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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Gaza − Trincas no Muro: As consequências não planejadas do genocídio

8−10/8/2014, [*] Robert Fantina − Weekend Edition, CounterPunch
Traduzido por mberublue



Campo de concentração de Israel

● Ao mesmo tempo que Israel declara um cessar fogo de 72 horas, também afirma: “missão cumprida” em Gaza. Talvez se torne interessante ver o que aquele regime de apartheid realmente cumpriu.

● Destruiu túneis, os quais na maioria das vezes são usados para o contrabando de artigos para o lar, que Israel, em descumprimento e violação das leis internacionais, impede que sejam importados pelos palestinos.

● Massacrou cerca de 2.000 (duas mil) pessoas, entre as quais se incluem crianças, mesmo as recém nascidas, ferindo ainda milhares delas.

● Destruiu centenas de casas, deixando na rua, ao léu, milhares de homens, mulheres e crianças.

● Arrasou usinas de energia, fazendo com que centenas de milhares de pessoas ficassem sem eletricidade ou água corrente.

● Provocou a destruição de fábricas que produzem coisas extremamente perigosas para Israel, como pretzels, queijo e biscoitos.

● Alvejou e assassinou jornalistas.

Israel, genocida e covarde, bombardeia Gaza
Os oficiais israelenses afirmaram que, em Gaza, precisam regularmente Aparar a Grama, o que significa destruir a infraestrutura e bombardear a área sitiada até empurrá-la o mais próximo possível da idade das trevas. Podemos acrescentar isso às realizações da “missão cumprida” de Israel.

Porém, talvez a maior falha de Israel, meta desesperadamente procurada, e que não conseguiu cumprir, foi o seu objetivo mais ambicioso: o desmantelamento do governo de coalizão entre Fatah e Hamás. Este governo, trêmulo talvez, definitivamente corrupto, permanece intacto.

Ocorre que na realidade, existem alguns resultados não esperados e que efetivamente se dão em consequência desse bombardeio genocida contra os palestinos.

Palestina- Governo de coalizão Hamás-Fatah

● Crítica internacional inesperada contra Israel. Mesmo que não seja de forma universal, desta vez Israel viu embaixadores sendo convocados de volta a seus países, e até mesmo os Estados Unidos que normalmente dão um cheque em branco a Israel para que faça o que quiser no cenário internacional,desta vez arriscou algumas críticas tímidas contra seu fantoche mor. Mas é lamentável que para que os EUA arriscassem algumas críticas anêmicas, foi necessário que Israel bombardeasse repetidas vezes as escolas das Nações Unidas, nas ocasiões usadas como abrigo para milhares de palestinos expulsos de suas casas, mas pelo menos alguma crítica foi expressa. A inesperada renúncia de Sayeeda Warsi, Ministra Sênior no Gabinete de Relações Exteriores da Grã Bretanha, que saiu acusando o governo do Primeiro Ministro David Cameron de tomar uma abordagem “moralmente indefensável” em relação ao conflito entre Israel e Gaza, foi por sua vez uma consequência surpreendente contra Israel.

● Demonstrações internacionais de apoio aos palestinos. Israel mesmo teve centenas de pessoas de seu povo protestando contra o bombardeio maciço na faixa de Gaza. Em Londres, dezenas de milhares de pessoas protestaram contra o bombardeio, exigindo que o governo britânico pare de apoiar Israel.

● Israel enfrentou uma tempestade na mídia social, que bateu sem dó no país. Na última vez que Israel resolveu “cortar a grama” em Gaza foi há dois anos. Naquele tempo, o Twitter tinha aproximadamente 20 milhões de usuários. Hoje, este número já se encontra na casa dos 120 milhões de usuários que espalharam através do globo fotografias e filmes e informações que a imprensa empresa não se atreveu ou não quis mostrar. Pelo menos em parte, isso resultou em enormes manifestações de protesto em frente à sede da BBC em Londres, tendo como consequência o anúncio, por parte da organização de mídia que deverá rever suas políticas no intento de ver se, de fato, suas reportagens eram tendenciosas, favorecendo sempre Israel.

● Maior motivação para a implementação do movimento BDS (Boycott, Divest and Sanction – Boicote, Desinvestimento e Sanções –NT). Levando em consideração que as pessoas ao redor do mundo percebem que crianças brincando em uma praia são alvos do terrorista IDF (Israeli Defense Forces – Forças Defensivas de Israel – NT), que atiram em crianças espalhando seus pedaços sangrentos pela praia, mesmo os politicamente apáticos tornam-se motivados.

● Isolamento cada vez maior de Israel frente a comunidade internacional. Não se pode ver isso como consequência isolada, pois o isolamento decorre de todos os motivos acima listados. As manifestações de protesto, o cancelamento de eventos patrocinados por Israel, o crescimento exponencial do movimento BDS e o aumento nas pessoas da consciência do que acontece deve ser creditado em grande parte à mídia social pela divulgação dos horríveis crimes cometidos por Israel não podem ser ignorados para sempre pelos governos, quando as pessoas que elegeram estes governos demonstram claramente sua oposição.


A única nação que demonstra ser extremamente lenta em mudar sua retórica em relação a Israel, para condenar as terríveis violações dos direitos humanos cometidos por aquele país é, sem surpresa nenhuma, os Estados Unidos.

Como este escritor já mencionou anteriormente, os Estados Unidos gostam dos direitos humanos, desde que não interfiram em suas estratégias ou interesses financeiros. É necessário recordar que apenas entre o início de 2012 e o final de 2013, lobbies pró Israel doaram US$ 8,000,000 aos candidatos ao Congresso e à presidência. Tais candidatos receberam dezenas de milhões de dólares no transcorrer das duas últimas décadas.

Há outras instâncias do poder em redor do mundo além da Casa Branca, da Câmara de Deputados e o Senado dos EUA... Assim, o que acontece se alguns bebês dormindo em seus berços são selvagemente destroçados por armas proibidas, em clara violação à lei internacional? Criticar isso fará com que diminuam os cheques oferecidos pelos lobbies pró Israel? Não, não acho que haja algum risco de que essa crítica seja feita.


Dessa forma, embora murmurando uma crítica quase inaudível, um sussurro medroso em oposição ao genocídio praticado por Israel, ainda assim, os EUA o financia. Enquanto mostra algum “desconforto” com a decisão de Israel de bombardear as escolas das Nações Unidas que abrigavam centenas de palestinos refugiados, os Estados Unidos ainda assim continuam enviando mais e mais armas para Israel, para que o Estado Terrorista continue “aparando a grama” em Gaza.

Sempre foi muito difícil para o eleitor americano escolher entre Tweedle-Dee e Tweedle-Dum (personagens do livro de Lewis Carroll “Alice no País dos Espelhos”. São gêmeos que se complementam a tal ponto que um completa as frases do outro.No fundo, parecem ser o mesmo personagem, tendo como diferença apenas seus nomes bordados nos casacos – NT), candidatos normalmente oferecidos pelos partidos Democrata e Republicano.

Nas próximas eleições de meio de mandato, os eleitores americanos certamente deverão escolher entre candidatos dos dois partidos, que se atropelam uns aos outros na tentativa sôfrega de mostrar quem apoia mais a Israel. Não é por outro motivo que este escritor, que viveu durante anos no Canadá, escreverá alguns nomes em sua cédula de ausente. Serão os nomes dos jornalistas palestinos e homens e mulheres conhecidos deste escritor, que vivem em Gaza e foram vítimas dos ataques genocidas do exército de Israel.


Mesmo com a oposição ferrenha dos Estados Unidos a cada passo a ser dado, a ONU parece estar pronta para investigar possíveis crimes de guerra cometidos por Israel. Não é de se estranhar as suas conclusões, pois a ONU tem emitido mais resoluções críticas contra Israel que todas as outras nações combinadas. Mas até que os cidadãos acordem de seu sono induzido pelos serviços de relações públicas e fiquem conscientes de que os EUA estão financiando um genocídio, nada mudará. Nas últimas semanas, temos visto evidências cada vez mais fortes de rachaduras no muro dos Estados Unidos e das relações públicas de Israel. Todos aqueles que estão chocados com os crimes cometidos por Israel devem alargar ainda mais esta rachadura.


[*] Robert Fantina–Ativista e jornalista que trabalha em prol da paz e da justiça social, enquanto viveu nos EUA apoiou decisivamente o controle de armas e se opôs à guerra contra o Iraque antes da invasão norte americana e depois que ela aconteceu. Depois das eleições de 2004, mudou-se para o Canadá. Escreveu livros, entre os quais “A deserção e o soldado americano – 1776-2006” além de novelas e mais recentemente o livro “Império: racismo e genocídio – uma história das relações exteriores dos Estados Unidos”, seu último livro.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O verdadeiro “grande feito” de Mahmoud Abbas


2/12/2012, Ali Abunimah, Al-Jazeera
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ali Abunimah
Um dia depois da votação na ONU que admitiu a “Palestina” como estado não-membro, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton elogiou publicamente a Autoridade Palestina (AP) liderada por Mahmoud Abbas, por sua colaboração com o exército israelense ocupante.

Falando num think-tank sionista em Washington, na 6ª-feira, Clinton defendeu a AP, que havia sido criticada pelo ministro israelense de Negócios Exteriores, Avigdor Lieberman. Segundo o jornal Ha’aretz, Clinton disse que “... com muito pouco dinheiro e sem recursos naturais, eles [a Autoridade Palestina] conseguiram muito, construindo uma força de segurança que trabalha junto, todos os dias, com as IDF (Israel Defense Forces [nome oficial do exército de Israel]). Obtiveram vários sucessos empresariais. São nacionalistas – mas amplamente seculares. Israel deve apoiá-los”. [1]

São as mesmíssimas “forças de defesa de Israel” que há apenas alguns dias estavam massacrando famílias palestinas em Gaza e assassinando palestinos na Cisjordânia que se atreveram a protestar contra os crimes de Israel.

E durante e depois do mais recente ataque contra Gaza, o mesmo exército israelense entrou em surto de prender gente na Cisjordânia, e prendeu centenas, por manifestarem sua opinião.

À luz do comentário de Clinton, é hora de perguntar até que ponto a Autoridade Palestina participou daquelas ações de ódio e vingança, resultado da fúria de Israel por ter sido derrotada em Gaza.

Hillary Clinton comenta...
Clinton poderia ter acrescentado que a colaboração diária com a força ocupante não foi o único “feito” notável da Autoridade Palestina de Abbas apoiada pelos EUA. Durante anos, a Autoridade Palestina foi armada e treinada sob supervisão dos EUA para agir como força auxiliar da ocupação israelense, para reprimir todas as várias faces da Resistência palestina; para espancar e reprimir palestinos que manifestassem sua opinião e para prender e perseguir jornalistas que se atrevessem , a criticar a mesma Autoridade Palestina e a mesma ocupação.

O governo da Autoridade Palestina é precisamente o tipo de governo-cliente repressor que os EUA sempre apoiaram em outros países árabes, razão pela qual Clinton recomendou que sua parceira Israel apoie a Autoridade Palestina.

Mahmoud Abbas por Latuff
O currículo da Autoridade Palestina de Abbas, no campo da colaboração com Israel, contra o desejo e os interesses dos palestinos, é longo, vergonhoso e muito bem documentado. Inclui conluio com Israel, EUA e o já deposto governo de Mubarak no Egito, para derrubarem o governo eleito do Hamás depois de 2006; conluio com Israel para enterrar o Relatório Goldstone sobre os crimes de guerra de Israel em Gaza em 2008-2009; súplicas para que Israel não libertasse prisioneiros palestinos, o que daria crédito ao Hamás; e, mais recentemente, a renúncia pública, por Abbas, ao direito de retorno dos palestinos – posição aliás já antiga da Autoridade Palestina, em todas as negociações.

Essas duras realidades devem fazer ver sob outra luz as mal-orientadas celebrações pelo resultado da votação na ONU, a qual, como já expliquei em Al Jazeera é, no melhor dos casos, equivalente a vencer um jogo de futebol internacional; e, no pior, como Joseph Massad explicou no The Guardian, oficializa um status quo de racismo.

Jogar a isca e fisgar o peixe

Apesar disso, muita gente tentou pintar a votação na ONU como grande vitória, reagindo aos céticos com a ideia de que o resultado daria acesso aos palestinos à Corte Criminal de Justiça [orig. International Criminal Court (ICC)], para processar Israel por crimes de guerra. Quem, em sã consciência acreditaria que a Autoridade Palestina de Abbas, que fez tudo o que fez, e que Clinton elogia pela estreita colaboração com o exército ocupante, algum dia processará Israel por algum crime de guerra?

Mas, sim, jogaram a isca e fisgaram o peixe. Imediatamente, apenas um dia depois da votação na ONU, Abbas já jogava água fria em qualquer esperança desse tipo. “Agora, temos o direito de recorrer à ICC, mas não usaremos esse direito agora e só o usaremos no futuro, no caso de agressão israelense” – Abbas disse a jornalistas. Em Gaza ainda há palestinos em luto, e, na Cisjordânia outros palestinos lutam para não perder suas terras, no assalto diário praticado pelos colonos israelenses. Mas o líder aparente dos palestinos ainda não viu qualquer “agressão israelense”.

Estratégia oca

A vacuidade da votação na ONU [2] não poderia ser mais claramente ilustrada, do que no que todos viram acontecer – ou não acontecer – depois dela.

Na 5ª-feira, a Assembleia Geral da ONU aprovou a admissão da “Palestina”, estado inexistente, como estado não membro. Na 6ª-feira, Israel anunciou a intenção de construir mais milhares de casas para mais milhares de colonos israelenses em território do suposto estado não membro e sem direito a voto. Qual será, agora, a resposta internacional, depois da votação na ONU?

Além das condenações rituais rotineiras, haverá, pergunto, alguma ação efetiva, específica, real, inclusive sanções, por iniciativa de qualquer dos 138 países que votaram a favor do pedido da “Palestina”, para fazer parar a nova agressão israelense e para fazer reverter a colonização ilegal que prossegue, ininterrupta, desde 1967, nos territórios ocupados? Infelizmente, é pouco provável que haja. Sinal bem claro de que a votação na ONU não passou de gesto oco e substituto pressuposto de qualquer ação efetiva para pôr fim aos crimes de Israel.

Ajuda a lembrar que já não existe “solução dos dois estados”. Na Palestina histórica continua a haver uma única entidade geopolítica. Não é possível que o mundo admita que Israel continue a entrincheirar-se, com seu estado de apartheid, racista e colonialista, naquela terra.

Os palestinos ainda arrancam alguma esperança, não de gestos cenográficos ocos na ONU, mas do movimento de base de solidariedade, que insiste em denunciar os crimes de Israel e exigir que sejam punidos. Esse movimento, sim, marcou um belo tento essa semana, quando o cantor Stevie Wonder cancelou sua participação em evento previsto para arrecadar fundos para o exército de Israel, e que foi alvo de intensa campanha de protestos. [2]

Ações como essa, de figuras do mundo cultural, indicam que a campanha pelo boicote, desinvestimento e sanções [orig. boycott, divestment and sanctions (BDS)], campanha que reproduz o que foi feito contra e ajudou a derrubar o regime de apartheid da África do Sul, vem ganhando força e legitimidade maiores a cada dia.

É campanha que não depende de negociar pressupostos direitos para criar algum miniestado na Cisjordânia, que já nascerá sitiado por regime repressivo apoiado pelos EUA, mas que visa a restaurar plenamente os direitos de todos os palestinos, estejam onde estiverem.

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Notas de rodapé

[1] 1/12/2012, Há’aretz, Natasha Mozgovaya  em: Clinton calls on Israel to embrace moderate Palestinians, negotiations

[2] Vídeo (em inglês) a seguir: “Inside Story - Palestine: The meaning of a status upgrade”

[3] Há notícia sobre o cancelamento em: 30/11/2012, Huffington Post: Stevie Wonder & Israel Defense Forces: Singer Cancels Concert In Light Of Conflict

segunda-feira, 7 de março de 2011

Roger Waters (Pink Floyd) adere ao boicote cultural a Israel

Fundador da banda Pink Floyd junta-se à campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra Israel e apela aos colegas da indústria da música e a artistas de outras áreas para que adiram também.

ARTIGO | 7 MARÇO, 2011 - 01:39

“Onde os governos se recusam a atuar, as pessoas devem fazê-lo, com os meios pacíficos que tiverem à sua disposição”, diz Waters

O fundador, vocalista e baixista da banda Pink Floyd, cuja música “Another Brick in the Wall Part 2” serviu de hino da juventude negra sul-africana contra o apartheid e, mais tarde, foi também cantada por jovens palestinos contra o muro que Israel construiu nos territórios ocupados, anunciou este domingo a sua adesão ao boicote cultural contra Israel.

Waters apelou aos colegas da indústria da música e a artistas de outras áreas para aderirem à campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra Israel, até que termine a ocupação e a colonização de todas as terras árabes e o muro seja desmantelado; sejam reconhecidos os direitos fundamentais dos cidadãos árabe-palestinos de Israel em plena igualdade; e sejam respeitados, protegidos e promovidos os direitos dos refugiados palestinos de regressar às suas casas e propriedades, como estipulado na resolução 194 da ONU.

Leia na íntegra a carta aberta divulgada pelo músico britânico.

Carta aberta de Roger Waters

Em 1980, uma canção que escrevi, “Another Brick in the Wall Part 2”, foi proibida pelo governo da África do Sul porque estava sendo usada por crianças negras sul-africanas para reivindicar o seu direito a uma educação igual. Esse governo de apartheid impôs um bloqueio cultural, por assim dizer, sobre algumas canções, incluindo a minha.

Vinte e cinco anos mais tarde, em 2005, crianças palestinas que participavam num festival na Cisjordânia usaram a canção para protestar contra o muro do apartheid israelita. Elas cantavam: “Não precisamos da ocupação! Não precisamos do muro racista!” Nessa altura, eu não tinha ainda visto com os meus olhos aquilo sobre o que elas estavam a cantar.

Um ano mais tarde, em 2006, fui contratado para atuar em Telavive.

Palestinos do movimento de boicote acadêmico e cultural a Israel exortaram-me a reconsiderar. Eu já me tinha manifestado contra o muro, mas não tinha a certeza de que um boicote cultural fosse a via certa. Os defensores palestinos de um boicote pediram-me que visitasse o território palestino ocupado para ver o muro com os meus olhos antes de tomar uma decisão. Eu concordei.

Sob a proteção das Nações Unidas, visitei Jerusalém e Belém. Nada podia ter-me preparado para aquilo que vi nesse dia. O muro é um edifício revoltante. Ele é policiado por jovens soldados israelitas que me trataram, observador casual de um outro mundo, com uma agressão cheia de desprezo. Se foi assim comigo, um estrangeiro, imaginem o que deve ser com os palestinos, com os subproletários, com os portadores de autorizações. Soube então que a minha consciência não me permitiria afastar-me desse muro, do destino dos palestinos que conheci, pessoas cujas vidas são esmagadas diariamente de mil e uma maneiras pela ocupação de Israel. Em solidariedade, e de alguma forma por impotência, escrevi no muro, naquele dia: “Não precisamos do controlo das ideias”.

Tomando nesse momento consciência que a minha presença num palco de Telavive iria legitimar involuntariamente a opressão que estava a testemunhar, cancelei o concerto no estádio de futebol de Telavive e mudei-o para Neve Shalom, uma comunidade agrícola dedicada a criar pintainhos e também, admiravelmente, à cooperação entre pessoas de crenças diferentes, onde muçulmanos, cristãos e judeus vivem e trabalham lado a lado em harmonia.

Contra todas as expectativas, ele tornou-se no maior evento musical da curta história de Israel. 60.000 fãs lutaram contra engarrafamentos de trânsito para assistir. Foi extraordinariamente comovente para mim e para a minha banda e, no fim do concerto, fui levado a exortar os jovens que ali estavam agrupados a exigirem ao seu governo que tentasse chegar à paz com os seus vizinhos e que respeitasse os direitos civis dos palestinos que vivem em Israel.

Infelizmente, nos anos que se seguiram, o governo israelita não fez nenhuma tentativa para implementar legislação que garanta aos árabes israelitas direitos civis iguais aos que têm os judeus israelitas, e o muro cresceu, inexoravelmente, anexando cada vez mais da faixa ocidental.

Aprendi nesse dia de 2006 em Belém alguma coisa do que significa viver sob ocupação, encarcerado por trás de um muro. Significa que um agricultor palestino tem de ver oliveiras centenárias ser arrancadas. Significa que um estudante palestino não pode ir para a escola porque o checkpoint está fechado. Significa que uma mulher pode dar à luz num carro, porque o soldado não a deixará passar até ao hospital que está a dez minutos de estrada. Significa que um artista palestino não pode viajar ao estrangeiro para exibir o seu trabalho ou para mostrar um filme num festival internacional.

Para a população de Gaza, fechada numa prisão virtual por trás do muro do bloqueio ilegal de Israel, significa outra série de injustiças. Significa que as crianças vão para a cama com fome, muitas delas mal nutridas cronicamente. Significa que pais e mães, impedidos de trabalhar numa economia dizimada, não têm meios de sustentar as suas famílias. Significa que estudantes universitários com bolsas para estudar no estrangeiro têm de ver uma oportunidade escapar porque não são autorizados a viajar.

Em minha opinião, o controle repugnante e draconiano que Israel exerce sobre os palestinos de Gaza cercados e os palestinos da Cisjordânia ocupada (incluindo Jerusalém oriental), assim como a sua negação dos direitos dos refugiados de regressar às suas casas em Israel, exige que as pessoas com sentido de justiça em todo o mundo apoiem os palestinos na sua resistência civil, não violenta.

Onde os governos se recusam a atuar, as pessoas devem fazê-lo, com os meios pacíficos que tiverem à sua disposição. Para alguns, isto significou juntar-se à Marcha da Liberdade de Gaza; para outros, juntar-se à flotilha humanitária que tentou levar até Gaza a muito necessitada ajuda humanitária.

Para mim, isso significa declarar a minha intenção de me manter solidário, não só com o povo da Palestina, mas também com os muitos milhares de israelitas que discordam das políticas racistas e coloniais dos seus governos, juntando-me à campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra Israel, até que este satisfaça três direitos humanos básicos exigidos na lei internacional.

1. Pondo fim à ocupação e à colonização de todas as terras árabes [ocupadas desde 1967] e desmantelando o muro;

2. Reconhecendo os direitos fundamentais dos cidadãos árabe-palestinos de Israel em plena igualdade; e

3. Respeitando, protegendo e promovendo os direitos dos refugiados palestinos de regressar às suas casas e propriedades como estipulado na resolução 194 da ONU.

A minha convicção nasceu da ideia de que todas as pessoas merecem direitos humanos básicos. A minha posição não é anti-semita. Isto não é um ataque ao povo de Israel. Isto é, no entanto, um apelo aos meus colegas da indústria da música e também a artistas de outras áreas para que se juntem ao boicote cultural.

Os artistas tiveram razão de recusar-se a atuar na estação de Sun City na África do Sul até que o apartheid caísse e que brancos e negros gozassem dos mesmos direitos. E nós temos razão de recusar actuar em Israel até que venha o dia – e esse dia virá seguramente – em que o muro da ocupação caia e os palestinos vivam ao lado dos israelitas em paz, liberdade, justiça e dignidade, que todos eles merecem.

Tradução do Comitê Palestina
Extraído do sítio Esquerda.net