terça-feira, 8 de maio de 2012

Assange: 4º. Programa - entrevista com Nabeel Rajab e Alaa Abd El-Fattah


4º Programa, 8/5/2012, Russia Today, “The World Tomorrow”/O mundo amanhã, 27’
Entrevista transcrita e traduzida pelo pessoal da Vila Vudu

Nabeel Rajab foi preso, com outro ativista, logo depois dessa entrevista, ao voltar ao Bahrain, vindo do Líbano. Para informar-se sobre sua situação, acompanhe atualizações na página de WikiLeaks

Em reação à prisão desses dois ativistas, a página da Polícia do Bahrain foi derrubada por Anonymous: Operation Bahrain  -  @Op_Bahrain
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Julian Assange: A primavera árabe é a materialização dos sonhos de muitos, ou é uma fantasia impossível? Essa semana, ando na direção contrária à da mídia-empresa internacional e converso diretamente com dois líderes revolucionários.

O escritor e ativista Alaa Abd El-Fattah, que está no Cairo. Foi preso, foi proibido de viajar, e converteu-se em ícone da revolução traída.

E aqui, na prisão domiciliar em que vivo, em Londres, recebo a visita de Nabeel Rajab, diretor do Centro de Direitos Humanos do Bahrain e uma das figuras mais importantes do levante no Bahrain.

Quero perguntar-lhes sobre as revoluções no Oriente Médio. Foram bem-sucedidas, fracassaram, foram revolução declaradas ou clandestinas? O que os motiva a continuar arriscando a própria vida?

Julian Assange: Alaa.

Alaa Abd El-Fattah: Alô! Olá.

Julian Assange: Você me vê? Aqui ao meu lado está Nabeel, do Bahrain.

Alaa Abd El-Fattah: Sim [falam em árabe]

Nabeel Rajab: Estávamos preocupados com você. 

Alaa Abd El-Fattah: É um prazer encontrá-los. 

Julian Assange: Você está em liberdade, mas não por muito tempo...

Alaa Abd El-Fattah: Nenhum de nós tem liberdade garantida, não é?

Julian Assange: Não, parece que não [risos].

Julian Assange: Mas o que aconteceu nas últimas semanas? Nós convidamos você e tentamos trazê-lo...

Nabeel Rajab: Da outra vez [em que foi convidado]...

Julian Assange: ... você estava na cadeia.  

Nabeel Rajab: É, é verdade. Estava preso. Me obrigaram a ficar lá metade do dia. Mês passado, fui atacado e golpeado em plena rua. Há alguns meses, uns mascarados dos serviços de segurança entraram na minha casa, arrancaram-me de lá, levaram-me para lugar que não sei onde é, de olhos vendados, fui torturado e, depois, me levaram de volta para casa. Quando informei, pela minha conta no Twitter, que viria encontrar Julian Assange, falar com ele num programa de televisão, à noite minha casa foi cercada por quase 100 policiais, armados de metralhadoras. Até que se deram conta de que eu não estava em casa. Disseram à minha família que eu teria de me apresentar à polícia hoje, até as 4h. Bom... Estou aqui.

Julian Assange: Hoje, às 4h, você está aqui. 

Nabeel Rajab: Já tinha vindo. Recebi a mensagem na noite passada e acho... Já estou acostumado. 

Julian Assange: O que vai fazer?

Nabeel Rajab: Voltar. Quer dizer, tenho de enfrentar essas coisas. Não é a primeira vez. A luta é essa. Liberdade é isso. A democracia pela qual lutamos é essa, custa caro, tem seu preço e temos de pagar o preço. O preço pode ser muito alto... Tantos já pagaram tão caro, tantos continuam a pagar tão caro, no Bahrain. Estou disposto a pagar pelas mudanças pelas quais lutamos.

Julian Assange: E, Alaa, você está onde? Está livre? Retiraram as acusações contra você?

Alaa Abd El-Fattah: Não, não retiraram acusação alguma. Ainda estou esperando o julgamento. As investigações continuam. Estou proibido de sair do país. Estou sendo acusado de assassinatos, de destruir propriedade pública, principalmente veículos blindados, tanques de combate, de roubar armas militares, de formar quadrilhas para promover atividades terroristas. Dizem que ataquei dois pelotões, roubei armas e matei um soldado... 

Julian Assange: Rapazinho muito travesso, hein?! 

Alaa Abd El-Fattah: Sim, e verdadeiro Super-Homem! Faço coisas inacreditáveis. Eu, só com as mãos, destruo tanques blindados. [risos] E há testemunhas da acusação que juram que me viram em dois lugares distantes, ao mesmo tempo. Mas, como ainda estão investigando, com certeza ainda descobrirão novas façanhas dos meus superpoderes. É assombroso. Mas tenho ótima reputação, na cidade e na prisão: lá, o pessoal é acusado de roubar carros, motocicletas... Mas eu sou o único que rouba tanques blindados! [risos]

Julian Assange: Na sua opinião, como vai acabar isso?

Alaa Abd El-Fattah: Não sei se estão mesmo interessados em mim, ou se a ideia é usar os processos e os julgamentos como ferramenta legal contra todos os ativistas. Parece que não basta espancar manifestantes e ativistas, não basta matar gente nas passeatas. A verdade é que, quando se ouve falar de assassinatos seletivos, de vítimas predefinidas para morrer, aqueles assassinados sempre são pessoas muito importantes, mas pouco conhecidas do público. O problema deles somos nós, os ativistas mais conhecidos, os nomes que todos ouvem nas ruas: o que fazer conosco? Então, acho que estão tentando inventar uma farsa de legalidade, uma farsa de legitimidade, essas investigações e audiências e tal, que usam contra nós. Até agora, fracassaram sempre e perdem tempo. O meu caso continua a ser investigado, e, enquanto investigam, eu já sou declarado culpado de todos os crimes. É possível que, com o tempo, consigam arruinar minha reputação. Agora, por exemplo, divulgaram que apoio os homossexuais. É mais uma ‘acusação’ que, como o roubo de tanques blindados, mais melhora do que agride a minha boa reputação na praça.

Julian Assange: Qual é a situação hoje no Bahrain?

Nabeel Rajab: Pode-se dizer que há três diferentes situações. Em Túnis, a revolução terminou, o governo foi deposto, há novo sistema...

Alaa Abd El-Fattah: Ah, mas quem dera que fosse assim! Nada está terminado em Túnis.

Nabeel Rajab: O segundo caso é o Egito, onde a revolução está andando, ainda não acabou, o exército, o sistema e o regime ainda estão lá. E o terceiro caso é a revolução do Bahrain que existe, está lá, é lutada todos os dias, mas ainda não conseguiu qualquer vitória. Mas a revolução existe. Hoje, depois de um ano, a revolução do Bahrain ainda vive. Morreu muita gente. Em termos proporcionais, morreu mais gente no Bahrain que em Túnis ou no Egito. Desgraçadamente, vivemos numa região governada por famílias, ditadores e, isso, há centenas de anos. Mas o poder delas radica na riqueza, no apoio que recebem dos EUA, dos exércitos que têm, não na legitimidade popular. Eles não têm nenhuma legitimidade democrática, mas essa é a realidade, eles estão no poder e não podemos tirá-los de lá, porque ninguém quer falar deles.

Julian Assange: Alaa, e no Egito? Como está a situação no Egito?

Alaa Abd El-Fattah: A verdade é que a saída de Mubarak, depois de 18 dias, foi surpreendente, foi muito rápida... O preço foi alto, mas pensávamos que fosse ser ainda mais alto. O que está acontecendo no Egito agora é que não esperávamos que acontecesse, quero dizer, todos pensávamos que a revolução duraria um ano, talvez mais... Mas acontece que esse ano que já passamos sem Mubarak, foi um ano ainda dos militares. Num primeiro momento, o pessoal pensava que os militares estivessem decididos a conservar a unidade e o estatuto, mas que não se comprometeriam a ponto de defender o regime. O que se vê hoje é que os militares são o núcleo do regime. Agora, a revolução egípcia é revolução contra o governo dos militares.

Julian Assange: No Bahrain, os grupos revolucionários, as pessoas que apoiaram os protestos no Bahrain, estão desiludidos? Têm medo de agir? Sentem que fracassaram? Perderam o entusiasmo? O que impulsiona o processo?

Nabeel Rajab: Ainda há muita gente na luta. A mim não surpreenderia, nem você deve surpreender-se de ver metade da população do Bahrain nas ruas, nos protestos. E esse movimento continua. Não aconteceu assim em nenhuma das revoluções. Nenhuma das revoluções, nos últimos 50 anos, assistiu a manifestações nas quais se reúne 50% da população de um país, nas ruas, nos protestos. Pois no Bahrain, sim, é exatamente assim. Desgraçadamente, por causa das ‘duas caras’ de vários países e da imprensa em vários países, por causa das redes oficiais, como Al-JazeeraAl-Arabia e de várias redes europeias, nada é divulgado. Mas é a realidade, sim, no Bahrain.

Julian Assange: Por que a rede Al-Jazeera nada mostra?

Nabeel Rajab: Al-Jazeera ajudou a democracia no Egito e na Tunísia. De fato, a rede Al-Jazeera converteu-se em voz de legitimação de qualquer revolução no mundo árabe: se Al-Jazeera cobre, a revolução torna-se fidedigna. Mas, no que se refira ao Bahrain, Al-Jazeera mantém-se calada. Falo da Al-Jazeera em árabe, não da edição em inglês, que é completamente diferente.

Julian Assange: É. Em inglês não estava mal, não é?

Nabeel Rajab: Até certo ponto, sim, não foi tão ruim. Mas a edição em árabe manteve silêncio total sobre o Bahrain. E de fato, em vários campos, adotaram o ponto de vista do governo.

Julian Assange: Por quê?

Nabeel Rajab: Por quê?! Por que são todos parentes, todos da família regente e todos da mesma região. A democracia no Bahrain afetará o Qatar e afetará a Arábia Saudita, dona da rede de televisão Al-Arabia.

Julian Assange: E por que os sauditas mandaram tropas para o Bahrain?

Nabeel Rajab: Aí está algo de que todos deveriam falar e condenar. Mas os sauditas invadiram o meu país acompanhados pelo mais vasto silêncio. Agora, os mesmos governos mandam soldados para a Líbia para lutar contra o regime e já estão também contra Assad da Síria. Vai que talvez tenham razão... Mas no Bahrain o silêncio contra as tropas sauditas foi completo.

Julian Assange: Teriam medo de que os ativistas xiitas se mudassem para a Arábia Saudita?

Nabeel Rajab: Não. [Aconteceu] porque os sauditas têm imensa influência nos EUA, na Europa. Para os interesses de muitos países, para vender armas, para o negócio do petróleo, para os interesses mútuos que, para muitos países, são muito mais importantes que os direitos humanos no Bahrain. Por exemplo, os EUA pediram que os russos não vendessem armas à Síria, mas os EUA, mesmo assim, vendem armas ao Bahrain. Ontem, ouvi uma declaração de um dos representantes dos EUA no Conselho dos Direitos Humanos, que dizia: “Não falaremos nessa reunião sobre o Bahrain, porque o Bahrain está conseguindo avanços por seus próprios meios.” E nós, lá... Enquanto estamos aqui conversando... Há algumas horas, um homem morreu por causa do gás lacrimogêneo. Morre gente todos os dias. 

Julian Assange: O Irã está reavivando as forças revolucionárias no...?

Nabeel Rajab: Isso é o que o governo diz. Isso é o que os EUA querem comprar. Mas nada disso tem a ver com a revolução...

Julian Assange: Li um telegrama, durante os protestos no Bahrain, há uns oito meses, e o telegrama que publicamos [dos telegramas diplomáticos dos EUA] dizia que funcionários do governo do Bahrain chegaram à embaixada dos EUA e disseram: “Olhem aqui, o Irã está por trás dessas demandas por direitos humanos no Bahrain. Está mandando dinheiro e armas para a oposição no Bahrain.” Mas o embaixador dos EUA, na carta que enviou a Washington, dizia que não havia provas de que fosse verdade. Mas o fato é que continuam repetindo e repetindo, mesmo sem qualquer confirmação. 

Nabeel Rajab: É sempre assim. Foi assim em pelo menos uma mensagem em que falavam sobre mim: um dos agentes do governo vai à embaixada dos EUA e diz que Nabeel Rajab recebe dinheiro do governo do Irã; e os norte-americanos dizem ao Departamento de Estado que não, que não é verdade, que não há prova alguma. Mas... 

Julian Assange: Você acha que o medo do Irã é a principal razão pela qual o Ocidente não apoia...?

Nabeel Rajab: Não há dúvidas de que querem um Bahrain estável, porque a V Frota está ancorada no Bahrain. Querem o Bahrain muito tranquilo e estável. Os sauditas se preocuparam muito quando perderam Ben Ali em Túnis e Mubarak no Egito. Você sabe que o rei saudita convocou Obama e que os dois discutiram furiosamente. Quando se trata de Bahrain, a última coisa que os sauditas querem por ali é alguma revolução, ali, a poucos quilômetros da fronteira, o que teria impacto muito negativo para a Arábia Saudita. Por isso os sauditas mandaram tropas para o Bahrain, para colaborar no massacre, para prender gente, para aquele banho de sangue... Que foi acobertado pelo silêncio absoluto da comunidade internacional. 

É verdade que os sauditas não queriam democracia; é verdade que o Qatar diz que promove a democracia em meio mundo, na Síria, por aí, onde for... menos no Qatar. Vocês aí conversem entre si, dizem eles, falem de partilhar a riqueza, falem do que quiserem... porque aqueles governos jamais deixarão que essas coisas aconteçam.

Julian Assange: Alaa, você certamente lembra que, nos dias mais sangrentos da revolução egípcia, Joseph Biden e Hillary Clinton, do Departamento de Estado, propuseram a candidatura de Suleiman, chefe do serviço secreto da Inteligência egípcia, para que fosse uma espécie de sucessor de Mubarak, como se fosse uma figura de conciliação. Nós distribuímos muita informação sobre Suleiman, a postura em relação a Israel, as relações que mantém com os EUA, e que sempre foi uma espécie de ‘torturador em chefe’. Então, logo depois disso, viu-se que o nome de Suleiman não teria sucesso. E Hillary Clinton passou a elogiar a revolução egípcia e a dizer que as revoluções no Egito e em Túnis haviam acontecido graças a duas empresas norte-americanas – Twitter e Facebook. [risos gerais]Você com certeza ouviu isso muitas vezes.

Alaa Abd El-Fattah: Você tem de entender que nas revoluções há sempre uma batalha de narrativas. As revoluções representam ideias, tanto quanto são questão de cadáveres pelas ruas,  balas, etc. E o aspecto crucial da batalha de narrativas é tentar reduzir a revolução ao nível dos jovens do Facebook. Não significa que esses jovens não tenham tido papel importante na revolução. Sim, tiveram. Mas se se separa só uma parte da revolução e diz-se que uma ou outra parte é a verdadeira e  que o resto não existe, e, além do mais, se interessa isolar as forças revolucionárias, eles jogam com tudo, com a classe, com a quantidade de gente que queria usar de violência para defender-se. Os jovens de classe média, com melhor educação e familiarizados com a Internet tiveram papel importante na revolução e, por razões táticas, simbolizaram as revoluções, porque era preciso que todos ‘se apaixonassem’ pela revolução egípcia. 

Também houve aquela festa em estilo Woodstock sem sexo e drogas [risos], mas maravilhosa e inspiradora e, ao mesmo tempo, muito real. A festa em Tahrir foi assim. Mas ao contar a história, foi só nessa praça. Fala-se dos jovens, bonitos, bem educados e conectados à Internet e que saíram para reunir-se na praça Tahrir. Assim, já se deixa de fora os trabalhadores, a guerra nas ruas, as batalhas corpo a corpo, e ‘apaga-se’ a violência de defesa, que também houve. Não havia roteiro pronto, não seguimos nenhum roteiro que houvesse sido preparado por gente que nada tinha a ver com a revolução. 

Quero dizer é que Hillary não estava trabalhando só para promover empresas norte-americanas: ela trabalhava para impulsionar uma narrativa prevista para deter a revolução e garantir que não avançaria muito além de Mubarak.

Julian Assange: Alaa, você escreveu, uma vez que “A Praça é uma lenda que deixará de existir se as famílias dos mártires deixarem de acreditar na lenda. Nosso sonho é uma alternativa ao regime egípcio. Se nós abandonarmos nosso sonho, em troca de debates realistas, racionais e comprometidos que seguem ordens que vêm de fora da praça, tudo desaparecerá. Não ouçam nem deem importância aos especialistas. Escutem os poetas, porque estamos numa revolução. Andem com cuidado, mas atirem-se no desconhecido, porque assim são as revoluções. Homenageiem os mártires, porque, entre ideias, símbolos e espetáculos revolucionários nada é real, exceto o sangue dos mártires. Nada está garantido, exceto a vida eterna dos mártires.” 

Agora, essa parte da revolução egípcia – a Praça – terminou. E o sonho? Também terminou?

Alaa Abd El-Fattah: Não se pode definir o que seja um sonho. Mas, com toda a certeza, não é a tediosa democracia representativa ocidental, onde uma nação envolve-se numa guerra, como fez o Reino Unido, sem o consentimento do povo; onde eleger um presidente que encarne novas esperanças é quase exatamente o mesmo que eleger alguém que não encarne esperança alguma, como aconteceu nos EUA. 

O sonho... O sonho é o que faz você trabalhar mais, Julian. É uma democracia onde não sejam necessários movimentos como ‘Occupy Wall Street’ ou ‘Occupy Londres’ ou os protestos que houve na Grécia. Mas é ainda mais forte. E só continua vivo porque não é articulado, definido. Não temos teoria. Não, pelo menos, até agora... O sonho... É possível vê-lo nesses momentos em que ficamos ‘poéticos’, como procurei ser no artigo que você citou. O sonho está nos grafitis que, por isso mesmo, estão tão diretamente ligados aos mártires. Para nós, os mártires não são pessoas que morreram. Para nós, eles tornaram-se imortais. Não se trata de só pensar no sacrifício. Trata-se do modo como o sacrifício de uns é importante para outros e como nós mantemos viva a memória dos nossos mártires. Por aí, nos aproximamos da ideia de “sonho”, mas não sei dizer exatamente o que seja.

Nas batalhas de rua, eu quase conseguia tocá-lo... Quando se luta corpo a corpo contra a Polícia, sempre há momentos em que os tiros param, são momentos bem rápidos, quase sempre enquanto a Polícia recarrega as armas e ninguém dispara [risos]. E nós, automaticamente, também paramos. Nesses momentos – aconteceu várias vezes – todos sentam-se em círculos, para descansar um pouco. E há fogueiras e incêndios à volta, porque, bom, sim, usamos coquetéis Molotov, ou outros tipos de instrumentos que provocam fogo. Mas, naqueles momentos, quando ninguém atirava e todos se sentavam em círculos para descansar... As fogueiras viravam fogueiras amistosas. E tomávamos chá! De repente, do nada, surgiam pelas ruas os vendedores de comida, de chá. E lá ficávamos, tomando chá, cantando e tal...

Estamos querendo chegar a um estado pós-moderno – mesmo que ninguém saiba exatamente o que seja isso. Mas estamos em revolução. Não estamos, simplesmente, promovendo ‘reformas’ ordinárias. 

Por isso, não interessa o que o governo dos EUA deseje, ou o que Al-Jazeera faça ou não faça, publique ou não publique, porque o que está em andamento é muito mais profundo. Não sei se ganharemos a luta, dessa vez. Não sei, nem, se ganharemos algum dia, durante minha vida... Mas para mim já basta que, praticamente todas as semanas, eu tenha a impressão de que toco, com a mão, esse meu sonho.

Julian Assange: Nabeel?

Nabeel Rajab: Acho que... No final de 2012, com Bouazizi, começou um tsunami. Acho que vai modificar toda a região. É possível que, dentro de alguns anos, toda a Região esteja diferente. Haverá governos locais mais inteligentes, que se transformarão e se reformarão, eles mesmos, muito rapidamente. E os governos que resistam, que tentem não mudar, acho que, esses, serão arrancados de seus postos, pelo tsunami. Esses governos, nos EUA ou na Europa, que construíram relações e interesses estratégicos comuns com aqueles ditadores, esses só têm o que perder. Os governos que consigam ver o que se passa e tratem de construir relações e interesses estratégicos, não com os governos, mas com as populações, com as pessoas, não com os ditadores, esses só têm o que ganhar. Sou muito otimista. Acredito que haverá mudanças positivas em nossa região.

Julian Assange: E nos momentos em que você está preso, ou foi sequestrado, ou está apanhando. Quando você está totalmente isolado, quando você não controla o espaço físico, não controla nem o próprio corpo... Quando absolutamente não há nenhuma liberdade, no sentido mais fundamental da palavra... O que você pensa, nessa hora? Como controla seus sentimentos, como você se vê, nesses momentos?

Nabeel Rajab: Creio que, se você tem um objetivo, se você acredita que seja justo, se você lutar, você supera as dificuldades. Você sabe que está lutando para mudar. As coisas estão aí há séculos, mudar é difícil. Para conseguir o que vc quer conseguir, é preciso estar disposto a pagar um preço. Morrer, se for preciso. Eu acredito que as pessoas que orientam os movimentos no mundo árabe são pessoas que querem conseguir mudanças.

Julian Assange: ¿Alaa?

Alaa Abd El-Fattah: Prisão é sempre uma merda [risos]. Essa é a segunda vez que sou... detido. Da última vez, enfrentei um fiscal militar e neguei-me a reconhecer a legitimidade do sistema judicial militar. Foi uma grande vitória, porque consegui que os militares me enviassem para os juízes civis de primeira instância, e um daqueles juízes mandou me prender. E houve um momento em que eu me sentia tão mal, tão mal, a ponto de desmaiar, quando queria desesperadamente sair de lá, porque meu primeiro filho estava nascendo, e eu lá preso, sem saber de nada. Acabei desmaiando. Meu filho nasceu e, três horas depois, minha família conseguiu mandar-me fotos dele. Naquele momento, na cadeia, nada fazia qualquer diferença para mim. Seja como for, tenho sorte, sempre estive rodeado de muito amor pessoal, mas também de solidariedade. Tenho a sorte e o privilégio de, sempre que me prendem, não demoro a receber sinais de solidariedade massiva, que sempre tem, também, caráter muito pessoal.

Julian Assange: Mesmo preso, você sabia do apoio externo?

Alaa Abd El-Fattah: Sempre, sobretudo graças aos meus parentes, que me visitavam. Para mim, nunca foi isolamento impossível de superar. E estive preso, algumas vezes, em cela comum, com criminosos muito perigosos. Nada disso me incomodava. Mas, se me privassem das visitas dos meus parentes, isso... Não sei se aguentaria. (Mas não contem a eles!) [risos]

Julian Assange: Nabeel, você tem dois filhos, não é?

Nabeel Rajab: É, dois filhos.

Julian Assange: E você ensina seus filhos a serem militantes como o pai, sob risco de serem sequestrados, presos, espancados?

Nabeel Rajab: Mesmo que nunca ensinasse, eles vivem comigo e veem o que acontece... [risos, risos]

Julian Assange: Estão vendo o exemplo?

Nabeel Rajab: Meu filho e minha filha já participam de protestos, em muitos casos, vão à frente. Tirei os dois da escola, porque as coisas ficaram difíceis para eles. Estudam na mesma escola dos filhos das famílias que governam o Bahrein. Para eles, de fato, talvez seja até mais difícil do que para mim, porque eu luto há muito tempo e estou preparado para a reação contra. Mas eles... eles primeiro sofreram a reação, ainda sem entender por que, foram agredidos por razões que não entendiam. Viram a casa deles invadida no meio da noite, viram o pai ser arrastado da cama para a rua, viram o pai ser espancado diante deles. Minha casa já foi atacada mais de 20 vezes com granadas de gás lacrimogêneo, só no ano passado. Os meus filhos já viram coisas que a maioria das crianças da idade deles, no mundo, jamais viram. Mas aprenderam muito, também. São muito maduros, para a idade deles. Quando... 

Julian Assange: E que idade têm seus filhos?

Nabeel Rajab: Minha filha tem nove; meu filho acaba de completar 14 anos. Sempre esteve comigo, nas manifestações, desde os cinco anos. Minha filha não gostava de ir. Não dava qualquer sinal de interesse por política ou direitos humanos. Mas, depois que fui sequestrado em casa, e recebi um tapa no rosto, no meio da sala, diante dela... Agora está convertida: é ativista radical [risos, risos]. Minha mulher também. Acho que toda a família, hoje, somos militantes. Somos mais de mil... 

Julian Assange: Você fala do clã?

Nabeel Rajab: Sim, é minha família. Quer dizer, acho que a maioria deles, hoje, são ativistas. A verdade é que a revolução criou ativistas em todo o país, no Bahrain. Imagine o governo do Bahrain pondo-se a prender jornalistas, militantes de organizações internacionais de direitos humanos, para impedir que entrem no país... De fato, hoje, a própria população começa a trabalhar como jornalista, como defensores de direitos humanos, criam-se blogs na Internet, todos sentem-se militantes que defendem os direitos humanos no país.

Julian Assange: Agora, o mercado está oferecendo novos nichos.

Nabeel Rajab: Graças a Deus e ao governo do Bahrain, o movimento reuniu muitos jovens. Será vantagem para nós, e todo o mundo árabe vai-se beneficiar de suas revoluções.

Julian Assange: Alaa, seu filho vai crescer num novo Egito.

Alaa Abd El-Fattah: Também pensava assim, e pensava em ensinar meu filho a detestar futebol, para não ser morto. Depois, pensei em chamá-lo Khalid Saeed, em homenagem ao jovem que morreu em Alexandria, vítima das torturas da polícia, dois anos antes da revolução. No final, entendi que nada disso significa coisa alguma. Não há como proteger meu filho. Não faz sentido criá-lo tentando impedir que seja ativista ou defensor do governo. Não importa. 

Quando se vive sob repressão, a violência tem um caráter tão aleatório, que sempre afeta todos, de todos os modos, de todos os lados. A injustiça e a violência são aleatórias, afetam sempre e não há como evitar que seja assim. Ninguém pode garantir uma boa vida aos próprios filhos, enquanto a boa vida de qualquer outro filho, de qualquer outro homem, não estiver garantida. Não depende de mim. Ninguém pode fazer coisa alguma só pelo próprio filho.

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