Mostrando postagens com marcador Chico Buarque. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Chico Buarque. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de junho de 2011

A responsabilidade da informação


 Publicado em 22/06/2011 por Mair Pena Neto

A notícia de que o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, seria filho de Chico Buarque, publicada por um site que se apresenta como portador de notícias falsas, ganhou ares de verdade, foi replicada nas redes sociais e exigiu um desmentido  da mãe do governador, a deputada federal Ana Arraes, para por fim à questão, que envolveu a dignidade da família e do compositor.

O episódio envolve uma vez mais a responsabilidade da informação e até que ponto sites e blogs se misturam com fontes tradicionais de notícias, sendo encarados da mesma maneira pelos que os lêem. O surgimento da internet e a explosão de sites e blogs contribuíram para a democratização da informação e precisam ser acompanhados pela responsabilidade sobre o que publicam. Ao criar um site ou blog, seu autor ou autores tornam públicas suas opiniões. Podiam as manter reservadas se assim desejassem. Mas ao optarem pelo caminho oposto devem se responsabilizar pelo que escrevem.

Durante a última campanha presidencial, muitos blogs apócrifos surgiram na internet para atacar candidatos. São recursos vis e covardes, de quem não tem coragem de assumir sua posição política e se esconde no anonimato. Muitos foram desvendados, revelando para quem operavam e a que interesses serviam. Faltaram as punições, que precisam ser pensadas pelos tribunais eleitorais para que tais abusos não se repitam.

Quando avançam para publicar notícias, blogs e sites precisam de uma estrutura para fazê-lo. Gente para apurar, para checar a informação e, por fim, publicá-la com segurança.

Enfim, um trabalho jornalístico a que a maioria das pessoas não está habituada.

Se a pressa do tempo real já leva a erros em uma estrutura jornalística montada, a possibilidade aumenta exponencialmente em "redações" menores, muitas vezes de um homem só. Sites e blogs se tornaram fontes de informação relevantes para a sociedade e precisam se dar conta disso.

O que aconteceu em Pernambuco virou notícia ao largo dos tradicionais meios de informação. Boatos da suposta paternidade de Chico Buarque já circulavam na cidade, mas, até onde sei, nenhum jornal os levou adiante. A notícia de que o compositor teria descoberto ser o pai do governador foi publicada no site Diário Pernambucano e poderia ter morrido ali. Afinal, o site se apresenta como uma publicação de humor, “de notícias fake (falsas)” e, portanto, não é para ser levado a sério. Mas a capacidade das pessoas distinguirem o que é sério ou não na grande rede não está muito clara e o que nasceu para ser uma brincadeira acabou virando coisa séria.

Não consegui ver a “notícia” como ela foi publicada. Mas examinando o site, fica clara a sua proposta e não deveria haver espaço para interpretações equivocadas. O prejuízo foi grande para todas as partes envolvidas. A família do governador pediu que o que considerou crime seja investigado e as pessoas responsáveis pela notícia já teriam sido identificadas. O site publica que “devido aos últimos acontecimentos”, decidiu excluir “as notícias que forjam a fala inexistente de pessoas de imagem pública” e pede desculpas, afirmando não ter pretendido ferir “a honra de qualquer cidadão”.

“Continuaremos fazendo um jornalismo fantástico cada vez mais genérico, ponderando quem realmente deve e quem de fato não deve estar entre nossas notas”, diz a nota do site, mais uma vez deixando claro o seu caráter.

Como se vê pela nota, o episódio serviu de lição para o que o site publica. Mesmo brincadeiras têm limites. E quem decide se envolver com sites e blogs precisa saber que têm direitos e responsabilidades, com repercussões jurídicas

terça-feira, 21 de junho de 2011

Chico Buarque - Querido Diário

Quem tiver coragem, ouça-veja em uma música que "vazou" para a internet, do disco novo do Chico Buarque, que será lançado em julho: “Querido Diário”.


enviado pelo pessoal da Vila Vudu

domingo, 24 de abril de 2011

MEU AMIGO ATAHUALPA

Raul na porta de casa, no Sambaqui

Raul Longo

No mesmo dia em que recebo pelo correio eletrônico a imprecisa definição de que “literatura é a arte de escolher palavras”, de alguém se pretendendo crítico literário para tentar convencer que Chico Buarque de Holanda não é escritor; também recebo pelo postal a biografia do meu amigo Atahualpa.

Não sei se o meu amigo tem alguma descendência peruana, pois, conforme sua biógrafa, impossível determinar-lhe procedências dadas às insólitas e precárias condições de seu início de vida. Pelas bem definidas sobrancelhas, o vasto bigode e olhar profundo, sempre me fez lembrar Nietzsche, mas nem por isso o definiria de procedência germânica. Até porque nenhum alemão ou austríaco batizaria um filho como o nome de Atahualpa

Para quem não sabe, Atahualpa é nome muito comum em todos os países de língua espanhola da América do Sul. Ou seja: menos o Brasil e as Guianas. Nós, colonizados pelos portugueses e as Guianas por ingleses, franceses e holandeses, naquela que hoje é conhecida por Suriname.

Talvez exista mais alguém com o nome de Atahualpa aqui no Brasil, além do meu amigo. Mas não conheço.

Provindo do quéchua, Ataw Wallpa foi o nome do mais importante entre os últimos imperadores Incas. Foi traído e aprisionado pelo conquistador espanhol Francisco Pizarro que ardilosamente convidou Atahualpa para um jantar amigável na cidade andina de Cajamarca. Em duas horas os cristãos trucidaram mais de 6 mil incas e Atahualpa foi aprisionado no Templo do Sol. 

Em troca de sua liberdade Atahualpa entregou ao espanhol uma enorme quantia em ouro. Tanto que preencheu o aposento em que era mantido prisioneiro, e ainda deu o dobro daquela quantia em prata. Mas o cristão não manteve a palavra e submeteu Atahualpa à farsa de um julgamento sob 12 acusações pelas quais foi condenado à fogueira.

No momento da execução Atahualpa aceitou o acordo imposto pelo padre Vicente Valverde e permitiu ser batizado como convertido ao deus e à religião católica, para logo em seguida ser executado por estrangulamento.

Isso foi em 26 de julho de 1533, mas não me consta que, apesar do pedido de desculpas aos judeus, algum papa tenha reconhecido os crimes da Igreja contra Incas, Astecas, Tupis, Guaranis ou tantos dos povos dizimados pelo cristianismo. 

No entanto, tenho a impressão de que meu amigo Atahualpa está pouco se lixando para os papas. Mais que isso, creio mesmo que apesar da aparência física com o Nietzsche, superou o sábio alemão nesse sentido. Nietzsche costumava declarar que Deus está morto, Atahualpa certamente nunca acreditou na existência desse personagem e tão pouco faz questão de conferir a própria imagem e semelhança a qualquer divindade. Daí me parecer que mesmo que porventura admire a Nietzsche, não procura imitá-lo nem realçar a casual parecença. 

Mas voltando ao herói e mártir Atahualpa, tornou-se um arquétipo da resistência sul americana ao colonialismo imposto ao continente durante os últimos 500 anos, justificando os tantos Atahualpa da Patagônia ao Golfo de Urabá, norte da Colômbia, onde fazemos divisa com a América Central.

Héctor Roberto Chavero, por exemplo, nascido na província de Buenos Aires em 1908 e falecido em Paris em 1992, adotou como pseudônimo nome e sobrenome de Atahualpa que foi neto de Tupac Yupanqui. Como Atahualpa Yupanqui, Héctor Chavero se fez compositor, cantor, violinista e escritor argentino de renome internacional tal qual o Chico Buarque de Holanda, para desespero do crítico que inadvertidamente me enviaram pela internet.

A mãe de Atahualpa, Tocto Pala, não era inca. Mas por ter sido uma princesa equatoriana, natural de Quito, o nome do herói muito se propagou por aquele país, conforme nos conta o brasileiro Paulo de Carvalho Neto no excelente romance “Meu Tio Atahualpa”, onde reporta com muito humor a sabedoria da cultura popular equatoriana, assimilada quando ali representou o Brasil como diplomata.

Quanto ao Chico Buarque, ouvi dizer que sequer conheceu Budapest embora um húngaro tenha me garantido que conseguiu reproduzir com muita fidelidade o clima humano da cidade. De fato, pelo menos para quem não conhece aquele trecho do Danúbio nem do lado Buda nem do lado Pest, ou quaisquer das outras margens do famoso rio, descreveu a capital da cultura dos magiares de forma muito convincente. 

Mas o crítico não gostou e nem considera literatura. Tudo porque resolveu que Chico escolheu mal as palavras ao afirmar que o personagem do romance tenha assistido “por alto” a um noticiário de TV em idioma desconhecido, conforme explica a história de um fictício escritor que ali aportou por um imprevisto ocorrido durante uma viagem aérea.

Nem mesmo aos nossos noticiários consigo dar atenção, mas o crítico encasquetou que todos têm de levar tão a sério quanto ele as enormes bobagens da TV. Outros, como José Saramago, José Miguel Wisnik, Urariano Mota, Caetano Veloso e Luís Fernando Veríssimo; gostaram muito do Budapeste do Chico. Por certo também não dão muita atenção a TV ou não acreditam que produzir literatura seja apenas escolher palavras.

Seja lá o que for eu é que não seria besta de me pressupor capaz de criar definições para uma arte milenar que compreende tantos gêneros e expressões, inclusive sem palavra alguma como em histórias contadas por gestos, imagens e até por sombras, com conteúdo evidentemente literário. 

Por outro lado, muito me orgulho em poder frequentar este blog escrevendo sobre a biografia do meu amigo que acaba de ser lançada. Aliás, convém lembrar que Atahualpa também é um grande contador de histórias e a ele não fazem falta as palavras. Na última vez que esteve em minha casa, contou uma história tão intensa e emotiva à minha cachorra Canela que a fez correr pela casa pulando de sofá em sofá, como se estivesse conquistando uma selva.

Duvido que o crítico do Chico produza o mesmo efeito! E a julgar pelos caninos da Canela, seu poder de crítica é bem mais inócuo do que os de minha cachorra.

Mas é preciso falar do livro com capa ilustrada por um expressivo close fotográfico do biografado imitando Einstein ao mostrar a língua. Na verdade, ainda não li a obra, mas assim mesmo posso recomendá-la com total segurança e não apenas pela intrigante personalidade do personagem meu amigo como, sobretudo, pela certeza de que a autora não é apenas uma mera escolhedora de palavras, como quem cata arroz carunchado. Nas livrarias ou no portal da Livrarias Curitiba na internet consultem sobre o último lançamento de Urda Alice Klueger pela Editora Hemisfério Sul. 

Em sua vaidade, Atahualpa não se deixaria contar por ninguém menos e isso também provocou o ciúme de Sandra Tolfo, que confessa: “Eu poderia escrever muita coisa sobre o Atahualpa. Poderia contar de nossas brincadeiras, de quando o ensinei a falar, das poses para as fotos, dos meus lanches divididos com ele, mas... essas memórias tomariam muito espaço”.

É certo que, igualmente, se denota aqui uma ponta de inveja, mas muito compreensível pela intimidade e o carinho da cientista social pelo Atahualpa. Aceitável, pois não se evidencia nenhum despeito, nenhuma dor de cotovelo. 

Mas o que dizer do ridículo catador de palavras? Só mesmo escolhendo as do velho lugar comum, pois, enquanto os cães ladram, Atahualpa e Chico Buarque passam.

domingo, 7 de novembro de 2010

O Brasil é PARATODOS

Dois apoiadores de Dilma ganham o Jabuti. Chico Buarque, pela terceira vez, e a psicanalista Maria Rita Kehl, com o excelente livro O Tempo e o Cão – a autalidade das depressões!
E contra a onda xenofóbica que os apoiadores de Serra implantaram, esse excelente clipe da música Paratodos do Chico (valeu Chico, obrigado por sua obra).

Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro


Maria Rita Kehl deu a aula inaugural da Escola de Governo Municipal implantada pela então Prefeita de São Paulo, Marta Suplicy. Assisti a essa aula, cujo tema era: O Desejo!!! Show de bola!



enviado por Jotamorim

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Os Dicionários de meu pai

Pouco antes de morrer, meu pai me chamou ao escritório e me entregou um livro de capa preta que eu nunca havia visto. Era o dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo.


Ficava quase escondido, perto dos cinco grandes volumes do dicionário Caldas Aulete, entre outros livros de consulta que papai mantinha ao alcance da mão numa estante giratória. Isso pode te servir, foi mais ou menos o que ele então me disse, no seu falar meio grunhido.


Era como se ele, cansado, me passasse um bastão que de alguma forma eu deveria levar adiante. E por um bom tempo aquele livro me ajudou no acabamento de romances e letras de canções, sem falar das horas em que eu o folheava à toa; o amor aos dicionários, para o sérvio Milorad Pavic, autor de romances-enciclopédias, é um traço infantil no caráter de um homem adulto. Palavra puxa palavra, e escarafunchar o dicionário analógico foi virando para mim um passatempo (desenfado, espairecimento, entretém, solaz, recreio, filistria).


O resultado é que o livro, herdado já em estado precário, começou a se esfarelar nos meus dedos.


Encostei-o na estante das relíquias ao descobrir, num sebo atrás da Sala Cecília Meireles, o mesmo dicionário em encadernação de percalina. Por dentro estava em boas condições, apesar de algumas manchas amareladas, e de trazer na folha de rosto a palavra anauê, escrita à caneta-tinteiro.

Com esse livro escrevi novas canções e romances, decifrei enigmas, fechei muitas palavras cruzadas. E ao vê-lo dar sinais de fadiga, saí de sebo em sebo pelo Rio de Janeiro para me garantir um dicionário analógico de reserva. Encontrei dois, mas não me dei por satisfeito, fiquei viciado no negócio. Dei de vasculhar livrarias país afora, só em São Paulo adquiri meia dúzia de exemplares, e ainda arrematei o último à venda na Amazon.com antes que algum aventureiro o fizesse.


Eu já imaginava deter o monopólio (açambarcamento, exclusividade, hegemonia, senhorio, império) de dicionários analógicos da língua portuguesa, não fosse pelo senhor João Ubaldo Ribeiro, que ao que me consta também tem um, quiçá carcomido pelas traças (brocas, carunchos, gusanos, cupins, térmitas, cáries, lagartas-rosadas, gafanhotos, bichos-carpinteiros). A horas mortas, eu corria os olhos pela minha prateleira repleta de livros gêmeos, escolhia um a esmo e o abria a bel-prazer. Então anotava num moleskine as palavras mais preciosas, a fim de esmerar o vocabulário com que eu embasbacaria as moças e esmagaria meus rivais.

Hoje sou surpreendido pelo anúncio desta nova edição do dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo.


Sinto como se invadissem minha propriedade, revirassem meus baús, espalhassem aos ventos meu tesouro. Trata-se para mim de uma terrível (funesta, nefasta, macabra, atroz, abominável, dilacerante, miseranda) notícia.

Francisco Buarque de Hollanda


O Dicionário Analógico da Língua Portuguesa de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo pode ser encontrado na Lexikon Editora Digital

Enviado por Lyra do Letteri Café