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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

EUA: A economia do militarismo policial

15/8/2014, [*] Sarah StillmanThe New Yorker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Militarização das Polícias Civis
Duas batalhas cruciais eclodiram em Ferguson, Missouri, essa semana. A primeira começou com a onda de tristeza e fúria popular, depois que um jovem de 18 anos, Michael Brown, foi morto por um policial em Canfield Court, no subúrbio de St. Louis, às 14h15, sábado passado (9/8/2014). Depois, começou a ação dos policiais nas primeiras rodadas de manifestações públicas. Os policiais saíram às ruas com uma frota de blindados, rifles de ataque, bombas de gás lacrimogêneo, o que reintroduziu na consciência coletiva a expressão “militarização da polícia civil” (como já se devia esperar; quem duvide, deve ler ou reler The Rise of the Warrior Cop [A ascensão do policial guerreiro], de Radley Balko.

Num momento, vê-se um jovem com uma marca de tiro de bala de borracha entre os olhos; momento seguinte, três policiais com armas enormes atiram contra outro homem negro, que tem as mãos erguidas.

Jelani Cobb
Na 5ª-feira (14/8/2014), Jelani Cobb publicou  potente relato  do que se via nas calçadas e lares, em Ferguson. Cobb perguntava sobre

(...) as questões econômicas e de aplicação da lei interconectadas naqueles protestos,  entre as quais, por exemplo, as custas processuais e multas que muita gente em Ferguson tem de pagar, e que com frequência começam por infrações menores até que se convertem “elas mesmas, em violações sempre crescentes.

Temos gente aqui que é procurada por causa de multas de trânsito, obrigada a viver praticamente como prisioneiro dentro da própria casaNão podem sair de casa, porque serão presos por causa daquelas dívidas. Em alguns casos, as pessoas até tinham empregos, mas decidiram que o risco de serem presos não compensava a tentativa de sair de casa para o trabalho, disse a Cobb, Malik Ahmed, presidente de uma organização chamada “Better Family Life” [Melhor Vida Familiar].

A crise das dívidas com a justiça criminal é um dos muitos afluentes que alimentaram o rio caudaloso da fúria profunda que tomou conta de Ferguson. Mas é afluente importante – tanto porque é problema que se vê em todos os cantos da região, como, também, porque é problema que facilmente desaparece de cena ante o espetáculo-gigante dos tanques e canhões giratórios. No início desse ano, passei seis meses acompanhando o crescimento do valor de custas e multas nos tribunais nos EUA, que acontece pela proliferação de taxas e multas aplicadas a quaisquer pequenas infrações – e que é parte de um movimento crescente na direção do que tenho chamado de “indústria da justiça custeada pelo infrator”. [1] Empresas privadas de cobrança são contratadas, em alguns estados, para cobrar multas não pagas. (Na maioria dos casos, é tática usada contra os mais pobres, que tenham multas de tráfego não quitadas). As reportagens que estão chegando de Ferguson levantam questões sobre como a militarização da polícia e a coerção econômica pelos órgãos da justiça, alimentaram fúria que, hoje, já é difícil de controlar.

O Missouri foi dos primeiros estados a permitir a ação de empresas privadas de cobrança, no final dos anos 1980s, e desde então seguiu a tendência nacional de permitir que custas processuais e multas cresçam muito rapidamente. Agora, em grande parte dos EUA, o que começa como simples multa por excesso de velocidade pode, se você não conseguir pagar, converter-se numa dívida impagável, que não para de crescer, aumentada, se você não comparecer ao tribunal, por taxas de busca e prisão. (Não raras vezes, o não pagamento acontece não só por falta de meios mas também porque o devedor já não vive no endereço para onde a notificação é enviada, e não a recebe).

Alec Karakatsanis
O que mais se vê nos EUA é gente empobrecida, rotineiramente mandada para a cadeia por custas, impostos, taxas ou multas que não conseguempagar – disse Alec Karakatsanis, cofundador de “Equal Justice Under Law”, organização sem finalidades lucrativas de defesa de direitos civis, que começou a denunciar essa prática em cortes municipais.

São multas que crescem como bola de neve quando as multas não pagas são entregues, para cobrança, a empresas privadas, porque essas empresas acrescentam suas próprias taxas “de supervisão”. O que acontece em muitos bairros pobres dos EUA, quando alguém atrasa seus pagamentos? Muito frequentemente, a polícia bate à porta e leva o devedor para a prisão.

Daí em diante, a bola de neve só cresce.

Ser preso tem impacto muito grave na vida de pessoas que já estão à beira da pobreza. Já perderam o emprego, já perderam a guarda dos filhos, estão atrasados no pagamento da hipoteca da própria casa. – diz Sara Zampieren, do Southern Poverty Law Center.

Tudo isso somado, o efeito é “devastador”. Enquanto permanecem na prisão, as “multas de usuários” só se acumulam. De tal modo que quando você sai da cadeia, nem por isso está livre. Recente pesquisa feita pela National Public Radio mostrou que pelo menos em 43 estados dos EUA os réus podem ser cobrados pelo trabalho do Defensor Público – um serviço ao qual todos os norte-americanos têm direito garantido pela Constituição; e em pelo menos 41 estados nos EUA, os prisioneiros podem ser cobrados por “casa e comida” durante o tempo que permaneçam em detenção e prisão.

Agora, as polícias militarizadas dos EUA têm ferramentas muito visíveis à disposição delas; várias dessas ferramentas estiveram nas manchetes essa semana: metralhadoras, óculos para visão noturna, veículos blindados e, ao que parece, quantidade ilimitada de munição.

Mas essa arma econômica da militarização policial é quase sempre muito menos visível, e a “justiça custeada pelo infrator” é parte desse subarsenal. Os medos dos quais Cobb e Ahmed falam – dívidas cobradas por tribunais e polícias, e gente que, por causa dessas dívidas tem medo de sair de dentro de casa – são ingredientes da força que se viu ativada nos protestos e tumultos das ruas do Missouri.

PRISÃO - por Casey Serin
O medo dos devedores altera toda a vida diária – será que conseguem ir à padaria ou levar uma criança à escola, sem serem presos?

Esse medo impede as pessoas que tenham problemas, de chamar a polícia, e tira da polícia a capacidade para fazer o que se espera que policiais façam – ajudar as pessoas nas comunidades a responder a emergências – disse Karakatsanis.

É situação que corrói a confiança das comunidades e mata qualquer possibilidade de cooperação entre os agentes da lei e a própria comunidade.

No Alabama, “Equal Justice Under Law” impetrou ação conjunta contra a cidade de Montgomery, em nome de pequenos infratores que foram encarcerados por dívida; a ação está suspensa, e a cidade refutou as acusações, mas, diz Karakatsanis, pelo menos 35 pessoas foram libertadas da prisão, onde estavam por dívidas, desde o início da ação. (Um juiz já emitiu sentença preliminar a favor dos devedores). Mais frequentemente porém, os devedores que levam o problema aos tribunais não obtêm qualquer tipo de resultado favorável. Muitas vezes, essas dificuldades só fazem aumentar o ressentimento dos cidadãos e a desconfiança geral em relação a qualquer autoridade “pública”.

Há muitos anos, quando estava integrada às tropas em Kandahar, Afeganistão, passei muitas horas com uma unidade cuja tarefa era aplicar um conjunto de treinamentos chamados “Commander’s Guide to Money as a Weapons System” [Diretivas do Comando sobre Dinheiro como Sistema de Armamento]. Esse treinamento instrui os soldados a usar ferramentas econômicas para promover objetivos militares, e havia um alerta impresso nas páginas iniciais de um dos manuais que eles usavam:

Soldados combatentes e seus comandos devem cuidar para que suas ações sejam defensáveis ante Comissões de Inquérito do Congresso e não gerem problemas para o Departamento de Defesa.

EUA - mais prisões que escolas
Quanto a isso, o militarismo “real” tem pelo menos uma vantagem sobre o militarismo policial doméstico, pelo menos no plano doutrinal – entre militares “reais” o princípio é investimento genuíno nas comunidades, cuja confiança os militares esperam conquistar, para influenciar. Não surpreende que seja “teoria” sempre complicada de aplicar (que muito frequentemente falhou horrivelmente), mas, pelo menos em teoria, é de longe muito melhor que policiais ou militares abrindo caminho à bala em áreas civis. Nos EUA, dentro de casa, as equipes SWAT continuam a detonar as proverbiais linhas de força.

É sinal de esperança que o novo comandante de polícia de Ferguson, Capitão Ron Johnson, da Patrulha Rodoviária Estadual do Missouri (criado em Ferguson), pareça ter imediatamente entendido essa questão, ao assumir o cargo na 5ª-feira (14/8/2014).

Todos queremos justiça. Todos queremos respostas – disse ele à Associated Press − é pessoalmente importante para mim conseguirmos romper esse ciclo de violência.

Ao considerar a militarização da polícia, o lado econômico do fenômeno deve também ser considerado. A conexão pode não ser óbvia para quem jamais teve cortado o fornecimento de gás ou de energia elétrica da própria casa. Mas essas forças operam juntas – o gás cortado e as multas não pagas; o armamento e as intimações para “pagamento imediato” – o que agride lista imensa de direitos fundamentais que parecem, como em Ferguson e em outros locais, já terem virado fumaça.


[*] Sarah Stillman é jornalista da equipe da revista The New Yorker e professora visitante no Arthur L. Carter Journalism Institute da New York University. Escreve sobre os mais diversos temas tais como: confisco civil sobre obras irregulares, uso de drones por cartéis de drogas do México, direitos trabalhistas para trabalhadores de Bangladesh.
Recebeu o National Magazine Award for Public Interest por suas reportagens no Iraque e no Afeganistão sobre abusos de trabalho e tráfico de seres humanos em bases militares dos Estados Unidos.
Recebeu também os prêmios (awards): Michael Kelly, o Overseas Press Club’s, o Laurie Dine para Direitos Humanos, Direitos de Informação e o Hillman Prize  da Magazine Journalism. Sua repotagem sobre o alto risco do uso de jovens como informantes confidenciais na guerra contra as drogas recebeu o George Polk Award e o Molly National Journalism Prize.
Antes de ingressar na The New Yorker, Stillman escreveu sobre as guerras dos EUA no exterior e os desafios enfrentados pelos soldados na volta para casa no Washington Post, The Nation, New RepublicSlate e The Atlantic. Seus trabalhos estão incluídos no The Best American Magazine Writing 2012.


Nota dos tradutores
[1] 24/6/2014, The Leonard Lopate Show (rádio) em Profiting from Offenders When They Get Out of Jail (excerto traduzido) a seguir:

Alguns comparam o sistema de hoje à “justiça custeada pelo infrator” do tempo da prisão por dívidas do século XIX. Falei com vários advogados que disseram que se o contexto fosse um pouco diferente – se fossem empresas de cartões de crédito que estivessem perseguindo os devedores – com certeza estaríamos num quadro de prisão por dívidas e absolutamente inconstitucional. Mas o que temos é que são os próprios tribunais que obram para extrair cada vez mais dinheiro dos condenados. Assim, a prática conseguiu prosperar.

sábado, 19 de novembro de 2011

Pacificação ou militarização?


Novamente, os tanques tomaram as ruas cariocas, junto com as tropas armadas até os dentes, os helicópteros, e todo um cenário que tanto agrada à Rede Globo, e aos imbecis que não sabem onde termina a novela e começa sua própria vida. Agora, foi a Rocinha a comunidade invadida…
Num momento como esse, é preciso denunciar novamente que as “ocupações” dos morros pelos militares e policiais não têm nada a ver com o combate ao tráfico (de drogas e de armas) ou ao “crime organizado”, e sim com uma reorganização dessas atividades tão lucrativas. Além disso, passam pela reorganização da própria cidade, sempre pautada pela especulação imobiliária e pelo interesse dos grandes grupos econômicos, e nunca pelos interesses da população pobre.
Mas, como de costume, nesse tipo de situação acontece uma mágica; os governantes e a grande mídia transformam invasão em “ocupação; militarização em “pacificação”; já o terror é chamado de “ordem”; o medo vira “respeito”; a especulação imobiliária passa a ser “interesse social”, e por aí vai.
Todo mundo sabe que a maior parte do dinheiro que o tráfico movimenta não fica na quebrada, mas sim no bolso dos grandes empresários, banqueiros, políticos, juízes, etc., pelo mundo afora. Outra parte importante vai para a polícia. Não é à toa que as milícias, que aterrorizam várias quebradas cariocas, e estão se expandindo cada vez mais (não só na cidade do Rio de Janeiro, mas em vários estados do Brasil) são formadas principalmente por  policiais, na ativa ou não, cada uma ligada a vereadores, deputados estaduais, federais, juízes, membros da Prefeitura, do Governo estadual, etc. E essas milícias estão envolvidas não somente com a extorsão, mas com o tráfico de drogas e de armas.
O verdadeiro crime organizado tá na direção do Estado e das grandes empresas. E os que fazem a tal “política de segurança” são os mesmos que lucram com as chamadas atividades criminosas. 
Haja hipocrisia…
Enviado por Rede Extremo Sul


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A volta do cipó de aroeira

O anunciado colapso do mercado de títulos do Tesouro dos EUA, previsto para ocorrer no segundo semestre, lança mais que sombras, lança rolos de cinzas sobre as perspectivas de futuro imediato para todo o mundo.

A hoje superada solidez econômico-financeira dos EUA, que lhes permitiu tornarem-se a maior economia do planeta, foi alicerçada, entre outros, sobre três pilares: a liderança da produção e da inovação industrial, o dólar como divisa mundial de reserva necessária a operações externas como a compra de petróleo, e os títulos do Tesouro, entesourados pelos bancos centrais e comerciais e por investidores de porte. Papel para comprar bens e serviços: o melhor negócio do mundo desde que um papa passou a vender indulgências plenárias aos aspirantes ao céu católico.

Mas, de uma posição de detentor de 52% da economia mundial após a Segunda Guerra, hoje os EUA respondem por cerca de 20% do PIB mundial, sua produção industrial chega apenas a pouco mais de 10% do seu PIB, e vêem alguns de seus grandes parceiros, quase todos da Europa (Reino Unido, Itália, etc.), naufragar em crises sistêmicas que ameaçam até mesmo construções políticas fundamentais como a União Européia, e o Japão imergir em catástrofes e problemas que o imobilizam. As três crises, do dólar, dos títulos do Tesouro e dos déficits, somadas à ausência de leis do território de ninguém em que operam bancos que mais parecem grupos de crime, asfixiam a economia dos EUA progressivamente.

Além disso, a época assiste à emergência de novos poderes globais em acelerado desenvolvimento, como os nucleares China e Índia, que contam com territórios e vastas populações essenciais para alavancar sua projeção internacional; e de atores menores, mas pródigos em território, fontes de energia e ambientes especiais ricos e diversos, como a nuclear Rússia, e em território, fontes variadas de energia, terras agricultáveis, sol, biodiversidade, recursos minerais, paraísos tropicais de serviços e turismo, muita água e florestas, etc., como o Brasil. Outros países, como África do Sul, México, Coréia do Sul, Turquia, etc., aportam também com expressão no cenário internacional. Prevê-se que a China torne-se a maior economia do planeta entre 2025 e 2030.

As diferenças entre a América Latina das décadas de 1960-70 e a de hoje revela o vasto grau de mudanças em ebulição no mundo contemporâneo. Após ter sido tomada por um colar de ditaduras militares assassinas e repressoras, no contexto da Guerra Fria, apoiadas e/ou instaladas pelos EUA, a emergência e consolidação de novas forças sociais e o enfraquecimento da ação do império possibilitaram o panorama atual, em que as populações de países como Brasil, Argentina, Venezuela, Bolívia, Equador, Uruguai, Peru e outros elegem governos voltados à promoção da ascensão social e econômica das camadas mais pobres e ao exercício dos direitos civis.

A solução militar

A recomposição geopolítica derivada desses macrofenômenos tem levado o império – que vive hoje a braços com a maior recessão desde mais de um século, desemprego crônico (há 40 anos não há aumento real para os salários), concentração de renda e aumento da desigualdade social, além da perda de vitalidade econômica –, cada vez mais, a uma posição em que sua única arma são exatamente as armas e seu poderio militar montado sobre o chamado “império de bases”, mais de 1,5 mil instalações (contadas as de Iraque e Afeganistão) em mais de 70 países.

Com orçamento militar maior que a soma de todos os dos outros países reunidos (levados em conta os gastos militares paralelos de vários órgãos associados); indústria de armamentos imbricada com entidades e interesses financeiros, políticos e militares; a conhecida “porta giratória” de lideranças que transitam entre universidades, think tanks, corporações e as estruturas militar e civil de governo; e a constituição de vastíssimas redes de paramilitares, de mercenários, de vigilância e repressão, de controle interno e de assassinatos extrajudiciais; só restou ao império o lucrativo empreendimento das guerras ininterruptas. A rede de assassinatos extrajudiciais, ampliada por BHObama, emprega hoje mais de 60 mil das chamadas “forças especiais”, que operam em cerca de 75 países.

O poder imperial

Mas mesmo esse ambiente de destruição, rapina e conquista, que hoje se espraia por Iraque, Afeganistão, Paquistão, Yemen, Líbia, Somália, Sudão, Colômbia, Costa do Marfim e outros, e desborda para intervenções em regiões como o Oriente Médio, o Sul da Ásia e a Ásia Central, além de desvendar os reais interesses geopolíticos do império, tem contribuído, não para o sucesso, mas para a progressiva ruína imperial. Antes arautos da “democracia” e da “liberdade”, os EUA são o maior poder repressor, torturador e assassino da história contemporânea. Em realidade, o poder real nos EUA acha-se longe de políticos e outros agentes secundários, mas é exercido pelo chamado “Estado Profundo” (Deep State). E conta com agentes de primeira linha, acima dos mecanismos políticos, como o polêmico Bilderberg Group.

É atribuído aos mentores de Osama Bin Laden o pensamento de a melhor estratégia para derrotar o império ser o fomento de muitas guerras assimétricas, em que terroristas, guerrilheiros e forças esparsas atuam contra exércitos pesados e estabelecidos. O objetivo desses mentores vem se realizando com precisão matemática: o império acha-se afundado em déficits crônicos e gigantescos, que tornam as finanças dos EUA caso centenas de vezes mais grave que, por exemplo, o das da Grécia. Repete-se o ocaso do último império desaparecido, o soviético, que encontrou seu fim no Afeganistão, e dissolveu-se logo após a retirada das tropas invasoras derrotadas.

Uma rede de imprensa corporativa concentrada em poucas mãos, dócil e parcial, dedica-se à compra de “corações e mentes” para apoio a essa avalanche de conquista. A dependência do país das fontes de energia do Oriente Médio favoreceu suas alianças com as mais odiosas e longevas ditaduras do planeta, outro campo em que o despertar dos povos árabes coloca sob ameaça as práticas imperiais.

Mas os resultados concretos, se geram lucros fáceis a corporações industriais e de segurança e bancos e rendem empregos régios à elite política e militar, também mostram, no médio prazo, a falência de uma orientação que termina sempre por voltar-se contra seus autores. A vergonhosa retirada do Sudeste asiático e do Vietnã foi apenas um dos véus que se levantaram e vêm sendo levantados, e que expõem, numa palavra sintética, a derrota do império em seu campo de excelência, a guerra.

Derrotas no Irã

Após depor em 1953 o nacionalista iraniano Mohammad Mossadegh,que havia retirado o petróleo&gás das mãos dos britânicos e orientado a aplicação de suas riquezas ao país, os EUA e aliados empossaram e armaram o xá (rei) Reza Pahlevi, para opor-se aos soviéticos em plano internacional e aos insurgentes internos comunistas, anarquistas, republicanos e de muitas outras correntes. A revolução islâmica do aiatolá Ruhollah Khomeini em 1979 herdou o Irã armado e projetou um radical inimigo dos EUA-OTAN com apoio da população, exausta de ser oprimida e assassinada pela polícia política do xá, a sem limites de crueldade Savak. Khomeini comandou a queda do xá de Paris, do exílio, o que mostra o alcance de sua liderança e também da insatisfação geral no país.

De 1980 em diante, armado com armas convencionais e químicas por soviéticos (em reação ao assassinato de partidários comunistas por Khomeini), estadunidenses e britânicos, esses incondicionais e eternos aliados do império (as posições das potências foram fluidas e cambiantes), o ditador do Iraque Saddam Hussein empreendeu guerra contra o Irã dos aiatolás, que durou até 1988 e deixou mais de 1 milhão de mortos.

Batata quente, o Iraque de Saddam tornou-se alvo do império três anos depois, com a primeira guerra de Bush pai contra o país após a invasão do Kuwait, anteriormente ‘posse’ iraquiana numa região em que os territórios e as fronteiras de países e divisas de dezenas de etnias são estabelecidos nos mapas ao sabor das decisões dos poderosos do momento. O amigo de antes havia se transformado na grande ameaça ao equilíbrio precário do conflagrado Oriente Médio. Em 2003, o filhote de Bush “terminou o serviço” e, logo após, enforcou Saddam, antes que a batata pudesse falar e queimar a boca. Com isso, os EUA herdaram mais uma gigantesca derrota, na qual ainda se acham mergulhados com mais de 50 mil tropas, sem poderem sair e com perdas maiores se ficarem.

Derrotas no Afeganistão

Com base em interesses nunca confessados, já que todas as 16 agências de Inteligência do país declararam-se “surpreendidas”, Bush filhote acusou, 1 hora após a segunda explosão, Osama Bin Laden e a Al Qaeda pelos atentados false flag de setembro de 2001 e, logo após, invadiu o Afeganistão, em nome de terminar com o “apoio” do Taleban ao agora ‘inimigo número 1. Ao mesmo tempo, fez o Congresso, em estado de choque, aprovar a legislação mais fascista da história do país, o Patriot Act, que estabeleceu o controle total sobre os cidadãos, rasgou a Constituição, criou o aparato nazista da Homeland Security (orçamento de 65 bilhões de dólares) e acelerou a militarização das polícias e de outros organismos, como a FEMA, antes dedicada a ações de emergência em catástrofes e, a partir daí, também a ações contra “multidões e emergências sociais”.

Dez anos depois, acham-se atolados de novo, e perdem a guerra assimétrica com 100 mil tropas próprias mais 50 mil tropas da subserviente OTAN mais cerca de 100 mil tropas paramilitares e mercenárias, cujos agentes ganham cerca de dez vezes mais que os soldados regulares e são pagos pelos Departamentos de Defesa e de Estado e pelos contratistas, que ganham dezenas de vezes mais que todos juntos. As guerras do império são hoje um conjunto de atividades terceirizadas; sem dúvida, o maior negócio do século.

As estratégias obedecem, não a análises de Inteligência ou a critérios de planejamento de especialistas, mas, antes, a caminhos que podem render mais e mais dinheiros e lucros com juros. O hoje chefe do Departamento de Defesa e do Pentágono, Leon Panetta, saiu da direção da CIA, e o hoje chefe da CIA, general Petraeus, saiu do comando do Centcom, um dos seis braços militares do Pentágono que gere as guerras no Oriente Médio e Ásia Central. Apregoa “sucesso” com suas estratégias de aumento de tropas, assinadas sem chance de mudança pelo refém-presidente BHObama. Os números clamam pela verdade: ataques do inimigo aumentaram mais de 50%, e nunca morreram tantos soldados loiros de toda forma e feição e procedência. O Afeganistão confirma sua milenar marca histórica como “túmulo de impérios”. Mais uma derrota à vista para o acervo imperial.

As operações no Afeganistão contra os invasores soviéticos desde as origens foram realizadas com apoio do Paquistão e de seu serviço de Inteligência, ISI – Inter-Services Intelligence, sob batuta do MI6 e da CIA, cada vez mais uma subsidiária do Pentágono. Um dos primeiros combatentes, milionário e chefe de grupos treinados e armados para luta contra os soviéticos, era o saudita Osama Bin Laden, da mesma nacionalidade da maioria dos acusados pelos atentados de 2001. Osama Bin Laden organizou mais tarde uma rede de combate aos interesses dos aliados e de todos os “infiéis”, configurando mais uma derrota para o império.

Chalmers Johnson

O recém-falecido analista militar e ex-oficial da Marinha Chalmers Johnson cunhou algumas expressões para esses eventos. A mais conhecida é “império de bases”, traço fundador do atual império em definhamento. Outra é “blowback”, algo como ‘choque pra trás’, ou tiro pela culatra, que foca os resultados indesejáveis das ações guerreiras do império. O persistente e contínuo crescimento dos movimentos terroristas e de grupos armados em oposição às ações imperiais é claramente uma demonstração dos equívocos das políticas de guerra e de extermínio levadas à frente pelos sucessivos governos, sempre iguais entre si, que se alternam no poder nos EUA.

O ex-chefe do Centro de Contraterrorismo da CIA em 2005-2006, Robert Grenier, esclarece a questão do blowback de forma clara ao afirmar: “... não é só a questão dos números de militantes que estão operando naquela área [Af-Pak], também pesa a motivação daqueles militantes... Eles se vêem agora como parte de uma ‘guerra santa’ (jihad) global. Eles não estão apenas focados em ajudar muçulmanos oprimidos na Cachemira ou tentando ajudar a combater a OTAN e os estadunidenses no Afeganistão, eles se vêem como parte de uma guerra global, e assim são uma ameaça muito maior do que eram antes. Assim, de certa forma, nós colaboramos para criar a situação que mais temíamos”.

Paquistão, amigo inimigo

Dois exemplos recentes fecham a questão de modo definitivo. Os aliados transformaram o Paquistão em país nuclear e basearam sua guerra afegã na colaboração paquistanesa. A questão é que o atual inimigo Taleban é oriundo dos mais de 20 milhões da etnia pashtun, que vivem há milênios em terras próprias que os britânicos separaram em 1893 com a Linha Durand, consagrada com a separação entre Índia e Paquistão em 1947. A linha separa hoje Afeganistão e Paquistão. Perante o crescimento do Taleban e de forças menores que o apóiam, fez-se necessário ampliar a guerra aos territórios pashtun do Paquistão. Na novilíngua pentagonal, a guerra passou a ser referenciada como Af-Pak. O Paquistão deixou de ser aliado e passou a ser parte do problema.

Diariamente aviões sem pilotos, os “drones”, bombardeiam aldeias e vilas nos dois lados da linha. Os drones são comandados a partir de uma base militar nos EUA, e representam a tendência mais forte da guerra hoje. O problema é que as informações de orientação nem sempre são fidedignas. Assim, as vítimas dos bombardeios são sempre na maioria civis, famílias inteiras muitas vezes. Mais de 80% da população do Paquistão quer que os EUA saiam de vez do país.

No Afeganistão, sem pesquisas, talvez os números sejam maiores. Os EUA tentam adquirir a colaboração do Pak com dólares: já foram entregues mais de 7 bi aos militares ao longo de anos para garantir seu empenho na “guerra ao terror”. Mas, blowbackianamente, a maior parte do armamento do país é de origem chinesa, e isso inclui até mesmo aviões e tanques.

A China opera uma instalação portuária no Pak, na cidade de Gwadar, próxima ao Golfo Pérsico. Imediatamente após o “assassinato” de Osama Bin Laden em Abbotabad (não houve até agora evidências conclusivas do ocorrido), numa invasão do território do país por “forças especiais” dos EUA, o primeiro-ministro pak Raza Gilani visitou Pequim. Foi recebido por quatro dias, por todos os altos dirigentes, e saudado como grande parceiro, amigo de todas as horas, unidos para sempre. Uma sinalização clara: podemos independer de sua ajuda, mr. BHObama! Nada mau para o império, cuja política assassina entrega seu colaborador essencial nos braços do arquiinimigo principal, a China.

Líbia, equívoco imperial

O outro exemplo é a Líbia. Invadida pela Itália nos anos 1910, na guerra entre a Itália e o império otomano, e bombardeada por aviões pela primeira vez na história humana, a Líbia perdeu quase um terço de sua população na resistência aos fascistas herdeiros do império romano. A Itália arrebatou do império otomano as regiões de Fezzan, Tripolitânia e Cirenaica, que hoje formam a Líbia, e dominou até os anos 1930, com grande resistência dos locais.

Num golpe militar em 1969, o coronel Muammar Gaddafi, admirador do egípcio Gamal Abdel Nasser, e que havia estudado em Londres, expulsou um reizinho de curto reinado, Idris, inventado pelos britânicos, e reorientou lentamente o país numa direção socialista, apoiado nas rendas de petróleo&gás abundantes no desértico território. A partir de 2002, o governo Gaddafi abandonou sua posição de “inimigo do império e aliado de terroristas” e abriu as portas da indústria de petróleo&gás às corporações ocidentais.

Gaddafi vem reinando como ditador por 42 anos, e ninguém consegue essa proeza no mundo capitalista sem eliminar adversários e cometer atrocidades. Mas, ao mesmo tempo, com sua vertente social, o longo governo Gaddafi redimiu a população líbia e transformou o país, da posição de um dos países mais miseráveis do mundo, para a invejável posição de mais desenvolvido do continente africano. O IDH da Líbia é o maior da África, e superior, por exemplo, ao do Brasil. A assistência médica gratuita em todo o país apresenta níveis de excelência de países europeus desenvolvidos. O ensino gratuito das origens até a universidade promoveu a população a níveis de formação e informação incomuns no continente. Outras políticas sociais, como a mais cara operação de irrigação do mundo, de 42 bi de dólares, levaram a população líbia, à exceção dos ligados a perseguidos e assassinados, ao apoio incondicional a Gaddafi.

Mas essa situação é intolerável aos olhos dos novos colonialistas: seus ditadores apoiados, como os do Bahrain e do Yemen, e o anterior Mubarak, do Egito, ocupam-se em vender suas riquezas aos invasores e manter contas em paraísos suiçamente próprios, e não em promover seus povos a condições de alta dignidade, aliás apregoadas pelos arautos da democracia e da liberdade, o que, se ocorressem, fatalmente levariam esses povos a expulsar os invasores e estabelecer governos como o de Gaddafi.

Valendo-se do despertar de povos árabes, a máquina de guerra dos EUA-OTAN vislumbrou oportunidade de expulsar Gaddafi do poder pela fabricação de “revolta popular” contra a tirania, o que poderia lhe valer acesso livre às riquezas do país. Para tanto, o império valeu-se de adversários alojados na cidade de Benghazi, na região da Cirenaica, rica em petróleo&gás, que havia sido capital sob o reizinho fugaz e reduzida em importância por Gaddafi, originário de tribo da Tripolitânia, região mais pobre. Recrutaram-se, entre outros “revoltosos, inimigos políticos do ditador, traficantes de drogas, armas e pessoas, desocupados e vigaristas de variados matizes, jovens desempregados; enfim, um exército Brancaleone, armado, treinado e financiado pela CIA e o MI6 britânico. A imprensa dócil e a serviço propagou imagens ridículas do ditador e enalteceu os “combatentes da liberdade”.

Mas algo não funcionou bem. As “tropas” de “revoltosos” demonstraram-se sem a mínima condição de combate, e passaram a ser conduzidas por “assessores” aliados. Além disso, as forças leais a Gaddafi deram mostras de força e união. Gaddafi sempre privilegiou armar a população em detrimento de grandes forças armadas. Perante esse impasse, os aliados arrancaram da desmoralizada ONU uma “resolução” que, na prática, abria a possibilidade de “intervenção humanitária”, que foi estendida, sob o silêncio conivente de Ban Ki-moon, para bombardeios. Mas de novo algo não funcionou bem. Após destruir as defesas antiaéreas do país, a OTAN passou a bombardear covardemente instalações militares, de infra-estrutura, de comunicações; enfim, até mesmo hospitais e universidades foram atingidos. Neste momento em que escrevo, a OTAN desistiu de sua campanha de assassinato de civis e, afinal, rendeu-se à realidade do inevitável “diálogo”.

Os eternos inimigos

Por detrás de todos esses movimentos, enxerga-se um velho teórico britânico que fundamentou a ciência da geopolítica, mas cujo pensamento talvez tenha sido tensionado demais sem consideração às dinâmicas de um mundo em revolução, com ampla circulação de informações e despertares precoces de povos e etnias. Para Halford MacKinder, o objetivo central do império ocidental (no início do século XX, o inglês, e, após a Segunda Guerra, o estadunidense) devia ser o controle militar e político, o Great Game, da imensa massa de terra que une a Europa aos extremos da Ásia, hoje em mãos basicamente de Rússia, China e aliados, com a Índia e vizinhos na posição de fiel da balança.

O império enfrenta hoje três grandes inimigos: China, Rússia e Irã. Rússia e Irã são ricos em fontes de energia, e a China usa seu poderio financeiro e diplomático, pacífico e de cooperação, para investir em países fornecedores e garantir os insumos necessários ao mais vertiginoso crescimento da história recente. O objetivo central do império passa então a definir-se em torno de dois eixos: cerco militar, redução do poder e aniquilamento dos grandes inimigos, e ocupação de territórios e aliança com governos da hinterlândia eurasiática.

Outra vertente, derivada por discípulo, do pensamento de MacKinder seguido pela sinistra figura do conselheiro de ação internacional de BHObama Zbigniew Brzezinski, seria a “ampliação do arco de crises” e a “divisão de países e territórios entre forças em choque”, o que renderia ao império eventuais aliados para lutar contra os seus adversários. O Iraque, por exemplo, foi seccionado em três, com o norte curdo, o sul xiita e o restante, ou sunita, ou sem dono, numa situação de divisão que só tende a se agravar. O povo baluche, que ocupa metade do território do Pak e o sul do Irã, vem sendo armado e estimulado à secessão, para a futura criação do país Baluchistão. O Sudão acaba de ver sua porção sul tornar-se um “país independente”, o Sudão do Sul, que nasce com o título de “o mais pobre do mundo”, imediatamente reconhecido pelos aliados e festejado pela imprensa grande: afinal, aloja quatro quintos das suas reservas de petróleo.

Limites imperiais

Mas a realização dessas tarefas geopolíticas de grande envergadura esbarra hoje em muitos obstáculos. A lista é extensa e de fortes cores básicas: a decadência do dólar como moeda de reserva; o fim do poder dos títulos do Tesouro dos EUA como aplicação garantida (os déficits astronômicos dos EUA desautorizam sua capacidade de pagar); a impossibilidade de manter várias guerras em andamento sem recursos e sem os apoios generalizados de antes; a situação gravíssima interna de insolvência que atinge o governo federal, os estaduais e praticamente todos os municípios do país e sua coorte de serviços em redução, como seguridade social, escolas, infra-estrutura, etc.; o aumento da pobreza e a conseqüente queda do poder do mercado numa economia em que 71% do PIB acham-se vinculados ao consumo; a presença de 45 milhões de pessoas, 1 em cada 7 cidadãos, dependentes de vales-alimentação; a deterioração dos problemas ambientais; a opção por agricultura e produção de alimentos industriais que produzem resultados como um terço de população obesa até mesmo entre crianças.

Politicamente, anotam-se a ascensão de forças de extrema-direita, características dessas épocas de crise, que lembram com suas doutrinas fascistas casos anteriores como o do nazismo; a tendência tanto de democratas quanto de republicanos pelo corte nas rendas e serviços sociais; a impunidade e a crescente desfaçatez das grandes e poucas forças financeiras; a vigência do mais gigantesco aparato de repressão e assassinato da história; a definitiva orientação do país como dependente de guerras e de sua economia como parte de uma permanente guerra.

Mais que falência do grande Estado democrático do século XVIII, que antecedeu a Europa na transição às adaptações dos Estados ao novo mundo capitalista que se afirmava, o naufrágio do império desenha-se na perspectiva de tragédia. A conjugação de enfraquecimento econômico e político com a permanência da mais poderosa força de destruição da história humana não vem gerando e não deve gerar bons frutos. Sombrios horizontes do futuro imperial.

Como diz a música popular, é a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar.

Em tempo: os bombardeios de todos os territórios que sofrem agressões dos EUA-OTAN são feitos com bombas que portam DU – urânio empobrecido. As conseqüências a longo prazo serão trágicas para os povos agredidos e todos os habitantes do planeta.

Por Chico Villela2011-07-15 10:41:00

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O militarismo domina a sociedade americana

Declarações do general McChrystal foram sarcásticas e mostram o trabalho que Obama tem para subordinar os militares ao poder civil

Simon Tisdall, The Guardian - Wed. 23 June 2010 16.30 - O Estado de S.Paulo, traduzido por Anna Capovilla


O presidente Barack Obama está às voltas com um problema em relação aos generais dos EUA, que provavelmente não poderá ser resolvido de maneira rápida ou fácil, qualquer que seja o resultado do caso Stanley McChrystal.


O comportamento desrespeitoso do comandante americano no Afeganistão e de seus assessores é o sintoma de um doença de raízes mais profundas e potencialmente perigosa, sugerem os analistas. Assim, os acontecimentos da semana passada poderiam ser considerados um duro golpe contra o país.


Um dos motivos da dificuldade de Obama em fazer frente ao problema é sua inexperiência. Como comandante-chefe estreante, além disso democrata, observadores em Washington afirmam que Obama teve poucas oportunidades de conquistar o respeito dos militares. Seu mal-estar com a herança violenta no Afeganistão e no Iraque é evidente.


Outro motivo é, aparentemente, a disposição dos conservadores americanos, de todas as classes, em uma sociedade cada vez mais polarizada, de adotar o discurso dos membros da equipe do general McChrystal contra os "frouxos da Casa Branca". O discurso soou como uma crítica de direita, segundo a qual Obama, que nunca serviu o Exército, não tem condições de liderá-lo.


Daí para uma acusação formal de covardia, o passo não é muito grande. "A verdade desagradável é que ninguém na Casa Branca de Obama queria o envio de novas tropas para o Afeganistão", escreveu o colunista do New York Times, Thomas Friedman, na semana passada. "A única razão pela qual eles enviaram mais soldados é que ninguém sabia como sair de lá. Ninguém teve a coragem de puxar a tomada", escreveu Friedman.


11 de Setembro. No entanto, a razão principal pela qual o problema de Obama com os generais é maior do que McChrystal está no persistente impacto do legado do 11 de Setembro. George W. Bush definiu os EUA como uma nação perpetuamente em guerra. O Pentágono elaborou toda uma teoria a respeito: a Doutrina da Guerra de Longa Duração, que postula um conflito interminável contra inimigos indefinidos, mas onipresentes.


De acordo com o escritor Andrew Bacevich, as Forças Armadas dos Estados Unidos exercem uma crescente influência política e social em uma sociedade cada vez mais militarizada. Atualmente, os gastos com a defesa nacional aproximam-se de US$ 1 trilhão ao ano. Em comparação, a verba destinada à diplomacia e à ajuda externa é ínfima.


Algumas personalidades, como o almirante Mike Mullen, chefe das Forças Armadas dos EUA, têm um enorme prestígio no Congresso. O general David Petraeus, herói da Guerra no Iraque e novo comandante das tropas no Afeganistão, é considerado por muitos um futuro candidato à presidência pelo Partido Republicano.


Poder civil. Os EUA não se assemelham em nada à Turquia onde, até bem pouco tempo atrás, os governos civis viviam com um medo constante de um golpe militar. Nem Washington é uma capital da África, onde os presidentes, volta e meia, ficam sob a mira de uma metralhadora.


Entretanto, a rapidez com a qual boa parte dos comentaristas e dos analistas da política americana, reagindo ao comportamento sedicioso de McChrystal, passaram a enfatizar a necessidade de controlar os generais, foi um indício do mal-estar criado em razão das tendências atuais.


"A questão mais importante no furor provocado pelo caso McChrystal é a questão central em uma democracia: o controle exercido pelos civis sobre os militares", afirmou Jonathan Alter, colunista da revista Newsweek.


"Embora certos chefes militares sintam-se perturbados com a Casa Branca de Obama, e por mais que gostem do espírito determinado de McChrystal, o momento das críticas foi absolutamente infeliz. Ninguém pode acreditar que McChrystal seria tão estúpido", escreveu Alter.


Obama continua desconfiado de seus arrogantes generais e, em grande parte, à mercê deles, pelo menos enquanto perpetua a ideia de um país em guerra e mantém uma interminável ofensiva no Afeganistão.


O Pentágono já resiste ao prazo fixado para julho para o início da retirada de parte das tropas do Afeganistão. Ao mesmo tempo, Petraeus recusou-se, há duas semanas, a descartar a possibilidade de envio de mais soldados - que corresponderia a um segundo reforço de tropas no Afeganistão.


Obama pode não gostar da situação, mas ela não deve surpreendê-lo. No livro que Andrew J. Bacevich escreveu em 2005, O Novo Militarismo Americano, o historiador e ex-coronel do Exército, que ele serviu por muitos anos, afirma que os americanos estão percebendo que estão, cada vez mais, escravos do poderio dos militares e da ideia da supremacia militar global.


Guerra sem fim. No contexto do que chamou de "normalização da guerra", Bacevich argumentou que a incontestada e crescente superioridade militar americana estimulou o emprego da força, acostumou "a mentalidade coletiva do oficialato" a ideias de predomínio, glorificou a guerra e o guerreiro e destacou o conceito da "superioridade moral do soldado" em relação ao civil.


Nos anos Bush, segundo Bacevich, esta tendência levou também a conceber o presidente americano como uma espécie de supremo senhor da guerra, "culminando em George W. Bush, que se definiu como o primeiro e mais completo presidente guerreiro da nação".


Considerando essas tendências militaristas, não surpreende que os generais, às vezes, se descontrolem. E, se McChrystal quiser ver em Obama um presidente guerreiro, ninguém ficará surpreso se ele se decepcionar.

O artigo original, em inglês, pode ser lido em: General McChrystal and the militarization of US politics