progressos. Em resumo a finlandização está sendo oferecida como padrão de relações entre Ucrânia, União Europeia e Rússia. Ok, mas... Que conversa é essa?!

Não foi a Rússia, mas a União Europeia, quem disse que a Ucrânia teria de escolher entre a Europa e a Rússia. Foi o ultimatum lançado pela União Europeia, que Yanukovich teve de enfrentar. O presidente Putin da Rússia só fez perguntar por que, afinal, a Ucrânia teria de escolher, fosse o que fosse. Segundo ele, Moscou estava pronta para ajudar e a impedir o colapso da Ucrânia, unindo esforços com o ocidente. A ajuda poderia vir na forma de um pacote de ajuda tripartite. Washington e Bruxelas recusaram.

A eles, portanto, não à Rússia, é que Brzezinski deve dar suas lições de finlandização. Moscou jamais esqueceu que os ucranianos são nação-irmã – a Rússia e a Ucrânia são duas partes de uma mesma civilização.

Por isso, exatamente, o ocidente jamais inclui a Ucrânia na lista de seus aliados incondicionais.


Notas dos tradutores

[1] P. ex.; 5/12/2013, NB MEDIA CO-OP, Najat Abdou-McFarland em: View from the Longhouse: hundreds unite in peace and friendship against shale gas

[2] 24/2/2014, Zbigniew Brzezinski, em: Russia needs a “Finland option” for Ukraine [A Rússia precisa de uma “opção Finlândia” para a Ucrânia], Financial Times (só para assinantes) . Excertos:

Os EUA podem e devem fazer saber claramente ao Sr. Putin que os EUA estão preparados para usar sua influência para garantir que uma Ucrânia verdadeiramente independente e territorialmente íntegra trabalhará a favor de políticas para a Rússia semelhantes às efetivamente praticadas pela Finlândia: relações respeitosas de vizinhança, com amplas relações econômicas com a Rússia e com a União Europeia; nenhuma participação em qualquer aliança que Moscou considere como dirigida contra ela, mas expandindo sua conectividade europeia.

[Essa finlandização da Ucrânia seria necessária, para Brzezinski, porque]

A Rússia ainda pode lançar a Ucrânia numa destrutiva e internacionalmente perigosa guerra civil. Pode induzir e depois apoiar a secessão na Crimeia e em algumas partes industrializadas do leste do país

O artigo de onde foi tirada a frase acima: The Finlandization of Ukraine? não nos interessou, porque, se Brzezinski escreve como perfeito doido russófobo senil, o autor do artigo escreve como doido-de-repetição, ainda mais atrasado-atrasante.
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[*] Nikolay Bobkin é Ph.D. em Ciências Militares, professor associado e pesquisador sênior no Center for Military-Political Studies, Institute of the U.S.A. & Canada. Colaborador especialista na revista online New Eastern Outlook. Escreve habitualmente para diversos sites e blogs tais como: Strategic Culture, Troubled Kashmir, Make Pakistan Better e muitos outros.