Mostrando postagens com marcador Assembleia Geral da ONU. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Assembleia Geral da ONU. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Sergey Lavrov, Ministro de Relações Exteriores da Rússia, “Discurso à ONU”, 27/9/2014

“Ninguém tem o monopólio da verdade”

15/10/2014, Sergey Lavrov,  Information Clearing House
Traduzido da transcrição em inglês pelo pessoal da Vila Vudu

Washington declarou abertamente seu direito ao uso unilateral de força militar onde bem entenda, para fazer avançar seus próprios interesses. A interferência militar tornou-se norma, apesar do lamentável resultado de todas as ações de força que os EUA empreenderam nos últimos anos. Sergey Lavrov, 27/9/2014


Muito obrigado, Sr. Presidente.

Senhoras e senhores,

Há crescente evidência hoje de uma contradição entre esforços coletivos e deliberados na direção de desenvolverem-se respostas adequadas a desafios comuns de todos nós, e a aspiração, de alguns estados, por dominação e por fazer ressuscitar um arcaico pensamento de bloco, baseado na disciplina militar e numa lógica errada de amigo ou inimigo.

A aliança ocidental liderada pelos EUA que se autoapresenta como campeã da democracia, do estado de direito e da defesa de direitos humanos em vários países, age de uma posição diametralmente oposta na arena internacional, rejeitando os princípios democráticos da igualdade soberana entre todos os estados, e sempre tentando decidir, pelos demais, o que é bem e o que é mal.

Washington declarou abertamente seu direito ao uso unilateral de força militar onde bem entenda, para fazer avançar seus próprios interesses. A interferência militar tornou-se norma, apesar do lamentável resultado de todas as ações de força que os EUA empreenderam nos últimos anos. A sustentabilidade do sistema internacional foi severamente abalada pelo bombardeio, pela OTAN, contra a Iugoslávia, pela intervenção militar no Iraque, pelo ataque contra a Líbia e pelo fracasso no Afeganistão.

Só graças a intensos esforços diplomáticos foi possível impedir mais uma agressão, daquela vez contra a Síria, em 2013. Há uma impressão involuntária de que o objetivo das várias ‘revoluções coloridas’ e outros projetos para derrubar governos que não interessem aos EUA, é criar cada vez mais caos e instabilidade. Hoje, a vítima dessa política arrogante é a Ucrânia. A situação ali mostrou as falhas sistemáticas, profundamente enraizadas, da arquitetura ainda prevalecente na área euro-atlântica. O ocidente embarcou num curso rumo à estruturação vertical da humanidade, talhada pelos seus próprios padrões, que estão muito longe de serem inofensivos.

Depois de terem declarado vitória na Guerra Fria e, logo depois, o chamado “Fim da História”, os EUA e a União Europeia optaram por expandir a área geopolítica sob controle deles, sem qualquer atenção à necessidade de preservar o equilíbrio entre os interesses legítimos de todos os povos da Europa. Os parceiros ocidentais não deram ouvidos aos nossos inúmeros avisos, de que seria inadmissível que violassem os princípios da Carta da ONU e o que determina o Helsinki Final Act. Repetidas e repetidas vezes recusaram-se a qualquer trabalho conjunto para estabelecer um espaço comum de segurança e cooperação iguais e indivisíveis, do Atlântico ao Oceano Pacífico.

A proposta russa para a redação do Tratado de Segurança Europeia foi rejeitada. Disseram-nos diretamente que as garantias legais de segurança comum a todos só ‘garantem’ os membros da Aliança da Atlântico Norte. Hoje, continuam a avançar para o leste, apesar de todas as promessas de que não fariam o que estão fazendo.

A mudança instantânea da OTAN, para uma retórica de hostilização, para o fim de qualquer cooperação com a Rússia, até em detrimento de interesses do próprio ocidente, e a construção de infraestrutura militar junto às fronteiras da Rússia revelam a incompetência da aliança, que não consegue alterar o código genético com o qual foi inventada durante a Guerra Fria.

O golpe de Estado apoiado por EUA e União Europeia na Ucrânia e convertido em ‘justificativa’ automática para todos e quaisquer atos das autoproclamadas autoridades em Kiev, que optaram por suprimir pela violência a parte do povo ucraniano que rejeitou todas as tentativas para impor no país uma ordem anticonstitucional e decidiu defender seu direito aos próprios idioma, cultura e história. É precisamente o assalto agressivo contra esses direitos que ajudam a população da Crimeia a tomar o próprio destino nas mãos, e fazer suas escolhas na direção da autodeterminação.

Foi escolha absolutamente livre, não importa o que tenham inventado os mesmos que são responsáveis básicos pelo conflito interno na Ucrânia. Esforços gerais para distorcer a verdade e ocultar fatos por trás de um véu de acusações foram coisas que lá estiveram em todos os estágios da crise ucraniana. Nada se fez para levar aos tribunais os culpados pelos sangrentos eventos de fevereiro na praça Maidan e pelo número escandaloso de mortes em Odessa, Mariupol e outras regiões da Ucrânia.  A escala do horrendo desastre humanitário provocado por atos do exército ucraniano no sudeste da Ucrânia tem sido deliberadamente manipulada e reduzida.

Recentemente, novos fatos horríveis foram trazidos à luz, quando se descobriram covas para enterramento em massa, nos subúrbios de Donetsk. Apesar da Resolução n. 2166 do Conselho de Segurança da ONU, não se levou a efeito nenhuma investigação ampla e independente sobre as circunstâncias da queda do avião malaio sobre território da Ucrânia. Os perpetradores de todos esses crimes têm de ser identificados e levados a julgamento, ou continuará a ser difícil que aconteça uma reconciliação nacional na Ucrânia.

A Rússia está sinceramente interessada na restauração da paz naquele país vizinho, o que pode ser facilmente bem compreendido por todos que tenham qualquer conhecimento da história dos laços fraternais profundos entre os dois povos. O caminho para um acordo político é bem conhecido. Em abril passado, Kiev já assumira a obrigação, na Declaração de Genebra, assinada por Rússia, Ucrânia, EUA e União Europeia, de iniciar imediatamente um amplo diálogo nacional, com a participação de todas as regiões e forças políticas na Ucrânia, com vistas a fazer uma reforma da Constituição. A implementação dessa obrigação permitiria que todos os ucranianos concordassem sobre viverem conforme suas tradições e cultura, e permitira que a Ucrânia restaurasse seu papel orgânico como elo de ligação entre várias partes do espaço europeu, o que naturalmente implica preservar e respeitar  seu status neutro, não de bloco.

Estamos convencidos de que com boa vontade, e desde que todos se recusem a apoiar o partido pró-guerra em Kiev, que tenta empurrar o povo ucraniano para o abismo da catástrofe nacional,  há uma saída para fora da crise, ao nosso alcance. A via para superar a crise foi aberta pelo acordo de cessar-fogo no sudeste da Ucrânia – resultado de iniciativas dos presidentes Poroshenko e Putin. Com a participação de seus representantes em Kiev, Donetsk, Lugansk e da Organização de Segurança e Cooperação da Europa e da Rússia, estão sendo tomadas medidas práticas para a implementação sucessiva desses acordos, incluindo a separação das partes em conflito, a remoção de armas pesadas que haja na Ucrânia e em mãos de milícias, e a criação de mecanismos de monitoramento através da Organização de Segurança e Cooperação da Europa.

A Rússia está preparada para continuar a promover ativamente o acordo político mediante o bem conhecido processo de Minsk e outros formatos. Contudo, é preciso que fique absolutamente claro que estamos fazendo isso em nome da paz, tranquilidade e bem-estar do povo ucraniano – não para satisfazer ambições de um ou outro. Tentativas de pressionar a Rússia ou de tentar fazê-la abandonar seus valores, a verdade e a justiça não têm chance alguma de sucesso.

*****

Permitam-me relembrar um pouco da história não muito distante. Como condição para estabelecer relações diplomáticas com a União Soviética em 1933, o governo dos EUA exigiu de Moscou garantias de não interferência nos assuntos domésticos dos EUA e a obrigação de não empreender qualquer ação com vistas a mudar a ordem política e social nos EUA. Naquele momento, Washington temia um vírus revolucionário, e aquelas garantias foram dadas. Essa foi a base, é claro, para reciprocidade entre os EUA e a União Soviética. Talvez faça sentido voltar a esse tópico e reproduzir as exigências dos EUA daquele momento – agora em escala universal.

Por que a Assembleia Geral não adota uma declaração da inadmissibilidade de qualquer interferência em assuntos internos de estados soberanos? Sobre a inadmissibilidade de um golpe de estado como método para mudanças no poder? É mais que hora de excluir completamente das interações internacionais toda e qualquer tentativa, de alguns estados, de aplicar pressões ilegítimas, sobre outros estados. A total falta de qualquer sentido e a natureza contraproducente de sanções unilaterais são óbvias, se se considera o exemplo do bloqueio que os EUA fazem contra Cuba.

A política dos ultimatos e a filosofia da supremacia e do domínio não combinam adequadamente com o que o século 21 exige de nós; e trabalham contra o objetivo de desenvolver-se uma ordem mundial policêntrica democrática.

A Rússia está promovendo uma agenda positiva e de unificação. Sempre estivemos e continuamos abertos à discussão das mais complexas questões, não importa o quanto possam, de início, parecer insolúveis. Sempre estaremos preparados a buscar compromissos e um equilibramento de todos os interesses, até mesmo uma troca de concessões, mas só se a discussão for realmente respeitosa e equitativa. Os acordos de Minsk, assinados dias 5 e 19 de setembro, como saída para a crise ucraniana, e o compromisso do cronograma do acordo entre Kiev e a União Europeia são bons exemplos a seguir, como a declaração, finalmente, de que Bruxelas está pronta para iniciar negociações sobre o estabelecimento de um acordo de livre-comércio entre a União Europeia e a União Aduaneira de Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão, como proposto pelo presidente Putin em janeiro de 2014.

A Rússia nunca desistiu de clamar pela harmonização dos projetos de integração na Europa e Eurásia. A política dos marcos e cronogramas políticos para essa convergência de integrações seria real contribuição ao trabalho da Organização de Segurança e Cooperação da Europa, no tópico Helsinki Plus 40”.

*****

Outra área crucial desse trabalho seria lançar uma discussão pragmática, livre de ideologia, sobre a arquitetura política e militar da região euro-atlântica, de tal modo que não só os membros da OTAN mas todos os países da região, inclusive Ucrânia, Moldávia e Geórgia, pudessem partilhar da mesma segurança equitativa e indivisível, sem que ninguém fosse obrigado a uma falsa escolha do tipo “ou está conosco, ou está contra nós”. Não se devem admitir novas linhas de divisão na Europa, tanto mais que, por causa da globalização, essas linhas podem rapidamente se converter em divisão insuperável entre o ocidente e o resto do mundo.

Deve-se declarar com honestidade, que ninguém tem o monopólio da verdade e ninguém é capaz de recortar processos globais e regionais para adaptá-los só às suas próprias necessidades. Hoje não há alternativa ao desenvolvimento de um consenso que afirme as regras da governança sustentável e novas circunstâncias históricas de pleno respeito pela diversidade cultural e civilizacional do mundo – o que gera uma multiplicidade de modelos de desenvolvimento. Será tarefa difícil, sempre trabalhosa e cansativa, alcançar esse consenso em todas as questões, mas o reconhecimento do fato de que a democracia em cada estado é a pior forma de governo exceto todas as demais também exigiu muito tempo e trabalho – até que Churchill proclamou seu veredito.

É chegada a hora de assumir a inevitabilidade dessa verdade fundamental nos assuntos internacionais, onde há hoje imenso déficit de democracia. Claro: alguns terão de superar ideias já velhas de séculos, e abandonar para sempre fantasias de excepcionalismo ou de raridade total eterna. Mas não há outro meio para seguir avante. Esforços conjuntos só podem surgir a partir do princípio de respeito mútuo e levando-se em consideração os interesses das demais partes. É o que se faz, por exemplo, nos quadros do Conselho de Segurança da ONU, no G20, entre os países BRICS e na Organização de Cooperação de Xangai.

*****

A teoria do valor do trabalho coletivo tem sido reafirmada pela prática, e aí se inclui o progresso na resolução da situação criada em torno do programa nuclear iraniano e a bem-sucedida desmilitarização química da Síria. Sobre essa questão, e por falar em armas químicas, gostaríamos de receber informação autêntica sobre o estado dos arsenais químicos na Líbia. Entendemos que nossos colegas da OTAN, depois de bombardearem aquele país, ao arrepio do que determinam resoluções do Conselho de Segurança da ONU, não gostariam de aprofundar ainda mais a situação confusa e perigosa que criaram. Mas fato é que o problema de arsenais químicos não controlados na Líbia é grave demais para que possamos fingir que nada vemos.

Entendemos que o secretário-geral da ONU também tem obrigação de dar prova de sua responsabilidade nessa questão. Importante, nesse momento, é ver as prioridades globais e evitar deixar-se prender como refém a uma agenda unilateral. Há urgente necessidade de fugirmos dos duplos padrões e abordagens dúbias na resolução de conflitos. De modo geral, todos concordamos que a questão chave é combater resolutamente contra terroristas que tentam pôr sob controle deles territórios cada dia mais extensos no Iraque, Síria, Afeganistão e na área do Sahara-Sahel.

Sendo esse o caso, essa tarefa não pode ser sacrificada a esquemas ideológicos ou ao desejo de ‘resolver’ casos pessoais. Terroristas, não importa por trás de que slogans se escondam, são fora da lei; e como tal devem ser tratados. Sobretudo, e nem é preciso dizer, a luta contra o terrorismo deve ser feita sobre base firme da lei internacional. Fase importante nesse processo é a adoção unânime de várias resoluções de segurança da ONU, incluindo resoluções sobre combatentes terroristas estrangeiros; na direção contrária, toda e qualquer tentativa para atropelar com contravenções a Carta da ONU de modo algum contribuem para o sucesso de nossos esforços conjuntos.

A luta contra terroristas no território da Síria tem de ser organizada em cooperação com o governo sírio, o qual já disse claramente que está pronto a colaborar. Damasco já mostrou sua capacidade para cooperar com programas internacionais, com a participação que teve na destruição de seus arsenais químicos. Desde o primeiro momento da Primavera Árabe, a Rússia sempre clamou que aquele movimento não fosse deixado à mercê de extremistas, e que se estabelecesse uma frente unida para responder à crescente ameaça terrorista. Fomos contra a tentação de converter em ‘aliado’ praticamente qualquer um que se proclamasse inimigo de Bashar Al Assad – como Al-Qaeda, Al Nusra ou qualquer outro parceiro desses que se interessavam por mudança de regime, inclusive o ISIL, que hoje está no centro das nossas atenções.

Como diz o ditado, melhor tarde do que nunca. Não será a primeira vez que a Rússia faz contribuição muito real para a luta contra oISIL e outras facções terroristas ativas na região. Enviamos grandes lotes de armas e de equipamento militar para  os governos do Iraque, da Síria e de outros países no Oriente Médio e no Norte da África, e continuaremos a apoiar os esforços deles para suprimir terroristas. A luta contra a ameaça terrorista exige abordagem ampla; queremos arrancar a causa raiz do terrorismo, em vez de nos deixar condenar a reagir sempre só contra os sintomas. O ISIL é apenas parte do problema.

Propomos que se lance, sob os auspícios do Conselho de Segurança da ONU, um estudo amplo e profundo sobre a ameaça extremista e terrorista, e aspectos dessas ameaça no Oriente Médio e região norte da África.

Essa abordagem integrada implica também que o conflito de longa duração deve ser identificado, em primeiro lugar, entre árabes e Israel. A questão Israel-Palestina arrasta-se sem solução há várias décadas e é amplamente reconhecida como um dos principais fatores de instabilidade na região, que ajuda os extremistas no trabalho de recrutar mais e mais jihadistas.

*****

Outra área literalmente urgente para nosso trabalho comum é unir nossos esforços para implementar decisões da Assembleia Geral e do Conselho de Segurança da ONU para combater o vírus ebola. Nossos médicos já estão trabalhando na África. Há planos para mandarmos mais ajuda humanitária, assistência, equipamentos, instrumentos médicos, remédios e esquipes de especialistas para dar assistência aos programas da ONU na Guiné, Libéria e Serra Leoa.

*****

A ONU foi criada das ruínas da IIª Guerra Mundial, e já está entrando no ano de seu 70º aniversário. É obrigação para todos nós celebrarmos de modo apropriado o aniversário daquela grande vitória, e pagar tributo à memória dos que morreram pela liberdade e pelo direito de cada povo determinar o próprio destino.

As lições daquela guerra terrível, e o curso completo dos eventos no mundo de hoje, exigem que unamos esforços e esqueçamos os interesses unilaterais e os ciclos das eleições nacionais. Quando se trata de enfrentar ameaças globais contra toda a humanidade, é preciso impedir que o egoísmo nacional prevaleça sobre nossa responsabilidade coletiva. 

Muito obrigado.



terça-feira, 1 de abril de 2014

ONU e a questão da Ucrânia: Assembleia Geral versus Conselho de Segurança

30/3/2014, [*] Alexander Mezyaev, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido no “Fricote da Nêga”, na Vila Vudu — Seguinte: a imbecilidade da ideia dos EUA na ONU, de “declarar” alguma ilegalidade no referendo pelo qual a Crimeia decidiu separar-se da Ucrânia é equivalente a Portugal pôr-se a “declarar” que a independência do Brasil em 1822 seria ilegal, “porque” feri(ria) a integridade territorial de Portugal. Será que, assim bem explicadinho, o vagabundíssimo “jornalismo” brasileiro, afinal, entende do que se trata?!

Plenário da Assembleia Geral da ONU
Dia 27 de março, a Assembleia Geral da ONU  aprovou resolução intitulada “Integridade territorial da Ucrânia” [orig. “Territorial Integrity of Ukraine”, A/RES/68/262), com 100 votos a favor [1]; 11 contra (Rússia, Armênia, Bielorrússia, Bolívia, Cuba, Coreia do Norte, Nicarágua, Sudão, Síria, Venezuela e Zimbabue); e 58 abstenções (24 estados-membros ou estavam ausentes ou presentes, mas não votaram). Os votos dos países membros do Conselho de Segurança ficaram assim distribuídos: Rússia votou contra; Argentina, China e Ruanda abstiveram-se; e os demais membros do CS votaram a favor.

O que diz o documento da Assembleia Geral da ONU? Afirma o compromisso da ONU com a soberania, a independência política, a unidade e a integridade territorial da Ucrânia, dentro de suas fronteiras internacionalmente reconhecidas, e “declara” inválido o referendo do dia 16/3 realizado na Crimeia autônoma. Há dois momentos a observar aqui:

primeiro, a Carta das Nações Unidas proíbe que se levem a votação na Assembleia Geral questões que estejam sob análise do Conselho de Segurança, enquanto estiverem sendo analisadas ali. Mesmo assim e apesar da ilegalidade, a questão da Ucrânia chegou à Assembleia Geral;

segundo, como determina a Carta das Nações Unidas, as resoluções aprovadas pela Assembleia Geral não são cogentes [não têm de ser obrigatoriamente obedecidas ou consideradas (NTs)].

Quanto aos estados que aprovaram a Resolução, será que se ampararam em argumentos sólidos? Pode-se entender que esses 100 estados estariam unidos numa mesma posição política, discutida e sólida? A resposta é “Não”.

Reunião do Conselho de Segurança da ONU
Já se passou muito tempo desde que começou a campanha anti-Rússia relacionada à Crimeia; os autores da resolução não conseguiram reunir argumentos convincentes nos quais amparar sua iniciativa. Por isso acabaram tendo de recorrer à fórmula da Resolução A/RES/68/262.

A noção de que o referendo na Crimeia “desconsidera (ria) a lei internacional” não tem qualquer fundamento. Os representantes da Moldávia, do Japão e outros estados insistiram que o referendo estaria em conflito com a lei internacional, mas nenhum deles conseguiu citar o exato artigo da lei que estaria sendo “desconsiderado”. A memória fraca explica-se, porque simplesmente não há artigo algum que tenha sido “desconsiderado” na realização do referendo. Que o mundo saiba, a lei internacional absolutamente não proíbe referendos.

A verdade é o contrário disso tudo: a Corte Internacional de Justiça determinou que uma declaração unilateral de independência não desrespeita a lei internacional.

Nenhum dos patrocinadores do golpe na Ucrânia, nem a maioria sempre servil ao ocidente na Assembleia Geral da ONU esforçou-se muito para oferecer argumentos legalmente aproveitáveis a favor de sua proposta de resolução, afinal aprovada. Tudo, ali, resume-se a pura propaganda.

Deliberadamente, os fatos foram distorcidos e a lei foi apresentada sob forma que não corresponde ao que a lei realmente estabelece.

Por exemplo, o termo “anexação” é várias vezes repetido, quando se sabe que a Crimeia decidiu em referendo, por desejo manifesto do próprio povo crimeano, deixar a Ucrânia e se incorporar a outro estado. Não houve jamais, portanto, qualquer “anexação”.

Consideremos agora a questão da “violação” da integridade territorial da Ucrânia. Como já disse em outro artigo, o princípio da integridade territorial é mencionado na Declaração de Princípios da Lei Internacional de 1970, no contexto de intervenção por outro país. Absolutamente não se aplica a referendos internos decididos por população que tem pleno direito a autodeterminação.

A Lei Internacional declara que uma parte de qualquer estado tem pleno direito a tornar-se independente ou de se converter em unidade federada de outro estado que a população votante escolha.

Outdoor informando sobre o referendo na Crimeia
É, por exemplo, o que determina a “Convenção de Viena sobre a Lei dos Tratados entre Estados e Organizações ou entre Organizações Internacionais” – e em outras leis internacionais.

E quanto aos muitos estados que apoiaram a resolução?

− Primeiro, há bons motivos para suspeitar que muitos deles foram submetidos a pressões e, até, a chantagem.

− Segundo, muitos estados nada sabem da situação real na Ucrânia; votaram baseados em informação distorcida. Não é raro que os “votantes” nada saibam sobre o que acontece em campo, em país citado em votações na ONU. Para ter certeza disso, basta passar os olhos nas transcrições verbatim das sessões integrais de tudo que se diz nas sessões da Assembleia Geral, quando se discutem conflitos regionais ou posições oficiais de estados que os votantes consideram “distantes demais”, em termos geográficos ou políticos, de suas realidades locais ou regionais. E há os estados que não têm nem querem ter nem notícia do que realmente se passa na Ucrânia, porque votam em qualquer coisa que contribua para “confirmar” o que mais interesse à propaganda que Washington distribui para o mundo. Por exemplo, o representante da Nigéria justificou seu voto a favor da Resolução, dizendo que seu único interesse era defender os princípios da lei internacional e da Carta da ONU! Não fez sequer um mínimo esforço, inicial, incipiente que fosse, para compreender melhor a questão que realmente estava em jogo. E vários dos que votaram a favor da resolução votaram “com restrições”. O representante do Chile, por exemplo, votou a favor da resolução, mas declarou que seu governo considera inaceitáveis as sanções contra a Rússia.

Embaixador da Rússia na ONU, Vitaly Churkin
A situação é completamente diferente, quando alguns países, por pequenos que sejam, mostraram empenhado esforço em compreender o que é o quê, e tinham condições que lhes permitiam não ter de ceder à chantagem. O representante de Saint Vincent e Granadinas disse que o projeto de resolução que estava sendo votado nada tinha a ver com princípios ou com a lei internacional. E que lamentava que a Assembleia Geral se recusasse a buscar melhor informação sobre fatos históricos e sobre a verdade sobre o novo regime fascista que se instalou, por golpe, na Ucrânia.

A Rússia rejeitou a resolução porque a considera “confrontacional” – disse o embaixador Churkin da Rússia na ONU, antes de votar. Acrescentou que o texto da resolução obra para “desmoralizar o referendo” e o direito à autodeterminação do povo da Crimeia.

Disse que, mesmo assim, havia “algumas coisas corretas” no documento: fala contra ações unilaterais e contra retórica de provocação. Mas, disse o embaixador Churkin, ninguém precisa de resolução da ONU para promover essas metas: bastaria que todos começassem a agir no interesse do povo da Crimeia. A iniciativa para a reintegração da Crimeia à Federação Russa partiu do povo da Crimeia, não de Moscou – lembrou Churkin. A revogação do status de língua oficial do idioma russo, e ameaças de enviar para a Crimeia milicianos armados pelos golpistas de Kiev, geraram “massa crítica” que empurrou a península ao referendo e ao resultado do referendo, disse o embaixador russo.

Quem se dedique a examinar o procedimento naquela votação, é levado fatalmente à seguinte conclusão:

– A correlação entre os 100 votos a favor e os votos contra não reflete a realidade. Ainda que a realidade fosse 100 a 69, nem assim o quadro seria acurado. Mas o resultado real da votação foi 100 a 93.

169 países votaram (100+11+58), dos 193 países membros da ONU. Esses votos de votantes que não apareceram têm de ser somados aos votos de países que não apoiam a resolução, não, com certeza, aos votos dos que votaram “sim”. São 24 estados ausentes da votação; e esses 24 votos têm de ser somados aos 58 que se abstiveram oficialmente de votar.

Pode-se facilmente concluir que o mais claro e visível resultado da votação é que a diplomacia ocidental fracassou. 100 estados apoiaram a “teoria da integridade territorial da Ucrânia” [ou da “integridade territorial de Portugal, em 1822, contra a independência do Brasil”... (NTs)]; 93 reagiram contra. Esse afinal, foi o resultado real da “ação” do ocidente, na ONU, dessa vez.




[*] Alexander Mezyaev nasceu em Moscou 18/1/1971. De 1989 a 1991 serviu no exército soviético. Em 1997 graduou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal Kazan. Especialidade “Direito Internacional". Desde 1997, trabalha na Universidade de Gestão "TISBI".
Em 2001, defendeu tese de doutorado sobre especialidades: “Direito Internacional no Direito Europeu” – “A Pena de Morte e o Direito Internacional Contemporâneo”.
Participou da equipe de defesa do ex-presidente da Iugoslávia, Slobodan Milosevic, perante o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (2003-2006). Atualmente está participando da defesa de outros réus desse processo, o Professor Vojislav Seselj e o general Ratko Mladic. Membro da Associação Internacional de Advogados de Defesa atuando noTribunal Penal Internacional (ADC-TPIJ). É Vice Redactor-Chefe de “Kazan Jornal do Direito Internacional” (desde 2007). Esteve envolvido em projetos de pesquisa da Universidade de Leuven, na Bélgica (1997), da Universidade de Fribourg, Suíça (em 2000 e 2007), o Instituto de Direito Comparado, Lausanne, Suíça (2001), Instituto Internacional de Direito Público e Privado, Instituto TMC Asser, Haia, Holanda (2003), do Instituto Max Planck de Direito Comparado e Direito Internacional Público, Heidelberg, Alemanha (2007). Membro da Associação de Direito Internacional (Membro do Comitê de Direitos Humanos Direito Internacional); Associação Russa de Direito Internacional; Associação de Política Externa da Federação Russa; Associação Russa de Estudos Internacionais, Associação Russa de Estudos Africanos.

sábado, 19 de outubro de 2013

Cuba denuncia à ONU agressão norte-americana por rádio e TV


19/10/2013, Cuba Debate
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Plenário da Assembleia Geral da ONU
Nessa 6ª-feira, Cuba denunciou à Assembleia Geral da ONU o uso, pelo governo dos EUA, de transmissões ilegais de rádio e televisão, para subverter a ordem na ilha e promover a mudança do sistema político e socioeconômico cubano.

O governo dos EUA continua a aplicar uma política de agressão contra Cuba no campo radioeletrônico, apesar de essa política caracterizar violação de normas do Direito Internacional e de normas e regulamentos da União Internacional de Telecomunicações – disse à ONU a representante de Cuba.

Em sua intervenção nos debates da 4ª Comissão da Assembleia Geral da ONU, encarregada de Política Especial e Descolonização, a delegada cubana Lilianne Sánchez denunciou que as ações do governo dos EUA afetam o funcionamento normal dos serviços de radiocomunicação e causam interferências danosas.


Segundo a diplomata, ao final de 2012, eram transmitidas para a ilha uma média de 2.074 horas semanais de emissões subversivas, com os EUA servindo-se de cerca de 34 frequências.

Do mesmo modo, persistem as transmissões de sinais de televisão, emitidos de aviões norte-americanos, no canal 13 (213 megahertz (MHz)) e no canal 20 (509 MHz), como também na frequência 94.7 MHz do serviço de radiodifusão por Frequência Modulada (FM) – disse a embaixadora cubana.

Para o ano de 2013, a diplomata cubana informou à 4ª Comissão da Assembleia Geral que, até 11 de maio, as transmissões feitas de aviões dos EUA provocaram 70 dias de interferências nos canais cubanos de televisão, e 64 dias no serviço de radiodifusão por FM.

Além disso, ainda segundo a diplomata cubana, só no mês de junho foram usadas 26 frequências para transmissões de mensagens de subversão, somando um total de 1.900 horas semanais de agressões.

Sánchez lembrou que Cuba já denunciou a hostilidade de Washington e seu impacto, a vários fóruns, como, dentre outros, a União Internacional de Telecomunicações.

Cuba disse também à ONU que várias das emissoras dedicadas à subversão pertencem ou prestam serviços a organizações vinculadas ao terrorismo contra Cuba.


Cuba reitera sua condenação a essa agressão e exige que o governo dos EUA suspenda imediatamente as transmissões por rádio e televisão contra nosso país – disse a representante cubana, que também falou sobre o direito de autodefesa de Cuba, ante mais essa agressão.

Cuba continuará a exercer sua plena soberania e independência, e tomará todas as medidas ao seu alcance para repelir essas ações de agressão – disse ela.

Este ano, o Gabinete de Auditoria do Governo dos EUA publicou um informe sobre a aplicação de seus programas subversivos contra Cuba, promovidos pela Agência para o Desenvolvimento Internacional e o Departamento de Estado dos EUA.


Segundo aquele informe, o montante alocado para promover a derrubada do governo cubano chegou a 205 milhões de dólares entre 1996 e 2011, sem incluir os fundos gastos para financiar as transmissões subversivas da Radio e TV Martí, que somam cerca de 30 milhões de dólares anuais.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A superpotência impotente e seu menestrel errante

26/9/2013, [*] M K Bhadrakumar, Asia Times Online - OBAMA AT THE UN
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Presidente dos EUA, Barack Obama discursa na 68ª Assembleia Geral da ONU (24/9/2013)
A expectativa era que o discurso anual do presidente dos EUA Barack Obama, na sessão da Assembleia Geral da ONU na 3ª-feira, trouxesse alguma notícia de alguma nova orientação norte-americana sobre o conflito sírio e a situação em torno do Irã. E sim, o Oriente Médio foi tema dominante no discurso, e apagou completamente outras questões, como a mudança climática ou a estratégia de reequilibramento dos EUA na Ásia ou o desarmamento global.

Só isso já é um espanto – os EUA, a única superpotência, em papel diminuído, como potência regional impotente, incapaz, ou sem vontade, de afirmar coisa alguma. Parece que chegamos ao fim de uma era.

A impressão mais forte que resta é que o Oriente Médio continua a ser grave preocupação de política exterior, talvez mesmo a mais importante preocupação, e que assim será até o final do governo Obama. Não há dúvida de que Moscou e Pequim perceberam claramente e anotaram.

Mas outro traço recorrente no discurso foi a impotência dos EUA – a inabilidade para forçar o passo em campo, ou para prescrever encaminhamentos e soluções; a inqualificável desproporção de aliados clamando por “ação” robusta, e a imperiosa necessidade de permanecer engajado.

Tudo isso apareceu mais espantosamente à vista, no trecho sobre o Egito. Obama reconheceu a compulsão de engajar “construtivamente” a junta militar no Cairo, porque Camp David precisa ser preservado, mas vê com desgosto as coisas abomináveis que o governo provisório está fazendo.

Enquanto Obama falava, havia movimento diplomático frenético em outra parte do prédio da ONU, em torno de uma resolução do Conselho de Segurança sobre a implementação da iniciativa russa relativa à remoção das armas químicas na Síria.

Obama insistiu que haveria “provas abundantes” de que o regime sírio teria usado armas químicas no ataque de 21/8 perto de Damasco, e foi enfático: discordar “é um insulto à razão humana – e à legitimidade dessa instituição [a ONU]”.

Sem fogo nas tripas

Obama usou a polêmica, para destacar duas coisas. Uma, para dizer que ao usar armas químicas, o presidente Bashar Al-Assad teria perdido para sempre a legitimidade política para governar o país. A outra, decorrente da primeira, para exigir uma resolução “forte” do Conselho de Segurança:

a) para “verificar” a cumplicidade do governo sírio; e
b) para deixar claro que “deve haver consequências” se a Síria não aceitar.

Mas não falou do uso de força militar, nem invocou o Cap. 7º da Carta da ONU como tal. Assim, deixou bem claro que sua exigência era minimalista. E deixou espaço, pode-se concluir, para que os diplomatas norte-americanos negociassem uma resolução “forte”, mas que Moscou aceitaria sem problemas.

A verdade é que Obama falou sem fogo nas tripas. O discurso expôs que Obama está longe de ter conseguido resolver as graves contradições da posição dos EUA sobre a Síria.

De um lado, Obama afirma que cabe aos sírios decidir o próprio futuro, de outro, chama de “fantasia” a possibilidade de que Bashar tenha qualquer papel naquele futuro.

Obama denunciou Rússia e Irã por “insistirem no papel de Assad”. E ignorou o papel ativo da CIA e de íntimos aliados dos EUA, como Arábia Saudita, Turquia e Qatar na execução do projeto clandestino de mudança de regime, ao longo dos últimos dois anos, já quase dois anos e meio.

Obama, a certa altura, realmente, sim, propôs que os aliados regionais dos EUA exercessem influência de contenção sobre a “oposição moderada”, para que, adiante, se evitasse um “colapso das instituições do Estado” na Síria.

É proposta simplesmente cômica, risível, nas circunstâncias reais – com o príncipe e espião chefe saudita Bandar bin Sultan incansavelmente recrutando extremistas islamistas até de locais distantes como Líbia, Chechênia ou Paquistão; trazendo-os para os arredores da Síria; treinando-os, equipando-os, pagando-lhes salários diários; infiltrando-os em território sírio; e, na sequência, aconselhando-os, gentilmente, a lutar só “de leve”, para não enfraquecer “as instituições do Estado” na Síria.

Alguma coisa realmente mudou na política dos EUA? Obama não deu qualquer garantia de que os EUA não atacarão a Síria. E se em algum momento dos passados dois anos até hoje, essa garantia, dada em termos claros, inequívocos, teria ajudado, o momento seria agora.

Em vez disso, Obama falou em termos ambivalentes, cheio de “avisos” e ameaças. Não crê que a ação militar possa levar a uma “paz duradoura”. Em seguida, sai-se com “nossa resposta ainda não alcançou a escala do desafio” na Síria.

Não acredita que os EUA possam determinar quem governará a Síria; mas tem 100% de certeza de que não pode ser – e não deve ser – Assad. Horroriza-se por o governo sírio ter (diz ele) usado armas químicas; mas ignora que as mesmas armas foram usadas por grupos da oposição apoiados por aliados dos EUA.

Simultaneamente, Obama insistiu que não se trata de cenário da guerra fria ou de jogo de soma zero e garantiu que os EUA não têm qualquer interesse na Síria, além do bem estar do seu povo.

Superar história difícil

Como explicar essa ambivalência? Não seria difícil identificar dúzia e meia de fatores relacionados à política doméstica norte-americana. Mas o elemento chave está no movimento das placas tectônicas sobre as quais o impasse EUA-Irã permaneceu ao longo dos últimos 30 anos.

Enquanto segue a trilha síria – “trabalho em progresso”, como diriam os norte-americanos – está-se delineando uma nova trilha paralela, que pode levar a conversações diretas entre EUA e Irã. Obama espera que em algum ponto, em futuro próximo, as duas trilhas comecem a ter a ver uma com a outra.

O governo Obama ponderou os incontáveis “sinais”, ainda sem nome, que o novo governo iraniano do presidente Hassan Rouhani tem enviado – as declarações antes e depois das eleições, os nomeados para o Gabinete, e até a linguagem corporal recente da diplomacia de Teerã.

O governo Obama chegou a três importantes conclusões: Rouhani tem forte mandato eleitoral, o que manifesta a vontade de mudança e reformas, dos iranianos (e de normalização com os EUA); Rouhani é um “moderado”, por mais que seja também figura histórica do establishment, visceralmente ligado ao regime islâmico; e, mais importante, goza da confiança e de integral apoio do todo-poderoso Supremo Líder Ali Khamenei, o que dá credibilidade à sua posição de negociador e aumenta a confiança de que “entregará” o que promete.

Em Washington, o senso de urgência é palpável. Obama até revelou que “estou ordenando que [o secretário de Estado] John Kerry persevere em seu esforço junto ao governo iraniano (...)”.

Mas então, de repente, dá-se conta também de que a “história difícil” não pode ser “superada do dia para a noite”. Disse que se se puder encontrar modo de avançar na questão nuclear, será “um grande passo numa longa estrada rumo a relações diferentes, baseadas em interesses mútuos e mútuo respeito”.

Obama parou a um passo de dizer que os dois países também podem tratar de outras áreas de interesse – Síria, Afeganistão, Iraque, Bahrain, etc..

Garantiu a Teerã que os EUA não buscam mudança de regime e fez questão de registrar a recente fatwa de Khamenei contra o desenvolvimento de armas nucleares, e a reiteração da mesma fatwa, por Rouhani, mais recentemente, como a verdadeira base para um “acordo significativo”.

Tudo isso considerado, a fala de Obama não trouxe pensamento novo sobre o conflito sírio, porque é preciso esperar pela normalização com Teerã. Os EUA esperam negociar com Moscou, Teerã e Pequim bilateralmente, sobre a questão síria.

Isso é o máximo que Obama conseguiu na direção de distanciar-se de pensamentos a priori sobre lançar ataques militares contra a Síria para operar uma mudança de regime. É compreensível, afinal de contas, que Obama não possa simultaneamente dar instruções a Kerry para continuar as conversas, e mandar Chuck Hagel pular na jugular de Assad.

A parte mais esperançosa da fala de Obama foram os quatro “interesses núcleo” que ele expôs sem ambiguidades, ao indicar os pontos sobre os quais os EUA estariam dispostos a lançar toda a sua força, “incluindo o poder militar” no Oriente Médio – no caso de agressão externa contra aliados regionais; para manter o livre fluxo de energia; para desmantelar redes terroristas; e para obstruir o desenvolvimento de armas de destruição em massa.

Tony Hoagland
Abaixo desse limiar, estão os interesses gerais dos EUA em promover a democracia, os direitos humanos, a economia de livre mercado etc., pontos nos quais, Obama reforçou, há limitações inerentes para que se alcancem os objetivos “mediante ação exclusivamente norte-americana, particularmente a ação militar”.

Tudo isso posto e considerado, portanto, justifica-se alguma tímida opinião de que as possibilidades do processo Genebra sobre a Síria pareçam hoje menos inalcançáveis do que quando o dia raiou nos arredores da Baía Turtle [onde fica o prédio da ONU], nos arredores de Manhattan em New York City, na 3ª-feira.

Mas sempre ecoam na cabeça as linhas do poeta norte-americano contemporâneo, Tony Hoagland, [1]

(...)
Amanhã você pode estar absolutamente
sem qualquer pista

mas hoje chegou um telegrama
do coração exilado
que proclama que o reino

ainda existe,
que o rei e a rainha vivem,
ainda falam com os filhos,

– com qualquer deles
que tenha tempo,
para sentar ao sol e ouvir.
___________________________________

Nota dos tradutores
[1] Orig. Tomorrow you may be utterly / without a clue / but today you get a telegram, / from the heart in exile / proclaiming that the kingdom still exists, / the king and queen alive, / still speaking to their children, /- to any one among them / who can find the time, / to sit out in the sun and listen. Tradução de trabalho, sem compromisso literário, para ajudar a ler.
_________________________


[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.