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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

CIA, via Washington Post, tenta “salvar” seu programa de drones

30/10/2013, TRNN. [*] Gareth Porter entrevistado por Jaisal Noor
Vídeo - entrevista (8’33”)traduzida da transcrição pelo pessoal da Vila Vudu


Jaisal Noor, produtor de TRNN: Bem-vindos à The Real News Network e a mais uma edição de The Porter Report. Sou Jaisal Noor e falo de Baltimore.

Nessa 3ª-feira, pela primeira vez, uma família de paquistaneses que sobreviveram a um ataque por drones compareceu a uma audiência do Congresso, no Capitólio, para depor e testemunhar contra os efeitos devastadores que o programa dos drones dos EUA teve em sua vida. Presidida pelo Deputado Alan Grayson da Florida, a audiência acontece num momento em que o caríssimo programa dos drones do governo Obama enfrenta críticas de grupos de defensores de direitos humanos e na ONU. O Gabinete de Jornalismo Investigativo [orig. Bureau of Investigative Journalism] estima que os ataque de drones já mataram mais de 3.600 paquistaneses.

Em visita a Washington semana passada, o Primeiro-Ministro do Paquistão, Nawaz Sharif conclamou os EUA a pôr fim aos ataques no Paquistão.

Então, de repente, aconteceu “algo”: o jornal Washington Post noticiou que, segundo memorandos secretos da CIA que o jornal teria obtido, o governo do Paquistão, embora critique publicamente o programa de drones dos EUA e a matança de civis, estaria, de fato, mancomunado com o governo dos EUA e, secretamente, apoiaria o programa de drones.

Nosso entrevistado de hoje diz que, porque os militares paquistaneses já estavam na mídia contra os drones, “o vazamento de documentos secretos pela CIA, para o Washington Post, parece evidenciar um esforço, dos funcionários da CIA para opor-se à decisão do governo Obama de reduzir ao mínimo a guerra às drogas no Paquistão, ou de abandonar completamente esse programa...”

Hoje, temos conosco Gareth Porter, historiador e jornalista investigativo especialista em questões militares e de política externa. Obrigado por nos receber, Gareth.

PORTER: Obrigado pelo convite, Jaisal.

NOOR: Você publicou um artigo respondendo a essa matéria muito comentada do Washington Post que surgiu em ocasião muito conveniente, em que cresce a oposição, internacionalmente, e conduzida por grupos de direitos humanos, na ONU e também pelo Primeiro-Ministro do Paquistão que esteve nos EUA. Todos esses exigem o fim dos ataques dos drones dos EUA. Você sabe, esse ano os ataques por drones no Paquistão foram muito reduzidos. Fale-nos um pouco sobre o timing dessa notícia do Washington Post, ou, de fato, sobre o timing desse vazamento da Agência de Inteligência Central (CIA) dos EUA, para o Washington Post.

PORTER: Bem, aí há dois aspectos. Um é o timing de curto prazo. Quanto a isso, é claro que tudo foi feito para coincidir com a visita de Nawaz Sharif, porque já se sabia que Sharif diria publicamente que dissera ao presidente Obama que o governo do Paquistão exige o fim dos ataques de drones.

E, ao mesmo tempo, me parece, há aí outro timing mais geral, de mais longo prazo, que, como você já disse, tem a ver com o fato de que o governo Obama está sob forte pressão na questão da guerra de drones no Paquistão. E tem havido sinais claros, nos últimos meses, de que o governo Obama está reconsiderando toda a política da guerra dos drones no Paquistão. Ambos, o presidente Obama e o secretário de Estado, John Kerry, fizeram já declarações oficiais nessa direção. E, de fato, John Kerry disse mais recentemente, em agosto, que acreditava que o presidente tinha planos para pôr fim a tudo isso e que esperava que acontecesse logo.

Portanto, é claro para mim que o pessoal da CIA que trabalha na guerra dos drones no Paquistão sentiu-se acuado. Eles temem que o programa seja extinto. E acho que resolveram resistir. O que vimos nessa história do Washington Post é um esforço para “virar” a discussão, para pôr a opinião pública contra alguma decisão do governo para pôr fim ao programa de drones. Para tanto, estão declarando que o governo paquistanês não mereceria confiança, nem respeito, porque seria “hipócrita” ao dizer que o programa tem de acabar.

Tudo isso, é claro, representa erradamente a verdade da situação, que já conhecemos há bom tempo. Sabemos há vários anos que, sim, houve um entendimento durante o governo de Musharraf, pelo qual a CIA dos EUA tinha autorização para usar drones contra a al-Qaeda, e que os militares aceitavam integralmente essa situação, assim como o governo civil, nos anos iniciais do programa. E é compreensível, porque, no início, os alvos eram – ou se supunha que fossem – da al-Qaeda. De fato, é preciso dizer, há inúmeras provas de erros nos ataques; muitos civis morreram; a inteligência que norteava os drones era de baixa qualidade ou insuficiente e houve muitas vítimas civis e inocentes, mortas nos primeiros dois ou três anos daquele programa.

Mas o verdadeiro problema surgiu em 2008, quando a CIA convenceu a Casa Branca a expandir a lista de alvos para incluir, além de membros da al-Qaeda, também “alvos de alto valor”, predefinidos, no que a CIA chamou de “ataques assinados”, significando que os ataques seriam dirigidos contra gente considerada do “alto comando” de organizações terroristas. Esses alvos passaram a ser “selecionados” por simples suposição de que um ou outro suspeito tivesse algum (no sentido de “qualquer”) envolvimento não só com a al-Qaeda mas, também, com os Talibã afegãos. Nesse momento, em que o número de “alvos” foi muito ampliado, aumentou muito, também, o número de civis mortos nos ataques por drones. Nesse momento, sim, os militares paquistaneses passaram a opor-se fortemente ao programa dos drones.

Aí está a explicação de por que as fontes na CIA conseguiram enganar ninguém menos que Bob Woodward, jornalista longamente associado ao jornalismo investigativo e que ainda tem reputação de ser jornalista sério. Temo que, nesse caso, Woodward foi usado.

NOOR: Mas... Não se vê aí um sinal de desespero na CIA? Será sinal de que a oposição internacional pode, afinal, estar tendo algum efeito? Ou o caso é que, sim, o programa é inefetivo e, por isso, o governo Obama começou a mudar de direção e a afastar-se dos drones?

PORTER: O quadro é mais complicado. Não há dúvidas de que a pressão da comunidade internacional, pelo menos pela publicidade que se deu ao número de civis mortos, teve seu papel. Somou-se à pressão sobre o governo para que considerasse com mais atenção se o programa é realmente necessário.

Mas, nessa discussão, aconteceu também que os ataques de drones estavam visando, como já disse, os Talibã afegãos que estavam ou têm base no Paquistão. E, porque os EUA estão saindo do Afeganistão, não há dúvidas de que o governo Obama está reconsiderando o programa, se é ou não necessário dar prosseguimento à guerra combatida no Afeganistão. Aí está boa parte da razão pela qual acho que o governo está pronto, agora, para dizer que, ora... já não precisamos, realmente, desse programa.

O ponto final é que já mataram muitos alvos “de alto valor”, da al-Qaeda. Mataram grande número de altos quadros da al-Qaeda ou, pelo menos, um número significativo, e já não estão encontrando muitos outros, da al-Qaeda, para matar. Assim sendo, a justificativa original para o programa, de fato, já não existe há muito tempo.

Por tudo isso, me parece que a principal razão pela qual a CIA insiste em manter o programa dos drones é porque é “bom negócio” e ajuda a pagar as contas da CIA. A CIA não quer perder um grande programa, que foi fonte de muito dinheiro, ou, em outras palavras, de muito investimento na CIA, já há vários anos.

====== DESPEDIDAS E FIM DA ENTREVISTA ======


[*] Gareth Porter (nascido em 18 junho de 1942) é um historiador americano, jornalista investigativo, autor e analista político especializado na política de segurança nacional dos EUA. Especialista em Vietnã e ativista anti-guerra durante a Guerra do Vietnã, servindo em Saigon como chefe do departamento de expedição do News Service International nos anos 1970-1971 e, mais tarde, como co-diretor do Centro de Recursos da Indochina. Foi muito criticado por seu entusiasmo pelo Khmer Rouge, partido do governo do Camboja, na época. Escreveu vários livros sobre os conflitos no Sudeste Asiático e no Oriente Médio, o mais recente dos quais é Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War in Vietnam; uma análise de como e por quê os Estados Unidos foram à guerra no Vietnã. Porter também tem escrito para Al Jazeera –em inglês, The Nation, Inter Press Service, The Huffington Post e Truthout. Foi vencedor em 2012 do Prêmio Martha Gellhorn de jornalismo, que é atribuído anualmente pelo Club Frontline em Londres. Porter é formado na Universidade de Illinois. Recebeu seu mestrado em Política Internacional na Universidade de Chicago e seu Ph.D. em Estudos sobre o Sudeste Asiático na Universidade de Cornell. Ministrou cursos sobre Estudos sobre Política Internacional no City College of New York e na American University. Atualmente atua como jornalista free-lancer para inúmeras publicações internacionais.

domingo, 12 de maio de 2013

Imran Khan governará o noroeste do Paquistão, território da al-Qaeda


12/5/2013, The Express Tribune (International Herald Tribune) Paquistão (AFP) –
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu

Nota do Coletivo de tradutores da Vila Vudu: O jornal-empresa que publica esta “análise” que aqui se lerá tem, por Imran Khan, tanta simpatia quanto as empresas que formam o Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão), pelos nossos governos Lula-Dilma. Pode-se dizer que The Express Tribune é o jornal da UDN golpista e pró-EUA, do Paquistão. E sobre a agência France Presse, nem é preciso falar: todos conhecemos o teor do noticiário que a Agência distribui, porque é a úúúnica coisa que se lê e ouve, infinitamente repetida, no Brasil desinformado, há eras, pelo Grupo GAFE.
Mas optamos por traduzir o artigo abaixo, porque, por enviesado e vicioso que também seja, o jornalismo paquistanês é MUITO melhor que o jornalismo brasileiro, que é o pior do mundo. E a matéria explica, um pouco pelo menos, sobre os partidos que ontem disputaram uma eleição histórica no Paquistão e o quadro que se configura hoje – o que o “jornalismo” brasileiro [só rindo] não informa. Então, lá vai.

Imran Khan
No resultado que parece ser o mais dramático das eleições de ontem no Paquistão, o partido de Imran Khan saiu vitorioso no noroeste do país. Será um duro teste para o ex-campeão de críquete, de retória antiamericana, que clama por conversações de paz com os Talibã.

Depois de anos de guerra, tergiversações e promessas não cumpridas pelos partidos religiosos e o secular Partido Nacional Awami [orig. Awami National Party (ANP)], os eleitores que vivem nas áreas controladas pela insurgência Talibã recompensaram o jamais testado partido de Khan e deram-lhe maioria no Parlamento regional nas áreas pashtuns do Paquistão.

Para o Partido Pakistan Tehreek-e-Insaaf (PTI)/Movimento Paquistanês por Justiça, de Khan, que, antes, só tinha um deputado, foi vitória avassaladora na região do Khyber Pakhtunkhwa (KPK) – das regiões mais tumultuadas do país –, que entrega a Khan uma taça envenenada, pode-se dizer, pelo excesso de responsabilidades.

Os resultados iniciais indicam que o PTI de Khan elegeu 33 deputados à Assembleia Provincial da região Khyber pashtun, de 99 deputados; o concorrente mais próximo, Jamiat Ulema-e-Islam, ficou com apenas 15 deputados.

Sempre em obcecada oposição aos ataques dos drones norte-americanos, tanto quanto contra os ataques do governo paquistanês contra os Talibã acusados de assassinar milhares de pessoas, a vitória do PTI de Khan no noroeste do país empurra o partido para bem longe dos belos ideias da oposição, e na direção das confortáveis realidades do governo. [ISSO AÍ PARECE PAPIM DA DONA DORA KRAMER! Em paquistanês pró-EUA & drones “éticos”, então, SOA IGUALZINHO! (risos, risos muitos) (NTs)].

Said Saifullah Khan Mahsud
Para muitos analistas, Khan terá um duro despertar e perceberá, muito rapidamente, que suas política de pacificação são ingênuas, que não se trata simplesmente de “a guerra dos EUA” e que os Talibã não são gente com quem se possa negociar.

Terão de acordar rapidamente para a realidade, porque as posições dos Talibã são tais que absolutamente não são conciliáveis com nenhum governo, nem nas províncias pashtuns nem na capital Islamabad – disse Said Saifullah Khan Mahsud do Centro de Pesquisa da FATA [Federal Administrated Tribal Areas/Áreas Tribais sob Administração do Governo Central].

Ehsanullah Ehsan
O partido ANP, que governou as áreas pashtuns nos últimos cinco anos foi, simplesmente, varrido do mundo político pelas urnas, expulso por um eleitorado cansado de governos corruptos e incapazes de construir qualquer paz naquelas províncias devastadas pela guerra.

Khan, por sua vez, autoapresenta-se como líder carismático. Esteve inúmeras vezes na região, conversando com gente comum nas ruas, prometendo paz e denunciando repetidamente os ataques pelos drones norte-americanos: a fórmula deu certo.

Os Talibã, para os quais a democracia ocidental seria anti-islamista, matou mais de 150 pessoas durante a campanha eleitoral, inclusive 24 no próprio dia das eleições. Os partidos seculares que formavam a coalizão de governo foram, de longe, os que sofreram maior número de baixas.

Em entrevista por telefone com a Agência France Presse, o porta-voz dos Talibã, Ehsanullah Ehsan, disse que

...os insurgentes esperarão que os partidos formem o novo governo na capital e nas províncias pashtuns”, antes de anunciarem sua própria política.

Nawaz Sharif 
Mas, antes das eleições, falando do Partido Liga Muçulmana do Paquistão [Pakistan Muslim League-N, PMLN] que venceu as eleições para o Parlamento nacional, e do PTI de Khan, eleito na região pashtun do noroeste do país, Ehsan já avisara que

...só os atacaremos se fizerem governo que entrem em conflito com o Islã.

A situação sugere, para o PTI de Khan, a desconfortável perspectiva de ter de recuar das políticas que conseguiram elegê-lo – diz Umair Javed, jornalista paquistanês [DEVE SER A D. ELIANE, DO PAQUISTÃO, OU UM/UM URUBÓLOGO NEOLIBERAL QUALQUER, POR LÁ (RISOS, RISOS)].

Até agora, Imran Khan sempre foi muito claro: vai acabar com tudo. Nada de inteligência compartilhada com os EUA, nada de via de passagem para a OTAN, fim completo do programa de drones dos EUA no Paquistão.

Shaukat Qadir
Mas governar uma província pode ser experiência grande demais para o partido de Khan e, em todos os casos, obrigará o partido a temperar algumas de suas posições extremistas [É O ESTADÃO! É O ESTADÃO NO PAQUISTÃO! A UDN GOLPISTA É UNIVERSAL! (risos, risos, sim, mas que a UDN é universal, é! No mínimo, é... GLOBAL! (risos, risos muitos)(NTs)] contra a Guerra ao Terror e no que tenham a ver com as relações Paquistão-EUA – continua o jornalista.

Aspecto crucial desse processo será a relação entre o PTI de Khan nas províncias pashtuns e o governo de Nawaz Sharif  no governo central. De fato, os dois candidatos manifestaram posições semelhantes sobre a Guerra ao Terror. Mas Sharif é tido como político pragmático.

Ashfaq Kavani
Contudo, mesmo que se adote a via de começar a negociar a paz com os Tallibã, já se sabe que políticas semelhantes deram em nada em anos recentes.

Khan quer paz sem combater. É provável que vejamos mais um acordo de paz e, depois de poucos meses de desmandos e injustiças dos Talibã, a opinião pública voltará a virar-se contra ele – disse Shaukat Qadir, brigadeiro aposentado e analista de segurança. 

Soldados paquistaneses combatem há anos, mas só em 2009 o país uniu-se pela primeira vez em operação nacional contra os Talibã em Swat, depois de divulgado um vídeo em que uma moça de 17 anos é chicoteada. 

Mas muito dependerá provavelmente do poderio militar do Paquistão. O comandante do Exército, general Ashfaq Kayanisempre foi dedicado aliado dos EUA, mas os soldados mais jovens dão sinais de, cada dia mais, rejeitar uma guerra sangrenta e começam a dar sinais de oposição à intervenção norte-americana.

Talat Masood

É situação muito complicada, porque, por um lado, o Comandante Geral do Exército disse recentemente que as forças militares e as forças políticas devem andar lado a lado, mas não se vê qualquer concessão, das forças contra as quais combatem – diz o general Talat Masood.