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sábado, 11 de abril de 2015

Guerras do “ocidente” já mataram 4 milhões de muçulmanos desde 1990


10/4/2015, [*] Nafeez Ahmed, FiredogLake (de Middle East Eye)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

GENOCÍDIO DOS EUA NO IRAQUE
1.200.000 assassinados desde 2003
3.000.000 de mortos por 13 anos de Sanções
5.000.000 de exilados desde 2003
Mês passado, a organização Médicos pela Responsabilidade Social [orig. Physicians for Social Responsibility (PRS)] que tem sede em Washington divulgou estudo crucialmente importante, no qual a organização conclui que o número de mortos nos dez anos da “Guerra ao Terror” desde os ataques de 11/9 é de no mínimo 1,3 milhões de pessoas e pode ultrapassar os dois milhões.

O relatório de 97 páginas, distribuído pela organização de médicos que já recebeu um Prêmio Nobel é o primeiro estudo dedicado a estimar o número de civis mortos nas intervenções de contraterrorismo comandadas pelos EUA no Iraque, Afeganistão e Paquistão.

O relatório da PSR é assinado por uma equipe interdisciplinar de especialistas, entre os quais o Dr. Robert Gould, Diretor de Formação e Educação Profissional Médica no Centro Médico da University of Califórnia, San Francisco; e o professor Tim Takaro, da Faculdade de Ciências da Saúde na Simon Fraser University.

Até aqui completamente apagado de todos os veículos da mídia-empresa comercial em língua inglesa, trata-se de estudo histórico revolucionário e primeira tentativa, realizada por organização de saúde pública de renome mundial, para produzir informação confiável sobre o número de vítimas civis, assassinadas na “guerra ao terror” comandada por EUA e Reino Unido.

Corrigir números e preencher lacunas

O relatório da PSR é apresentado pelo Dr. Hans von Sponeck, ex-Vice-Secretário-Geral da ONU, como “contribuição significativa para diminuir o fosso que separa estimativas confiáveis do número de vítimas da guerra, especialmente civis no Iraque, Afeganistão e Paquistão, e números tendenciosos, manipulados e até fraudulentos”.

O relatório faz uma revisão de estimativas anteriores do número de mortes da “guerra ao terror”. E é duramente crítico do número mais frequentemente citado pela mídia-empresa comercial como número confiável, a saber o índice Iraq Body Count (IBC) que notifica 110 mil mortos. Esse número é construído a partir de outras “estimativas” publicadas pelos veículos da mídia-empresa comercial, mas o estudo da organização PSR identifica graves lacunas e erros de metodologia nesse tipo de abordagem.

Por exemplo, apesar de 40 mil cadáveres terem sido sepultados em Najaf desde o início da guerra, o índice jornalístico IBC só registrou, para o mesmo período, 1.354 mortes em Najaf. Esse exemplo mostra como é grande a diferença entre os números jornalísticos do IBC e o número real de mortos – neste caso o número de mortos que a mídia-empresa comercial está divulgando é 30 vezes menor que o número real.

As maiores vítimas dos EUA são as crianças
Esse tipo de discrepância é encontrável em todo o banco de dados do índice IBC com o qual trabalha a mídia-empresa comercial. Noutro campo, o índice IBC registrou apenas três ataques aéreos num período em 2005, quando o número de ataques realmente cresceu de 25 para 120 naquele ano. Dessa vez, o número que a mídia-empresa comercial está divulgando é 40 vezes menor que o número real.

Segundo o estudo da PSR, até o muito discutível estudo publicado pela revista Lancet, que estimava em 655 mil o número de mortos no Iraque até 2006 (e mais de um milhão até hoje, por extrapolação) estava mais próximo da realidade que os números jornalísticos do índice IBC. De fato, o relatório recém lançado confirma o que já é consensual entre os epidemiologistas quanto à confiabilidade do estudo publicado em Lancet. Mas, apesar de algumas críticas bem fundamentadas, a metodologia estatística ali aplicada é a mesma universalmente reconhecida para determinar números de mortos em zonas de conflito, usadas pelas agências internacionais e por governos.

Negação politicamente motivada

A organização PSR também examinou a metodologia e a arquitetura de outros estudos que mostram números muito baixos de mortos, como um deles, publicado no New England Journal of Medicine e que também mostrou graves limitações.

Esse estudo simplesmente ignorou as áreas submetidas a violência mais pesada, a saber, Bagdá, Anbar e Nineveh, confiando nos dados muito precários do IBC, para extrapolar para essas regiões. Além disso, o estudo também assumiu “restrições politicamente motivadas” para a coleta e análise dos dados – entrevistas conduzidas pelo Ministério da Saúde do Iraque, que era “totalmente dependente da potência ocupante” e que, sob pressão dos EUA, se recusara a fornecer dados sobre registros de mortes de civis iraquianos.

Em particular, a organização PSR avaliou o que disseram Michael Spaget, John Sloboda e outros, que questionaram a coleta dos dados para o estudo da revista Lancet e os declararam potencialmente fraudulentos. Para a organização PSR essas acusações não têm fundamento.

As poucas “críticas justificadas”, concluíram os médicos da PSR, “não põem em dúvida os resultados dos estudos da Lancet como um todo. Aqueles números ainda representam a melhor estimativa atualmente acessível”. Os achados da Lancet são também corroborados pelos dados de um novo estudo publicado em PLOS Medicine, que fala de 500 mil mortos no Iraque, como consequência da guerra. No geral, o estudo da organização PSR conclui que o número mais provável para o total de mortos civis no Iraque, desde 2003 até hoje, se aproxima de 1 milhão.

A esse número, o estudo da PSR acrescenta pelo menos mais 220 mil mortes no Afeganistão e 80 mil mortos no Paquistão, mortos em consequência direta ou indireta da guerra dos norte-americanos naqueles países: assim se chega a um total “conservador” de 1,3 milhões de vítimas civis, mas “o número real pode facilmente ultrapassar os 2 milhões”.

Mas também o estudo da PSR sofre limitações. Para começar, a “guerra ao terror” pós 11/9 não foi novidade, mas simples expansão de políticas intervencionistas anteriores dos EUA no Iraque e no Afeganistão.

Iraque, 655.000 civis mortos entre 2003-2006
Em segundo lugar, a carência absoluta de dados sobre o Afeganistão sugere fortemente que o estudo da PSR muito provavelmente subestimou o número de vítimas da guerra norte-americana contra os afegãos.

Iraque

A guerra contra o Iraque não começou em 2003, mas em 1991 com a Iª Guerra do Golfo, depois da qual começou no país o regime de sanções da ONU.

Estudo anterior feito pela PSR por Beth Daponte, que então trabalhava como especialista em demografia no Gabinete do Censo do governo dos EUA, determinou que o número de mortes de civis no Iraque, causadas por impacto direto ou indireto da Iª Guerra do Golfo, chegava bem próximo de 200 mil iraquianos, a maioria dos quais civis. Na sequência, o estudo de Daponte, feito para uso interno do governo dos EUA, foi tirado de circulação.

Depois que as forças norte-americanas saíram de lá, a guerra contra o Iraque prosseguiu na modalidade de guerra econômica, mediante as sanções que EUA e Reino Unido impuseram ao país, sob o pretexto de não dar a Saddam Hussein os materiais necessários para a produção de armas de destruição em massa. Na lista dos itens banidos do Iraque sob esse pretexto, entraram inúmeros produtos necessários para a sobrevivência diária.

Números da ONU, não contestados, mostram que 1,7 milhões de civis iraquianos, metade dos quais crianças, morreram por efeito do brutal regime de sanções impostas pelo “ocidente” ao Iraque.

Esse efeito de matança em massa parece ter sido efeito planejado e buscado. Dentre os itens banidos pelas sanções que a ONU impôs ao Iraque estavam produtos químicos e equipamentos essenciais para a manutenção e o bom funcionamento do sistema de tratamento de água nacional iraquiano. Um documento secreto da Agência de Inteligência da Defesa dos EUA [orig. US Defence Intelligence Agency (DIA)] encontrado pelo professor Thomas Nagy da Escola de Negócios da George Washington University equivalia, nas palavras do professor, a um “rascunho inicial de um plano de genocídio contra a população do Iraque ”.

No documento que redigiu para a Associação dos Analistas de Genocídios da Universidade de Manitoba, o professor Nagi explicou que o documento da DIA revelava

(...) detalhes minuciosos de um método perfeitamente operacionalizável para “degradar completamente o sistema para tratamento de água” de uma nação inteira por um período de mais de dez anos.

A política de sanções criaria

(...) as condições para ampla disseminação de doenças, inclusive epidemias em grande escala, que liquidariam quantidade significativa de habitantes do Iraque.

Significa que só no Iraque, a guerra dos EUA de 1991 a 2003 matou 1,9 milhões de iraquianos; depois, de 2003 em diante, cerca de 1 milhão, o que totaliza pouco menos de 3 milhões de iraquianos mortos ao longo de duas décadas.

Afeganistão

No Afeganistão, a estimativa de número de mortos apresentada pela organização PSR pode ser também muito conservadora. Seis meses depois da campanha de bombardeio de 2001, Jonathan Steele, do Guardian, revelou que número entre 1.300 e 8.000 afegãos haviam morrido em consequência direta dos bombardeios norte-americanos, e que, sem sombra de dúvida, algo bem próximo de 50 mil pessoas haviam morrido por efeitos indiretos da guerra.

A al-Qaeda ainda é atuante no Afeganistão
Em seu livro Body Count: Global Avoidable Mortality Since 1950 [Contando cadáveres: a inegável mortalidade global desde 1950] (2007), o professor Gideon Polya aplicou a mesma metodologia usada pelo Guardian aos dados anuais da ONU, de mortalidade por populações, para gerar explicação plausível para o número excessivo de mortos. Bioquímico aposentado da La Trobe University em Melbourne, Polya concluiu que o total de mortes evitáveis de afegãos desde 2001, sob as privações impostas pela guerra e pela ocupação em curso, alcançava 3 milhões de pessoas, 900 mil das quais crianças com menos de cinco anos.

Embora os achados do professor Polya não tenham sido publicados em periódico de acadêmicos especialistas, seu estudo de 2007 Body Count tem sido recomendado pela professora Jacqueline Carrigan, socióloga da California State University, como “um perfil rico em dados, da situação da mortalidade global”, em resenha publicada no periódico da editora Routledge, Socialism and Democracy.

Como também no caso do Iraque, a intervenção norte-americana no Afeganistão começou muito antes do 11/9, sob a forma de ajuda clandestina aos Talibã (militar, logística e financeira) , a partir de 1992. Essa contribuição dos EUA serviu de propulsão para a violenta conquista, pelos Talibã, de quase 90% do território afegão.

Em relatório de 2001 da Academia Nacional de Ciências,  Forced Migration and Mortality, o destacado epidemiologista Steven Hansch, um dos diretores da ONG Relief International, observou que o aumento na mortalidade no Afeganistão devida a impactos indiretos da guerra ao longo dos anos 1990s pode estar entre 200 mil e 2 milhões.

Tudo isso sugere que o número total de mortos afegãos por efeito direto ou indireto da invasão pelos EUA desde o início dos anos 1990s até o presente esteja entre 3-5 milhões de pessoas.

Negar sempre

Segundo os números aqui explorados, o total de mortes causadas direta ou indiretamente pelas intervenções norte-americanas no Iraque e no Afeganistão desde os anos 1990s – sejam os assassinatos diretos, sejam os impactos das privações e dificuldades impostas pela guerra – está bem próximo de 4 milhões de pessoas (2 milhões no Iraque, de 1991 a 2003, mais 2 milhões de vítimas da “guerra ao terror”), mas talvez chegue a 6-8 milhões de pessoas, se se considera que o número de vítimas no Afeganistão é certamente maior do que o aqui computado.

Médicos pela Responsabilidade Social
Talvez sejam números exagerados, mas ninguém jamais saberá com certeza. As forças armadas de EUA e do Reio Unido, por opção política, não mantêm qualquer registro do número de civis mortos em operações militares, considerados uma inconveniência sem importância.

Dada a severa carência de dados no Iraque , a quase total inexistência de registros no Afeganistão e a indiferença dos governos “ocidentais” ante mortes de civis, é literalmente impossível determinar a verdadeira extensão do massacre de seres humanos não militares.

Ante a impossibilidade até de corroborar qualquer número, aí fica uma estimativa plausível, baseada em metodologia estatística padrão, que considera a melhor evidência encontrável. Ajudam a oferecer alguma indicação sobre a escala da destruição, embora sem detalhes precisos.

Muitas desses mortos tombaram no contexto da luta contra a tirania e o terrorismo. Mas, porque a mídia-empresa mantém o mais impenetrável segredo sobre os fatos reais dessa luta, praticamente ninguém tem qualquer ideia da verdadeira escala do inenarrável terror que a tirania de EUA e Reino Unido promove, em nome dos cidadãos, no Iraque e no Afeganistão.
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[*] Nafeez Ahmed é jornalista investigativo, especialista em segurança internacional e autor de best-sellers em que acompanha o que chama de a “crise da civilização”.  Colabora nos jornais The Independent, Sydney Morning Herald, The Age, The Scotsman, Foreign Policy, The Atlantic, Quartz, Prospect, New Statesman, Le Monde diplomatique, New Internationalist. 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Khamenei do Irã acusa Arábia Saudita de genocídio


Ataques aéreos dos sauditas ao Iêmen

9/4/2015, Russia Today – RT
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Aiatolá Ali Khamenei
O Supremo Líder do Irã, Aiatolá Khamenei, atacou os bombardeios aéreos pela coalizão saudita contra os rebeldes houhtis no Iêmen. Para o Supremo Líder, o volume de mortes provocadas pelas bombas sauditas configuram já um genocídio.

A agressão pela Arábia Saudita contra o Iêmen e o povo inocente que lá vive foi grave erro – disse Khamenei em discurso transmitido pela televisão iraniana. – É crime de genocídio que pode ser denunciado às cortes internacionais.

Para o Supremo Líder, a Arábia Saudita e seus aliados jamais chegarão à vitória no conflito contra os combatentes houthis, que assumiram o controle da capital Sana em 2014 e agora estão em ofensiva na região sul do país.

Os sauditas serão derrotados nessa operação deles contra o Iêmen. Sairão dela definitivamente feridos e humilhados para sempre – disse o Aiatolá Khamenei.

A Arábia Saudita bombardeia áreas civis
Segundo Al-Manar News, Khamenei também comparou os ataques sauditas contra o Iêmen à ataque similar que Israel executou contra Gaza no verão passado.

Os sionistas são mais poderosos que os sauditas. Mas nem assim conseguiram o que queriam com seu ataque militar contra Gaza – disse o Aiatolá, e acrescentou: –E Gaza é região pequena. O Iêmen é um grande país, onde vivem milhões de iemenitas.

As palavras de Khamenei foram imediatamente ecoadas pelo Presidente do Irã, Hassan Rouhani, que disse hoje que os ataques aéreos contra os houthis são “errados” e conclamou as nações envolvidas naquele conflito a “pensar sobre um modo de pôr fim àquela guerra, sobre um cessar-fogo e sobre como garantir assistência humanitária ao sofrido povo do Iêmen”.

O genocídio iemenita iniciou-se nos ataques
de drones de Bush/Obama
A Arábia Saudita começou há duas semanas os ataques aéreos contra os houthis, que são muçulmanos xiitas, com o objetivo de destruir os rebeldes e repor na presidência o presidente deposto, sunita, Abd Rabbuh Mansur Hadi.

A Organização Mundial da Saúde informou nesta 5ª-feira (9/4/2015) que já havia 643 mortos e 2.226 feridos, pelos ataques sauditas contra o Iêmen.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Gaza − Trincas no Muro: As consequências não planejadas do genocídio

8−10/8/2014, [*] Robert Fantina − Weekend Edition, CounterPunch
Traduzido por mberublue



Campo de concentração de Israel

● Ao mesmo tempo que Israel declara um cessar fogo de 72 horas, também afirma: “missão cumprida” em Gaza. Talvez se torne interessante ver o que aquele regime de apartheid realmente cumpriu.

● Destruiu túneis, os quais na maioria das vezes são usados para o contrabando de artigos para o lar, que Israel, em descumprimento e violação das leis internacionais, impede que sejam importados pelos palestinos.

● Massacrou cerca de 2.000 (duas mil) pessoas, entre as quais se incluem crianças, mesmo as recém nascidas, ferindo ainda milhares delas.

● Destruiu centenas de casas, deixando na rua, ao léu, milhares de homens, mulheres e crianças.

● Arrasou usinas de energia, fazendo com que centenas de milhares de pessoas ficassem sem eletricidade ou água corrente.

● Provocou a destruição de fábricas que produzem coisas extremamente perigosas para Israel, como pretzels, queijo e biscoitos.

● Alvejou e assassinou jornalistas.

Israel, genocida e covarde, bombardeia Gaza
Os oficiais israelenses afirmaram que, em Gaza, precisam regularmente Aparar a Grama, o que significa destruir a infraestrutura e bombardear a área sitiada até empurrá-la o mais próximo possível da idade das trevas. Podemos acrescentar isso às realizações da “missão cumprida” de Israel.

Porém, talvez a maior falha de Israel, meta desesperadamente procurada, e que não conseguiu cumprir, foi o seu objetivo mais ambicioso: o desmantelamento do governo de coalizão entre Fatah e Hamás. Este governo, trêmulo talvez, definitivamente corrupto, permanece intacto.

Ocorre que na realidade, existem alguns resultados não esperados e que efetivamente se dão em consequência desse bombardeio genocida contra os palestinos.

Palestina- Governo de coalizão Hamás-Fatah

● Crítica internacional inesperada contra Israel. Mesmo que não seja de forma universal, desta vez Israel viu embaixadores sendo convocados de volta a seus países, e até mesmo os Estados Unidos que normalmente dão um cheque em branco a Israel para que faça o que quiser no cenário internacional,desta vez arriscou algumas críticas tímidas contra seu fantoche mor. Mas é lamentável que para que os EUA arriscassem algumas críticas anêmicas, foi necessário que Israel bombardeasse repetidas vezes as escolas das Nações Unidas, nas ocasiões usadas como abrigo para milhares de palestinos expulsos de suas casas, mas pelo menos alguma crítica foi expressa. A inesperada renúncia de Sayeeda Warsi, Ministra Sênior no Gabinete de Relações Exteriores da Grã Bretanha, que saiu acusando o governo do Primeiro Ministro David Cameron de tomar uma abordagem “moralmente indefensável” em relação ao conflito entre Israel e Gaza, foi por sua vez uma consequência surpreendente contra Israel.

● Demonstrações internacionais de apoio aos palestinos. Israel mesmo teve centenas de pessoas de seu povo protestando contra o bombardeio maciço na faixa de Gaza. Em Londres, dezenas de milhares de pessoas protestaram contra o bombardeio, exigindo que o governo britânico pare de apoiar Israel.

● Israel enfrentou uma tempestade na mídia social, que bateu sem dó no país. Na última vez que Israel resolveu “cortar a grama” em Gaza foi há dois anos. Naquele tempo, o Twitter tinha aproximadamente 20 milhões de usuários. Hoje, este número já se encontra na casa dos 120 milhões de usuários que espalharam através do globo fotografias e filmes e informações que a imprensa empresa não se atreveu ou não quis mostrar. Pelo menos em parte, isso resultou em enormes manifestações de protesto em frente à sede da BBC em Londres, tendo como consequência o anúncio, por parte da organização de mídia que deverá rever suas políticas no intento de ver se, de fato, suas reportagens eram tendenciosas, favorecendo sempre Israel.

● Maior motivação para a implementação do movimento BDS (Boycott, Divest and Sanction – Boicote, Desinvestimento e Sanções –NT). Levando em consideração que as pessoas ao redor do mundo percebem que crianças brincando em uma praia são alvos do terrorista IDF (Israeli Defense Forces – Forças Defensivas de Israel – NT), que atiram em crianças espalhando seus pedaços sangrentos pela praia, mesmo os politicamente apáticos tornam-se motivados.

● Isolamento cada vez maior de Israel frente a comunidade internacional. Não se pode ver isso como consequência isolada, pois o isolamento decorre de todos os motivos acima listados. As manifestações de protesto, o cancelamento de eventos patrocinados por Israel, o crescimento exponencial do movimento BDS e o aumento nas pessoas da consciência do que acontece deve ser creditado em grande parte à mídia social pela divulgação dos horríveis crimes cometidos por Israel não podem ser ignorados para sempre pelos governos, quando as pessoas que elegeram estes governos demonstram claramente sua oposição.


A única nação que demonstra ser extremamente lenta em mudar sua retórica em relação a Israel, para condenar as terríveis violações dos direitos humanos cometidos por aquele país é, sem surpresa nenhuma, os Estados Unidos.

Como este escritor já mencionou anteriormente, os Estados Unidos gostam dos direitos humanos, desde que não interfiram em suas estratégias ou interesses financeiros. É necessário recordar que apenas entre o início de 2012 e o final de 2013, lobbies pró Israel doaram US$ 8,000,000 aos candidatos ao Congresso e à presidência. Tais candidatos receberam dezenas de milhões de dólares no transcorrer das duas últimas décadas.

Há outras instâncias do poder em redor do mundo além da Casa Branca, da Câmara de Deputados e o Senado dos EUA... Assim, o que acontece se alguns bebês dormindo em seus berços são selvagemente destroçados por armas proibidas, em clara violação à lei internacional? Criticar isso fará com que diminuam os cheques oferecidos pelos lobbies pró Israel? Não, não acho que haja algum risco de que essa crítica seja feita.


Dessa forma, embora murmurando uma crítica quase inaudível, um sussurro medroso em oposição ao genocídio praticado por Israel, ainda assim, os EUA o financia. Enquanto mostra algum “desconforto” com a decisão de Israel de bombardear as escolas das Nações Unidas que abrigavam centenas de palestinos refugiados, os Estados Unidos ainda assim continuam enviando mais e mais armas para Israel, para que o Estado Terrorista continue “aparando a grama” em Gaza.

Sempre foi muito difícil para o eleitor americano escolher entre Tweedle-Dee e Tweedle-Dum (personagens do livro de Lewis Carroll “Alice no País dos Espelhos”. São gêmeos que se complementam a tal ponto que um completa as frases do outro.No fundo, parecem ser o mesmo personagem, tendo como diferença apenas seus nomes bordados nos casacos – NT), candidatos normalmente oferecidos pelos partidos Democrata e Republicano.

Nas próximas eleições de meio de mandato, os eleitores americanos certamente deverão escolher entre candidatos dos dois partidos, que se atropelam uns aos outros na tentativa sôfrega de mostrar quem apoia mais a Israel. Não é por outro motivo que este escritor, que viveu durante anos no Canadá, escreverá alguns nomes em sua cédula de ausente. Serão os nomes dos jornalistas palestinos e homens e mulheres conhecidos deste escritor, que vivem em Gaza e foram vítimas dos ataques genocidas do exército de Israel.


Mesmo com a oposição ferrenha dos Estados Unidos a cada passo a ser dado, a ONU parece estar pronta para investigar possíveis crimes de guerra cometidos por Israel. Não é de se estranhar as suas conclusões, pois a ONU tem emitido mais resoluções críticas contra Israel que todas as outras nações combinadas. Mas até que os cidadãos acordem de seu sono induzido pelos serviços de relações públicas e fiquem conscientes de que os EUA estão financiando um genocídio, nada mudará. Nas últimas semanas, temos visto evidências cada vez mais fortes de rachaduras no muro dos Estados Unidos e das relações públicas de Israel. Todos aqueles que estão chocados com os crimes cometidos por Israel devem alargar ainda mais esta rachadura.


[*] Robert Fantina–Ativista e jornalista que trabalha em prol da paz e da justiça social, enquanto viveu nos EUA apoiou decisivamente o controle de armas e se opôs à guerra contra o Iraque antes da invasão norte americana e depois que ela aconteceu. Depois das eleições de 2004, mudou-se para o Canadá. Escreveu livros, entre os quais “A deserção e o soldado americano – 1776-2006” além de novelas e mais recentemente o livro “Império: racismo e genocídio – uma história das relações exteriores dos Estados Unidos”, seu último livro.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

“Cessar−fogo” pode ser armadilha contra palestinos

30/7/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jaroslaw Wojtasinski - Polônia
Hoje:

Em reunião do gabinete de segurança, Israel decidiu fazer um cessar-fogo humanitário entre 15h e 19h [hora local].

“A janela humanitária não se aplica a áreas nas quais os soldados do exército de Israel estão atualmente operando” – diz o documento do exército. – “Residentes não devem retornar a áreas das quais já tenham sido evacuados”.

Para o Hamás, a coisa foi golpe publicitário e “cessar-fogo” do tipo “Não atiraremos, exceto quando atirarmos”.

 Amorim - Brasil
Tenho a impressão que pode ser pior que isso. A coisa provavelmente foi pensada como armadilha:

Cidade de GAZA, Palestina. 17 pessoas foram mortas e mais de 200 foram feridas em ataque aéreo de Israel contra um mercado próximo da cidade de Gaza na 4ª-feira (30/7/2014), disseram socorristas.

O porta-voz dos serviços de emergência Ashraf al-Qudra disse que Israel atacou um mercado lotado na região de Shejaiya, entre a cidade de Gaza e a fronteira com Israel.

O ataque foi feito logo depois que o exército de Israel anunciou que observaria um cessar-fogo humanitário que estaria vigente por quatro horas, a partir das 12h GMT.

As pessoas então saíram para fazer suas compras, num momento em que acreditaram que estariam mais seguras. O resultado foi uma carnificina horrenda. Israel mantém todos os tipos de plataformas de vigilância, tripuladas e não tripuladas, voando sobre Gaza. Com certeza os matadores sabiam que o mercado estaria lotado.

Mas, como sempre, o porta-voz israelense finge ignorância e culpa a resistência pelo morticínio. São acusações que raramente se confirmam, se examinadas com cuidado.

Não é a primeira vez que Israel opera com armadilhas para apanhar maior número de palestinos. Também se trata de atrair para uma armadilha, se Israel diz aos palestinos que abandonem suas casas e dirijam-se a abrigo em determinado local e, na sequência, Israel bombardeia o abrigo e mata mais de 20 dos que se abrigavam ali.

Castigo Coletivo
Marca Registrada de Israel (Latuff - Brasil)
Esse tipo de armadilha cabe perfeitamente no conceito do crime de Castigo Coletivo:

O que Israel está fazendo em Gaza é castigo coletivo: Israel está punindo o povo de Gaza por se recusar a ser um gueto dócil. É castigo pela audácia dos palestinos que fizeram um governo de unidade nacional, e pelo atrevimento do Hamás e de outros grupos, que reagem com resistência, armada ou de outro tipo, contra o sítio imposto por Israel e contra as provocações israelenses, mesmo depois de Israel já várias vezes ter reagido com a mais estúpida violência, contra protestos pacíficos.

Não tenho notícia de qualquer conflito na história no qual o castigo coletivo tenha conseguido pôr fim à guerra. O castigo coletivo parece sempre fazer aumentar o apoio aos resistentes. E fica-se sem entender por que Israel tanto insiste em suas armadilhas.



[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça  Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ouvir versão em performance de Tim van Broekhuizen.