domingo, 30 de março de 2014

Discurso do Presidente da Rússia, Vladimir Putin, em 18/3/2014 na Crimeia

26/3/2014, Sebastopol e Crimeia – Sayed Hasan
Comemoração do acesso da Crimeia e Sebastopol à Federação Russa Vídeo (3' 48") transcrito, legendado e enviado por Salah



PRESIDENTE DA RÚSSIA VLADIMIR PUTIN:

Caros amigos,  
Hoje é dia de muita alegria e felicidade para nós todos, cidadãos da Rússia, residentes na Crimeia e em Sebastopol!

Depois de longa, difícil, exaustiva viagem, Crimeia e Sebastopol estão voltando ao porto, às suas águas nativas, ao seu porto natal, a Rússia.

Quero agradecer aos residentes da Crimeia e de Sebastopol por sua posição consistente e decidida e pelo desejo, tão claramente manifesto, de estarem com a Rússia. Todos os amamos e a Rússia lhe dá seu calor, olha por eles e os acolhe de coração aberto.

Muito nos preocupam os desenvolvimentos na Ucrânia, mas acredito que a Ucrânia saberá superar todas as suas provações. Não somos meros vizinhos: somos uma só família e nosso sucesso futuro depende de todos nós, da Rússia e da Ucrânia.

Mais uma vez quero agradecer aos residentes na Crimeia e em Sebastopol por sua coragem e persistência, por se terem mantido fiéis à memória de seus ancestrais heroicos e por manter o amor por nossa terra comum, a Rússia, ao longo de décadas.

Juntos já fizemos muito, mas ainda há muito a fazer, mais tarefas a cumprir. Mas tenho certeza de que superaremos todos os problemas. E o conseguiremos porque nos mantemos juntos.

Viva a Rússia!
Hino da Rússia

Obrigado

sábado, 29 de março de 2014

Pepe Escobar: “EUA desesperados para isolar a Rússia em todos os fronts”

28/3/2014, [*] Pepe Escobar, Rússia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Reunião do G7 na residência oficial do Primeiro Ministro holandês em Haia (24/3/2014) discutem as linhas de contorno do Nuclear Security Summit (NSS).- Foto: Jerry Lampen
O governo Obama não carregará prisioneiros em sua sanha para tentar “isolar” a Rússia em todos os fronts possíveis – até agora, sem resultados importantes.

Já listei algumas razões pelas quais a Ásia não isolará a Rússia. E também algumas razões pelas quais a União Europeia não pode isolar a Rússia. Mesmo assim, o governo Obama prossegue, incansável, e continua a atacar em três grandes fronts – o G-20, o Irã e a Síria.

Primeiro, o G-20. A ministra de Relações Exteriores da Austrália, Julie Bishop, lançou um balão de ensaio, especulando que a Rússia e o presidente Vladimir Putin poderiam ser barrados da reunião do G-20 em Brisbane, em novembro.

A reação dos outros quatro nações-membros BRICS foi imediata:

A custódia sobre o G-20 pertence a todos os estados-membros igualmente, e nenhum estado-membro pode determinar, unilateralmente, sua natureza e caráter.

Austrália, sempre subserviente aos EUA, teve de calar o bico. Por hora.

Presidentes dos países BRICS em Durban 2013
Os BRICS, não por acaso, são a aliança chave do mundo em desenvolvimento dentro do G-20, que atualmente está discutindo o que interessa nas relações internacionais. O G-7 – que “expulsou” a Rússia de sua próxima reunião em Sochi, já transferida para Bruxelas – não passa de balcão de conversas de autopromoção.

De sanção em sanção

Então, há o Irã. O vice-ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Ryabkov deixou muito claro que se os EUA e fantoches selecionados insistirem em lançar sanções econômicas por causa do referendo da Crimeia,“nós tomaremos também medidas de retaliação”. E falava das negociações do P5+1 sobre o dossiê nuclear iraniano.

EmThree Reasons Why Russia Won't Wreck the Iran Nuclear Negotiations[Três razões pelas quais a Rússia não arruinará as negociações nucleares iranianas], 25/3/2014, Suzanne Maloney, Brookings], lê-se uma exposição bem acurada de o que o establishment norte-americano pensa sobre o papel da Rússia naquelas negociações.

É verdade que a revelação, em 2009, de uma instalação iraniana secreta, subterrânea, de enriquecimento de urânio não agradou a Moscou – a qual, em resposta, cancelou a venda do sistema S-300 de defesa aérea a Teerã.

Mas mais crucial é o fato de que Moscou quer que o dossiê nuclear iraniano permaneça sob o guarda-chuva do Conselho de Segurança da ONU – onde a Rússia pode exercer seu poder de veto; qualquer solução terá de ser multilateral, não engendrada por neoconservadores psicótico(a)s.

O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon (C) abre as chamadas negociações de paz de Genebra II ao lado do emissário da ONU-Liga Árabe para a Síria, Lakhdar Brahimi (E) em 22 /1/2014 em Montreux. (Foto: Fabrice Coffrini)
Facções políticas conflitantes no Irã talvez ainda duvidem do comprometimento de Moscou a favor de alguma solução justa – considerando que Moscou não fez grande coisa para aliviar o terrível pacote de sanções. E, sim, Rússia e Irã são concorrentes, como exportadores de energia – e sanções que castiguem o Irã são presentes para a Rússia (50% menos petróleo iraniano foi exportado desde 2011, e o país não se qualifica como grande exportador de gás natural).

Mas se o frenesi das sanções dos EUA engolfar também a Rússia, haverá fogos no céu: Moscou acelerará a troca de mais de 500 mil barris/dia de cru iraniano em troca de a Rússia construir mais uma usina nuclear; haverá outros movimentos russos para detonar a parede de sanções ocidentais; e Moscou também pode decidir vender não só os sistemas de defesa S-300 mas os S-400 ou o futuro e ultra sofisticado sistema de defesa S-500, a Teerã.

É tempo de ataques forjados, sob bandeiras falsas

Vadim Lukov
Há, finalmente, a Síria. Mais uma vez, os BRICS estão na vanguarda. O embaixador russo Vadim Lukov acertou o olho do alvo, quando disse que:

Falando bem francamente, sem a posição dos BRICS, a Síria já estaria, há muito tempo, convertida em Líbia.

Os BRICS aprenderam a lição para o caso da Síria, quando permitiram, com as abstenções em votação na ONU, que se abrisse a via para o bombardeio humanitário da OTAN que destruiu a Líbia e converteu o país em estado arruinado. Subsequentemente, a diplomacia russa interveio, para salvar o governo Obama de bombardear a Síria por causa de uma estúpida, sem sentido, autoinfligida “linha vermelha” – com consequências potencialmente cataclísmicas.

Agora, o enredo novamente se adensa. O enviado da ONU e da Liga Árabe, Lakhdar Brahimi anda dizendo que o reinício das conversas de paz de Genebra-2 está “fora de questão” por enquanto. Em briefing ao Conselho de Segurança da ONU no início de março, Brahimi culpou o governo sírio pela interrupção.

É completo absurdo. As incontáveis facções de oposição na Síria, todas oportunistas, jamais quiseram, nunca, qualquer negociação; só queriam mudança de regime. Para nem falar da nuvem de jihadistas – as quais, até recentemente, vinham criando fatos em campo com armas fornecidas a todas elas pelos petrodólares do Golfo.

Agora, abundam os boatos de que o governo Obama estaria pronto para “isolar” a Rússia – e por extensão os BRICS – também no caso da Síria.

O governo Obama, servindo-se dos proverbiais ‘funcionários’ não identificados, anda distribuindo relatos de desinformação sobre ataques de jihadistas contra interesses ocidentais, partidos do norte e do nordeste da Síria. Pode ser o prelúdio para um perfeito ataque de “terceiros”, apresentado sob bandeira falsa, a ser usado como pretexto para “justificar” uma intervenção ocidental – atropelando, obviamente, a ONU. Os doidos pró-guerra nunca pararam de sonhar com a tal zona de exclusão aérea sobre a Síria.

Mercenários da al-Qaeda (Frente al-Nusra) em 4/2013, próximo de Aleppo, Síria.
Foto: Guillaume Briquet
Esse cenário articula-se claramente com o escândalo em curso no governo Erdogan na Turquia: o que todos vimos por YouTube é exatamente uma conversa no plano da segurança regional, sobre como um membro da OTAN, a Turquia, poderia forjar um ataque, sob bandeira falsa, e atribuí-lo à Síria.

A conclusão é que a OTAN está longe de ter desistido da “mudança de regime” na Síria. Há notáveis simetrias em tudo isso. Putsch na Ucrânia. Ataque forjado na Síria. Ataque da OTAN à Síria? Ataque russo no leste da Ucrânia. Pode não ser tão delirante quanto parece. Daí que... abriram-se as apostas.

Todo o Novo Grande Jogo na Eurásia está sendo de tal modo distorcido, que agora temos Obama, o especialista em Direito Constitucional, a legitimar a invasão e a ocupação do Iraque (“os EUA procuramos trabalhar dentro do sistema internacional, não reivindicamos nem anexamos território iraquiano”) e os doidos fazedores-de-guerra na Think-tankelândia norte-americana a pregar embargo de petróleo contra a Rússia, como para o Irã, com Washington a usar seus fantoches sauditas para completar o serviço.

Depois de dar aulas aos europeus, em Haia e Bruxelas, sobre os desígnios “maléficos” dos russos, e desfilar em Roma feito neo-Cesar, Obama encerra seu tour triunfal precisamente lá, em sua satrapia saudita. Temos de nos preparar para uma imunda caixa de docinhos que vem por aí.



[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política do blog Tom Dispatch e correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

Continuidade e mudança... Sempre para pior − O paradoxo Obama

28/3/2014, [*] Andrew Levine, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O IVº Reich − por Maurício Porto
Barack Obama, candidato, prometeu mudanças; eleito, só entregou continuidade, continuísmo. Mas, na sequência, tanto continuísmo provocou mudança – para pior.

Em 2008, “mudança” significava qualquer coisa que os eleitores desejassem que significasse. Como o candidato, a palavra era como uma mancha de teste Rorschach.

Muitos, provavelmente a maioria dos eleitores de Obama, não tinham sequer ideia de que tipo de mudança esperavam. Só sabiam que, no governo de George W. Bush, o país perdera dramaticamente o próprio rumo. Supunham que Obama daria algum jeito naquilo.

Alguns eleitores tinham expectativas mais específicas. Alguns pensavam que Obama varreria do país o neoliberalismo. Com um derretimento financeiro e econômico galopante, a hora parecia ter chegado, o momento parecia maduro.

Alguns esperavam que Obama restaurasse o Estado de Direito e o respeito à lei, devolvendo as coisas, no mínimo, ao que eram antes do 11/9; muitos esperavam que os criminosos de guerra da era Bush fossem levados aos tribunais.

Outros supunham que o Partido Democrata voltaria a ser mais parecido com o que fora antes de os Clintons darem cabo dele.

E por aí vai, e a lista é longa.

Claro, ninguém sabia o que “mudança” significaria para Obama. Talvez nem Obama soubesse. Não haveria como ele ser mais vago.

Mas num ponto, todos, exceto talvez o próprio candidato e seus assessores mais próximos, concordavam: Obama transformaria o regime Bush-Cheney pós-11/9, transformaria totalmente, seria outro, completamente outro.

Não poderiam ter errado mais do que erraram.

Talvez tivessem ideias diferentes; talvez Obama fosse doente do que os antigos gregos chamavam de akrasia, desejo débil. Talvez jamais tenha havido qualquer lá, por ali.

Os mais ardentes apoiadores de Obama, os que continuaram com ele quando já se tornara bem claro que nenhuma mudança viria, culparam os Republicanos; muitos ainda culpam, até hoje. Os EUA-empresa garantem-lhes palco noturno, todas as noites: chamam a coisa de MSNBC.

Mas enganam-se a si próprios. Nem ante a obstinação e determinação dos Republicanos, o governo Obama precisaria ser tão perfeitamente igual ao governo Bush-Cheney como se tornou.

George Bush e Dick Cheney
Seja como for, os elogiadores de Obama têm um ponto a seu favor: os Republicanos são realmente aplicados, realmente se dedicaram a garantir que o governo Obama fosse retumbante fracasso.

Assim, pode-se dizer que os elogiadores de Obama não são, propriamente ditos, iludidos. Apenas, que deram ao homem deles – e à oposição – demasiado crédito.

Quem lá sabe o que Obama realmente pensa sobre os assuntos do dia, ou como compreende a relação entre o que diz e suas reais intenções. A única coisa que se pode afirmar com certeza é que as palavras de Obama são vagas, sem compromisso; e que, para todos os objetivos práticos, Obama e seus companheiros Democratas são idênticos aos Republicanos.

Nada, aí, é surpreendente; comem no mesmo cocho. O antagonismo entre eles é tático, não estratégico, nem ideológico.

De fato, o racismo modela as atitudes Republicanas, além de outras ansiedades de status e convicções ideológicas básicas. Os Democratas, no geral, são gente mais simpática. Mas, no fundo, os dois partidos só querem vencer as próximas eleições. Para eles, o negócio sempre é quem consegue mais bem servir ao 1%.

São péssimas notícias para os 99% de nós, cujos interesses e bem-estar não poderiam estar mais entregues às traças. Mas isso é o de menos. Quando nossos “líderes”, não importa o partido, põem os olhos em pontos bem além de nossas (cada dia mais policiadas e militarizadas) fronteiras, todo o planeta padece.

Ainda assim, seria de esperar que houvesse alguma, qualquer, pouca, que fosse, competência na Casa Branca e em todo o establishment da Política Externa dos EUA, proporcional à magnitude das tarefas. O que se constata de mais impressionante é que essa expectativa foi negligenciada igualmente, por governos Republicanos e Democratas, já há um quarto de século.

James Baker
Quando James Baker e Brent Scowcroft deixaram o governo, quem, em sã consciência, suporia que teriam sido os melhores de tudo que viria depois deles? E, ainda antes, quem suporia que os dias de Zbigniew Brzezinski e Henry Kissinger seriam vistos como uma Idade de Ouro, quando gigantes marchavam sobre a face do planeta?

Barack Obama, como Bill Clinton e George W. Bush antes dele, puseram um bando de imbecis sem-noção, encarregados de lançar o peso dos EUA contra todo o mundo. Não é surpresa que, agora, a coisa toda já esteja desabando sobre a cabeça deles mesmos.

No caso de Bush, a loucura foi de tal ordem que até o cachorrinho de Bush poderia consertar alguma coisa. Mas então veio o presidente da “mudança” para dar andamento ao servicinho de antes.

Resultado disso, as vítimas do império sofreram um enormidade, mas, até agora, o império sobrevive sem arranhões. Grande demais para falir. Mas, ah, sim, até para isso, há limites.

O governo Obama extrapolou esses limites duas vezes. E duas vezes Vladimir Putin salvou Obama.

Putin salvou Obama de ser arrastado para uma guerra catastrófica contra o Irã, e Putin salvou-o de fazer naufragar os EUA envolvidos na guerra na Síria.

Mas o arqui-inimigo dos EUA não promete ter a mesma serventia, quando os gênios do Departamento de Estado e do Conselho Nacional de Segurança miram suas maquinações contra a própria Rússia.

O establishment de política exterior de Putin supera o de Obama em todos os campos e medidas. No instante em que deixar de interessar a eles ajudar a salvar Washington, a boa sorte de Obama acabará num minuto (hora de Nova York ou de Moscou, tanto faz).

Era melhor no tempo de Bush-Cheney? Não era. Mas o mundo mudou – em parte, porque as políticas de Obama nunca mudaram. Por isso, na maior parte, aquelas mesmas políticas são hoje mais tóxicas do que foram nos dias de Bush-Cheney.

Nesse sentido, até que mudamos, afinal de contas. Mas quando se fazem as contas, vê-se que estaríamos melhor, se tivéssemos conseguido menos do mesmo, em vez de mais do mesmo, como temos hoje.

Bush e Cheney atropelaram o devido processo legal e os direitos de privacidade, em nome da segurança. Com eles no poder, as limitações Constitucionais eram apenas pequeno inconveniente que eles se sentiam a vontade para ignorar.

Edward Snowden
Também para Obama. Mas, ao dar prosseguimento ao trabalho dos dois que o precederam, Obama piorou qualitativamente, tudo. Graças a Edward Snowden, temos hoje ideia de como era ruim e de como ficou muito pior.

Não sabemos o quanto de terrorismo foi contido, se algum terrorismo, de fato, foi contido, por Bush e Cheney – ou por Obama. O que, sim, sabemos, é que eles aumentaram muito a oferta de terroristas possíveis. Para isso serve invadir países dos outros; para isso serve aterrorizar populações civis, lançando sobre elas morte e desgraça.

Obama fez aumentar muito o nível do terror, mesmo que talvez tenha reduzido o nível geral de violência bélica.

Seus antecessores também usaram assassinos profissionais e drones. Mas, na quantidade, preferiram soldados e bombardeiros. No geral, faziam a coisa à moda antiga.

Obama, o candidato da paz, manteve todas aquelas guerras; escalou, até, algumas delas por algum tempo – o suficiente para repaginar as ocupações do Iraque e do Afeganistão.

Mas Obama deu preferência ao assassinato clandestino – a maioria dos assassinatos cometidos por Obama foram cometidos por assassinos mascarados e por drones. Com isso, Obama modificou a postura dos militares norte-americanos. De um ponto de vista moral, ficaram piores do que eram.

Agora, o terror já não é só o último recurso dos humilhados; agora, já é também primeira escolha de um exército super equipado, mais mortífero que todos os demais exércitos do mundo somados.

Ao assumir a coisa no ponto em que Bush e Cheney a deixaram, esse laureado do Prêmio Nobel pôs à solta o equivalente funcional de um exército de suicidas-bombas, lançando partes imensas do mundo muçulmano num perpétuo reino de terror.

Os drones de Obama são especialmente daninhos.

Drone MQ-1
Por um lado, porque são ainda piores que suicidas-bombas, porque aterrorizam mais eficientemente populações civis. Gente comum pode evitar locais que suicidas-bombas tendem a escolher como alvos; mas ninguém consegue pôr-se a salvo daqueles drones.

E, de um ponto de vista moral, matar com drones é, visivelmente, crime pior. Suicidas-bombas dão a vida pela própria causa. No fim do dia de trabalho, os operadores de drones norte-americanos jantam em casa com a família.

Os "operadores" não assistem o enterro de civis no Paquistão (principalmente velhos, mulheres e crianças) assassinados pelos drones dos EUA
Os seus superiores, os que ordenam a matança, esses, envolvem-se ainda menos. Quem decide quem morrerá é Obama; seus funcionários decidem onde e quando; os sub-dos-subs apertam os botões. Quanto mais altos na cadeia de comando, mais eles têm cara de satisfeitos consigo mesmos.

Em questões ambientais, Obama também piorou as coisas, só por ter prosseguido nas políticas de nada fazer dos predecessores. Enquanto isso, as mudanças ecológicas continuam e rapidamente todos os perigos só fazem aumentar.

O governo Obama introduziu algumas poucas mudanças para melhor: por exemplo, nos padrões de emissões de gás carbônico. Mas nada fez contra as grandes causas do aquecimento global. Assim, a cada ano que passa, aproximam-se os pontos sem volta; alguns já ficaram para trás.

E há também a tendência, em Obama, de aprofundar os danos iniciados pelos predecessores, o que Obama consegue mediante políticas de implementação mais efetivas.

Mas o que Obama mais faz é falar e engambelar quem o ouça. Por exemplo: Obama falou muitas vezes a favor da reforma das leis da imigração; sim, mas... o recorde de deportações de Obama é muito superior ao de Bush. Contra o trabalho organizado, também, Obama fez muito mais que Bush.

Em linha semelhante, Obama jamais disse uma palavra que não fosse a favor da transparência no governo e da importância de uma imprensa crítica vigorosa. Quem o ouça falar, pensará que é o melhor amigos dos vazadores. Sim, mas, também nesse quesito, Obama tem sido pior que Bush e Cheney ou, na verdade, pior que todos os presidentes antes dele, exceto talvez, Richard Nixon.

O homem fala como papagaio. Não diz coisa com coisa. Claro, nas questões domésticas, ele tem lá suas razões, prestem ou não. Mas no front diplomático, parece não haver sequer uma linha de pensamento coerente por trás do que ele diz; nem ele nem sua equipe, nada, sequer alguma vaga ideia.

Por isso o mundo hoje é ainda mais perigoso do que quando Obama assumiu.

O problema não é só que a Guerra ao Terror, e sua continuação no governo Obama, tenha sido estupendamente contraproducente; que criou e reuniu terroristas muito mais depressa do que os assassinos profissionais e os drones e os “coturnos em solo” conseguiam matá-los.

Já se vai tornando claro também que as guerras Bush-Obama desestabilizaram toda a região – da Líbia ao Paquistão e ultimamente, sob o “comando” de Obama, também das margens do Tigre ao Mar Mediterrâneo.

O Leste da África, áreas muçulmanas muito distantes, no Oceano Pacífico, também foram incendiadas, e estão hoje em situação pior que antes.

O Irã como potência regional, cercado de bases dos EUA
As guerras do governo Bush-Obama também reforçaram o papel do Irã como potência regional. Seja isso bom, ou mau, é claro que esse jamais foi o objetivo dos EUA e de Israel.

Claro, o sem-noção total é faca de dois gumes. A América Latina muito se beneficiou do fato de os EUA estarem metidos simultaneamente em vários pântanos no Oriente Médio.

Enquanto Bush e Obama olhavam para outro lado, floresceram movimentos populares na Nicarágua, no Equador, na Bolívia e no Uruguai. E também o Brasil e a Argentina começam a deslocar-se para a esquerda.

E, apesar de várias tentativas desde o 11/9 – a mais recente está ainda em andamento nesse momento – os EUA não conseguiram derrubar o governo democraticamente eleito da Venezuela. A guerra sem fim que os EUA fazem contra Cuba está hoje mais perdida que antes.

Ao sul dos EUA, os ataques do 11/9 – ou, melhor dizendo, a reação dos EUA àqueles ataques – foram, pode-se dizer, um presente de Deus.

Já é cada dia mais evidente que, pelo menos num sentido, também foram presente de Deus para o resto do mundo. As manobras contraproducentes dos EUA contra o mundo muçulmano levaram a um beco sem saída os planos de EUA e União Europeia para levar as fronteiras do “ocidente” até as portas da Rússia e para cercar a Rússia com bases da OTAN.

Esse plano foi posto em andamento nos tempos de Clinton. A Rússia então não estava em posição de poder oferecer muita resistência – não naquele momento, quando cleptocratas governavam o país, e a maioria da população russa padecia dificuldades econômicas, desemprego e perda de serviços públicos, resultados da restauração, na Rússia, de um sistema econômico antiquado.

O sucesso dos EUA−Europa (principalmente, a Alemanha), no desmembramento da Iugoslávia, serviu então como prática e estímulo. Com o novo milênio chegando, o futuro parecia aberto para eles.

World Trade Center, 11 de setembro de 2001
Mas então veio o 11/9 e as prioridades mudaram. Hoje, parece que estão mudando outra vez, para trás.

Evidentemente os sétimos céus da política exterior dos EUA convenceram-se de que, além de prosseguirem contra o Oriente Médio, a Ásia Central e o subcontinente indiano, é hora de meterem também a Rússia, de volta, na alça de mira.

Tudo isso pode ter a ver também com o petróleo, pelo menos em alguma medida; mas o petróleo não é o fator principal. E vai bem além das exigências de comandar algum império global ou tornar o mundo seguro – ou ainda mais seguro – só para os capitalistas ocidentais.

Os capitalistas ocidentais não precisam de nenhum tipo de renascimento do fascismo europeu e do antissemitismo europeu. Nem eles precisam, nem nós precisamos. Tampouco, nem eles nem nós precisamos de movimentos à Al-Qaeda brotando por todo o Oriente Médio, ou pelo centro e sul da Ásia.

Mas as políticas de nossos “líderes” levaram todos a isso. Desnecessário dizer que chegaram onde não lhes interessava chegar. Mas, sendo assim, o que, afinal, eles têm em mente? Bobagem procurar. Nada têm em mente que seja, sequer remotamente, coerente; o mais provável é que absolutamente não saibam o que fazem.

Mesmo assim, seguem “em frente”. Com os velhos “satélites” soviéticos já pendurados nos EUA e na Europa, a única coisa que lhes resta é levar a União Europeia e a própria OTAN para dentro da própria velha União Soviética.

A ideia é ridícula, risível, e não só porque a Rússia é hoje muito mais poderosa do que foi nos anos 1990s. Se o império Americano não estivesse em mãos tão incompetentes, nada disso estaria acontecendo.

Derrubar governos recalcitrantes nunca foi difícil para os serventes do império. Os velhos métodos foram aperfeiçoados, primeiro, na América Latina. Depois da IIª Guerra Mundial, foram aplicados no resto do mundo.

A fórmula é simples: invista dinheiro pesado em criar o caos. Depois, no momento adequado, apoie com discrição golpes de estado locais, perpetrados por fregueses ou simpatizantes.

É exatamente o que estão fazendo nesse momento – até aqui sem sucesso – na Venezuela.

Mas, até hoje, os “líderes” dos EUA sempre tiveram o bom senso de manter suas maquinações confinadas nas esferas de influência dos EUA ou em áreas periféricas que não gerassem graves preocupações de segurança para as grandes potências.

Depois da IIª Guerra Mundial, não havia grande potência maior que a União Soviética. Era aceitável encorajar dissidentes lá e na Europa Oriental. Mas nenhum “líder” norte-americano seria suficientemente doido para falar em “mudança de regime”; não, é claro, com a possibilidade de desencadear uma guerra nuclear. O papel de Eisenhower no Levante da Hungria em 1956 foi, nesse sentido, exemplar.

A Rússia pós-1991 ainda era capaz de reduzir o planeta a poeira. Assim sendo, até Bill Clinton mostrou algum bom senso. Foi levado pelas circunstâncias – mas não ao ponto de total temeridade. E safou-se.

É pouco provável que sua esposa tenha tido muito a ver com os planos de ampliar a União Europeia ou de levar a OTAN para a fronteira da Rússia. Não parece tampouco que fosse item de sua lista-de-supermercado quando foi Secretária de Estado do governo Obama.

Hillary Hitler
Mas Hillary Clinton pula, lépida, em qualquer vagão que passe por ali. E, sim, já abraçou abertamente a causa. Em sua alocução de estreia, já logo declarou que Vladimir Putin “é Hitler”.

Frase idiota. Mas, se se considera a fonte, perfeitamente esperável.

Obama foi além dessa, nas imbecilidades. Falando na Bélgica, depois de reunir-se com líderes do G-7 (mais, e agora menos, 1), não teve vergonha nem de insultar o presidente da Rússia: disse que não passa (ria) de líder de potência regional cujas ações manifestam fraqueza. Falou como maluco. Obama chamou Putin, de fraco. Como consegue ainda olhar a própria cara no espelho?

Mas... e como consegue olhar alguém de frente, depois de acusar Putin de ter violado a lei internacional? Obama é inacreditável.

Será que a ideia de reviver as políticas da era Clinton é ideia de Obama? Ou se devem culpar eminências secundárias como John Kerry, ou aqueles horrendos “interventores humanitários” que Obama cobriu de poderes? Seja a culpa de quem for, a ideia de gerar riscos de segurança nacional para a Rússia é a pior ideia que alguém teve, nos EUA, desde o dia em que George W. Bush, caído em desgraça, saiu da Casa Branca.

Se Obama era dito “menos ruim” que John McCain em 2008, era, precisamente, porque se dizia não cúmplice desse tipo de ideia. Se se observa a inclinação que McCain manifesta hoje de não se envergonhar de exibir a própria temeridade tresloucada, Obama & McCain fazem, isso sim, perfeita dupla.

Seja como for, já está claro que EUA e União Europeia – e os nacionalistas ucranianos cujo golpe encorajaram – perderam tudo, pelo menos num item: nada e ninguém desfará a incorporação da Crimeia à Rússia.

Vladimir Putin
Com todos os erros e falhas, Putin e sua equipe são tão absolutamente melhores que Obama e sua gangue, que, a partir do momento em que se organizam para agir, os russos sempre se saem melhor, mesmo que tenham de jogar com cartas mais fracas.

Felizmente, os russos não são só mais espertos: também são mais sábios. Sabem quando não forçar a própria boa sorte; por isso, esperemos, saberão lidar com opositores tão totalmente sem-noção, sem rumo e sem vergonha quanto os que lhes apareceram agora.

Por isso, é bem provável que os EUA nos safemos de mais essa. Os perigos que Obama et. alii lançaram sobre o mundo, quando resolveram meter as garras na Ucrânia, continuarão, provavelmente, contidos.

Diferente dos EUA, a Rússia tem interesses legítimos de segurança nas repúblicas ex-soviéticas. Obama e sua gangue são, portanto, como crianças brincando com fósforos. Os russos, como tudo indica, também sabem resistir a provocações imbecis.

Porque, sim, os russos foram provocados. E continuarão a ser provocados. Obama pode, sim, decidir pôr fim às provocações, mas, até aqui, só tem feito o contrário.

Nos últimos dias, a animosidade anti-Rússia parece já ter ultrapassado todos os muros de Washington. E para onde andem Democratas e Republicanos, atrás deles segue toda a imprensa-empresa. Os suspeitos de sempre estão ocupadíssimos, tentando provocar o máximo dano possível, com a maior velocidade possível.

Nunca mais, desde a invenção da Guerra do Iraque, viu-se tanta propaganda de promoção dos erros e loucuras do governo dos EUA, como agora. A National Public Radio (NPR) está excepcionalmente insuportável. Eu, pessoalmente, já não suporto ouvir aquilo, nem para manter uma vozinha de fundo, enquanto trabalho.

Se os russos não morderem a isca e não descerem ao nível de Obama, as consequências são terríveis.

E o futuro não será melhor, se não morderem nem descerem. A equipe Obama faz o que bem entende com tanta frequência, que quanto mais fazem, mais querem fazer.

Portanto, se não forem detidos, as provocações continuarão, cada dia mais perigosas. Há outras repúblicas ex-soviéticas por lá; e não se pode esquecer que Obama ainda comicha de vontade de pivotear-se “na direção da Ásia”.

Em outras palavras, Obama também está olhando na direção da China. É terrível. Tampouco nisso, vê-se qualquer sinal de prudência naquela cabeça.

É grave ironia – e patética ironia – que a melhor esperança dos norte-americanos para evitar as piores consequências das políticas de Bush-Obama seja hoje um conservador russo, homem-forte liberal – presidente com inclinações autocráticas, mas, também, político consistente e competente, com senso histórico, suficientemente esperto e sábio para não se pôr a cometer loucuras armadas pelo planeta. Não é o melhor que se pode esperar da democracia. Apenas mostra o quanto a democracia norte-americana está distante da democracia ideal.

Mas, com presidente incompetente, sem vergonha e sem noção – e sistema político tão corrupto e degradado que já não garante a mudança para a qual os eleitores votam – o que temos hoje nos EUA é o máximo de “hope” e de “change” que sobrou para nós.



[*] Andrew Levine é professor sênior do Institute for Policy Studies, e autor de THE AMERICAN IDEOLOGY (Routledge) e POLITICAL KEY WORDS (Blackwell), bem como de muitos outros livros e artigos em filosofia política. Seu livro mais recente é In Bad Faith: What’s Wrong With the Opium of the People. Foi professor de Filosofia) na University of Wisconsin-Madison e professor pesquisador (filosofia) na University of Maryland-College Park. É co-autor de Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press).