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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O RETROCESSO


Antes de avaliar a cogitação final desta retrospectiva da imagem do Brasil no exterior, veja as imagens do link:



Forças de choque da Polícia Militar atacam o interior do alojamento cedido pela própria Prefeitura de São José dos Campos para abrigar moradores desocupados do Pinheirinho. No alojamento provisório estavam famílias inteiras, crianças, idosos e pessoas portadoras de necessidades especiais. Uma criança foi levada carregada para a ambulância que estava montada em uma tenda enquanto os policiais continuavam a jogar bombas em direção aos moradores.

Em sua Teoria do Choque, a canadense Naomi Klein demonstra como em diferentes partes do mundo se utilizou do terror para impedir as pessoas de pensar. Será esse o objetivo da despropositada violência empregada pelo governador de São Paulo contra a comunidade do Pinheirinho?
Até mesmo os que através da imprensa promoveram a candidatura tucana questionam a violência desmedida da polícia e da justiça de Alckmin. Ricardo Boechat da BAND, por exemplo, lembra que os credores do megaespeculador Naji Nahas são grandes bancos e investidores (também especuladores) sem qualquer necessidade da imediata reintegração de pose.  Por outro lado, o Ministério das Cidades distribuiu nota detalhando as ofertas ao governador do estado e ao prefeito de São José dos Campos para através de planos e programas federais construir moradias que abrigassem aquelas famílias.

Aos dois políticos do PDB caberia apenas negociar prazos que permitissem o alojamento dos despejados. Por qual razão optaram por tamanha violência contra mulheres, homens, idosos e crianças?
Inseminar o medo no eleitorado paulista para que a covardia garanta a perpetuidade do poder do partido naquele estado, como Naomi sugere ser o método de implantação do neoliberalismo econômico pelo mundo? Ali a ativista percebe no medo um meio de sujeição aos abusos do poder.
Será essa a intenção do partido que há décadas governa o mais rico estado da federação? Os eleitores de candidatos tucanos e seus aliados do DEM e de sua dissidência serão mais covardes do que apenas pessoas com dificuldade de apreensão, percepção e compreensão da realidade?
Alguém cogitou a probabilidade de que a real intenção do absurdo seja a provocação de um confronto direto com o governo federal. Pode ser... Afinal as manipulações dos meios de comunicação têm se demonstrado incapazes de afetar a consciência política do brasileiro.
Se seguirmos a projeção internacional da imagem do Brasil nas duas últimas décadas, talvez possamos aventar outros interesses na degradação de nossa imagem perante a comunidade das nações. Interesses que podem estar localizados muito além de nossas fronteiras.
Acompanhe esta retrospectiva dos fatos da política brasileira que mereceram maior destaque nos jornais e revistas de todo o mundo e pergunte-se a quem interessa a degradação e o retrocesso do país?


Imagem do Brasil na Imprensa Internacional

1994 – primeiro ano de governo PDB – a posse de Fernando Henrique Cardoso.

1995 – segundo ano de governo PDB – Massacre de Corumbiara.

1996 – terceiro ano de governo PDB – Massacre de Eldorado dos Carajás.

1997 – quarto ano de governo PDB – Relatório da Human Rights Watch:
“Durante o período analisado (1996-1997), antigas violações continuaram a ocorrer e novas surgiram no cenário brasileiro, apesar de esforços isolados de particulares e organizações não-governamentais, e devido, na grande maioria das vezes, ao descaso das autoridades.”

1998  quinto ano de governo PDB – Confira nos links a repercussão mundial do julgamento de Talvane Albuquerque do PFL como mandante do assassinato da aliada política Ceci Cunha, (do PDB) de quem Talvane era suplente:

BBC 
NEWS 
NPR 

1999 – sexto ano de governo PDB – Horrorizada com a displicência do governo federal à corrupção e à aceleração do desmatamento na Amazônia, a imprensa internacional dá ampla cobertura à única providência daquele governo ao rombo de mais de R$ 2 bilhões na SUDAM: o encerramento daquela superintendência.

2000 – quinto ano de governo PDB – Entre escândalos de privatizações, índices recordes de desemprego, risco país e dívida internacional, a imprensa mundial se diverte com as desastradas comemorações dos 500 anos do Brasil: espancamento de índios e caravelas que adernam como o país.

2001 – sexto ano de governo PDB – o descrédito internacional culmina com o naufrágio da P 36, a maior plataforma marítima do mundo.

2002 – último ano de governo PDB – a imprensa internacional não comenta a subserviência do chanceler brasileiro Celso Lafer ao tirar sapatos e meias para se submeter à revista na recepção dos aeroportos dos Estados Unidos, mas se surpreende com a repetição do apagão energético de julho de 2001 em setembro de 2002 (que gerou um prejuízo de R$ 45 bilhões) considerando sermos o país de maior potencial hidroelétrico no mundo,

2003 – primeiro ano do governo Lula – a imprensa internacional repercute a posse do novo presidente brasileiro com muitas incertezas e receios, prevendo um agravamento da crise administrativa e econômica herdada do governo PDB.

2004 – segundo ano do governo Lula – o repórter Larry Rohter do The New York Times acusa o presidente do Brasil de alcoólatra em matéria ilustrada por uma foto de Luís Ignácio da Silva brindando com uma caneca de chope na abertura da Oktoberfest de Blumenau.

2005 – terceiro ano do governo Lula – a imprensa internacional repercute as acusações da nacional que, baseada nas denúncias de Roberto Jefferson, acusa o governo brasileiro de quadrilha do maior esquema de corrupção já montado na história do país. Jefferson por sua vez confessa ter lesado o próprio partido (PTB) em vultosos desvios de verbas de campanha política.

2006 – quarto ano do governo Lula – a imprensa internacional se surpreende com o pagamento ao FMI, feito considerado improvável desde o aprofundamento da dívida brasileira ao longo da ditadura militar, e impossível após o governo do PDB triplicá-la, elevando-a acima do PIB do país.

Ainda em 2006 o PDB volta a chamar a atenção da imprensa internacional. Os ataques da facção criminosa PCC ao estado mais rico da federação, comandados de dentro de um presídio estadual de segurança máxima, alarmaram o mundo pelo número de inocentes executados tanto pelos criminosos quanto pela polícia de São Paulo.

2007 – quinto ano do governo Lula – a tentativa do PDB de incriminar o governo Lula no sequestro São Paulo pelo PCC é desmascarada por gravações telefônicas que comprovam o prévio conhecimento do ataque pelo governador do estado, Geraldo Alckmin, e seu secretário de segurança, bem como pelo então prefeito da capital, José Serra. Nenhuma providência foi tomada para evitar o evento ao qual a imprensa estrangeira só encontrou similar em roteiros de história em quadrinhos.

Não obstante, a mídia brasileira ligada ao PDB tentou responsabilizar pessoalmente o Presidente do Brasil por 2 dos maiores acidentes aéreos já ocorridos no país. Antes que os laudos dos peritos indicasse a responsabilidade de pilotos norte-americanos em um caso e a falhas técnicas da aeronave em outro, o descrédito da imprensa nacional perante seus colegas do mundo já era total, culminando com recente indicação da Revista Veja como “brazilian gossip magazine” – revista brasileira de fofocas - por um jornalista britânico.

2008 – sexto ano do governo Lula – o Brasil passa a ser apontado pela imprensa estrangeira e por estadistas de todo o mundo como exemplo de economia promissora. Lula é considerado o principal  líder da América Latina pela revista News Week e recebe o Prêmio da Paz da UNESCO.

2009 – sétimo ano do governo Lula  Na Inglaterra e Alemanha analistas e publicações especializadas preveem o Brasil entre as maiores economias mundiais até o ano de 2015, além de se dedicar atenção à evolução científica e tecnológica do país.  Lula é considerado uma das personalidades mundiais pela Forbes e Homem do Ano pelo Le Monde e o El País.
O britânico Financial Times inclui o Presidente brasileiro entre as 50 personalidades que moldaram a década, considerando-o como o líder mais popular da história. Mas na imprensa nacional o esforço e preocupação é o de demonstrar que Lula não foi classificado como a mais importante personalidade e sim apenas uma entre os demais.

2010 – último ano do governo Lula – o Brasil se torna um dos mais promissores mercados de investimento para o mundo, além de interlocutor político requisitado por todas as nações.  Lula é homenageado pela ONU e apontado como Estadista Global pelo Conselho de Davos.

2011 – primeiro ano do governo Dilma - o Brasil antecipa as previsões e ultrapassando a Inglaterra posiciona-se como a 6ª economia mundial, sendo considerado pela imprensa especializada de todo o mundo como exemplo a ser seguido por todas as nações para superação da crise internacional.

Eleita por Lula, Dilma é apontada pela imprensa mundial como uma das três mulheres mais poderosas do planeta.

Por sua vez Lula recebe o Prêmio Norte-Sul do Conselho da Europa, entre diversos outros que lhe são concedidos nos Estados Unidos, na Europa, na África e América Latina.  São mais de 300 condecorações e uma impraticável série de outorgas de títulos de Doutor Honoris Causa. Recusados durante seu exercício da presidência, posteriormente não poderá assumir o compromisso de aceitá-los devido a um tratamento de câncer.
Recebido em todas as nações que visita como ídolo popular, Lula ainda teve tempo de receber o 16º título de Doutor Honoris Causa (o primeiro para uma personalidade da América Latina) instituído em 1876 pela Fundação Sciences-Po, entidade ligada à Universidade Sorbonne. Ofendidos e revoltados os diretores de importante órgão de imprensa no Brasil exigem explicações do diretor da Sciences-Po.

2012 – início de segundo ano do governo Dilma. Apesar de afamada pela mídia brasileira como temperamental e geniosa, a cordialidade da primeira Presidenta do Brasil já lhe conquistou mais popularidade do que a usufruída por Lula em seu primeiro ano de governo. Ao contrário da aversão à política anteriormente desenvolvida entre a população, Dilma herdou e pôde usufruir de uma nova percepção que se desenvolve entre os cidadãos brasileiros. E Lula, mesmo que rigorosamente afastado por questões de doença, ainda mantém a maior popularidade política em todo o mundo.

No entanto, a violência do governo do PDB experimentada pelos estudantes da USP e mais recentemente pelos dependentes químicos da cidade de São Paulo, torna a levar o Brasil para as páginas dos crimes contra os direitos humanos. Com o terror promovido contra a população do Pinheirinho em São José dos Campos, Geraldo  Alckmin derrubou o país da condição de exemplo e esperança internacional para a de país sem qualquer respeito aos direitos humanos e a seus cidadãos.
A quem pode interessar um Geraldo Alckmin ou um partido como o PDB?
Até quanto os paulistas estão dispostos a pagar reelegendo ao governo um aliado de integrante do mesmo PCC que sequestrou todos os cidadãos daquele estado em sua última gestão, conforme se verifica neste outro link: 
Até quando os paulistas serão os principais responsáveis pela eleição das mais deploráveis personalidades da história política do Brasil como Ademar de Barros, Jânio Quadros, Paulo Maluf, Celso Pita, Collor de Melo, Fernando Henrique, José Serra e Geraldo Alckmin?
Até quando os brasileiros terão de pagar pela presunção e arrogância de idiotas que pedem o afogamento de nordestinos quando, à exceção de 2 ou 3 outros estados, no restante do país se aprende escolher candidatos que dignifiquem o Brasil perante o mundo conforme atesta a imprensa internacional.
Quando os paulistas haverão de aprender a pensar com a própria cabeça sem deixar se condicionar pela oligarquia que monopoliza a mídia do país? Quando terão coragem de decidir pela realidade como têm feito os nortistas e nordestinos, os cariocas, os gaúchos, os do centro-oeste?
Finalizando: Peritos descartam a possibilidade de explosão em gasoduto como causa do desmoronamento de 3 edifícios da cidade do Rio de Janeiro, mas a imprensa internacional já especula sobre a temeridade da realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil.
As últimas notícias da imprensa nacional apontam a possibilidade da tragédia ter sido ocasionada por uma reforma clandestina realizada no 9º andar do edifício que ao desabar provocou o desmoronamento dos demais. A empresa indicada pelo noticiário da Globo como responsável pela obra seria uma tal de T. O.
No mesmo noticiário, apesar de se reconhecer como leiga no assunto, uma testemunha da evolução da obra afirma ter lhe parecido uma temeridade o que ali se realizava.
Creio ter esclarecido suficientemente as razões de sugestão para se averigue qualquer indício de relações entre essa T.O. e oPDB.  
Se ainda assim ocorrer de me considerarem tão ridículo quanto foi o editor da Rede Globo ao alegar um tal “jornalismo de hipóteses” para justificar a própria irresponsabilidade ao acusar o Presidente Lula pela queda do avião da TAM em menos de cinco minutos da ocorrência daquela tragédia no Aeroporto de Congonhas. 
Recomendo que retorne às imagens do primeiro link ou pesquise qualquer outro dos tantos vídeos sobre a violência e covardia do governo de São Paulo não só em São José dos Campos, como também na USP ou na Cracolândia. E depois releia a retrospectiva dos assuntos brasileiros que mais repercutiram na imprensa de todo do mundo nos últimos 18 anos.
Tempo suficiente para adquirir maturidade e emancipação. Ou vai continuar retrocedendo indefinidamente até voltar à condição fetal ou à Idade da Pedra? Bem menos, talvez. À Idade Média dos inquisidores da Opus Dei de quem Alckmin é devoto.
Escrito e enviado por Raul Longo

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Pepe Escobar: “Carta do Islamofobistão”

Pepe Escobar

22/10/2010, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Semana passada [outubro de 2010], a chanceler alemã Angela Merkel assustou o mundo ao declarar à juventude de seu partido, União Democrática Cristã [ing. Christian Democratic Union (CDU)], que o multiculturalismo – multikulti, como é conhecido em alemão – estaria morto. 

Um dia antes, eu estava na sala de embarque da Lufthansa no aeroporto em Frankfurt, tendo discussão paralela com um grupo de empresários alemães: para mim, foi como um primeiro alerta sobre o que Merkel logo tornaria público. Não por acaso, o livro best-seller nos quiosques do aeroporto era um panfleto islamofóbico – Islamophobia –publicado por ex-executivo do Bundesbank, Thilo Sarrazin, para quem imigrantes muçulmanos são, no mínimo, preguiçosos, parasitas dos serviços públicos de saúde e fornicadores, de inteligência inferior. Para Sarrazin os muçulmanos seriam ameaça existencial para a Alemanha, exatamente como os sionistashardcore dizem que o Irã seria ameaça existencial para Israel. 

Naquele momento, depois de três semanas de viagem, do norte da Itália ao sul da Suécia, via Copenhagen, eu já não tinha qualquer dúvida de que viajara pelo Islamofobistão profundo. – Já sabia que ali, naquelas vastidões europeias, a islamofobia é correntemente praticada e usada como instrumento no negócio eleitoral de fabricar medo. 

Arbeit macht frei!/Só o trabalho liberta! [1]

Dentre outras coisas, Merkel disse também que a imigração seria prejudicial à economia alemã – declaração que, só para começar, é ridícula. Para combater a falta de mão de obra ao longo de décadas e décadas, a Alemanha sempre recorreu ao trabalho de imigrados (em alemão,  gastarbeiter, “trabalhadores convidados”) da Itália, Espanha, Grécia, Turquia e da ex-Iugoslávia. Pior, é a ressurreição dessas sombras vergonhosas de uma cultura alemã dominatrix que podem provocar calafrios em várias espinhas dorsais europeias. Mas o mais vergonhoso, de fato, é que as palavras de Merkel reproduzem uma resposta europeia à imigração que já se ouve por toda a Europa. 

Multikulti foi conceito criado nos anos 1980s para acomodar uma leva de migrantes que a Alemanha jamais desejou acomodar – não, ao preço de ter de assimilar culturas, línguas, religiões ‘estrangeiras’. O xis da barganha do multikulti foi que o imigrante poderia conservar sua cultura nativa... desde que jurasse lealdade ao estado alemão. 

O problema é que o arranjo levou à perene exclusão de levas enormes de imigrantes. Outro problema, aí, é que a Europa define as nações pela nacionalidade. 

Assim sendo, o que significa esse repentino, balístico “retorno do reprimido”, a sempre tão sensível questão da identidade nacional na Alemanha... explodindo agora? Antes de tudo, por causa de massas de trabalhadores muçulmanos, a maioria dos quais turcos, que vivem na Alemanha. Na Alemanha, parece ter prosperado uma mistura explosiva de Turquia e Islã – na qual se encontram as coisas mais diferentes: do terrorismo jihadi à reivindicação da Turquia, que quer unir-se à União Europeia.

Todas as pesquisas de opinião indicam que a maioria dos alemães não é particularmente apaixonada pelos 4 milhões de muçulmanos resistentes (5% da população total da Alemanha). 35% dos alemães entendem que o país está “tomado por estrangeiros”; e 10% querem a volta de um Fuhrer com “mão de ferro”. Na Alemanha, há muitos e muitos pequenos grupos neonazistas, praticamente sem qualquer impacto público. Mas, simultaneamente, o Partido Nacional Democrático [ing. National Democratic Party (NDP)], partido dos neonazistas, já alcançou 5% dos votos em Thuringia. 

Há também a profunda crise da própria União Europeia. Se o governo alemão ataca o multikulti, está, simultaneamente, afirmando o primado da identidade nacional alemã. E essa identidade não se subordina, é claro, a alguma identidade europeia mais ampla. Mein Gott [Meu Deus]! Significa que o sonho da União Europeia está em situação precária, muito, muito precária. 

Se a Alemanha não pode importar trabalhadores qualificados – Merkel disse que o país precisa de, pelo menos, 400 mil técnicos de alta especialização –, pode, com certeza, exportar praticamente tudo que sai de suas linhas de produção de suporte à tecnologia da informação. Mas e se aqueles tão essencialmente importantes trabalhadores das novas tecnologias vierem da Rússia? E se a Rússia começar a receber ainda maiores investimentos alemães? Essa abordagem é completamente diferente do modo como se aborda a União Europeia. E, dado que toda a Europa enfrenta grave choque cultural – real ou imaginado – dentro das fronteiras da União Europeia, a morte anunciada do multikulti, além dos seus objetivos eleitorais, está fadada a ter imensas repercussões geopolíticas e geoeconômicas.

A nova Inquisição 

O psiquiatra austríaco-norte-americano Wilhelm Reich, em seu Psicologia das Massas do Fascismo [1933. Em port. Porto: 1974], lembra que a teoria racial não foi criada pelo fascismo. Ao contrário, o fascismo é que foi criado pelo ódio racial, do qual é manifestação política organizada. 

A Nova (anti-Islã) Inquisição não atingiu a Europa imediatamente depois do 11/9. De fato, só hoje está alcançando massa crítica. O esporte político mais popular hoje na Europa não é assistir a Real Madrid versus AC Milan em jogo da Liga dos Campeões de Futebol: é assistir a políticos populistas invocar o Islã – apresentado como “ideologia que se opõe a todos os valores preciosos para nós” – para cristalizar, a qualquer custo, todos os medos e fobias dos eleitores europeus. 

Medo da islamicização, medo da burqa – valem todas as distrações para que os eleitores não pensem na terrível, infindável crise econômica que já produziu taxas catastróficas de desemprego em toda a Europa. Pode ser parte de profunda crise cultural e psicológica em toda a Europa, que vive hoje sem nem rastro de qualquer alternativa política real; mas poucas cabeças progressistas estão alerta para a evidência de que essa carga superturbinada de racismo e xenofobia também é consequência da crise do neoliberalismo.

Fúria contra os estrangeiros? Fúria contra os políticos? Mas isso é tããããããão século 20! A pedida agora é ser contra o Islã! Pouco importa que a imigração para a Europa já esteja em declínio há anos: seja como for, “eles” ainda não ficaram iguais a “nós”! E uma Europa envelhecida, assustadiça, reacionária, estremece de medo de que “o Outro”, vindo de regiões mais dinâmicas do planeta, esteja crescendo. 

O futuro é a Ásia – não a Europa. Fim de semana melancólico numa Veneza inundada de lixo e turistas foi, na prática, como estar na Veneza construída em Las Vegas. Senti-me como Dirk Bogarde em Morte em Veneza. Eu e incontáveis europeus. 

Esquecemos alguém? 

Assim como a Suécia inventou a moderna democracia social e o mais eficiente estado do bem-estar da segunda metade do século 20, assim também aconteceu lá que, dia 19/9/2010, o partido Democrata Sueco [Sverigedemokraterna (ing. Swedish Democrats, SD), da extrema direita, chegou ao Parlamento, com 5,7% dos votos. 

O SD – para muitos, partido “racista e neonazista” – é liderado por Jimmie Akesson, 31 anos, o novo galã da extrema direita europeia, com seu correligionário holandês, Geert Wilders. Akesson vive a repetir que a imigração de islâmicos/muçulmanos é a maior ameaça estrangeira que pesa sobre a Suécia desde Adolf Hitler. (Wilders foi recentemente convidado a visitar Berlin, por Rene Stadtkewitz, ex-CDU, que fundou novo partido, Die Freiheit (“A liberdade”), o mesmo nome do Partido da Liberdade de Wilders. E também foi convidado a visitar New York, para falar contra o proposto Centro Islâmico em Manhattan, próximo do Marco Zero). 

Este vídeo mostra como o SD não mediu metáforas para obter seus votos (explicaram-me que o vídeo foi proibido e, adiante, passou a ser mostrado numa rede privada de televisão, mas com imagens completamente borradas). Mas ninguém precisa entender sueco para ver uma senhora idosa sendo impedida de receber a aposentadoria, por uma horda de seres vestindo burqa.

É impossível não ver ligação direta entre os sempre poucos votos que os social-democratas suecos recebem e o também histórico crescimento da extrema direita. Para observadores norte-americanos, asiáticos e do Oriente Médio, esse movimento é suicidário: como os suecos poderiam estar rejeitando o estado de bem-estar que garante a todos o socorro eficiente da Santíssima Trindade (saúde e educação gratuitas e de boa qualidade e boas aposentadorias)? 

Assim sendo, se os ultracivilizados suecos não estão rejeitando o estado em que vivem, o que pode estar acontecendo? A resposta pode estar num livro publicado na Itália em 2008 por Raffaele Simone, linguista e ensaísta italiano, que leva como subtítulo (traduzido): “Por que o Ocidente não está andando rumo à esquerda”. 

No livro, construído com excelente argumentação, Simone prova que a esquerda europeia está intelectualmente morta: a esquerda europeia simplesmente não entendeu o capitalismo hardcore (que o autor define como “arqui-capitalismo” ou “a manifestação política e econômica da Nova Direita”); não entendeu o primado correlacionado do individualismo com consumismo; e recusou-se a discutir o fenômeno da imigração em massa. 

Da França à Dinamarca, da Itália à Suécia, é fácil ver como populistas espertos apresentam habilmente valores europeus como “livre manifestação”, feminismo e secularismo – supersimplificando as questões a ponto de a abordagem viciosa parecer lógica –, como munição contra mesquitas, minaretes, cabeça velada e, claro, “seres subinteligentes”. 

E há também as realidades locais. A maioria dos que votam no Partido SD protestam, sobretudo contra imigrantes muçulmanos, a maior parte dos quais sem emprego, que chegam à Suécia, passam a receber os benefícios do estado e permanecem ociosos. A Suécia não é, de modo algum, tão rígida contra imigrantes como a Dinamarca, a Noruega ou a Holanda. 

Em Malmo, a apenas 20 minutos de trem de Copenhagem, pela deslumbrante ponte Oresund, cerca de 80 mil (60 mil dos quais são muçulmanos), numa população total de 300 mil habitantes, são imigrantes. São os perdedores no processo que Malmo calibrou cuidadosamente, de transição, de velha cidade industrial, para paraíso do consumo pós-moderno: os velhos os pobres e, sobretudo, os imigrantes. Assim, a Suécia parece ter posto a pergunta que vale para toda a Europa, sobre o estado europeu do bem-estar estar dando menos atenção à saúde e às aposentadorias, e mais atenção à “inclusão” dos imigrantes. Mas será que essa é a verdadeira questão? 

Bombardeiem os minaretes! 

Estamos em pleno verão europeu do ódio – dos minaretes proibidos na Suíça, às burqas proibidas na Bélgica. 

A extrema direita populista participa da coalizão governante na Itália e na Suíça, há muitos. E tem representantes no Parlamento da Áustria, Dinamarca, Noruega e Finlândia. A Frente Nacional teve 9% dos votos nas eleições regionais francesas da última primavera.

Mas agora, por toda a parte, a direita anda como Lamborghini sem freio. O Partido “Liberdade” de Geert Wilders na Holanda superturbinou a Islamofobia, a ponto de quase paralisar o governo holandês. Wilders, demagogo elegante, eloquente, de cabelos louro-peróxido quer proibir o Corão – que comparou a Mein Kampf de Hitler – e cobrar um “imposto do véu” (e por que ninguém nunca pensou nisso no Oriente Médio ou no Paquistão?!). 

O presidente francês Nicolas Sarkozy – que enfrenta agora sua versão remix de maio de 68 autoprovocada nas ruas, por causa da reforma nas aposentadorias – tentou (mais uma vez) seduzir a Frente Nacional, expulsando ciganos romenos aos magotes. 

Heinz-Christian Strache, da extrema direita austríaca, concorrendo à prefeitura de Viena há menos de duas semanas, conseguiu nada menos que 27% dos votos. E Barbara Rosenkranz, que insiste na abolição das leis antinazistas, chegou em segundo lugar na corrida presidencial na Áustria. 

Na Itália, a Lega Norte de Umberto Bossi, islamofóbica e anti-imigrantes, participa da coalizão de governo em Roma e, não por acaso, é o partido que mais cresce no país – e já controla as super-rica províncias Veneto e Piemonte. Na última campanha, apoiadores da Lega distribuíram pedaços de sabão, para usar “depois de tocar um imigrante”. 

Na Espanha, o movimento Preventive Reconquista ganha espaço – guerra preventiva, talvez inspirada em George W Bush, contra um milhão de imigrantes muçulmanos e seus supostos planos “do mal”, para reconquistar a Espanha para o Islã. Já irrompeu em Madri uma “controvérsia do véu”, em abril de 2010. Conselhos municipais locais estão proibindo a burqa e o niqab – à moda francesa (embora a proibição para todo o país tenha sido derrotada – por pequena margem – em julho de 2010, no Congresso espanhol). 

Não chega a surpreender que a extrema direita está hoje mais turbinada do que jamais em várias cidades europeias pós-industriais, que acontecia de serem centros da esquerda; é sem dúvida o caso de Wilders em Rotterdam, de Le Pen em Marseille, de Strache em Vienna e de Akesson em Malmo. A avaliação de Simone comprovou-se certeira. 

O que torna esses populistas ainda mais perigosos é a polinização cruzada. O partido “Liberdade” da Áustria copiou um jogo do Partido do Povo Suíço, no qual os jogadores atiram contra minaretes que brotam naquela paisagem de “Noviça Rebelde” (na versão austríaca, além dos minaretes, os muezzins também levam chumbo). 

O SD sueco aprendeu muito com Wilders, além de também ter aprendido com o Partido do Povo dinamarquês e sua presidenta, Pia Kjaersgaard. Todos estão copiando a tática patenteada por Wilders, de jogar os imigrantes contra aposentados idosos – a islamofobia combinada ao medo de o estado do bem-estar sueco sem ocupado por não suecos. 

Na França, a reinflada Frente Nacional – islamófoba – pode ser ainda mais perigosa, liderada agora por Marine Le Pen, não-dogmática, ‘intelectual’, vestida em tailleurs de executivas, filha de Jean Marie, fundador do partido. Marine quer seduzir os centristas, a tal ponto que Sarkozy não consiga eleger-se sem negociar com ela. 

A polinização cruzada pode também levar a uma ampla aliança europeia, que também inclua EUA e Canadá: um Islamofobistão Atlântico. Esse, de fato, é o sonho de Wilders: a coisa já está sendo chamada de “Aliança Liberdade Internacional”, lançada em julho de 2010, para “defender a liberdade” e “parar o Islã”. 

Marine Le Pen não parece muito empenhada nisso – sua agenda preferencial é ganhar poder na França. Nos EUA, apenas 1% da população são muçulmanos. Aí, acontecerá uma situação surreal: haverá fundamentalistas islamófobos... sem muçulmanos. Seja como for, preocupa que virtualmente 50% dos cidadãos norte-americanos digam, em pesquisas de opinião, que têm opinião negativa do Islã. Alá não tem empresa de marketing que promova sua “imagem” na imprensa. 

O medo é bom “para os negócios”

Assim sendo, o que fazer? Estamos presos no meio da segunda globalização. A primeira globalização aconteceu entre 1890 e 1914. É um cenário de ‘de volta para o futuro’ misturado com ‘a volta dos mortos vivos’. Assim, como, hoje, a aceleração da transferência de capital, migrações e transportes estão gerando regressão – disfarçada de nacionalismo, xenofobia, racismo e uma nova Inquisição. 

Em recente encontro de escritores e jornalistas organizado pela revista Internazionale em Ferrara, ReggioEmilia – uma das mais ricas províncias italianas e europeias –, o possivelmente mais crucial debate ganhou o título de “Islã: um espectro ronda a Europa”. Os principais oradores foram Tariq Ramadan, professor de Estudos Islâmicos em Oxford e autêntico astro do rock acadêmico na Europa; e Olivier Roy, professor no Instituto Universidade Europeia em Florença, e uma das maiores autoridades europeias sobre Islã e jihad. Pode-se dizer, com justiça, que ambos ofereceram um mapa do caminho a ser seguido rigorosamente por cidadãos sensíveis. 

Interrogado sobre os motivos pelos quais tanto se espalhou o medo de imigrantes muçulmanos, Ramadan observou que “essa percepção existe desde a construção do projeto europeu”. Previa-se que esses imigrantes viessem para a Europa exclusivamente para trabalhar. “Mas hoje já temos imigrados de segunda, terceira e quarta gerações, que deixaram seus ghettos, que são mais visíveis, que se sentem à vontade para se manifestar e suas vozes são ouvidas”. Isso causa conflito tremendo no modo geral como eram vistos. 

Ramadan insiste que “muçulmanos europeus têm bem claro para eles mesmos o conceito europeu de liberdade de expressão”. E diz firmemente que “integração é coisa do passado: eles já estão integrados” (mas vá alguém tentar convencer Angela Merkel ou os cidadãos de Malmo!). 

O ponto principal de Ramadan é que europeus – como os norte-americanos – devem “demarcar uma clara diferença entre a instrumentalização desses medos, por movimentos e partidos, derivados da ignorância, e o medo propriamente dito. Temos de ir além da questão da integração e reafirmar valores comuns. Há hoje um consenso na Europa, de que os imigrantes de segunda e terceira gerações são mais visíveis, nas esferas cultural, política e esportiva. A passividade ante a instrumentalização é que, sim, pode ser risco terrível para todos os cidadãos europeus.” 

Roy ataca o impasse, de perspectiva diferente. Para ele, “há hoje uma espécie de falso consenso. Nosso consenso sobre o Islã é relacionado ao fato de que os europeus não concordamos sobre o que somos. Agora, na maioria dos parlamentos europeus, esquerda e direita votam juntas para proibir a burqa, a construção de mesquitas (...) Esquerda e direita parecem estar de pleno acordo contra o Islã, mas por diferentes motivos. Há uma desconexão entre um marcador religioso e a vida diária. O que é religião? E o que é cultura? Devemos dizer que religião é religião e cidadania é cidadania. É assim que funciona na Europa. A Cidade do Homem e a Cidade de Deus; Os muçulmanos na Europa adotaram e estão adotando o modelo europeu de separação entre igreja e estado.” 

Roy define “dois aspectos do medo da islamicização: imigração e islamicização. Para a maior parte da opinião pública, essas expressões são sinônimas, mas não são. Na França, nas segundas e terceiras gerações, há de tudo, muçulmanos que rezam todo o tempo, os que rezam às vezes, os que não têm qualquer prática religiosa mas dizem que são muçulmanos, europeus convertidos ao Islã, muçulmanos convertidos ao catolicismo... Tudo depende da cultura política de cada país. A liberdade de culto religioso na Europa não é consequência da luta por direitos humanos. Foi definida como compromisso, depois de séculos de guerras religiosas. Mas esse compromisso – em cada país europeu – está hoje em crise. Por duas razões. Uma, a crise do estado-nação. Por causa da globalização, da integração europeia, de compromissos nacionais desmontados por leis supranacionais. E, agora, a liberdade de culto religioso é um direito individual. Nunca houve coisa semelhante em toda a cultura política europeia.” 

Nada garante que baste isso para convencer Wilders e Akesson. São contrários a qualquer inclusão; são defensores da exclusão – e, hoje mais do que nunca, eles sabem que o medo vende, na barganha eleitoral. A Nova Inquisição continuará, aconteça o que acontecer (e ficará fora de controle se alguma daquelas fantasmagóricas al-Qaedas, do Iraque, do Maghreb, do Chifre da África, seja de onde for, jogar um avião contra a Torre Eiffel).

Com esse sombrio pensamento em mente, deixei o Islamofobistão do melhor modo que pude – em voo direto para a parte do mundo em que o ódio não reina, não há medo, ainda há esperança, há potências ilimitadas e não há guerras de religião: a América do Sul. 


Nota dos tradutores
[1] É o dístico que se lia, em alemão, sobre o portal de entrada do campo de concentração de Auschwitz .