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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Pepe Escobar: “Irã - nada como acordar com um “drone” no bolso”


5/12/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
Talvez não seja Predator mortífero equipado com um míssil Hellfire dos que incineram casamentos de pashtuns no Af-Pak, mas nesse nosso Bravo Valente Novo Mundo dos Veículos Aéreos Não Pilotados – conhecido também como a “Guerra dos Drones de Obama” –  qualquer ScanEagle muito mais lento, fabricado por subsidiária da Boeing, já nasce com direitos adquiridos de roubar a cena.

Lá está hoje, a estrela do show, numa TV iraniana, depois de capturado sobre o Golfo Persa. Vídeo a seguir:


Os cabeças-de-bagre especialistas em geopolítica, já fartos da mesma conversa fiada regurgitada incansavelmente por generais norte-americanos pelos canais Fox e CNN, certamente se deleitarão com a faixa ultrarretrô “Esmagaremos os EUA sob nossos pés”, para nem falar da peculiar produção de valores pelo Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos [orig. Islamic Revolutionary Guard Corps (IRGC) no front de Relações Públicas.

O subalmirante Ali Fadavi, comandante da Marinha do IRGC, disse que o ScanEagle foi “caçado” e “obrigado” a “pousar eletronicamente”, depois que invadiu espaço aéreo do Irã. Bem... Talvez tenha sido um pouco mais complicado. A melhor explicação ainda é a do sempre delicioso blog Moon of Alabama: os Guardas Revolucionários, provavelmente, desabilitaram eletronicamente a conexão de satélite do drone e, em seguida, assumiram a linha de controle por rádio da linha de visão. 

Ali Fadavi
Além de garantir piadas sem fim, do tipo “os gatos persas derrubam o besouro [orig. drone] dos EUA” – serviço completo, com fotos de gatos gordos brincando com o modelo made-in-Iran do RQ-170s (o drone que o Irã capturou ano passado) – a coisa é quase tão boa quanto a mais recente reportagem (em 2011) de Bob Woodward, que flagrou um dos homens de Rupert Murdoch que operam o canal Fox News tentando vender (literalmente) ao general Petraeus a ideia de tornar-se candidato à presidência, como representante pessoal de Murdoch, nas eleições para a Casa Branca. General bagre-ensaboado-à-moda-canal-Fox [orig. Foxy General, intraduzível], sabe-se lá?

O general canal Fox-Petraeus, por falar dele – mesmo antes de a coisa ter virado “corporal” com a fã & gostosinha Paula Broadwell – jamais se deixaria apanhar em situação tão degradante. Seus drones da CIA no Af-Pak sempre foram e continuam a ser máquinas de matar confiáveis, não essas porcarias de hoje, que só recolhem informação de inteligência falhada, que não prestam para nada.

Esse novo capítulo do seriado Guerra dos Drones, oferece, pelo menos, uma trégua cômica, à Monty Python, na desgraça cotidiana, ininterrupta – com a Turquia obtendo a aprovação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para instalar mísseis Patriot interceptores para “defender-se” contra algum doido sírio que se atreva a atravessar a fronteira.

Os burocratas da OTAN em Bruxelas já começaram a espalhar aos quatro ventos a negativa oficial, na linha do “Oh, não, não! Não queremos uma zona aérea de exclusão sobre a Síria! É que a gente aqui adooooora mísseis gordos, grandes e maus”.

Os EUA – sempre, sempre, como sempre – negam tudo que tenha a ver com o drone ScanEagle que não voltou para casa. Um porta-voz do Comando Central da Marinha dos EUA, no Bahrain, esse país-símbolo, exemplar, de democracia, disse que “A Marinha dos EUA mantém pleno controle sobre todos os veículos aéreos não tripulados [orig. unmanned air vehicles (UAV)] em operação na região do Oriente Médio”.

Drone ScanEagle na catapulta móvel de lançamento
Vai-se ver, é problema de terminologia: o Irã fica no Sudoeste Asiático – assim sendo, drones que andem “pivoteando” em área de “pivoteamento não entram na conta. Mas, calma; a coisa ainda melhora! O porta-voz disse também que “não temos registro de qualquer ScanEagle extraviado recentemente”. Quer dizer: só se a Marinha perdeu, além de um drone... também todos os registros.

O que se vê, são esforços frenéticos da Marinha para pôr a culpa... nos drones dos outros! Vai-se ver, esse ScanEagle teria decolado de outro paraíso da democracia mantido pelo Conselho de Cooperação do Golfo, os Emirados Árabes Unidos. Austrália, Canadá, Países Baixos e até a Colômbia têm drones. A Grã-Bretanha e a França também fabricam drones, e a Rússia, logo, logo, também chega lá. Ou, quem sabe, um espião “Ai-raniano” do Mal roubou o tal drone em Dubai, quando andou por lá em expedição de compras.

Podem esperar: vai começar um boom de vendas de drones ScanEagle em miniatura, de plástico, para trazer um refresco ao deprimido e mortalmente super sancionado mercado iraniano – exatamente como aconteceu ano passado, com o RQ-170.

Os gatos persas que vivem de Qom ao Mar Cáspio, depois de derrubá-los todos, com certeza farão um baile.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Pepe Escobar: “O que está em disputa nas eleições no Irã”


2/3/2012, Pepe EscobarAsia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
As eleições parlamentares de amanhã, 6ª-feira, no Irã, estão longe de serem livres e justas. Mas, sim, estão um passo adiante, em matéria de eleições livres e justas, se comparadas com as eleições-zero da exemplar democracia das monarquias do Golfo Persa.

No Irã, dessa vez, o problema é que não há oposição; são conservadores contra neoconservadores.

Os líderes do Movimento Verde, Mir Hossein Mousavi e a esposa, Dra. Zahra Rahnavard, além de Mehdi Karroubi, estão em prisão domiciliar já há mais de um ano; fazendo eco ao que diz Aung Suu Kyi de Myanmar, mas falando mais claramente, os casal tem repetido que não se “arrependerá”. 

Virtualmente, todos os principais líderes da oposição, inclusive ativistas da universidade, quase 1.000 no total, estão presos; não porque sejam criminosos, mas porque são organizadores sempre competentes da ira popular.

Os grupos mais influentes da oposição foram, de fato, proscritos – o que inclui também grupos de clérigos e a Associação de Professores e Intelectuais, todos islamicamente corretos, da cidade santa de Qom. Nada menos que 42 influentes jornalistas também estão presos. 

A maioria absoluta dos jornais da imprensa pró-reformas foi fechada. Organizações não governamentais, como o Centro para a Defesa de Direitos Humanos, fundado por Shirin Ebadi, advogada e a ganhadora do Prêmio Nobel, foram também fechadas e tornadas ilegais. 

Definição sintética dessas eleições seria alguma coisa como: um esquema bizantino de partilha do poder entre grupos que representam uma elite muito pequena, enquanto fatias imensas da população – e seus representantes – são completamente excluídos. 

Essencialmente, será batalha feroz entre o Supremo Líder Aiatolá Khamenei e o presidente Mahmoud Ahmadinejad. Assim sendo, por que essas eleições são tão importantes? 

Bem-vindos ao ring do Vale-Tudo Islâmico 

A luta Khamenei-Ahmadinejad é hoje uma final de vale-tudo. Na essência, é a luta entre o aiatolá e o homem com uma auréola sobre a cabeça que preparará o cenário para as futuras eleições presidenciais, em junho 2013 – quando, no melhor dos mundos, já haverá um Obama 2º, e o demônio da guerra talvez tenha sido exorcizado. 

Sempre que a imprensa-empresa ocidental preguiçosa, preconceituosa e absolutamente contrária a qualquer nuança refere-se ao Irã, só sabe falar dos “mulás”. Não, não. Há muito mais. A coisa é muito mais complexa. 

Khamenei está apostando no “evento épico” de eleição em que pelo menos 60% dos eleitores compareçam às urnas. Nada garante que compareçam; por isso, o regime não está economizando esforços. Ontem, o próprio líder cuidou de deixar bem claro o que, segundo ele, estaria em jogo:

“Graças à divina benevolência, a nação iraniana aplicará bofetada mais poderosa que nunca na face da Arrogância [dos EUA] e mostrará ao inimigo sua firmeza, para que o front da Arrogância entenda que nada conseguirá contra essa nação”. 

Mas o grande problema é o front interno, muito mais que o “front da Arrogância”. Nesse palco extremamente delicado, Khamenei precisa desesperadamente ganhar legitimidade. Precisa mostrar que está no comando, que é plenamente respeitado, que muitos iranianos ainda creem no sistema de atual República Islâmica, e que, por isso, os eleitores ignoraram a oposição, que prega boicote às eleições. 

A economia está em situação calamitosa, em parte por efeito das sanções ocidentais, mas, sobretudo, por efeito das dimensões cósmicas da corrupção e da incompetência do governo de Ahmadinejad. O grupo de Khamenei não se cansa de destacar esse ponto, sempre cuidando de manter o Supremo Líder acima de todas as misérias e culpas. 

E, sim, há também o “front da Arrogância” – a chuva ininterrupta de ameaças de ataques israelenses, norte-americanos ou ambos. Khamenei precisa de uma prova documentada – nas urnas eleitorais – de que o país está unido na resistência contra a intervenção externa. 

Também é chave nesse cenário o papel do Corpo dos Guardas Revolucionários Islâmicos [ing. Islamic Revolutionary Guard Corps (IRGC)]. Que ninguém esqueça: o Irã é hoje uma ditadura militar do mulariato. O IRGG quer muito, muito, controlar o Majlis (Parlamento) – e por razões específicas. 

Se controlarem o Parlamento, o militares do IRGC, simultaneamente, controlarão as ferramentas para declarar o impeachment do presidente Ahmadinejad (se for necessário, ou se os militares desejarem) e para eliminar presidentes eleitos pelo voto popular e reinstituir um primeiro-ministro – a ser selecionado pelo Parlamento. A posição não disfarçada do IRGC é, na essência, que precisam controlar o Parlamento, ou a “sedição” – como se viu no Movimento Verde – voltará. 

Conheça os competidores

Assim sendo, temos, de um lado, os chamados “principistas” – que chamaremos de Partido de Khamenei. São – em teoria – controlados pelo aiatolá Mohammad Reza Kani, presidente do Conselho dos Sábios. Na prática, ainda vale o que digam ex-comandantes do IRGC, tenham o poder que tenham. 

Um dos candidatos chave na lista do Partido de Khamenei é Gholam Haddad Adel, sogro do segundo filho de Khamenei, Mojtaba. Concorre a uma cadeira de deputado por Teerã. Isso significa, e é decisivamente importante, que o IRGC quer fazer da eleição em Teerã um referendo, de facto, do poder de Khamenei. É algo a observar-se bem de perto. 

Os principistas vangloriam-se de uma “Frente Unida” que, na verdade, está hoje seriamente desunida (dividida em, pelo menos, quatro grupos). Temem que a facção de Ahmadinejad manipulará a votação – através do ministério do Interior; é segredo que todos conhecem em Teerã que o pessoal de Ahmadinejad anda subornando furiosamente trabalhadores braçais e camponeses. Os principistas sabem que se Ahmadinejad ganhar o controle sobre o Parlamento, não poderá sofrer impeachment, e confrontará Khamenei cada vez mais violentamente. 

Pelo outro lado, temos algo chamado “Frente Duradoura da Revolução Islâmica”, que chamaremos de Facção de Ahmadinejad. Apresentam-se com os verdadeiros principistas – de fato, são discípulos do megarreacionário aiatolá Mesbah Yazdi. Esse, é osso duro de roer; estive várias vezes em sua Hawza [1] em Qom, mas Mesbah Yazdi não recebe jornalistas estrangeiros. 

Ahmadinejad foi cultuador empenhado de Mesbah Yazdi. Até que explodiu uma bomba teológica: Ahmadinejad começou a divulgar que teria contatos diretos com o Imã Mahdi, “O Imã Oculto” [2] – não com o Supremo Líder, em tese o representante de Mahdi sobre a Terra. Mesbah Yazdi ficou horrorizado. E passou a dizer que não é líder do partido – mas o povo não acredita nele. Se conseguirem grande número de votos no Parlamento, Mesbah Yazdi resultará ainda mais forte até entre os neoconservadores. 

Um terceiro partido ou grupo é liderado por Mohsen Rezaei, ex-comandante do IRGC entre 1981 e 1997, e atual secretário-geral do Conselho dos Experientes [orig. Expediency Council], o corpo que faz a mediação entre o Parlamento e o Conselho dos Guardiões, e aconselha Khamenei. Esse grupo não é exatamente muito popular entre conservadores e neoconservadores, embora o jogo de Rezaei seja posicionar-se como uma terceira via viável. 

Além desses, há os conservadores e neoconservadores não alinhados com nenhum dos grandes grupos; desses, um grupo maior é liderado por dois ferozes críticos de Ahmadinejad; e há, pelo menos, outros 200 grupos menores. 

Para que se tenha uma ideia da natureza tortuosa do sistema, o maior grupo apresentou como candidatos muitos atuais deputados do Parlamento, além de outros nomes. Na primeira rodada de análise dos candidatos, conduzida pelo ministério do Interior de Ahmadinejad, todos esses foram rejeitados. Mas, em seguida, o Conselho dos Guardiões decidiu que podiam candidatar-se. 

E que ninguém espere comparecimento massivo às urnas, amanhã, 6ª-feira. Em Teerã estima-se comparecimento de apenas 15% dos eleitores – talvez ainda menos. Maioria esmagadora dos alunos de universidades boicotará firmemente as eleições. 

Quem se interesse por examinar o extraordinário impacto dos desenvolvimentos posteriores às eleições de 2009 em Teerã deve ler Death to the Dictator: A Young Man Casts a Vote in Iran's 2009 Election and Pays a Devastating Price [Morte ao ditador: um jovem eleitor vota nas eleições de 2009 no Irã e paga preço devastador], de Afsaneh Moqadam (2010, Sarah Crichton Books, Farrar, Straus and Giroux [3]). 

Nas cidades pequenas e nas províncias remotas do Irã, o Líder – o “homem do povo com uma auréola sobre a cabeça” – talvez ainda seja popular. Mas ninguém, em lugar algum, sabe com certeza se a maioria dos iranianos fará alguma coisa para apoiar aqueles eleitores. 




Notas dos tradutores

[1]  Hawza é um seminário de ensino islâmico tradicional, para estudos avançados. O termo é usado principalmente nas comunidades muçulmanas xiitas, para designar um centro de estudos tradicionais, para formação e treinamento de clérigos.  
[2] Imam Mahdi (Descendent of Prophet Muhammad PBUH)  (em inglês). Sem poder entrar em detalhes da doutrina muçulmana xiita, pode-se dizer que o Imã Mahdi (“Mahdi” é um título; literalmente: “o Primeiro Guiado”) corresponde, aproximadamente, à figura de Jesus Cristo para os cristãos, e também voltará no fim dos tempos. No mesmo texto tem uma nota onde se lê: “Por favor, não confundir o Imã Mahdi com Hadhrat Isa (Jesus). São pessoas diferentes e ambos voltarão nos últimos dias. Segundo o Hadith, o Imã Mahdi aparecerá primeiro, e Jesus aparecerá durante a vida de Imã Mahdi. E só Jesus será capaz de matar Dajjal (o anticristo)”.

[3] Há resenha do livroDeath to the Dictator: A Young Man Casts a Vote in Iran's 2009 Election and Pays a Devastating Price”  no New York Times, de 16/7/2010 em “Tehran in Chains, em que se lê avaliação bem semelhante à de Pepe Escobar. A impressão que se tem é que todos nós, algum dia – e um dia que cada dia parece estar mais assustadoramente próximo – pagaremos preço muuuuuito caro por não ter construído melhores discursos sobre a democracia representativa, sobre a religião na vida das pessoas em geral e dos iranianos em especial (porque, afinal, não têm bombas atômicas e estão ameaçados de serem varridos do planeta por Israel e EUA, que têm zilhões de bombas atômicas e, também, por sanções violentíssimas e nada democráticas), sobre o que são e fazem as “elites” letradas, os “universitários”, os “jovens”, a “mídia”, os “jornalistas”, os “liberais” em geral, e, afinal, sobre o que fazem os conservadores em geral e, claro também sobre o que parece que já não fazem os (será que ainda existem?) pensadores revolucionários, capazes de dar voz audível e compreensível aos pobres do mundo. 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Pepe Escobar: “Qual é o jogo do Supremo Líder do Irã?”


25/2/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Interrompemos esse programa para propor a grande pergunta guerra-ou-paz: que jogo o Supremo Líder do Irã Aiatolá Ali Khamenei está realmente jogando? 

Pepe Escobar
Tema recorrente entre a animada diáspora iraniana global é que o Supremo Líder é o agente ideal de EUA/Israel – na medida em que encarna o Irã como “o inimigo” (em vários casos menos que o presidente Mahmud Ahmadinejad); paralelamente, a ditadura militar do mulariato em Teerã também precisa do “inimigo” – um Grande Satã e os Sionistas – para justificar seu monopólio do poder. 

Quem mais perde nesse caso é a verdadeira democracia iraniana – como base da capacidade do país para resistir ao Império. Especialmente agora, depois da muito suspeita eleição presidencial de 2009 e da repressão ao movimento Verde – quando até ex-apoiadores diziam que a República Islâmica deixara de ser “república” e com certeza já não era “islâmica”. 

Ao mesmo tempo, iranianos – e ocidentais – bem informados que criticam o Império dizem também que o governo beligerante da maioria do Likud no governo israelense é, de fato, o agente ideal a serviço do Irã. Isso porque o primeiro-ministro Benjamin "Bibi" Netanyahu e o ex-leão-de-chácara da Moldávia feito ministro de Relações Exteriores Avigdor Lieberman e fazedores-de-guerras em tempo integral conseguiram unir contra eles mesmos e em defesa do regime, todos os iranianos de todos os grupos e fés – sempre orgulhosamente nacionalistas. 

Afinal, a absoluta maioria dos iranianos sente que estão postos como alvo de uma potência estrangeira fortemente armada – EUA-Israel, acompanhada nas sombras pelas monarquias sunitas do Clube Contrarrevolucionário do Golfo, também conhecido como Conselho de Cooperação do Golfo. O regime foi esperto o bastante para instrumentalizar essa ameaça estrangeira e, ao mesmo tempo, acabar de esmagar o movimento Verde. 

Mantenha suas bombas longe de mim 

Estamos a menos de uma semana das eleições parlamentares no Irã, que acontecerão dia 3 de março. São as primeiras eleições depois do drama de 2009. Em The Ayatollahs' Democracy: an Iranian Challenge [A Democracia dos Aiatolás: um desafio iraniano] (New York: W. W. Norton, 2010, 282 p. [1]), Hooman Majd apresenta argumentos de peso, detalhando como a eleição de 2009 foi roubada. E aí está o principal problema de hoje: milhões de iranianos já não acreditam em sua democracia islâmica. 

Gholam Reza Moghaddam, clérigo e presidente da Comissão do Majlis (parlamento) que está conduzindo movimento extremamente delicado – em meio a uma crise econômica – para pôr fim aos subsídios que o governo dá a itens de alimentação básicos e energia, admitiu recentemente que o governo de Ahmadinejad está, por todos os meios possíveis, subornando a população “para encorajar os eleitores a votar nas eleições para o Majlis”. 

O major-general Yahya Rahim Safavi – alto conselheiro militar de Khamenei e, muito importante, ex-chefe do Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos [orig. Islamic Revolutionary Guards Corps (IRGC) – pediu que os iranianos “levem a sério as eleições e votem em massa, para fazer das eleições outro evento épico”. O Líder Supremo crê – ou espera – que nesse “evento épico” o comparecimento às urnas fique em torno de 60%. 

Podem estar a caminho de uma dura decepção. O que se diz é que, entre os universitários, o interesse pelas eleições está próximo de zero. Não surpreende: o líder do movimento Verde, Mir Hossein Mousavi, está, há um ano, em prisão domiciliar. Segundo Kaleme, website aliado de Mousavi e de sua esposa, Dra. Zahra Rahnavard, o casal foi autorizado a falar, apenas por poucos minutos, há alguns dias, por telefone, com as três filhas. 

A atenção de Khamenei parece estar mais concentrada na pressão externa, que na dinâmica interna. Mais uma vez, na 4ª-feira, falou publicamente, renovando o que já disse: que uma bomba atômica seria anti-islâmica. Suas palavras bem deveriam ser – mas não serão – atentamente examinadas no ocidente:

Cremos que usar armas nucleares é haram e proibido e que é dever de todos esforçarem-se para proteger a humanidade contra esse grande desastre. Cremos que, além de armas nucleares, outros tipos de armas de destruição em massa, como as armas químicas e biológicas, também são grave ameaça à humanidade. A nação iraniana, que já é vítima de armas químicas, sente, mais que outras nações o risco que se cria sempre que se produzem e armazenam armas desse tipo. O Irã está preparado a fazer uso de todas as suas capacidades, para enfrentar esse risco.

Para conhecer as ideias ‘nucleares’ do Supremo Líder, bastaria que os doidos-por-guerra consultassem seu website [2]. Claro que não consultarão. 

O que é garantido é que o líder dá sinais de que está pronto para combates de longo prazo. Foi o que disse o major-general (aposentado) Mohsen Rezai, secretário-geral do Grande Conselho [orig. Expediency Council [3]], com menos palavras: as sanções ocidentais perdurarão por no mínimo mais cinco anos;  são muito mais duras que as impostas durante a guerra Irã-Iraque de 1980-1988. 

Rezai disse também que, por 16 anos, quando Akbar Hashemi Rafsanjani e depois Mohammad Khatami foram presidentes, o Irã tentou alguma espécie de acerto com os EUA; mas, “porque a separação [entre EUA e Irã] era profunda demais, nenhum acordo foi possível (...). Permitimos que vistoriassem Natanz, reduzimos o número de centrífugas, suspendemos as operações em Isfahan [unidade de conversão de urânio] e nosso presidente [Khatami] iniciou o “diálogo entre civilizações”. Mas [o presidente George W] Bush declarou que Irã, Iraque e Coreia do Norte seriam o “eixo do mal” e iniciou a confrontação conosco”. [4] 

Um ex-porta-voz da equipe de negociadores iranianos para a questão nuclear, embaixador Hossein Mousavian [5], atualizou essa inspiração confrontacional – frente à equipe da Agência Internacional de Energia Atômica (ing.International Atomic Energy Agency (IAEA)] que visitou o Irã em outubro de 2011, liderada pelo vice-diretor-geral Herman Nackaerts – o mesmo Nackaerts que, essa semana, retornou ao Irã. 

Segundo Mousavian, “durante a visita, Fereydoon Abbasi-Davani, chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, entregou um cheque em branco à IAEA, assegurando plena transparência, abertura às inspeções e cooperação com a IAEA. Também informou Nackaerts da disposição do Irã para pôr o programa nuclear do Irã sob “plena supervisão da IAEA”, inclusive com implementação do Protocolo Adicional [do Tratado de Não Proliferação Nuclear] por cinco anos, sob a única condição de que fossem levantadas as sanções contra o Irã”. [6] 

Adivinhem qual foi a reação de Washington? Esqueçam o diálogo; queremos sanções. E assim o palco estava armado para que Washington desse os passos seguintes: o golpe dos Velozes & Furiosos para tentar culpar Teerã pela tentativa de assassinato do embaixador saudita aos EUA; pressão para que se ignorasse o relatório da IAEA sobre o Irã, de novembro de 2011, distribuindo a suspeita de que haveria “um possível ângulo militar” no programa nuclear iraniano; embargo do petróleo; imposição à ONU de uma resolução contra o Irã sob acusação de terrorismo; e a lista prossegue. 

Mostre-me o caminho do Imã [Khomeini]

Todos os assuntos no Irã, internos e externos, são resolvidos por Khamenei – não por Ahmadinejad. Se o Supremo Líder parece manter a mão bem firme sobre o dossiê nuclear, nas questões domésticas tudo parece menos firme. Fora das grandes cidades, Khamenei ainda preserva o apoio popular – enquanto os empréstimos que o Estado faz às populações rurais continuarem com a mesma generosidade, enquanto, pelo menos, as sanções ocidentais não morderem mais fundo. 

Mas o alto clericato em Qom já começa a clamar por mecanismos legais que permitam supervisionar – e criticar – o Líder Supremo. Sua resposta – segredo para ninguém, em Teerã – foi mandar instalar escutas clandestinas em todos os locais de estudo e nas casas dos altos clérigos. 

Khamenei sempre rejeitou veementemente qualquer tipo de supervisão que lhe fizesse o Grande Conselho – o corpo que indica o Supremo Líder, monitora seu desempenho e pode destituí-lo. 

Segundo Seyyed Abbas Nabavi, chefe da Organização pela Civilização e pelo Desenvolvimento Islâmicos, Khamenei disse aos especialistas que “não aceito que o Grande Conselho diga ao Supremo Líder que continua qualificado, mas, em seguida questione por que um ou outro funcionário tenha sido encaminhado numa ou noutra direção, ou por que permiti que determinado funcionário [faça certas coisas]”. [7] 

Depois da explosão de indignação em 2009 – quando pela primeira vez o povo exigiu, nas ruas, a queda do Supremo Líder – a revolta prossegue, com iranianos letrados que zombam de Khamenei, apresentado como turrão, invejoso e vingativo, que acalenta ira monstro contra os milhões de iranianos que jamais engoliram o apoio que deu a Ahmadinejad em 2009 (Khamenei sempre chamou aqueles manifestantes de “sediciosos”). 

Por exemplo, até a filha de um aiatolá muito conhecido disse publicamente que Khamenei “tem ódio no coração” contra Rafsanjani e ex-candidatos potenciais à presidência Mir Hossein Mousavi e Mehdi Karoubi “por causa do amor que o Imã [Khomeini] tinha por ele e do apoio que lhes dava e também porque, em comparação a esses três, sobretudo comparados a Hashemi [Rafsanjani] e Mousavi, vê-se claramente que Khamenei é indivíduo de segunda classe”. Khamenei agora está sendo apontado como culpado de tudo, da queda na produção nacional, do aumento da inflação e da corrupção disseminada. 

O que levanta a seguinte questão: e o Corpo dos Guardas Revolucionários Islâmicos? Apoiam o Supremo Líder? 

Para a diáspora iraniana, esse apoio não passa de pura propaganda. O fato é que o Corpo dos Guardas Revolucionários Islâmicos já estaria convertido em conglomerado monstro, com miríades de interesses militares-industriais, econômicos e financeiros. Altos gerentes – e a constelação de empresas que controlam – estão conectados ao etos de antagonizar o ocidente, o mesmo ocidente de cujas sanções eles muito lucram, sem remorso. Assim, para eles, o status quo está perfeitíssimo – apesar do risco diário de que um passo em falso, um acidente ou uma operação encenada levem à guerra. 

Ao mesmo tempo, o IRGC pode contar com o apoio político/estratégico de Rússia e China, dois BRICS – e tem certeza de que o país conseguirá superar o embargo e continuará a vender petróleo, sobretudo a clientes asiáticos. 

Mas o mais substancioso, em termos de dinâmica interna, é o fato de que o creme do IRGC está hoje engajado num tipo de guerra econômica contra os bazaaris – os mercadores persas, tradicionalmente muito conservadores. 

É importante lembrar que esses bazaaris financiaram a chamada Revolução Islâmica “O Caminho do Imã”, em 1979. Eram – e continuam – opositores radicais do colonialismo (especialmente do colonialismo como praticado por britânicos e norte-americanos); mas isso não implica que sejam antiocidente (detalhe que muitos no ocidente ainda não entendem). 

Mas uma vez, como importantes analistas iranianos têm insistido, é preciso lembrar que o motto original da revolução islâmica foi “Nem leste nem oeste”; o que interessava era uma espécie curiosamente budista de ‘trilha média do caminho’– e exatamente essa “trilha média”, o “Caminho do Imã”, garantiria a existência de um Irã que seria islâmico e soberano, e não alinhado. 

Adivinhem quem participava daquela coalizão de vontades chamada “Caminho do Imã”? Exatamente os inimigos de Khamenei (e de Ahmadinejad): Mousavi, Khatami, Karoubi e Rafsanjani, para nem falar de uma facção moderada doIRGC, representada por Mohsen Rezai, ex-comandante do IRGC e ex-candidato à presidência. 

O que a Coalizão “Caminho do Imã” está dizendo, essencialmente, é que Khamenei traiu os princípios da revolução; acusam-no de tentar converter-se numa espécie de califa xiita – e governante absolutista. Essa mensagem está encontrando eco cada dia mais forte entre milhões de iranianos que creem em um estado que seja verdadeiramente “islâmico”, mas, ainda mais, creem num estado que seja verdadeiramente uma “república”. 

O que afinal nos leva ao supremo medo que acossa o Supremo Líder: que uma coalizão de republicanos islâmicos puristas – entre os quais os poderosos clérigos de Qom e os poderosos comandantes e ex-comandantes do IRGC – decidam levantar-se, derrubá-lo e, finalmente, implantar no Irã uma verdadeira república islâmica. 

Seja como for, só uma coisa é certa e não varia: ninguém, em nenhum caso, desistirá do programa nuclear iraniano para finalidades civis. 


Notas dos tradutores

[1] Para uma resenha do livro, ver Small Wars Journal, 20/4/2011, em: “Book Review: The Ayatollah's Democracy: An Iranian Challenge”  (em inglês).


[3] Em inglês, “Expediency Discernment Council of the System”; em persa, مجمع تشخیص مصلحت نظام‎; é uma assembleia administrativa de membros cuja principal competência é indicar o Supremo Líder; foi criado depois da revisão da Constituição da República Islâmica do Irã, dia 6/2/1988. Originalmente, foi criado para dirimir conflitos entre o Majlis e o Conselho de Guardiães. Segundo Hooman Majd, o líder “delegou parte de sua autoridade ao conselho – dando-lhe poderes para supervisionar todos os ramos do governo – depois da eleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, em 2005 . Pode ser traduzido, tentativamente, como Conselho para Discernimento e Administração do Sistema, aqui apenas “Grande Conselho”, para simplificar.


[5] Sobre declarações de Hossein Mousavian, ver também 20/2/2012, “EUA e Irã avançam (devagar) rumo a conversações”, MK Bhadrakumar.

[6] MOUSAVIAN, Hossein. 9/2/2012, “How to engage Iran”, Foreign Affairs

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Coincidência ou guerra suja contra o Irã?


14/11/2011, Kaveh L Afrasiabi, Asia Times Online 
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Teerã – Explosões que deixaram 17 mortos numa base militar a 60 km ao sudoeste de Teerã, que coincidiram com a morte suspeita do filho de um ex-comandante do Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos [ing. Islamic Revolutionary Guards Corps (IRGC) em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, dispararam especulações, no Irã, sobre se os dois eventos estão ou não conectados às recentes ameaças, pelos EUA, de que podem recorrer a execução sumária de altas figuras do IRGC.

O general Hasan Moghaddam, figura chave do programa iraniano de mísseis, morreu, com outros 16 membros do IRGC, no sábado, num prédio militar. Os Guardas Revolucionário disseram que a explosão foi acidental, quando militares transportavam munições. 

IRGC - Iranian Revolutionary Guards Corps (poster)
O Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos elogiou o general Moghaddam, dizendo, em declaração, que não esqueceriam “sua efetiva contribuição para o desenvolvimento das defesas do Irã (...) e seus esforços para implantar e organizar as unidades de artilharia e mísseis do IRGC”, principal eixo do aparelho de defesa e contenção do Irã, segundo notícias semioficiais distribuídas pela agência de notícias Fars. 

Praticamente no mesmo momento, Ahmad Rezai, filho mais moço de Mohsen Rezai, que comandou os Guardas Revolucionários Islâmicos na guerra Irã-Iraque dos anos 1980s, influente conselheiro do aiatolá Khamenei e candidato à presidência nas próximas eleições no Irã, foi encontrado morto num hotel em Dubai, em “condições ainda não esclarecidas”, segundo relatos oficiais. 

“Se mãos sujas de governos estrangeiros forem encontradas em qualquer desses incidentes, o governo iraniano passará a ser fortemente pressionado pela opinião pública para que vingue a morte desses dois mártires” – disse um cientista político da Universidade de Teerã, que pediu para não ser identificado. 

Antes, em resposta às ameaças dos EUA, de que assassinariam líderes iranianos, o general Amir Ali Hajizadeh, também comandante do IRGC, já dissera que os norte-americanos passariam a ser caçados na região, se os EUA realmente fizessem o que ameaçaram fazer. 

A depender do que seja revelado nas investigações que o Irã já iniciou sobre os dois incidentes, há graves possibilidades de que estejamos à beira de uma terrível nova fase nas difíceis relações entre EUA e Irã, com agravamento da instabilidade regional. 

Outro desenvolvimento que preocupa as autoridades iranianas é o recente aumento no número de ataques contra peregrinos iranianos que viajam ao Iraque, principalmente em ataques de beira de estrada contra ônibus de passageiros, como o que ocorreu no domingo, ferindo 13 iranianos, na área de Kadhmiyah, norte de Bagdá. 

Não faltam, no Irã, comentaristas e analistas que conectam entre si todos esses incidentes, como parte do mesmo esforço, pelos EUA, para desestabilizar o Irã, de um modo ou de outro. 

Embora a explosão na base militar tenha acontecido a cerca de 60 km da capital, as ondas de choque sacudiram a capital, o que só fez aumentar a ansiedade, depois das inúmeras ameaças, por Israel, de iminente ação militar contra o país, por conta do programa nuclear iraniano. 

Segundo o jornal Jame Jam, “O primeiro efeito da explosão na opinião pública iraniana foi lembrar as ameaças dos últimos dias, questão muito presente nas conversas de rua, em Teerã”. 

Mapa geopolítico do Irã
O Irã tenta manter estado de normalidade, não de emergência, mas há sinais de preocupação nas ruas de Teerã, Isfahan, Meshed, Tabriz, Shiraz e outras cidades e vilas pelo país, sobretudo entre os mais jovens, que cada vez mais se sentem ameaçados por governos estrangeiros. 

Nas palavras de um analista político, de um dos think-tanks em Teerã, “os inimigos do Irã estão empenhados em guerra psicológica total, agora tentando ferir a economia iraniana. As mais recentes ameaças israelenses provocaram algum pânico (não foi grave) na Bolsa de Valores, e pequena queda do valor do rial [moeda iraniana] contra o dólar norte-americano”. 

Em outras palavras, o Irã está sob ataque de uma guerra econômica, movida, também, pelas ameaças de ataque militar por EUA e Israel. 

Não se sabe por quanto tempo a atual situação poderá ser mantida, sem que se converta em grave crise econômica, problema importante que se liga aos programas nucleares e à diplomacia iraniana, à luz do mais recente relatório divulgado pela Agência Internacional de Energia Atômica da ONU, que acusa o Irã de prosseguir em seus planos para proliferação nuclear – acusação que o Irã rejeita de forma absoluta. 

Mas, apesar de o relatório não ter conseguido induzir novas sanções contra o Irã – a Rússia contestou o relatório, sobretudo o que a AIEA diz do envolvimento de um cientista russo, que comprovadamente nada jamais teve com o programa nuclear iraniano – os vários golpes de guerra suja contra o Irã, na forma de ameaças cada vez mais claras de ataques militares iminentes e a possível ação de grupos de agentes clandestinos, podem forçar o Irã  a adotar uma nova doutrina militar. Nesse caso, o país pode ter de abandonar a posição atual, de postura exclusivamente defensiva, para adotar posição mais ofensiva. 

“Até agora, Teerã tem-se mantido em atitude de máxima autocontenção, mas, se os inimigos continuarem com múltiplas agressões contra o país, acredito que todos veremos aparecer uma nova estratégia militar, de investirá mais no músculo militar, e que não se limitará a reagir às contingências que os inimigos do Irã insistem em criar contra o país” – disse o professor da Universidade de Teerã. 

A morte do jovem Rezai em Dubai está sendo investigada. Se se comprovar que resultou da ação de agentes estrangeiros, o assassinato terá forte impacto na opinião pública no Irã, que exigirá retaliação exemplar contra os assassinos. 

As maiores suspeitas recaem hoje sobre o Mossad israelense, que já se sabe que esteve por trás do assassinato, recentemente, de um líder do Hamás, em Dubai. Alguns analistas especulam que Israel jamais deixou de tentar desestabilizar o Irã, empurrar o país para a radicalização e enfraquecer as vozes moderadas, como a do general Mohsen Rezai, defensor empenhado da descentralização econômica. 

Ao assassinar o filho do general Rezai, provocando “dano colateral”, a intenção dos assassinos poderia ser empurrar os Guardas Revolucionários Iranianos para posição de confronto declarado, o que poderia levar a fuga de investimentos, de capitais etc. 

Evidentemente, até agora, nada permite que se descarte a possibilidade de simples coincidência entre a morte de Rezai (que pode não ter sido resultado de ação de agentes estrangeiros clandestinos) e o que também pode ter sido simples acidente, na explosão na base militar iraniana. Mesmo assim, nada impede que os dois eventos sejam usados como instrumentos para fazer crescer a especulação e os boatos, o que vai tornando cada dia mais difícil o ambiente da guerra psicológica que EUA e Israel movem hoje contra o Irã e enfraquece a posição dos moderados, dentro do Irã. 

Esse ambiente vai-se deteriorando rapidamente, o que tem levado muitos analistas, em Teerã, a prever desenvolvimentos cada dia mais graves e mais indesejáveis.