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sexta-feira, 13 de março de 2015

Só o socialismo protegerá a Venezuela

Contra o “perene mito da social-democracia”

11/3/2015, [*] Chris GilbertCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A satisfação programada, planificada, das necessidades das pessoas mediante passos sólidos na direção do socialismo  é a mais segura proteção com que o governo de Maduro pode contar, sempre que a violência do imperialismo erguer-se contra a Venezuela.



Nicolas Maduro
Caracas – Ao responder à recente Ordem Executiva da Casa Branca que declara a Venezuela ameaça à segurança nacional dos EUA, o presidente Maduro disse, primeiro, que é “declaração Frankenstein”; depois, que é “esquizofrênica”.

Pode até ter cometido alguns insignificantes deslizes “literários” e “psiquiátricos”, mas acertou integralmente na crítica: o documento que Obama assinou É realmente parecido com o monstro que o Dr. Frankestein construiu com pedaços de cadáveres; e, sim, realmente É documento brotado de um governo que padece de uma fissura profunda na “personalidade”.

Verdade é que a política dos EUA, como a de quase todos os governos do norte, é profundamente irracional. Em parte, porque é “combinada” entre vários interesses oligárquicos e grupos monopolistas, o que faz do discurso oficial praticamente só um epifenômeno, coisa superficialíssima. Acontece assim também porque a esfera política segue quadros temporais discordantes, heterogêneos.

O relógio interno da política dos EUA – que pulsa nas entranhas do país – é o relógio da acumulação de capital. As demandas da acumulação de capital, quando irrompem à superfície da política nacional e internacional diária (com sua ração cotidiana de cúpulas, meetings, eleições e atividades legiferantes) produz efeitos estranhíssimos, que desafiam a racionalidade nas arenas mais visíveis para todos.

Considerem o caso das políticas dos EUA para a Venezuela. O panorama político recente desse país foi redefinido, em primeiro lugar, por um governo bolivariano reformador, que optou por um projeto de estilo chinês, para gradualmente diversificar o seu aparelho produtivo; e, em segundo lugar, por uma oposição de direita que (porque ela era infalivelmente consultada sobre reformas do governo) tendia a esperar pacientemente por eleições futuras, nas quais contava com obter sucessos impressionantes.

Repentinamente, tudo isso mudou. Em meses, se não em semanas, o antigo cenário deu lugar a uma situação marcada por disseminada desobediência política do lado da oposição; situação econômica mais grave; informações a cada dia mais alarmistas sobre golpes e golpismos; e, agora, aí está: ação aberta de interferência dos EUA em assuntos internos da Venezuela.

Barack Obama
Por que aconteceu tal coisa? Nenhuma sequência racional de passos na arena interna explicaria por que o governo de Maduro devesse abandonar o projeto de reformas cuidadosamente pensadas e planejadas, ou que a oposição Venezuelana devesse alterar seus planos com vistas a sucessos eleitorais bastante prováveis para o final de 2015 e 2018.

A primeira chave para explicações sérias para tudo isso só será encontrada no plano urdido entre EUA e Arábia Saudita, para derrubar os preços do petróleo – o que aconteceu em novembro passado (2014).

Aquela derrubada dos preços do petróleo foi a voz profunda do capital internacional que então “se pronunciou”, irrompendo como que vinda de lugar-nenhum e em contraponto com os ritmos da política local e visível da Venezuela.

Quando o capital internacional falou, ele pôs abaixo todos os planos locais. Porque (1) o projeto de diversificação econômica lenta e segura em que o governo bolivariano trabalhava; e (2) os passos de tartaruga também lentos e graduais da marcha da oposição venezuelana rumo às próximas eleições – tudo isso (1) e (2) – deixaram repentinamente de ser projetos e passos viáveis.

Novos atores e ações novas, surpreendentes, apareceram de todos os lados. Dentre esses, os vários representantes de um tal “Poder Cidadão” que a oposição nomeou em dezembro; a desobediência extra-parlamentar daquelas figuras; uma misteriosa conspiração da Força Aérea e, agora, as exóticas “declarações” da Casa Branca. São, todos esses, efeitos políticos de superfície, que correspondem aos ritmos da acumulação capitalista. Fato é que a queda orquestrada dos preços do petróleo têm de ser “quitada” já; não no médio prazo, não no longo prazo, mas mais rapidamente.

Os golpistas Leopoldo Lopez, María Corina Machado e Antonio Ledezma
Agora que a surpresa já está aí, o que devem fazer o povo e o governo da Venezuela? Os riscos dessa nova situação são mais que evidentes, mas, pela mesma razão, é preciso assumir desde já que o governo bolivariano errou muito gravemente ao supor que haveria estrada à prova de riscos para o socialismo. E essa “estrada segura” é a fantasia que se vê manifesta no “modelo chinês” de desenvolvimento lento das forças produtivas do país mediante reformas e reformas e reformas.

Esse é o perene mito da social-democracia. É mito. É o mito perpetuamente projetado que se vê nas fantasias de normalidade e gradualismo da operações “lentas, graduais e seguras” [1] do capitalismo.

É mito que o próprio capitalismo encarrega-se de desmascarar, sempre que, periodicamente, o capitalismo assume alguma modalidade fascista.

E então? Será que com a “normalidade” legalista já lançada contra os rochedos e espatifada, não será hora de a Venezuela tentar outra via?

O fato de Maduro brandir a Constituição da Venezuela como se fosse um talismã, ao mesmo tempo em que pede ao Congresso poderes excepcionais mostra que também ele já foi apanhado entre duas opções.

Seja como for, para o movimento bolivariano socialista como um todo, já é claro que a saída está entre os poderes excepcionais: o caminho certo é Maduro declarar Estado de Exceção.

Afinal, o mais real dos estados de exceção é e sempre será o socialismo: a negação dos mecanismos e relógios e timings automáticos do capitalismo, para favorecer um projeto de construção humanamente planejado.

MONSTRO IMPERIALISTA
Não implica nem expulsar o monstro imperialista para o Polo Norte, nem ignorá-lo como se não existisse. Implica, isso sim, organizar a marcha pela batida de um único bumbo-mestre.

O ritmo desse bumbo-mestre quem lhe dá são as necessidades das pessoas.

A satisfação programada, planificada, das necessidades das pessoas – mediante passos sólidos na direção do socialismo – é a mais segura proteção com que o governo de Maduro pode contar, sempre que a violência do imperialismo erguer-se contra a Venezuela.
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Nota dos tradutores
[1] A expressão circulou no Brasil dos anos finais da ditadura militar, com Geisel e sua abertura lenta, gradual e segura, que, sim, era também movimento dos intestinos do capital.

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[*] Chris Gilbert é professor de Ciência Política na Universidade Bolivariana da Venezuela. Ministra cursos sobre política dos EUA, religião e organizou a pesquisa sobre 1ª. parte do Projeto Manhattan. É autor e co-autor de diversos livros. Foi Diretor do Departamento de Arte Contemporânea do Baltimore Museum e posteriormente do Berkeley Art Museum, Califórnia. Recebeu seu diploma de bacharel em 1986 no Moravian College, cidade Bethlehem, Pensilvânia, e seu Ph.D. na Universidade de Washington em St. Louis, em 1990. Sua tese de doutorado de doutorado incluiu ambientes religiosos e atores políticos tendo recebido o Award 1991 Schattschneider da American Political Science Association, dissertação que destacou-se no estudo do governo dos EUA. Publica artigos e ensaios em diversos sites e blogs entre os quais o Counterpunch.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Venezuela: Obama solta o Reagan que vive nele


Como inventar uma “Extraordinária Ameaça à Segurança Nacional”

11/3/2015, [*] Mark Weisbrot, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama em 9/3/2015
2ª-feira (9/3/2015), a Casa Branca deu mais um passo rumo ao teatro do absurdo, ao declarar “emergência nacional com respeito à inusual e extraordinária ameaça à segurança nacional e à política exterior dos EUA que se manifesta na situação na Venezuela” – como o presidente Obama escreveu em carta que enviou ao presidente do Congresso, John Boehner.

Falta ver se alguém, do valente corpo de jornalistas que cobre a Casa Branca, terá coragem de perguntar o quê, afinal, diabos, o chefe do executivo da nação mais poderosa do universo pensou que estivesse dizendo na tal carta. O quê?! Estará a Venezuela financiando iminente ataque de terroristas contra o território dos EUA? Planeja invadir território norte-americano? Está construindo bomba atômica?

A quem essa gente pensa que engana? Alguns alegaram que o linguajar tinha de ser esse, porque é o que a lei dos EUA exige, para impor a mais recente rodada de sanções contra a Venezuela. Mas não melhora coisa alguma alegar, como se fosse defesa, que a lei norte-americana é negócio em cujo processo de manipular e fraudar o presidente pode dizer mentiras à vontade, para contornar o que não queira confessar.

Foi precisamente o que fez o presidente Ronald Reagan em 1985, quando fez declaração semelhante para impor sanções – inclusive um embargo econômico – contra a Nicarágua.

Como Obama em 2015, Reagan também tentava derrubar governo eleito que não agradava a Washington. Conseguiu usar violência paramilitar e terrorista, além de um embargo, no esforço bem-sucedido para destruir a economia da Nicarágua e, afinal, derrubar o governo do país. (Em 2007, os sandinistas voltaram ao poder e são hoje o partido governante.) O mundo andou adiante. Washington, não.

A Venezuela hoje conta com o forte apoio dos países vizinhos contra o que praticamente todos os governos na América Latina veem como tentativa do governo Obama para desestabilizar o país.

“A Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribe (CELAC) reitera seu forte repúdio à aplicação de medidas unilaterais coercitivas que violentam a lei internacional” – como se lia na declaração assinada por todos os países do hemisfério, exceto EUA e Canadá, dia 11/2/2015. Respondiam às sanções que os EUA haviam imposto à Venezuela, sancionadas por Obama em dezembro passado (2014).

Alguém leu alguma coisa sobre isso na imprensa-empresa em língua inglesa? Então, você provavelmente não leu tampouco sobre a imediata reação ao golpe da Casa Branca, ontem, do Presidente da União de Nações Sul-Americanas:

A UNASUL rejeita qualquer tentativa externa ou interna de interferência que busque qualquer violência contra o processo democrático na Venezuela.

Washington já esteve envolvida na tentativa de golpe militar, rapidamente derrotada em 2002, na Venezuela; deu “treinamento, construção de instituição e outros apoios a indivíduos e organizações que se sabia que estavam ativamente envolvidos no golpe” contra o presidente Hugo Chávez (golpe que durou apenas algumas horas) – segundo o Departamento de Estado dos EUA

Brasil - Golpe MILICANALHA  de 1964
Os EUA não mudaram sua política para a Venezuela depois daquilo e continuaram a financiar grupos de oposição naquele país. Assim sendo, nada mais normal do que todos que conheçam essa história recente e conheçam o conflito entre EUA e América Latina também no golpe militar de 2009 em Honduras, sabendo agora das atuais sanções contra a Venezuela, imediatamente concluam que, sim, Washington está novamente envolvida em golpismos para derrubar governo democraticamente eleito que está na mira dos EUA, para ‘mudança de regime’, já há mais de uma década.

O governo da Venezuela já exibiu provas perfeitamente aceitáveis de que há um golpe em marcha no país: a gravação de um ex-Vice-Ministro do Interior lendo o que obviamente é um comunicado a ser lançado depois que (se) os militares derrubarem o atual governo; confissões de oficiais militares acusados; e uma conversa telefônica gravada  entre chefes da oposição que admitem que há um golpe em preparação.

Independente de que se considerem suficientes essas provas (a imprensa-empresa norte-americana não noticiou praticamente coisa alguma), não surpreende que os governos regionais tenham-se dado por convencidos.  Praticamente há 15 anos, sem interrupção, veem-se esforços para derrubar o governo democraticamente eleito da Venezuela. Por que seria diferente agora, quando a economia está em recessão e houve tentativa para derrubar o governo venezuelano ainda no ano passado?

Aliás... alguém alguma vez ouviu falar de tentativa de golpe para derrubar governo democrático, independente e progressista na América Latina, na qual Washington não estivesse metida? Pergunto, porque eu, nunca.

A grande imprensa-empresa norte-americana e internacional fez grande alarde em torno do começo da normalização de relações entre EUA e Cuba. Mas entre os governos latino-americanos, qualquer traço de credibilidade que aquele movimento do governo de Obama talvez tivesse, acaba de ser radicalmente desmentido pela violenta agressão contra a Venezuela.

Duvido que alguém encontre um presidente, presidenta, Ministro ou Ministra de Relações Exteriores na região, que acredite que as sanções impostas à Venezuela teriam algo a ver com direitos humanos ou democracia. Absolutamente não têm.

Considerem por exemplo o México, onde trabalhadores de direitos humanos e jornalistas são regularmente assassinados ; ou a Colômbia, estado líder há anos no número de sindicalistas assassinados. Nada sequer comparável a esses pesadelos de violação a direitos humanos jamais aconteceu na Venezuela em 16 anos de governos do presidente Chávez e do presidente Nicolás Maduro. E apesar disso México e Colômbia são os principais recebedores de ajuda dos EUA na região, incluindo financiamento para militares e policiais e para comprar armas.

Obama deportou 2.000.000 de latino-americanos
governo Obama está mais isolado hoje, na América Latina que, até, o governo de George W. Bush. Por causa da ravina profunda que separa a grande imprensa-empresa internacional e o pensamento de governos regionais, nada disso é óbvio para os que não sejam dedicados estudiosos das relações hemisféricas.

Veja-se, por exemplo, quem são os autores da legislação que impôs sanções contra a Venezuela, em dezembro: os Senadores Robert Menendez (que está prestes a ser indiciado criminalmente por corrupção ativa de funcionário público) e o Republicano da Flórida, Marco Rubio, ambos ardentes defensores do embargo contra Cuba. Pois e o governo Obama anunciou, com orgulho – e sem vergonha – que as novas sanções “vão além do que essa legislação exige”.

Washington mostra, frente à América Latina, a face do extremismo. Apesar de algumas mudanças em algumas áreas da política exterior (por exemplo, a abertura de Obama em relação ao Irã), a face do extremismo norte-americano não mudou em nada, desde os dias em que Reagan “alertava” o país de que os sandinistas nicaraguenses estavam a apenas dois dias de viagem, de carro, de Harlingen, Texas. Foi ridicularizado por Garry Trudeau em “Doonesbury” e por outros chargistas.

A Casa Branca de Obama, Regan redux, merece o mesmo tratamento.
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[*] Mark Weisbrot é um economista americano, colunista e co-diretor, com Dean Baker, do Centro para Pesquisas Econômicas e de Políticas Públicas (Center for Economic and Policy Research - CEPR) em Washington. Como comentarista, ele contribui em publicações como The New York Times, The Guardian e a Folha de S. Paulo.
Como economista, Weisbrot criticou a privatização do sistema norte-americano de seguridade social e foi um grande crítico da globalização e do FMI. Os trabalhos de Weisbrot a respeito dos países latino-americanos (incluindo Argentina, Bolívia, Brasil, Equador e Venezuela) atraíram interesse nacional e internacional, e em 2008 ele foi mencionado pelo ex-Ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim.