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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Teerã tenta injetar alguma racionalidade no “ocidente”


1/12/2011, *M K Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Na 2ª-feira, o poderoso Conselho de Guardiães do Irã endossou a decisão do Parlamento (Majlis), aprovada na véspera, de rebaixar [orig. downgrade] as relações com a Grã-Bretanha. A velocidade com que o processo evoluiu e cresceu diz claramente que essa é decisão tomada nos níveis mais altos da liderança iraniana.

Esse fato e o apoio decidido e entusiasmado que o movimento encontrou no Majlis indicam também que o lócus do poder no Irã está caminhando na direção de linha cada vez mais dura.

O movimento inclui expulsar o embaixador britânico de Teerã e rebaixar a representação para nível de “charge d'affaires”. Na 3ª-feira à tarde, dúzias de manifestantes iranianos invadiram o complexo britânico em Teerã, rasgaram a bandeira e lançaram documentos pelas janelas.

Os manifestantes gritavam três slogans principais: “Abaixo a Grã-Bretanha”, “Abaixo os EUA” e “Abaixo Israel” [orig. Down with Britain, Down with America e Down with Israel]. Exibiam fotografias do cientista iraniano e do Comandante do Corpo de Guardas Islâmicos Revolucionários major-general Qassem Soleimani. Na 3ª-feira completou-se um ano do assassinato de Shahriari – que se acredita que tenha sido assassinado pelo Mossad israelense, com apoio do Serviço Secreto Britânico, MI6.

Resposta assimétrica 

O ponto de virada deve ter sido as providências, em Londres, para remover o grupo Mojahedin-e Khalq (MKO) da lista de organizações terroristas. O MKO foi autor de alguns dos mais devastadores ataques terroristas da história da República Islâmica do Irã. Teerã considera o MKO responsável por mais de 17 mil mortes, ao longo dos anos. Os mais ‘afamados’ dos ataques atribuídos ao grupo foram, como se sabe, o assassinato do Aiatolá Muhammad Behesti (que ocupa o segundo lugar, só inferior ao do Imã Ruhollah Khomeini, no panteón dos líderes revolucionários) em junho de 1980, e do presidente eleito, extremamente popular, Muhammad Rajayi, em agosto do mesmo ano. Um segundo ataque terrorista por pouco não matou todos os líderes revolucionários abaixo de Khomeini. 

Uma das ironias mais estranhas da história moderna é que a inteligência ocidental dependa hoje dos terroristas do MKO – que praticam um mix ideológico de marxismo, nacionalismo e islamismo –, como principal instrumento com que contam para desestabilizar e subverter o regime islâmico no Irã. 

O pessoal da segurança iraniana e o Hezbollah libanês, em gigantesca operação de contrainteligência em Beirute, desmontaram toda a rede de inteligência da CIA-EUA no Líbano e no Irã. 

Aparentemente, a CIA estaria usando o Líbano como “ponte” para entrar no Irã, dada a relativa liberdade de movimento entre os dois países. Nos meses de maio e junho, as forças de segurança do Irã prenderam mais de três dúzias de iranianos que trabalhavam para a CIA. [1] As investigações, ao longo dessa operação, revelaram que recentes operações clandestinas contra o Irã estavam sendo conduzidas, como operação conjunta, por CIA, Mossad e o grupo MKO.

Nesse contexto, o movimento dos britânicos para reabilitar os terroristas do MKO (cujos líderes têm base em Bruxelas e viajam livremente entre as capitais europeias) enfureceu Teerã ao ponto, pode-se dizer, máximo. Parece ser a verdadeira causa da atual crise. Teerã recorre a resposta “assimétrica” e ataca o símbolo do poder britânico, porque não tem meios para responder na mesma moeda a ofensa que lhe fizeram os britânicos.

Os laços entre Irã e Grã-Bretanha estão em processo de congelamento. Sempre foi relacionamento extremamente conturbado, em termos históricos, e alcançou ponto máximo de combustão, na história recente, no golpe que derrubou o governo de Mohammed Mossadeq no Irã, em 1952 – que muitos atribuem à CIA, mas, de fato, foi obra dos ingleses do MI6. O Irã jamais esqueceu. O Irã sabe, melhor que muitos países, que a Grã-Bretanha continua a ser o ‘cérebro’ por trás das políticas dos EUA – seja no Iraque, no Afeganistão, na Síria ou em Myanmar.

Os britânicos com certeza levarão sua queixa contra o Irã aos conselhos europeus e buscaram algum consenso “regional” no mundo ocidental, para que os movimentos diplomáticos contra o Irã sejam feito em uníssono. O mais provável é que, dado o tom da indignação em Londres, países como a Alemanha, que têm grandes interesses no Irã, alinhem-se com os “ofendidos”. Simultaneamente, será boa ocasião para tomar o pulso da unidade europeia, com vistas às próximas “intervenções” na situação do Irã, nos próximos meses. 

Pode-se dizer que essa questão será uma espécie de ‘test drive’ para o Oriente Médio. As linhas estão sendo traçadas, e a noite das longas facas [2] está começando. Todos entendem. E, para os regimes autocráticos do Golfo Persa, não há esquina onde se esconder. A apressada visita do rei Abdullah da Jordânia a Israel mostra o pânico, ante a tempestade que cresce no horizonte. Os esforços inauditos da Arábia Saudita para dividir a região entre sunitas e xiitas, por linhas sectárias, deram em nada.

A rua árabe de modo algum aceita que o ocidente ataque o Irã. Isso é o que mais preocupa Abdullah. E se a indignação das massas irromper na Jordânia? 

Não há qualquer dúvida de que EUA e Israel trabalharão dia e noite nas capitais europeias, tentando obter que o ocidente rebaixe os laços com o Irã; se conseguirem, imediatamente se porão a bater os tambores do “isolamento do Irã na comunidade internacional”. O mais provável é que nada consigam, além de mais propaganda. Evidentemente, Teerã já contabilizou a agitação diplomática que virá por retaliar contra britânicos, e decidiu que, mesmo assim, manterá o processo de rebaixar os laços. 

O quê, então, passa hoje pelas cabeças iranianas? Podem-se extrair algumas conclusões importantes.

Em primeiro lugar, Teerã dá por comprovado que o eixo EUA/Grã-Bretanha/Israel está girando na direção do confronto. Já nem a ambiguidade estratégica – “todas as opções estão sobre a mesa” – existe hoje, depois do discurso político muito beligerante do Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA Tom Donilon na Brookings Institution, em Washington, semana passada. 

Evidentemente, Donilon fala pelo presidente Barack Obama, que sabe o quanto é crítica a situação, cada dia mais supercarregada, no Oriente Médio:

Ampliamos a presença significativa e forte dos EUA na região. Além disso, trabalhamos para desenvolver uma rede de mísseis de defesa aérea, comunicação partilhada de alertas, melhoramos a segurança marítima, estreitamos os contatos de cooperação antiterrorismo, expandimos os programas para aumentar capacidade parceira, e aumentamos esforços para proteger a infraestrutura crítica de nossos parceiros. 

Esses passos mostram claramente a Teerã que será fútil qualquer tentativa para dominar a região. E mostram que os EUA estão preparados para qualquer contingência. (...) O presidente Obama disse recentemente, semana passada, que todas as opções estão sobre a mesa, não excluímos nenhuma, na busca de nossos objetivos básicos. [3]

Em segundo lugar, Teerã dá por certo que o confronto pode acontecer ainda durante o primeiro mandato de Obama – porque um ataque ao Irã pode garantir a eleição de Obama para um segundo mandato. O modo como o governo Obama inflou a tensão com o Irã, praticamente ao mesmo ritmo e a partir do primeiro instante da campanha presidencial, é detalhe que não escapou aos analistas iranianos.

Em terceiro lugar, não restam alternativas ao Irã, além de dobrar as apostas, porque, hoje, já não se trata, sequer, de o Irã “flexibilizar” ou não a questão nuclear; ou de ser ou não ser “conciliador” na questão israelense; ou de ser ou não “moderando” na questão palestina e nos conflitos do mundo árabe. Trata-se de pura realpolitik e ostentação de poder. 

Situação similar configurou-se em 1980, quando pouco importava a Teerã o que EUA e Grã-Bretanha pensassem sobre sua revolução. Acontece contexto semelhante, hoje: Teerã entende que, em todos os casos, sua situação sempre será melhor sem os britânicos, do que com eles por ali. A consciência histórica iraniana ainda vê a Grã-Bretanha Imperial como serpente venenosa que, vez ou outra, salta de lá, dos confins da Índia, para tentar devorar o sumarento fruto persa. 

Memória coletiva 

O animus contra a Grã-Bretanha aparece claramente na declaração lançada pelos estudantes que invadiram a embaixada:

“A embaixada das velhas raposas já deveria ter sido ocupada há 33 anos! Todos os iranianos de mente aberta, cujo coração bata pela própria terra e conheçam os crimes que o velho colonialismo britânico cometeu contra o Irã e os iranianos sabem que a ocupação da embaixada das velhas raposas atende aos interesses do Irã, aos nossos interesses nacionais”. [4]

Declarações recentes de comandantes militares do Irã já alertaram que o Irã tem capacidades conhecidas (e desconhecidas) para retaliar, se o país for atacado. Com o alerta explícito, os iranianos tentam injetar um pouco de racionalidade nos discursos de EUA e Grã-Bretanha os quais, de fato, já beiram o total delírio, no que dizem das políticas e decisões dos iranianos. Mas Teerã sente que, doravante, de pouco servirá tentar influenciar o movimento das engrenagens internas que arrastam as decisões do governo Obama. 

Na avaliação dos iranianos, o que está acontecendo é que Obama absolutamente não tem interesse algum em ouvir a narrativa iraniana. Obama está sendo arrastado, agora, exclusivamente, pela obsessão de reeleger-se em 2012. Os interesses da campanha para a reeleição obrigam o presidente a distanciar-se, no discurso político, dos sucessivos fracassos de seu governo no plano econômico. Uma “mudança de regime” na Síria, e qualquer passo que Obama consiga apresentar à opinião pública como ataque contra o Hezbollah, são exatamente o que mais interessam a Obama, para reaquecer sua imagem de “líder que lidera a partir da retaguarda”. 

Com espantoso grau de firmeza, Donilon prosseguiu, no discurso na Brookings:

“O fim do regime de [Bashar al-] Assad [na Síria] será a maior derrota para o Irã na região, golpe estratégico que desequilibrará o poder na região, contra o Irã. Teerã terá perdido o seu principal e mais próximo aliado na região”. [3]

A verdade é que, quanto mais considera o contexto regional, mais cresce o fervor “revolucionário” em Teerã. Teerã associou a beligerância de Donilon ao deslocamento do porta-aviões nuclear USS George H W Bush para a Síria. A 6ª Frota dos EUA também patrulha o Mediterrâneo ocidental ao largo da Síria. EUA e Turquia instruíram seus cidadãos a deixar a Síria.

Mais uma vez, o vice-presidente dos EUA Joseph Biden chegou de surpresa ao Iraque, a caminho da Turquia, para manifestar o apoio de EUA ao ataque intervencionista da Turquia contra a Síria. Na 3ª-feira passada, pela primeira vez, o ministro de Relações Exteriores da Turquia Ahmed Davutoglu sinalizou, embora indiretamente, que seu país estaria pronto para invadir a Síria. (...) [5]

O dilema que a Turquia e seus aliados ocidentais enfrentam é que a grande maioria do exército sírio permanece fiel ao regime. A folha de parreira de sempre – uma suposta “resistência” síria – não está acessível, dessa vez. E, sem a folha de parreira, todas as vergonhas de a Turquia e aliados invadirem a Síria ficariam expostas. Turquia e seus aliados ocidentais contam com mercenários líbios, já deslocados para a Síria, para superar esse entrave operacional. 

Em resumo, o que se pode ler escrito nas estrelas é que, sim, um ataque ocidental liderado pela Turquia, contra a Síria, está tomando forma. A França já requereu abertamente que se crie um “corredor humanitário” apoiado pela União Europeia, que permita que a inteligência ocidental e conselheiros militares avancem pela Turquia até a Síria, para coordenar a “mudança de regime”. Na reunião dos ministros de Relações Exteriores da União Europeia, em Bruxelas, na 3ª-feira, a Turquia foi convidada especial. 

Tudo considerado, já não há dúvidas em Teerã de que é hora de a nação passar a operar em modo revolucionário. A intrusão na Embaixada Britânica fez despertar símbolos arquetípicos de audácia e resistência, sempre presentes, mesmo que adormecidos, na consciência revolucionária dos iranianos – especialmente quando se mobiliza a memória coletiva que envolve os britânicos. É a última linha de defesa do Irã – como foi na crise dos reféns com os EUA, nos meses imediatamente depois da revolução islâmica, quando o Irã esteve sob sítio. 

É bem claramente visível que Obama, dado a meter-se em jogadas políticas de altas apostas – e que até agora mais ganhou que perdeu, como se vê em sua meteórica carreira política – está pisando agora em gelo fino e escorregadio. A Síria não está fácil de descascar; a poucos passos, o Hezbollah espera; como o Hamás. Pode-se dizer que as apostas, hoje, são 50-50: é possível que não aconteça o que Donilon tentou fazer-crer que acontecerá ‘com certeza’, mesmo que não haja exato replay do resultado que horrorizou Jimmy Carter. Na 3ª-feira à tarde, a situação entre EUA e Irã aproximou-se do ponto de combustão espontânea. 




Notas dos tradutores
[1] Sobre isso, ver “Inteligência iraniana impõe dura derrota à CIA-EUA”, 30/11/2011, Asia Times Online e, em português. 
[2] A Noite das Facas Longas (al. Nacht der langen Messer) ou Noite dos Longos Punhais foi um expurgo que aconteceu na Alemanha Nazista na noite do dia 30/6-1/7/1934, quando a direção do Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores (o Partido Nazista) decidiu executar dezenas de seus membros políticos, sendo a maioria da Sturmabteilung (SA), uma organização paramilitar do partido. 
[3] Encontra-se transcrição, edição não corrigida do que disse Donilon, em inglês.  
[4] 2/12/2011, “Occupy Embassy”, FarsNews, Teerã, em ingles.  
[5] Sobre isso, ver 30/11/2011, MK Bhadrakumar, “Turquia pronta para invadir a Síria
 
*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

domingo, 4 de setembro de 2011

Contraterrorismo?

Conor Gearty, “Short Cuts”, London Review of Books, vol. 33, n. 17 (8/9/2011), p. 20
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

A terceira versão da Estratégia de Contraterrorismo do Reino Unido (CONT-EST, Home Office, em inglês), vale-se de iniciativas anteriores dos Trabalhistas – metade, pseudo análises das atuais capacidades da al-Qaeda; metade, conversa fiada de corretor de seguros –, mas “reflete mudanças na ameaça terrorista” e “incorpora novas políticas do governo”. Também fala do “compromisso do governo com a transparência” – embora devesse falar, mais precisamente, em compromisso com a propaganda.

Por trás de muita aclamação de “valores britânicos fundamentais” e de ameaças a “nossos interesses no além-mar”, o que se vê é o discurso neocolonial de toda a empreitada, como se alguém tivesse desenterrado algum escrito de Joseph Chamberlain e, em vez de falar de “missão civilizatória” e “pacificação dos aborígenes”, metesse lá “direitos humanos” e “império da lei”.

Fica-se sabendo que, em 2009 “houve cerca de 11 mil ataques terroristas em todo o mundo, causando cerca de 15 mil mortes”, ataques acontecidos “sobretudo no Paquistão, Afeganistão e Iraque”. Nem uma palavra sobre por que esses locais seriam mais perigosos que outros quaisquer: são meros “estados falidos ou frágeis” que “oferecem ambiente favorável ao terrorismo”. À guisa de análise, o que lá se lê é: “As dificuldades nas quais os propagandistas podem basear-se podem ser reais ou fruto de impressão superficial, embora, claro, nenhuma delas justifique o terrorismo”. 2010 não foi melhor, com 13 mil mortos em “mais de 11.500 ataques terroristas (...) a maioria dos quais ainda obra da al-Qaida e grupos terroristas associados” em alguns locais – agora também na Somália.

Lembro-me de entrevista que fiz com Paul Bremer quando ainda era enviado especial  do presidente Reagan para assuntos de contraterrorismo (sic), bem antes de comprometer-se com a infâmia e servir como primeiro governador do Iraque ocupado. Atrás dele, na parede, um grande gráfico mostrava o inexorável crescimento do número de ações terroristas em todo o mundo, com várias setas coloridas, a maior das quais, correspondente ao ano anterior, depois de uma sequência de setas menores, em declínio. Perguntei-lhe sobre a anomalia. “Não é nada. Nesse ponto (fim do período de declínio no número de ataques), nós redefinimos o conceito de terrorismo”.

A maior parte dos dados considerados para elaborar o documento recém lançado pelo Home Office britânico vêm de fontes com nomes como Combating Terrorism Center de West Point ou National Counterterrorism Center – agência governamental criada por George W. Bush em 2004, com a finalidade de “integrar todos os instrumentos da força nacional, para assegurar unidade de esforço”. O documento CONT-EST vem com muitos elaborados infográficos em que se assinalam “ataques terroristas”, “áreas de estresse global” e países de origem dos agora 47 grupos “terroristas” banidos do Reino Unido. (Lembro de quando nem o IRA foi banido, tão seriamente se respeitava, no Reino Unido, a liberdade de associação.) A Al-Qaeda aparece em várias siglas, por causa de suas muitas bases de operações: AQ-AP (na Península Arábica), AQ-M (no Maghreb), AQ-I (no Iraque), AQ-KB (áreas curdas) e assim por diante. Atraentes boxes destacam pérolas como “Pressupostos para o planejamento 2011-15 no Reino Unido: geograficamente, países vitais para nosso trabalho de contraterrorismo continuam a ser o Afeganistão e o Paquistão, o Iêmen, a Somália e a Nigéria”.

Em que pé estaria a Grã-Bretanha, não fosse o terrorismo internacional? Perdeu um império e, sem mais nem menos, já encontrou outro, um “império do mal” cheio de aborígenes a serem subjugados.

Há também uma quinta coluna, uma guerra a ser travada em casa mesmo, contra aborígenes que invadiram o quartel-general imperial. Tories e liberais democratas fizeram muito barulho sobre a erosão das liberdades civis quando estavam na oposição e o menor partido da coalizão precisava de vitórias também por aqui. Mas, em vez dos controles dos neotrabalhistas, temos agora “Medidas de Prevenção e Investigação do Terrorismo” [ing. Terrorism Prevention and Investigation Measures (TPIMs) – ordens de controle, sob marca de fantasia. Limite máximo de 28 dias de detenção sem acusação deve desaparecer – senão em “circunstâncias excepcionais”. Poder policial para deter e revistar será abolido – e substituído por algo que CONT-EST diz que será “poder mais cerrado e definido”, mas que não define.

Serão investigadas as denúncias de colusão em torturas praticadas por autoridades britânicas, mas a promessa é tão vaga e tudo foi tão atentamente descaracterizado, que os grupos que pressionaram a favor dessas investigações preferiram declarar que nada têm a ver com a coisa. E o governo continua a não admitir, nos tribunais, provas interceptadas que, se aceitas nos tribunais, necessariamente levariam os “contraterroristas” a julgamento, em processo criminal.

O sem-cerimônia com que as ansiedades dos liberais democratas relacionadas à perda de liberdades civis foram superadas e convertidas em discussões-beco-sem-saída sobre câmeras de vigilância e arapongagem geral oficial, chamou a atenção até dos que já nada esperam, em termos de coragem, da personalidade política dos liberais democratas.

A estratégia de contraterrorismo do Reino Unido está dividia em quatro “linhas de trabalho”: “Procurar”, “Preparar”, “Proteger” e “Prevenir”, a última das quais – que autoriza a “impedir que pessoas abracem o terrorismo ou apóiem o terrorismo” –, de tão importante, mereceu edição à parte, em publicação oficial. O livreto Prevent (HMSO, £28.50) visa diretamente todos os que falem para disseminar “a ideologia associada à al-Qaeda” e participem de “grupos extremistas” que contribuem para “radicalizar processos pelos quais as pessoas em geral venham a apoiar e, em alguns casos, mesmo, a participar do terrorismo”. (Não interessa que estudo encomendado pelo Departamento de Comunidades e Governos Locais do Reino Unido já tenha declarado que “não se observou nenhum caso de alguém que tenha passado, de militância pacífica, para militância em grupos de ação violenta”.)

Os Trabalhistas são criticados, por terem trabalhado com grupos muçulmanos: em discurso numa reunião sobre segurança, de líderes europeus, em Munich, em fevereiro, Cameron reclamou que “organizações que se apresentam como ponte de contato com a comunidade muçulmana” receberam “abundante dinheiro público”. Adiante, disse que “temos tomado muito cuidado, francamente, francamente, posso dizer que temos até medo, de favorecer “posições ou práticas inaceitáveis” que “nos cheguem por alguém que não seja branco” [1].

O problema, então, como o governo vê as coisas, é muito mais amplo que o terrorismo. A coisa pega, mesmo, é com quem não partilha “nossos valores”. “Prevenir” dedica-se a “ideias extremistas esposadas por organizações aparentemente não violentas que muitas vezes têm existência legal e autorizada” e – outra vez – a “grupos e oradores que deliberadamente e atentamente não transgridem a lei”.

O documento que o Home Office britânico acaba de publicar deve ser das primeiras publicações oficiais de todos os tempos, em que obedecer a lei soa como se fosse um novo tipo de crime.

Querem que acreditemos que grupos extremistas só “parecem não violentos”, porque usam o truque subversivo de não usar meios violentos e de nunca aprovar ou endossar que outros usem meios violentos.

Agora, todos estamos avisados: “grupos extremistas” que “deliberadamente e atentamente não transgridem a lei” e “decididamente não apóiam a violência”... são todos “simpatizantes dos terroristas” e, pois, nossos piores inimigos. Que todos fujamos de qualquer grupo suspeito de “respeitar a lei”, na Grã-Bretanha. Acho que bem faríamos se, todos, fugíssemos também da lei.



Nota dos tradutores
[1] 28/3/2011, sobre discurso de Cameron dia 3/2/2011. New York Times, em: British Shift on Muslims Is Ominous