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domingo, 13 de julho de 2014

Ucrânia: Relatório de Situação (SITREP), 11/7/2014

Importante desenvolvimento para a Resistência

11/7/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Além do que parece ter sido ataque devastador contra uma coluna de blindados Ukies, há vários importantes desenvolvimentos que aconteceram recentemente e que acho que têm de ser reportados aqui:



79ª Brigada Ukie quase destruída

1) Com o retorno de Strelkov a Donetsk, a ordem e a unidade de comando nas forças da Resistência parecem tem sido restauradas, e resolvidos os desacordos entre Strelkov e Alexander Khodakovskii (ex-comandante da unidade “Alpha” de Donetsk).

2) Em conferência conjunta de imprensa, Igor Strelkov , Alexander Borodai e Vladimir Antiufeev (encarregados respectivamente de assuntos militares, políticos e segurança do estado) anunciaram a formação de um conselho de comandantes militares que será encarregado de todos as unidades militares na Novorrússia. Na mesma conferência de imprensa, anunciaram também ampla evacuação (voluntária) de civis dos subúrbios de Donetsk. A cidade, claramente, está preparando-se para um grande ataque, seguido de sítio.

Strelkov, Borodai, Antiufeev

3) Houve disputa feroz entre Igor Strelkov e Sergei Kurginian, que acusou Strelkov de ter abandonado Slaviansk e que disse que os novorrussos estão agora recebendo mais e melhor ajuda da Rússia, que antes. Embora Borodai tenha acusado Kurginian de espalhar propaganda pró Ukie ou EUA, eu pessoalmente acredito que o papel de Kurginian é tranquilizar o público russo, de que a sociedade civil russa, sim, está fazendo todo o possível para ajudar a Resistência (ninguém jamais fala de qualquer ajuda oferecida pelo governo russo).

Sergei Kurginian
Seja qual for o caso, Alexander Borodai acertou tudo quando relatou que suas consultas e encontros em Moscou foram

(...) muito bem-sucedidas e conto muito com o amparo da Federação Russa em futuro o mais próximo possível. No momento, o povo russo já nós está dando ajuda colossal, seja em termos de voluntários seja em termos de ajuda humanitária. Espero que essa assistência continue a crescer.

 Não há dúvidas de que alguma espécie de “acordo” foi firmado entre os líderes de Novorrússia e o Kremlin, embora, claro, os detalhes vão permanecer secretos e a assistência será apresentada como vinda do “povo russo”, o que é muito diferente de vir do governo russo, apesar de haver aí a interessante questão de entender por que Borodai teria de ter longas reuniões em Moscou, para obter ajuda do povo russo [riso].

4) Aparentemente, os Ukies estiveram reforçando sua artilharia na fronteira com a Crimeia, mas o consenso é que, embora aqueles sistemas tenham alcance para atingir cidades crimeanas, a resposta russa seria de tal ordem, que qualquer ataque dos Ukies ali sempre será movimento suicida. Os russos já reforçaram rapidamente e firmemente suas capacidades na Crimeia, as quais hoje incluem total cobertura do espaço aéreo (usaram ali a versão atualizada do sistema de defesa S-300 - vídeo no fim do parágrafo - com um redeslocamento dos bombardeiros russos de combate). Até o ministro Sergei Lavrov, sempre suave e contido, disse com todas as letras, sem nenhuma suavidade, que não aconselha ninguém a atacar a Crimeia, porque a Rússia retaliará.


5) A Força Aérea Ucraniana continua a perder aeronaves regularmente. Hoje, outro Su-25 Ukie foi derrubado perto de Lugansk.

Su-25 da Ucrânia
6) Em outro interessante desenvolvimento recente, Igor Strelkov anunciou que os soldados que lutam com os militares novorrussos passarão a receber salário, em valor mais que adequado, pelas normas ucranianas. Claramente, mais um sinal de que “alguém” está agora financiando a Resistência.

Meu palpite é que Poroshenko dirá que o Grad MLRS que hoje destruiu quase toda a 79ª Brigada Ukie teria sido disparado da Rússia. A primeira razão pela qual acho que dirá isso é que, assim, terão meios, ele, mas, sobretudo, seus patrões nos EUA, para reacender a histeria russofóbica. A segunda razão é que se esses Grads tiverem saído Rússia, nesse caso as unidades Ukies que estejam em pontos distantes da fronteira russa estariam em relativa segurança; mas, se os Grads foram disparados pela Resistência, de dentro da Novorrússia, nesse caso todas as unidades Ukies na Novorrússia são agora alvos potenciais desses ataques.

Grad MLRS  com alcance de 200 km
Seja como for, temos aqui duas opções: ou os russos finalmente decidiram fazer os Ukies experimentarem um pouco do próprio remédio, nesse caso, fazendo-os pagar pelos inúmeros ataques contra postos de fronteira russos, ou a Resistência realmente pôs as mãos em Grads suficientes para um ataque desse tipo. Nesse caso é bem óbvia a origem desses Grads, embora, claro, ninguém admita coisa alguma.

A fronteira russa com a Ucrânia é porosa? Sim, claro. Mas não a ponto de comboios de MLRS andarem de um lado para o outro sem serem vistos e sem o acordo do governo russo. Strelkov e suas forças poderiam ter “nacionalizado” algum dinheiro confiscado dos bancos de Kolomoiskii. Claro que sim. Mas não o suficiente para bancar uma guerra. É possível que voluntários russos (inclusive oligarcas russos) tenham mandado dinheiro para ajudar os novorrussos? Claro que sim, mas não sem que o serviço secreto russo (FSB) soubesse e permitisse.

Portanto, o que estamos vendo é claramente o seguinte: o *governo* russo não está mandando nenhuma ajuda militar “oficial” à Novorrússia; mas a *sociedade* russa, com pleno conhecimento e as bênçãos do governo russo, está fazendo exatamente isso. Daí o sorriso de felicidade no rosto de Borodai quando falou sobre suas “consultas” em Moscou.

Fronteira Ucrânia-Rússia
 (Análise da OTAN de imagens via satélite)
Está o Kremlin expondo-se a grande risco, com essa estratégia? Não me parece que esteja. A ajuda é suficientemente pequena para ter o que a CIA chama de “negabilidade plausível”; mas, uma vez que seja contínua, pode, sim, fazer diferença crucial. Além disso, tudo que o Kremlin está *realmente* fazendo não é propriamente ajuda; apenas se pôs numa posição passiva que pode ser facilmente explicada com “tentamos”, “não é fácil”, “vocês conhecem os nossos problemas de corrupção”, etc..

Para finalizar, arrisco uma ideia. Estou sentindo que os Integracionistas Atlanticistas no Kremlin e à volta dele não estão absolutamente contentes com a ajuda que a Rússia está dando, e há boa chance de que Putin esteja usando seus antigos contatos com o serviço secreto para fazer acontecerem as coisas. Examinando as recentes ações de Strelkov, Borodai e Antiufeev, tenho a forte sensação de que essa recente “consolidação do poder” traz consigo um típico “toque KGB”. E não atrapalha, é claro, nas atuais circunstâncias.

Há uma palavra em russo, difícil de traduzir, que significa, mais ou menos, “perto/em torno dos círculos do Kremlin” (околокремлевские круги). Refere-se, basicamente, à base “silenciosa” de poder pró-Putin, que tem grande influência política, mas não é parte formal da estrutura do governo.

Esses círculos – que são o suplício dos liberais russos – têm acesso ao Kremlin e apoiam o presidente, mas não integram formalmente a administração, nem o governo nem o gabinete do presidente nem qualquer outra entidade do estado e, por isso, não podem ser controlados por ninguém, exceto, claro, o serviço secreto federal, FSB. Estou sentindo que esses círculos, que são furiosamente antinazistas e antinorte-americanos, já se organizaram informalmente para criar uma rede de assistência à Novorrússia. Que ninguém jamais subestime o poder e as capacidades desses círculos.

Por exemplo, durante o regime pró-EUA de Yeltsin, aqueles círculos não apenas organizaram assistência secreta à Transdniestria; tiveram até meios para conseguir que seus próprios aviões militares voassem para lá, sem que ninguém a bordo precisasse se identificar a nenhuma autoridade, em nenhuma escala da viagem. Sei disso, porque me ofereceram lugar num desses voos e me disseram: Damos um uniforme a você, você veste e ninguém fará perguntas. Foi em 1993. Ninguém nem imagina o que esses sujeitos podem fazer hoje, com acesso ao Kremlin...

Que tipo de gente reúne-se nesses ‘círculos’? Militares, claro, sobretudo aposentados dos serviços especiais, oficiais do FSB que não se incomodam de negar sempre, oficiais das unidades especiais GRU que negam sempre, sempre; mas também empresários, jornalistas e alguns “inovadores”, muitos deles conectados às máfias russas. É uma mistura eclética de gente, de idealistas a gente que apenas sabe que o “poder-na-sombra” [orig. “shadow power”] desses círculos também pode ser muito útil para promover seus próprios interesses.

Vladimir Putin
Para concluir, digo que enquanto tudo aqui dito, até aqui, são, sem dúvida alguma, excelentes notícias, a coisa toda está longe de estar resolvida. Os Integracionistas Atlanticistas continuam muito poderosos. Putin falou abertamente sobre uma “5ª coluna”, e eles resistirão com todas as suas forças. Quanto a Putin, está engajado num ato de equilibrismo difícil e perigoso, no qual qualquer coisa que saia errado lhe será atribuído, como culpa exclusiva e pessoal dele. Putin sabe disso e faz o que pode para mostrar-se o mais distante possível do dia-a-dia dos combates na Novorrússia. Seus adversários também veem claramente que, com essa guerra na Novorrússia, têm oportunidade perfeita para enfraquecê-lo e até desacreditá-lo, mas, dessa vez, de uma posição aparentemente “patriótica” (porque a posição pró-EUA, agora, basicamente, é fracasso garantido).

Supersimplificando muito, eu diria que essa luta envolveu “big Money x serviços secretos” e que, até aqui, os serviços secretos parecem estar no controle da situação, o que é bom para a Novorrússia. Mas tudo pode mudar muito, dependendo de como a situação evolua.


The Saker

quarta-feira, 18 de junho de 2014

IRAQUE: Relatório de Situação, SITREP − 17/6/2014

17/6/2014, [*] Mindfriedo, The SakerThe Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
– 16/6: Forças Aéreas do Iraque atacam alvos do ISIL (orig. Daash, sigla de “Estado Islâmico no Iraque e Levante”, em árabe transliterado).

– 16/6: ISIL transferiu de Mosul todo o equipamento militar pesado. A maior parte do equipamento pesado foi levado para a Síria.

– 16/6: O governador baathista de Mosul, Coronel Hashem al-Jammas, está dando 20 horas de eletricidade a mais para os moradores de Mosul, diferente de antes, quando eram só duas horas.

– 16/6: Arábia Saudita culpou o atual governo pela rebelião sunita. Culpam as políticas sectárias de Maliki como principal causa da insatisfação dos sunitas.

– 16/6: Uma bomba explodiu num ônibus de passageiros no centro de Bagdá, matando seis civis.

– 17/6: O governo iraquiano, em declaração, culpou a Arábia Saudita por apoiar os rebeldes: “Consideramos a Arábia Saudita culpada pelo que aqueles grupos estão recebendo em termos de apoio financeiro e moral. O governo saudita deve ser responsabilizado pelos perigosos crimes cometidos por esses grupos terroristas”.

– 17/6: Exemplos de tweet de propaganda pró ISIL:

  • Bagdá caiu.
  • Bombardeadas as embaixadas dos EUA e Irã.
  • Maliki fugiu.
  • Comandante militar fugiu para a Alemanha.
  • Pesadas baixas nas forças iraquianas.

– 17/6: Os rebeldes são constituídos de três elementos:

  1. Islamistas: ISIL e outros grupos islamistas extremistas (tropas de choque);
  2. O Conselho Militar: Ex-oficiais do exército iraquiano (os principais trabalharam contra os islamistas sob comando dos EUA, mas agora se alinharam com o levante sunita;
  3. A Ordem Naqshabandi: ex-ba’athistas liderados por Ibrahim Izzat Al Douri; é o elemento mais fraco dos três, e seus membros são quase todos ex-ba’athistas.

– 17/6: Na partilha do poder em Mosul, o grupo ISIL entregou a administração ao Conselho Militar. O Conselho Militar insistiu em que o ISIL retirasse da cidade os seus combatentes estrangeiros.

– 17/6: ISIL mandou que as mulheres em Mosul permanecessem dentro de casa e proibiu todas as modalidades de entretenimento e bebidas alcoólicas

– 17/6: Cartazes de Saddam que se viam por toda a cidade de Mosul foram motivo de discussão entre o ISIL e a Ordem Naqshabandi.

– 17/6: Ali Shamkhani , chefe do Supremo Conselho de Segurança Nacional Iraniano, sobre uma dita cooperação Irã-EUA no Iraque: “É parte de uma guerra psicológica; é informação absolutamente irreal publicada pela imprensa-empresa ocidental. Como já dissemos, se houver pedido oficial do Iraque, estaremos prontos a estudar o pedido, à luz das regras internacionais, e só nós, sem qualquer ligação ou referência a qualquer outro país”.

– 17/6: Rouhani atribui o alastramento do ISIL, diretamente, a efeito de o ocidente e seus aliados terem armado a oposição síria. Disse que “Nós os alertamos há um ano, que esses terroristas eram um perigo para toda a região. [Mas] eles lhes enviaram armas – ou seus colegas na região enviaram armas àqueles mesmos terroristas.”

– 17/6: Ataque durante a noite a um posto de polícia em Baquba resultou na morte dos detidos que lá estavam. Os rebeldes dizem que milícias xiitas e pessoal da segurança executaram os prisioneiros sunitas, quando os rebeldes tentavam libertá-los. O governo diz que os rebeldes mataram os prisioneiros.

– 17/6: O Reino Unido decidiu reabrir a embaixada em Teerã.

– 17/6: Autoridades sírias dizem que impediram que se concretizasse um ataque químico que o ISIL planejava.

Hassan Nasrallah
– 17/6: Nasrallah disse no domingo (17/6/2014): “Se o Hezbollah não tivesse decidido agir na Síria desde o início, e no momento certo, o ISIS estaria hoje em Beirute”. Mencionou também que a conclamação feita por Sistani não foi só para os xiitas do Iraque, “não visou a proteger uma seita específica, mas a proteger todo o Iraque”.

– 17/6: Notícias de combates pesados em Baquba; pesada resistência no caminho dos avanços dos rebeldes.

– 17/6: A cidade turca de Basheer, 15 quilômetros ao sul de Kirkuk foi atacada pelo ISIL. Defensores e forças de defesa turcas repeliram o ataque, com a ajuda de forças curdas. A luta deixou ferido um brigadeiro comandante da polícia curda. Seis de seus guarda-costas foram também mortos.

– 17/6: Forças curdas que ajudavam os turcomenos em Basheer teriam deixado os combates depois de comentários, pelos comandantes turcos, de que apoiavam o governo xiita de Bagdá e o status de Kirkuk.

– 17/6: ISIL atacou Basheer novamente, pela segunda vez, depois que os curdos haviam partido.

– 17/6: O posto de fronteira em Al-Qaim entre Síria e Iraque está agora sob comando do Exército Sírio Livre e Frente al-Nusra, depois que Forças da segurança iraquianas abandonaram o posto.

– 17/6: Arshad Sahili, presidente da Frente Iraquianos-turcomenos disse que se os curdos “recusarem-se a voltar a Kirkuk [para o governo do Iraque] nós combateremos contra”. Anunciou a criação de uma nova milícia turcomena.

– 17/6: O Governo Regional Curdo (KRG) diz que não tem planos para devolver Kirkuk ao governo central. Insistiram que darão proteção a todos os grupos étnicos.

– 17/6: Há notícias de que o Governo Regional Curdo abriu a base militar local e permitiu que os residentes se autoarmassem.

– 17/6: O Telegraph noticia que mais de 5 mil iranianos alistaram-se em milícias que podem ser enviadas para defender os locais sagrados dos xiitas no Iraque.

– 17/6: Já está confirmada a presença, no Iraque, de Ghasem Soleimani, líder da força Qods [grupo de elite do Corpo de Guardas Revolucionários do Irã]. Os EUA foram informados com antecedência, da chegada dele.

– 17/6: Já há confirmação de que Tal Afar está sob controle do ISIL. Mas partes da cidade permanecem sob controle do governo.

– 17/6: O governo despachou 1.200 combatentes da Brigada de Ouro, sua unidade xiita de elite, para Tal Afar, para reforçar as forças oficiais naquela cidade.

– 17/6: Centenas de milhares de famílias xiitas estão caminhando agora na direção de áreas controladas pelos curdos. Temem a “limpeza étnica” nas mãos do ISIL.

– 17/6: Nechirvan Barzani, premiê do enclave curdo, disse que nada retornará ao que havia antes. Seus comentários parecem confirmar que o Iraque será dividido por linhas étnicas. Sugeriu também que sunitas iraquianos sejam consultados sobre se desejam um estado independente.

– 17/6: Al-Suleiman Majid Ali Suleiman, chefe da tribo sunita Al-Dulaim, declarou que “Rejeitamos toda e qualquer pessoa que dê as mãos ao ISIL.”

– 17/6: ISIL controla certo número de vilas na área de Saadia no norte da província de Diyala. Funcionários da administração local estão sendo obrigados a permanecer nos postos de trabalho. Metade da população fugiu. Funcionários locais pediram ao governo em Bagdá que permita que as forças Peshmerga ajudem no combate contra o ISIL.

– 17/6: Baiji, ao norte de Samarra está em mãos do ISIL. A refinaria de petróleo nos arredores da cidade está ainda sob controle do governo, mas cercada por rebeldes. A produção de petróleo foi suspensa e os trabalhadores foram evacuados.

– 17/6: O presidente Rohanni do Irã distribuiu fotos em que aparece assistindo ao jogo Irã e Nigéria, pela Copa do Mundo. Calça chinelos e toma chá. É claro o contraste com os tweets sanguinolentos do ISIL, como observou Robert Tait, correspondente [do Telegraph] para o Oriente Médio.

– 17/6: Prosseguem os combates ao norte de Bagdá.



[*] Mindfriedo é comentarista do blog The Vineyard of the Saker, que começará agora a publicar “Relatórios de Situação” [orig. SITREPs] sobre o Iraque. OBRIGADO, Mindfriedo! 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Ucrânia: Relatório de Situação (SITREP) 15/4/2014, 18:30 EST − atualização 1

Dia 1º da guerra civil ucraniana

15/4/2014, 18h30 EST, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
O primeiro dia do que será a Guerra Civil na Ucrânia terminou. Dado que muito pode acontecer até amanhã de manhã, decidi distribuir esse Relatório de Situação intermediário ainda hoje à noite, em vez de esperar até amanhã.

O resumo breve do dia é: caos absoluto e violência local.

Algumas coisas destacam-se:

  • A mesma fonte que informou sobre a presença do diretor da CIA John Brennan em Kiev no domingo/2ª-feira − 13-14/4/2014 − (disse também que o plano dos EUA é usar os militares ucranianos para bloquear as cidades rebeladas e usar unidades especiais (guarda nacional, SBU-SWAT, unidade recém-criada chamada “Shtorm” e gangues do Setor Direita) para fazer a repressão direta dentro das cidades.
  • Num incidente bastante bizarro, alguns oficiais ucranianos receberam informação de que 30 terroristas armados haviam tomado um aeroporto próximo de Kramatorsk. Foram para lá, com apoio de helicópteros e blindados, e só encontraram civis. Há boatos de que “vários” e “onze” civis foram mortos nessa operação. O mais curioso é que os oficiais parecem ter realmente acreditado que enfrentariam algum tipo de força militar. Quando se deram conta de que não era o que imaginavam que fosse, retiraram-se, deixando só um pequeno grupo de soldados, no aeroporto. Esses soldados estão agora cercados por civis, que fecharam todas as saídas do aeroporto.
  • O mesmo aconteceu com um batalhão de reconhecimento da 24ª Divisão Aerotransportada, enviada para localizar “terroristas”. Quando viram que só havia civis, recusaram-se a dar continuidade à missão; deram meia volta e partiram.
  • Um comboio de militantes do Setor Direita disfarçados como se fossem pró-Rússia (usavam a fita de São Jorge [1]) foi detido e os militantes foram revistados por piquetes de civis. Depois de interrogatório violento, a verdade ficou clara, o caminhão de armas foi confiscado e os militantes espancados.
  • Em Kiev, o Setor Direita deu 24 horas ao ‘'presidente'’ para tomar atitude mais forte contra o leste. Se não, ameaçaram derrubá-lo. Em outras palavras, o que restou da pequena, desorganizada e desmoralizada polícia ucraniana pode estar às vésperas de receber ordens para derrubar todos: os que se manifestam pró-Rússia no leste e os doidos neofascistas em Kiev.
  • A sempre ridícula Casa Branca, pela boca do secretário de Imprensa, declarou que os EUA “respeitam” o regime (neofascista) de Kiev, por sua “moderação”.

OK. Assim sendo, o que, realmente, está acontecendo aí?

Mapa linguístico da Ucrânia - as regiões atacadas por Kiev são as mais escuras e marcadas por pequenas bandeiras vermelhas.  
Disseram aos militares ucranianos que eles têm de deter “terroristas”. Acreditem ou não no que ouvem, os oficiais comandantes ucranianos estão mais ou menos dispostos a cumprir aquelas ordens. Mas não parecem dispostos a matar multidões de civis ou, ainda menos, invadir cidades e ocupá-las à força. Então, eles param antes de entrar em ação, e põem-se a discutir, conversas sempre tensas e desagradáveis, com civis hostis e muito desconfiados.

Os serviços de segurança ucranianos, sim, podem estar mais dispostos a atirar contra civis, mas tudo sugere que estejam com muito medo de entrar nas cidades rebeladas (toda a população parece estar nas ruas) – e não os culpo por isso. Diferentes da maioria das barricadas no entorno das cidades, que são mantidas por civis (inclusive mulheres e idosos), algumas barricadas e prédios dentro das cidades estão sendo defendidas por homens armados, alguns, com absoluta certeza, com experiência militar, e apoiadas por massas de manifestantes civis. Qualquer unidade do SBU que se ponha a atirar contra civis, nessa situação, expõe-se a ser linchada por centenas de manifestantes.

Os bandidos do Setor Direita adorariam matar magotes dos amaldiçoados Moskals, mas não têm nem treinamento nem números para tomar uma cidade. Quem, deles, for apanhado, não tem qualquer possibilidade de escapar vivo. Será literalmente esquartejado pelos locais.

Então, resumindo, até agora:

1) Os militares ucranianos estão “fingindo” que participam da chamada “operação antiterroristas”. Embora algumas unidades dos galicianos possam tentar agir, a maioria das unidades dificilmente se disporão a atirar contra massas de civis.

2) Os policiais, as equipes SWAT e as forças especiais SBU provavelmente não terão problemas para atirar contra multidão de civis, mas temem entrar em ambiente urbano e invadir prédios, se estiverem cercados por multidões furiosas por todos os lados.

3) Quando aos bandidos neonazistas e criminosos comuns contratados pelos oligarcas, não têm nem treinamento nem meios para tomar uma cidade.

Assim sendo, o Dia 1 dessa guerra civil foi dia de caos total, confusão, com violência apenas localizada. 11 civis foram mortos, mas é nada, se se compara ao que teria acontecido se os militares ucranianos tivessem atacado cidades com Lançadores de Múltiplos Foguetes, como os militares da Geórgia fizeram contra Tskhinval, dia 8 de agosto de 2008.

Agora, algumas palavras sobre a oposição russófona (que falam russo).

Assisti à maior quantidade de vídeos que consegui ao longo do dia, e eis o que vi:

1) Muitos, muitos civis (sem dúvida, são civis), desarmados, inclusive mulheres e idosos. Parecem ao mesmo tempo assustados e furiosos. O plano é formar um escudo humano, para deter o assalto dos fascistas.

2) Muitos homens fortes, com ar determinado (muitos são trabalhadores das minas de carvão). Estão armados com barras de ferro, porretes, alguns poucos coquetéis Molotov. Qualquer grupamento treinado e armado com rifles de assalto pode dizimá-los; mas, se eles puserem as mãos nos bandidos do Setor Direita, os moem. São homens comuns, mas esse pessoal das minas é gente MUITO dura. E basta a televisão para ver que, sim, estão ali para o que der e vier.

3) Vários grupos armados auto-organizados, a maioria dos quais armados com pistolas e rifles de assalto; têm algum poder real de fogo, mas não têm treinamento nem comando experiente. Também não conseguiriam deter assalto militar, mas podem prover fogo local, suficiente para fazer correr os policiais.

4) Uns poucos pequenos grupos (3-5 homens) em alguns pontos, com postura de quem sabe o que está fazendo. Alguns são, talvez, ex-paraquedistas com treinamento de infantaria; outros serviram em outras unidades bem treinadas. Vê-se que estão tentando organizar alguma espécie de resistência mais ou menos bem organizada e, provavelmente, podem montar um ataque inteligente a uma coluna inimiga (como vi acontecer no final de semana, pelo menos em um caso). Não creio que esses grupos sejam muito numerosos, mas podem aparecer em qualquer lugar e são, sim, ameaça real para qualquer força atacante.

Tomados separadamente, nenhum desses defensores constitui força suficiente para proteger sequer uma cidade pequena. Contudo, a COMBINAÇÃO desses vários tipos de defesa é problema real para o comando militar ucraniano, sobretudo se se consideram os problemas de baixa moral entre os soldados da Ucrânia e o que dá sinais de ser furiosa determinação, disparada pelo medo e pela raiva, na população falante de russo.

Além de tudo isso, operações de assalto militar a cidades, a áreas urbanas são sempre inerentemente muito difíceis e muito perigosas. Durante esse tipo de operação o cenário mais típico é aquele em que o ataque inicial parece fácil e vitorioso e, de repente, começa o inferno, e o que parecia ser sucesso vira um pesadelo. [2] É preciso não só muito poder de fogo, para prevalecer em ambiente urbano, mas também forte determinação e disposição de consciência para matar MUITOS civis. No leste da Ucrânia praticamente todos os civis andam pela rua com telefones celulares e câmeras, o que significa que há “olhos” por todos os cantos e todos os eventos são filmados, muitos dos quais são até transmitidos ao vivo diretamente para a Internet. Nada bom para os militares ucranianos que tenham de atacar.

Mais uma coisa: Acho que hoje cruzou-se uma linha vermelha. Agora, toda a população do leste da Ucrânia foi assimilada a “terroristas” (dois candidatos à presidência da Ucrânia foram atacados (e um, Tsarev, foi acusado de prática de – não é piada! – “incitamento ao tumulto em ambiente público” [orig. hooliganism: é o crime de que são acusados os chefes de torcidas organizadas em jogos de futebol] e separatismo!) e já não há qualquer esperança de que se chegue a um estado ucraniano unitário federalizado.

Se civis são mortos, como aconteceu hoje, em ataque oficial e autorizado de forças militares, cumprindo ordens do chamado “presidente interino”, o qual, por sua vez, foi elogiado pelos EUA por sua “moderação”... nesse caso já houve uma mudança qualitativa na luta. A menos que ocorra um milagre, minha conclusão pessoal é que o experimento ucraniano já foi quebrado e queimado. Já não existe “a Ucrânia”.

Há vários dias venho falado de “velocidade de escapada” [3] e acho que hoje se chegou lá. Parafraseando a cantiga infantil,

A Ucrânia independente subiu na janela,
A Ucrânia independente caiu da janela.
Nem todo o dinheiro, nem todos os soldados do Ocidente
Conseguirão outra vez colar ela...

A grande questão agora é: quanto, em sangue e sofrimento humanos, o Ocidente e seus fantoches neonazistas em Kiev arrancarão do povo de lá, antes de terem de aceitar o inevitável?

Permaneçam sintonizados.

The Saker




Notas dos tradutores

[1] A Fita de São Jorge, com as cores laranja e preto, é tradicionalmente usada na Rússia no dia 9 de maio, quando os russos celebram o “Dia da Vitória” e a vitória contra os nazistas na IIª Guerra Mundial. Laranja e preto (simbolizando fogo e fumaça) são as cores tradicionais das medalhas russas (desde o Império) e soviéticas por bravura em combate. Usando a Fita de São Jorge, os russos manifestam gratidão e respeito pelos que salvaram o país do nazismo (imagem interessante, de Putin - 2007). A Fita de São Jorge reapareceu na Ucrânia, como símbolo do movimento contra o golpe em Kiev e pode ser vista no blog do Saker.

[2] O Saker escreve como analista militar. Por isso, esse trecho do postado faz lembrar – e, pode-se dizer, “acrescenta” uma visão “do outro lado”, a – o que Carlos Marighella escreveu no Manual do Guerrilheiro Urbano (aqui um trecho, recortado ao acaso):

(...) Todas estas dificuldades têm que ser superadas, o que força o guerrilheiro urbano a ser imaginativo e criativo, qualidades que sem as quais seria impossível para ele exercer seu papel como revolucionário.

O guerrilheiro urbano tem que ter a iniciativa, mobilidade, e flexibilidade, como também versatilidade e um comando para qualquer situação. A iniciativa é uma qualidade especialmente indispensável. Nem sempre é possível antecipar tudo, e o guerrilheiro não pode deixar-se confundir, ou esperar por ordens. Seu dever é o de atuar, de encontrar soluções adequadas para cada problema que encontrar, e não se retirar. É melhor cometer erros atuando a não fazer nada por medo de cometer erros. Sem a iniciativa não pode haver guerrilha urbana.

Outras qualidades importantes no guerrilheiro urbano são as seguintes: que possa caminhar bastante; que seja resistente à fadiga, fome, chuva e calor; conhecer como se esconder e vigiar, conquistar a arte de ter paciência ilimitada; manter-se calmo e tranquilo nas piores condições e circunstâncias; nunca deixar pistas ou traços. Ante as dificuldades quase impossíveis da guerra urbana, muitos camaradas enfraquecem, se vão, ou deixam o trabalho revolucionário. [Aqui fica, em homenagem]


[3] Orig. escape velocity: É a velocidade que um objeto tem de atingir para conseguir livrar-se da atração gravitacional de um planeta, ou da Lua, e separar-se, sem propulsão extra. Por exemplo, uma espaçonave que parta da superfície da Terra, tem de estar voando a quase 25 mil milhas por segundo para conseguir vencer a atração gravitacional e seguir viagem, sem cair de volta à Terra, ou ficar presa em órbita terrestre.