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sexta-feira, 11 de julho de 2014

Vladimir Putin: “Rússia busca cooperar com uma América Latina unida, forte e independente”


10/6/2014, Entrevista concedida por Vladimir Putin à Prensa Latina e Itar Tass (Editada por Russia Today TV)
Traduzida do espanhol pelo pessoal da Vila Vudu



Estamos interessados numa América Latina unida, forte, economicamente sustentável e politicamente independente, que se está convertendo em parte importante do mundo multipolar e emergente – disse o presidente da Rússia, Vladimir Putin.

O líder russo fez várias importantes declarações numa entrevista concedida às agências Prensa Latina e Itar-Tass, na véspera de partir em viagem por vários países latino-americanos. Abordou amplo leque de temas de interesse comum, da cooperação comercial até a importância da Copa do Mundo de Futebol, que está chegando ao final no Brasil e imediatamente será levada à Rússia, onde será realizada em 2018.

O respeito da América Latina à liberdade e a outras culturas

Segundo o presidente russo, na região latino-americana há fortes tradições de respeito à liberdade, a outros povos e culturas, e praticamente não há disputas entre estados; tampouco se vê, entre os países latino-americanos o jogo de “dividir para governar”. Em vez disso, os países latino-americanos mostram-se dispostos a trabalhar conjuntamente para defender a sua casa latino-americana comum.

Putin garantiu que atualmente a cooperação com os Estados da América Latina é uma das direções chaves e muito promissoras da política exterior da Rússia. o multilateralismo nos assuntos mundiais, o respeito às leis internacionais, o fortalecimento do papel central da ONU e do desenvolvimento sustentável são os princípios que nos unem – enfatizou. O presidente russo agradeceu aos latino-americanos o apoio às iniciativas internacionais promovidas pela Rússia, incluídas a desmilitarização do espaço, o fortalecimento da segurança internacional em matéria de informação, a inadmissibilidade de glorificar-se o nazismo.

É crucialmente importante para nós que, nas relações entre Rússia e América do Sul mantenha-se uma  continuidade que reflete os interesses fundamentais e nacionais, independentemente da formação política que lidere num ou noutro país, nesse momento – afirmou.

É inconsistente a ideia de impor a outras nações modelos alheios de desenvolvimento

Em relação a atual ordem mundial, o presidente russo considera que “ele mundo do século 21 é global e interdependente, pelo qual nenhum Estado o grupo de Estados pode resolver os principais problemas internacionais por sua conta. Mesmo assim, cada intento de estabelecer algum “oásis de estabilidade e segurança” está condenado ao fracasso.

Segundo Putin, os diversos desafios e ameaças dos tempos modernos exigem que todos nos oponhamos às tentativas para impor a outras nações os modelos de desenvolvimento alheios. Advertiu que essa atitude já havia demonstrado sua inconsistência. Não apenas não ajuda a resolver conflitos como, também, desestabiliza e gera o caos em assuntos internacionais.

Referindo-se ao escândalo da espionagem massivo pelos EUA, opinou que trata-se não só de pura hipocrisia nas relações entre aliados e parceiros, mas, também, é ataque direto à soberania dos estados, além de violação de direitos humanos e da privacidade. Assegurou que a Rússia está disposta a cooperar para elaborar um sistema de medidas para garantir a segurança da informação internacional.

La CELAC e a União Aduaneira, dispostas a cooperar

Em referência à integração russo-latino-americana, o presidente russo qualificou como promissor o início dos contatos entre a CELAC e os países membros da União Aduaneira, o Espaço Econômico Comum.

Estamos abertos a interatuar de maneira substancial também com outras associações de integração na região latino-americana, inclusive no marco da comunidade que está emergindo. Refiro-me à União de Nações Sul-americanas (UNASUL), ao Mercado Comum do SUL (MERCOSUL), à Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (ALBA), à Aliança do Pacífico (AP), ao Sistema de Integração Centro-Americano (SICA) e à Comunidade do Caribe (CARICOM) – disse.

Especificou que a Rússia está interessada em criar alianças plenas, tecnológicas, de projetos e produção com os países da região, aproveitar ao máximo as possibilidades das economias complementares, cooperação em questões tão importantes como o petróleo e o gás, a hidroenergia e a energia atômica, a construção de aviões e de helicópteros, as infraestruturas e, nos últimos tempos, também os biofármacos e a tecnologia da informação.

Aprecio muito o diálogo com a presidenta argentina

A Argentina é hoje o principal parceiro estratégico da Rússia na América Latina, na ONU e no G-20.

Nossa visão das principais questões de política internacional é parecida ou coincidente. Entendemos ambos que é preciso formar uma nova estrutura mundial, mais justa e multicêntrica, que se baseie no Direito Internacional e no papel central, de coordenação, da ONU – disse Putin, que disse também que aprecio muito o diálogo construtivo e confidencial com a presidenta Cristina Fernández de Kirchner.

Na última década, o volume do comércio russo-argentino multiplicou-se por seis, e alcançou 1,8 bilhões de dólares, o que nos permite considerar a Argentina um dos principais sócios econômicos e comerciais da Rússia na região da América Latina – continuou o presidente russo. Acrescentou que merecerá atenção especial a intensificação da cooperação tecnológica e investimentos, especialmente nos setores de energia, energia atômica e maquinaria. Referiu-se também à cooperação na Antártida, que nos parece promissora.

Sobre a possibilidade da integração da Argentina ao grupo BRICS, disse que a Rússia vê com interesse o desejo do governo argentino de unir-se ao grupo, mas lembrou que no momento, por questões práticas, não se pensa em aumentar o número dos países BRICS. Antes de incluir novos membros, temos de otimizar os vários formatos de cooperação já estabelecidos no grupo – concluiu.

Em Cuba, Rússia está disposta a recuperar as oportunidades perdidas

As relações russo-cubanas baseiam-se numa longa tradição de amizade inquebrantável e na grande experiência de uma cooperação frutífera que é única em muitos aspectos. Nos anos 90 do século 20, os ritmos de nossa cooperação bilateral reduziram-se um pouco e os sócios estrangeiros de outros países nos superaram em várias áreas – Putin confessou. Mas, o presidente russo garantiu, os dois países estão dispostos a recuperar as possibilidades perdidas.

Hoje Cuba é um dos principais sócios da Rússia na região. Nossa cooperação é de caráter estratégico e está orientada para o longo prazo. Temos uma coordenação estreita no campo da política exterior e no marco das organizações multilaterais. Nossas posturas em relação a muitos temas globais e regionais coincidem – disse o presidente Putin.

Especificou que atualmente se estudam grandes projetos no campo da indústria, altas tecnologias, energia, aviação civil, uso pacífico do espaço cósmico, medicina e biofármacos. Uma das áreas mais importantes de nosso trabalho conjunto é intensificar os intercâmbios culturais.

O presidente disse que, devido ao desenvolvimento em Cuba da Zona Econômica Especial de Mariel, várias empresas russas manifestaram interesse em novas cooperações, em especial empresas que fabricam produtos metálicos e plásticos, peças de reposição para automóveis, montagem de tratores e de maquinaria pesada para a indústria ferroviária. Referiu-se também ao projeto da companhia Zarubezhneft S.A. que, em agosto de 2013 começou a perfurar o primeiro poço de exploração no poço Boca de Jaruco.

O potencial da cooperação com o Brasil não está completamente desenvolvido

O presidente confirmou que a Rússia apoia o Brasil como candidato digno e forte para um posto permanente no Conselho de Segurança da ONU. Disse que tem certeza de que o Brasil, país potente e de rápido crescimento tem função importante na formação da nova estrutura mundial multicêntrica.

Segundo o presidente russo, apesar que há muito tempo Rússia e Brasil manterem ativo diálogo político, com cooperação militar, técnica e cultural, o potencial da cooperação econômica e comercial com o Brasil não está sendo completamente aproveitado. Além disso, no atual contexto de insegurança da economia mundial, vê-se alguma redução do intercâmbio comercial bilateral (3,3% em 2013). Para corrigir essa situação necessitamos diversificar os vínculos comerciais: aumentar as trocas no campo dos artigos de alta tecnologia e maquinaria, desenvolver a cooperação nas áreas de aviação e energia e na agricultura.

Nova sede do Mundial de Futebol: do Brasil à Rússia

O chefe de Estado russo disse que, atendendo a convite da presidenta do Brasil e do presidente da FIFA assistirá à final do campeonato, para participar na cerimônia de transferência do título de país anfitrião. Em 2018, a Rússia acolherá pela primeira vez em sua história esse evento esportivo tão popular. Em fevereiro e março já realizados os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno em Sochi e sabemos muito bem como é difícil organizar um evento dessas dimensões.

Putin disse também que a Rússia acompanha a experiência brasileira na preparação para os Jogos Olímpicos em 2016. Revelou que a Rússia guarda algumas “surpresas”, para ultrapassar o país anfitrião de 2016: incluímos na lei federal um regime especial para vistos de entrada no país para estrangeiros que vão ajudar a preparar o campeonato de 2018. Nas vésperas das competições e durante a celebração, não só os participantes oficiais – atletas, árbitros, treinadores, etc. – mas também os torcedores poderão visitar a Rússia sem precisar de visto de entrada.

Finalmente, o presidente destacou a participação latino-americana no Mundial. Disse que está acompanhando de perto sempre que o horário permitiu, e apreciou o futebol brilhante, espetacular que mostraram as seleções.



quinta-feira, 10 de julho de 2014

Pepe Escobar: “A Queda de uma Superpotência”

9/7/2014, [*] Pepe Escobar (pelo Facebook)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sei que não tem importância alguma. Israel está bombardeando Gaza, Kiev está bombardeando a Ucrânia do leste, o Califa anda por aí totalmente pirado, o Império do Caos joga rouba-monte. Mas, agora, tenho de desabafar.

Praia em Santo André, Bahia
Estava guardando essa foto para o momento certo. É hoje. Conheçam um paraíso tropical clássico – Santo André, na Bahia, perto do local onde o Brasil foi “descoberto” pela Europa em 1500.

O campo de treinamento dos alemães está aí, depois das árvores, à esquerda da foto.

Eu também estava aí no início da Copa do Mundo, na casa de Anna, minha amiga e anfitriã generosa. O campo de treino dos alemães – de fato, um condomínio de casas de veraneio – foi vedado e adaptado com perfeição. Mas os jogadores visitavam a vila, visitaram a escola local, dançaram com índios pataxó, andavam pela praia ao raiar do dia. E treinaram MUITO. Disciplina, compromisso, trabalho decente – e curtindo cada minuto desse apaixonante canto do paraíso. Foi aí que os já famosos/infames 7-1 da demolição do futebol brasileiro começaram.

O time do Brasil, entrementes, estrelava um convulsionante, lacrimoso (literalmente) psicodrama enlouquecido que envolveu 200 milhões de pessoas. Foi como uma telenovela abismal – NENHUM trabalho decente ou disciplina; só Plim-Plim e um doentio sentimento de posse: “é nossa” (a taça). Tinha de ser deles, porque, afinal, o principal mito nacional brasileiro ensina que “Deus é brasileiro”.

Como parábola da globalização, muito antes da Copa, o Brasil – que um dia foi superpotência futebolística – já havia sido reduzido, por níveis concêntricos de má administração, a um papel subalterno de exportador de matéria prima (jogadores de talento, por exemplo). Nem uma linha de qualquer ideia de investir no futuro; tudo sempre se tratou de lucrativos “direitos” de transmissão por televisão, reservados sempre, como privilégio, só a algumas redes.

Equipe sub-12 do DSV Leoben 
A Alemanha, por outro lado, desde que perdeu a Copa do Mundo de 2002 (para o Brasil), passou a investir em vasta rede de escolas de futebol, parte de um programa nacional de fomentar o surgimento de talentos e dar-lhes educação e formação. E de preparar técnicos.

Três horas antes do início da humilhação dos 7-1, meu barbeiro pediu-me um palpite para o jogo. “Alemanha 4 a zero”, mandei eu. Todos ficaram boquiabertos. Ora, ora... Viajei da Ásia, depois da Europa, para cobrir a Copa do Mundo aqui, como se estivesse cobrindo uma guerra. E o que de início era só desconfiança confirmou-se, quando começou a desenrolar-se o psicodrama envolvendo 200 milhões de pessoas.

Todos os sinais indicavam que “o grupo”, um bando de jovens milionários psicologicamente instáveis estava a ponto de explodir espetacularmente. Já haviam ameaçado explodir no jogo contra o Chile; depois novamente no jogo contra a Colômbia. Até que finalmente aconteceu durante 6 minutos, enquanto a Alemanha fazia quatro gols – e, aos 29 minutos, já ganhava por 5-0.

Surpresa? Não, de fato, não. O Brasil já deixou há muito tempo de jogar “jogo bonito”, depois daquele fabuloso 1970, e, depois, do mais bonito ainda, que jamais venceu coisa alguma, em 1982. Depois daquilo, o Brasil, lar do jogo bonito, virou mais um mito – um elaborado truque de marketing (com “uma mãozinha” da Nike).

E os brasileiros gostaram da autoenganação, enrolados numa grife de nacionalismo perenemente barata tipo “We Are the Champions”. Deu no que deu. A Alemanha fez a coisa certa – “jogo bonito” de verdade, com passes cintilantes, acabamento perfeito, triangulação elegantíssima, padrão Chicago Bulls dos seus dias de glória.

O time dos brasileiros entrou em colapso nervoso, antes de tudo, por razões táticas/técnicas; foi time sem meio campo, jogando contra o melhor meio de campo do planeta. Culpa dos cartolas, da Confederação Brasileira de Futebol e da “Comissão Técnica” que indicaram – bando de ignorantões arrogantes sem talento, que reproduz, igualzinho, sem tirar nem pôr, a arrogância/ignorância das elites políticas e econômicas brasileiras, velhas e novas. Assim como a polícia brasileira, bem ironicamente, desmantelou uma gangue de gente da FIFA que vendia ingressos no mercado negro no Rio de Janeiro (a Scotland Yard nem desconfiava!), mais uma vez deixaram passar a outra gangue – que enche os corredores e os gabinetes do futebol brasileiro.

Haverá infindáveis reverberações políticas sobre esses 7-1 arrasadores. Vai muito além dos endinheirados brasileiros que podem pagar ingressos a preços FIFA e, simultaneamente, desprezam a presidenta Dilma pelo que gasta para melhorar as condições de bem-estar social. Com certeza tem a ver com pagar a conta da funfest da própria FIFA (US$ 4 bilhões, sem impostos) pagos pelos locais, para nem falar da conta total (espantosíssimos US$ 13,6 bilhões).

(...)

Klose bate recorde de gols de Ronaldo em Copas do Mundo
(Brasil 1 x 7 Alemanha 8/7/2014)
A maior humilhação esportiva global na memória do mundo ESTÁ diretamente relacionada à síndrome da ignorância/arrogância das elites brasileiras e ao senso de “já ganhou”/“nunca perderá”.

Ao mesmo tempo, ninguém pode aspirar a tornar-se “superpotência” quando sua autoidentidade é construída em torno de um esporte – o futebol – comandado por escroques. Os deuses do futebol decidiram encerrar o psicodrama dos 200 milhões em campo. Lamento pelos derrotados – a maioria daqueles 200 milhões de torcedores, muitos dos quais gente boa e trabalhadora, porque foram engambelados.

O Brasil pode beneficiar-se de quantidades ilimitadas de soft Power em todo o mundo, mas vocês têm de se livrar dessa sua elite corrupta e ineficiente. Se o futebol continua a ser o único elemento que mantém coeso o país, melhor começar a pensar sério, compreender de onde brotou a humilhação, livrar-se para sempre desses salafrários autopromovidos a sumidades, mostrar muita humildade e trabalhar DE VERDADE. Examinem em detalhe o que fez a Alemanha – e vocês reencontrarão o paraíso.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Futebol, o inquantificável (por isso é tão fácil amá-lo)

9/7/2014, [*] Ian Steadman, NewStatesman, Londres
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vitória da Alemanha sobre Brasil por 7 a 1 vista da Colômbia
Às tantas, lá pelo quarto gol, fiquei histérico. Não é exagero. Quando Toni Kroos tirou a bola de Paulinho no 25º minuto e meteu na rede, praticamente no chute inicial do jogo, passando pela zaga do Brasil imóvel como cones, como se fosse treino, fui tomado por um surto de riso incontrolável, histérico, daqueles que fazem o corpo doer. Quando a razão nos abandona, ficamos expostos ao confronto direto com o irracional, o inesperado. E nada mais irracional e inesperado que o Brasil capitular, como capitulou ontem. Quando o quinto entrou, eu saí da sala.

Minha linha do tempo da [empresa] Twitter era só linhas e linhas de pontos de exclamação !!!!!!!!!!!!!, a mais próxima que jamais vi de uma narrativa em passo de fluxo de consciência. “O-u-KÊ é iço?” “Naum, naum pode sê.” “Santo Deus.” “Poooooorra! Po-u-rra!” Pela primeira vez, senti que o Twitter não é tão imediato quanto teria de ser para acompanhar a vida real. (…).

Depois, o pessoal acalmou-se e começou a escrever gracinhas. Minha preferida dizia: “Te pego, cisne negro!” [assina “Silver”].

Silver, como sabemos, é o editor-chefe da FiveThirtyEight, página de Internet da ESPN na qual trabalham em tempo integral uma dúzia de gente especializada em construir dados para jornais e “números mastigados”. O pessoal ali estava acompanhando a Copa do Mundo da FIFA, gerando probabilidades de sucesso para cada equipe, em cada jogo.

Antes do jogo de ontem, haviam publicado que o Brasil tinha 65% de chances de derrotar a Alemanha (e se Neymar e Thiago Silva estivessem disponíveis e tivessem sido escalados, a probabilidade subia para 73%).


Hoje, já passado o jogo e conhecido o resultado, Silver escreveu uma espécie de mea culpa:

Fomos escalados para comer grama. Aquela previsão naufragou.

Previsão que naufraga, no jargão da página, é um “cisne negro”, termo introduzido por Nassim Taleb em seu livro do mesmo nome. Silver escreve:

Modelos estatísticos podem falhar nos pontos extremos de uma distribuição de probabilidades. Quase nunca há dados históricos para distinguir a probabilidade de “1 em 400”, de “1 em 4.000”, de “1 em 40 mil.

Prever o futuro baseado em dados e rankings passados, tudo muito bem, quando dá tudo certo; mas quando as coisas não dão certo, pode acontecer de elas darem muito, muito, muito errado.

A discussão de Silver sobre por que aquela predição deu errado, e o que ficou faltando, é interessante porque mostra que dados preparados para o jornalismo, e um esporte como o futebol, pouco têm a ver uns com o outro.

Quer dizer: quando não se pode quantificar cada um dos fatores relevantes para uma predição, você não apenas limita a acuidade de sua predição: você também fica limitado na capacidade para entender o quanto você está limitado.

Silver diz que as bolsas e mercados de apostas são melhores que as estatísticas oficiais na previsão do que acontece; diz também que a perda de Neymar e Silva foi o fator de mais impacto, e teve impactos diferentes; e que alguns jogadores (como o goleiro Julio Cesar) jogaram abaixo do seu desempenho padrão.

Silver absolutamente não considera um fator sobre o qual todos os “especialistas” falavam antes, durante e depois do jogo: a pressão da ocasião sobre os jogadores brasileiros, sob a perene assombração da derrota da seleção nacional na Copa do Mundo de 1950, o infame “Maracanaço”.

Maracanaço (1950)
A reputação de Silver é devida ao sucesso do trabalho dele nas análises de beisebol e análises político-eleitorais. Foi dos mais importantes defensores e divulgadores da Sabermetrics (divulgada no livro Moneyball), que divide as ações individuais de jogadores em dados estatísticas que podem ser usados por técnicos, agentes, especialistas, para aprimorar inúmeras atividades, de um modo que, antes, jamais fora possível.

(…)

Beisebol e política, é claro, não são imunes aos eventos “cisne negro” – mas eles são quase sempre bem previsíveis, pelo menos em altíssimo nível. Os jogadores de beisebol não podem realizar quaisquer ações, só algumas, que têm espaço limitado de resultados, o que torna o beisebol jogo assemelhado a outros, como o xadrez; as técnicas de amostragem são hoje tão sofisticadas, que um estatístico competente pode acabar com praticamente qualquer dúvida quanto ao resultado de uma eleição.

Não estou aqui para “demonstrar” que futebol seria “melhor” como esporte, que beisebol ou eleições, porque o futebol escapa de qualquer microscópio que se aplique a ele. Meu objetivo é declarar que amar o futebol exige que aceitemos o padecimento de nos deixar devastar até quase morrer de dor ou de êxtase, sem aviso, regularmente.

Prova disso nos dá o físico Stephen Hawking. Em maio, antes do início da Copa do Mundo da FIFA, a casa de apostas Paddy Power convidou jornalistas para o Hotel Savoy em Londres, para o lançamento do resultado de uma “pesquisa exclusiva sobre COMO A INGLATERRA PODE VENCER A COPA DO MUNDO DA FIFA (sic)”. Hawking pode ser doido – seu spot de publicidade Specsaver (vídeo no fim do parágrafo) é ridículo − e converter uma carreira de físico em apoio lucrativo à notoriedade pop não é feito do qual se orgulhar, mas fato é que, sim, ele produziu a tal pesquisa, com fatos e números.


A pesquisa está disponível e pode ser baixada e lida. É claro que Hawking não a submeteu a revisão técnica por seus pares acadêmicos – os conjuntos de dados são pequenos e não produziriam resultados estatisticamente significantes (para ficarmos só nessa etapa da crítica) – mas quis comentá-la aqui, porque absolutamente não é muito menos idiota que as previsões que FiveThirtyEight oferece sobre futebol.

Os fatores que Hawking considera em sua análise – distância da pátria ao estádio; temperatura no dia do jogo; altitude do estádio; horário do início do jogo, cor da camisa (é sério! A cor da camisa é fator determinante em muitos esportes de competição), idade dos jogadores, idade do capitão, nacionalidade do árbitro, continente de origem da equipe adversária, formação do time – todos esses são fatores que incidem sobre e influenciam o resultado de um jogo de futebol.

É nas generalizações, contudo, que se pode ver como é difícil quantificar o futebol. É claro que os jogadores terem de viajar longas distâncias para um jogo obviamente altera o quanto estejam fisicamente preparados – mas quanto altera, exatamente? Faz alguma diferença que mudem de fuso horário (da Inglaterra ao Brasil, em 2014) ou não (Inglaterra para África do Sul, em 2010)? E se alguns jogadores estiverem viajando mais que outros, porque jogam em times de outros países? Jogadores na casa dos 20 anos serão mais dinâmicos, mais rápidos, com maior aceleração inicial que jogadores na casa dos 30 anos – mas o “auge” de um jogador profissional pode ter sido alterado ao longo das décadas, com cientistas do esporte aprendendo cada vez mais como treinar o corpo humano? Um árbitro de determinado país pode ter preconceitos contra determinado time em 2014 – mas as circunstâncias geopolíticas sempre mutáveis podem alterar até os preconceitos?

É como tentar traçar, com um lápis, o perfil da própria sombra: cada movimento do braço modifica a sombra; sombras são entidades em perpétua modificação. Não há como quantificar o estado emocional da equipe brasileira em Belo Horizonte ontem, nem a atmosfera criada pela multidão, nem a significação daquele momento, nem a pressão que David Luiz deve ter sentido, ao ver-se comandante de sua equipe, pela primeira vez capitão, numa semifinal da Copa do Mundo e a sem dúvida inafastável preocupação a lhe martelar a cabeça, de que alguma coisa podia dar errado.

Mineiraço -2014 − Alemanha comemora seu 4º gol
Essa Copa do Mundo da FIFA já ficou marcada como uma das maiores, se não a maior de todos os tempos, pelos choques que gerou. É a copa do mundo das contradições. Todos os dias pelo menos um jogo desses que atropelam narrativas predeterminadas de quem “devia” ganhar, de quem “devia” marcar gols. Mesmo assim, os quatro semifinalistas são os mais absolutamente previsíveis e sempre previstos – Brasil, Alemanha, Holanda, Argentina. Mas vimos a equipe do Brasil ser trinchada e desossada pela Alemanha, mais depressa que em qualquer jogo entre um gigante e uma equipe de várzea nas eliminatórias; seria até esperável, num jogo entre Costa Rica e Itália; ou Irã e Argentina. Foi ao mesmo tempo chocante e previsível.

Surpreendi-me, dia desses, ao saber que não há sequer critério estabelecido e aceito universalmente para medir o que se chama “posse de bola”. O futebol – como o basquete, ou hóquei e qualquer outro esporte com tipo semelhante de liberdade pessoal de expressão – exige que aceitemos a incerteza, se o amamos. O barato é o choque.


[*] Ian Steadman - Jornalista especializado em ciências, estatística, tecnologia do NewStatesman

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Presidente Vladimir Putin assistirá à final da Copa do Mundo no Maracanã

18/6/2014, Contrainjerencia – Diário “Isvestiya”
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu. Tradução: redecastorphoto

Vladimir Putin
O presidente russo, Vladimir Putin, viajará ao Brasil para assistir a partida final da Copa do Mundo de Futebol e a entrega da bandeira olímpica à cidade do Rio de Janeiro, sede do Jogos Olímpicos de verão de 2016, conforme informa a imprensa russa

Putin será recebido pela presidenta brasileira, Dilma Rousseff e assistirá a partida decisiva da Copa em 13/7/2014 no estádio Mário Filho (Maracanã) no Rio de Janeiro, conforme informou o Diário “Isvestiya”, citando fontes oficiais.

Lembramos que a Rússia sediará a próxima Copa do Mundo em 2018.

Pouco antes ou logo após a partida final, ainda conforme o Diário “Isvestiya”, os presidentes de Brasil e Rússia irão à Casa da Rússia no Rio de Janeiro para participar da cerimônia na qual Putin entregará a Bandeira Olímpica ao prefeito da cidade-sede em nome da cidade de Sochi, sede dos últimos Jogos Olímpicos de Inverno celebrados há 5 meses.