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sábado, 14 de fevereiro de 2015

Pepe Escobar: Merkel−Alemanha−União Europeia−Grécia−Ucrânia

13/2/2015, [*] Pepe EscobarRussia Today, RT
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Mais cedo ou mais tarde, os políticos europeus terão de acordar e farejar de onde vem o cheiro do café: a noção de uma parceria germano-franco-russa pan-europeia, parceria comercial e de/para a paz, é muitíssimo mais popular entre os eleitores, do que pode(ria) supor quem só conheça opiniões e avaliações de uma imprensaempresa já falida. (...)
Começa por mandar às favas o “Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento” [ing. TTIP], acordo protecionista, que só interessa às empresas norte-americanas protegidas  e que é a OTAN  nos-negócios.



Merkel e Hollande em Minsk (12/2/2015)
Alemanha detém a chave de para onde, doravante, andará a Europa. Para a Ucrânia, alcançou-se um acordo frágil, mas ainda não há acordo algum com a Grécia. Nos dois casos há muito mais do que a vista alcança.

Comecemos pelas atormentadas negociações no Eurogrupo em Bruxelas sobre a dívida grega.

Funcionários gregos juram que jamais receberam rascunho de um possível acordo vazado por burocratas do Eurogrupo para o Financial Times. Esse rascunho referia-se a um acordo que “emendava e estendia e concluía com sucesso” o atual “resgate−arrocho−austeridade”.

O Ministro das Finanças alemão Wolfgang Schaeuble cortou “emendava”. Esse é o rascunho que foi vazado. Mas então o Ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, chamou o Primeiro-Ministro Tsipras – e o documento, ainda não assinado, foi rejeitado. Foi alta decisão do próprio Tsipras.

Tsipras não podia, não, de modo algum, vacilar – não depois de ter subido as apostas –, quando prometeu aumentar o salário mínimo grego e pôr fim às privatizações. Continua apostando a casa, em que a Troika não permitirá que se consuma a saída da Grécia – umGrexit da Zona do Euro. Mesmo assim, pode estar enganado; a possibilidade de um  Grexit’oscila em torno de 35-40%, e será muito mais alta se não houver acordo algum na crucial próxima reunião, na 2ª-feira (16/2/2015).

Tsipras e o Presidente do Eurogroupo, Jeroen Dijsselbloem, concordam pelo menos que os funcionários gregos e da Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI) devem começar por discutir “num nível técnico”. Tradução: compararão o atual pesadelo da “austeridade” [de fato, é “arrocho” (NTs)] com novas propostas gregas.


Alexis Tsipras em Bruxelas (12/2/2015)
Atenas só tem, essencialmente, duas opções. Ou a Troika aceita fazer algum tipo de “rejeição” da dívida – real ou como golpe de prestidigitação (é a proposta da coligação Syriza – um arranjo que promove o crescimento); ou segue-se o Grexit, com Atenas criando seu próprio banco central e sua própria moeda como nação independente. Não há terceira escolha: dívida equivalente a 175% do PIB grego é dívida totalmente impagável.

Por mais que a Troika e seus derivativos institucionais divulguem que o Grexit não seria grande coisa, fato é que um calote da dívida grega pode ter efeito mais devastador que o caso do banco Lehman Brothers. Não foram os fundamentos, no caso de Lehman, que geraram pânico generalizado quando o banco quebrou; mas o medo de que a quebradeira dos derivativos pusesse abaixo todo o sistema.

E observando por através do noticiário e da boataria, o que permanece, essencialmente, é o que o Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, disse ao Fígaro há alguns dias: está fora de questão qualquer supressão de dívida grega e, sobretudo, “contra os tratados europeus, nenhuma saída é democrática”. Claro como cristal: as instituições europeias trabalham contra a democracia.

O Plano B ainda é clara possibilidade. Moscou já convidou Tsipras para encontro com Putin. E Pequim convidou Tsipras para reunir-se com o Primeiro-Ministro Li Keqiang. São o “R” e o “C” de “BRICS”, em ação.

Panos Kammenos
Vale a pena lembrar o Ministro grego da Defesa, Panos Kammenos, quando articulou, se não uma posição majoritária, pelo menos uma percepção já visível na opinião pública grega:

Todos queremos um acordo. Mas se não há acordo e se virmos que a Alemanha permanece rígida e quer detonar em pedaços a Europa, nesse caso teremos de recorrer ao Plano B (...) Temos outros meios para conseguir dinheiro. Podem ser os EUA, para começar, pode ser a Rússia, a China ou outros países.

Alea jacta estTroika ou República Chinesa?

E tudo tem a ver com a OTAN

Há também Minsk. O que foi obtido depois de quase 17 horas de uma terrível maratona de discussões não é exatamente, nas palavras do Presidente francês François Hollande, acordo “global” e “cessar-fogo global” na Ucrânia.

Há alta probabilidade de que o cessar-fogo seja reduzido a zero apenas uns poucos minutos depois de implementado, à meia-noite desse sábado – ironia das ironias, quando estiver acabando o Dia dos Namorados [orig. Valentine’s Day]. Significativamente, o documento final não leva nenhuma assinatura realmente importante: nem de Putin, nem de Merkel, nem de Hollande, nem de Poroshenko.

O Ministro alemão de Relações Exteriores foi cuidadoso, alertando que Minsk 2.0 não é exatamente solução para tudo, mas, pelo menos, faz desescalarem as tensões. Merkel preferiu divulgar que Putin teve de pressionar os federalistas anti-Kiev das Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, para que aceitassem o cessar-fogo.

Como se podia prever, regular como relógio, já mesmo antes do cessar-fogo, o FMI – obedecendo ordens de Washington – repentinamente anunciou que continuará a estuprar, digo, a resgatar o falido, quebrado, estado-falido da Ucrânia, com uma parcela de US$ 17,5 bilhões, parte de um pacote maior de estupro, digo, de “resgate”, de quatro anos, de US$ 40 bilhões. Tradução: os bandidos da gangue de Kiev já têm dinheiro novo para jogar numa guerra que eles não querem que acabe.

Poroshenko e os nazifascistas
O próprio Poroshenko não perdeu tempo para se pôr a torpedear o cessar-fogo: espalhou que ninguém garantiu qualquer autonomia às áreas sob controle dos federalistas anti-Kiev, e recusou-se a confirmar o que Putin dissera, que Kiev aceitara pôr fim ao perverso bloqueio econômico contra o Donbass.

O preciso contorno da zona desmilitarizada – que acompanhava o território controlado pelos federalistas em setembro, que já é completamente diferente hoje, cinco meses depois – permanece um mistério. E Washington imediatamente converteu em piada a cláusula sobre “retirada de forças estrangeiras”. O Pentágono já anunciou que, mês que vem, começará a treinar a Guarda Nacional da Ucrânia.

Minsk 2.0 não chega a ser, sequer, um band-aid. A Ucrânia é insalvável. Só ressurgirá do mundo dos mortos se um tsunami de dinheiro – quase o equivalente ao que custou a reunificação da Alemanha – fosse lançado lá. Desnecessário acrescentar que ninguém na Europa quer saber de pôr nisso nem um punhadinho de desvalorizados euros.

A coisa era, é e continuará a ser, essencialmente, questão da expansão da OTAN. Washington e as marionetes de Kiev jamais permitirão qualquer reforma constitucional que permita que o Donbass bloqueie a ação da OTAN incorporada na Ucrânia. Assim sendo, em resumo, o Império do Caos não deixará de usar a Ucrânia para molestar a Rússia. O Império do Caos não está, precisamente, no negócio de construir nações (é exatamente o contrário disso).

Atravessar a ponte alemã

E isso nos leva até o papel crucial que cabe à Alemanha – com a França no assento ao lado.

A Chanceler Merkel teve de ir a Moscou para negociar com Putin, porque viu de que lado soprava o vento – sempre mais e mais sanções, sempre contraproducentes; a economia da Ucrânia em queda livre; os bandidos de Kiev vencidos em guerra. Aí estava tanto um imperativo quando uma crucial demarcação para bem longe da obsessão imperial com expandir a OTAN.

Immanuel Wallerstein
Como Immanuel Wallerstein observou:  

Moscou está avançando numa política cautelosa. Sem controlar completamente os autonomistas de Donetsk-Lugansk, a Rússia mesmo assim cuida de que os autonomistas não possam ser eliminados militarmente. O preço que os russos demarcaram para qualquer verdadeira paz é a OTAN comprometer-se, à vera, a não incorporar a Ucrânia como membro.

Assim sendo, Merkel pode ter conseguido brecar a fúria do governo Obama − que quer armar Kiev – mas só o conseguiu por enquanto. Não há qualquer sinal, pelo menos até agora, de que o governo Obama e seus neoconservadores incorporados tenham aceitado que as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk (DPR e LPR, como se autoproclamaram) estejam essencialmente “perdidas” para a influência de Kiev.

Hollande garantiu a perfeita cobertura de que Merkel precisava. Quem defendeu publicamente a autonomia para as novas repúblicas – em termos de federação – foi Hollande. Ao mesmo tempo, ambos, Merkel e Hollande sabem que Kiev jamais aceitará realmente qualquer “federação” (e mesmo parte substancial do Donbass só aceita a federalização como degrau de acesso para uma eventual secessão e união à Rússia).

Merkel – pelo menos em termos da opinião pública alemã – alcançou o objetivo dela, emergindo como vitoriosa (“A chanceler global” – como escreveu o tabloide Bild), depois daquela maratona de horas voadas. Putin também emergiu como vencedor – dado que Merkel só fez, essencialmente, reapresentar as propostas de Putin, de meses passados. Assim sendo, sim, e examine-se o evento por seja qual ângulo for, foi, sim, negócio Moscou-Berlin. Fácil ver quais os atores que acabaram completamente descartados e farão de tudo para bombardear o negócio: Washington, Kiev, Londres, Varsóvia e os estados histéricos “Rússia está invadindo”, do Báltico.

Por fim, mas não menos importante, chamemos a atenção para o monumental elefante branco na sala. Minsk 2.0 foi conduzido ante a absoluta ausência do Império do Caos e dos (cada dia mais irrelevantes) aliados-vassalos britânicos da tal “relação especial”.

Pepe Escobar - Império do Caos
Lentamente, mas com certeza absoluta, a opinião pública em toda a Europa – especialmente a opinião pública alemã – está vivenciando uma mudança tectônica. A obsessão do Império do Caos de armar e armar cada vez mais os neofascistas de Kiev horrorizou milhões de pessoas – e fez renascer o espectro de uma guerra na fronteira oriental da Europa. Não só na Alemanha, mas também na França, Itália, Espanha, cresce um consenso continental contra a OTAN.

Mesmo no auge de uma campanha viciosa e pervertida de demonização da Rússia, lançada e mantida por praticamente toda a imprensa-empresa alemã, pesquisa feita pela Deutschland Trend revelou que a maioria dos alemães estão contra a permanência de tropas da OTAN na Europa Oriental. E nada menos de 49% dos alemães preferem ver a Alemanha na posição de ponte entre o Oriente e o Ocidente. Em Pequim, o governo com certeza já anotou esses resultados.

Assim sendo, é tentador pular para dentro do trem da paz Merkel/Hollande, com o coração da Europa, afinal, exercendo a própria soberania e desafiando frontalmente o Império do Caos. Talvez aí esteja o embrião de uma parceria germano-francesa para a paz na Europa e mesmo para além disso, do Oriente Médio à África.

Essa via antagoniza frontalmente o roteiro da OTAN – que implica o Império do Caos mandando sem rival na Europa, no Oriente Médio e até na Eurásia, com as potências europeias, especialmente Alemanha, França e, sim, claro, a Rússia, empurradas para a periferia.

Mais cedo ou mais tarde, os políticos europeus terão de acordar e farejar de onde vem o cheiro do café: a noção de uma parceria germano−franco−russa pan-europeia, parceria comercial e de/para a paz, é muitíssimo mais popular entre os eleitores, do que pode(ria) supor quem só conheça opiniões e avaliações de uma imprensa-empresa já falida.


“Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento” [ing. TTIP]
Agora, cabe a Alemanha limpar a sua participação na cena da Grécia. A escolha é bem clara. A União Europeia pode afundar-se num quarto mergulho na recessão, se o Banco Central Europeu destruir o que resta das classes médias europeias. Ou a Alemanha, refletindo o pensamento já vigente entre seus principais capitães de indústria, pode dizer à UE – Troika incluída – que a única saída à frente é mudar o foco estratégico, comercial e político, do Ocidente para o Oriente. Começa por mandar às favas o “Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento” [ing. TTIP], acordo protecionista, que só interessa às empresas norte-americanas protegidas – e que é a OTAN-nos-negócios.

Afinal, esse será o século eurasiano – e o trem já partiu da estação.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, que acaba de ser publicado pela Nimble Books. 

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Conversações de Minsk sobre a Ucrânia: construídas no capricho

25/8/2014, [*] MK BhadrakumarIndian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vladimir Putin e Angela Merkel
A missão da chanceler alemã Angela Merkel em Kiev não foi nada fácil. Merkel foi fortemente pressionada por Barack Obama, ainda na véspera de ela viajar. É óbvio que os EUA sentem-se deixados de lado nos esforços para fazer a paz.

Washington condenou imediatamente a decisão do Kremlin, de ignorar a tática de adiamento dos EUA no Conselho de Segurança e fazer chegar o comboio de ajuda humanitária às populações no leste da Ucrânia. Para os EUA, teria havido “violação da lei internacional”; e o Gabinete de Imprensa de Obama “exigiu” que o comboio de caminhões russos retornasse à Rússia (de fato, o comboio já havia descarregado seus produtos e já havia retornado, quando da “exigência” dos EUA).

Mas Merkel, mesmo pressionada, deu andamento à sua missão. A escolha da data, 23/8/2014, para visitar Kiev, foi, sim, planejada – e muito simbólica. Merkel lembrou publicamente que um chanceler alemão visitara a Ucrânia nesse mesmo dia e mês, em momento muito importante da história, o que mostra o quanto as coisas mudaram desde o pacto de não agressão Molotov-Ribbentrop, de 23/8/1939.

Moscou ficará muito satisfeita com o resultado da missão de Merkel. Ela reafirmou enfaticamente a importância das conversações em Minsk, na 3ª-feira (23/8/2014), entre Putin da Rússia e Poroshenko da Ucrânia; falou da absoluta necessidade de um cessar-fogo no leste da Ucrânia; e, mais importante, falou da necessidade de se introduzirem mudanças na Constituição da Ucrânia, para dar autonomia ao leste da Ucrânia. Quanto a isso, há identidade de visão entre Moscou e Berlim.

As palavras da chefe da política exterior da União Europeia Catherine Ashton chegam também em boa hora e são muito significativas: ela lembrou a Poroshenko que, nas conversações de Minsk, a Ucrânia precisa ter boas relações com seus vizinhos russos.

O inverno de Minsk "esfriará" Poroshenko?
O cenário para essas conversações de Minsk parece promissor. Claro, não se espera qualquer solução definitiva, como Merkel fez questão de sinalizar, mas é provável que se obtenha um cessar-fogo nas operações militares no leste da Ucrânia – que é o que a Rússia mais deseja. Merkel falou várias vezes da importância do cessar-fogo.

Poroshenko, que todos os dias é pressionado pelo Vice-Presidente Joe Biden dos EUA para que prossiga com as operações militares no leste da Ucrânia, já começa a sentir que o conflito está ficando sangrento “demais”, e que é de seu próprio interesse, com vistas às eleições parlamentares de outubro, criar atmosfera mais calma no país. Em resumo, como comentaristas sugerem, as coisas estão, de certo modo, em delicados pés de igualdade.

Mas a grande pergunta persiste. Será que os EUA desistirão de tentar sabotar todo o processo de Minsk? Muito claramente, é escandalosamente desprestigioso para os EUA terem sido deixados do lado de fora, só espiando pelas frestas. Mas fato é que os EUA pediram para serem assim castigados; uma correção de rota os ajudaria muito.

Muitos especialistas concordam que os três pressupostos sobre os quais as políticas dos EUA foram erigidas já se comprovaram delirantes – que Putin ficaria “isolado” e se renderia ao diktat do ocidente; que as sanções apavorariam o Kremlin e o levariam a pedir socorro ao titio [Sam]; e que os militares ucranianos conseguiriam rapidamente controlar todo o leste da Ucrânia.

A parte mais triste é que os EUA nada conseguiram – absolutamente nada – que interesse à “democracia” por terem derrubado o governo eleito de Viktor Yanukovich. Um conjunto de oligarcas detestados foi substituído por outro bando deles, igualmente repulsivos. Em palavras simples, os oligarcas continuam mandando e desmandando na Ucrânia; a diferença, para pior, é que, dessa vez, o ocidente tem de carregar a lata de minhocas.

Não há dúvidas de que a Ucrânia ficará na história como um dos fracassos mais bizarros do governo de Barack Obama. Mas as raízes são profundas e, se se pode responsabilizar diretamente alguém, o responsável é menos o próprio Obama que o dueto formado pelo ex-presidente Bill Clinton e seu famoso “auxiliar russo” (e colega dos dias de Oxford) Strobe Talbott. Esses dois, sim, detonaram completa e profundamente as infinitas possibilidades da era pós-Guerra Fria para criar uma ordem mundial harmoniosa.


O conhecido professor e especialista em Rússia da Chicago University, Professor John Mearsheimer publicou ensaio brilhante intitulado Why the Ucrânia Crisis Is the West’s Fault: The Liberal Delusions That Provoked Putin na edição de Foreign Affairs que está nas bancas, traçando, de uma perspectiva histórica, o contexto imediato da Ucrânia pelo qual a gangue Clinton-Talbott na Casa Branca é responsável pela crise de hoje.

Mearsheimer cita ninguém menos que uma figura icônica da era soviética, o professor e diplomata George Kennan, que alertou contra a iniciativa desastrosa de Talbott para estimular a expansão da OTAN em direção ao leste da Europa:

— Creio que os russos gradualmente reagirão adversamente e isso afetará suas políticas. Parece-me um erro trágico. Não há razão alguma para o que estão propondo. Ninguém estava ameaçando ninguém.

Hoje, a questão resume-se a saber se Obama tem vontade, capital político (ou o temperamento) para impor sua vontade contra a estranha aliança entre os neoconservadores e os liberais no Departamento de Estado, e para recalibrar a bússola das relações com a Rússia. Mearsheimer escreve:

Há porém uma solução para a crise na Ucrânia – mas ela exigiria que o ocidente pensasse sobre o país de modo fundamentalmente novo. Os EUA e aliados têm de abandonar os planos para ocidentalizar a Ucrânia e, em vez disso, passar a trabalhar para converter o país num “amortecedor” neutro entre a OTAN e a Rússia, posição semelhante à que tem a Áustria (...). Não significa que um futuro governo ucraniano teria de ser pró-Rússia ou anti-OTAN. Ao contrário, o objetivo seria uma Ucrânia soberana que não penda nem para o campo russo nem para o campo ocidental. Para alcançar esse objetivo, os EUA e aliados têm de desistir publicamente da ideia de expandir a OTAN na direção da Georgia e da Ucrânia (...) E o ocidente terá de limitar consideravelmente seus esforços de engenharia social dentro da Ucrânia. É hora de pôr fim ao apoio do ocidente a mais uma “revolução laranja”.

Ou teremos que esperar o verão de Minsk para "esquentar o papo" 
Pode até parecer razoável e realizável, mas é ideia falsamente simples e o mais provável é que continue intestável, porque a questão da expansão da OTAN também envolve o futuro da parceria trans-Atlântica e o papel de liderança dos EUA para o século XXI.

Fato é que Merkel está andando sobre um arame muito fino. Na conversa que teve com Obama, por telefone, pouco antes de ela partir para Kiev, Obama não disse sequer uma palavra de apoio às próximas conversações em Minsk. Ao contrário, Obama mais pareceu aplicar-lhe uma conversa de autopromoção.

Mas, mesmo assim, Obama é pragmático por excelência. De modo algum é guerreiro da Guerra Fria do molde ideológico de um Talbott. Segundo Patrick Cockburn do jornal Independent, Obama permitiu que a inteligência dos EUA se movimentasse para se aproximar do regime sírio para as operações militares contra o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, ISIL. Por muito estranha coincidência, os EUA, ao que se sabe, usaramconduítes da inteligência alemã, para falar com o regime sírio.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff blogs. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.