terça-feira, 29 de abril de 2014

Ucrânia: Relatório de Situação (SITREP), 28/4/2014, 1447 UTC/Zulu


28/4/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Tradução de mberublue


The Saker

• Insurgentes de fala russa tomaram sob seu controle os prédios da Prefeitura e da Câmara Municipal (Conselho do Município) da cidade de Konstantinovka, no leste da Ucrânia. Os insurgentes declararam que estão nos prédios para proteger as autoridades locais (que são contrárias ao regime “revolucionário” de Kiev), contra qualquer ataque pela Junta.

Mikhail Khodorkovsky
• Quem apareceu em Donetsk foi o oligarca judeu russo Mikhail Khodorkovsky, para demonstrar seu apoio ao novo regime, provavelmente seduzido pela abundante oligarquia da Ucrânia. De acordo com Khodorkovsky, “Donetsk está na realidade longe de ser tão pró-Rússia quanto poderia”.

• Um atirador não identificado baleou e feriu gravemente Gennadi Kermes, prefeito de Carcóvia, atingido nas costas. O atirador deve ter usado um rifle de longo alcance. O projétil trespassou o corpo de Kermes, causando sérios danos a seus órgãos internos.

• Durante o final de semana(26 e 27/4/2014), mais seis criminosos do Pravy Sektor (Setor Direita – movimento neonazista da Ucrânia) foram presos quando tentavam sorrateiramente penetrar na área de Donetsk.

• De acordo com The Guardian, os judeus da Ucrânia não deveriam temer os neonazistas banderistas, e sim Putin, a Rússia e a propaganda russa. 

• Novas sanções contra a Rússia foram anunciadas por Obama.

• Novas sanções contra a Rússia serão anunciadas pela União Europeia.

• No domingo (27/4/2014), vândalos hooligans entraram em conflito com falantes de russo pró-Federação. Houve pessoas feridas, mas não mortes.

• Apareceram na internet alguns falsos snuff-videos [1] supostamente feitos pelo Pravy Sektor (Setor Direita) mostrando policiais sendo mortos. Quase com certeza são falsos, mas até agora não foi possível saber quem está por trás disso.

Gennady Kernes
Uma interessante tendência está começando a emergir: o aprofundamento de uma ruptura entre, digamos, os líderes “oficiais” do leste ucraniano e seu próprio eleitorado. Estou falando de pessoas como Mikhail Dobkin, Gennadi Kermes (que foi baleado hoje) ou ainda outras pessoas que representam o Partido das Regiões no que sobrou do Parlamento ucraniano. Os líderes da insurreição antirregime são inflexíveis na afirmação de que o Partido das Regiões e todos os seus membros já os traíram anteriormente por muitas vezes; e que a simples ideia de participar de eleições presidenciais organizadas pela Junta em Kiev não passa de mais uma traição dentre várias.

Em um dos mais populares programas de mesa redonda da TV russa (Domingo à noite comVladimir Soloviev) um dos representantes do Partido das Regiões supostamente “pró-russos” acabou por discutir aos berros com cerca da metade dos convidados do programa, inclusos aí três representantes da insurgência pró-Rússia no leste ucraniano e vários bem conhecidos analistas russos. Até este momento, a figura “menos detestável” dos políticos do leste ucraniano pode vir a ser Oleg Tsarev, expulso do Partido das Regiões e que inicialmente anunciara que concorreria à presidência do país, porém abandonou a disputa quando confrontado sobre isso pelo povo de Donetsk. Ele também é o político que foi convidado para o show ukie “Liberdade de Expressão”, que lhe garantiu proteção e posteriormente o abandonou para que fosse agredido gravemente e parcialmente despido por bárbaros neonazistas em frente à estação de TV.

Mikhail Dobkin
Por falar em estações de TV, logo em seguida à proibição de retransmissão da TV russa na Ucrânia, os insurgentes do leste ucraniano ocuparam e tomaram o controle de algumas estações de TV, restaurando a retransmissão da programação das estações de TV russas. Curiosamente, se restaurou também a transmissão das TVs controladas por Kiev. Eles não conseguiram tirar do ar as estações ucranianas.

Até o momento a operação anunciada duas vezes, de submeter os falantes de russo no leste ucraniano, nada conseguiu a não ser alguns mortos e a total radicalização da população local. A estratégia corrente de fazer o cerco às cidades rebeldes está fadada ao fracasso total, já que o tempo agora trabalha contra a Junta. Em minha opinião, o leste da Ucrânia atingiu a velocidade de escape, chegou ao ponto de não retorno e simplesmente não vejo, hoje, uma figura que possa tornar realidade o hercúleo trabalho de federalizar a Ucrânia. Não apostaria sequer que o próprio Putin possa realmente, agora, conseguir isso.

Finalmente, há fortes sinais de que, definitivamente, há gente tentando piorar as coisas. Tome como exemplo o snuff-video que mencionei anteriormente, ou, ainda nesse assunto, as filmagens de Kermes. Ironicamente, tanto o Pravy Sektor quanto os insurgentes são ambos contra uma solução negociada e ambos têm contra a Junta no poder o mesmo sentimento de ódio. O tiro que feriu Kermes pode ter sido disparado por qualquer um dos lados.

Anotação sobre a terminologia empregada:

Uso muitas expressões que em minha opinião tem um valor neutro. Falo sobre os “insurgentes” no oeste da mesma forma que falava sobre os “insurgentes” da Praça Maidan. Todos os que tomam em armas contra determinado regime são, do meu ponto de vista, insurgentes. Isso não implica condenar ou desculpar as suas ações. Da mesma forma, a expressão “regime revolucionário”. Regime revolucionário, para mim, é o que traz uma mudança radical na ordem, no staff, no governo, enfim. Lógico que essa mudança pode vir para o bem ou para o mal. Igualmente para “rebeldes”, que seriam os que não aceitam, que desobedecem de forma frontal, as ordens de determinada autoridade. Não acredito, mais uma vez, que essas expressões impliquem algo mais que a descrição de uma situação de fato.

Fiquem ligados. Atenciosamente,

The Saker



Nota do tradutor

[1] Snuff-video faz menção aos snuff-movies, filmes que pretendem mostrar torturas ou mortes reais, sem qualquer efeito especial ou trucagem, com o fim de exploração comercial. Geralmente vistos como lenda urbana.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Ucrânia: Obama anuncia MAIS sanções contra 17 empresas e 7 cidadãos da Rússia

NADA poderia ser mais RIDÍCULO!



Resposta da Rússia às sanções

A Conexão Clinton − Pinchuk: uma oligarquia ucraniano−norte-americana


21/2/2014, [*] Manlio Dinucci, Il Manifesto, Itália
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Bill Clinton cumprimenta Viktor e Olena Pinchuk 
Na mesa em Kiev, onde estava sendo negociado o acordo formal entre o governo, a oposição, a União Europeia e a Rússia [acordo que, logo no dia seguinte foi rompido pelos doidos neofascistas em Kiev], oficialmente não havia representante da poderosa oligarquia internacional que – com laços mais íntimos com Washington e a OTAN, que com Bruxelas e a União Europeia – está empurrando a Ucrânia na direção do Ocidente.

Caso exemplar é Viktor Pinchuk, magnata do aço, 54 anos, classificado pela revista Forbes como um dos homens mais ricos do mundo.

Pinchuk começou a acumular sua fortuna em 2002, quando se casou com Elena, filha de Leonid Kuchma, o segundo presidente da Ucrânia (1994-2005). Em 2004 o ilustre sogro privatizou a siderúrgica Kryvorizhstal, maior produtora de aço da Ucrânia, vendendo-a ao grupo Interpipe, do qual o genro era coproprietário, por 800 milhões de dólares, cerca de 1/6 do real valor da empresa.

Em 2007, Pinchuk fundou o grupo EastOne Group Ltd., empresa de assessoria a investidores internacionais, que oferece a multinacionais todas as ferramentas para penetrar nas economias do Leste europeu. Simultaneamente, tornou-se proprietário de quatro canais de televisão e de um tabloide popular (Fatos e Comentários) com circulação de mais de um milhão de jornais. Sem jamais, contudo, negligenciar a caridade, criou também a Fundação Viktor Pinchuk, considerada a maior “organização filantrópica” privada ucraniana. 

Viktor e Olena Pinchuk
Foi mediante essa fundação que Pinchuk ligou-se aos Clintons, como apoiador da Iniciativa Clinton Global, criada em 2005 por Bill & Hillary, cuja missão é “reunir líderes mundiais para criar e implementar soluções para os mais difíceis desafios globais”. Por trás do slogan impressionante, jaz o objetivo real: criar forte rede de apoio internacional para Hillary Clinton, a ex-primeira dama que, depois de servir como senadora por New York de 2001 a 2009, e como Secretária de Estado de 2009 a 2013, tenta agora sua segunda avançada à presidência.

A frutuosa colaboração começou em 2007, quando Bill Clinton agradeceu a “Viktor e Olena Pinchuk por sua vigorosa atividade social e o apoio que deram ao nosso programa internacional”.

Esse apoio consubstanciou-se numa primeira contribuição de 5 milhões de dólares, seguida de outras, para a Iniciativa Clinton Global. E abriu as portas para Pinchuk em Washington: por 40 mil dólares mensais, contratou o lobbyista Daniel E. Schoen, que agendou para seu patrão vários contatos com figuras influentes, inclusive uma dúzia de encontros em um ano, entre 2011 e 2012, com altos funcionários do Departamento de Estado. Os contatos revelaram-se excelentes para os negócios, permitindo que Pinchuk aumentasse suas exportações para os EUA, embora metalúrgicos na Pennsylvania e Ohio o estejam acusando de ter derrubado os preços dos tubos de aço fabricados nos EUA.

Viktor Pinchuk e Hillary Clinton doando 5 milhões de dólares à Fundação Clinton
Para estreitar ainda mais seus laços com os EUA e o Ocidente, Pinchuk criou a Yalta European Strategy (YES), “a maior instituição social do leste europeu para diplomacia pública”, cujo objetivo oficial é “ajudar a Ucrânia a converter-se em país moderno, democrático e economicamente eficiente”. Graças à capacidade financeira de Pinchuk (gastou mais de $ 5 milhões de dólares na celebração do próprio 50º aniversário, numa estação francesa de ski), a YES pôde montar ampla rede de contatos internacionais, que vieram à luz na reunião anual da instituição, em Yalta.

Reuniu “mais de 200 políticos, diplomatas, estadistas, jornalistas, analistas e líderes empresariais de mais de 20 países”. Entre esses, os principais nomes eram Hillary & Bill Clinton, Condoleezza Rice, Tony Blair, José Manuel Barroso e Mario Monti (presentes à reunião em setembro último), além de outros personagens menos conhecidos, mas nem por isso menos influentes, como vários diretores do Fundo Monetário Internacional.

Nas palavras de Condoleezza Rice, na reunião da YES em 2012, “Transformações democráticas exigem tempo, exigem paciência, exigem apoios. Tanto de dentro, como de fora”. É excelente resumo da estratégia que o Ocidente adotou, na rubrica “apoio de fora”, para promover “mudanças de regime”.

É a estratégia amplamente consolidada da Iugoslávia à Líbia, da Síria à Ucrânia, que consiste em cravar uma cunha em fissuras que existam em qualquer estado, ampliar a fissura e chacoalhar o estado, desde as fundações, apoiando e fomentando manifestações antigoverno (como as que se veem em Kiev, pontuais e organizadas demais para que se possa crer que sejam espontâneas), tudo isso acompanhado de campanha gigantesca, pela imprensa-empresa-“midiática”, contra o governo “marcado para morrer”.

No que tenha a ver com a Ucrânia, o objetivo é ou pôr abaixo o estado, ou parti-lo em dois: uma parte que se una à OTAN e à União Europeia; a outra, mais ligada à Rússia. A estratégia da empresa Yalta European Strategy do oligarca ucraniano parceiro dos Clintons encaixa-se exatamente aí.
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[*] Manlio Dinucci é geógrafo e geopolíticólogo italiano. Últimas publicações: Geocommunity Ed. Zanichelli 2013; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010; Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. Derive Approdi 2005.


Notas da redecastorphoto:

Eis aqui, também,  alguns aspectos da Conexão do oligarca Pinchuk com a França levantados por Anna Malm:  

Pinchuk e Aurélie Filippetti
Quarta-feira, 27 de março de 2013. A Ministra da Cultura e da Comunicação da França, Madame Aurélie Filippetti, entregou as insígnias de Cavalheiro da Ordem de Artes e Letras à Victor Pinchuk, com a saudação de que se via nele “a imagem europeia do mecenato” assim como o “feliz casamento entre a indústria e a cultura. Assim como a imagem da monumental instalação de Olafur Eliasson, na qual o ferro se mostra em súbitos e constantes mudanças de estado, metamorfoseia-se também a nova fabricação do aço de Pinchuk. Ver em: Victor Pinchuk chevalier de l’ordre des Arts et des Lettres publicado em 1/4/2013, Ambassade de France em Ukaine – Kiev.

Pinchuk é um judeu ucraniano em terra de históricos POGROMS, este financista de 52 anos (em 2011), classificado como a 336ªfortuna do mundo pela revista Forbes/2011 (hoje estimada em 2,7 bilhões de Euros).

Viktor Pinchuk durante a entrevista
Meu professor de arte contemporânea é francês, Nicolas Bourriaud (crítico de arte que dirigiu “Le Palais de Tokyo” – “O Palácio de Tóquio” com Jérôme Sans de 2002 à 2006 e que atualmente é o diretor do “Beaus-Arts de Paris”- “Belas-Artes de Paris”, desde outubro de 2011). Eu o chamo mesmo de meu gurú! Eu o reencontrei em 2002 por intermédio do meu amigo Marcel Gross, diretor associado da Euro RSCG”.
Como existir socialmente em seu país sem se fazer nada de política?” É a Euro RSCG, na pessoa de Français Stéphane Fouks, que vai fornecer a Pinchuk uma resposta contendo três pontos centrais : 1. Criando um museu de arte contemporânea que valorize a arte ucraniana. 2. Criar um grupo de discussões (think tanks) para magnificar a Ukraina e sua entrada na Europa. 3. Criar uma fundação anti-sida abaixo da direção de sua esposa.

O oligarca se investe na filantropia
[...] Num certo período da vida apresenta-se o tempo de devolver o que se recebeu; guiado, então, por uma visão, disse Pinchuk. Entretanto a  Ucrânia não sai do seu rol de interesses: o frenesi artístico não é mais que uma etapa de conquista. Em cada outono europeu, em Yalta na Ucrânia, o seu grupo de discussões YES, Yalta European Strategy, trabalha para valorizar a Ucrânia com convidados como Tony Blair ou Dominique Strauss-Kahn. Em Davos, à margem da reunião formal, ele imprimiu sua marca em 27 /1/2013 organizando uma mesa redonda com a jovem Cheikha Mayassa, princesa do Qatar, a qual se interessa muito por arte, e escritor brasileiro, Paulo Coelho.


Síria hoje, e EUA há 150 anos: Eleições em tempo de guerra civil

25/4/2014, [*] Caleb Maupin, Russia Today,
Traduzido peloo pessoal da Vila Vudu

O mais provável é que, em 2014, Bashar al-Assad seja reeleito presidente da República Árabe Síria. A história síria o recordará para sempre, como governante civilizado e herói do seu povo.
(14/9/2013, redecastorphoto: Uma breve história da guerra dos EUA contra a Síria: 2006-2014, Moon of Alabama, traduzido)

Membro da Defesa Civil e residente afastam-se de local bombardeado por terroristas - Aleppo, Distrito de al-Shaar  em 24/4/2014 (foto: Hosam Katan)
A Síria terá eleições presidenciais dia 3 de junho. A imprensa-empresa ocidental “midiática” zomba da ideia de haver eleições em tempo de guerra civil que já fez mais de 100 mil vítimas, entre mortos e refugiados.

Toda a imprensa-empresa já se prepara para pôr-se a tentar desqualificar o resultado – que, como tantos sírios desejam e esperam, mostrará Bashar al-Assad reeleito.

Curioso, nisso, é que tantos jornalistas e “especialistas” midiáticos norte-americanos esqueçam parte tão importante da própria história dos EUA.

Há 150 anos, em 1864, os EUA fizeram uma eleição presidencial, apesar de estarem mergulhados, há três anos, numa muito sangrenta guerra civil.

Abraham Lincoln
Abraham Lincoln governava os EUA e enfrentava batalha cruel contra uma insurgência armada interna. Lincoln, membro do recém constituído Partido Republicano, fora eleito com plataforma em que se comprometia a conter e pôr fim à expansão da escravidão. Em 1861, os ricos proprietários de escravos do sul dos EUA armaram-se em guerra contra o governo federal, na esperança de preservarem para eles o direito de propriedade sobre milhões de escravos que consideravam “propriedade privada” deles.

No processo da guerra, Lincoln foi forçado a relutantemente abolir a escravatura, primeiro com a Proclamação de Emancipação, depois com Emendas à Constituição dos EUA. A Guerra Civil foi, realmente, a Segunda Revolução Americana, que mudou completamente o contexto econômico dos EUA. Os capitalistas industriais dos EUA do Norte, com apoio de sindicatos, bem amados guerrilheiros antiescravidão como Frederick Douglas, e escravos rebeldes armados como Harriet Tubman, esmagaram a escravocracia dos EUA do Sul. No processo, foram mortos 750 mil soldados, e o número de civis norte-americanos mortos não é conhecido até hoje.

Os dois lados acusaram-se mutuamente de brutais crimes de guerra – os EUA do Norte usaram até a fome, como arma, contra os EUA do Sul – tortura e assassinato de civis.

Enquanto a maioria dos EUA do Norte apoiava o governo eleito de Lincoln na luta contra a Confederação dos Proprietários de Escravos dos EUA do Sul, a cidade de New York abrigava um poderoso núcleo de militantes pró-escravatura, porque Wall Street, até hoje centro do sistema capitalista mundial, estava fazendo milhões de dólares com as empresas financeiras do comércio escravista. E muitos ricos capitalistas britânicos e conhecidos políticos, como William Gladstone, também apoiavam os insurgentes pró-escravatura dos EUA do Norte. As indústrias britânicas viam as fazendas do sul, movidas à mão de obra escrava, como importantes fornecedoras de algodão barato e de outras matérias primas.

Karl Marx
Na cidade de New York, o jornal mais popular, do Partido Republicano, era o The New York Tribune. O correspondente em Londres, da Tribune, era Karl Marx, autor do Manifesto Comunista e líder da Associação Internacional de Trabalhadores. Karl Marx escreveu carta a Lincoln, em nome da Associação Internacional de Trabalhadores, entregue ao embaixador dos EUA em Londres, Charles Francis Adams, dia 28/1/1865:

Os trabalhadores europeus têm certeza de que, assim como a Guerra da Independência Americana iniciou uma nova era de ascensão para a classe média, o mesmo fará a Guerra Americana contra a Escravidão, pelas classes trabalhadoras. Consideram um trunfo da Guerra Americana contra a Escravidão, que tenha cabido a Abraham Lincoln, filho dedicado da classe trabalhadora, conduzir seu país ao longo dessa guerra terrível, até o resgate da raça acorrentada e a reconstrução de um mundo social. (trecho traduzido)

Os jovens que se alistavam no exército dos EUA do Sul cantavam “John Brown's Body” [O cadáver de John Brown] (vídeo a seguir) canto dedicado àquele carismático militante antiescravidão, que foi enforcado depois de uma tentativa de levante dos negros em Harper's Ferry.


Entre os comandantes do exército que Lincoln usou para derrotar a escravocracia havia muitos comunistas declarados. O General de Brigada Joseph Wedemeyer, o Secretário-Assistente de Guerra Charles A. Dana, o General de Brigada August Willich e o Coronel Richard Hinton sequer eram nascidos nos EUA, mas sentiram que, em nome de suas convicções comunistas, tinham de alistar-se na batalha contra a escravidão. Foram comandantes militares dos EUA do Norte, durante a batalha contra os EUA do Sul dos proprietários de escravos. E foram também assumidos apoiadores de Karl Marx e das ideias do comunismo.

“Não troque de cavalo no meio da corredeira!”

Lincoln foi atacado por fazer eleições durante a Guerra Civil. Os Estados Unidos do Sul, que estavam sob total controle dos insurgentes da “Confederação”, não tiveram eleições, porque seria impossível o governo central responsabilizar-se por eleições em território inimigo.

Terroristas carregam arma anti-tanque para posições na cidade cristã-americana de Kasab em 23/4/2014
Nas urnas, Lincoln enfrentou dois principais oponentes. Os Democratas concorreram com uma “plataforma pela paz”, entendendo que o governo dos EUA deveria render-se aos insurgentes e deixar que a escravidão prosseguisse nos sul. O Partido Radical Democrático concorreu com uma plataforma segundo a qual Lincoln seria ‘mole demais’, não suficientemente agressivo, e que deveria abolir imediata e completamente a escravidão. Lincoln temia não ser reeleito. Durante a campanha, cunhou seu famoso slogan “Não troque de cavalo no meio da corredeira!”, clamando pela unidade nacional para pôr fim à guerra.

Contados os votos, Lincoln foi reeleito. Continuou a comandar o país na luta contra os insurgentes e, afinal, venceu-os. A escravidão foi oficialmente abolida, e milhões de negros afro-norte-americanos livraram-se dos grilhões.

Bashar al-Assad
O presidente Bashar Assad enfrenta situação semelhante à que Lincoln enfrentou há 150 anos. A República Árabe Síria enfrenta insurgência armada brutal, financiada por interesses bilionários em Wall Street e Londres, além dos autocratas em Omã, Qatar, Arábia Saudita e Jordânia. Com armas e dinheiro estrangeiro jorrando sobre eles, o chamado “Exército Sírio Livre”, a Frente Al-Nusra e outros grupos terroristas armados estão degolando gente, recrutando crianças, sequestrando para receber resgate e cometendo outros horrendos crimes de guerra. Os insurgentes ainda controlam partes do país, e continuam empenhados em abolir a diversidade e a liberdade de religião que definem a Síria ao longo das últimas várias décadas.

Diferente da Guerra Civil nos EUA, a maioria dos insurgentes na Síria não são cidadãos do próprio país, mas mercenários importados. A República Árabe Síria sempre defendeu o povo palestino em sua luta contra os crimes dos colonos sionistas israelenses. A economia Síria é em larga medida controlada pelo Estado, sem que empresas ocidentais tenham conseguido implantar ali a “rédea solta” neoliberal com que tanto sonham, para maximizar seus lucros. O governo sírio garante assistência à saúde e educação universais e gratuitas, para todos os sírios. Na Síria, cristãos, sunitas, xiitas e alawitas sempre viveram lado a lado e em paz. Tudo isso fez da República Árabe Síria alvo escolhido dos imperialistas de Wall Street, que tentam converter a Síria em outra Arábia Saudita, outro Qatar ou Bahrain, onde as ordens do Ocidente podem ser impostas por governo fantoche autocrático.

Na Síria, a “oposição” move campanha de terror e violência para desestabilizar o país e estraçalhar a República Árabe Síria, para que Wall Street e Londres assumam o controle do país.

Os sírios estão unidos em torno de seu presidente e resistem contra a campanha de terror apoiada de fora da Síria. Além do Exército Sírio, o país também constituiu milícias comunitárias de autodefesa. A Síria se une para derrotar a campanha de violência movida contra ela.

Manifestação na Casa Branca -  Guerra contra a Síria: construindo uma MENTIRA.
Quando o Comitê Nacional Unido Contra a Guerra e o Centro de Ação Internacional [orig. United National Anti-War Committee e International Action Center] convocou um protesto diante da Casa Branca, quase mil sírios reuniram-se ali para desfraldar sua bandeira. Muitos cartazes mostravam imagens do presidente al-Assad. Sírios-americanos da PennsylvaniaNew JerseyCalifórnia e outras partes dos EUA cantaram “Estamos com nosso presidente Bashar Al-Assad”.

Assim como Lincoln acertava ao insistir em que se realizassem eleições em 1864, assim também Assad acerta em não abrir mão da próxima eleição presidencial de 3 de junho próximo. É indispensável que o povo sírio tenha garantido o direito de manifestar-se, apesar da terrível guerra civil em que os sírios foram colhidos.

Nas próximas eleições, Assad enfrentará pelo menos um oponente forte, e é preciso esperar que os votos sejam contados.

Mas, assim como milhões de pessoas nos EUA votaram em Lincoln em 1864, é muito provável que milhões de sírios reelejam o homem que os conduziu durante uma batalha feroz contra terroristas e contra uma campanha de terror sustentada por agentes de fora da Síria. Pode-se prever que a lógica dos sírios em 2014 será a mesma dos norte-americanos em 1864: a maioria não trocará de cavalo “no meio da corredeira”.



[*] Caleb Maupin é jornalista, analista e comentarista político e embora originário de Ohio, tendo estudado e se formado e Ciência Política no Baldwin-Wallace College, vive atualmente em New York. É ativista e membro do Workers World Party e do Fight Imperialism – Stand Together (FIST). É um dos organizadores da juventude do International Action Center e do movimento Occupy Wall Street desde 2011. Milita contra a brutalidade policial, encarceramento em massa, e a guerra imperialista dos EUA. 

domingo, 27 de abril de 2014

Pepe Escobar: “Obama sacode o bote no Mar do Sul da China”

26/4/2014, [*] Pepe Escobar, Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Os Presidentes Xi Jinping da China e Barack Obama dos EUA
Pivoteando-se e pivoteando-se feito um giroscópio, para parafrasear Yeats, que gira cada vez até mais longe, o atual tour do presidente Barack Obama dos EUA pelo nordeste e sul da Ásia esconde no motor um invisível dragão: a China.

Tudo, aí, tem a ver com a China, contra cujos “abusos comerciais” e “beligerância militarista”, o benigno e doce império norte-americano jura proteger seus aliados asiáticos.

Depois de comer sushis que, esperemos, não sejam radioativos pós-Fukushima, em Tóquio, com o militarista/nacionalista primeiro-ministro Shinzo Abe, Obama – bem pouco diplomaticamente – tratou logo de dar razão ao Japão na grave disputa pelas ilhas Senkaku/Diayou, referindo-se a um suspeitíssimo acordo de segurança que permitiria que os EUA ajudem o Japão, em caso de ataque externo.

A resposta do Ministério de Relações Exteriores da China veio rápida e precisa – chamaram o Tratado de “produto da era da Guerra Fria” e tratado “não vigente contra terceiros, que não se aplica a agressões à soberania territorial da China”.

A resposta da Agência Xinhua foi, como é característico, rombuda: é tudo parte de “um esquema cuidadosamente calculado para engaiolar o rápido desenvolvimento do gigante da Ásia” (a China, claro).

No Japão, o foco de Obama foi, essencialmente, a Parceria Trans-Pacífico (PTP) [orig. Trans-Pacific Partnership (TPP)], acordo corporativo (secreto) de negócios, que, se o examine por seja qual lado for, só tem a ver com o Big Business dos EUA entrar, afinal, no pesadamente protegido mercado japonês. Abe já disse que a PTP é “a terceira flecha” de seu ressuscitamento econômico do Japão. Está mais para flecha da morte. Mesmo assim, não há como a PTP acontecer sem, antes, um pacto bilateral EUA-Japão – e, nisso, os problemas continuam impenetráveis.

Agora, vamos à agenda secreta

Quando Obama chegar ao Mar do Sul da China, as águas ficarão ainda encapeladas. O Mar do Sul da China é o coração naval da Eurásia – pelo qual flui um terço da ação naval global e, claro, milhões de toneladas de petróleo transportadas do Oceano Índico pelo mega-estratégico Estreito de Malaca e pelo Mar do Sul da China em direção ao leste da Ásia (incluídos aí cruciais 80% do petróleo que a China importa).

A agenda secreta aqui visa a conseguir que a Marinha dos EUA continue perpetuamente como a hiperpotência no Mar do Sul da China – negando a Pequim até a mais ínfima possibilidade de alcançar a paridade. Daí a propaganda cuidadosamente orquestrada pelo Pentágono, para vender o mito de que o Mar do Sul da China, sem EUA hegemônicos, viraria um caos de todos os diabos.

Obama está visitando a Malásia e as Filipinas, dois pontos opostos no sudeste da Ásia. Para começar, a Malásia fica entre o Oriente Médio e a China, no coração de complexas redes comerciais globais. Sob muitos aspectos, a Malásia pode ser vista como o coração da Ásia.

Barack Obama, em Kuala Lumpur,  passa tropas em revista (26/4/2014)
Diferente do Vietnã – que é hiper nacionalista – a Malásia, sobretudo, não quer problemas com a China. Navios de guerra dos EUA já “visitam” a Malásia pelo menos 50 vezes por ano – o que inclui submarinos nucleares para lá e para cá pelos portos em Bornéu.

Dois submarinos franco-espanhóis comprados pela Malásia estão atracados numa base em Sabah, perto das ilhas Spratly – onde a Malásia reclama a soberania sobre 12 ilhas ou rochas.

A guerra global ao terror [orig. global war on terror (GWOT)] foi o pretexto perfeito para que o Pentágono presenteasse a Malásia com o estado da arte em matéria de equipamento de radar. Assim, em resumo, depois de Cingapura – que se pode descrever como um porta-aviões norte-americano amigo-das-corporações posicionado perto do Estreito de Malaca – a Malásia é, de fato, aliado muito confiável dos EUA no Mar do Sul da China.

Aquele belo e confuso arquipélago

As Filipinas são imensa confusão. Para começar, o arquipélago de mais de 7 mil ilhas é grosseiramente dividido em três grupos.

Em Luzon, no norte, o povo fala Tagalog. Em Mindanao e no arquipélago Sulu, no sul, há muitos moros muçulmanos – culturalmente, têm mais a ver com os malaios, que com os indonésios. E ali, no meio, estão as Visayas, entre as quais, Cebu. Ao todo, são nada menos que 35 mil quilômetros de costas a patrulhar, e, isso, em país extremamente pobre.

A China é o terceiro maior parceiro comercial das Filipinas. A diáspora chinesa é muito influente nos negócios e no comércio. As Filipinas importam por mar todo o petróleo que consomem – daí que a possibilidade de prospectar novas reservas de petróleo e gás nas Spratlys e na furiosamente disputada Scarborough Shoal é questão de segurança nacional.

As Spratlys – 150 rochedos ou ilhas, dos quais só 48 permanecem perenemente acima da linha d’água – receberam esse nome em 1843, homenagem a um baleeiro britânico, Richard Spratly. Mas os filipinos as conhecem como Kalayaan (“Terra da Liberdade”). Há até um prefeito de Kalayaan.

O que Obama está arrancando de Manila é um acordo para maior acesso de navios e aviões dos EUA a bases militares, depois que o Pentágono convenceu os locais a prestarem atenção à “consciência do domínio marítimo” com o objetivo – e o que mais seria?! – de conter a China.

Esperem pois presença “rotativa” dos EUA nos portos filipinos, e até a conversão da Baía Ulugan, área virgem, intocada, na ilha de Palawan, no oeste das Filipinas – muito próxima das Spratlys – numa futura base naval, para total desespero dos ambientalistas.

E assim lá se vão os dias (soberanos) quando Washington foi forçada a devolver a sempre crescente Baía Subic em 1992 (antes, Manila recebia $200 milhões por ano, em ajuda militar de Washington). Há um consenso em Manila de que o único modo possível de fazer frente às exigências chinesas no Mar do Sul da China é uma aliança com os EUA – que, em si, já é assimétrica. Mesmo assim, querem navios norte-americanos em suas águas – seguindo o modelo de Cingapura (e do Vietnã); construamos portos para os norte-americanos, e eles virão.

Os filipinos são gravemente paranoicos sobre os chineses predarem tudo o que eles conhecem como Mar das Filipinas Ocidentais – em locais como Ilha Woody e Douglas Bank – e que planejam ocupar cada partícula de rocha acima do nível do mar. Por quê? Segundo a versão filipina, porque Pequim precisa de, e muito quer, apropriar-se do petróleo e do gás filipinos.

Não surpreende que a Marinha dos EUA se tenha apressado para explorar o alto nível de insegurança filipino, para forjar o que, afinal, não passa de uma relação neocolonial.

Barack Obama e o rei Abdul Halim da Malasia (em primeiro plano) na cerimônia de boas vindas na Praça do Parlamento em Kuala Lumpur (26/4/2014)
E quanto à Lei do Mar?

O “pivoteamento para a Ásia” do governo Obama – leia-se “conter a China” – sempre atropela a questão chave: para Pequim, uma coalizão de pequenas potências do sudeste asiático aliada com os EUA é anátema absoluto. Se acontecer, esperem o fogaréu.

Washington – como sempre – vive a exaltar o respeito à lei internacional, mas os EUA sequer assinaram a Convenção da ONU sobre a Lei do Mar de 1982. Pequim quer uma ordem regional – afinal, é a potência regional dominante. E não cede: suas demandas históricas são fatos no mar acontecidos muito antes da Lei do Mar.

Mas é discussão em que todos falam muito e poucos têm razão. Por exemplo, a China reclama para elas as águas, e alguém encontra os campos de gás natural filipino de Malampaya e Camago.

As atuais zonas econômicas exclusivas, impostas por qualquer um, levaram a que todos os atores ganhem áreas rasas próximas do litoral, teoricamente ricas em energia, enquanto a China, ao sul de seu litoral, não está muito separada das ilhas Pratas, Macclesfield Bank e Scarborough Shoal.

Mesmo assim, não importa o que consigam extrair e vender, a Malásia e as Filipinas terão ainda de importar petróleo e gás. Assim, o Mar do Sul da China permanece sempre crucial, seja como possível repositório de petróleo e gás, seja por suas cada vez mais congestionadas rotas de trânsito de navios.

Quanto aos EUA invocarem um mecanismo legal para proteger a “liberdade de navegação”, é conversa fiada; o que interessa aos EUA é a moderníssima base chinesa de submarinos na ilha Hainan, que abriga submarinos movidos a diesel-eletricidade e submarinos nucleares armados com mísseis balísticos. Esse é o verdadeiro segredo da perna sudeste-asiática da “curva em pivô” de Obama para a Ásia. E contribuiu para lançar toda a pivoteação, em 2011.

Só há uma solução para o Mar do Sul da China: negociar, negociar, negociar, acordo a acordo, negócio a negócio. Tudo tem de ser negociado no quadro das dez nações reunidas na Associação de Nações do Sudeste Asiático [orig. Association of Southeast Nations (ASEAN)] – mesmo considerando que Pequim pode explorar divisões internas, e explora.


Num mundo não Hobbesiano, a solução ideal, realista, seria administrável para benefício de todos os atores, de modo que todos pudessem prospectar petróleo e gás. Mas o problema é que todos os atores – exceto a Malásia – fazem política hardcore com tons emocionais nacionalistas sobrecarregados. E nesse ambiente só um ator tem a ganhar: os EUA, a “nação pacífica (do Pacífico)”.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch,Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.