domingo, 1 de junho de 2014

Ucrânia: Por que não há intervenção militar russa

30/5/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido do inglês pelo pessoal da Vila Vudu (original em russo) [3]



The Saker

“O mês crítico, a esperar, é dezembro-2014”

Simon Uralov
O nível da discussão analítica pela Internet russa está perfeitamente avaliado pelo cientista político Simon Uralov: “Dizer que a crise ucraniana enlouqueceu a cabeça dos colegas em Kiev e os converteu em histéricos sedentos de sangue é fundamentalmente errado. Entre os colegas em Moscou também surgiu número incrível desse mesmo tipo de histéricos”

O objetivo desse artigo é dar um passo para fora da histeria e analisar friamente a situação na Ucrânia.

Começo pelos necessários esclarecimentos em vários tópicos emocionalmente importantes:

Por que não há intervenção militar russa? 

Igor Strelkov
Se esse artigo tivesse sido redigido há alguns poucos dias, parte significativa dele teria de ter sido dedicada a explicar por que enviar tropas à Ucrânia era não adequado; e que seria simples e puramente estúpido, mesmo depois do referendo. Por felicidade, o comando da Resistência em Slaviansk, Igor Strelkov, deu conta dessa missão melhor que eu: em sua mensagem por vídeo, ele claramente falou da inércia da população local de Lugansk e Donetsk em termos de ação real para defender os próprios interesses contra a Junta.

Antecipando discussões sobre o referendo, apresso-me a dizer que fazer uma marca na cédula de voto é certamente ótimo, mas não é muito diferente de outros tipos de comportamento de manada – como o “curtir” [ing. “like”] de Facebook.  Porque a marquinha “curtir” que se faz na célula do referendo não muda coisa alguma. O referendo foi ação necessária, mas não suficiente.

O quanto o Kremlin estava preparado para os eventos na Ucrânia e o quanto está tendo de improvisar, mesmo agora?

Aconselho que leiam o telegrama distribuído por WikiLeaks [1] – no qual se lê que o Kremlin já apontara claramente aos EUA em 2008 os cenários que se veem hoje em campo:

Especialistas nos dizem que a Rússia está particularmente preocupada com as fortes divisões que se veem na Ucrânia sobre o país integrar-se ou não à OTAN, com grande parte da comunidade russo-étnica posicionada contra a integração, o que pode levar a divisão do país, o que implicará violência e, no pior dos casos, guerra civil. Naquele caso, a Rússia terá de decidir se intervirá ou não; e é decisão que a Rússia não deseja ter de encarar.

É lógico assumir, portanto, que esse desenvolvimento absolutamente não foi surpresa para o Kremlin, e que agora estamos num script ainda mais desagradável, mas com menos nuanças: alguma coisa equivalente a um “Plano E”.

Para compreender o que o Kremlin fará a seguir, fixemos alguns objetivos:

  • Não permitir que a Ucrânia seja incorporada à OTAN.
  • Não permitir o estabelecimento e a estabilização, na Ucrânia, de um regime russófobo (o que pressupõe a des-nazificação).
  • Não permitir o genocídio da população russa do sudeste.
Idealmente, é indispensável implementar simultaneamente os três objetivos, ao mesmo tempo em que, enquanto são implementados, a economia russa não quebre, no momento em que vai sendo reorientada para a Ásia; e é preciso, também ao mesmo tempo, impedir que os EUA façam avançar seus objetivos econômicos à custa da União Europeia.

Como se podem alcançar todas essas metas?

Consideremos o cenário mais simples, e vejamos quais são as vulnerabilidades e as consequências negativas:

— Suponhamos que o exército russo entre na Ucrânia e, alguns dias depois, chegue a Kiev; e que, na sequência, logo assuma o controle de toda a Ucrânia. “Patriotas” festejarão muito, haverá desfiles na Khreschatyk e coisa-e-tal.

— Parecerá que os três objetivos acima teriam sido alcançados, mas teriam simultaneamente emergido os seguintes problemas:

1. Na União Europeia, a elite empresarial europeia já pisou delicadamente no pé de seus políticos e meteu o pé nos freios em relação às sanções; e o “Partido da Guerra” (também chamado “Partido dos EUA” ou, melhor dito, “Partido da Pax Americana”) vence bem evidentemente. Contra a Federação Russa, o efeito máximo de sanções reais aconteceu contra as próprias economias europeias, que entram em recessão. Mas não é evento que gere júbilo.

Cuidado com as minhas sanções!
Nesse contexto, os norte-americanos podem forçar a assinatura da versão norte-americana da “Parceria Trans-Atlântica para Comércio e Investimento” [orig. TTIP, Transatlantic Trade and Investment Partnership], pacto comercial, que converte a União Europeia em apêndice da economia dos EUA.

Nesse momento, as negociações daquele tratado estão em andamento e, para os EUA, a entrada de tropas russas na Ucrânia seria presente caído dos céus.

Sanções contra a Rússia destruiriam negócios europeus, e barreiras comerciais e de negócios contra os EUA completariam o serviço. No final, teríamos o quê? A União Europeia em estado semelhante a um pós-guerra; os EUA em festa e uniforme de gala, absorvendo mercados europeus nos quais não teriam concorrentes, nem agora, nem em curto prazo; a Federação Russa em situação que deixaria a desejar, longe da sua melhor forma. Alguém ainda não percebeu que, nesse contexto hipotético, o bobo da roda absolutamente não são os EUA?

Aliás, nem é preciso levar em consideração os argumentos de que os políticos europeus “não cometeriam” suicídio econômico. Os euroburocratas são capazes, sim, de cometer qualquer coisa, isso e coisa pior que isso, como a prática mostra.

2. À parte o fato de que o Kremlin estaria prestando um serviço a Washington, é preciso considerar o que aconteceria à própria Rússia.

• Se as sanções tivessem incapacitado a Rússia antes de ser assinado o megacontrato de 30 anos com a China, nesse caso a China estaria em condições de negociar a partir de uma posição de força. De fato, estaria em posição ideal para fazer chantagem (o que se observa mesmo assim no comportamento da China, embora não claramente).

• Se as sanções tivessem incapacitado a Rússia antes de ser assinado o megacontrato de petróleo com o Irã, mediante o qual a russa Rosneft controlará 500 mil barris adicionais de petróleo por dia, o Irã estaria em condições de negociar a partir de uma posição de força.

• Todas as tentativas subsequentes de construir qualquer coisa, até receber as importações de que os russos precisamos agora, nos custariam muito, muito caro.

• Se as sanções tivessem incapacitado a Rússia antes da assinatura do acordo que cria a Comunidade Econômica Eurasiana, avaliem o trunfo com que contariam Lukashenko e Nazarbayev, para torcer o braço de Putin nas negociações. Um pouco mais disso, e Moscou, para criar a Comunidade Econômica Eurasiana, teria de pagar pelo próprio petróleo!

Ashton (UE): "Sanções contra a Rússia"
Putin: "Agito das Bucetas!" 
3. A Federação Russa teria de assumir total responsabilidade pela restauração da economia ucraniana e pela des-nazificação: e onde encontrar número suficiente de “des-nazificadores” (...[2]) para lutar contra grupos compactos de nazistas ucranianos, que terão apoio e suprimentos vindos do exterior?! Tudo isso somado, é claro que esse cenário muito beneficia os EUA e a China.

Caberiam à Rússia: uma sensação profunda de satisfação moral, problemas econômicos a resolver e anos de amaldiçoamentos futuros, que virão dos “generosos” (щирых) ucranianos, infelizes com “a vida sob ocupação”.

Quais os pontos vulneráveis da Rússia, no tempo?

  1. Contrato de gás com a China (maio-junho) (assinado dia 21/5/2014!)
  1. Contrato de petróleo com o Irã no verão (por isso os EUA levantaram o embargo, com a Rosneft muito intimamente conectada à British Petroleum, e nem tanto à Exxon Mobil. E para onde flui o petróleo? Para a China).
  1. Importante! Eleições para o Parlamento Europeu, que dará muitos votos a eurocéticos aliados da Rússia. Depois da eleição, reunir-se-á uma Comissão Europeia de composição muito diferente, com a qual será mais fácil trabalhar (eleições marcadas para 25 de maio). E ainda mais importante: depois do contrato de gás assinado com a China, será mais fácil empurrar a favor do [oleogasoduto] South Stream (Ramo Sul), os deputados recém eleitos.
  1. Coleta de todos os documentos/autorizações/licenças/etc. para a construção do [oleogasoduto] South Stream (Ramo Sul) – em maio/2014. 
Oleogasoduto South Stream  (em azul)
Isso é o que se pode ver a olho nu, mas há outros aspectos muito importantes, os quais, contudo, são difíceis de distribuir claramente em cronograma:

1.      Transição para pagamentos em rublos, por energia. Petróleo e gás não são sacos de batatas: o fornecimento depende de contratos de longo prazo e que não podem ser alterados unilateralmente, e exigem muito trabalho cada vez que têm de ser substituídos, ou, mesmo, apenas alterados.

2.     Transição para cotar preços em rublos, por energia (para negócios em rublos) nos mercados russos – é trabalho absolutamente enlouquecedor, além de ser muito, muito trabalho, por várias razões, uma das quais é que é trabalho que jamais foi feito antes, nem esse nem algum trabalho semelhante a esse.

3.     Um sistema próprio de pagamentos.

4.     Preparação para substituição de importações ou melhora do trabalho que fazemos  com fornecedores asiáticos (mas não é ação em contexto de emergência).

Essa lista prossegue. Até aí só o que consigo ver, e o Kremlin tem horizontes muito mais amplos.

Acrescentem-se aí interessantes iniciativas do Ministério de Relações Exteriores, que não está sentado ocioso, de braços cruzados.

Grigory Karasin
Por exemplo, o vice-ministro [de Relações Exteriores] Karasin esteve em Doha dia 6 de maio, em reunião com a elite qatari. Os resultados desse encontro, em minha opinião, são grande, enorme, surpresa. Segundo o Ministério de Relações Exteriores, o emir do Qatar declarou que muito aprecia a “política regional convincente e coerente da Federação Russa” – o que é altamente surpreendente, em país que não apenas é aliado dos EUA e braço político da Exxon Mobil no Oriente Médio como, também, é 100% adversário da Federação Russa na Síria.

Mas fato é que a caixa afinal foi aberta: os sonhos dos EUA de inundar o mundo com gás barato são sentença de morte para os sonhos de riqueza infinita do Qatar e sua elite. Sem preços ultra-altos para o gás, o Qatar não apenas perde qualquer esperança de grandeza regional, mas vira, ele próprio, cadáver. Doha reorienta-se rapidamente e já está oferecendo proposta que interessa: “Ao mesmo tempo [o emir do Qatar] enfatizou a importância de acelerar a coordenação do Fórum de Países Exportadores de Gás [orig. Forum of Gas Exporting Countries (GECF)” – cuja próxima reunião de cúpula acontecerá (que coincidência!) no Qatar.

Fórum de Países Exportadores de Gás é organização que inclui Rússia, Irã, Qatar, Venezuela, Bolívia e outros exportadores, e que o Kremlin, por muito tempo, mas sem sucesso, tentou converter em entidade “do gás”, análoga à OPEP. Talvez tenha chegado afinal a hora certa para um potencial cartel de gás. Para começar, os três maiores exportadores: Rússia, Qatar e Irã têm agora interesses muito assemelhados e devem conseguir trabalhar juntos para assumir partilhar e o mercado e os dutos do gás natural liquefeito. Esse cartel de gás, ainda que em formato reduzido (só com Federação Russa, Qatar, Irã) controlará no mínimo 55% das maiores reservas mundiais de gás e terá oportunidades significativas para influenciar fortemente os mercados de energia da União Europeia e Ásia.

É claro que tal projeto envolverá muitos problemas e enfrentará oposição, não há qualquer garantia de que venha a funcionar. Mas é importante ver que Moscou trabalha ativamente à procura de oportunidades das quais obtenha mais vantagens estratégicas na luta contra os EUA.

Espera-se que agora já esteja bem claro os itens aos quais o Kremlin está dedicando mais empenho – o que está tentando obter da situação ucraniana, e por que são itens que interessam.

Voltemos aos problemas diretamente relacionados à Ucrânia, para constatar que nem a implementação de todos os projetos importantes de política exterior ajudará na des-nazificação de Kiev ou fará com que tropas russas ou o exército rebelde de Novorossia sejam bem recebidos sequer na região central. Se o exército de Novorossia já tem problemas com mobilizar combatentes em Lugansk e Donetsk, trabalhar nas regiões zumbificadas será muito, muito difícil.

Mesmo assim, parece que, para combater ao lado da Federação Russa, logo aparecerão o “Coronel Fome” e as “Forças Especiais da Hiperinflação” – que mudarão dramaticamente o equilíbrio do poder.

A economia ucraniana está acabada. Dada a semeadura desastrosa da primavera, as colheitas de legumes destruídas (congeladas), a falta de crédito, problemas com o gás, o salto no preço dos combustíveis, pode-se dizer com segurança que a economia virá como a besta do norte, com toda a força e toda a fúria. Ninguém dará dinheiro à Junta de Kiev, nem o FMI, que prometeu algo em torno de US$17 bilhões (exatamente 50% do que a Ucrânia necessita para esse ano), mas incluiu no contrato uma “cláusula de escape”: se Kiev não controlar as regiões, Kiev não receberá um centavo. Fome, frio e hiperinflação (causada pelo colapso da hryvnia [moeda ucraniana], operarão ativamente para debilitar a Junta de Kiev corrigir a mente dos “generosos” [shchirykh] ucranianos: não passarão a amar a Rússia, mas verão que é fatalmente necessária. E também fatalmente começarão a recordar os tempos de Yanukovich como uma doce era de sonho já hoje inalcançável [por ação da Junta de Kiev].

O caos inevitável e o total colapso das estruturas sociais, combinados à guerra de baixa intensidade, asseguram que a OTAN não aceitará a Ucrânia, uma vez que a Europa, então, já estará “nos trilhos” e nem os políticos medianamente moderados dos EUA farão movimento algum, o que obviamente não levaria a nenhuma vitória norte-americana e só faria arrastar o país para uma guerra atômica.

Além do mais, no contexto de total colapso econômico, para os mineiros, os trabalhadores metalúrgicos e outros camaradas que estão hoje firmemente agarrados aos empregos, por medo de perdê-los e na esperança de “conseguir sobreviver e manter-se sempre (à beira do precipício, mas, pelo menos, não no fundo do precipício)”, já não haverá sequer essa possibilidade. Terão de participar de uma forma ou outra, nos problemas políticos e econômicos da Nova Rússia. E provavelmente terão de participar também em armas.

Ao mesmo tempo, Poroshenko-nomeado-pela-Junta de Kiev, imposto (ao país) pela União Europeia, terá forte incentivo para fazer concessões, para conseguir negociar com Moscou. A nova Comissão Europeia, que precisa de paz no leste e de trânsito estável para o gás, estará empurrando Poroshenko nessa direção.

Petro Poroshenko em seu discurso da vitória
Poroshenko também será empurrado nessa mesma direção por levantes da sociedades causados pelo Coronel Fome e por Hiperinflação, o Sabotador.

Todos esses fatores, em resumo, abrem grandes oportunidades para o Kremlin reformatar a ex-Ucrânia em algo apropriado aos interesses da Federação Russa. Esse é precisamente o cenário que os EUA tentam evitar; e é por isso que os EUA têm sérias razões para acelerar a translação do conflito para fase “mais quente”, com uso de tropas e derramamento massivo de sangue.

Se se somam o tempo necessário para que a Fome aja, e o tempo necessário para resolver problemas de política externa em termos de estabelecer o trabalho com China, Irã, sair do dólar, substituição de importações, etc. (em termos calculados muito em geral), pode chegar à conclusão de que se precisa de algo bem próximo de 5-9 meses (o que nos leva àquele mesmo dezembro pelo qual Yanukovich tentou negociar) para oferecer soluções à questão ucraniana e outras, de modo a obter vantagem máxima para a Rússia.

Durante esse período, é preciso que se preserve a Ucrânia, no mínimo, num estado de guerra civil (i.e., apoio aos partidos da Nova Rússia, mas não é necessário tomar Kiev depressa demais de modo a não criar problemas adicionais desnecessários) e idealmente, combinado com a guerra civil, negociações prolongadas, enroladas, dentro da Ucrânia, com a participação de observadores internacionais, algo semelhante ao formato 2 +4, quer dizer: Poroshenko + Tsarev + Rússia, União Europeia, OSCE, EUA.

E o toque final. Em meses recentes, os EUA seguraram a rédea de sua prensa de imprimir dinheiro, reduzindo a impressão de papel-dinheiro, de 85 para 55 bilhões de dólares por mês. Muitos e muitos esperam, que a máquina seja completamente desligada até o final desse ano. – Outra vez, o mesmo próximo mês de dezembro. – Isso é impossível, porque o dólar, dado que é a principal moeda internacional, não pode ser impresso indefinidamente.

Imprimindo tantos DÓLARES que logo só vão servir pra limpar seu traseiro
Segundo várias estimativas, os EUA já usaram quase completamente o “recurso força” do dólar, o que lhes permitiu fazer o diabo com a máquina (financeira). Além do mais, corolário e efeito inevitável desses truques é a redução de juros sobre os papéis dos EUA, o que, por um lado, ajuda Washington a pagar menos por suas dívidas, mas, por outro lado, está destruindo todo o sistema de aposentadorias dos EUA e o sistema de seguros, construído sobre a expectativa de retornos muito diferentes dos seus portfólios.

Em termos muito gerais, é o mesmo que dizer que, à altura do final do ano, os EUA poderão escolher entre explodir o sistema de assistência social para manter a máquina de imprimir dinheiro, ou reduzir enormemente o apetite dos que vivem de imprimir dinheiro, para preservar alguma chance de estabilidade em casa.

A julgar pela redução da quantidade de dólares que está sendo jogada dentro do sistema, Washington decidiu que impedir uma explosão é mais importante que suas ambições de política externa.

Agora, para completar o quebra-cabeças, aqui vão nossas previsões:

  1. Os EUA tentarão por todos os meios agravar a crise na Ucrânia, para enfraquecer a Rússia e pôr todo o mercado europeu sob seu “controle”, antes de ter de parar as máquinas que imprimem dinheiro.
  2. O Kremlin tentará traduzir a crise na Ucrânia, da forma aguda para a fase crônica (guerra civil, mais negociações arrastadas, em pleno colapso econômico da Ucrânia). Ao mesmo tempo, o Kremlin usará o tempo para criar condições favoráveis para a transição para a confrontação aguda com os EUA – o trabalho de separar-se do dólar com China, Irã, Qatar, criação da Comunidade Econômica Eurasiana, etc..
  3. Fim total da crise em dezembro de 2014, possivelmente antes, se os EUA desistirem de tentar exacerbar as hostilidades.
  4. E se os EUA não desistirem? – Nesse caso... uma grande, grande guerra... guerra por recursos, porque, como já se sabe, o tal “boom” do gás de xisto/fracking não passava de bolha, das mais ordinárias.

Notas dos tradutores

[1] Telegrama assinado pelo Emb. William J. Burns dos EUA e intitulado “ ‘Não’ é ‘não’: os russos não admitirão nenhum movimento de ampliação das linhas vermelhas da OTAN” – datado de 1/2/2008 (ing.).

[2] Trecho cujo significado metafórico não conseguimos decifrar: [where to get the needed number of “denazifiers”] in “dusty helmets” (if anyone has forgotten, according to Okudzhava, it was the commissars in dusty helmets that bent over the dead hero of the Civil War)”.

[3] Original. em russo, recomendado e traduzido ao inglês em The Vineyard of the Saker, 1/6/2014. Aqui se traduziu a versão em inglês. Todas as correções e traduções complementares colaborativas – sobretudo de leitores de russo que tenham acesso ao texto original – são bem-vindas.

Ucrânia: Relatório de Situação de Combate (SITREP) 31/5/2014 - 21h13 UCT/Zulu − por “Juan”

Por que a Junta de Kiev não pode tomar Slaviansk?

1/6/2014 The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido por mberublue

(Juan)

Sistema portátil de míssil antiaéreo (IGLA-S)


  • Confirmou-se que sistemas IGLA-S (sistema de mísseis portáteis para defesa aérea [NT]) de mísseis antiaéreos foram encontrados “abandonados” perto de uma estrada rural pelo exército do Donbass. A quantidade é desconhecida.
  • Existe um vídeo de um avião de ataque ao solo ucraniano, tipo Sukhoi, sendo abatido em 30/5/2014. Sem confirmação do incidente pela testemunha que teria visto o acontecido. É perfeitamente visível no vídeo quando o piloto ejeta.
  • Em 30/5/2014 alguns edifícios governamentais foram tomados pela população em Ternopol. Um edifício administrativo foi queimado.
  • Vários sistemas antiaéreos ZU-23 (canhão automático antiaéreo de 23 mm [NT]) – que podem ser usados com devastadores efeitos como metralhadoras pesadas de tiro rápido na luta em solo – foram “achados” pelo exército do Donbass. Quantidade e origem das novas armas são totalmente desconhecidas. Agora, estão a serviço do exército do Donbass.
  • Embora sem confirmação, estima-se em 50 civis o número de mortes causadas pelos bombardeios de Slaviansk e Donetsk. Uma menina de cinco anos perdeu o pé em virtude de ferimentos causados pelos bombardeios.
  • Ontem e hoje crianças estavam sendo evacuadas de Slaviansk para a Federação Russa e mandadas para Sebastopol. A evacuação foi suspensa por causa da situação em Slaviansk desde o início da tarde, horário local.
  • Os combates que continuavam a acontecer em partes de Slaviansk e áreas da periferia durante todo o dia, foram intensificados a partir das 17h55 (horário local) do dia 31/5/2014.
  • Lutas esporádicas ainda ocorrem na área do aeroporto de Donetsk desde a tarde do dia 29 de maio. Continuam hoje (31/5/2014).
  • Até 28/5/2014 há relatos de que houve 627 baixas no exército da Junta de Kiev. As baixas desta data até agora seriam de 250, conforme a mesma fonte. Ambos são números KIA (mortos em ação). O número de WIA (feridos em ação) não é conhecido com precisão, mas estima-se que sejam mais que 700 feridos em ação até 28/5/2014. Depois disso, não há estimativas para feridos em ação.
  • Foi confirmado um número de no mínimo 1428 deserções no exército da mJunta de Kiev até 28/5/2014. Depois dessa data não há conhecimento do número de deserções até hoje (31/5/2014). Não há conhecimento se nesses números estão inclusas as baixas ocorridas na Guarda Nacional/Pravy Sektor (Setor de Direita – partido neonazista de suporte da Junta de Kiev [NT]).
  • Às 18h21 (horário local) de 31/5/2014, conforme relatos ainda sem confirmação, no aeroporto de Donetsk de que uma unidade da Junta de Kiev (do exército regular), ou pelo menos algumas de seus soldados, tornaram-se combatentes da Guarda Nacional/Pravy Sektor no terminal do aeroporto, por razões desconhecidas.
ZU-23-2 - Canhão antiaéreo automático com projéteis de 23mm

Fim do relatório de “Juan”
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The Saker
Análise de The Saker

As minhas próprias fontes relatam que aconteceram em Slaviansk os ataques de artilharia mais pesados, sempre com bombas caindo aleatoriamente em qualquer lugar da cidade. Porém a grande e dura barragem de artilharia que “Juan” e, a propósito, também um dos líderes da resistência, Viacheslav Ponomarev, temiam para a noite passada, acabou por não acontecer. Em outras palavras, os meios para destruir Slaviansk estão a postos, mas a decisão política ainda é esperada para o início da ação.

Como Crossvader e outros já sugeriram, tal decisão implicaria em riscos enormes para a Junta de Kiev. Meu palpite pessoal é que os comandantes que estão liderando os Esquadrões da Morte de Kiev ao redor de Slaviansk gostariam demais de abrir fogo com tudo o que têm, contra aqueles que chamam de “terroristas”, “insetos” e “moskals”, mas esse pessoal não vê, como Poroshenko em Kiev o faz, se não o panorama geral, pelo menos uma visão mais abrangente.

Em primeiro lugar: os russos podem simplesmente abandonar de vez quaisquer negociações sobre as entregas de gás. O certo é que a luta pelo controle da “teta” ucraniana está hoje entre, de um lado o duo Poroshenko/Klitschko, com a dupla se esforçando para manter a Junta de Kiev sobre controle, e do outro lado o circo de aberrações Iarosh/ Timoshenko/ Tiagnibok/ Liashko tentando colocar ainda mais pressão com suas exigências alucinantes.

Na Novorossia o acordo parece ser o seguinte: “vamos fazer o suficiente para causar algum pânico, mas não o suficiente para disparar um banho de sangue real”. Definitivamente, esta não é uma tática eficiente.

Mesmo com um choque inicial muito grande e pagando alto preço, as populações civis aprendem a sobreviver e se adaptam depois de algum tempo após o início de operações de combate, conforme já demonstrado em várias partes do mundo. Já há relatos de que crianças são capazes de reconhecer com que armas estão sendo atacadas, apenas ouvindo o seu som. As escolas estão fechadas e as famílias estão passando seu tempo nos abrigos ou em locais próximos. Em relação aos homens que combatem pelas Forças de Defesa da Novorossia (FDN), não serão nem eliminados, nem obrigados a recuar apenas por ataques de artilharia. Mais uma vez, recentes pesquisas sobre combates urbanos dão conta que artilharia e ataques aéreos não são o bastante para prevalecer sobre forças militares treinadas e abrigadas no interior de cidades.

Exatamente como aconteceu na Segunda Guerra Mundial, a única forma conhecida para derrotar uma força militar treinada, incrustada e abrigada dentro de grandes cidades, é o combate de infantaria prédio a prédio.

Assim que as forças de ataque estiverem dentro das cidades, torna-se muito complicado o uso de fogo de apoio pela artilharia (por causa do risco de atingir suas as próprias forças). Apoio aéreo, principalmente com bombas poderosas ou mísseis é especialmente perigoso.

Talvez a ordem mais perigosa a ser dada para uma tropa de infantaria seja precisamente a tarefa de limpar uma cidade de seus defensores, rua após rua, casa após casa, mesmo se apoiados por blindados, mas esta é a única maneira de fazê-lo. Com tropas de assalto bem armadas (infantaria).

O lado mais bem treinado e mais experiente detém uma vantagem enorme, principalmente se a força atacante é o típico “desordeiro de rua que virou membro da Guarda Nacional em duas semanas”.

Neste mesmo instante a Junta de Kiev está usando uma velha técnica bolchevique: enviam para o combate batalhões de conscritos e na retaguarda deles “esquadrões de bloqueio”, que não passam de esquadrões da morte especialmente recrutados entre os membros do Pravy Sektor, com a missão de executar sumariamente aqueles que se recusarem a lutar. Tal método pode ser usado em terreno aberto, mas se torna mais difícil de empregar no ambiente urbano. Assim, dentre as forças do exército da Junta de Kiev que tem competência para isso (paraquedistas) são raros os que, dentre seus membros, estejam dispostos a fazê-lo. Os que estão dispostos para executar essa missão, ou seriam mortos dentro de alguns minutos (“desordeiros de rua que viraram membros da Guarda Nacional em duas semanas”) ou são muito covardes para tentar (esquadrões da morte).

Dessa forma, o que temos visto até este momento, é que a Junta tipicamente não tem capacidade para dirigir uma operação militar desse porte. O que eles têm conseguido fazer até agora é:

01 – Em primeiro lugar, a tática do terror: bombardeio aleatório em Slaviansk e outras cidades.
02 – Em segundo lugar, outra tática terrorista: atirar em civis, de forma aleatória.
03 – Ataque a postos de controle fora das cidades.
04 – Atacar alvos simbólicos que se localizam fora das cidades como por exemplo, o aeroporto de Donetsk.

Como tenho dito, o tempo é inimigo da Junta de Kiev.

Os civis estão sendo paulatinamente evacuados da zona de combate e mesmo que a Junta de Kiev esteja usando sórdidas técnicas de perseguição e intimidação contra eles (como obrigá-los a abandonar os ônibus e seguir caminho a pé), não podem simplesmente matar a todos (muitos celulares com câmeras, muitos repórteres).

Quanto às Forças de Defesa da Novorossia (FDN) estão ficando claramente mais fortes a cada dia que passa, adquirindo mais armas, como MANPADS (sistema de defesa aérea portátil que pode ser usado a partir do ombro do atirador) e AA (Armas Antiaéreas, vídeo, em inglês no fim do parágrafo) de fogo rápido, já mencionadas anteriormente por “Juan”, que a FDN parece “encontrar” a todo instante aqui e ali.


Por falar nisso, MANPADS e AA são armas *perfeitas* para serem usadas em combate urbano.

Os MANPADS podem não apenas prevenir ataques aéreos mas também impedir a mobilidade através do ar (transporte aéreo de equipamentos e pessoal), como foi provado recentemente com a morte do bandido-general da Junta de Kiev encarregado da liderança da “Guarda Nacional” no Donbass. As armas AA de fogo rápido podem não só servir como defesa antiaérea como também podem transformar em confete um veículo blindado leve em segundos.

O ZU-23 pode ser montado sobre a carroçaria de uma caminhonete
MANPAD (NATO-Code - SA-24 Grinch)


Até mesmo um tanque pesado de batalha será seriamente avariado se um ZU-23 utilizar de forma correta munição perfuradora de blindagem atingindo-o várias vezes. Entendo que até este momento, a FDN só tem em seu poder a versão rebocada, porém mais cedo ou mais tarde chegarão os ZU-23 com auto propulsão (o ZU-23-4, chamado carinhosamente de “Shilka”), normalmente usado como arma de defesa antiaérea para qualquer divisão de infantaria motorizada ou regimento blindado.

Quanto aos velhos ZU-23-2, podem ser montados em qualquer caminhão ou pick-up (embora tais veículos não sejam adequados para suportar durante muito tempo o choque dos disparos). Penso que essas armas simples mas espetaculares são como “armas da Segunda Guerra Mundial com esteróides”.

O que escrevi acima sobre Slaviansk se aplica de forma ainda mais contundente em grandes cidades como Donetsk, que a tudo isso adicionam mais dois obstáculos consideráveis que as forças atacantes teriam que superar: enormes e fortes edifícios construídos com concreto reforçado com porões profundos e uma rede complementar subterrânea de comunicações.

No primeiro caso, a dificuldade aumenta para o uso de artilharia ou de ataques aéreos para auxiliar os ataques de uma eventual força de infantaria e no segundo caso, torna-se quase impossível interromper as comunicações dos defensores da cidade.

Grandes cidades também têm mais armazéns de comida, mais depósitos de suprimentos e munição e os defensores podem se preparar melhor para a defesa (eixos de ataque são mais fáceis de serem previstos em cidades) e as forças defensivas tem *mais* mobilidade dentro da cidade que fora delas. Finalmente, cidades têm muito mais civis com câmeras e telefones celulares e também muito mais jornalistas e repórteres.

O custo político do ataque a uma grande cidade é, assim, muito maior que os de um “massacre privado” de alguma aldeia que, mesmo assim, normalmente são descobertos após alguns dias.

Os piores massacres ocorridos em Ruanda não tiveram lugar em Kigali (que viu uma infinidade de horrores) mas em pequenas vilas escondidas nas montanhas e florestas.

Concluindo: este combate não pode ser vencido pelos líderes da Junta. A esperança deles era que a Rússia entraria na batalha, mas se a Rússia resiste às provocações, o que acredito que é exatamente o que a Rússia fará, eles mais cedo ou mais tarde terão que desistir, como eu disse ontem.

The Saker

Ucrânia: Relatório de Situação de Combate (SITREP) 30/5/2014 12:31 UTC/Zulu– por “Juan”


30/5/2014, The Saker, The Vineyard of The Saker
Traduzido por mberublue

The Saker
1-) Combates esporádicos e pesados, às vezes, em torno de Slaviansk e nas aldeias do entorno em 29/5/2014, sem acontecimentos dignos de nota para o exército local e da Guarda Nacional/Pravy Sektor. Foram relatadas algumas perdas para a Guarda Nacional/Pravy Sektor.

2-) Meia bateria de lançadores de mísseis GRAD, tipo BM-21, se encontra em posição dentro do alcance para Mariupol. Desde essa manhã, mas não foram acionados os mísseis. O alcance dos Mísseis GRAD é de 35 quilômetros.

GRAD tipo BM-21 em ação
3-) Está em posição meia bateria de lançadores de mísseis GRAD, com alcance para Slaviansk.

4-) Não tenho verificação positiva de qualquer ataque com mísseis GRAD em Slaviansk. Mas isso não quer dizer que não tenha ocorrido um ataque. Alguma coisa grande e múltipla explodiu nos arredores de uma aldeia nos arredores da cidade, mas não tenho fontes que informem do impacto para identificar o tipo.

5-) Minhas fontes informam que a ação do exército do Donbass no aeroporto de Donetsk foi uma armadilha montada naquela ocasião por algumas unidades do exército da Junta de Kiev com o apoio de uma organização ocidental em Donetsk. Logo em seguida ao início das negociações, o exército da Junta de Kiev enviou por via aérea reforços para a sua unidade no aeroporto que a seguir atacaram a unidade do exército do Donbass.

RPG-19
6-) O transporte dos feridos do exército do Danbass em comboio para fora da área do aeroporto mais tarde, na segunda feira, aconteceu por ter se pactuado uma trégua para que fossem socorridos os feridos. Em cada um dos caminhões de transporte Kamaz, foram colocadas duas bandeiras: uma vermelha da Cruz Vermelha e outra branca, pela trégua. Foram direto para uma emboscada armada por unidades da Guarda Nacional/Pravy Sektor (Setor Direita – partido de extrema direita, neonazista, da Ucrânia [NT]). Os motoristas dos dois caminhões foram mortos. Um deles capotou depois de bater na sarjeta. O outro foi atingido por um disparo de RPG (arma de lançamento de granadas anti tanque, móvel, lançada a partir do ombro do atirador[NT]). Os feridos que sobreviveram ao impacto foram assassinados pelos componentes do Pravy Sektor no lugar. As bandeiras foram retiradas durante o assassinato dos feridos.

7-) Atividade de “partisans” (membros de uma tropa irregular regional e secreta que atua nos bastidores de cidades ou regiões ocupadas por exército estrangeiro para fazer a resistência [NT]) começou há três dias na região ao redor de Carcóvia, entre outras áreas para atingir unidades da Guarda Nacional/Pravy Sektor. Em 29 de maio 2014 duas unidades da Guarda Nacional/Pravy Sektor tiveram pesadas baixas em emboscadas.

8-) Em 29/5/2014 o batalhão Vostok começou uma operação no Edifício da Administração de Donetsk para estancar saques que teriam sido cometidos por alguns membros do exército do Donbass, depois de graves queixas dos cidadãos. O supermercado Metro, que se situa perto do aeroporto foi pesadamente saqueado por membros do exército do Danbass asssim como várias outras lojas e os estoques de grande parte do saque foi estocado em três tendas armadas na área do prédio de Administração do Donbass. Foram exibidos vídeos de uma das tendas, assim como dos autores dos saques. Conforme relatado, os saqueadores são sete e já foram presos, aguardando julgamento. São falsos os relatos originários da Junta de Kiev e da mídia ocidental, reportando que os saqueadores foram mortos.

Batalhão Vostok descansa após operação anti-saques em Donetsk
9-) Assim que terminada a operação de combate aos saques o Batalhão Vostok liberou a praça em frente ao prédio da Administração do Donbass a fim de facilitar o acesso dos cidadãos e também a defesa, no caso de ataque por parte da Junta de Kiev.

10-) As mortes de civis no Donbass aumentam em número devido a ataques aleatórios realizados por unidades do exército da Junta de Kiev e da Guarda Nacional/Pravy Sektor. Oito civis morreram no Donbass e igual número ficou ferido em 29/5/2014. Algumas dessas baixas foram causadas por explosões aéreas de disparos de armas antipessoal disparados de canhões do exército da Junta de Kiev. Os disparos têm como alvo prédios de apartamentos nos quais não existem quaisquer unidades do exército do Donbass.

11-) Uma grande manifestação de protesto foi realizada por famílias dos reservistas mobilizados para integrar o exército da Junta de Kiev em frente ao edifício de Parlamento. Exigindo o imediato retorno de seus filhos e maridos. Pela lei ucraniana dos reservistas, estes não podem ser mobilizados por tempo maior que 45 dias sem que esteja em vigor declaração de guerra contra outro Estado soberano pela Ucrânia. Tal declaração não existe. No entanto, Kiev havia ordenado que a mobilização fosse prorrogada por tempo indeterminado.

12-) Em um dos dois helicópteros que foram derrubados em 29/5/2014, estava sendo transportado o general comandante da Guarda Nacional/Pravy Sektor e que também era o “comandante das operações de campo das unidades da Guarda Nacional”.

Restos de um dos helicópteros derrubados próximo de Slaviank
13-) A oferta de ajuda humanitária para as duas regiões, de Donetsk e Lugansk, feita pela Rússia, foi rejeitada pela Junta de Kiev.

14-) Não teve sucesso a tentativa de evacuação de crianças de algumas áreas de Slaviansk em 29/5/2014. As unidades do exército da Junta de Kiev que bloqueiam a cidade recusaram permissão de passagem aos ônibus que transportavam as crianças.

15-) Um centro de encaminhamento de refugiados foi montado na cidade de Sebastopol (Crimeia), da Federação Russa, para auxiliar no assentamento dos refugiados que chegam de áreas atingidas pelos combates na Ucrânia. Algumas centenas de refugiados chegaram a Sebastopol às 17h00 do dia 29/5/2014 e foram alojados e alimentados na cidade. Outro número está sendo socorrido em Simferopol, capital da República Autônoma da Criméia. Um outro centro de encaminhamento deve estar em funcionamento já hoje (30 de maio) em Simferopol para ajudar aos refugiados. Espera-se pela chegada de ainda mais refugiados em ambas as cidades. Se necessário, será ainda criado outra instalação para abrigar refugiados na cidade de Kerch.




Postado por The Saker

Ucrânia: Relatório de Situação (SITREP), 29/5/2014, 16:06 UTC/Zulu - Poroshenko e sua guerra esquisita

29/5/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Introdução: o contexto mais amplo da crise ucraniana

Antes de examinar os desenvolvimentos mais recentes na Ucrânia, parece-me importante mencionar, pelo menos, dois grandes eventos recentes que envolvem a Rússia.

Primeiro, Rússia, Cazaquistão e Bielorrússia assinaram a constituição da União Econômica Eurasiana, UEE [orig. Eurasian Economic Union (EEU)] à qual em breve também se unirão Armênia e Quirguistão.

Segundo, a China requereu oficialmente a constituição de uma nova aliança de segurança com Rússia e Irã, provando, afinal, que erraram gravemente todos os que disseram que a China não teria qualquer intenção real de formar aliança alguma com a Rússia. Como já mencionei em Relatório de Situação anterior, o objetivo e a natureza dos recentes acordos econômicos entre Rússia e China já constituíam o que chamei de uma cripto-aliança; agora, estamos vendo o primeiro movimento oficial da China para que se possa apagar a parte “cripto” da aliança.

Lukashenko, Nazarbaev e Putin assinam a constituição da União Econômica Eurasiana
É mais uma modificação realmente tectônica, na política mundial. É também, se pode dizer, a criação da mais poderosa coalizão de países da história do mundo.

O título de padrinho dessa nova coalizão deve realmente ir para os EUA e Barack Obama, os quais com suas políticas hostis e comicamente arrogantes em relação às duas potências, China e Rússia, muito contribuíram para que se forjasse essa aliança.

O processo, por falar dele, está só começando e está longe de acabar. Não apenas há discussões para expandir os BRICS para incluir outros países (fala-se da Argentina), como também a Organização de Cooperação de Xangai ou a Organização do Tratado da Segurança Coletiva podem também ser expandidas para incluir o Irã ou o Paquistão.

Quanto à União Econômica Eurasiana, eventualmente se metamorfoseará numa única entidade política, uma aliança eurasiana que pode vir a incluir a China em acordos econômicos e/ou de segurança.

Toda a massa de terra eurasiana está lenta mas inexoravelmente sendo integrada numa zona livre: livre, porque não controlada pelos anglo-sionistas; e livre, porque livre do dólar. O Império Anglo-sionista está com os dias contados.

Mais recentes desenvolvimentos na Ucrânia

A ofensiva ucraniana conheceu outra escalada dramática, com uso, pela primeira vez, dos Grad (lançadores de foguetes múltiplos) na cidade de Slaviansk. Pelo menos um helicóptero ucraniano, que transportava, segundo foi noticiado, um general e outros 12 passageiros, foi abatido pelas Forças de Defesa da Novorossia [orig. Novorossia Defense Forces (NDF)]. Foi ouvido fogo esporádico de artilharia, às vezes intenso, durante toda a noite e feridos continuam a chegar aos hospitais locais. Várias unidades ucranianas já depuseram armas e, basicamente, renderam-se às Forças de Defesa da Novorossia. Em Sebastopol foram demarcados organização e quartéis-generais especiais para lidar com o fluxo crescente de refugiados. Em Kiev, o Parlamento já considera declarar lei marcial, que, na prática, daria poder ilimitado à Junta e suspenderia direitos civis.

GRAD - lançador múltiplo móvel de foguetes
Há dois modos de olhar para esses eventos. Pode-se dizer que muita coisa aconteceu, que está acontecendo uma escalada, que há mortos dos dois lados, helicópteros estão sendo derrubados, unidades recusam-se a obedecer ordens que consideram criminosas, etc. Mas pode-se também dizer que, de um ponto de vista puramente militar, nada absolutamente aconteceu. Pensem do seguinte modo:

– O que se viu desde que a Junta neonazista deu início à sua operação de terror na Novorossiia? Slaviansk e Kramatorsk foram cercadas e bombardeadas. Forças da Junta neonazista tomaram os aeroportos próximos de Slaviansk/Kramatorsk e Donetsk. E só.

Para início de conversa: esses aeroportos não têm nenhuma importância estratégica. Absolutamente não são estrategicamente importantes. Normalmente, na maioria dos conflitos militares, aeroportos são alvos muito importantes, especialmente as pistas e os radares. Mas nesse caso a tomada dos aeroportos de Slaviansk/Kramatorsk e Donetsk não implicou que a Junta passasse a usar os aeroportos. De fato, há combate muito intenso nas áreas que cercam os aeroportos, para que eles possam ser usados com alguma segurança para pousos e decolagens.

Além do mais, quem precisaria de aeroportos, se se pode ir por terra a qualquer ponto do país? Talvez... para impedir que os aeroportos fossem usados pelas Forças de Defesa da Novorossia ou pelos russos, caso decidam intervir? Ora, ora! As Forças de Defesa da Novorossia não tem força aérea; e os russos com absoluta certeza não precisam de aeroportos para pôr em terra um Regimento, uma Brigada ou, até, uma Divisão Aerotransportada.

Petro Poroshenko
Assim sendo, por que a Junta decidiu comprometer suas melhores forças, para tomar aqueles aeroportos? Simples: porque não são cidades. Ou, dito de outro modo: porque os aeroportos estão localizados fora de cidades. O fato é que a Junta simplesmente não tem as forças necessárias para ocupar e controlar qualquer cidade. Então tiveram de se contentar com objetivos localizados fora das cidades: os aeroportos serviram muito bem para essa ação de “ocupação militar” que é pura encenação.

Petro Poroshenko anunciou que o que a Junta chama de “operação antiterroristas” não deve durar semanas: no máximo algumas horas. Se é assim, é preciso perguntar o seguinte: se o mix completo das forças da Junta (militares + esquadrões da morte) não conseguiu tomar e controlar nem Slaviansk (130 mil moradores) nem Kramatorsk (165 mil moradores), que chances teria o mix de tomar e controlar Donetsk (1 milhão de habitantes)? É perguntar e responder: chances zero, é claro. E menos que zero, se a coisa tiver de ser feita em poucos dias e horas!

Qual o sentido de tudo o que se vê acontecer por lá?

Será que os líderes políticos e a Junta são simplesmente estúpidos ou totalmente mal informados?

Não, não é assim tão simples. Por um lado, falar de alguma “estratégia da Junta” ou “estratégia de Poroshenko” é simplesmente errado, porque implica aceitar como verdade o mito de que haveria governo independente na Ucrânia. E não há. De fato, todas as decisões são tomadas pelo Tio Sam e seus representantes em Kiev, e as ditas “autoridades” não passam de colaboracionistas que operam com os EUA e simplesmente cumprem ordens do patrão. E com todos os pecados que carregam, o pessoal de Washington, DC, não é nem estúpido, nem mal informado. Assim sendo... Qual é a estratégia de Washington nessa guerra civil que, para dizer o mínimo, é esquisitíssima?

O primeiro projeto-objetivo, idealmente, dos anglo-sionistas seria disparar uma intervenção militar russa em proteção à Novorossia. Assim se recriariam as tensões, do tipo da Guerra Fria, de que esse pessoal tem tanta saudade. Haveria justificativa para manter existente a OTAN e, se a coisa fosse bem jogada, talvez conseguissem até pôr forças russas e da OTAN, frente à frente uma da outra, uma em cada margem do rio Dniepr.

Além de ser a concretização dos sonhos do complexo industrial-militar dos EUA, essa situação permitiria que os EUA alcançassem um de seus mais importantes objetivos estratégicos: manter a Europa sob colonização dos EUA; e impedir qualquer chance de a Europa integrar-se ao Leste.

Essa estratégia nada tem de estúpida; pode ser declarada brilhante, uma vez que só deixa ao presidente Putin duas escolhas: se a Rússia não intervém, Putin aparece como fraco, indeciso ou, até, como traidor do povo russo; mas, se a Rússia intervém, então Putin é declarado o “Novo Hitler” ou o “Novo Stálin”, mais um nacionalista russo enlouquecido dos infernos, querendo reconstruir a União Soviética e esmagando sob as esteiras dos seus tanques os bons europeus amantes da liberdade. São só clichês? Claro que sim, mas serão usados. Putin foi empurrado para uma situação de “maldito se faz, maldito também se não faz”...

A segunda opção é desgastar as Forças de Defesa da Novorossia, até que, eventualmente, tenham de render-se. Não que seja provável, mas é teoricamente possível. Caso aconteça, a rendição poderá ser apresentada como dupla vitória de Poroshenko: esmagou os “terroristas” e “obrigou o Urso Russo a retroceder”. Mais uma vez, há muito aí de delírio desejante, mas, em teoria, os EUA podem analisar esse resultado como pouco provável, mas possível.

Opção três: a velha estratégia dos EUA de “se não posso controlar, queimo tudo”. Basicamente, a estratégia aí é destruir Novorossiia, ou causar o maior dano possível, de modo que qualquer recuperação seja a mais demorada e a mais custosa possível. Serve também como lição a todos que ousem desafiar o Império: desobedeçam e nós os faremos pagar muito caro pela ousadia.

Opções russas:

Como já mencionei acima, a Rússia tem bem poucas opções. Qualquer intervenção direta dos russos na Ucrânia – opção que, em termos militares, nada teria de difícil ou complexo – teria vastíssimas consequências políticas para o futuro da estabilidade da Europa. Na essência, ao não intervir, a Rússia está negando aos EUA a Guerra Fria versão 2 que os EUA desejam tão furiosamente.

Se a Rússia intervier – e é muito possível que intervenha – significará que o Kremlin aceita que o preço real de sua intervenção é a ressubmissão de longo prazo de toda a Europa aos interesses dos EUA.

Claro que a Rússia, sim, tem a opção de oferecer ajuda clandestina às Forças de Defesa da Novorossia (e pessoalmente, cá comigo, não tenho dúvida alguma de que já está fazendo exatamente isso); mas é ação a ser empreendida por via remota e muito cuidadosamente, de modo a não dar aos EUA nenhum tipo de prova do apoio secreto russo. Mesmo assim, já se veem em alguns vídeos armamento avançado antiaéreo e antitanque, sinal bem claro de que alguém está ajudando a Resistência.

A Rússia também já começou a vazar informações sobre unidades ucranianas envolvidas em operações de terrorismo contra o povo do Donbass.

Por exemplo, a TV russa anunciou ontem que as seguintes unidades estiveram envolvidas no bombardeio contra o aeroporto de Donetsk: a Brigada 299 de Aviação Tática de Nikolaev (Su-25) e a 40ª Brigada Aérea de Vasilkovo (MiG-29), que usa a Ivan Kozhedub Air Force Universidade de Carcóvia (Mi-24; Mi-8) como base de operações de combate. Blogueiros russos também vazaram fotos e nomes dos pilotos envolvidos. Vídeo, legendado em inglês, a seguir:


Juristas russos criaram escritórios especiais de advogados que recolhem testemunhos de ucranianos cujos direitos tenham sido violados pela Junta, para instruir processos em cortes ucranianas de justiça. Claro, não há dúvida de que cortes ucranianas rejeitaram qualquer denúncia de violações cometidas pelo “governo” da “Ucrânia”; mas os russos sempre poderão levar suas ações legais para a Corte Europeia de Direitos Humanos.

A boa notícia para a Rússia é que não há meio pelo qual a Junta consiga tomar Donetsk ou Lugansk. E ainda que forças da Junta conseguissem entrar nessas cidades, nem assim teriam como controlar as cidades. Os estrategistas militares russos compreendem isso com total clareza. Afinal, os russos têm a maior experiência de combate em ambiente urbano, de todos os exércitos do mundo.

Durante a IIª Guerra Mundial, as forças soviéticas libertaram 1.200 cidades tomadas pelo Exército Alemão; e essa experiência é incansavelmente analisada e reanalisada nas academias militares russas. Além do mais, embora só uma minoria dos homens em idade de combater no Donbass tenham-se unido às Forças de Defesa da Novorossia, o bombardeio incessante e o terror do assalto pela Junta tem motivado muitos outros a unir-se à Resistência.

O tempo corre a favor da Novorossia e da Rússia

Minha impressão é que Poroshenko acordará em breve e anunciará alguma espécie de “iniciativa de paz”, que provavelmente não implicará total retirada das forças da Junta hoje na Novorossia como exigiram as autoridades locais, mas incluirá alguma “suspensão” das operações de combate. Poroshenko – que absolutamente não é idiota – sabe que tem de sentar e iniciar negociações com os russos, e sabe também que os russos não podem negociar com ele enquanto houver operações de combate.

Não tenho prova alguma, mas acho que o próprio Poroshenko já compreendeu tudo isso e que, agora, ele está tentando convencer os EUA de que é necessário aceitar os fatos em campo. Nesse momento, Poroshenko pode esconder-se por trás da pequenina folha de parreira que é o fato de que ainda não foi formalmente empossado. Dentro de poucos dias (dia 7 de junho) essa desculpa sumirá. Desconfio que, logo depois de tomar posse, ele anunciará alguma espécie de “iniciativa de paz”.

Até lá, os russos terão de esperar, rangendo os dentes ante cada nova atrocidade cometida pela Junta neonazista e seus esquadrões da morte. Depois virá o tempo de colher os frutos da espera. Mas a primeira prioridade tem de ser e será negar aos anglo-sionistas a Guerra Fria que eles estão tão desesperadamente tentando deflagrar.


The Saker