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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Israel propõe muro ilegal de separação como fronteira para o futuro Estado palestino

6/11/2013, Jaisal Noor entrevista Shir Hever, TRNN (video; 8’ 11”)
Traduzido da transcrição por João Aroldo


JAISAL NOOR, TRNN PRODUCER: Bem-vindos a The Real News Network. Eu sou Jaisal Noor em Baltimore.

Nas notícias sobre os territórios palestinos ocupados, os negociadores israelenses estão agora exigindo que os palestinos concedam sua futura fronteira de estado junto ao muro de separação na Cisjordânia. Os palestinos dizem que isso é uma apropriação de terras ilegal, já que o muro de separação cruza a Linha Verde internacionalmente reconhecida de 1967. Quase 10%da Cisjordânia continuará no lado ocidental da barreira em Israel quando a construção do muro estiver finalizada, de acordo com o grupo de direitos humanos israelense B'Tselem.

Está aqui conosco para discutir isso Shir Hever. Ele é um pesquisador econômico no Alternative Information Center, uma organização palestino-israelense ativa em Jerusalém e Beit Sahour. Ele também é autor de The Political Economy of Israel's Occupation: Repression Beyond Exploitation.

Obrigado por estar conosco, Shir.

SHIR HEVER, ECONOMISTA, ALTERNATIVE INFORMATION CENTER: Obrigado por me receber, Jaisal.

NOOR: Então, Shir, queremos saber sua resposta a esta notícia. Já suspeitávamos que Israel quer anexar a maior parte da Cisjordânia. Mas agora eles estão dizendo que querem tomar tudo a oeste do muro. Então queremos sua resposta. E também, o que vai acontecer com a grande quantidade de assentamentos no outro lado do muro?

HEVER: Acho que devemos separar realidade da ficção. E o muro de separação é realidade, é algo que está sendo construído por Israel há 13 anos. E digo isso não porque eles levaram anos construindo o muro, mas porque eles estão constantemente movendo o muro. O muro é parte da política usada por Israel para confiscar terra palestina, para separar as populações. E isso é uma realidade com a qual centenas de milhares de palestinos têm que lidar todo dia quando o muro os impede de chegar às suas escolas, hospitais e seus locais de trabalho ou terras.
Mapa do Muro da Vergonha construído por Israel em território palestino
(clique no mapa com o botão direito e abra uma nova janela para visualizar melhor)
E, de fato, o muro, embora Israel o chame ofici almente de barreira de segurança, num encontro em que estive presente, o general de brigada Yair Golan, o ex-comandante das forças israelenses na Cisjordânia, disse às pessoas presentes que de fato o muro não [foi] construído para garantir segurança. Foi—as ordens que recebeu do governo israelense foram de que o primeiro propósito do muro é separar os povos, quer dizer, que a verdadeira intenção do muro é impedir que israelenses e palestinos se encontrem, se tornem amigos, se casem, e seu propósito secundário é garantir segurança. E isso é uma das razões pela qual o muro está sempre sendo movido, porque eles tentam incorporar mais judeus no lado israelense do muro, mas ao mesmo tempo tentam excluir [o máximo] de palestinos no outro lado, no lado oriental do muro. Essa é a realidade.

Mas quando falamos de negociações [inaud.] sobre as demandas pela equipe de negociadores israelenses e as conversas atuais com os palestinos, nós vamos para o [inaud.] porque essas negociações não são negociações de verdade. Não há dois lados aqui que possam negociar. Há um poder, que é Israel, que é o poder de ocupação, o poder soberano na região, e eles têm controle sobre ambos os lados do que acontece em torno do muro de separação. Eles continuam coletando impostos nos dois lados do muro. Então a única razão pela qual a equipe israelense de negociação está fazendo esse tipo de demanda é para perpetuar a ilusão de que é uma negociação entre dois lados.

E a maneira pela qual o governo israelense está tentando vender as negociações, tanto para o público israelense como para o resto do mundo, como se fosse uma barganha. Então eles começam—os palestinos já disseram que há a fronteira internacionalmente reconhecida de 1967, que é a fronteira estabelecida [inaud.] e esta deveria ser a fronteira internacional e o estado palestino deveria ser criado no outro lado. E isto é. Então Israel disse, esse é sua proposta; faremos uma contraproposta. Nós diremos que o muro de separação deveria ser a fronteira, isto é, vamos anexar [inaud.] algumas áreas, de fato, transformando o território palestino em pequenos enclaves. Mas a razão pela qual estou chamando isso de ficção é porque todos sabem que isto não vai acontecer. Todos sabem também que a liderança palestina nunca aceitará isso, e mesmo o governo israelense não vai prosseguir e torná-la uma oferta real. Eles não vão permitir um estado palestino, um estado palestino soberano, mesmo nos pequenos enclaves restarem após o muro ser considerado a fronteira.

Palestino escala Muro da Vergonha construído por Israel
Então a razão pela qual eles estão fazendo essa oferta é para criar a ilusão de que estão barganhando. Mas acho que está claro que as negociações não vão dar certo. Mas acho que todos pensam isso agora. Mas mesmo o governo israelense está tentando ganhar tempo para manter as negociações [inaud.] mais um pouco para eles poderem dizer que estão no meio de um processo de paz, que eles estão tentando fazer o melhor. E isso os ajuda a evitar um pouco da crítica internacional.

NOOR: E em 2004 a Corte Internacional de Justiça considerou que este muro violava a lei internacional. Como exatamente Israel é capaz de exigir que ele seja—ou pedir que seja sua fronteira, como você diz, apenas como postura? Mas fale também como isso é possível.

HEVER: Sim. Devemos entender que Israel não reconhece a validade da lei internacional na prática. Oficialmente, sim. De fato, logo depois que Israel ocupou o território palestino em 1967, eles reconheceram que a Quarta Convenção de Genebra se aplica ao território ocupado. Mas depois mudaram de ideia e decidiram que não se aplicava e não cumprir mais com as leis internacionais, especialmente quando não é conveniente para eles. O muro, dizem, não foi—originalmente o muro foi projetado. Eles dizem que não tem nada a ver com [inaud.] futuras fronteiras. Ele não tem nada a ver com qual área é ocupada ou não. Trata-se apenas de segurança. Mas de alguma maneira aconteceu que a rota do muro não entra em território israelense nem por um centímetro. Toda a rota do muro é dentro do território palestino. Então as considerações sobre segurança são só levadas em conta quando são às custas dos palestinos,  nunca quando são às custas de Israel.

Mas a ideia de que o muro pode ser considerado uma fronteira internacional é absurda. Como Israel pode afirmar isso? Eles podem afirmar isso enquanto os EUA quiserem continuar a charade e dizer ao mundo que há negociações, que os EUA estão mediando entre dois lados como se houvesse mesmo dois lados. Enquanto essa charada continuar, Israel pode dizer o que quiser. Eles podem fazer essas ofertas. Eles sabem que elas não serão aceitas. Mas se a liderança da Autoridade Palestina em Ramallah cair nessa armadilha e fazer uma contraproposta e dizer, bem, não, nós não vamos-- [inaud.] aceitar o muro de separação como fronteira, queremos insistir nas fronteiras de 1967, isso só vai prolongar as negociações. Isto é o que Israel quer, prolongar as negociações.

NOOR: Shir Hever, muito obrigado pela sua participação.

HEVER: Obrigado, Jaisal, por me receber.


NOOR: Siga-nos no Twitter em @TheRealNews, e você pode nos enviar perguntas, comentários, ou sugestões de pautas para @JaisalNoor. Obrigado.

sábado, 24 de novembro de 2012

Israel e Gaza: Robert Fisk entrevista Uri Avnery

Uri Avnery: “Um dos maiores guerreiros da esquerda de Israel quer paz com Hamás e Gaza. Mas e o Knesset?”


23/11/2012, Robert Fisk, The Independent, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Robert Fisk
O velho Uri Avnery tem 89 anos e ainda luta. De fato, escritor mundialmente conhecido, ainda é um dos maiores guerreiros da esquerda de Israel, ainda exige paz com os palestinos, paz com o Hamás, um estado palestino nas fronteiras de 67 – com pequenos acertos de território para um lado e outro. Ainda crê que Israel poderia ter paz, amanhã ou na próxima semana. Se Netanyahu quisesse paz. “Azar de otimista incorrigível” – assim ele descreve o próprio destino. Ou talvez seja, mesmo, só, um velho mágico?

Ainda é o mesmo sujeito que encontrei há 30 anos, jogando xadrez com Yasser Arafat nas ruínas de Beirute. Cabelos e barbas hoje brancos, lança palavras – diz que ultimamente anda um pouco surdo – com a mesma fúria e o humor de sempre. Pergunto a Avnery o que estão fazendo Netanyahu e seu governo. Qual o objetivo deles nessa guerra de Gaza? Os olhos dele brilham e ele responde.

Você pressupõe que eles queiram alguma coisa e que queiram paz – e, nesse caso, a política deles é idiota, ou insana. Mas se você assume que não dão a mínima para a paz, mas querem um estado judeu que vá do Mediterrâneo ao rio Jordão, então, em certa medida, o que estão fazendo tem um certo sentido. O problema é que o que eles querem está levando a um beco sem saída – porque já temos um estado em toda a Palestina histórica, três quartos do qual é o estado judeu de Israel e um quarto do qual são a Cisjordânia e a Faixa de Gaza ocupadas.

Apartheid em Israel

Avnery fala em sentenças perfeitas. Minha caneta corre pelo papel até ficar sem tinta. Tenho de usar uma das dele.

Se anexarem a Cisjordânia como anexaram Jerusalém Leste – diz ele – nem faz muita diferença. O problema é que nesse território que hoje é dominado por Israel, há 49% de judeus e 51% de árabes, e o desequilíbrio aumenta ano a ano, porque o crescimento populacional natural entre os árabes é muito maior que o crescimento natural do nosso lado. Portanto, a verdadeira pergunta é: se essa política continua, que tipo de estado haverá? Como é hoje, é um estado de apartheid; absoluto apartheid nos territórios ocupados e apartheid crescente em Israel. E se isso continuar, haverá absoluto apartheid em todo o país, sem dúvida alguma.

O argumento de Avnery avança, claro.

Se os habitantes árabes tiverem garantidos plenos direitos civis, logo haverá maioria árabe no Knesset [Parlamento], e a primeira coisa que esse Parlamento fará será trocar o nome do país, de “Israel” para “Palestina”, e todo o exercício dos últimos 130 anos será reduzido a nada. Limpeza étnica massiva é impossível no século 21 – diz ele ou espera ele – mas quanto à demografia, não há o que discutir.

É uma supressão. Espera-se que ninguém pense nisso, que se afaste a ideia da nossa consciência. Nenhum dos partidos fala sobre esse problema. A palavra ‘paz’ não aparece em nenhum manifesto eleitoral, exceto no do pequeno partido Meretz –, nem nos partidos da Oposição nem na Coalizão. A palavra ‘paz’ desapareceu completamente em Israel.

A esquerda em Israel? Como que, mais ou menos, hiberna – desde que a esquerda foi destruída por Ehud Barak, em 2000. Ele voltou de Camp David – como autoproclamado líder do “campo da paz” – e decidiu que “não temos parceiro para a paz”. Foi golpe mortal. Quem disse isso não foi Netanyahu, mas o líder do Partido Trabalhista. Foi o fim do movimento Paz Agora.

Esperança

Então, o otimista ressurge, com a nuvens escurecendo o mar que se avista do apartamento de Avnery, sétimo andar, em Telavive.

Quando encontrei-me com Arafat em 1982, os termos estavam ali. O mínimo e o máximo do que os palestinos queriam era a mesma coisa: um estado palestino junto a Israel, que compreenderia a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Leste como capital, com pequenos acertos de território e uma solução simbólica para a questão dos refugiados. Lá está sobre a mesa, como flor murcha. Olha para nós todos os dias. Já cedemos a Faixa de Gaza – para ganhar o controle sobre a Cisjordânia, assim como [Menachem] Begin cedeu todo o Sinai, para ganhar toda a Palestina.

Avnery está convencido de que o Hamás aceitaria proposta semelhante – como disse a eles, em Gaza, em 1993;

... lá estava eu, frente a 500 xeiques de barbas negras, eu falando hebraico. Aplaudiram e me convidaram para o almoço.

Várias vezes, reuniu-se com delegados do Hamás depois daquele dia. Para eles, defender a Palestina é waqf [dever absoluto, sob a lei islâmica], não podem ceder a Palestina. Mas um acordo pode ser reconhecido e santificado também em termos religiosos. “Se oferecessem uma trégua de 50 anos, para mim, pessoalmente, seria suficiente”. “Claro – diz Avnery - o Hamás mantém, em seu manifesto, que quer destruir Israel. Abolir um manifesto é coisa muito difícil de fazer. Os russos algum dia aboliram o Manifesto Comunista? Pois a OLP aboliu o manifesto deles”.

E assim seguem as coisas. Os grupos da paz, pequenos mais muito ativos – Gush Shalom [Bloco da Paz], o projeto Paz Agora, que monitora as colônias, os Combatentes da Paz (ex-soldados israelenses e ex-combatentes palestinos) e outros assemelhados preparam-se para as eleições de janeiro. Curiosamente, Avnery acredita que o terrível – e muito execrado – Relatório Goldstone sobre a matança que foi a guerra de Gaza de 2008-2009, foi o que impediu, daquela vez, a invasão por terra.

Goldstone pode orgulhar-se do que fez – de fato, salvou muitas vidas.

Não poucos, na esquerda de Israel, sonham com que Uri Avnery viva outros 89 anos.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Paz, de uma vez por todas!


24/11/2012, Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz], Israel
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Uri Avnery
O mantra dessa vez foi “de uma vez por todas”.

“Temos de por fim nisso (nos foguetes, no Hamás, nos palestinos, nos árabes?), de uma vez por todas!” – eis o grito que se ouvia, dúzia de vezes por dia nas televisões, dos moradores das cidades e vilas duramente atingidas do sul de Israel.

A ponto de o novo mantra ter deslocado o slogan que dominou durante várias décadas: “Atirar e acabar com aquilo!” 

Absolutamente não funcionou. O Hamás venceu.

O grande vencedor que emergiu da nuvem é o Hamás.

Antes desse round, o Hamás era presença importante na Faixa de Gaza, mas praticamente não era visto como organização com estatura internacional. A face internacional do povo palestino era a Autoridade Nacional Palestina de Mahmoud Abbas.

Era. Não é mais.

A Operação Pilar de Nuvem deu amplo reconhecimento internacional ao miniestado do Hamás em Gaza. (“Pilar de Nuvem” é o nome oficial em hebraico, embora o porta-voz do exército tenha decretado que o nome em inglês, para consumo de estrangeiros, deveria ser “Pilar da Defesa”).

Chefes de vários estados e muitos ministros e dignitários estrangeiros já fizeram a necessária peregrinação à Faixa.

Primeiro, chegou o poderoso e imensamente rico emir do Qatar, proprietário da rede Al- Jazeera. Foi o primeiro chefe de Estado a pôr os pés na Faixa de Gaza. Depois, chegaram o primeiro-ministro egípcio, o ministro de Relações Exteriores da Tunísia, o secretário da Liga Árabe e vários ministros de Relações Exteriores de países árabes (exceto o de Ramallah).

Em todas as deliberações diplomáticas, Gaza foi tratada como Estado de facto, com governo de facto (o Hamás). Nem a mídia israelense escapou. Os israelenses rapidamente perceberam que qualquer acordo, para ser efetivo, teria de ser construído com o Hamás.

Entre o povo palestino, o prestígio e a estatura do Hamás alcançaram as alturas. Só a Faixa de Gaza, menor que qualquer condado médio dos EUA, sobrepôs-se a toda a gigante máquina de guerra dos israelenses, das maiores e mais eficientes do mundo. O exército de Israel não sucumbiu apenas. O resultado militar só pode ser apresentado (e com boa vontade a favor de Israel), como empate.

E empate entre a minúscula Gaza e a poderosa Israel significa vitória de Gaza.

Ehud Barak
Quem lembra hoje a orgulhosa fala de Ehud Barak, no meio da guerra: “Não devemos parar até que o Hamás seja posto de joelhos e suplique por um cessar-fogo”?

E em que ponto disso tudo fica Mahmoud Abbas? De fato, não fica em ponto algum. Abbas sumiu.

Para qualquer palestino comum, esteja em Nablus, Gaza ou Beirute, o contraste é flagrante: o Hamás tem orgulho, coragem, decisão; e o Fatah é frágil, vulnerável, submisso e ignorado. Na cultura árabe, honra e orgulho têm papel central.

Depois de mais de meio século de humilhação, qualquer palestino que tenha lutado contra a ocupação é herói das massas árabes, dentro e fora do país. Abbas está identificado só com a íntima colaboração entre suas forças de segurança e o odiado exército israelense ocupante. E, fato decisivo: Abbas nada tem para mostrar, como resultado de tão dedicada colaboração com a potência ocupante.

Mahmoud Abbas
Se Abbas pudesse exibir, pelo menos, uma grande realização política em troca do muito que padeceu, a situação talvez fosse outra. Os palestinos são gente sensível. Se Abbas tivesse dado pelo menos um passo que o aproximasse de ter conseguido qualquer coisa que se assemelhasse a algum estado palestino, a maioria dos palestinos provavelmente diriam: “não tem lá muito glamour, mas, pelo menos, cumpre o que promete”.

Pois está acontecendo exatamente o contrário. O Hamás armado consegue resultados; Abbas e a não-violência nada conseguem. Como disse-me um palestino: “Ele (Abbas) deu a tudo eles (aos israelenses), calma e segurança. E o que obteve [ou continua a obter] em troca? Os israelenses cospem na cara dele!”.  

Essa mais recente rodada de violência reforçará uma convicção de todos os palestinos: “Os israelenses só entendem a linguagem da violência!” (Israelenses, claro, dizem o mesmo, dos palestinos).

Se, pelo menos, os EUA permitissem a Abbas obter o reconhecimento da Palestina como estado não-membro, como observador, por resolução da ONU, Abbas ainda teria algo a apresentar para se promover frente ao Hamás. Mas o governo de Israel está decidido a impedir, custe o que custar, que esse reconhecimento aconteça.

Barack Obama
E Barack Obama, que já depois de re-eleito decidiu bloquear todos os esforços dos palestinos na ONU, está, de fato, assegurando seu apoio ao Hamás... o que implica que esbofeteia os “moderados”. A superficial, rápida, descuidosa visita de Hillary Clinton a Ramallah essa semana foi interpretada nesse contexto.

Examinada de fora, vê-se essa atitude de Israel e dos EUA como o que é: completa loucura. Por que minar a influência dos “moderados” que querem e são capazes de fazer a paz? Por que promover os “extremistas” que se opõem à paz?

A resposta veio, plenamente declarada, da boca de Avigdor Lieberman, hoje o No. 2 de Netanyahu no campo político: Lieberman quer destruir Abbas, anexar a Cisjordânia e abrir o caminho para os colonos.

Depois do Hamás, o maior vencedor é Mohamed Mursi.

Aí está outro resultado quase inacreditável. Quando Mursi foi eleito presidente do Egito, a Israel oficial entrou em estado de histeria. Que horror! Os extremistas islâmicos tomaram o poder no mais importante país árabe! Nosso tratado de paz com nosso maior vizinho, foi-se pelo ralo! Nos EUA, a reação foi praticamente idêntica a essa.

E hoje – quase quatro meses depois – aí está Israel, a ouvir com máxima atenção e reverência cada fala de Mursi. Mursi, ele, o homem que conseguiu pôr fim à destruição e à matança mútuas! Mursi, o grande pacificador! Mursi, o único homem capaz de fazer a mediação entre Israel e o Hamás! Mursi, o avalista do acordo de cessar-fogo!

É possível tal coisa? Será que falamos do mesmo homem? Do mesmo Mursi? Da mesma Fraternidade Muçulmana?

Mohamed Mursi
Mursi, 61 anos – cujo nome completo é Mohamed Mursi Isa al-Ayyad (Isa é a palavra, em árabe, para “Jesus”, que é um dos profetas do Islã) – é figura absolutamente desconhecida no cenário mundial. Apesar disso, hoje, todos os principais líderes políticos do mundo confiam integralmente nele.

Quando eu festejei, de todo o coração, a Primavera Árabe, tinha em mente gente como esse homem. Agora, praticamente todos os jornalistas, analistas, comentaristas, ex-generais e políticos israelenses, que, antes, diziam os maiores disparates e “alertavam” contra os novos políticos árabes, não se cansam de elogiar o sucesso do acordo de cessar-fogo.

Durante a operação Pilar de Nuvem, fiz o que sempre faço nessas situações: assisto, alternadamente, aos canais israelenses de televisão e à rede Al-Jazeera. Volta e meia, quando me distraio e volto repentinamente a prestar atenção à televisão, fico sem saber onde estou, se lá, se cá.

Mulheres em prantos, feridos carregados, casas em ruínas, sapatinhos de crianças espalhados entre os escombros, famílias com malas às costas, tentando escapar. Cá, como lá, as cenas se assemelham. Mas, sim: morreram 30 vezes mais palestinos que israelenses – em parte por efeito do Domo de Ferro dos israelenses, de interceptação de mísseis, enquanto os palestinos estavam absolutamente sem defesa alguma.

Na 4ª-feira fui convidado para um programa a ser exibido pelo Channel 2, o mais popular (e o mais patriótico-nacionalista) em Israel. O convite, como já aconteceu várias vezes, foi cancelado no último momento. Se tivesse ido ao tal programa, só teria uma pergunta a propor aos israelenses: “Valeu a pena?”.

Valeu a pena? 

Todo o sofrimento, os mortos, feridos, a destruição, as horas e dias de terror, as crianças traumatizadas?

Gilad Sharon
E, deve-se acrescentar, a cobertura infindável, 24 horas por dia, pelas televisões, com generais aposentados sempre a repetir os press-releases do gabinete do primeiro-ministro. E as mais horrendas, as mais escandalosas ameaças, na boca de políticos e outras variantes de doidos, entre os quais o filho de Ariel Sharon, Gilad Sharon, que propôs a destruição total, de toda a cidade de Gaza e arredores, ou, melhor ainda, logo, de toda a Faixa de Gaza.

OK. Tudo isso é passado. Estamos quase exatamente onde estávamos antes. A operação, chamada, em Israel, quase sempre, de “mais uma rodada”, não passou, de fato, de rodada – não levou a lugar algum; tudo ficou onde estava antes de a “rodada” começar. 

O Hamás assumirá firmemente o controle da Faixa de Gaza, talvez mais firmemente do que antes. Os palestinos odeiam Israel hoje, mais do que já odiavam antes. Muitos dos habitantes da Cisjordânia, os quais, durante a guerra saíram à rua aos milhares em demonstrações de apoio ao Hamás, votarão em ainda maior número, a favor do Hamás, nas próximas eleições. Dentro de dois meses, os israelenses votarão, depois da guerra, exatamente como votariam antes da guerra.

Os dois lados celebram vitória impressionante. Se se unissem e fizessem só uma festa, economizariam muito dinheiro.

QUAIS SÃO, POIS, as conclusões políticas?

A mais óbvia é: FALEM COM O HAMÁS. Diretamente. Cara a cara.

Yitzhak Rabin
1922-1995
Yitzhak Rabin disse-me, certa vez, como acabara por concluir que tinha de falar com a OLP, e diretamente com ela: depois de anos de oposição, acabara por entender que a OLP era a única força que contava. “Assim sendo, era ridículo só falar com eles através de intermediários”.  

Vale exatamente o mesmo, no caso do Hamás. O Hamás está ali. Não desaparecerá, nem partirá dali. É ridículo, para os negociadores israelenses, sentarem-se lá, numa sala do quartel-general da inteligência egípcia, nos arredores do Cairo, enquanto os negociadores do Hamás permanecem na sala ao lado, a apenas poucos metros de distância, com os egípcios, corteses, andando de um lado para o outro.

Ao mesmo tempo, que Israel trate de ativar esforços na direção da paz. A sério.

No momento, é preciso salvar Abbas, que não tem substituto à vista. Israel bem poderia garantir uma vitória imediata para Abbas, para contrabalançar a grande vitória do Hamás contra a Operação Pilar de Nuvem: Israel bem pode votar a favor de garantir-se aos palestinos o direito de membro-observador – portanto, de estado reconhecido – na Assembleia Geral da ONU.

Só assim Israel mostrará ao mundo que, sim, tem interesse em fazer a paz com todo o povo palestinos, incluindo Fatah e Hamas. Só assim Israel mostrará ao mundo que tem interesse em pôr fim à violência, DE UMA VEZ POR TODAS!

terça-feira, 22 de maio de 2012

Colonos judeus atiram em moradores de Asira al-Qibliya na Palestina invadida


Veja o ataque de colonos judeus à vila de Asira al-Qibliya, na Cisjordânia. Eles chegam armados com submetralhadoras e pistolas, e logo os valentes moradores, armados de pedras, os enfrentam, impedindo seu avanço para a zona urbana da vila.


Um jovem palestino foi ferido pelos tiros. Levado a um hospital, ele está em situação estável.

Notem como os soldados israelenses procuram “proteger” os colonos armados ao invés de impedi-los de atirar.


As imagens foram postadas pela Associação Israelense de Direitos Humanos B'Tselem. Ela montou um projeto interessante: distribuiu câmeras de vídeo para mulheres das vilas palestinas e as ensinaram a usá-las. Desse modo, elas podem registrar todas as violações cometidas pelas forças de ocupação sionistas.

Crime ocorrido em 19 de maio de 2012
Enviado por Baby Siqueira Abrão -  Ramallah
Brazilian journalist - Middle East correspondent

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Jovem ativista palestina desafia exército israelense



A ativista palestina Rana Hamadeh desafiou o exército israelense na terça-feira, 1º. de maio, ao escalar um dos skunks – os caminhões-tanques brancos de Israel que atiram um líquido fétido e tóxico em ativistas – estacionados em frente ao complexo prisional-militar israelense de Ofer, em Ramala, carregando uma bandeira da Palestina.

Rana é uma das participantes das manifestações diárias que os palestinos realizam, na Cisjordânia e em Gaza, em solidariedade aos presos políticos palestinos em greve de fome nas prisões de Israel.

A greve coletiva, iniciada em 17 de abril (declarado Dia do Prisioneiro Palestino em homenagem a Khader Adnan, que ficou 66 dias sem comer, em protesto contra o tratamento dos militares israelenses aos palestinos, e foi libertado nessa data), envolve entre 2 mil e 3,5 mil presos políticos, além daqueles que já se encontravam em greve de fome.

Entre eles estão Bilal Diab e Thaer Halahleh, que completaram 65 dias sem alimentação em 3 de maio e estão em risco de morte iminente.

Rana foi cercada e abraçada por ativistas – prática utilizada para proteger manifestantes de ataques e prisões – enquanto soldados israelenses atiravam gás pimenta em spray em todos eles, já dominados.

O gás pimenta, além de provocar problemas respiratórios, cega completamente a vítima durante determinado tempo. Largamente utilizado pelas forças militares israelenses, ele vem sendo usado no Brasil desde que o país assinou, em novembro de 2010, um acordo para compra de armas e “tecnologia de segurança” do país sionista.

Veja a seguir imagens da “escalada” de Rana ao skunk e o ataque que ela sofreu dos soldados israelenses no vídeo feito pelo cineasta e fotógrafo palestino Haitham Al-Khatib, de Bil’in.


Baby Siqueira Abrão
Brazilian journalist - Middle East correspondent 
00 xx 972 59 857-4459 or 00 xx 972 54 885-1944 (international calls)
059 857-4459 or 054 885-1944 (local calls)
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Foto: Abir Kopty

domingo, 16 de outubro de 2011

Prisioneiros palestinos em Israel: a “Guerra das Barrigas Vazias”

16/10/2011, Saleh Al-Naami, Al-Ahram Weekly, Cairo
Traduzidopelo Coletivo da Vila Vudu

No silêncio geral, o som da queda de Jamal Hassan em sua cela na Prisão Shatta em Israel soou muito alto, na tarde da 6ª-feira. Quando os guardas abriram a cela, encontraram-no caído, com sangue na cabeça e inconsciente. Jamal foi levado a um hospital próximo. 31 anos, Jamal é um das centenas de prisioneiros palestinos que há nas prisões de Israel que, há 18 dias iniciaram greve de fome para protestar contra as terríveis condições a que são submetidos todos os prisioneiros. Entre outras medidas punitivas, inclui-se uma longa série de procedimentos ordenados recentemente pelo gabinete de Binyamin Netanyahu, como tentativa para pressionar o Hamás a apressar a troca de prisioneiros e desistir de suas exigências para devolver o soldado Gilad Shalit, capturado em combate (não “sequestrado”, como dizem os jornais ‘livres’).

Estudante palestino passa por mural representando o soldado capturado em combate, Gilad Shalid, em Jabalya ao norte da Faixa de Gaza
Hassan, que cumpre prisão perpétua, não resistiu à desnutrição, à sede e ao confinamento em solitária. As autoridades de Israel não estão distribuindo informações sobre seu estado de saúde, enquanto fontes palestinas dizem que os israelenses estão ocultando o fato de que transferiram grande número de prisioneiros palestinos para hospitais, preocupados com a possibilidade de que notícias sobre as condições dos palestinos nas prisões israelenses desencadeie reação de indignação entre a população palestina.

Entre as medidas punitivas ordenadas por Netanyaju contra prisioneiros palestinos estão a transferência dos principais líderes para celas (de fato, são jaulas) solitárias que medem 1mx1m e 50cm de altura, onde têm de dormir, comer e fazer suas necessidades. Os israelenses também limitam os tipos de alimento servido aos prisioneiros, impedem-nos de deixar as celas e aumentaram o número de revistas (os prisioneiros são obrigados a despir-se, sob o pretexto de que poderiam esconder armas). Os prisioneiros estão sendo torturados por esquadrões especialmente treinados para tortura.

Fontes disseram a Al-Ahram Weekly que Israel está usando uma tática de ‘porrete e cenoura’ com os prisioneiros mais importantes, aumentando a tortura e os maus tratos e, simultaneamente, facilitando o contato entre eles e o Hamás, tentando fazê-los pressionar o Hamás para que reduza as exigências para devolver Shalit, em troca de melhor tratamento aos prisioneiros.

Líderes dos prisioneiros palestinos disseram que os guardas da polícia política israelense têm treinameno especial e são excepcionalmente brutais com os detentos, porque os líderes mais destacados não apenas não aceitaram o que lhes oferecem as autoridades da prisão, como, também, exigiram que o Hamás não ceda em nenhuma das exigências que fez para devolver o soldado israelense capturado em combate. Entre as exigências do Hamás estão a libertação de todos os prisioneiros condenados a penas perpétuas, além de todas as mulheres, todas as crianças e todos os doentes.

Essa ação dos líderes presos fez aumentar ainda mais a agressão aos prisioneiros. Os que estão em greve de fome só estavam ingerindo água salgada, mas, agora, as autoridades israelenses proibiram o sal nas prisões. Os prisioneiros não recebem roupas para trocar e são obrigados a cobrir-se com trapos sujos, mais uma tática de tortura, para pressioná-los psicologicamente.

Em resposta, os prisioneiros palestinos têm-se recusado a usar os uniformes distribuídos nas prisões, não saem das celas quando são convocadas as revistas gerais e interromperam qualquer contato com a administração das prisões. Os prisioneiros palestinos chamam sua luta contra a violência do estado judeu de “Guerra das Barrigas Vazias”.

Líderes de prisioneiros dizem que respondem à política de violência e opressão do estado judeu, resistindo à fome, à sede e ao confinamento em celas solitárias. Dizem que, se nem assim o estado judeu suspender as medidas ilegais e desumanas contra os prisioneiros palestinos, manterão até a morte a atual greve de fome.

Fontes disseram a nossos jornalistas que os líderes dos prisioneiros palestinos adiaram o anúncio da greve de fome, para que não coincidisse com a missão dos palestinos à ONU pelo reconhecimento do estado da Palestina. Temiam que sua luta tivesse efeito negativo com vistas àquele objetivo. As fontes dizem que as novas medidas excepcionalmente violentas contra os líderes políticos presos, e a decisão do estado judeu de expandir o confinamento em celas solitárias convenceu os prisioneiros a iniciar imediatamente a greve de fome.

As mesmas fontes disseram a esse jornal que os primeiros a iniciar greve de fome foram Ahmed Saadat, secretário-geral da Frente Popular [ing. Popular Front for the Liberation of Palestine (PFLP)], e Jamal Abu Al-Heja, destacado membro do Hamás, ambos cumprindo pena de prisão perpétua. Há três anos, ambos foram postos em celas especiais, sem qualquer contato com o mundo exterior. As fontes dizem que Saadat e Al-Heja distribuíram mensagem na 5ª-feira, destacando a importância de a greve de fome ser mantida até que as forças de ocupação israelenses aceitem todas as exigências dos prisioneiros palestinos, inclusive o fim do confinamento em celas solitárias.

As mesmas fontes acrescentaram que as autoridades da prisão isolam qualquer prisioneiro que entre em greve de fome e, depois, formam comissões para negociar com o prisioneiro o fim do jejum. Há informes também de que as autoridades israelenses foram surpreendidas pelo fato de que todos os prisioneiros palestinos, em várias prisões, apresentaram exatamente as mesmas exigências. O grupo ADDAMEER – associação para defesa de direitos humanos e apoio a prisioneiros – disse que, agora, as autoridades prisionais em Israel começaram a promover sessões coletivas de espancamento e tortura, na tentativa de abalar a moral dos presos.

O ministro palestino para Prisioneiros Detidos e Libertados, Eissa Qaraqa, disse que “a Guerra das Barrigas Vazias visa a ala mais extremista do governo direitista de Netanyahu e a Autoridade Prisional de Israel. Qaraqa disse que a luta continuará até que todas as exigências dos prisioneiros sejam atendidas. “Se a força ocupante não suspender as medidas de tortura, a luta contra a ocupação não mais poderá ser contida dentro dos muros das prisões de Israel” – disse ele. – “E chegará à rua palestina”. 

Os palestinos têm organizado dezenas de manifestações de protesto em solidariedade com os familiares presos em Israel, e vários palestinos também já iniciaram greve de fome em apoio aos prisioneiros. Representantes de todos os grupos políticos palestinos montaram tendas à frente das instalações da Cruz Vermelha, para manifestar solidariedade com os prisioneiros.

Sherine Iraqi, advogada do Ministério Palestino para Prisioneiros, disse que os detentos com os quais teve contato levavam algemas nos pulsos e nos tornozelos e que, na prisão de Shatta, são revistados despidos sempre que são levados de uma parte a outra da prisão. Iraqi disse também que já são críticas as condições de saúde de vários dos prisioneiros em greve de fome.

O Hamás convocou seus grupos de resistência a aumentar as ações contra a ocupação israelense, como resposta ao que descreveu como “crimes contra prisioneiros”.

“Cercados pelo silêncio omisso da comunidade internacional e pela fraqueza de árabes e islâmicos, defenderemos nós mesmos os prisioneiros palestinos que estão sendo sacrificados nas prisões de Israel e continuaremos a resistir contra a ocupação, em todos os lugares” – disse Khalil Al-Hayya, importante figura do Hamás, em enorme marcha organizada pelo Hamás em Gaza, na tarde de 6ª-feira, de solidariedade com o movimento dos prisioneiros. “Não descansaremos até termos libertado todos os nossos companheiros que hoje sofrem nas jaulas da ocupação”.

Al-Hayya disse que só a resistência, em todas as suas modalidades, conseguirá salvar os cidadãos prisioneiros, proteger os cidadãos livres, salvaguardar a dignidade de todos e defender os homens e mulheres e crianças cuja dignidade, direito à vida e propriedades são violados pela ocupação israelense. “Em resposta à arrogância da ocupação, que viola direitos humanos básicos de nossos companheiros, manteremos nossa resistência e faremos processar todos os israelenses culpados de crimes de guerra. Mais cedo ou mais tarde, todos eles pagarão por seus crimes” – disse Al-Hayya.

O Hamás considera Israel responsável pela vida dos 7.000 prisioneiros que estão em greve de fome na “Guerra das Barrigas Vazias”, e convocou o povo palestino a cerrar fileiras e unir-se na defesa dos prisioneiros. Al-Hayya também convocou os povos livres do mundo e todos os cidadãos árabes a dar prioridade à luta para salvar os prisioneiros palestinos torturados nas prisões israelenses – “para que Israel saiba que os prisioneiros palestinos não estão sozinhos”.

Milhares de prisioneiros palestinos enfrentam hoje a violência da máquina israelense de opressão. Contam com os palestinos da Cisjordânia, da Faixa de Gaza e da Diáspora, que não os podem abandonar ao próprio destino. Contam também com que a consciência do mundo acabará por despertar e ver, afinal, esse sofrimento inadmissível.

domingo, 9 de outubro de 2011

Colonos terroristas judeus juram vingança

Khaled Amayreh

29/9-6/10/2011, Khaled Amayreh, Al-Ahram Weekly, n. 1.066, Cairo
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Ramallah. - Colonos judeus, doutrinados pela teologia talmúdica extremista, ameaçam transformar a Cisjordânia em vasto campo de matança.

Reagindo contra o até agora bem-sucedido movimento palestino para obter apoio internacional para um estado palestino nos territórios que Israel ocupou em 1967, alguns líderes de colonos em Israel ameaçaram transformar os centros de população palestina em outra Srebrenica.

Em 1995, soldados sérvios foram responsáveis por um genocídio, naquela cidade bósnia, onde cerca de 8.000 homens e meninos foram massacrados, mortos a sangue frio.

Líderes de colonos, nas colônias israelenses em terras palestinas, que são efetivamente apoiados pelo governo e pelo exército de Israel, têm feito repetidas declarações, sempre ameaçando massacrar palestinos, no caso de a ONU reconhecer o estado palestino, ou garantir à Autoridade Palestina o status de representante de estado membro.

Os colonos não fazem ameaças à toa. Terroristas judeus, reunidos numa organização paramilitar conhecida como “Hilltop Youth” [Juventude da Colina], estão ativos numa campanha de assassinato e terror em vários pontos da Cisjordânia, incendiando plantações de oliveiras e mesquitas e matando palestinos inocentes.

O rabi assassino
O rabino Kiryat Arba Rabbi Dov Lior, mestre talmúdico extremista, segundo os jornais, estaria pregando “castigo coletivo” para os palestinos. Relançou um antigo édito talmúdico incendiário, segundo o qual até as crianças não judias devem ser mortas, “porque não há inocentes, na guerra”.

O mesmo rabino endossou um livro editado recentemente, em hebraico, que ordena o assassinato “das crianças do inimigo”, especialmente em tempos de guerra.

Outro judeu assassino
Em 1994, esse velho rabino abraçou apaixonadamente o massacre executado por um terrorista judeu norte-americano, Baruch Goldstein, de centenas de palestinos que rezavam na Mesquita Ibrahimi, no centro de Hebron, do qual resultaram centenas de mortos e feridos. O rabino declarou santo e grande herói, o assassino. 

Esse rabino tem dezenas de milhares de apoiadores e seguidores fanáticos e sabe-se que é temido pelo establishment político em Israel.

Dia 24 de setembro, colonos e soldados israelenses atirara contra um homem palestino desarmado, pai de cinco filhos na vila de Qusra, perto de Nablus, e o mataram. Testemunhas descreveram o assassinato de Isam Badran, 37, como assassinato a sangue frio.

Segundo o presidente do conselho da vila de Qusra, Abdel-Azim Wadieh, bandos de colonos judeus, pesadamente armados, invadiram a vila, para incendiar os olivais. “Quando os locais tentaram defender suas árvores, os soldados israelenses que assistiam à invasão sem intervir puseram-se a atirar massivamente contra os palestinos donos dos olivais.”

Wadieh disse que dúzias de soldados israelenses invadiram a vila, tarde da noite, atirando para todos os lados, aparentemente para aterrorizar a população. No final do assalto, havia um palestino morto, sete feridos à bala, ferimentos de muito graves a superficiais, e várias pessoas foram presas.

Há duas semanas, a principal mesquita da vila foi seriamente danificada, quando terroristas judeus incendiaram o prédio central. Os incêndios de mesquitas na Cisjordânia, por colonos judeus, já atingem grandes proporções, sem que o exército ou o governo do estado judeu tenham investigado ou prendido um único terrorista.

Observadores na Cisjordânia estão convencidos de que as gangues de judeus terroristas têm ‘mulas’ ou agentes infiltrados no exército do estado judeu nos territórios ocupados, o que permite que os terroristas executem atos de terror e vandalismo contra os palestinos, sem jamais serem presos.

Em Hebron, no sul da Cisjordânia, um colono israelense atropelou um palestino, que ficou gravemente ferido. Dia 23 de setembro, uma 6ª-feira, colonos judeus mobilizaram-se, exigindo que o exército de Israel atirasse e matasse palestinos que, naquele momento, paravam para ver um acidente de trânsito, no qual dois colonos haviam sido atropelados.

Os colonos dizem que o acidente aconteceu porque palestinos atiraram pedras contra o carro. O exército israelense distribuiu duas versões diferentes do incidente. Fontes palestinas citam testemunhas, que viram o carro aproximar-se em alta velocidade e capotar; e que não havia palestinos na área, quando ocorreu o acidente.

Antes disso, um colono atropelara uma criança palestina próximo do local onde ocorreu o acidente. A criança, Farid Jaber, de oito anos, morreu na 2ª-feira, por causa dos ferimentos no atropelamento. Fontes palestinas noticiaram que a opinião generalizada na área é que os colonos atropelam deliberadamente pedestres palestinos naquele ponto e, sempre, notificam os atropelamentos deliberados como acidentes de trânsito.

Os colonos, se não todos, com certeza a maioria, são defensores e pregadores de uma violenta ideologia religiosa que prega a aniquilação de todos os não judeus que vivem no estado judeu. Segundo essa ideologia, ainda que sejam pacificados e ‘passem a respeitar a lei’, os não judeus devem ser escravizados para “carregar água e cortar lenha”, a serviço dos senhores da raça superior.

Em anos recentes, vários colonos têm divulgado essa ideologia fascista, contra os palestinos. Citam “éditos” de antigos textos talmúdicos que – se aplicados – obrigariam milhões de palestinos a escolher entre viver como escravos dos judeus, ser expulsos por meios violentos ou o extermínio físico.

Os colonos israelenses, que seguem a ideologia do sionismo religioso, creem que a vida de um não judeu não é vida santificada e que um judeu pode, mesmo, matar um não judeu sem que se admita qualquer impedimento legal e sem remorso. Algumas autoridades rabínicas em Israel admitem até o assassinato de não judeus para extrair órgãos vitais, no caso de haver judeu que deles necessite.

A ideologia do Gush Emunim, também conhecido como Bloco do Sionismo Messiânico existe há várias décadas, mas sempre foi marginal na população de judeus israelenses. Hoje, porém, essa ideologia parece estar-se tornando dominante, ao tempo em que toda a sociedade judeu-israelense continua a caminhar, a passos largos, para o fascismo declarado.

Há alguns meses, o líder espiritual do partido Shas, poderoso partido político, de forte influência no atual governo, que representa judeus de estados árabes e muçulmanos, declarou, numa homilia do Sabbath, que o estatuto de não-judeus em geral é equivalente ao de bestas de carga, e que Deus criou os não-judeus, inclusive os que apóiam os cristãos, ainda que apóiem Israel, exclusivamente para que sirvam os judeus.

A Autoridade Palestina, que tem a seu serviço dezenas de milhares de soldados de segurança, não tem conseguido proteger os palestinos, sobretudo em vilas e vilarejos localizados em áreas próximas das colônias exclusivas para judeus. Além disso, “acordos” e “entendimentos” entre Israel e a Autoridade Palestina proíbem que as forças de segurança da Autoridade Palestina entrem em zonas definidas como Áreas C, nas quais se localizam a maioria das vilas e vilarejos palestinos atacados.

Um oficial da Autoridade Palestina disse recentemente que a Autoridade Palestina perde a própria razão de ser, se não consegue proteger os cidadãos palestinos contra o terrorismo judeu, sobretudo se o exército israelense de ocupação nada faz para deter os colonos terroristas judeus israelenses.