domingo, 29 de junho de 2014

Iraque: “Duas análises curtas numa análise longa” − por Mindfriedo

28/6/2014, The Saker, Mindfriedo, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
(1) A queda de Mosul foi boa para os milicianos xiitas?

Até o início de 2014, os EUA vinham pressionando Maliki para que “contivesse” as milícias xiitas. O argumento era que os xiitas poderiam desestabilizar o próprio governo; que eram aliados do Irã; e que estavam acumulando experiência de combate na Síria. O governo do Iraque formou brigadas, como “Lobo” (comandada por Abu al-Walid, comandante combatente em Tal Afar), “Tigre” e “Escorpião”, para conter a ameaça que aquelas milícias xiitas poderiam ser – mas, sobretudo, como uma ferramenta para manter organizados os sunitas.

Abu al-Walid
Outras medidas incluíram fechar a fronteira do Iraque com a Síria e suspender voos diretos. Essas duas medidas pareceram visar aos jihadistas sunitas, mas visavam de fato a conter o fluxo de combatentes xiitas. Maliki tampouco ficou muito satisfeito com essas medidas. E a segunda não passou de gesto simbólico do governo iraquiano, porque os voos entre Irã e Damasco prosseguem normalmente. A ameaça dos EUA, de criar uma zona aérea de exclusão sobre a Síria, visava a tentar impedir esses voos. Os voos de vigilância aérea sobre o Iraque e a ocupação pelos jihadistas da fronteira Iraque-Síria visam exclusivamente a tentar deter o fluxo de combatentes xiitas.

O envio de norte-americanos para o Iraque, depois da queda de Mosul, visa principalmente a monitorar os xiitas, muito mais que os sunitas.

Os norte-americanos conhecem as revoluções sunitas e sabem como inverter a ganga. Mantêm contatos com anciãos sunitas e com ex-Ba’athistas que podem usar para “domar” qualquer insurgência sunita. O problema dos EUA são os xiitas, que eles absolutamente nunca conseguiram controlar. O que você não controla sempre o amedronta.

Os EUA estavam também interessados em usar clérigos xiitas moderados, como Sistani, para conter o ímpeto dos grupos de jihadistas xiitas. Mas isso mudou, agora, em certa medida. A conclamação de Sistani às armas foi a melhor tática para aumentar o recrutamento que as milícias xiitas poderiam ter esperado. Sistani disse especificamente que os jovens deviam alistar-se no exército. Os jovens captaram a mensagem de que devem lutar, mas alistaram-se nas milícias xiitas. Os jovens não são bobos e sabem quem vence e quem perde guerras por ali.

Área de atividade do ISIS/ISIL/DAASH
Agora, o governo iraquiano está confiando naquelas milícias para conter o ISIS/ISIL/DAASH. O governo iraquiano não restringirá o treinamento de combatentes no Irã, nem o livre fluxo deles entre Síria e Iraque; e se oporá a qualquer pressão, pelos EUA, para fechar aquele fluxo. É o que se pode ver nos elogios que Maliki fez aos ataques aéreos sírios no Iraque, aos quais normalmente qualquer primeiro-ministro teria de opor-se.

Diferentes dos combatentes sunitas do ISIS/ISIL/DAASH (chechenos, afegãos, sauditas, marroquinos, europeus, etc.) os combatentes xiitas são predominantemente árabes, do Iraque e do Levante que o DAASH tanto quer “salvar”. Os árabes sunitas e as tribos sunitas estão aliados ao DAASH por conta de um sentimento de terem sido deixados de fora (em parte, efeito da propaganda; em parte, frustração genuína). Mas essa é dificuldade com a qual terão de viver. O poder que um dia tiveram, hoje, já não têm e ele não voltará. Quanto mais lutarem, mas Bagdá se converterá em cidade xiita e maior será a frustração dos sunitas. Muitos dar-se-ão conta disso; mas alguns continuarão cada dia mais radicais, por ação da propaganda saudita.

Enquanto isso, as milícias se converterão nos novos Fremen contra os Sadukar (DAASH) do Império (anglo-sionista), à espera de seu Muad'Dib (Mahdi). [1]

O duro, difícil ambiente do Iraque e a ameaça que cresce contra as milícias xiitas as manterão sempre alertas e atentas, sempre em estado de prontidão, mais bem treinadas e mais fortes a cada dia, aprendendo valiosas lições que só a luta ensina e superando o DAASH sunita em habilidades, talento, profissionalismo e moral.

(2) Milicianos xiitas são mais “ferozes” que sunitas (wahhabi)?

Uma velha piada do tempo colonial. Os britânicos queriam formar uma brigada muçulmana. Perguntaram aos muçulmanos: quais de vocês são os mais ferozes? Os muçulmanos, meio sem entender a pergunta dos “Tommys” responderam: “nossos açougueiros são ferocíssimos”. E os britânicos organizaram a brigada de muçulmanos açougueiros ferozes.

Quando os combates começaram, os açougueiros não punham o pé fora das trincheiras. O comandante “Tommy” berrou: “Por que não avançam? Vão à luta!”.

E o kassab [açougueiro] respondeu: “Ah, meu amigo, amarre eles e traga até aqui, que nós cortamos em pedaços!”.

Eis os combatentes do DAASH: açougueiros para aterrorizar os cordeiros.

Ontem assisti a vídeos dos jihadistas. Nada agradável, mas necessário.

Em primeiro lugar, o profissionalismo:

Fuzil AKM típico
Toda e qualquer milícia xiita que combate na Síria é militarmente bem organizada. Têm brigadas; as brigadas têm batalhões de lança-foguetes, fogo de morteiro e grupos de assalto. Cada milícia tem uniformes limpos e insígnia. Sabem trabalhar numa estrutura de comando, às vezes sob ordens do exército sírio. As armas usadas são quase idênticas. AKMs, AMDs, PMKs, SVDs, lança-morteiros de mão e RPGs (quase idênticos).

Arma anti-blindados
Os militantes sunitas/wahabbistas são ‘'ferozes'’, mas operam sem qualquer organização militar, sem uniformes, sem equipamento militar padrão. O Exército Sírio Livre é mais profissional e tem alguma estrutura. Mas os jihadistas são só confusão e profissionalismo zero. É o que se vê também na dificuldade do DAASH para controlar os próprios aliados, com brigas internas por qualquer pequena diferença, incapacidade para impedir que os milicianos cometam atrocidades (que, às vezes, são usadas como tática), e a incapacidade para lutar de modo sustentado em qualquer tipo de confronto.

A propaganda:

Pode não parecer óbvio para todos, mas os combatentes xiitas são levados à luta por algo que amam e prezam muito, i.e., o Ahlul Bayt [o “Povo da Casa” ou a “Família da Casa” (do Profeta)]. Os wahabbitas, por sua vez, em praticamente tudo que fazem, são movidos por ódio: ódio dos valores ocidentais, dos santos, dos xiitas, dos cristãos, dos judeus, de tudo que, para eles, é necessariamente sujo e corrompido.

A propaganda jihadista é baseada numa mensagem puritana. Exige que o sunita abra mão de um sistema de crenças que ele conserva há gerações (embora muitos sunitas pareçam estar-se separando, de antigos conceitos do Walis [Aquele em que se crê] e Wasilah [os meios de acesso a Deus], mais depressa do que uma stripper, de seus panos “modestos”). Os xiitas, por outro lado, estão convocados a trabalhar a favor de algo em que sempre acreditaram e acreditam.

Grupo etário:

Muitos jihadistas são homens jovens. Muitos morrem jovens. Mas rápida pesquisa na internet mostrará que a idade mínima para a iniciação de um combatente DAASH é dez anos. Entre os xiitas, exceto no caso dos escudos humanos de Khomeini, a idade mínima nunca foi inferior a 18 anos; e a idade média dos combatentes xiitas é 22 anos.

Suporte financeiro:

Nesse quesito os xiitas sempre perderam, desde os primeiros dias do Islã. Os sunitas conservaram para eles toda a riqueza e marginalizaram os xiitas. O Iraque pode alterar esse desequilíbrio. A riqueza do petróleo do Iraque e do Irã xiitas pode em breve ultrapassar a da Arábia Saudita. Mas, por hora, ricos, só os sunitas. As sanções contra o Irã têm o objetivo de criar dificuldades específicas, que impeçam o enriquecimento do país.

Propaganda:

É estranho que os vídeos do DAASH sejam praticamente sempre, horrendos. E os mesmos vídeos que são usados pelo DAASH ou pela al-Qaeda para recrutar novos seguidores-milicianos, são usados também pelos seus inimigos (seres humanos racionais) como contrapropaganda. Os vídeos de milícias xiitas jamais mostram atrocidades. Na maioria dos casos são centrados no culto do martírio. Os norte-americanos tentam super noticiar alegadas atrocidades que teriam sido cometidas por milícias xiitas; mas não funciona, porque os xiitas não acreditam em nada que lhes venha de fonte norte-americana.

Dois exemplos recentes de efetividade em combate:

(1) A retomada de Beirute pelo Hezbollah, em maio de 2008. Os homens de Hariri não aguentaram nem as primeiras sacudidas. Mas, sim, concordo: Beirute não é Trípoli. Contraexemplo, aqui, poderia ser Mosul. Mas Beirute é cidade mais misturada e complexa; e Mosul é, mais, uma cidade sunita baathista. Além do mais, a retomada de Beirute foi ação militar; e Mosul só foi tomada porque houve uma traição e colusão pré-combinadas. E
  

A vitória do Hezbollah e do Exército Sírio em Qusayr em 2013
(2) outro exemplo foi Qusayr em 2013. Jihadistas entrincheirados, com total apoio de estados árabes, da Turquia e do Ocidente, quebraram as próprias fileiras e fugiram. O Hezbollah pagou preço alto; e a Síria pulverizou quase toda a cidade de Qusayr; mesmo assim permanece o fato de que os jihadistas desertaram e fugiram. Para compreender, basta comparar esse quadro e Bint Jabil em 2006. Forças no mínimo iguais ou muito superiores, se se considera o arsenal à disposição de Israel e contra o Hezbollah; e o Hezbollah literalmente pôs Israel em fuga; o Hezbollah humilhou Israel. Por onde Israel deixa uma via de fuga, mais combatentes unem-se à luta.

A derrota de Israel para o Hezbollah em Bint Jabil em 2006
Importante, também, a autoavaliação que o Hezbollah produziu, do próprio desempenho (criticaram dois dos próprios comandantes, porque estavam no mesmo local, à mesma hora).

Qusayr realmente assustou o Império Anglo-sionista. A queda de Mosul os está petrificando de medo.



Nota dos tradutores

[1] Fremen: Várias referências a personagens da série “Dunas”.

EUA querem incendiar a “mudança de regime” na Síria

28/6/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vladimir Putin
Comentário na rede Xinhua chinesa, em meados de abril, que previa que as diferenças entre EUA e Rússia em torno da Ucrânia não se resolveriam “em pouco tempo” está-se revelando muito acertado e presciente. A declaração do presidente Vladimir Putin na 2ª-feira (23/6/2014), em que acolhe com simpatia o cessar-fogo anunciado por Kiev, pode e deve ser visto como inteligente tentativa para “desescalar” a crise, mas Washington absolutamente se recusa a ver as coisas por esse prisma.

De fato, Washington ridicularizou o movimento de Putin. A representante permanente dos EUA na ONU, Samantha Power, falou em tom de pouco caso sobre a declaração de Putin durante discussão sobre a Ucrânia no Conselho de Segurança na 3ª-feira (24/6/2014); chamou-a de pequena retórica de reconciliação desmentida pela ação em campo.

John Kerry
Dois dias depois, de Paris, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, praticamente deu um ultimato a Moscou. Disse que “é crítico para a Rússia mostrar nas próximas horas, literalmente, que estão se mexendo para ajudar a desarmar os separatistas, encorajá-los a desarmar-se, exigir que deponham armas e comecem a ser parte de um processo político legítimo”. Kerry “avisou” que outra rodada de sanções está à espera, a menos que Moscou “seja rápida” [Negritos MK Bhadrakumar].

Explicação plausível para esse surto de linha-duríssima poderia ser que os EUA estariam fazendo o “policial durão” (enquanto a Alemanha faria o “policial bonzinho”). Mas a Ucrânia é tema grave demais, para ser reduzido a esse tipo de tolice.

Cada dia mais claramente o que se está vendo é que os EUA não têm interesse algum em solução que surja “em pouco tempo”, como a rede Xinhua previu. E por que não? Um fator é que sem a plena e empenhada cooperação da Rússia é impossível estabilizar a Ucrânia; mas por que a Rússia cooperaria numa empreitada que pode levar a Ucrânia a ser admitida nas fileiras da União Europeia e da OTAN?

Petro Poroshenko
Dito de outro modo, o governo Obama está “exigindo” que o Kremlin rasteje ajoelhado, sabendo perfeitamente que isso jamais acontecerá. O mais provável, portanto, é que os EUA estejam antevendo que a situação da Ucrânia só pode piorar. O cenário pode ser que o presidente Petro Poroshenko ordene ataque total contra o leste da Ucrânia, imediatamente depois de esgotado o prazo do cessar-fogo, nesse final de semana; é ação que provavelmente fracassará, e todas as posições em campo só endurecerão ainda mais.

Mas... pode haver método na loucura de Obama. Considere-se o seguinte. Interessa a Washington que Moscou se envolva, pelo maior tempo possível, na Ucrânia. O pantanal eurasiano impedirá que a Rússia tenha presença ativa em outras regiões – como, por exemplo, na Síria.

Afinal, parece que não errei muito quando escrevi, no início da semana, em meu blog, que Obama tem esperanças de “resolver” o Iraque e também a Síria. Há notícias de que Obama apresentou ao Congresso proposta para armar rebeldes sírios. A lógica de Obama, como escrevi, é que Síria e Iraque seriam um mesmo poço, onde nadam os mesmos peixes.

É verdade que, sim, Síria e Iraque são questões interconectadas (e esse era também provavelmente o objetivo geopolítico dos países que apoiaram o Estado Islâmico do Iraque e Levante, ISIS/ISIL). Mas a parte realmente chocante é a argumentação de Kerry, como noticiada, segundo a qual os EUA nada teriam contra rebeldes sírios combaterem contra o ISIS/ISIL no Iraque, além da ardilosa “afirmativa” de que a tribo do líder do ISIS/ISIL, Ahmad al-Jarba também se estende até o Iraque. Jarba, como se sabe, é protegido dos sauditas.

Ahmad al-Jarba, do ISIS/ISIL com John Kerry (14/1/2014)
Em resumo, os EUA estão conseguindo envolver no conflito do Iraque, rebeldes sírios apoiados pelo sauditas. Dito de outro modo, os EUA e seus aliados do Golfo ampliarão o conflito sírio, para incluir nele também o Iraque. É a atual crise iraquiana, sendo “acrescentada” à grande estratégia.

A viagem de Kerry, hoje (28/6/2014), à Arábia Saudita trará mais informes sobre o que está acontecendo. Antes de ir a Jeddah, Kerry esteve com o ministro saudita de Relações Exteriores, príncipe Faisal al-Saud em Paris, depois de confirmar que os franceses estão “na jogada” da próxima saga Síria-Iraque. Faisal é linha-dura contra Síria (e Irã). Há notícias também de que o príncipe Bandar voltou repentinamente à liça. Viajou recentemente com o rei Abdullah, ao Cairo.

John Kerry e Saud al-Faisal em 27/6/2014
O que está fartamente claro é que a agenda de EUA-sauditas, de “mudança de regime” na Síria, voltou ao centro do palco. Claramente Putin terá de disputar palmo a palmo a Síria. Mas como poderá abandonar a Ucrânia, tão vital para os interesses russos de longo prazo, para se dedicar outra vez à Síria? Obama sentiu que teria chegado a hora de levar a agenda de “mudança de regime” na Síria até a conclusão. A “audácia da esperança de Obama é de tal ordem, que ele espera conseguir vencer o jogo de xadrez na Síria e na Ucrânia.



[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.



sábado, 28 de junho de 2014

Uma Nova Recessão e um Novo Mundo Livre da Arrogância dos EUA?

25/6/2014, [*] Paul Craig RobertsInstitute for Political Economy
Traduzido por  mberublue.



Variação do PIB dos EUA (primeiro quadrimestre de 2011 até o primeiro
 quadrimestre de 2014). Notar que no  primeiro quadrimestre de 2014 a
 previsão era de crescimento de 1,6%, mas o resultado foi queda de 2,9%.
Finalmente, foi liberado hoje (25/06/2014) um número final para o real Produto Interno Bruto dos Estados Unidos no primeiro trimestre de 2014. O número não é o de um crescimento de 2,6% previsto pelos economistas sabe-nada (orig.: know-nothing) em janeiro deste ano. O número é um declínio do Produto Interno Bruto dos Estados Unidos para -2,9%.

O crescimento negativo de 2,9% noticiado, por si só, já é um eufemismo, pois somente foi alcançado pela subestimação da inflação ocorrida durante o período. Durante o regime Clinton, a Boskin Commission (grupo de estudos nomeado pelo Senado dos Estados Unidos em 1995 para medir a inflaçãoNT) manipulou o cálculo da inflação para enganar os beneficiários da Seguridade Social em seus ajustes do custo de vida. Qualquer cidadão, ao adquirir comida, combustível ou seja o que for, sabe que a inflação está muito mais alta que os números oficiais fornecidos pelo governo.

É bem possível que a queda real do PIB no primeiro trimestre seja de três vezes o número oficial.

De qualquer forma, a diferença entre a previsão de crescimento de 2,6% feita em janeiro e o declínio no final de março, de 2,9% é enorme (5,5%).

Qualquer economista de verdade e que não esteja sendo pago por Wall Street, pelo governo ou pelo establishment, sabe que a previsão de crescimento de 2,6% era uma safadeza. Com exceção do 1%, o rendimento do povo americano não cresceu e o único crescimento real que aconteceu foi o dos empréstimos a estudantes, já que muitos dos que não conseguem encontrar um emprego voltam-se de forma errônea para a crença de que “educação é a resposta”. Em uma economia que se baseia na demanda de consumo, a falta de aumento nos rendimentos e no crédito significa que a economia não crescerá.

Inflação dos alimentos (jan. 2013 até jan. 2014)
A economia dos EUA não pode crescer porque, incentivadas por Wall Street, as corporações transferiram a economia dos Estados Unidos para uma economia offshore (empresas offshore são aquelas entidades comerciais ou financeiras que se localizam em domicílio diverso do país de seus proprietários e não sujeitas, portanto, às leis desse país. “Economia offshore”, como denomina o autor, seria uma economia grandemente localizada fora do país, por motivos comerciais, como mão de obra mais barata e isenções fiscais, por exemploNT). São feitos fora do país os produtos manufaturados dos Estados Unidos. Preste atenção nas etiquetas de suas roupas, sapatos, sua comida e utensílios de cozinha, seus computadores, qualquer coisa. Trabalhos profissionais dos Estados Unidos, como engenharia de software, migraram para fora do país. Uma economia com economia fora do país não é uma economia. Tudo acontece bem na nossa frente, enquanto os bem pagos figurantes mentirosos do mercado declaram que os americanos são beneficiados por dar seus empregos da classe média americana para a China ou a Índia.

Tenho mostrado essas mentiras por uma ou duas décadas, e é por isso que há tempos não sou convidado para falar para universitários americanos ou para associações financeiras americanas. Os economistas gostam muito do dinheiro que recebem para mentir. A última coisa que querem em seu meio é uma pessoa que fale a verdade. Um declínio oficial de 2,9% no primeiro trimestre significa que o segundo trimestre também verá um declínio do PIB. Uma recessão é definida como dois trimestres consecutivos de PIB negativo.

Pense nas consequências de uma recessão. O significado é o de que anos de Quantitative Easing (Flexibilização Quantitativa – política monetária fora do convencional, onde ocorrem compras massivas de valores mobiliários por um Banco Central ou governo com a intenção de reduzir juros e aumentar a oferta de moeda. Considerada atualmente financeiramente perigosa pelo risco de aumento da inflação e redução do crédito [o que diminuiria a produção], se os bancos resolverem estocar o excesso de moeda gerado por essa política financeiraNT) falharam em reativar a economia. Significa ainda que anos de déficits fiscais Keynesianos não conseguiram reativar a economia. Nem as políticas fiscais, nem as monetárias tiveram sucesso. O que pode reativar a economia?

Base Monetária ajustada e os QEs de 2008  (QE1), 2009 (QE2) e 2013 QE3)
Nada, exceto forçar o retorno da economia que as corporações antiamericanas levaram para fora, o que requer um governo que tenha credibilidade. Infelizmente, o governo dos Estados Unidos perdeu credibilidade desde o segundo mandato de Clinton. A credibilidade não mais existe. Nada.

Atualmente não existe qualquer lugar no mundo onde se acredite no governo dos Estados Unidos, com exceção dos zumbis americanos sem cérebro que lêem e assistem a “imprensa-empresa convencional”. A propaganda política manipulada de Washington dominou a mente dos estadunidenses, mas em qualquer outro lugar do mundo, produz gargalhadas e escárnio.

As perspectivas cambaleantes da economia dos Estados Unidos levaram dois grandes lobbies de negócios – A Câmara de Comércio dos Estados Unidos e a Associação Nacional de Fabricantes (ou o que restou delas) a entrar em conflito com a ameaça do regime de Obama, que pretende novas sanções contra a Rússia.

De acordo com o Bloomberg News, a partir de amanhã (26 de junho de 2014 – o que realmente aconteceu - NT), as associações de negócios começarão a postar anúncios do New York Times, Wall Street Journal e Washington Post em oposição a novas sanções contra a Rússia. As organizações comerciais dos Estados Unidos dizem que as sanções contra a Rússia prejudicarão seus lucros e significarão mais desemprego para os estadunidenses.

Papai, Obama colocou sanções na minha mesada!
Dessa forma, duas grandes organizações de comércio e finança dos Estados Unidos, o que significa dizer grandes doadores de campanhas políticas, finalmente juntaram suas vozes às dos homens de negócios da Alemanha, da França e da Itália.

Fora o público norte-americano que sofreu a lavagem cerebral da imprensa-empresa, todos sabem que a “crise da Ucrânia” não passa de um trabalho engendrado por Washington. Homens de negócios europeus e dos Estados Unidos perguntam: “por que devemos sacrificar nossos lucros e nossos trabalhadores por causa da propaganda política mentirosa de Washington contra a Rússia?”.

Para isso, Obama não tem resposta. Talvez a sua escória neocon representada por Victoria Nuland, Samantha Powers e Susan Rice possa apresentar uma resposta. Obama pode contar com o New York Times, Washington Post, Wall Street Journal e Weekly Standard para explicar porque milhões de norte-americanos devem sofrer para que o roubo que os EUA praticam contra a Ucrânia não seja ameaçado. As mentiras dos EUA aumentam com Obama.

A chanceler alemã Angela Markel é uma completa prostituta dosEUA, mas a indústria alemã está dizendo à puta de Washington que, para eles, tem muito mais valor seus negócios com a Rússia que o sofrimento que terão que passar por causa dos motivos do império de Washington. Os homens de negócios franceses estão inquirindo a Hollande quais as suas propostas para os milhares de trabalhadores franceses que fatalmente perderão seus empregos na França caso Hollande resolva seguir os ditames de Washington. As empresas italianas estão lembrando ao governo de seu país – se é que a Itália tem um – que os estadunidenses são pessoas grosseiras e sem finesse e que as sanções contra a Rússia significam um golpe diretamente contra o setor econômico mais reconhecido e organizado da Itália – o setor de produtos de luxo de alto padrão.

As divergências entre os EUA e os dois governos joguetes de Washington na Europa estão se espalhando. A última pesquisa realizada na Alemanha mostra que três quartos da população alemã rejeitam de forma permanente a instalação de bases da OTAN na Polônia e nos Estados Bálticos. A antiga Checoslováquia, atuais Eslováquia e República Checa, mesmo sendo estados membros da OTAN não mais aceitam a OTAN e as tropas dos Estados Unidos em seus territórios. Recentemente, um ministro da Alemanha disse que para satisfazer os EUA é preciso lhe dar uma rodada de sexo oral, sem benefício algum em retorno.

Bases Militares dos EUA na Alemanha
Os rumos que os idiotas de Washington estão dando à OTAN podem pouco a pouco destruir a organização. Reze para que isso realmente aconteça. A desculpa para a existência da OTAN acabou com o colapso da União Soviética, 23 anos atrás. No entanto, os EUA incrementaram a OTAN, que cresceu para além das fronteiras da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Hodiernamente, a OTAN cobre do Báltico até a Ásia Central. Para que haja uma razão que justifique a constante e caríssima expansão da OTAN, Washington resolveu construir um novo inimigo: a Rússia.

A Rússia tem deixado muito claro que não pretende fazer da OTAN e dos EUA seus inimigos. Mas o complexo exército/segurança dos Estados Unidos, que anualmente consomem um trilhão de dólares (US$ 1.000.000.000.000) dos já pressionados pagadores de impostos estadunidenses precisa de uma desculpa que faça com que os lucros continuem fluindo.

Infelizmente, os imbecis em Washington escolheram um inimigo perigoso. A Rússia é uma potência com armas nucleares, um país de vastas dimensões e com uma aliança estratégica com a China. Apenas um governo que se afoga na própria arrogância e húbris ou um governo cheio de psicopatas e sociopatas escolheria tal inimigo.

O presidente russo, Vladimir Putin alertou a Europa de que a política dosEUA para o Oriente Médio e Líbia não apenas se revelou num fracasso total, como prejudica fortemente a Rússia e a Europa. Os imbecis em Washington removeram os governos que contiveram os jihadistas. Agora, os jihadistas violentos estão desenfreados. Estão neste mesmo instante refazendo no Oriente Médio as fronteiras artificiais impostas pela Bretanha e pela França após o final da Primeira Grande Guerra Mundial. A Europa,assim como a Rússia e a China, todos tem populações islâmicas e agora devem se preocupar, porque a violência desencadeada pelos EUA poderá provocar a desestabilização de regiões da Europa, Rússia e China.

Ninguém, em qualquer parte do mundo, tem motivos para gostar dos Estados Unidos. Muito menos todos os estadunidenses, sangrados até a inanição para que Washington possa fazer paradas de exibição de poder pelo mundo afora. A taxa de aprovação de Obama é de minguados 41% e ninguém gostaria que ele permanecesse no gabinete, uma vez terminado seu segundo mandato. Contrastando com isso, dois terços da população russa querem que Putin permaneça como seu presidente depois de 2018.

Em março, a agência de pesquisa Public Opinion Research Center, informou que a taxa de aprovação de Putin chegava a 76%, e isso apesar da agitação contra ele, promovida pelas ONGs russas financiadas pelos Estados Unidos e instaladas às centenas como quintas colunas estabelecidas na Rússia pelos EUA durante as duas últimas décadas.

Aprovação de Putin na Rússia - 86,9% (14/5/2014)
No topo dos problemas da política dos Estados Unidos o dólar americano encontra-se em perigo. O dólar ainda se mantém com o nariz fora d’água Porque os mercados financeiros estão sendo pressionados pelos Estados Unidos a manter o seu valor, através da impressão desenfreada de suas próprias moedas para comprar dólares. Para que isso se mantenha, uma grande parte do mundo está sendo corroído pela inflação. Quando todo mundo finalmente abandonar essa política insana e correr para o ouro, a China estará com tudo.

Um dos conselheiros do presidente Putin, Sergey Glazyev, já disse ao presidente russo que apenas uma aliança que faça com que o US$ (dólar dos EUA) perca seu valor pode fazer cessar as agressões de Washington. Esta é, há muito tempo, a minha própria opinião. Não haverá, não pode haver paz enquanto os EUA puderer continuar imprimindo dinheiro para financiar mais guerras.

Como já disseram os governantes chineses, está na hora de “desamericanizar o mundo”. Os líderes dos EUA falharam completamente com o mundo, produzindo nada mais que mentiras, violência, morte e a promessa de mais violência.

Os Estados Unidos são excepcionais apenas na medida em que Washington, sem qualquer remorso, destruiu em parte ou no todo, sete países apenas neste começo do século 21. Enquanto a liderança em Washington não for substituída por líderes mais humanos, a vida na Terra não tem futuro.
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[*] Paul Craig Roberts (nascido em 3/4/1939) é um economista norte-americano e colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que destruíram a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

Síria: Obama prolonga a guerra

27/6/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



O presidente Obama pediu $500 milhões ao Congresso na 5ª-feira (26/6/2014), para treinar e equipar “membros da oposição síria adequadamente selecionados”, como disse a Casa Branca, mostrando crescente preocupação com o “respingamento” do conflito sírio sobre o Iraque.

É ideia de doidos e movimento lunático. Injetar mais armas e mais rebeldes armados no conflito sírio só fará aumentar o conflito e afetará negativamente a situação da segurança na Síria, no Iraque, no Líbano, na Turquia e na Jordânia. Assim se comprova que ninguém está preocupado com qualquer “respingamento”.

Em agosto do ano passado, Edwald Luttwak escreveu que os EUA ganham, se os dois lados continuarem a lutar; e que os EUA portanto deveriam estender o conflito o mais possível:

O objetivo dos EUA deve ser manter o impasse. E o melhor meio possível para conseguir manter o conflito é armar os rebeldes quando parecer que as forças do Sr. Assad estejam em ascensão; e cortar o suprimento, se os rebeldes parecerem estar realmente vencendo. 

Civis sírios assassinados com gás SARIN pelo ESL, financiados pelos EUA (ago/2013)

Tudo sugere que Obama, mesmo ao preço de fracasso regional mais amplo, está seguindo essa política.

Os porta-vozes de Obama merecem outra medalha Orwell:

Apesar de continuarmos a crer que não há solução militar para essa crise e que os EUA não devem pôr soldados norte-americanos em combate na Síria, esse pedido marca mais um passo para ajudar o povo sírio a defender-se contra ataques do regime – disse Caitlin Hayden, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, em declaração.

O maior perigo para os civis e para o Exército Sírio Livre, cujo principal comandante oficial foi (outra vez) demitido por corrupção, não são as forças do governo de Assad, mas os terroristas jihadistas.

Terrorista (sniper) do ESL, treinado pelos EUA com fuzil belga FAL, com luneta
Os EUA já treinam e armam rebeldes “adequadamente selecionados” há, no mínimo, dois anos! E já entregaram a eles toneladas de armas. Aquelas armas acabaram em mãos dos terroristas jihadistas e os rebeldes “selecionados” estão hoje ou mortos ou já se uniram a grupos associados à al-Qaeda. O novo treinamento tomará seis meses, antes de os “treinados” estarem, digamos, “prontos”. Em seis meses, o exército sírio legal estará em melhor posição do que está hoje e o principal inimigo para todos naquele campo de batalha será o ISIS.

Não será surpresa para mim quando os tais rebeldes “adequadamente selecionados” e já treinados se unirem ou às tropas de Assad ou às tropas do ISIS, tão logo retornem à Síria, no final do “treinamento” que os EUA desejam que tenham.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou  “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ouvir versão em performance de Tim van Broekhuizen.