Mostrando postagens com marcador Conselho Nacional Sírio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Conselho Nacional Sírio. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Ban Ki-Moon agita Genebra-2 sobre a Síria

20/1/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ban Ki-Moon (D), Secretário-Geral da ONU convida o MRE do Irã, Mohammad Javad Zarif (E)  para participar da Conferência de Paz na Síria - Genebra-2 
Uma das precondições para ser eleito secretário-geral da ONU é que o candidato tem de ser rotineiramente capaz de chutar “com efeito” e surpreender o goleiro. Mas o atual Secretário-Geral, Ban Ki-Moon, acaba de chutar uma que, em vez de mudar de rumo e “cair para dentro do gol”, mudou de direção para fora do gol, diretamente para o mato. O Secretário-Geral insiste que não sabia que estava chutando com tanto efeito; quase disse que “saiu sem querer”.

Claro, a variação é muito importante na diplomacia, e o convite de último momento que Ban fez ao Irã para que participe da Conferência Genebra-2 sobre a Síria nem foi completamente inesperado. Mas quando apareceu, surpreendeu, sim. Particularmente, Washington. A porta-voz, Jen Psaki, do Departamento de Estado pediu que Ban rescinda o convite, a menos que o Irã endosse “integral e publicamente” o Comunicado de Junho de 2002 [chamado “Genebra-1”]. A Coalizão Nacional Síria [orig. Syrian National Coalition (SNC)] ameaçou não aparecer em Genebra-2, se o Irã lá estiver.

Nota da redecastorphoto: Faltando menos de 24 horas do início de Genebra-2 Ban Ki-Moon desconvidou o Irã. O “chute com efeito” do Secretário-Geral da ONU saiu muito longe do gol!

Ban Ki-Moon, Secretário-Geral da ONU, "desconvida" Hassan Rouhani, Presidente do Irã de Genebra-2
O próprio Ban tem dito e repetido que “falou longamente” com o Ministro de Relações Exteriores do Irã, Javad Sharif, o qual lhe “assegurou” que “compreende” que “a base” de Genebra-2 é o texto aprovado em junho de 2012. Prima facie, parece que é o fim do mundo, menos de 72 horas antes do início de Genebra-2 marcado para amanhã, 4ª-feira (22/1/2014).

Contudo, se se analisa melhor, a arte do chute direto a gol é difícil e exige longo, dedicado treinamento para que dê o resultado que se deseja que dê. Ban, todos sabemos, jamais deu qualquer sinal de algum dia ter praticando chute direto a gol nas horas de folga. A reação de Psaki pode ter sido completa encenação? Talvez o governo Obama já estivesse informado de que Ban andava treinando tiro a gol com muita determinação e dando o melhor de si, nesses últimos dias, enquanto Genebra-2 se aproximava? Talvez... o treinador fosse Tio Sam em pessoa? Talvez tudo isso não passe de estratégia de retirada?

Jen Psaki
Psaki disse com tanto de vagueza quanto de informação que Washington até conseguiria conviver com a participação do Irã, desde que os iranianos explicitamente endossem o Comunicado de junho de 2012, embora tenha usado uma fórmula de dupla negação para dizê-lo:

É algo que o Irã jamais fez publicamente e algo que nós [EUA] dizemos claramente, há muito tempo, que é indispensável. Se o Irã não aceitar publicamente e integralmente o Comunicado de Genebra, o convite deve ser rescindido.

Teerã ainda não respondeu. Apenas registrou o recebimento do convite, registro protocolar. Considerados o engenho e a arte do pensamento dos persas, eles estão certamente formatando uma declaração em que endossem o comunicado de junho de 2012, mas de tal modo e com tais palavras que nada sugira que estejam cedendo à precondição imposta pelos norte-americanos.

Humilhações e embaraços provocados e sofridos são considerações muito importantes naquela parte do mundo. (De fato, guardo nos meus arquivos o fascinante verbete redigido pela CIA, de 1994, sobre “Face” [ing., aproximadamente “autoimagem”, “autoapresentação”], Face” Among the Arabs). Mas, por outro lado, nada disso é, de fato, matéria substancial; é um não assunto, uma não questão, porque o Irã genuinamente nada esconde, que possa de algum modo ameaçar o processo de Genebra-2.

Além disso, Teerã certamente sabe que o governo Obama deseja que o Irã esteja lá, para Genebra-2, na 4ª-feira (22/1/2013); mas teme convidar Teerã publicamente (os sauditas subiriam pelas paredes).

Pela minha avaliação, o verdadeiro problema será o Conselho Nacional Sírio. Na língua malaiala, diz-se que “o coco sempre cai na cabeça de quem mais quer gemer...” O CNS é participante muito relutante de Genebra-2. Agora, se decidir fazê-lo, terá desculpa para pular fora.



[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Síria: EUA começam a ver as reais alternativas

13/11/2013, [*] "Moon of Alabama"
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ahmed Ramadan, Bassma Kodmani, Abdulbaset Seida e Imad Aldeen Rashid no "show de fantoches" em Istambul 
Essa semana, houve mais um show de fantoches em Istambul. Alguns sírios, selecionados a dedo por políticos estrangeiros, reuniram para encenar alguma “oposição” ao governo sírio. Não têm qualquer apoio na sociedade civil síria, nem qualquer influência sobre os “rebeldes”; e espera-se que, em tese, a tal “oposição” monte alguma espécie de “governo no exílio” que, adiante, substituiria o atual governo sírio.

O critério principal para selecionar membros do Conselho Nacional Sírio é a hostilidade contra o presidente Assad e o governo sírio. Esperava-se que, rapidamente, aqueles homens substituiriam o atual governo sírio.

Mas, agora, os não sírios que selecionaram aqueles “representantes” estão com um problema. Assad e seu governo não arredaram, nem arredarão pé de onde estão e o conflito acordou forças que já não estão sob o controle de seus padrinhos estrangeiros e que constituem perigo para aqueles seus atuais e anteriores patrocinadores estrangeiros.

A nova situação exige mudança de curso, mas os fantoches do Conselho Nacional Sírio – selecionados, ironicamente, pela obcecação e hostilidade – não dão qualquer sinal de disposição para fazer concessões. O mais provável portanto é que percam toda a importância e rapidamente deixem de ter qualquer utilidade ou interesse.

Mas o que tornou a reunião do fim de semana particularmente interessante é que os patrocinadores do CNS já declararam a mudança de curso. As palavras do embaixador dos EUA que tentou influenciar no rumo da reunião já não são exatamente as mesmas de antes, quando os EUA só faziam repetir que Assad estaria com os dias contados no governo da Síria:

Robert S. Ford
Emb. EUA na Síria
Com as tensões aumentando por toda a parte, o embaixador Robert S. Ford dos EUA à Síria disse aos ativistas, nos bastidores da reunião oficial, que a nova realidade que está emergindo lhes impõe opções nada fáceis de engolir: aceitar que o atual governo sírio permaneça no poder por mais tempo do que gostariam, ou enfrentar o crescimento continuado de grupos jihadistas extremistas que aterrorizam a população, entram em combate com grupos insurgentes rivais e minaram o apoio que o ocidente dava ao CNS.
(...)
Ante a evidência de que o governo de Assad agarra-se ao poder, os EUA já começam a dizer que Assad “perdeu legitimidade”, em vez de repetir, como antes, que ele teria “de sair”.

É a primeira vez que se veem os EUA explicitando as alternativas óbvias para o caso da Síria, em linguagem tão clara. É Assad ou a anarquia jihadista. Não significa que os EUA gostem de aceitar Assad no poder. Mas é um passo significativo nessa direção.

O governo sírio e seus apoiadores devem pensar em modos que “salvem a cara” dos EUA, enquanto os EUA caminham rumo ao ponto em que possam reconhecer abertamente que sua campanha para “mudança de regime” na Síria foi erro grave.





[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como“Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, produzimos versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”, que incorporamos às nossas traduções desse blog Moon of Alabama, à guisa de homenagem. Pode ser ouvida a seguir:


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Sisi do Egito expulsa os cães selvagens – “rebeldes” sírios

20/8/2013, [*] M K Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Placa na praça principal em Montereau-Fault-Yonne

Yves Jégo
Yves Jégo, prefeito de Montereau-Fault-Yonne, no subúrbio ao sul de Paris, anunciou 2ª-feira que os proprietários de cães em sua cidade serão doravante filmados por câmeras de vigilância. Os que não tenham noção do dever cívico e não recolham das calçadas o cocô dos seus animaizinhos receberão multa de 35 euros (US$46).

O sr. Jego comparou esses proprietários irresponsáveis a traficantes de drogas, que ameaçam a segurança pública. Pode-se aplicar a analogia à Síria.

De fato, no instante em que o prefeito Jego falava à Agência France-Presse (AFP), a mesma AFP distribuía notícias sobre uma reunião discreta, marcada para meados da próxima semana, bem distante dos holofotes da divulgação internacional, numa cidade localizada a 468,7 km ao norte de Paris: Haia.

Wendy Sherman
Há fiapos de esperança de que não se deva descartar completamente, desde já, qualquer possibilidade de nova ação para a Síria.

Cidade bizantina de cães selvagens

Segundo a AFP, a reunião prevista de altos funcionários de EUA e Rússia em Haia foi concebida na reunião do dia 9/8 em Washington dentro do formato “2+2” dos Ministros de Defesa e Relações Exteriores dos dois países.

Wendy Sherman, subsecretária de Estado dos EUA para assuntos políticos, chefia a equipe norte-americana, que inclui – interessante! – o embaixador dos EUA à Síria Robert Ford, que o presidente Barack Obama acaba de renomear como seu próximo enviado especial ao Cairo. Lakhdar Brahimi, enviado da ONU-Liga Árabe à Síria, também participará.

Lakhdar Brahimi
O objetivo declarado da reunião de Haia é discutir preparativos para a sempre adiada conferência internacional para a paz na Síria, apelidada “Genebra-2”, que visa a aproximar o regime sírio, aliados e a oposição.

Moscou ainda não divulgou o nível da representação que enviará à reunião de Haia. Os russos estarão ansiosos por dar a impressão de que a reunião é rotina nas relações com Washington, apesar do bruaáááá sobre o alertador, Edward Snowden, ex-CIA, e o subsequente cancelamento, por Obama, de reunião “bilateral” com Vladimir Putin prevista para o mês que vem.

Robert Ford
A presença de Ford na reunião de Haia pode parecer desconcertante, se se pensa em sua controversa folha-corrida como diplomata no Iraque e na Síria, por onde deixou montanhas de cocô de cachorro espalhadas pela calçada. Mas Moscou não deixará de considerar – ideia sempre aproveitável – que esse tipo de gente pode ser bem aproveitada no serviço de limpeza de vias públicas, dado que sabem, melhor que qualquer outro agente, de onde provém toda a imundície.

E há movimento muito evidente, que está crescendo, a favor de conversações de paz para a Síria. Por um lado, os cães da guerra na Síria começam a ver-se cada vez mais apertados entre sete varas. O general Abdel Fattah al-Sisi, homem-forte do Egito, odeia cachorros; já ordenou que toda a matilha dos cães de guerra sírios desapareça totalmente da cidade do Cairo.

Abdel Fattah al-Sisi
Está pronto para seguir as pegadas do Sr. Jego e fazer instalar câmeras de vigilância pelas margens do Nilo. A melhor parte da história é que, sendo ele homem pobre, a nova empreitada de expulsar cachorros se autofinanciará... Agora que recebeu generosa contribuição financeira que lhe veio dos mesmos xeiques riquíssimos aos quais pertenciam, até há pouco tempo, os mesmos cães de guerra sírios.

Aqueles xeiques estão cada dia mais preocupados: se o vento carregar o fedor das calçadas sírias para o Egito, diretamente para os salões dos palácios deles, e empestear as suas belas paisagens desérticas, nem todos os perfumes de toda a Arábia bastarão para encobrir a fedentina.

Hosni Mubarak
Um Sisi já fortalecido pretende agora extrair do retiro o ex-ditador, Hosni Mubarak, homem no qual os xeiques confiam implicitamente e cujas legendárias competências na gestão de cocô de cachorro são legião.

Seja como for, a matilha síria rapidamente identificou em Sisi sinais de incômodo; e os cães de guerra sírios fugiram do Cairo para Istambul, aproveitando-se, a seu favor, de um momento em que as autoridades turcas e egípcias, pelo menos por hora, não se conversam.

Mas Istambul tampouco será por muito tempo paraíso seguro para eles, porque, antiga cidade bizantina, ali também há cães selvagens. A matilha síria é uma variedade relativamente delicada, sobretudo na comparação com os cães do Curdistão e da Mesopotâmia mais profunda,que são mastins sedentos de sangue e alguns deles, ao que se diz, canófagos (cães que comem cães).

Há também indicações embora ainda vagas de que é questão de tempo, e o patrão turco seguirá ele também os passos de Sisi e decidirá livrar-se de todos os cães que fluem para a Anatólia vindos de regiões circundantes e poluem seu belo conjunto arquitetônico.

Queda trágica, mas potencialmente catártica

Expliquemos. O primeiro-ministro turco Recep Erdogan telefonou a Putin há duas semanas e propôs encontro entre os dois, à margem da reunião do Grupo dos 20 no início de setembro em São Petersburgo: conversa de homem para homem, sobre a Síria. Erdogan, político hábil, já entendeu que perdeu a disputa pela Síria; e que Putin tem em mãos todos os trunfos, inclusive a assustadora “carta curda”.

Vladimir Putin e Recep Erdogan: Reunião de cúpula Russia-Turquia ( Kremlin dez/2012)
Dentre crescentes indícios de que há uma entidade curda tomando forma no norte da Síria, ao longo da fronteira turca, nas linhas do Curdistão Iraquiano, Moscou sugeriu, sem piscar nem baixar os olhos, que os curdos sírios poderiam também enviar representação independente às conversações Genebra-2.

Hamad bin
Khalifa al-Thani
Erdogan imediatamente captou a mensagem. O xeique Hamad bin Khalifa al-Thani do Qatar e Mohamed Mursi do Egito sempre foram íntimos associados de Erdogan no projeto sírio. Mas já foram aliviados da carga do poder – um abdicou, o outro foi deposto.

Por outro lado, o golpe egípcio encontra Erdogan em posição de cavaleiro sem escudeiro no tabuleiro do xadrez regional, enquanto Arábia Saudita e aliados do Conselho de Cooperação do Golfo, o Iraque, a Síria, Israel e até o Irã já resolveram negociar com a junta militar no Cairo.

Para Erdogan, a parte mais dura de engolir é que Obama o está ignorando. Do alto pedestal em que foi aclamado líder modelar para o novo Oriente Médio, Erdogan tombou, “queda shakespeariana” – trágica, mas ao mesmo tempo potencialmente catártica.

Erdogan sabe que o Egito ocupará todo o tempo de Obama, até o fim de seu mandato na Casa Branca, o que implica que os EUA estão sendo virtualmente obrigados a desengajar-se do projeto sírio. E, seja lá como for, não se atravessa momento muito adequado para pressionar a favor de “mudança de regime” no Oriente Médio.

Em resumo, Erdogan compreende perfeitamente bem que Moscou avalia que, na Síria, a maré virou.

A insistente campanha de propaganda, de Moscou, falando do espectro da al-Qaeda que estaria erguendo as garras na Síria, entrou fundo no consciente ocidental e, ao mesmo tempo, Bashar al-Assad pressiona em casa, a cavaleiro da vantagem que obteve no campo de batalha; e vai-se aproximando cada vez mais de ser reeleito presidente da Síria nas eleições de 2014.

Males portentosos estão para acontecer [1]

Dito de modo simplificado, a Rússia pós-soviética está de volta, pisando firme, ao tabuleiro de xadrez no Oriente Médio. De fato, coisas estranhas já acontecem por toda a Região.

Khaled Khoja
O representante do Conselho Nacional Sírio em Istambul, Khaled Khoja, disse com amargura, em entrevista publicada no jornal turco Hurriyet no fim de semana:

O movimento da oposição síria no Egito está sendo expulso [pelo governo de Sisi], e figuras da oposição síria já começam a deixar o Egito. Estamos transferindo a sede da Coalizão Nacional Síria, do Egito para a Turquia.

Politicamente, Bashar al-Assad está convertido em ditador exemplar para todos os ditadores árabes. O que al-Assad e a Shabiha [militantes armados, em trajes civis, que apóiam al-Assad] são para a Síria, [o general Abdel Fattah] al-Sisi e seus grupos armados são para o Egito.

Cresce entre muitos ditadores árabes a convicção de que é possível parar a Primavera Árabe. Entre esses, os líderes da Arábia Saudita, Jordânia e Emirados Árabes Unidos, que estão no grupo dos Amigos da Síria. Todos esses apoiaram al-Sisi.

Depois de um sítio de nove meses, quando as forças de oposição tomaram o aeroporto próximo a Aleppo, encontraram foguetes da Arábia Saudita destinados ao regime. Os Emirados Árabes Unidos estão no Grupo Amigos da Síria, mas Dubai já é o banco central do regime sírio. Embora os Amigos da Síria devessem apoiar a oposição, hoje já tendem mais a proteger o regime de Al-Assad.

Rei Abdullah
(Arábia Saudita)
Não surpreendentemente, Moscou vai aquecendo os contatos com o “estado profundo” da era Mubarak no Egito, e a manifesta simpatia que já mostra em relação à junta militar no Cairo, combinada ao ódio visceral que historicamente lhe inspira a Fraternidade Muçulmana, estão gerando uma estranha aproximação entre Rússia e Arábia Saudita em questões vitais que afetam a futura trajetória da Primavera Árabe.

Analisada em retrospecto, a iniciativa do rei Abdullah, de mandar seu espião-chefe, príncipe Bandar, falar com Putin mês passado, mostra que os sauditas sentem que têm interesses próximos dos interesses de Moscou sobre a Síria, interesses que estão emergindo no plano regional – uma comunidade de interesse que os sauditas não sentem com nenhuma outra grande potência, nem com os EUA.

Pode ter emergido dos relatos a impressão de que Putin e Bandar mantiveram distância ostensiva e mal se falaram, um desconfiado do outro. Mas a verdade é que conversaram durante quatro longas horas na residência do presidente da Rússia.

Ahmad Jarba
A Síria com certeza foi e continua a ser ponto de diferença entre Arábia Saudita e Rússia. Mas ambos, Putin e o rei Abdullah, são pragmáticos por excelência e, como Mao Tse Tung ensinou certa vez, “Diferenças entre amigos sempre reforçam a amizade”.

Dito de outro modo, a decisão de Sisi de expulsar do Cairo os membros do Conselho Nacional Sírio jamais seria possível sem um aceno e uma piscadela dos sauditas e, é altamente improvável que Bandar não tenha sensibilizado Putin. Afinal de contas, o líder do Conselho Nacional Sírio, Ahmad Jarba, sempre foi bem conhecido como protegido dos sauditas.

Khoja, representante do Conselho Nacional Sírio, bem poderia ter repetido as palavras do Imperador, em Julio Cesar de William Shakespeare, [2]

Minha esposa Calpúrnia é que me prende,
não querendo que eu saia.
Viu em sonho minha estátua, esta noite,
como fonte que despejava sangue vivo por cem bocas,
na qual romanos sorridentes e robustos banhavam as mãos.
Para ela, a visão é uma advertência
de que males portentosos estão para acontecer.
E pediu-me, de joelhos, que eu não saia de casa.

________________________

Notas dos tradutores

[1]  Orig. Portents of evils imminent (Shakespeare, Julio Cesar, ato 2, cena 2) .

[2]  Shakespeare, Julio Cesar, Ato 3, cena 2 
Calpurnia, my wife, stays me at home;
She dreamt to-night she saw my statua,
Which, like a fountain with an hundred spouts,
Did run pure blood; and many lusty Romans
Came smiling, and did bathe their hands in it:
And these does she apply for warnings, and portents,  
And evils imminent; and on her knee
Hath begg'd that will stay at home to-day.
__________________


[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O sangrento fracasso dos EUA na Síria


1/11/2012, Xinhua News Agency, Pequim
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
  
 - A experiência já mostrou que intervenção e a “exigência” de que Assad deixe o poder não conseguiram conter a violência ainda crescente e precipitaram a Síria em caos ainda mais profundo.
 - Aparentemente, Washington ainda insiste na velha ideia intervencionista, que mais de uma vez levou os EUA a beco sem saída.
 - Em nenhum caso o ocidente deveria apoiar um dos lados, na luta para varrer do mundo a oposição, porque esse tipo de ação sempre implica consequências incontroláveis.



Hillary Clinton
 PEQUIM – “Já dissemos bem claramente que o Conselho Nacional Sírio não pode continuar a ser visto como líder visível da oposição”, disse a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton em visita à Croácia, na 4ª-feira, “exigindo” modificações na liderança da oposição síria.

A recente “grande virada”, que visa a descartar o Conselho Nacional Sírio que tem base em Istambul, Turquia – o mesmo CNS que os EUA até agora haviam apoiado sem restrições – mostra a confusão reinante nas “táticas” do ocidente para a Síria que, hoje, se veem ante o grande problema de encontrar outros representantes locais aos quais apoiar.

Os EUA, que em nenhum momento se ocuparam em buscar alguma verdade factual em campo e temerariamente acolheram como aliado e “representante local” o Conselho Nacional Sírio, acabam de constatar que o aliado é absolutamente imprestável; e retiram-lhe todo o apoio. Os EUA estão esmurrando, de fato, a própria cara.

Agora, os EUA partem à procura de outras forças de oposição as quais apoiar. Mas o mais provável é que a nova tentativa falhe outra vez, dado que, outra vez, os EUA deixam sem considerar as causas que continuam ativas na raiz daquela crise crônica e, outra vez, rejeitam qualquer solução política para a Síria.

Desde o início do conflito, há 20 meses, o ocidente nada faz além de, obcecadamente, trabalhar para derrubar o governo do presidente Bashar al-Assad, sem em momento algum considerar objetivamente a potência variável das diferente facções que disputam o governo da Síria.

Forças leais a Assad continuam a combater cabeça à cabeça contra rebeldes, e absolutamente não se vê no horizonte qualquer possibilidade de processo de paz. Até agora, aqueles confrontos já fizeram mais de 32 mil mortos.

Sem conseguir conter os confrontos, a trégua de quatro dias, para a Festa do Sacrifício em outubro de 2012, iniciada pelo enviado da ONU, Lakhdar Brahimi e prevista para marcar o começo de um processo de paz, também já deu em nada.

A experiência já mostrou que a intervenção e a “exigência” de que Assad deixe o poder não conseguiram conter a violência ainda crescente e precipitaram a Síria em caos ainda mais profundo

Aparentemente, Washington ainda insiste na velha ideia intervencionista, que mais de uma vez levou os EUA a beco sem saída. Em nenhum caso o ocidente deveria apoiar um dos lados, na luta para varrer do mundo a oposição, porque esse tipo de ação sempre implica consequências incontroláveis.

Nem Clinton dá sinais de saber o que faz em relação à Síria e insiste em esperar que rebeldes consigam derrotar o governo de Assad. Na 4ª-feira, a secretária Clinton disse que não é segredo que muitos na Síria, especialmente grupos minoritários, temem que o governo de Assad seja substituído por governo da oposição sunita. “Não que amem o regime Assad” – disse ela. – “Mas estão, com muita razão, preocupados com o futuro”.

É mais que hora de o ocidente entender que a única abordagem razoável é apoiar genuinamente uma solução política e diplomática para a crise.

Yang Jiechi
A China, com a Rússia e outros países, tem buscado incansavelmente apoiar os esforços do enviado internacional e tem insistido na direção de que todas as partes envolvidas busquem desempenhar papel mais construtivo.

Na 4ª-feira, o Ministro de Relações Exteriores da China, Yang Jiechi apresentou proposta chinesa, de quatro pontos, para encaminhar solução estável para o conflito sírio. Os chineses entendem que é absolutamente necessário que os lados em conflito respeitem o cessar-fogo acordado e deem início, imediatamente, a uma transição política negociada.

Os EUA ainda precisam aprender que soluções políticas demandam paciência e tempo.