Mostrando postagens com marcador El Salvador. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador El Salvador. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Eleições em El Salvador e a China na América Central


16/2/2014, [*] Mahdi Darius Nazemroaya, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Francisco Flores, ex presidente de El Salvador (corrupto atualmente refugiado nos EUA)
O escândalo de corrupção em El Salvador, que envolveu Francisco Flores, presidente do país de 1999 a 2004, abriu caminho para o reconhecimento da República Popular da China pelo governo que sucedeu Flores em San Salvador, que a Frente de Libertação Nacional Farabundo Marti (FLNFM) não conseguiu consumar durante o mandato do presidente Mauricio Funes. O escândalo que envolveu Flores criou a oportunidade política adequada para que a FLNFM venha a romper formalmente os laços diplomáticos com Taiwan (conhecida formalmente como República da China), se, em março de 2014, for eleito o candidato da FLNFM. [1]

Essa questão diplomática expõe também a coordenação, por trás das cortinas, que está em andamento entre Pequim e Taipei. Vê-se aí um quadro de cordialidade, que mais provavelmente levará à unificação entre Taiwan e a China, que um quadro de rivalidades. Nem Pequim nem Taipei têm criado obstáculos, os dois lados reconhecendo que, afinal, haverá uma só China.  

Francisco Flores e a oligarquia salvadorenha

Francisco Flores foi presidente de El Salvador quando a Aliança Republicana Nacionalista, conhecida pela sigla ARENA, governava o país. É homem da corrupta oligarquia salvadorenha aliada dos EUA, que reduziu El Salvador ao status de colônia de facto dos EUA que recebia ordens de Washington, DC. Exemplo desse relacionamento, foi durante o mandato do presidente Flores que El Salvador enviou centenas de soldados para participarem, com EUA e Reino Unido, da invasão e ocupação do Iraque.

A oligarquia salvadorenha sempre operou, em todos os campos, como elite “comprador”, o que significa que serviam como representantes ou gerentes locais de empresas, governos e interesses externos ao país. Nesse caso, a oligarquia salvadorenha “comprador” serviu coletivamente às elites dos EUA as quais, elas próprias, são elites parasitárias, porque sempre extraíram grande parte da riqueza e dos recursos locais dos países aos quais conseguiram impor sua influência. Historicamente, essas elites infiltraram-se nas estruturas e hierarquias do poder em toda a América Latina, ao mesmo tempo em que iam sendo erodidas as elites parasitárias locais originais, que sempre estiveram no topo da hierarquia econômica em todo o hemisfério ocidental. Vários países latino-americanos chegaram a ter um ministro ou funcionário do governo dos EUA que supervisionava o governo local e seus negócios diários.

Colón, antiga moeda de El Salvador
Durante o governo de Flores e da ARENA, El Salvador perdeu a soberania monetária. O colón, moeda nacional de El Salvador, foi extinta por ordem de Flores; e substituíram o colón pelo dólar norte-americano, que passou a ser a moeda oficial de El Salvador. Assim El Salvador passou a integrar o grupo de vários territórios – EUA, Timor Leste, Panamá e Equador – onde a moeda oficial é o dólar norte-americano.

Também durante o governo da ARENA estabeleceram-se por lei, em El Salvador, inúmeros monopólios comerciais privados. Passou a ser crime – e, de fato, praticamente impossível – comprar medicamentos em El Salvador, exceto os que eram vendidos por Alfredo Cristiani, o oligarca, membro também da ARENA e presidente de El Salvador antes de Armando Calderón Sol.

Alfredo Cristiani
Cristiani não apenas iniciou a reestruturação econômica neoliberal de El Salvador, como também usou o monopólio que tinha para a venda e distribuição de medicamentos em todo o país para impor preços exorbitantes e, até, vender medicamentos com prazo vencido de validade, sem qualquer punição. O mesmo aconteceu com fertilizantes e outros produtos agrícolas, todos incluídos no mesmo monopólio que pertencia a Cristiani. O governo da ARENA não queria saber de concorrência. Além disso, Cristiani privatizou o sistema bancário de El Salvador, entregando à própria família a Banco Cuscatlan, que a família logo depois vendeu ao Citibank, interessado em expandir sua influência pela América Central.

Embora ainda haja corrupção em El Salvador, a base criminosa dos governos anteriores, todos da ARENA, já tem sido amplamente reconhecida até em investigações e inquéritos presididos pela própria polícia. Arquivos da inteligência da polícia comprovam que todos os presidentes, ministros da Justiça e diretores de órgãos de polícia em El Salvador sempre mantiveram ligações com o crime organizado; que isso só começou a mudar depois que o primeiro governo da FLNFM chegou ao governo em San Salvador. Além disso, Alfredo Cristiani, muito amigo do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, já foi denunciado como “pai” do crime organizado em El Salvador.

Os autores da “Opção Salvador”

Antes de a ARENA ser oficialmente constituída, os mesmos oligarcas usaram o exército e a polícia para gerar uma guerra viciosa, com alto envolvimento do governo dos EUA e do Pentágono, contra a população nativa de El Salvador, indígenas, camponeses, pobres, sindicatos, intelectuais, a Igreja Católica Romana e qualquer grupo que falasse de democracia e direitos iguais para todos. A repressão brutal e a consequente guerra civil em El Salvador foi parte dos esforços da oligarquia salvadorenha para manter o controle sobre a sociedade local.

Roberto D’Aubuisson
Foi sob o comando desses oligarcas que a infame Opção Salvador cresceu, gerada por esquadrões da morte alinhados com os norte-americanos, que exterminariam vilas inteiras, com requintes de crueldade, e dos modos mais grotescos. Usaram-se furadores de gelo para furar olhos e deformar faces, arrancavam-se pernas e braços. O assassinado do arcebispo Oscar Romero, líder da Igreja Católica Romana em San Salvador e que foi assassinado quando rezava missa, é apenas um dos assassinatos daquele período. O cabeça do assassinato de Romero, major Roberto D’Aubuisson, seria, adiante, um dos fundadores da ARENA.

Mas o assassinato do arcebispo Romero, porém, foi uma das muitas atrocidades que aqueles oligarcas cometeram, com pleno conhecimento, apoio, ajuda e envolvimento de Washington. Os comandantes militares salvadorenhos eram treinados na infame “Escola das Américas” e pelo Pentágono, e muitas das técnicas de tortura e assassinato que os esquadrões da morte usaram em El Salvador foram ensinadas por instrutores militares norte-americanos. Mais que isso: incontáveis combatentes guerrilheiros salvadorenhos lembram-se de ter combatido contra soldados norte-americanos e de ouvir ordens de ataque, transmitidas por rádio, para bombardear a selva e vilarejos no interior de El Salvador, ditas tanto em inglês quanto em espanhol.

Quase toda a população indígena nativa de El Salvador seria exterminada por aqueles oligarcas. Famílias inteiras assassinadas e suas terras e casas saqueadas ou destruídas. Nem crianças nem animais domésticos foram poupados. Estupro e violação de sepulturas foram práticas sistemáticas e frequentes.

Um dos piores massacres foi cometido dia 11/12/1981. Aconteceu na vila de El Mozote, no Departamento de Morazan. 800 civis desarmados, inclusive crianças, foram torturados, humilhados, estuprados e assassinados por uma unidade de operações treinada nos EUA.

Restos do massacre de El Mozote realizado por MILICANALHAS salvadorenhos sob comando dos EUA
Washington enviaria gente como James Steele e John Negroponte para o Iraque ocupado por ingleses e norte-americanos, para recriar lá o reinado de terror que os EUA ajudaram a criar em El Salvador. Exatamente os mesmos padrões e táticas de assassinato em massa e tortura seriam verificados no Iraque ocupado, o que indica fortemente que os EUA seriam a fonte dos esquadrões da morte ativos tanto em El Salvador como no Iraque ocupado.

Subornado por Taiwan?

Durante as investigações que a Assembleia Nacional e a Assembleia Legislativa de El Salvador conduziam no país, sobre a corrupção passada, foram encontrados 10 milhões de dólares norte-americanos, depositados na conta bancária de Francisco Flores. Interrogado sobre a origem de tanto dinheiro, Flores respondeu que recebera aquela quantia do governo de Taiwan; e disse que, de fato, recebera de Taiwan mais que aqueles 10 milhões. Foi depois que Flores tentara fugir – ou tentara fazer crer que fugira – de El Salvador (o que Flores fez depois de ser intimado a comparecer outra vez ante a Assembleia Nacional, às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais de 2014 em El Salvador, realizadas dia 2/2/2014).

Os fundos que Francisco Flores recebeu eram, de fato, parte de uma série de pagamentos secretos feitos anualmente por Taiwan. Taiwan sempre manteve laços estreitos com El Salvador e a América Central. Além de posicionar-se próximo dos estados da América Latina cujos governos eram patrocinados pelos EUA, o governo de Taiwan também se uniu aos EUA e a Israel para dar apoio aos oligarcas em El Salvador, contra a FLNFM, durante a Guerra Civil Salvadorenha.

Os pagamentos secretos feitos por Taiwan a Flores foram combinados originalmente para impedir que El Salvador reconhecesse o governo de Pequim como legítimo governo da China. Mas, embora os pagamentos, que originalmente eram “anti-Pequim” (uma espécie de “prêmio” dado por Taiwan por El Salvador reconhecer Taiwan, em vez de reconhecer o governo em Pequim) tenham sido mantidos, tudo sugere que passaram a acontecer em contexto que se ia transformando, com sentimentos anti-Pequim cada dia menos dominantes. Taiwan manteve os pagamentos para assegurar tratamento preferencial aos seus interesses comerciais e para obter concessões em El Salvador – inclusive um monopólio sobre o setor geotérmico salvadorenho, que é propriedade, completamente, de Taiwan.

Vale a pena observar que o governo de El Salvador e Taipei trocaram informações sobre o escândalo da corrupção nos dois países. Isso se deveu, em parte, ao fato de que Chen Shui-bian era o presidente, quando seu governo enviou dinheiro a Flores. Shui-bian e a esposa estão já presos em Taiwan, condenados por crimes de corrupção; e provavelmente há ainda um inquérito em andamento em Taipei examinando o papel de Shui-bian e seus associados em todo o processo.

A China, estrela em ascensão

A República Popular da China é ator cada vez mais importante na América Latina. Um dos importantes projetos que envolve a China na região é a construção de um mega canal que ligará o Oceano Atlântico ao Pacífico, como um segundo Canal do Panamá.

As 6 alternativas de rota para construção, pela China, do Canal da Nicarágua
Esse segundo Canal do Panamá terá base na Nicarágua, e será chamado de “Grande Canal da Nicarágua”. O governo da Nicarágua já assinou um acordo, em 2012, com uma empresa recém-criada, com sede em Hong Kong – Nicaragua Canal Development Investiment Co.Ltd., controlada por um magnata chinês das comunicações, para atrair investimentos internacionais para construir o canal. O projeto deve ser iniciado em meses. [2]

Quando a Frente de Libertação Nacional Farabundo Marti (FLMN) conseguiu eleger Mauricio Funes à presidência, conseguiu dele também que imediatamente estabelecesse relações diplomáticas com Cuba, já no dia da posse, 1/6/2009. Antes, o governo da ARENA sempre se recusara a ter qualquer contato com Havana e colaborava com os EUA em seu bloqueio a Cuba, para opor-se a Venezuela e aos aliados da Venezuela na região. A FLMN também estabeleceu relações diplomáticas com o Vietnã, o Camboja e a Rússia. Mas Funes, por inúmeros fatores, não reatou relações com a República Popular da China.

El Salvador não reconheceu Pequim, por oposição pessoal do próprio presidente Funes – o mesmo que, agora, está deixando a presidência de El Salvador.

Mauricio Funes, ex-empregado da rede CNN e conhecido apresentador de televisão foi apenas apoiado pela FLMFN. Funes não é membro, nem jamais foi da FLNFM, como muitos, fora de El Salvador supõem. Nos termos do acordo firmado entre Funes e a FLNFM, as pastas do gabinete do governo salvadorenho foram divididas entre a FLNFM e indivíduos “não-FLNFM” (chamados popularmente de “Amigos de Funes”), indicados pelo presidente. Sob esse acordo de divisão do poder, Funes controlaria questões estratégicas, a economia nacional e o secretariado para reformas políticas; e a FLNFM se encarregaria dos ministérios responsáveis pelo atendimento à saúde, à educação e a segurança. [3] Nesse contexto, Funes conseguiu impedir o reconhecimento da República Popular da China e manteve em marcha lenta as reformas políticas e econômicas que a FLNFM desejava.

Mauricio Funes (presidente de El Salvador de 2009 a 2014)
Quando, afinal, o governo de El Salvador fez algum primeiro movimento oficial em direção a Pequim, o governo chinês manifestou frieza quanto à ideia de estabelecer laços diplomáticos. Isso, muito provavelmente, por causa da demora daquele primeiro contato, que o governo chinês pode ter interpretado como insulto à dignidade do governo de Pequim.

Embora a FLNFM, como partido político, tenha laços diretos com a República Popular da China através dos órgãos de política internacional da própria FLNFM, e tenha sido várias vezes convidada a visitar Pequim, não há dúvidas de que, chegada à presidência com candidato seu, a FLNFM cuidará de estabelecer laços diplomáticos formais com Pequim. É o que se espera que aconteça, se a FLNFM vencer o segundo turno das eleições presidenciais, que acontecerão em março de 2014. Nesse contexto, um segundo mandato presidencial da FLNFM, dessa vez com candidato à presidência, será a oportunidade para que a FLMN e o governo de El Salvador corrijam o erro e reconheçam Pequim.

O governo de El Salvador e a FLNFM deixaram claro para Taiwan que El Salvador, sim, planeja reconhecer Pequim como legítimo governo da China. Interessante observar que não houve qualquer oposição de Taiwan, a essa decisão. Nem o fim de laços diplomáticos entre San Salvador e Taipei põem fim aos laços comerciais com El Salvador. De fato, vê-se que há algum tipo de coordenação silenciosa entre Taiwan e a República Popular da China, no que tenha a ver com esse movimento, que se inscreve no contexto da unificação chinesa.


Notas dos tradutores
[1] O primeiro turno das eleições aconteceram em 2/2/2014; o segundo turno está marcado para 19/3/2014. Sobre os candidatos e a respectiva posição eleitoral, ver 2/2/2014, Agência Brasil, em: “OEA observa eleições presidenciais em El Salvador”
[2] Pode-se ler também sobre o Canal da Nicarágua, o porto de Mariel em Cuba e o Brasil em português.
[3] A FLNFM ocupou a vice-presidência, com Sánchez Cerén, atual candidato da FLNFM à presidência.
_______________________

[*] Mahdi Darius Nazemroaya é cientista social, escritor premiado, colunista e pesquisador. Suas obras são reconhecidas internacionalmente em uma ampla série de publicações e foram traduzidas para mais de vinte idiomas, incluindo alemão, árabe, italiano, russo, turco, espanhol, português, chinês, coreano, polonês, armênio, persa, holandês e romeno. Seu trabalho em ciências geopolíticas e estudos estratégicos tem sido usado por várias instituições acadêmicas e de defesa de teses em universidades e escolas preparatórias de oficiais militares. É convidado freqüente em redes internacionais de notícias como analista de geopolítica e especialista em Oriente Médio. 
Atualmente, em viagem pela América Central, está com a Frente Sandinista de Libertação Nacional, em sua base em León, na Nicarágua. Esteve como observador internacional em El Salvador, no primeiro turno das eleições em El Salvador, onde esteve em contato com funcionários do governo salvadorenho.

sábado, 24 de março de 2012

Tropeço da Frente FMLN nas eleições, em El Salvador


Toda atenção aos que, no Brasil, acham que a “reforma política” seria sempre a salvação da lavoura...

(por sugestão da Rede Tlaxcala de Tradutores)

24/3/2012, S. Seguí, Rebelión
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Eleições em El Salvador
Domingo, 11/3, El Salvador teve eleições legislativas de meio de mandato, que se fazem a cada três anos, para renovação da Assembleia Nacional, única câmara legislativa do país (há eleições presidenciais a cada cinco anos; as próximas estão previstas para 2014). Simultaneamente, se elegeram prefeitos e conselhos municipais em todo o país.

Mauricio Funes
Para surpresa do partido no poder, a Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional, Frente FMLN [Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional], cujo candidato, o independente Mauricio Funes, venceu as eleições presidenciais em 2009, o partido de direita, Aliança Republicana Nacionalista, ARENA [Alianza Republicana Nacionalista] conseguiu aumentar em três votos sua representação na Assembleia Nacional, e a Frente FMLN perdeu um voto, passando de 32 a 31 representantes. O terceiro partido que disputava votos, a Grande Aliança pela Unidade Nacional, GANA [Gran Alianza por la Unidad Nacional], com 11 deputados eleitos, passou a ser a 3ª força política no país.

Nos termos dos Acordos de Paz de 1992, que marcaram o fim de uma guerra civil de 12 anos que fez 70 mil mortos, segundo estimativas, a Frente FMLN abandonou a resistência armada, converteu-se em partido político e integrou-se ao processo eleitoral. 

Desde então, as sucessivas eleições em El Salvador sempre foram contaminadas pela compra de votos, por pressões dos EUA e por fraude generalizada, o que facilitou o avanço da ARENA, direitista.

Nas eleições presidenciais de 2009, por exemplo, houve denúncias comprovadas de que a ARENA introduziu no país caminhões de cidadãos guatemaltecos e hondurenhos portadores de documentos de identidade vencidos ou falsificados, para votar em San Salvador como cidadãos salvadorenhos.

Apesar dos esforços da ARENA, a Frente FMLN venceu aquelas eleições, com Mauricio Funes, jornalista independente muito popular entre os eleitores de centro-esquerda, que posteriormente manteve certa neutralidade política em várias questões.

Naquela ocasião, também o governo norte-americano dos Republicanos de George Bush fez vazar notícias ameaçadoras, sobre emigrados salvadorenhos nos EUA (mais de dois milhões, numa população de menos de sete milhões); os salvadorenhos foram ameaçados com repatriação massiva dos que viviam sem visto de residente e em situação precária nos EUA. As remessas de dinheiro dos emigrados salvadorenhos que vivem fora do país são hoje a base da economia em San Salvador.

O governo de Funes tem mantido boas relações com os EUA, apesar da longa história de intervenção dos norte-americanos em El Salvador. Durante a guerra civil de 1980-1992, Washington treinou e financiou o exército salvadorenho e esquadrões da morte. Nos momentos mais agudos dos confrontos, o montante diário da ajuda militar norte-americana ao governo do presidente José Napoleón Duarte alcançou um milhão de dólares por dia.

Programas sociais instituídos pela Frente FMLN

Nos dois anos de governo de Mauricio Funes, que pouco tem avançado no caminho do que exige sua base eleitoral, de que modifique substancialmente o modelo de economia neoliberal do país, implantaram-se importantes reformas sociais nas áreas da Saúde, Alfabetização e Educação.

Em primeiro lugar, as Equipes Comunitárias de Saúde, ECO [Equipos Comunitarios de Salud], estrutura descentralizada de centros de saúde, que está oferecendo assistência gratuita nas comunidades pobres. Além de assistência especializada de médicos e enfermeiras, muitos dos quais têm de deslocar-se por longas distâncias, todos os dias, para chegar aos ECO, os novos “promotores de saúde rural” daqueles centros fazem visitas domiciliares, com enfoque na assistência preventiva à saúde, saúde reprodutiva e atenção pré-natal.

Além disso, a “Lei dos Medicamentos”, recentemente aprovada, destinada a baratear o preço de vários medicamentos básicos, tornando-os acessíveis a todos, contribuirá também para melhorar sensivelmente a saúde geral.

No Ensino, o programa “Pacote Escolar” [Paquete Escolar] e o “Programa de Alimentação e Saúde Escolar [Programa de Alimentación y Salud Escolar] são iniciativas que pela primeira vez asseguram assistência regular e permanente a estudantes da escola primária, com uniformes, sapatos e material escolar para os alunos mais pobres e alimentação nas escolas.

Esses programas sociais, somados às reformas na agricultura, com emissão de títulos de propriedade para os agricultores e acesso a sementes e fertilizantes distribuídos gratuitamente, testemunham o cumprimento de uma plataforma do grupo parlamentar da Frente FMLN, de que “se encaminha para um desenvolvimento equilibrado”.

Enquanto o governo da Frente FMLN tem-se concentrado nas reformas sociais, a direita aplicou todo seu empenho numa reforma político-eleitoral, fundamentalmente na introdução do sistema de listas fechadas e desbloqueadas (podem-se escolher candidatos de diferentes partidos[1]). Pelo número de votos nos partidos, calcula-se o coeficiente eleitoral e o número de assentos de cada partido; pelo número de votos (em um ou em vários nomes) dentro de cada lista, decide-se quem é eleito. A complexidade do procedimento prejudicou a base eleitoral da Frente FMLN, que enfrentou sérias dificuldades para expressar suas escolhas.

Nos municípios, fracasso relativo 

Mesmo assim, embora os resultados das eleições parlamentares possam ser considerados de “empate técnico”, e a queda no número de votos para a Frente FMLN possa explicar-se pela crise econômica generalizada, sentiu-se, nas eleições municipais, algo bem próximo de uma derrota da esquerda, que perdeu alguns municípios importantes, muitos na Grande San Salvador (Mejicanos, Apopa, San Martín, Soyapango), embora tenha vencido em outras prefeituras. de importante força simbólica (Nejapa, Suchitoto), mas por pequena diferença.

Próximo encontro, em 2014

Embora não se possa falar de fracasso eleitoral, a Frente FMLN recebeu um claro sinal de alerta nas eleições de domingo, que deixam perguntas importantes a serem respondidas pela militância em todo o país.

Será preciso analisar em profundidade as tendências dessa votação, as consequências da aplicação das reformas eleitorais, a abstenção, sobretudo em locais que tradicionalmente votam com a Frente FMLN e as denúncias de fraude ou tentativa de fraude, como intimidação de eleitores e compra de votos. Tudo isso, devidamente analisado, permitirá que se compreenda mais amplamente por que a Frente FMLN perdeu força no Poder Legislativo. E há ainda outros aspectos dos resultados eleitorais a serem analisados nas semanas vindouras.

Depois da eleição presidencial de 2009, a aliança ARENA dividiu-se, nascendo daí a aliança GANA, que se apresentou como alternativa moderada à Frente FMLN e à ARENA. A GANA conseguiu 11 dos 84 assentos à Assembleia Nacional (a ARENA, 33; e a Frente FMLN, 31) e parece que soube conquistar alguns dos “eleitores indecisos” com cujos votos a Frente FMLN contava. Assim, apesar da divisão, a ARENA e seus recursos aparentemente inesgotáveis a serviço da vitória eleitoral continuam a ser fator de muito peso no tabuleiro político salvadorenho. A Frente FMLN também se mantém como ator de muito peso; e, menos importante, a aliança GANA. Os demais partidos, continuam a ser muito acentuadamente minoritários.





Nota dos tradutores
[1] Sobre isso, pelo menos para entender melhor o processo, ver 22/3/2012, Carlos G. Romero, “Reforma electoral. ¿Quién puso la foto allí?”, La Prensa Gráfica, San Salvador.

quinta-feira, 17 de março de 2011

O roteiro de Barack Obama – Brasil, Chile e El Salvador – é instrutivo

Greg Grandin

Viagem  de Obama ao Brasil
16/3/2011, Greg Grandin, The Nation, Blog The Notion
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
  

Barack Obama parte amanhã para a América Latina, levando pouco mais que um sorriso de um milhão de dólares e a esperança de que ainda reste nos corações e mentes algum vestígio do encanto dos dias em que foi eleito nos EUA, eleição que os latino-americanos festejaram com real e profundo entusiasmo.

A viagem visa a mostrar que o governo Obama não se deixou impedir, por crises, domésticas e internacionais, de engajar-se proativamente com a região. 

Mas a verdade é que, na América Latina, Obama disputará jogo de pega-pega, tentando segurar a China e impedir que continue a avançar por solos que já foram “o quintal” dos EUA; e tentará promover uma alternativa aos países chamados “da esquerda bad” (Venezuela, Nicarágua, Bolívia e às vezes o Equador e a Argentina) e reconquistar o Brasil para a “órbita” dos EUA. 

Com sua economia de 6 trilhões de dólares, o Brasil ajudou a promover o que o presidente do Equador Rafael Correa chamou recentemente de “a segunda e definitiva independência” da América Latina, opondo-se a Washington em várias questões, da mudança climática ao comércio, da Palestina a Honduras e ao Irã.

Recapitulemos. Prometer atenção renovada à América Latina é coisa que candidatos prometem, tão certo como beijarão bebês fofos. Mesmo assim, houve quem confiasse que Obama seria diferente. 

Quando Obama foi eleito, a América Latina era governada por presidentes que, cada um deles, representava uma diferente tradição progressista: a Teologia da Libertação (Lugo, do Paraguai), o sindicalismo (Lula, do Brasil), povos indígenas e o campesinato (Morales, da Bolívia), o feminismo (Bachelet, do Chile), a economia social-democrata (Correa, do Equador) e até o populismo militarista (Chavez, da Venezuela) – e esses líderes contavam com que Obama se reuniria a eles no Pantheon, vendo-o como uma culminação das lutas pelos direitos civis nos EUA.

(...) Mas, como Obama aprendeu bem depressa, os obstáculos a uma diplomacia hemisférica efetiva nunca estiveram em alguma “esquerda bad” na América Latina e sempre estiveram lá mesmo, nos EUA: no lobby anti-Castro, na agroindústria, no fundamentalismo racista anti-latinos, e, claro, também no Departamento de Estado e no Departamento de Comércio, todos lotados de remanescentes dos governos Clinton e Bush, ativos para impedir qualquer tipo de avanço progressista – nas questões dos migrantes, nas relações com Cuba, no contrabando de armas para o México, nas tarifas (a tarifa de 54 cents cobrada em cada galão do etanol importado do Brasil foi renovada – como se os EUA fossem inimigos figadais de qualquer “livre comércio”) e na resistência às políticas de inclusão e redução da miséria. 

Resultado da ação dessas forças, nos EUA, Obama sucumbiu à inércia, levou adiante uma guerra desastrada às drogas e tocou sua agenda econômica como se 2008 nos EUA (ou 2002 na Argentina, o pior colapso econômico jamais registrado na história) não tivessem acontecido.

O roteiro de Obama – Brasil, Chile e El Salvador – é instrutivo. Se Washington ainda sonha com salvar sua diplomacia para o hemisfério, depende absolutamente da ajuda do Brasil – com sua economia diversificada e gigantescas reservas de petróleo (que não param de aumentar com novas jazidas descobertas quase diariamente). E a decisão de visitar também Chile e El Salvador tem de ser interpretada como alguma espécie de aposta, para mostrar que os EUA podem trabalhar com governos ao longo de todo o espectro político... e tentativa para manter esse espectro bem limitado: no máximo, uma direita reformada (à moda do Chile de Sebastián Piñera) e uma “esquerda” desdentada, não ameaçadora, absolutamente contida (à moda de El Salvador de Mauricio Funes).

Nos próximos dias, esse blog acompanhará o tour de Obama pela América Latina. 

Bom sinal de que a viagem não passa de tour de celebridade midiática, em troca de ganhar prestígio político, seria que Obama, no Brasil, anunciasse que apoia o esforço do país para alcançar assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Seria sinal de que Washington, afinal, aceitou a existência de uma nova América Latina; e de que os EUA reconhecem que, se querem mesmo conter a hemorragia fatal que mina a influência norte-americana no continente, é indispensável que os EUA reconheçam o Brasil como parceiro – e parem de ter chiliques ‘diplomáticos’ cada vez que Brasília aponta ao mundo a fenda de proporções geológicas que separa a retórica e a ação dos EUA (por exemplo, se alguém quiser verificar as dimensões da fenda, no caso de Honduras). 

Vamos ver. Mas nada garante que Obama seja suficientemente hábil para, ou que deseje suficientemente, superar as dificuldades atuais. A última coisa que muitos em Foggy Bottom ou no Pentágono desejam ver é o Brasil com destaque ainda maior do que o que já alcançou por seus próprios meios, como força capaz de conduzir o que, antigamente, Washington conhecia como Terceiro Mundo.

Recentemente, em conferência de imprensa em Pequim – que destacou a importância do novo eixo Sul-Sul que se vai constituindo –, o ministro de Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota, reiterou a oposição de seu país à militarização da crise da Líbia, alinhando-se, ao lado de Venezuela e África do Sul, na conclamação para que se busque solução negociada, contra qualquer tipo de “no-fly zone” a ser imposta à Líbia, solução ilegal, oposta ao que determina a Carta das Nações Unidas. Dias depois, o Brasil reafirmou essa posição, em declaração conjunta com Índia e África do Sul.

E só por um triz a viagem do Obama não foi cancelada: bastaria que os Republicanos cumprissem as ameaças que haviam feito, de “paralisar o governo”. Imaginem se, algum dia, algum Congresso pensaria em proibir Ronald Reagan de sair em passeio turístico pela América Latina, a bordo de seu Big Bird. Se tivesse acontecido, Washington poderia jogar a chave da região nas mãos da China e enfiar, de vez, a violinha no saco.