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terça-feira, 30 de abril de 2013

Discurso do Aiatolá Ali Khamenei, Líder Supremo da Revolução Islâmica Iraniana


Conferência da Comunidade Mundial Muçulmana e Despertar Islâmico em 29/4/2013

29/4/2013, Íntegra do Discurso de Abertura, Teerã, The Shia Post
Traduzido do inglês pelo pessoal da Vila Vudu


Aiatolá Ali Khamenei
Em nome de Alá, o Generoso, o Misericordioso.

Todas as honras a Alá, Senhor dos Mundos. Que cubra de paz e recompensas nosso Mestre, Maomé al-Mustafa, e sua família imaculada, seus companheiros escolhidos e os que os seguem, até o Dia do Julgamento.

Recebam nossas boas-vindas, honrados hóspedes. Peço a Deus, Superior e Generoso, que abençoe esse esforço coletivo e faça dele um passo efetivo para a felicidade dos muçulmanos. “Ele sempre ouve e responde.”

Hoje, o assunto do Despertar Islâmico, que vocês discutirão nessa conferência, ocupa o primeiro lugar dentre as questões do mundo islâmico e da Ummah [comunidade] islâmica, bem-vindo fenômeno, que resultará na re-emergência da civilização islâmica – para a Ummah e, portanto, para todo o mundo – em futuro não muito distante, desde que, se Alá o permitir, permaneça saudável e promissora.

Hoje, o que todos vemos à frente dos olhos e não pode ser negado por nenhum indivíduo informado e inteligente é que o mundo do Islã emergiu da periferia das equações sociais e políticas do mundo; que tem hoje posição proeminente, destacada, no centro de eventos globais decisivos; e que oferece modo novo de ver a vida, a política, o governo e os desenvolvimentos sociais. É fenômeno considerado importante e significativo no mundo contemporâneo, que sofre num profundo vácuo intelectual e teórico, depois do fracasso do comunismo e do liberalismo.

Esse é o primeiro sinal de eventos políticos e revolucionários no Norte da África e da região árabe em escala global, sinal, ele próprio, de grandes verdades que virão à luz no futuro.

O Despertar Islâmico, que as vozes no campo reacionário e arrogante sequer ousam pôr em palavras, é verdade cujos sinais se veem em quase todos os pontos do mundo islâmico.

O sinal mais óbvio é o entusiasmo na opinião pública, sobretudo entre os jovens, para reviver a glória e a grandeza do Islã, para tomar consciência da natureza da ordem internacional, que é ordem de dominação, e para remover a máscara que esconde os rostos desavergonhados, opressores e arrogantes de governos e centros que nada fazem além de torturar em suas garras o Oriente islâmico e não islâmico, há mais de 200 anos; e que expõem países à ânsia deles, brutal e agressiva, cada vez por mais poder, ânsia que mostram disfarçada sob uma máscara de civilização e cultura.

As dimensões desse auspicioso despertar são amplas e misteriosas, mas o que se viu de seus feitos recentes em alguns poucos países do Norte da África basta para nos fazer confiar que haverá resultados notáveis, no futuro.

O miraculoso cumprimento de promessas divinas é sempre sinal inspirador de esperanças de que grandes promessas também se cumprirão.

O relato corânico das duas promessas que Alá o Misericordioso fez à mãe do Profeta Moisés é exemplo dessa tática divina. Naquele momento difícil, quando lhe foi ordenado que ela jogasse ao rio o próprio filho, numa cesta, Alá o Misericordioso disse: “Nós com certeza O traremos de volta a você e faremos Dele um dos mensageiros” [Santo Corão, Sura al-Qasas, Ayah 7].

O cumprimento da primeira promessa, que foi a menor, e causa de felicidade para a mãe, tornou-se o signo do cumprimento da missão profética, que era muito maior e, claro, exigia muito sofrimento, muita luta e muita paciência: “Assim Nós o devolveremos à mãe, cujos olhos serão refrescados, e ela não sofrerá e saberá que é verdadeira a promessa de Alá” [Santo Corão, Sura al-Qasas, Ayah 13].

Essa verdadeira promessa foi a grande missão que foi cumprida muitos anos depois e mudou o curso da história.

Outro exemplo é a recordação do superior poder de Deus para expulsar os invasores da Casa Santa: para estimular Seu público mediante o Santo Profeta, a submeter-se à Sua ordem, Alá o Misericordioso usa esse exemplo, “então eles serviram o Senhor na casa Dele” [Santo Corão, Sura Quraysh, Ayah 3] e diz, “Não fará Ele que a guerra deles termine em confusão?” [Santo Corão, Sura al-Fil, Ayah 2].

Assim também, para elevar o espírito de Seu amado Profeta e convencê-lo da verdade da promessa, “o seu Senhor não o abandonou, nem está desagradado” [Santo Corão, Sura ad-Dhuha, Ayah 3], Alá o Misericordioso faz-nos lembrar da bênção miraculosa: “Ele não encontrou você, órfão, e deu-lhe abrigo? Ele encontrou você perdido e guiou-o.” [Santo Corão, Sura ad-Dhuha, Ayah 6-7]. E o Santo Corão é farto de exemplos como esses.

No dia em que o Islã venceu no Irã e conseguiu tomar a fortaleza ocupada por EUA e pelo sionismo, num dos mais importantes países do mundo, nessa região tão extremamente sensível, os lúcidos e inteligentes rapidamente entenderam que, se tivessem visão e paciência, outras vitórias viriam, uma depois da outra.

As verdades luminosas da República Islâmica, reconhecidas por nossos inimigos, foram alcançadas, todas, com confiança nas promessas divinas, com paciência, resistência e a ajuda de Deus. À face de tentações que os fracos traziam durantes esses tempos tensos e gritavam que “seremos derrotados, sem dúvida”, [Santo Corão, Sura ash-Shuara, Ayah 61], nosso povo sempre gritou, em resposta: “nunca nos derrotarão. Meu Senhor está comigo e Ele me guiará” [Santo Corão, Sura ash-Shuara, Ayah 62].

Hoje, essa é preciosa experiência acessível aos povos que se levantam contra a arrogância e a tirania e conseguiram derrubar e abalar governos corruptos, subservientes e dependentes dos EUA.

Resistência, paciência, visão e fé na promessa divina “Alá com certeza ajudará os que ajudam Sua causa” pavimentarão o caminho da glória da Ummah Islâmica, até que alcance o pico da civilização islâmica.

Nessa importante reunião, da qual participam intelectuais e pensadores religiosos da Ummah Islâmica de diferentes países e denominações islamistas, parece-me adequado discutir alguns pontos necessários, relacionados ao Despertar Islâmico.

O primeiro ponto é que nas ondas iniciais do Despertar Islâmico nos países dessa região, que começaram simultaneamente com a entrada dos pioneiros do colonialismo, foram provocadas principalmente pela religião ou por reformadores religiosos.

Os nomes dos principais líderes e personalidades – como Sayyid Jamal ad-Din, Muhammad Abduh, Mirza-e Shirazi, Akhund-e Khorasani, Mahmoud al-Hassan, Muhammad Ali, Sheikh Fazlollah, Hajj Agha Noorullah, AbulA’laMaududi e dezenas de afamados, grandes mujahid e clérigos influentes do Irã, Egito, Índia e Iraque – serão lembrados para sempre nos livros de História. Do mesmo modo, na era contemporânea, o brilhante nome do grande Imã Khomeini brilha como estrela luminosa do futuro da Revolução Islâmica.

Assim também, hoje e no passado, centenas de intelectuais religiosos famosos e milhares de outros menos conhecidos, desempenharam e desempenham papel importante em grandes e pequenos movimentos de reforma em diferentes países. A lista de reformadores religiosos não clérigos, como Hassan al-Banna e IqbalLahori, também é longa e impressionante.

Praticamente por toda parte, clérigos e teólogos atuam como autoridade intelectual e suporte espiritual para o povo, e por onde surgiram brilharam no papel de guias e pioneiros ao tempo dos grandes desenvolvimentos e têm feio andar avante as linhas de vanguarda de movimentos populares, enfrentando todo o tipo de perigo; o laço intelectual entre eles e o povo só faz fortalecer-se e desempenham papel crucial, no trabalho de indicar o caminho ao povo.

Isso é tão benéfico à onda do Despertar Islâmico quando desagrada e perturba os inimigos da Ummah Islâmica, os que têm preconceito contra o Islã e os que se opõem aos valores islâmicos. E esses estão tentando roubar essa autoridade intelectual dos centros religiosos, e criar novos centros para substituí-los. Sabem, porque aprenderam da experiência, que podem facilmente interferir nesses centros, onde tentam quebrar os princípios e valores nacionais – o que de modo algum conseguiriam no caso de intelectuais religiosos e personalidades religiosas devotas.

Esse processo torna ainda mais pesada a responsabilidade dos intelectuais religiosos. Com cautela e espírito vigilante, e desmascarando os métodos e maquinações do inimigo, devem fechar completamente a porta a qualquer infiltração, e devem, assim, fazer gorar os projetos do inimigo.

Um dos grandes riscos é deixar-se atrair pela riqueza mundana. Exposição aos favores dos ricos e dos poderosos, endividar-se em antros de ganância e poder são a causa mais perigosa da separação que acontece, quando eles separam-se do povo, perdem a amizade do povo e a confiança do povo.

O autocentrismo e a sede de poder, que arrasta indivíduos fracos a inclinar-se na direção dos polos de poder, preparam o terreno para que se deixem envolver em corrupção e vícios. É preciso manter em mente sempre esse santo ayah corânico: “[quanto ao futuro] Nós o reservamos aos que não desejem se autoexaltar na terra nem fazer o mal. E o bom resultado final é reservado aos que se guardem [contra o mal]” [Santo Corão, Sura al-Qasas, Ayah 83].

Hoje, em tempos de tantos movimentos inspiradores no Despertar Islâmico, veem-se, às vezes, algumas coisas que, por um lado, mostram os esforços que fazem os agentes dos EUA e do sionismo para inventar autoridades intelectuais em quem ninguém pode confiar; e mostram também, por outro lado, os esforços de infelizes Qaruns, [1] para arrastar gente religiosa e pia na direção de suas atividades envenenadas e contaminadas. Intelectuais religiosos e os homens pios devem ser extremamente cuidadosos e vigilantes.

O segundo ponto é a necessidade de delinear-se uma meta de longo prazo para o Despertar Islâmico em países muçulmanos – alto e nobre objetivo que dará orientação ao despertar nas nações e ajudá-las-á a chegar a um dado ponto proposto. Ao identificar esse ponto específico, será então possível preparar um mapa do caminho, especificando nele os objetivos de médio prazo e de longo prazo.

Esse objetivo final só pode ser a criação de uma brilhante civilização islâmica. Todas as partes da Ummah Islâmica – sob a forma de diferentes nações e países – devem alcançar tal posição civilizacional especificada no Santo Corão. A característica geral e principal dessa civilização é permitir que os seres humanos usem plenamente as capacidades materiais e espirituais que Alá o Misericordioso depositou neles, como ferramentas para criar felicidade e transcendência para toda a humanidade.

A estrutura de superfície dessa civilização pode e deve estar presente no governo popular, nas leis extraídas do Santo Corão, no trabalho de identificar e cuidar de suprir as diferentes necessidades humanas, evitando atitudes rígidas e reacionárias, tanto quanto a inovação ou adulteração intestadas, gerando riqueza pública e bem-estar social, implantando a justiça, libertando-nos de uma economia baseada em privilégios especiais e na usura e que se orgulha de ostentar riqueza, promovendo valores humanos, defendendo os povos oprimidos do mundo, com imaginação e muito trabalho. Adotar uma abordagem ijtihadi [2] e de especialista nas diversas áreas – das humanidades ao sistema de educação formal; da economia e banking à produção técnica e tecnológica; da moderna mídia à arte e ao cinema e às relações internacionais e outros campos – é uma das exigências inevitáveis para construir essa civilização.

A experiência já mostrou que tudo isso é possível e está ao alcance das capacidades das comunidades muçulmanas. Essa visão não deve ser discutida com pressa, nem com espírito pessimista. Ser pessimista quanto às próprias capacidades é ingratidão, ante as bênçãos que recebemos de Deus; é fazer pouco caso da ajuda de Deus e cultivar “pensamentos do mal sobre Alá” [Santo Corão, Sura al-Fath, Ayah 6].

Podemos quebrar a cadeia dos monopólios científicos, econômicos e políticos das potências dominantes e ajudar a Ummah a ser pioneira na restauração dos direitos da maioria das nações do mundo – até hoje dominada por um punhado de potências arrogantes, minoritárias.

Pela fé religiosa, pelo conhecimento, pela ética e pela luta constante, a civilização islâmica pode oferecer um presente avançado e códigos nobres de comportamento à Ummah islâmica e a toda a humanidade. E pode ser o ponto de libertação da visão materialista e opressiva e dos códigos corrompidos de comportamento que são os tristes pilares da atual civilização ocidental.

O terceiro ponto é que nos movimentos do Despertar Islâmico é preciso prestar atenção constante à amarga, horrenda experiência de seguir o ocidente na política, no comportamento e no estilo de vida.

Em mais de um século de seguir a cultura e a política das potências arrogantes, países muçulmanos sofreram calamidades mortais, como a humilhação e a dependência política, pragas econômicas e miséria, declínio das virtudes morais e éticas e vergonhoso atraso científico e, isso, enquanto a Ummah muçulmana vivia história gloriosa em todos esses campos.

Essa declaração não deve ser interpretada como hostilidade contra o ocidente. Não somos hostis a nenhum grupo de seres humanos por causa de diferenças geográficas. Aprendemos as lições de Ali [que todas as bênçãos recaiam sobre ele], que assim descreve os seres humanos: “Os que têm a mesma religião que você, são seus irmãos; e os que têm outras religiões diferentes da sua, são também seres humanos, como você”.

Nossa voz clama contra a opressão e a arrogância e contra os abusos e transgressões na moral, e contra a degeneração prática que foi imposta a nossas nações pelas potências coloniais e arrogantes.

Atualmente, todos testemunham os abusos e a interferência dos EUA e de alguns de seus seguidores na região e nos países nos quais a brisa do despertar converteu-se numa tempestade de levantes e revoluções. As promessas que fazem não devem afetar as decisões nem as ações de destacadas personalidades políticas nem o grande movimento do povo.

Também nesse caso, precisamos nos servir das lições que aprendemos de nossa experiência: os que depositaram suas esperanças nas promessas dos EUA durante anos, e basearam seu comportamento e suas políticas na inclinação a favor do opressor e da opressão, não conseguiram resolver nenhum dos problemas de suas nações ou eliminar a injustiça contra eles mesmos ou contra outros.

Renderam-se aos EUA. Nem por isso conseguiram impedir a demolição de uma única casa, que fosse, de palestinos, num território que pertence aos palestinos. Políticos e autoridades que se deixaram enganar por suborno ou intimidar pelas ameaças das potências arrogantes e perderam a grande oportunidade do Despertar Islâmico têm muito com que se preocupar, ante essa ameaça divina: “Não viram os que trocaram o favor de Alá por ingratidão e empurraram o próprio povo, pela perdição, para o inferno? Eles lá entrarão e aquele é mau lugar para viver” [Santo Corão, Sura Ibrahim, Ayah 28-29].

O quarto ponto é que hoje uma das coisas mais perigosas que ameaçam os movimentos do Despertar Islâmico são os esforços para fomentar a discórdia e fazer, daqueles movimentos, conflitos sectários, étnicos e nacionais sangrentos.

Hoje esse é o complô no qual trabalham empenhadamente os serviços de inteligência ocidentais e o sionismo, com a ajuda de petrodólares e políticos subornados, do Leste da Ásia ao Norte da África, particularmente na região árabe. E o dinheiro que poderia ter sido usado para trazer felicidade à humanidade está sendo usado para ameaçar, excomungar, assassinar, bombardear, derramar sangue muçulmano e fazer crescer o fogo de lutas que se arrastam por muito tempo.

Os que consideram o poder unificado do Islã como obstáculo na via para alcançarem seus objetivos do mal chegaram à conclusão de que soprar as chamas de conflitos e disputas dentro da Ummah Islâmica é o caminho mais fácil para alcançar seus objetivos satânicos. E usaram diferenças de opinião na jurisprudência islâmica, kalaam, [3] história e hadith [4] – diferenças que são naturais e inevitáveis – como pretexto para excomungar, matar, ferir e causar fitna [5] e corrupção.

Um olhar atento sobre a cena de conflitos domésticos perceberá claramente as mãos do inimigo por trás dessas tragédias. São mãos de falsidade e burla, que, sem dúvida, tiram vantagem da ignorância, do preconceito e da superficialidade que há em nossas sociedades; e jogam gasolina nas fogueiras. Quanto a isso, é enorme e pesadíssima a responsabilidade de reformadores religiosos e políticos e de personalidades de destaque.

Hoje, a Líbia, o Egito e Tunísia, a Síria, o Paquistão, e Iraque e Líbano estão, de um ou de outro modo, envolvidos ou expostos a essas chamas perigosas.

É preciso ser extremamente cauteloso e buscar remédio. Seria ingenuidade pensar que todas essas coisas devem-se a fatores ou motivos ideológicos e étnicos.

Campanhas de propaganda do ocidente e da imprensa-empresa mercenária e dependente na região insiste em repetir que a guerra que está destruindo a Síria seria conflito xiitas versus sunitas; criaram uma cerca de proteção atrás da qual se acocoram os sionistas e os inimigos da resistência na Síria e no Líbano. Isso, quando se sabe que os lados em guerra na Síria não são xiitas e sunitas: são os apoiadores e os que se opõem à resistência antissionistas. Nem o governo sírio é governo xiita, nem a oposição anti-Islã, secular, que luta contra o governo é grupo sunita.

A única coisa que esses criadores de ardis e complôs e do atual cenário calamitoso fizeram foi usar os sentimentos religiosos do povo mais simples para atear fogo assassino à região. Basta examinar a cena e os envolvidos nela em diferentes níveis, para entender claramente a questão e poder explicá-la a qualquer pessoa.

Também no caso do Bahrain, essa onda de propaganda se espalha, distribuindo mentiras e falsidades, mas de outro modo. No Bahrain, a maioria oprimida – privada do direito de votar, além de outros direitos fundamentais de qualquer nação – ergueram-se e exigem direitos que são deles. Por que inventar que seria conflito xiita-sunita, que não é? A verdade é que no Bahrain a maioria oprimida é xiita; e o governo opressor secular finge ser sunita. Claro que os colonialistas europeus e norte-americanos e seus amigos na região querem fazer-crer que a realidade seria o que não é. Mas por que não dizem a verdade?

Esses são os temas que reclamam a atenção de intelectuais religiosos e reformadores justos, sobre os quais devem pensar cuidadosamente, sentir a real responsabilidade que lhes cabe e identificar com clareza os objetivos do inimigo que tanto se empenha em acirrar diferenças sectárias, étnicas e partidárias. Esse é dever de todos.

O quinto ponto é que um dos padrões pelos quais avaliar se os movimentos do Despertar Islâmico estão no caminho correto são as posições que adotarem na questão da Palestina.

Faz 60 anos, sem parar, até hoje, a ocupação da Palestina é a maior e mais terrível tragédia que se abateu sobre a Ummah Islâmica.

Desde o primeiro dia, até hoje, a tragédia da Palestina é uma combinação de matança, assassinatos, destruição, usurpação e transgressão contra tudo que é sagrado no Islã.

A necessidade de construir uma resistência contra esse inimigo belicista e usurpador e combatê-lo sem trégua é dado sobre o qual há perfeito acordo, entre todas as denominações islâmicas e todas as correntes políticas nacionais saudáveis.

Grupo ou corrente, em país islâmico, que descuide dessa responsabilidade religiosa, política e nacional, por qualquer tipo de consideração ao que digam ou exijam os EUA, ou sob o pretexto de “justificativas” irracionais, que não espere ser visto como leal ao Islã ou sincero, em suas reivindicações nacionalistas.

É um teste. Quem diga que não aceita a bandeira da libertação de Jerusalém, da salvação da nação palestina e dos territórios palestinos, ou que desminta ou traia essa bandeira, e dê as costas ao campo da Resistência, será condenado. A Ummah Islâmica tem de manter em mente, com perfeita e fundamental clareza, esse padrão, onde for e quando for.

Queridos hóspedes, irmãos e irmãs, nunca percam de vista o ardil do inimigo. Cada vez que nossa vigilância diminui, surgem oportunidades para nossos inimigos.

A lição que Ali (que todas as bênçãos desçam sobre ele) nos ensina é que “quem desleixa a própria causa, não conte com que o inimigo durma sobre essa vantagem”. Quanto a isso, nossa experiência na Revolução Islâmica também é fonte de lições.

Depois da vitória da Revolução Islâmica no Irã, os arrogantes governos do ocidente e dos EUA – que há muito tempo mantinham pleno controle sobre taghuts iranianos e dedicavam-se a tentar determinar o destino político, econômico e cultural de nosso país, mas subestimaram o enorme poder da fé islâmica em nossa sociedade, e que não conhecem o poder do Islã e do Santo Corão para mobilizar forças e guiá-las – perceberam, de repente, que não sabiam muito mais do que sabiam. Então, suas organizações estatais, governamentais, serviços de inteligência e salas de controle recomeçaram o serviço, tentando recuperar-se da arrasadora derrota que haviam sofrido.

Vimos uma variedade enorme de complôs e maquinações deles, ao longo dos últimos mais de 30 anos. De fato, sempre houve dois fatores que sempre derrotaram os complôs, ardis e maquinações deles: insistimos na defesa dos princípios islâmicos; e o povo iraniano sempre esteve em cena. Esses dois fatores são chaves para os problemas, por toda parte.

O primeiro fator é garantido por sincera fé religiosa nas promessas divinas.

O segundo fator é garantido por esforços sinceros e honesto trabalho de esclarecimento e explicação.

Nação que acredite na honestidade e sinceridade de seus líderes levará suas lutas adiante, com entusiasmo; e onde e quando uma nação mantém-se em cena com sólida determinação, nenhuma potência de fora terá capacidade para derrotá-la.

Essa é uma experiência de sucesso, útil a todas as nações que viveram e vivem o Despertar Islâmico.

Que Alá o Misericordioso espalhe sua orientação, seu socorro e sua generosidade sobre vocês e sobre todas as nações muçulmanas.

Que as bênçãos de Alá estejam com vocês.



Notas dos tradutores

[1] “Na verdade, Qaru (Korah) foi do povo de Moisés, mas agiu com arrogância contra o próprio povo”.  

[2]  Ijtihad (Arabic اجتهاد) é termo técnico do Direito islâmico; descreve o processo para tomar uma decisão legal mediante interpretação independente das fontes legais, do Corão e da Sunnah. O antônimo de ijtihad é taqlid, palavra em árabe para “imitação”. Quem aplica o ijtihad é chamado mujtahid e, tradicionalmente, tinha de ser especialista em Direito islâmico. É palavra derivada de uma raiz verbal do árabe, jahada- (“luta”), a mesma raiz que aparece em jihad (mais sobre o conceito, em Ijtihad , à falta de melhor fonte. Em árabe na versão em ing.).

[3] As palavras Kalam e Qur’an [Corão] têm hoje significados próximos, mas na aplicação legal original tinham significados diferentes. Usava-se Qur’an para o Livro Sagrado, revelado por Alá a Maomé. E dizia-se Kalam para designar o atributo fundante do Criador, traduzível por “Seu ‘discurso’”. Em árabe na versão em ing.

[4] Pode-se ler sobre hadith. Em árabe na versão em ing.

[5]  A palavra fitna deriva de um verbo em árabe que significa “seduzir, tentar ou enganar”. Há várias nuances de significado, todos referentes a “desordem”, “agitação”. Em árabe na versão em ing.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Aiatolá Ali Khamenei: “Discurso de Abertura da 16ª. Conferência do Movimento dos Não Alinhados”


30/8/2012, Teerã, Irã – The Office of the Supreme Leader Sayyid Ali Khamenei
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Aiatolá Ali Khamenei, Líder Supremo da República Islâmica do Irã

Em nome de Alá, o Benéfico, o Generoso.

Todas as honras a Alá, Senhor dos Dois Mundos. Que a paz e todas as bênçãos desçam sobre o maior e mais confiável Mensageiro, todos seus descendentes, companheiros seletos e todos os seus profetas e enviados divinos.

Saúdo nossos honrados hóspedes, líderes e delegações representantes dos estados membros do Movimento dos Não Alinhados, e todos demais participantes desse grande encontro internacional.

Reunimo-nos aqui para continuar um movimento, com a ajuda e a orientação de Deus, para dar-lhe nova vida e energia, consideradas as atuais condições e necessidades do mundo. O Movimento dos Não Alinhados foi fundado há quase 60 anos, graças à inteligência e à coragem de uns poucos líderes políticos atentos e responsáveis que sabiam das condições e circunstâncias de seu tempo.

Nossos hóspedes reuniram-se aqui, vindos de diferentes pontos geográficos, uns mais próximos, outros mais distantes, de diferentes nacionalidades e povos, com características ideológicas, culturais e históricas diferentes. Mas, como Ahmad Sukarno, um dos fundadores desse Movimento, disse na famosa Conferência de Bandung em 1955, o fundamento do Movimento dos Não Alinhados não é geográfico ou racial, nem a unidade de religião; o fundamento do Movimento dos Não Alinhados é a unidade de carências e necessidades. Naquele momento, os estados membros do Movimento dos Não Alinhados careciam de um elo que os protegesse contra as redes autoritárias, arrogantes e insaciáveis; hoje, com o progresso e a disseminação dos instrumentos de hegemonia, essa carência ainda existe.

Gostaria de destacar mais uma verdade. O Islã nos ensinou que, apesar das diferenças raciais, linguísticas e culturais, todos os seres humanos partilham a mesma natureza, que os encaminha na direção da pureza, da justiça, da generosidade, da compaixão e da cooperação. Essa natureza humana universal é que – quando consegue afastar-se com segurança das motivações enganosas – conduz os seres humanos na direção do monoteísmo e da compreensão da transcendente essência de Deus.

Essa luminosa verdade tem tal poder, que serve como base para a fundação de sociedades livres e orgulhosas delas mesmas, e que, ao mesmo tempo, alcançam progresso e justiça para muitos. Ela permite que a luz da espiritualidade ilumine todos os projetos materiais da humanidade e, assim, permite que os homens criem para eles mesmos, sobre a Terra, paraísos de bem-estar, antecipação do paraíso que depois virá, prometido por muitas religiões. E é essa verdade comum e universal que pode oferecer os fundamentos da irmandade e da cooperação fraterna entre nações e povos que pouco ou nada tenham de semelhança entre eles, em termos de estruturas externas, passado histórico ou localização geográfica.

Sempre que a cooperação internacional for baseada nesse tipo de fundamento, os governos poderão construir relações entre eles, não baseadas no medo, nem construídas sob ameaças, ou por ganância, ou baseadas na disputa entre interesses unilaterais, ou que brotam da mediação de indivíduos traiçoeiros e venais, mas baseadas em interesses partilhados entre todos e – mais importante – que visam a atender a interesses de toda a humanidade. Assim, os governantes podem dar paz às próprias consciências despertas e alargadas e podem garantir paz também à consciência dos seus povos.

Essa ordem baseada em valores é o exato oposto da ordem baseada na força hegemônica, que tem sido ostentada, propagandeada e capitaneada pelas potências ocidentais nos últimos séculos; e pelo governo agressivo e autoritário dos EUA, hoje.

16a. Conferência dos Países Não Alinhados - Teerã, 30/8/2012
Caros visitantes e hóspedes, hoje, passadas já quase seis décadas, os principais valores do Movimento dos Não Alinhados permanecem vivos e firmes: valores como o anticolonialismo, a independência econômica e política, o não alinhamento com blocos de poder, e sempre crescentes e aprimoradas solidariedade e cooperação entre os estados membros. As realidades do mundo contemporâneo não mostram fartura desses valores. Mas o desejo coletivo manifestado, somado a esforços amplos e firmes para mudar as realidades de hoje e realizar aqueles valores, embora carregados de desafios, são promissores e recompensadores.

No passado recente, assistimos ao fracasso das políticas da era da Guerra Fria e ao unilateralismo que se seguiu àquelas políticas. Aprendidas as lições dessa experiência histórica, o mundo está em transição para uma nova ordem internacional. E o Movimento dos Não Alinhados pode, aí, desempenhar um novo papel. A nova ordem terá de ser baseada na participação de todas as nações e em direitos iguais para todas. Como membros desse movimento, nossa solidariedade é necessidade óbvia no atual momento, para estabelecer essa nova ordem.

Felizmente, a visão geral dos desenvolvimentos globais promete um sistema multifacetado, no qual os tradicionais blocos de poder são substituídos por grupos de países, culturas e civilizações de diferentes origens econômicas, sociais e políticas. Os importantes eventos cuja ocorrência testemunhamos nas últimas três décadas mostram claramente que a emergência de novas potências coincidiu com o declínio das velhas potências. Essa gradual transição de poder oferece aos países não alinhados importante ocasião para desempenhar papel significativo no palco mundial e para preparar o terreno para nova governança global, justa e realmente participativa.

Apesar das muitas perspectivas e orientações, nós, estados membros desse Movimento de Não Alinhados, conseguimos preservar por muito tempo nossa solidariedade e os laços que nos ligam, no quadro de nossos valores partilhados. Não é realização pequena ou desimportante. Esses laços e nossa solidariedade podem preparar o terreno para a transição para uma nova ordem humana e justa.

As atuais condições globais oferecem ao Movimento dos Não Alinhados uma oportunidade que talvez não volte a aparecer. Nosso pensamento é que a sala de controle do mundo não deve ser administrada pelo desejo de poder ditatorial com que a administram os interesses e desejos de uns poucos países ocidentais.

Tem de ser possível estabelecer e preservar um sistema participativo de administração dos assuntos internacionais que seja global e democrático. É o que querem e do que carecem todos os países que, direta ou indiretamente, foram agredidos por ações de países tão hegemônicos quanto violentos e agressivos.

A estrutura e os mecanismos do Conselho de Segurança da ONU são hoje ilógicos, injustos e absolutamente não democráticos. Vê-se ali flagrante modalidade de ditadura, antiquada e obsoleta, cujo prazo de validade já se esgotou. Mediante repetido abuso daqueles mecanismos impróprios, os EUA e seus cúmplices têm conseguido mascarar seus atos de injustificável agressão, travestindo-os com conceitos nobres e impondo-os à força, ao mundo. Aqueles mecanismos preservam os interesses do ocidente, apresentando-os como se implicassem “direitos humanos”. Os EUA interferem militarmente em outros países, mascarando a intervenção em nome de alguma “democracia”. Atacam populações indefesas em vilas e cidades, bombardeando inocentes, como se isso fosse “combater o terrorismo”. Da perspectiva dos EUA, a humanidade divide-se em cidadãos de primeira e de segunda classe.

A vida humana na Ásia, África e América Latina vale nada; só é valiosa e cara nos EUA e na Europa Ocidental. A segurança de EUA e Europa é artigo importante; a segurança do resto da humanidade vale nada. Tortura e assassinato são permitidos e absolutamente inatingíveis pela lei, se o torturador e o assassino é EUA ou os sionistas ou algum de seus fantoches. Nada agita a consciência deles: mantêm prisões secretas em várias partes do mundo, em vários continentes, nos quais prisioneiros aos quais se nega qualquer defesa ou advogado, nega-se até o direito de ser julgado em tribunal legal, vivem em condições abjetas, inadmissíveis. O bem e o mal são valores definidos seletivamente, viciosamente. Impõem seus próprios interesses a nações livres, como se alguma “lei internacional” existisse especialmente para legalizar o que é injusto. Impõe sua dominação e suas exigências, como se fossem exigência de alguma “comunidade internacional”. Usando sua própria rede de imprensa, comunicação e mídia, exclusiva e organizada, conseguem mascarar como verdade a falsidade e suas mentiras; a opressão que impõem, são apresentadas como esforços para promover alguma justiça. Ao mesmo tempo, apresentam como se fossem mentiras todas as declarações e informações verdadeiras que exponham a falsidade e a simulação; e chamam de “rogue” toda demanda legítima.

Amigos, essa situação daninha e viciosa não pode continuar. Todos se cansaram dessa estrutura internacional viciosa. O movimento dos 99% do povo contra os centros de riqueza e poder nos EUA, e os protestos populares que se alastram na Europa Ocidental contra as políticas econômicas dos respectivos governos mostram que o povo começa a perder a paciência. É necessário remediar essa situação irracional. Elos de conexão firmes, lógicos, abrangentes, entre os estados membros do Movimento dos Não Alinhados, podem ter importante função na ação de encontrar remédio.

Honrado público presente, a paz e a segurança internacional estão entre as questões cruciais do mundo contemporâneo; eliminar as catastróficas armas de destruição em massa é necessidade urgente e demanda universal. No mundo de hoje, a segurança é necessidade partilhada – e não há espaço para discriminação.

Ninguém, dos que mantêm armas anti-humanidade em seus arsenais, pode, de modo algum, declarar-se padrão exemplar de guardião da segurança global. Sequer são capazes de proteger a própria segurança e a segurança dos seus cidadãos.

Máxima infelicidade é ver que países que mantêm os maiores arsenais de bombas nucleares do planeta ainda não deram qualquer sinal de disposição genuína para desmontar esses arsenais e apagar essas armas anti-humanidade de suas doutrinas militares. De fato, aqueles países ainda consideram aquelas armas como instrumento útil para usar como ameaça – e como importante padrão que define a posição política e internacional, de força, dos países “atômicos”. É indispensável rejeitar e condenar completamente esse conjunto de ideias.

Armas nucleares nem garantem autoproteção e segurança, nem são fator que consolide algum poder político. Não passam de ameaças diretas tanto à segurança quanto a qualquer poder político. Os eventos dos anos 1990s mostraram que a posse de armas nucleares sequer conseguiu manter no poder um regime como o da antiga União Soviética. E hoje se veem alguns países expostos a trágicas ondas de mortal insegurança, apesar das suas bombas atômicas.

A República Islâmica do Irã define o use de armas químicas e similares como pecado grave e imperdoável.

Propusemos a ideia do “Oriente Médio livre de armas nucleares” e continuamos comprometidos com ela. Não implica abrir mão de nosso direito de usar a energia atômica para finalidades pacíficas e para produzir combustível atômico. Em estrito respeito à legislação internacional, todos os países têm direito de usar energia nucelar para finalidades pacíficas. Todos os países devem poder empregar essa importante fonte de energia para várias finalidades vitais, em benefício do país e de seu povo, sem ter de depender de fornecedores para exercer esse direito.

Alguns países ocidentais os quais, eles mesmos, mantêm arsenais de bombas atômicas e são culpados, portanto, dessa prática ilegal, desejam monopolizar a produção de combustível nuclear. Movimentos clandestinos estão em processo hoje, para consolidar um monopólio permanente da produção e venda de combustível nuclear, em centros que têm uma autorização internacional, mas que, de fato, são controlados por uns poucos países ocidentais.

Amarga ironia de nosso tempo é que o governo dos EUA, que comanda o maior e mais mortal arsenal de bombas atômicas anti-humanidade e de outras armas de destruição em massa – e o único país, em toda a história do mundo, culpado de ter usado bombas atômicas em situação de guerra – tanto faça para aparecer como paladino da oposição à proliferação dessas armas.

Os EUA e seus aliados ocidentais armaram o regime sionista usurpador: deram armas atômicas àquele regime e, assim, criaram a maior e mais terrível ameaça que pesa hoje sobre toda essa região sensível. Mas os mesmos, cínicos, mentirosos, falsos, não admitem que países independentes usem a energia nuclear para finalidades pacíficas; de fato, opõem-se furiosamente, com toda sua força, à produção de combustível nuclear para emprego em equipamentos usados em pesquisa médica, farmacológica e outras finalidades pacíficas. Usam, como pretexto, o medo de que esses países venham a produzir armas atômicas.

No caso da República Islâmica do Irã, os próprios mentirosos sabem perfeitamente que mentem, mas as mentiras e os mentirosos são ‘autorizados’ pelo tipo de política que praticam, absolutamente carente de qualquer traço, mínimo que fosse, de espiritualidade. Estado, governo e governantes que fazem ameaças nucleares em pleno século 21, sem se envergonharem do que fazem e dizem... por que se envergonhariam de mentir ao mundo?

Reafirmo que a República Islâmica jamais buscou produzir armas nucleares. Reafirmo também que jamais desistimos ou desistiremos do direito, que é do povo do Irã, de usar energia nuclear para finalidades pacíficas. Nosso motto é e sempre foi: “Energia nuclear para todos e armas nucleares para ninguém.”

Insistiremos sempre em cada um desses dois conceitos. Sabemos que quebrar o monopólio de alguns países ocidentais produtores de energia nuclear – nos termos definidos pelo Tratado de Não Proliferação – é tarefa que interessa a todos os países independentes inclusive aos membros do Movimento dos Não Alinhados.

A bem-sucedida experiência da República Islâmica, na resistência contra a agressão e as pressões dos EUA e seus cúmplices, já nos convenceu firmemente de que a resistência de nação decidida a resistir pode vencer todas as hostilidades, provocações e desamizades, e abrir caminho para que os resistentes alcancem seus mais altos objetivos. Os amplos avanços que o Irã obteve nos últimos 20 anos são fatos bem conhecidos de muitos e repetidamente atestados por observadores internacionais oficiais. Tudo o que fizemos aconteceu sob sanções e pressões econômicas, e contra intensivas campanhas de propaganda, de que são meios e agentes as redes de imprensa, comunicação e notícias apadrinhadas pelo sionismo e pelos EUA.

As sanções, definidas como “debilitantes”, quando não como “paralisantes” por comentaristas néscios, não só não nos paralisaram como, ao contrário, nos obrigaram a dar passos mais firmes, a firmar nossa vontade, e aprofundaram nossa convicção de que nossas análises são corretas e que o Irã é mais forte do que supõem os inimigos. Tantos de nós viram, com os próprios olhos, o quanto Deus nos ajuda sempre, para superar esses desafios!

Honrados hóspedes, considero necessário falar aqui sobre importante questão que, embora seja questão dessa nossa região, tem dimensões que avançam muito além dos nossos limites e influenciam políticas globais há, já, várias décadas. Refiro à gravíssima questão da Palestina.

Em versão resumida, começou por um terrível complô ocidental, dirigido pela Inglaterra nos anos 1940s. Um país independente, com clara e conhecida identidade histórica, chamado “Palestina”, foi roubado do povo que ali vivia e, mediante invasão, guerra, matança, massacres, foi entregue a um grupo de pessoas das quais a maioria eram imigrantes de países europeus.

Essa quase inacreditável usurpação – que, nos primeiros anos, foi acompanhada de massacres de aldeãos que viviam indefesos em cidades e vilas palestinas, e que foram ou assassinados ou expulsos de suas casas e cidades e vilas e terras e empurrados para países vizinhos, como párias – continuou por mais de 60 anos; praticamente os mesmos crimes repetem-se até hoje. Essa é uma das questões mais importantes a exigir ação firme de toda a comunidade humana.

Durante todos esses anos, líderes políticos e militares do regime sionista ocupante não negaram a prática de seus crimes: assassinatos, destruição de casas e propriedades, prisão e tortura de homens, mulheres e até de crianças, humilhação e insultos contra a nação palestina, tentativas que o regime sionista sempre fez, na intenção de destruí-la, atacando até os campos de refugiados palestinos em países vizinhos, nos quais vivem milhões de palestinos. Os nomes de Sabra e Shatila, Qana e Deir Yasin estão gravados fundo na história de nossa região, marcados pelo sangue do povo oprimido da Palestina.

Mesmo hoje, 65 anos depois, o mesmo tipo de crimes marca o tratamento que recebem os Palestinos que restam nos territórios ocupados pelos ferozes lobos sionistas. Cometem crime após crime, e criam novas crises para toda a região. Raramente se passa um dia sem notícias de assassinatos, ferimentos, prisão de jovens que avançam para defender a própria terra e a própria honra e protestam contra a destruição de suas casas e pomares.

E o regime sionista, que ainda não foi punido por seus crimes e causa conflitos, há décadas, e faz guerras desastrosas, mata, ocupa territórios árabes e organiza o estado de terror na região e no mundo... é ele, o próprio regime sionista, quem rotula de “terroristas” o povo palestino que, ainda e sempre, defende os próprios direitos usurpados. E as redes de imprensa, comunicações e mídia, que são propriedade do sionismo, muitos dos veículos da mercenária imprensa-empresa ocidental só fazem repetir a grande mentira que os sionistas inventam e divulgam; e violam, assim valores éticos e morais sem consideração aos quais o compromisso jornalístico nada é. E líderes políticos que se dizem defensores de direitos humanos, mantêm os olhos fechados para os crimes dos sionistas e apóiam esse regime criminoso e, desavergonhadamente, assumem o papel de defensores dos sionistas.

Nossa posição é que a Palestina pertence aos palestinos e que a ocupação continuada é injustiça enorme e intolerável, além de grave ameaça à paz e à segurança globais. Todas as soluções sugeridas e adotadas pelos ocidentais e aliados para “resolver o problema da Palestina” deram em nada, e continuarão a dar em nada também para o futuro.

Oferecemos proposta para solução justa e inteiramente democrática. Todos os palestinos – os atuais cidadãos e os que foram forçados a emigrar, mas preservaram a identidade palestina, inclusive muçulmanos, cristãos e judeus – devem votar num referendum cuidadosamente organizado e supervisionado para ser plenamente transparente e confiável, mediante o qual escolherão o sistema político que desejam para seu país; e todos os palestinos que há anos padecem os sofrimentos do exílio devem voltar ao país para também votar nesse referendum; isso feito, os palestinos redigirão uma Constituição; e, então, haverá eleições. A paz estará, afinal, estabelecida.

Quero agora dar um bem-intencionado conselho aos políticos dos EUA que sempre aparecem para defender e apoiar o regime sionista. Até o presente, esse regime só criou incontáveis problemas também para vocês. Apresentou aos povos dessa região uma imagem de intolerância e ódio, que se agrega à própria imagem de vocês; mostra-os ao mundo como cúmplices dos crimes de ocupação e usurpação praticados pelos sionistas. O custo material e moral que pesa sobre o governo e o povo dos EUA, pelo apoio que alguns políticos norte-americanos dão aos sionistas, é espantosamente alto, e muito mais alto ainda poderá ser, no futuro.

Considerem, portanto, a proposta de um referendum palestino, que lhes foi encaminhada pela República Islâmica. Em seguida, em decisão corajosa, salvem-se vocês mesmos dessa situação impossível, sem saída, na qual se veem hoje, aliados ao regime sionista ocupante e usurpador. Não há dúvidas que o povo dessa região e os homens e mulheres de pensamento justo e livre em todo o mundo acolherão com satisfação a notícia.

Distintos hóspedes, gostaria agora de voltar ao meu ponto inicial. As condições globais são sensíveis; o mundo passa por conjuntura histórica crucial. Pode-se prever que logo nascerá uma nova ordem mundial. O Movimento dos Não Alinhados, no qual se incluem quase dois terços da comunidade mundial, pode desempenhar papel importante na modelagem desse futuro.

A realização dessa grande conferência em Teerã é, por si mesma, evento importante, a ser levado em consideração. Ao unirmos nossos recursos e nossas competências e capacidades, os membros do Movimento dos Não Alinhados podemos criar novo e duradouro papel histórico, na direção de salvar o mundo da falta de segurança; dos perigos das guerras; e das ameaças da hegemonia.

Esse objetivo só é alcançável mediante a cooperação abrangente entre todos nós. Há entre nós alguns países muito ricos; há países que gozam de importante influência internacional. É absolutamente possível encontrar soluções para muitos problemas mediante cooperação econômica e no campo da informação, das comunicações e da mídia, e mediante a troca de experiências que nos ajudem a melhorar e avançar. Precisamos fortalecer nossa determinação Temos de nos manter fieis aos nossos objetivos.

Não temos o que temer das potências provocadoras e arrogantes, cada vez que nos fazem caretas e gritam, supondo que nos metam medo; nem temos de sorrir em resposta, cada vez que nos sorriem. Temos, para nosso apoio e suporte, o desejo de Deus e suas leis.

Temos muito a aprender do que se viu acontecer ao campo comunista, há duas décadas. E também temos a aprender do fracasso das políticas da assim chamada “democracia liberal ocidental”, hoje. Os sinais do fracasso daquelas políticas são hoje bem visíveis nas ruas da Europa e dos EUA e nos problemas econômicos insolúveis nos quais se debatem aqueles países.

Por fim, temos de considerar como grande oportunidade o Despertar Islâmico na região e o fim dos governos ditatoriais no Norte da África, que sempre foram governos dependentes dos EUA e cúmplices do regime sionista. Podemos ajudar a aumentar a “produtividade política” do Movimento dos Não Alinhados na governança global. Podemos preparar um documento histórico, que vise a provocar mudança nessa governança e contribua como ferramenta de governo e administração. Podemos construir planos para efetiva cooperação econômica e definir paradigmas de relacionamento cultural entre nós. E criar um secretariado ativo e mobilizado para o Movimento dos Não Alinhados será ajuda significativa, importante para que se alcancem os outros objetivos.

Muito obrigado.