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quinta-feira, 23 de junho de 2011

De bar em bar III: Botecos de esquina


Por Mouzar Benedito

Uma vez em Havana, em 1985, antes de Cuba ter que se submeter ao turismo internacional por ter sido abandonada pelos ex-parceiros do sistema soviético, um embaixador tupamaro — isso mesmo, naquela época o país não tinha relações diplomáticas ou comerciais com nenhum país latino-americano, com exceção do México, mas tinha embaixadores de movimentos de libertação — me convidou pra tomar um aperitivo em sua casa, com uns amigos.

No dia e horário marcados, final da tarde, chegamos lá, a Célia e eu. Os amigos de Pepe, o embaixador, eram três dirigentes nacionais do PC Cubano. Eu havia feito umas críticas a algumas coisas em Cuba e ele me pôs cara a cara com os dirigentes para discutir minhas críticas. Foi bom. Falei o que queria, eles não concordaram comigo, mas ouviram.

Uma das minhas principais críticas era que na época muitos jovens cubanos eram doidos para ter uma calça jeans da marca Lee, mas a dita cuja era produzida — teoricamente — nos Estados Unidos e não entravam legalmente em Cuba, a não ser como roupa dos poucos turistas que iam lá, na época.

O “teoricamente” que disse aí é porque havia muita falsificação. O Brasil tornou-se, desde anos antes, grande fabricante da tal calça, com etiqueta e tudo, com qualidade que não dava para diferenciar da original. Diziam na época que a calça Lee brasileira era até exportada para os Estados Unidos.

Fui abordado várias vezes por jovens cubanos querendo trocar alguma coisa deles por uma calça Lee. Quase não acreditavam que eu não tinha. Eu usava calça jeans também, mas de um brim mais fino e menos quente e duro, e também mais barata, pois não tinha a pretensão de ser importada.

Então, argumentei com os dirigentes comunistas: jovens que tinham aquela babaquice de querer aquela marca acabavam se sentindo contraventores, até meio contrários à Revolução, por causa de uma besteira dessas.

Eles falaram sobre as “divisas” (dólares) necessárias para comprar coisas de primeira necessidade e não podiam ser desperdiçadas com a importação de calças, ainda mais dos gringos — aliás, se topassem importar teria que ser por via indireta, já que não havia comércio entre Cuba e Estados Unidos.

— Pois fabriquem aqui — falei — O Brasil faz isso. Vocês têm algodão, têm uma indústria têxtil razoável, podem fabricar calças iguais àquelas e tascar etiquetas Lee. Agradam essa parte da juventude e ela fica mais contente com o governo cubano.

Como disse, não convenci ninguém. Mas a discussão continuou numa boa, regada a rum com sete anos de envelhecimento. No final, brinquei com os líderes cubanos:

— Havana poderia ser a melhor cidade do mundo, se vocês importassem cinquenta portugueses e cem baianos.

Eles não entenderam e expliquei que o modelo socialista criava uns botecos ruins, a não ser os dos hotéis:
 
— Pra tomar um rum e uma cerveja e comer um tira-gosto, a gente precisa ir a três bares, porque um só vende rum, outro só vende cerveja e outro vende os tira-gostos.

Era um exagero meu, mas tinha algumas áreas da cidade em que os bares funcionavam mais ou menos assim. Por exemplo: a Cervejaria Tcheca só vendia cerveja mesmo. Nada de um destilado pra acompanhar, nem tira-gosto. E ao lado tinha uma pizzaria que só vendia pizza mesmo, mais nada. Nem uma cervejinha.

E continuei explicando pra eles que o modelo mais eficiente de bares do mundo, no meu conceito, eram os botecos de esquina de São Paulo, com um português no caixa, um baiano (nordestino aqui é baiano) no balcão e outro na cozinha. Você pede qualquer comida e qualquer bebida que fica pronta em pouquíssimos minutos. Têm altíssima eficiência e os preços na época eram baixos.

— Já imaginou Havana com cinquenta botecos de esquina como esses paulistanos? — perguntei.

Eles apenas sorriram.
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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia).

Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças-feiras.

Enviado por Urariano Mota

domingo, 16 de janeiro de 2011

Revolução silenciosa

Bolívia enriquece, distribui renda, cuida da saúde do seu povo, acaba com o analfabetismo. E irrita a elite branca.

Por: *Mouzar Benedito
Publicado em 03/01/2011

Ilustração: Vicente Mendonça

“A Bolívia não é um país, é um acampamento”, disse certa vez, durante a ditadura brasileira, o general Golbery do Couto e Silva. E teria dito também que seria bom dividir esse “acampamento” entre os países vizinhos, de maneira que o país sumisse do mapa. Não haveria muito de novidade nisso.

Evo Morales - Presidente da Bolivia
Na época de sua independência, há 201 anos, a Bolívia tinha 2,3 milhões de quilômetros quadrados – hoje tem menos de 1,1 milhão. O Brasil foi o que mais garfou. O Chile tomou a fatia de litoral e deixou o país sem acesso ao mar. E são terras ricas em minérios. Peru, Argentina e até o Paraguai têm territórios conquistados da Bolívia.]

Essa perda sucessiva de território sempre teve a ver com maus governantes e com militares corruptos. Todos eles descendentes de europeus. Os índios, de diversas etnias, entre elas a aymara e a quechua, nunca tiveram vez. Eram considerados não cidadãos. Até que um índio, vencendo todos os preconceitos, chegou ao governo.

Era nisso que eu pensava enquanto traduzia, admirado, parte do livro A Potência Plebeia – Ação Coletiva e Identidades Indígenas, Operárias e Populares na Bolívia (Boitempo Editorial), de Álvaro García Linera, que além de sociólogo e matemático é vice-presidente do país.

Garcia Linera - VP da Bolivia
Linera é um grande intelectual, nascido em família mestiça de classe média. E teve papel importante na eleição de Evo Morales, pois foi um fator de atração da classe média urbana, que torcia o nariz para a possibilidade de um presidente índio.

Se no Brasil, como vemos quase cotidianamente lembranças na imprensa, havia o “complexo de vira-latas”, no dizer de Nelson Rodrigues, imagine a autoestima dos índios bolivianos! Não eram levados em consideração nem mesmo pela esquerda tradicional, que tinha o operariado como protagonista das transformações, e pronto! Índio não fazia parte das expectativas revolucionárias dessa esquerda.

E o que vemos agora? A Bolívia se enriquecendo, distribuindo renda, cuidando da saúde do seu povo, acabando com o analfabetismo (e, nisso, é preciso lembrar que a maior parte da população fala aymara ou quechua, mas há vários outros idiomas indígenas). A autoestima indígena está mais alta que os Andes. O operariado, representado pelos mineiros, agora é configurante no processo de transformação.

Victor Paz Estenssoro
Falando em mineiros, algo acontecido em quase toda a América Latina: um líder com um passado respeitável se convertendo em capacho internacional. Na Bolívia foi Victor Paz Estenssoro, que liderou uma revolução popular em 1952, nacionalizou as minas (principal fonte de renda do país), foi eleito novamente em 1985 e fez um governo neoliberal criminoso: entregou o patrimônio do país aos estrangeiros e jogou seus operários no desemprego e no desespero.

Linera pode ser considerado um ideólogo do governo Morales. No livro, uma coletânea de ensaios (o primeiro deles sobre a atualidade do Manifesto Comunista, que pode ser pulado por quem quiser entrar diretamente no assunto Bolívia), conta todo esse processo, desde sua gestação até o esperneio da elite branca da atual parte rica da Bolívia, o leste, que não se conforma em perder o poder, mas não tem projetos consistentes nem líderes capazes de retomar o poder.

Os índios experimentaram o sabor de estar no comando. E gostaram. E inovam: em vez de um país com uma única etnia com direitos, como havia antes, propõem um país multiétnico, pluricultural. Mas não aceitam submissão, estão conscientes de seu poder e reafirmam sua identidade. Com as bênçãos de Pachamama (Mãe Terra), em suas festas tremulam as whiphalas, bandeiras multicoloridas dos povos andinos, com cada cor simbolizando algum aspecto da cultura indígena (a terra, a energia, o tempo, o espaço cósmico etc.). Uma revolução sem holofotes acontece ali.

*Mineiro de Nova Resende, jornalista e geógrafo. Publicou vários livros, entre eles O Anuário do Saci, ilustrado por Ohi. 
Enviado por Jotamorim