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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Sayyed Nasrallah fala à TV Al-Manar

16/1/2011, Al-Manar TV, Beirute – Mohamad Shmaysani- Excerto
Traduzido pelo pelo Coletivo da Vila Vudu

O secretário-geral do Hezbollah Hasan Nasrallah falou à Al-Manar TV sobre os recentes desenvolvimentos no Líbano e para traçar um quadro dos eventos “porque é direito de todos os libaneses saberem, e porque os fatos, em nosso país, sempre podem encobrir esquemas e ardis.”

Secretário-geral do Hezbollah Sayyed Hasan Nasrallah
Sua Eminência disse que o Hezbollah sempre apoiou o esforço dos sauditas para diluir a crise no Líbano à luz da iminente divulgação de acusações contra membros do Hezbollah, pelo Tribunal Especial para o Líbano. “De fato, barganhamos por aquele esforço, como todos que buscamos o bem-estar para o Líbano” – disse.

O secretário geral do Hezbollah destacou que os sauditas disseram muito claramente que o Tribunal Especial para o Líbano não poderia ser cancelado, porque foi instituído pelo Conselho de Segurança da ONU, com aprovação dos EUA, Reino Unido e França. “Respondemos que entendemos isso. Foi o que eu disse em minha fala da 10ª noite da Ashura.” 

Sayyed Nasrallah continuou: “Dissemos que recusaríamos em todos os casos um indiciamento politizado e que nos considerávamos alvo desse indiciamento, apesar de o Líbano ser nosso país e vivermos empenhados em proteger o Líbano. Chegamos à seguinte conclusão: Temos de afastar o Líbano daquele tribunal, mediante três medidas: o governo retira os juízes libaneses que cooperam para o Tribunal Especial da ONU; suspende o financiamento das operações do Tribunal Especial; e cancela o memorando de entendimento entre o Líbano e o Tribunal Especial. Essas três medidas não cancelam o Tribunal Especial, seja qual for a nossa opinião sobre ele.” 

Sua Eminência acrescentou que os sauditas aceitaram os três itens.

“Havia atmosfera positiva, mas a doença do rei saudita retardou o processo e as negociações estavam acontecendo por telefone. Há duas semanas, tivemos confirmação de que o rei superara uma intervenção cirúrgica bem-sucedida, que se estava recuperando e queria fazer avançar o esforço para que chegássemos a um acordo. Fomos informados de que o rei mandaria Hariri aos EUA, para que acertasse os detalhes finos do acordo. E Hariri declarou, há vários meses, que o acordo estava montado. Ainda falta confirmação, mas, mesmo como está hoje, é boa notícia. Então Hariri vai aos EUA, participa de alguns encontros, e, sem mais nem menos, convoca os sírios e diz a eles que não pode insistir nesse esforço.”

Sayyed Nasrallah disse que o movimento de Hariri obrigou os ministros da oposição a reunir-se e decidir pela renúncia, para derrubar Hariri mediante uma via constitucional. “É óbvio que os EUA e Israel estavam trabalhando contra o esforço árabe e chantagearam para fazê-lo fracassar, porque tinham em mente que a crise era complexa e, conforme os resultados, nem teriam de interferir de modo decisivo. Mas, quando perceberam que o processo avançava na direção de resultados positivos, rapidamente interferiram, sim, de modo decisivo. Esse é o motivo pelo qual todos os esforços pararam repentinamente. 

Não há dúvida alguma de que alguns partidos libaneses trabalharam ativamente contra a iniciativa árabe e opuseram-se ao rei, porque sentiram que o rei trabalhava seriamente para construir o entendimento completo, entre todos. 

Nem Hariri nem seu grupo queriam dar andamento ao acordo; fizeram-no por pressão dos sauditas, e eventualmente procuraram os norte-americanos e outros que pudessem pressionar os sauditas e forçá-los a por fim à iniciativa árabe; ou, então, estavam de fato apoiando o rei saudita, mas os EUA opuseram-se àquela iniciativa. Seja como for, sabe-se hoje que não se pode confiar nem em Hariri nem em seu grupo; que Hariri não é confiável para ajudar o Líbano ou conduzir o país para fora do impasse em que está hoje.”

 Sua Eminência não listou os termos propostos por Hariri, “mas os libaneses logo descobrirão que, entre aqueles termos, há um, no máximo dois, que consideram o interesse do Líbano; os demais, só consideram os interesses da política e das equipes de segurança de Hariri. Apesar disso, lidamos muito positivamente com aqueles termos.”

Esqueçam os depoimentos das falsas testemunhas (HARIRI CONHECIA SIDDIQ)
Sayyed Nasrallah lembrou a questão das falsas testemunhas ouvidas pelo Tribunal Especial, e como esses depoimentos levaram à prisão arbitrária de quatro generais do alto escalão da segurança; à deterioração dos laços entre Líbano e Síria; e ao agravamento das tensões já fortes naquela atmosfera sectária. “Houve eleições para o Parlamento, e formaram-se governos a partir do que diziam aquelas falsas testemunhas. Por isso exigimos que aquelas falsas testemunhas sejam processadas e julgadas, por desviar e perverter o rumo das investigações.” 

Sua Eminência revelou que uma das exigências de Hariri foi que se esquecesse o caso das falsas testemunhas “porque sabem que eles [Hariri e seu grupo] teriam de ser muito agressivos para conseguir que essas testemunhas dissessem a verdade, inclusive o nome de quem as inventou e mandou ao Tribunal para deporem. 

Sábado, a rede de televisão Al-Jadeed divulgou uma fita de áudio gravada de encontro acontecido fora do Líbano, do qual participaram o primeiro-ministro Saad Hariri; o coronel Wissam Hasan chefe do serviço de informações; Gerhard Lehmann, deputado que comanda as investigações do assassinato de Rafiq Hariri; e as principais testemunhas falsas do caso Mohamad Zuheir Siddiq. 

No domingo pela manhã, Hariri admitiu que o encontro acontecera, mas no quadro das tentativas para convencer Siddiq a vir ao Líbano. A declaração de Hariri não ajuda a esclarecer por que Siddiq falava em tom de superioridade arrogante ao próprio Hariri e ao coronel Hasan, nem explica por que Siddiq conhecia o número de telefone privado de Hariri (na gravação, Siddiq reclama várias vezes de o chefe do Movimento “Futuro” e filho do mártir Hariri não responder seus telefonemas e mensagens em várias ocasiões).

“O telefonema em que lhe contei que mandariam 20 pessoas. O telefonema em que lhe disse que as explosões iam começar. Não acertei? Você está vendo explodir. Telefonei também anteontem. Esqueceu? Não ouviu o recado? Você não respondeu. Chamei outra vez. Nada. Pensei que já estivesse dormindo e me telefonaria na manhã seguinte. [Telefonei para] contar que havia uma bomba indo para a LBC [Lebanon Broadcasting TV, rede privada de televisão]. Acabou ficando para maio [Chidiac]. Maio foi desperdiçado” – diz Siddic a Hariri, naquela conversa gravada.

Durante quatro anos, Hariri e seu bloco negaram a existência das testemunhas falsas; primeiro, foram falsas acusações contra a Síria, quatro altos generais da segurança foram arbitrariamente presos, e o país por pouco não foi arrastado para uma guerra civil. Hariri, depois de cinco anos, reconheceu a existência das testemunhas falsas e retirou as acusações contra a Síria. Agora, acusará o Hezbollah. 

Sayyed Nasrallah criticou os membros do Movimento Futuro por terem dito, primeiro, que a gravação havia sido forjada. Depois, o próprio Hariri admitiu que a reunião acontecera. “Fui informado de que a TV Futuro (de Hariri) publicará toda a gravação. Isso levanta algumas questões. Se é documento confidencial do Tribunal da ONU, como chegou às mãos do grupo de Hariri? Se é documento confidencial, como saiu do Tribunal da ONU?”

Acrescentou que o governo de Hariri foi incapaz de encaminhar o caso das testemunhas falsas ao Conselho de Justiça, incapaz de enfrentar as repercussões das acusações falsas e quer continuar a financiar um Tribunal do Conselho de Segurança da ONU que conspira, hoje, no Líbano. “O governo Hariri pôs-se em posição difícil, sobretudo se o Tribunal pedir a prisão de cidadãos libaneses; não é governo em que se possa confiar, o que se confirmou quando aquele governo desvirtuou os esforços de sauditas e sírios para o entendimento.”

A OPOSIÇÃO NÃO INDICARÁ HARIRI
Sayyed Nasrallah disse que o juiz Daniel Bellemare da Procuradoria do Tribunal do Conselho de Segurança da ONU para o Líbano informou ao presidente Michel Sleiman e a Hariri que a acusação formal será divulgada na 3ª-feira. “Não é curiosa coincidência que a acusação, se for divulgada na 3ª-feira, aconteça no mesmo dia em que se iniciarão as consultas oficiais ao Parlamento, para formar um novo primeiro-ministro?”

Sua Eminência o secretário-geral Nasrallah destacou que a renúncia dos ministros da oposição foi absolutamente legal e constitucional. “O mundo foi mobilizado para condenar nosso movimento, presidentes e secretários de Estado disseram que querem Hariri de volta ao posto de primeiro-ministro. E a embaixadora dos EUA no Líbano, Maura Connelly, visitou deputados libaneses para conhecer a posição deles e o nome preferido para ser o próximo primeiro-ministro. Essas ameaças não nos intimidam, porque fizemos o que tivemos de fazer, baseados em nossa consciência e em nossas convicções, e na defesa do que entendemos que seja o interesse do Líbano. Evidentemente, a oposição não indicará Hariri para a tarefa de formar novo governo, durante as consultas.”

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Sayyed Hasan Nasrallah, do Hizbollah: “Tudo depende de nossos elementos de poder”

24/08/2010, Mohamad Shmaysani, Al-ManarTV, Beirute e no Islam Times

Traduzido por Vila Vudu


O secretário-geral do Hizbollah Sayyed Hasan Nasrallah disse hoje que o Líbano só alcançará liberdade e soberania se conseguir reunir os elementos de poder necessários. “Nesse país, enfrentamos muitas dificuldades externas e internas, e é nosso dever superar essas dificuldades, não temê-las nem nos render a elas. Ninguém pode fingir que não tem as responsabilidades que tem”, disse Sayyed Nasrallah ontem, durante a refeição comunitária (iftar), ao final do dia de jejum do Ramadan, organizada pela Organização de Apoio à Resistência Islâmica em Beirute.


Sua Eminência tratou da questão de como armar o exército libanês, sobre a qual há acordo de todos os partidos no Líbano, sobretudo depois do incidente em Addaiseh [1], sul do Líbano, mês passado, quando dois soldados libaneses e um jornalista foram martirizados e um coronel israelense morreu.


“O que aconteceu em Addaiseh mostrou que os EUA e as armas que os EUA forneciam ao exército libanês não eram fornecidas para combater Israel, mas para outros objetivos só deles, que chamam de “combater o terrorismo”. Continuará a “ajuda” dos EUA ao Líbano, para comprar armas? Ninguém sabe. Alguns deputados libaneses já exigiram inquérito para investigar se as armas usadas pelo exército libanês contra o exército de Israel são mesmo armas norte-americanas, ou não!”


Mas, continuou Sua Eminência, os EUA continuam a prometer que fornecerão armas ao exército libanês, “sob o pretexto de armar o exército para enfrentar o Hizbollah. Os EUA fazem seus cálculos a partir da certeza de que, mais dia menos dia, o Líbano acabará nas mãos do Hizbollah. Ao armar o exército libanês, entendem que fazem um grande favor ao Líbano.”


“Certa vez, em reunião com o ex-primeiro-ministro e mártir Rafic Hariri”, ele me disse: “Ninguém está preocupado com algum colapso econômico no Líbano, porque o mundo não permitirá que aconteça. A verdade é que todos trabalham com a certeza de que, mais dia menos dia, o Líbano será governado pelo Hizbollah”.


Sayyed Nasrallah continuou sua reflexão, dizendo que a comunidade internacional tenta convencer Israel a se retirar da região ocupada de Ghajar, porque, se eles se retirarem de lá, os EUA poderão apresentar a Resistência como “desnecessária”.


“Digo-lhes que Israel não se retirará do Ghajar porque eles conhecem e temem a resistência no Líbano, mesmo que, hoje, nenhuma resistência esteja em luta armada lá”.


“O que interessa ao Líbano não são armas fornecidas ao exército pelos EUA, mas que o exército libanês encontre o armamento de que realmente necessita, armamento adequado e que o próprio exército libanês escolha determine. Para isso, é preciso que essa despesa seja prevista em orçamento – exatamente o que o presidente Michel Sleiman pediu. Mas essa é uma grande despesa. Nenhum exército será jamais equipado com dinheiro recolhido em doações populares”.


“Nenhuma resistência jamais se constituiu só com dinheiro recolhido entre os pobres e isso vale também para qualquer exército de defesa”.


“A alternativa que resta, para armar o exército libanês, é recorrer às nações árabes solidárias ao Líbano. Sugiro que o governo libanês determine e liste as armas de que necessita e, em seguida, recorra aos Estados árabes amigos. Ninguém pedirá nada. O Líbano dirá aos Estados árabes amigos que não queremos dinheiro; queremos que nos cedam armas que tenham armazenado, sem uso, enferrujando nos armazéns. Queremos as armas, não o dinheiro. Isso, sim, se pode fazer, sem que qualquer despesa tenha de ser acrescentada ao orçamento da nação”.


“A situação do Líbano é diferente de todas as demais, na Região. A situação é tensa. O confronto que aconteceu em Addaiseh é potencialmente muito mais perigoso que a captura de dois soldados, que bastou, como pretexto, para que Israel invadisse o Líbano em 2006. Houve mártires nossos. E do lado de Israel há um coronel morto”.


“Na colônia de Shmona Keryat, os colonos fugiram. Quem examine o quadro, de longe, ainda não verá sinais de guerra. Mas os sinais lá estão, para quem examine de perto aquela situação”.


“Em resumo, o Líbano não pode continuar a discutir indefinidamente as alternativas. É imperioso agir rápido e armar o exército libanês. Minha sugestão é que o Líbano recorra a outros governos árabes solidários”.


Sobre o Irã


“Quanto ao Irã, já dissemos, na campanha para as eleições gerais, que o Líbano pode recorrer ao Irã e à Síria para equipar o exército. Essa posição acabou envolvida no tumulto geral que houve depois das eleições, e na divisão política que prevaleceu”.


“Hoje, já todos os que ontem discordavam estão perfeitamente dispostos a aceitar as armas que o Irã forneça incondicionalmente. O Irã oferece incondicionalmente, sem exigências. A via mais acertada, para o Líbano, é pedir ajuda ao Irã”.


“O Hezbollah compromete-se a trabalhar nessa direção e empenhará todos os seus contatos e relações de amizade para obter, do Irã, essa ajuda. O presidente Ahmadinejad visitará o Líbano, em breve. O Irã sempre ajudou o Líbano, ao longo dos últimos 28 anos, e com certeza concederá qualquer tipo de ajuda que o exército libanês pedir.”


O espiões de Israel


Sobre a questão dos espiões israelenses, Sayyed Nasrallah advertiu que o Líbano está atualmente envolvido numa guerra diária de segurança, contra o inimigo israelense.


“Já foram presos, até agora, mais de 100 espiões israelenses; a contagem oficial fala de 150 espiões presos. Não há aí motivo de espanto, porque estamos em guerra contra Israel. Mas é indispensável manter a segurança jurídica. Nossa sugestão é que se formem tribunais e juízes de campo, capazes de agir rapidamente, sem os longos trâmites dos procedimentos judiciais rotineiros. Não estamos dispostos a nos envolver em qualquer tipo de vendetta, mas é preciso fazer cumprir as sentenças que haja. Cada espião julgado e preso será um fator a mais, para desestimular qualquer colaboracionismo com Israel. Depois de 2005, o Líbano foi invadido por legiões de espiões, e as portas continuam abertas, tanto quanto continua, sem parar, o trabalho de recrutar colaboracionistas”.


“Sua Eminência destacou que o Hezbollah não foi infiltrado. “O Hizbollah não tem burocracia nem qualquer tipo de estrutura organizacional rígida. A resistência é luta diária, em vários fronts da vida diária. Temos milhares de olhos atentos a qualquer tipo de tentativa de infiltração. Assim, ao longo de 28 anos, mantivemos o maior corpo que se conhece de resistentes dedicados a preservar o próprio movimento. Continuamos inumes à espionagem. Não fomos infiltrados.” (...)


Uma usina nuclear para gerar energia


“O Líbano enfrenta condições difíceis no fornecimento de água e energia para a população. Não é problema desse governo e não é problema novo: são, provavelmente, os mais antigos problemas de quantos todos os governos enfrentam. (...) Com todo o respeito e o amor que sinto pelo povo libanês, peço ao povo em todas as regiões que cooperem e sejam pacientes. Os movimentos de reivindicação são legítimos e não serão infiltrados ou manipulados para finalidades que só interessam aos nossos inimigos. No Líbano, também na área do fornecimento de água e energia, temos de encontrar soluções”.


“Conclamo o governo do Líbano a considerar a construção de uma usina nuclear para gerar energia e outras finalidades pacíficas”.


“A usina Busheher custou muito menos ao Irã, do que tudo que o Líbano gasta hoje no setor de produção de eletricidade. Temos integral direito de considerar a produção de energia em usinas nucleares. Podemos fazer o que decidamos fazer. Chegaremos até onde decidamos chegar”.


“No futuro, a água será o recurso mais vitalmente importante em todo o mundo, e a Região caminha para uma crise da água. Nós temos a água. O que não temos é meio de armazenamento e distribuição. Temos de construir barragens para preservar esse recurso natural valioso”.


Sayyed Nasrallah concluiu seu discurso, repetindo a fórmula tripartite que preserva o Líbano:


“O exército, o povo e a resistência.”


Nota de tradução:

[1] Sobre esse incidente, ver ROBERT FISK, “Explodem as tensões Israel-Líbano: 4 mortos“, 5/8/2010 (em português).


O artigo original, em inglês, pode ser lido no AlManar TV: Sayyed Nasrallah: Our Freedom, Sovereignty Depend On Our Elements of Power ou no Islam Times em: Our Freedom, Sovereignty Depend On Our Elements of Power