segunda-feira, 28 de maio de 2012

Alan Gross e a “liberdade de imprensa” (e Los Cinco Heroes)


Mas... Jornalistas não leem a “imprensa livre”?

25-27/5/2012, Saul Landau, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Alan Gross
Há menos de três anos, as autoridades cubanas prenderam Alan Gross, contratado por quase US$600 mil pela empresa DIA.Inc. para um programa da Agência USAID em Cuba.

Em Havana, as autoridades cubanas leram seus relatórios de viagem, nos quais Gross relatava o que fizera para entregar a um grupo pré-selecionado de, na maioria, judeus cubanos, equipamentos de tecnologia sofisticados e ilegais.

Gross contrabandeava equipamentos para Cuba, “peça por peça, em malas e sacos de viagem que eram despachados e jamais o acompanhavam como bagagem de mão”.

Entre os itens contrabandeados havia “laptops, smartphones, discos rígidos e equipamento para conexão de internet”, escreveu Desmond Butler, em matéria sobre o affair Gross, para a Associated Press, dia 12/2/2012 [1]. “O item mais sensível”, segundo os relatos de viagem do próprio acusado, era… um chip para telefone celular ultrassofisticado que, sempre nas palavras do próprio acusado, era “usado pelo Pentágono e pela CIA para gerar sinais para satélites, virtualmente impossíveis de rastrear”.

Com seu sofisticado SIM card, o grupo podia também encobrir os sinais emitidos e escapar a qualquer rastreamento. Todo esse equipamento não visava a impedir que o governo de Cuba conseguisse descobrir receitas de acepipes tradicionais que judeus cubanos trocariam por telefone, entre eles e com cozinheiros do Pentágono e da CIA.

A Agência USAID (US Agency for International Development/Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional) pagava pelos serviços de Gross, como parte de seu plano para “promover a democracia” e levar “desenvolvimento econômico e ajuda humanitária em todo o mundo, sempre a serviço das metas de política externa dos EUA”. Mas Gross identificava-se como “membro de um grupo de judeus que prestavam ajuda humanitária aos cubanos, nunca como agente do governo dos EUA”. [1]

Victoria Nuland 
Dia 11/5/2012, cerca de três meses depois de publicado o artigo de Butler, a principal porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Victoria Nuland, participou do seguinte diálogo, em briefing do Departamento de Estado para a imprensa, como transcrito por seu gabinete e reproduzido em Daily Press Briefing.

A seguir, excerto em que Nuland fala do “caso Gross”:

PERGUNTA: Podemos falar de Cuba

MS. NULAND: Sim.

PERGUNTA: Ontem, uma funcionária do governo de Cuba, deu uma entrevista à CNN. Seu nome é Josefina Vidal  [2] . Disse que Cuba encaminhou uma espécie de oferecimento aos EUA, para libertarem Alan Gross. Há possibilidade de alguma negociação nesse front?

Hillary Clinton (e) e Victoria Nuland (d)
MS. NULAND: Bem... Acho que, se você voltar a uma entrevista que a secretária Clinton concedeu à CNN no início da semana, de New Delhi... A secretária Clinton foi muito clara sobre essa questão. Não há qualquer semelhança entre as duas situações. De um lado, temos espiões condenados nos EUA [3]. De outro lado, um homem que trabalhava em ajuda humanitária, que, para início de conversa jamais poderia ter sido preso.

Evidentemente não estamos considerando a libertação dos “Cinco Cubanos” nem cogitamos de qualquer troca de prisioneiros. O encarceramento de Gross é deplorável, é errado e afronta a decência humana. E o Governo de Cuba tem de fazer a coisa certa.

PERGUNTA: Nesse caso... OK. A senhora, então, confirma que a proposta de Cuba está, mesmo, relacionada aos Cinco Cubanos. Não havia informação, até agora, que confirmasse essa vinculação.

MS. NULAND: O governo cubano tenta regularmente vincular as duas coisas. Nós rejeitamos regularmente qualquer vínculo.

PERGUNTA: Sim, mas... Por que, quero dizer: vários funcionários do seu governo estão trabalhando numa troca de cinco prisioneiros dos Talibã, e Bowe Bergdahl, como se sabe, sim, tudo indica que esteja envolvido nessa troca. Por que o seu governo não vê problemas em devolver prisioneiros Talibã, mas recusa-se a entregar prisioneiros cubanos, em troca de Cuba devolver um cidadão norte-americano que é prisioneiro em Cuba e, além do mais, está muito doente?

MS. NULAND: Não há qualquer equivalência entre os dois casos, e o governo de Cuba sabe disso. Temos o caso de um governo autoritário que prendeu um homem que fazia caridade e oferecia ajuda humanitária a cidadãos cubanos; e que foi preso sem provas. Só podemos negociar com governos estabelecidos. Até hoje nada disso existe em Cuba e não há condições para qualquer tipo de negociação. 

PERGUNTA: A senhora está dizendo que [Alan Gross, preso em Cuba] não infringiu leis cubanas?

MS. NULAND: Não vou discutir isso. Se infringiu ou não.

PERGUNTA: Mas, pensei que...

MS. NULAND: É o seguinte: nossa posição é que ele nada fez de errado.  

PERGUNTA: Nesse caso... Por que... Quero dizer... 

MS. NULAND: Nada fez de errado. Nós entendemos... Nós achamos que suas...

PERGUNTA: ... as atividades dele, entendi. Os Cubanos dizem que as atividades dele violaram leis cubanas. Quer dizer: a senhora concorde ou discorde, com o que a lei cubana determina... A lei cubana é a lei cubana. Mas esse é outro problema.

MS. NULAND: Nós...

PERGUNTA: Seja como for... O que ele estava fazendo, dizem os cubanos, é ilegal. Quer dizer... 

MS. NULAND: Bem, nós rejeitamos categoricamente...

PERGUNTA: Mas... Vocês rejeitam categoricamente que ele tenha infringido a lei cubana?  

MS. NULAND: Rejeitamos categoricamente as acusações feitas contra ele e o fato de ter sido preso.

PERGUNTA: Mas a senhora disse que é “afronta à decência humana”.

MS. NULAND: Hã-hã.

PERGUNTA: Por quê? Por que é “afronta à decência humana”? 

MS. NULAND: Porque está encarcerado sem motivo algum. Estão-lhe negando qualquer consideração humanitária. Dou-lhe um caso para comparar, que consideramos relevante.

Mesmo no caso dos Cinco Cubanos ok, temos um deles, Rene Gonzalez, preso há 15 anos por espionagem. Estava em liberdade condicional nos EUA. Pediu para voltar a Cuba, para visitar um parente doente. Permitimos. E ele foi e não voltou aos EUA. O nosso gesto foi gesto humanitário. Mas, repito, é uma situação completamente diferente. Mas o governo cubano não lhe assegura esse tipo do humanidade numa situação totalmente (inaudível), para início de conversa. A linguagem também é diferente.

PERGUNTA: Quanto a isso...  

MS. NULAND: Sim.

PERGUNTA: ... ontem, os funcionários cubanos disseram que Gross não pode viajar aos EUA para visitar a mãe, porque ainda não cumpriu o mínimo da sentença, que lhe daria esse direito. O que a senhora diz a isso?

MS. NULAND: Olhe, nós rejeitamos todo o negócio, qualquer tipo de equivalência e qualquer tipo de posição que o governo cubano tome, tudo, é completamente injusto. Ok? Assunto encerrado. Outro assunto?

__________________________________

Mas... O que significa tudo isso?

A porta-voz não leu o artigo de Butler? E, se leu, que sentido há em repetir que Gross “distribuía laptops e computadores-padrão para ajudar a comunidade de judeus cubanos no acesso à Internet”?

A verdade – como La Alborada noticiou – é que Gross estava construindo a infraestrutura para um sistema clandestino de comunicações por satélite, para fazer propaganda contra o governo cubano, em Cuba; e para promover agitações e criar pretexto para forçar a entrada, em Cuba, de supervisores de “direitos humanos”, para construir “a democracia”. “Gross é técnico experiente na instalação desses equipamentos. Mas lá estava, de fato, como testa de ferro, considerado “indestrutível”, porque é judeu, ativo apoiador da organização B’nai B’rith; e porque se apresentou como uma espécie de Papai Noel, para distribuir computadores e equipamentos sofisticados, a judeus cubanos impedidos de praticar seus cultos e sem meios para acessar a Internet”. [1]

Cuba não prendeu Gross por “tentar ajudar outros judeus a partilhar cultos e informações religiosas e culturais. Gross está na cadeia porque atuava como agente de país inimigo de Cuba, em programa que visava a desestabilizar o governo cubano”. [1]

Para que serviria a imprensa livre, se os funcionários da Casa Branca, do Pentágono e do Departamento de Estado dos EUA não lhe dão qualquer atenção, ou não leem a imprensa livre ou fingem que não conhecem os fatos?

Mas também os jornalistas ignoram... a imprensa livre! 

Wolf Blitzer, jornalista e âncora da rede CNN, ou fingiu ignorância, ou estava desinformado dos fatos, quando entrevistou Hillary Clinton e Alan Gross. [4]

Desmond Butler fez apenas... jornalismo, quando se dedicou a ler atentamente os relatos de viagem do próprio Gross, com a mesma atenção que lhes dedicaram “agentes da USAID [que] recebiam relatórios periódicos dos avanços da missão de Gross, nas palavras do porta-voz da empresa DAI, contratada pela USAID, Steven O’Connor”. [1]

Butler leu, nos relatórios do próprio Gross, que, “para passar pela revista no aeroporto, [Gross] subcontratou a ajuda de outros judeus norte-americanos, para contrabandear equipamento eletrônico, peça a peça, para território cubano. Deu instruções aos seus colaboradores [judeus em viagens de peregrinação religiosa a Cuba] para despachar dentro das malas o equipamento contrabandeado; e nada levar na bagagem de mão”. [1]

No briefing para a imprensa dia 11 de maio, Nuland “rejeita categoricamente as acusações feitas contra [Gross] e o fato de ter sido preso”.

Mas Nuland não leu, tampouco, o que Judy Gross – esposa do agente da USAID – disse em entrevista a uma repórter de televisão: “Nós sabemos que ele [Alan Gross] infringiu a lei cubana”. Ficaram sabendo, pelo menos, quando Gross chegou a Cuba e foi preso.

Judy Gross
Por isso, decidi escrever a Mrs. Gross,

Cara Judy,

Por favor, envie cópia de sua entrevista diretamente à secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton; ao presidente Obama; e aos jornalistas que trabalham nas respectivas assessorias de imprensa de Clinton e Obama. Em seguida, à frente da Casa Branca e do Departamento de Estado, instale um cartaz: “Alan, meu marido, infringiu leis cubanas”. Quem sabe, com sorte, o pessoal por lá entenderá que muita gente já sabe do que a imprensa livre já sabe e já noticiou.”.

Desejo-lhe sorte. Saul.



Notas dos tradutores

[1] 12/2/2012, Associated Press - Desmond Butler, AP IMPACT: USAID contractor work in Cuba detained.

[2]10/5/2012, CNN [vídeo, em inglês], em: CNN's Wolf Blitzer follows the story of jailed U.S. citizen Alan Gross”; ou íntegra na Nota [4]

[3] A história desses cinco agentes cubanos [“espiões”, para a secretária Clinton, e “Los Cinco Heroes” para o resto do mundo, é tema do livro-reportagem Últimos soldados da Guerra Friade Fernando Morais (SP: Companhia das Letras, 2010), em cuja apresentação lê-se:

“No início da década de 1990, Cuba criou a Rede Vespa, um grupo de doze homens e duas mulheres que se infiltrou nos Estados Unidos e cujo objetivo era espionar alguns dos 47 grupos anticastristas sediados na Flórida. O motivo dessa operação temerária era colher informações com o intuito de evitar ataques terroristas ao território cubano. De fato, algumas dessas organizações ditas “humanitárias” se dedicavam a atividades como jogar pragas nas lavouras cubanas, interferir nas transmissões da torre de controle do aeroporto de Havana e, quando Cuba se voltou para o turismo, depois do colapso da União Soviética, sequestrar aviões que transportavam turistas, executar atentados a bomba em seus melhores hotéis e até disparar rajadas de metralhadoras contra navios de passageiros em suas águas territoriais e contra turistas estrangeiros em suas praias.”

[4] Assista a seguir: “Cuban Officials talks about  Alan Gross”


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