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quinta-feira, 10 de maio de 2012

França e Grécia: duas eleições e nada resolvido


8/5/2012, John Brown, Blog Iohannes Maurus - Juan Domingo Sánchez
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Juan Domingo Sanchez
(John Brown)

Dia 8 de maio aconteceram consultas eleitorais em dois países europeus, um dos grandes e fortes e outro, menor e marginal na partilha do poder no continente. No país grande, ouviram-se outra vez as solenes tolices da política representativa, com dois candidatos, um mais ridículo que o outro, falando em nome “dos franceses” e sem pejo de dizerem coisas como “os franceses querem”, “os franceses opinam” etc..

O país hexagonal é um dos antigos centros de poder na Europa. A crise campeia, mas, no momento, ainda não se vê ali o desastre social que já desgraça os países da Europa do Sul e, sobretudo, o menor e mais marginal deles, a Grécia. Por isso, ali é ainda possível brincar de democracia representativa, um jogo de espelhos entre a direita e a esquerda, no qual os diferentes componentes do poder do capital declaram dar maior importância ou ao Estado ou ao Mercado, ou à igualdade ou à liberdade para empreender.

Tudo dentro de uma esplêndida continuidade entre os dois polos de um sistema que, de modo algum é questionado nessas categorias que, afinal, são as categorias do próprio sistema. Quem suponha que algum sistema capitalista se autointerditará e reforçará o estado, ou que aumentará a igualdade jurídica entre os cidadãos ignora que o mercado geral, típico do capitalismo, é fruto da atividade do estado; e que a igualdade entre os contratantes é a condição básica para que haja mercados. Como Michel Foucault e Chomsky recordaram naquele debate memorável na televisão holandesa, em 1971 [1], “não se pode combater um regime a partir de seus próprios conceitos e valores”. Por isso, a esquerda representativa só representará, no melhor dos casos, uma classe operária que é parte do tecido do capitalismo, de seu específico modo de distribuir a riqueza. O papel dessa classe operária na luta de classes é pura mistificação; existe para ocultar os antagonismos que há por trás dos valores específicos do sistema capitalista, apresentados como valores “democráticos” ou “valores da República”, sempre com a voz enrouquecida de tanto proclamar mentiras.

No poderoso país hexagonal, o vencedor nas eleições presidenciais venceu por pequena margem; um dirigente do Partido Socialista que se apresentou com programa de crítica moderada às políticas de austeridade, anunciando sua disposição para mudar o pacto europeu de estabilidade. Em lugar da austeridade propõe “crescimento”. Hollande, provavelmente, logo dará marcha a ré nas promessas e voltará ao “realismo” responsável, aceitará a austeridade e os cortes, talvez em nome do crescimento. Na França ainda há espaço para mentir com algum êxito e, também, para cortar gastos públicos e salários.

Enquanto houver essa margem, prosseguirá o teatro cômico-macabro dos candidatos de direita e esquerda, com seus próceres “populistas” de direita e de esquerda, que metem, entre o estado e o mercado, um terceiro personagem da farsa: o povo.

Esse povo que irrompe como se fosse “o outro” em relação ao mercado, no discurso de esquerda de Mélenchon; ou como se fosse “o outro” em relação ao estado, no populismo semifascista da filha de Le Pen. Como se o povo não fosse a unificação, pelo estado e no estado, dos agentes dispersos do mercado.

Os populismos tampouco são qualquer tipo de saída para fora do labirinto de espelhos que é a política representativa, na qual, simplesmente, não há espaço “fora”, nenhum “além” da representação, que não seja a mera criminalidade “terrorista”; e, mesmo essa, é um “externo” mistificado, um falso exterior, absoluta e completamente desenhado pelo poder e a partir do poder.

É impossível qualquer “representação” da luta de classes. A luta de classes é irrepresentável. Só se podem representar os espelhos que reproduzem, ao infinito, a falsa oposição entre estado e mercado, entre povo da esquerda e povo guardião das essências nacionais.

Como na última cena do filme “A dama de Shangai” [dir. Orson Welles, 1946-7], os protagonistas disparam contra as próprias imagens, que veem num labirinto de espelhos, e cada um que dispara contra a própria imagem acaba por matar outro. O capitalismo modificado pelo liberalismo e convertido em liberal, derrota o capitalismo modificado pelo socialismo e convertido em socialista; ou vice-versa. Enquanto isso, se agita o coringa fascista, previamente alimentado com uma estudada xenofobia de estado, para que as opções majoritárias respeitáveis e nada “populistas” possam apresentar as políticas mais brutais como se fossem “um mal menor”... se comparadas ao que viria, se os fascistas vencessem. A existência de um bloco fascista permite aos partidos do regime serem, eles mesmos, fascistas... e acusar a extrema direita de fascismo. É o golpe do policial bonzinho/policial durão.

Também na Grécia houve eleições essa semana, mas com resultados e desenvolvimentos muito diferentes do que se viu na França.

A imprensa-empresa oficialista europeia apresentou os resultados das eleições gregas como se tivesse havido grande avanço da esquerda “radical” e retrocesso dos protagonistas do bipartidarismo helênico, os socialistas do PASOK e a direita do Nea Dimokratia.

De fato, o que aconteceu na Grécia foi muito mais grave: ali se viu que, a partir de um certo nível de representação, a própria representação democrática do capitalismo neoliberal torna-se impossível.

Os dois grandes partidos que defendem a austeridade e o pagamento da dívida, PASOK e Nea Dimokratia têm menos de 33% dos votos parlamentares: todas as demais forças representadas no Parlamento grego são, por sua vez, radicalmente hostis a essa política que está arruinando o país e empobrecendo as classes populares e as camadas médias.

Nada disso impediu o regime de fazer todo o possível para que não houvesse meio pelo qual os cidadãos gregos expressassem o próprio descontentamento: não houve qualquer consulta à população, por referendo, sobre as medidas de austeridade (Papandreu pagou com o próprio cargo, a simples sugestão); e, para impedir a manifestação eleitoral de posições minoritárias, elevou-se de 3% para 5% a porcentagem mínima de votos necessários para eleger deputados. Com isso, ficaram sem qualquer representação cerca de 19% dos eleitores – porcentagem maior de votos, que os votos dados ao partido mais votado, o Nea Dimokratia.

E não foi só: o número de cadeiras no Parlamento para o partido mais votado foi aumentado pouco antes das eleições, criando-se um ‘prêmio’ de mais 50; por isso, o partido Nea Dimokratia, que obteve dos eleitores 18,9% dos votos (só 2% mais que os votos da coalizão Syriza, de esquerda, que teve 16,8%), terá, graças ao generoso “presentão”, 108 deputados; contra apenas 52 da coalizão Syriza. A combinação do mínimo exigido de votos e o “prêmio” ao partido majoritário desfiguram portanto grotescamente a correlação de forças políticas representadas no Parlamento.

Esse autêntico golpe-de-mão legal, inventado para assegurar a “governabilidade”, chegou muito perto de dar certo e permitir um governo de “salvação nacional” formado só pelos partidos Nea Dimokratia e PASOK, dois partidos minoritários que defendem a política de austeridade e contra os quais os eleitores manifestaram-se em alto e bom som. Os resultados finais não permitiram essa solução, porque nem com a fraude legal eleitoral os partidos do Μνημονίο [/minmonío/, “memorando”] pró políticas de austeridade imposto à Grécia pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI – conseguiram chegar à maioria absoluta.

A austeridade, pois, tornou-se ingovernável, sob os parâmetros da democracia grega. E essa é a grande diferença que há entre Grécia e França.

Na Grécia, será praticamente impossível formar algum governo a partir dos resultados que saíram das urnas, porque, embora Syriza tenha alcançado excelente resultado, nem assim terá apoio suficiente. O Partido Comunista Grego, que já se recusou a formar listas eleitorais unificadas com os “socialdemocratas” da coalizão Syriza, porque os considera “europeístas”, tampouco aceitará qualquer outro tipo de coalizão pós-eleições.

Por sua vez, uma direita caricaturesca mas terrível, Χρυσή Αυγή [/crisí augí/, “Aurora Dourada”] já apresentou ao Parlamento projeto de uma política de denúncia das políticas para os migrantes; e de denúncia, também, da “Junta” (palavra hispânica, que se usa, na Grécia, para falar da ditadura dos “coronéis do memorando”). No atual momento, a função dessa formação é semelhante à de Marine Le Pen na França e de outras extremas-direitas: permitir a radicalização neoliberal e xenófoba dos partidos majoritários que modo que passem a apresentar o fascismo como “mal maior”, embora as milícias da extrema direita já estejam nas ruas, em combate contra os imigrados e futuros imigrados...

Na Grécia, as eleições previstas para garantir legitimidade para a dominação do capital financeiro, com implantação de medidas de austeridade e pagamento da dívida, não chegaram a bom termo e não deram o que deveriam ter dado. A austeridade e a dívida tampouco são representáveis, como também não há representação possível para a resistência da multidão em luta contra essas políticas. Os espelhos partiram-se definitivamente, embora ainda seja possível fazer algumas caretas contra esse grande coringa, de mil e uma utilidades, que é a extrema direita.

Nos próximos dias, tudo pode acontecer. Se não há maioria que apóie o plano de salvamento e as medidas de austeridade que o plano carrega, pode acontecer de todos os pagamentos das dívidas gregas serem suspensos; e podem-se suspender também os empréstimos que FMI e financeiras europeias devem fazer à Grécia. É possível também que o país tenha de sair da zona do euro, o que terá repercussões sobre os demais países fracos (Portugal, Espanha, Itália, Irlanda, etc.) e sobre toda a Eurozona.

A Grécia está hoje em situação que faz lembrar a da Alemanha nos anos 30s. As causas são semelhantes: a Alemanha de Weimar foi arruinada pelo pagamento de brutal dívida de guerra imposta pelos que venceram a Ia. Guerra Mundial. Na comissão de reparações de guerra, Keynes havia advertido sobre as consequências desastrosas que adviriam daquela política.

Ante a impossibilidade de uma revolução (impossível, dentre outras coisas, por causa da profunda divisão das esquerdas e por causa do sectarismo do Partido Comunista Alemão), um cabo baixote, feio, ressentido e dado a gritarias, ridículo como os dirigentes do partido Crisí Augí, tomou o poder. O resto da história todos conhecem.

Nesse momento, só uma potente reação em escala europeia contra as políticas de austeridade pode evitar que a barbárie volte ao continente. A Europa terá de ser verdadeiro espaço de cooperação produtiva para a multidão, espaço de democracia e de liberdade, não mera agência de cobrança da odiosa dívida financeira gerida por uma oligarquia dedicada a fazer a gestão racista da imigração. Nem todos se podem permitir o luxo do gran guiñol “republicano” que a França está vivendo; em breve, de fato, já não será possível nem na França.

A Grécia aí está, a mostrar que a prática de usar a dívida para a dominação social não é coisa para a qual haja representação democrática. Para preservar a democracia, é urgente acabar com uma política econômica que, a cada dia, menos consegue esconder o que há nela de plena dominação política.

Mas preservar a democracia e por fim à política econômica para dominar não podem, por sua vez, ser feitos sob o marco dos estados nacionais: a nostalgia soberanista que foi representada no fascismo, e, em certa medida, também nos “populismos”, é hoje uma armadilha.

Problemas que há muito tempo já não são problemas nacionais só poderão ser resolvidos em escala europeia. Se nos fechamos, cada um em seu estado, encontraremos pela frente a violência capitalista cada vez mais brutal, e seremos cada vez mais incapazes de derrotá-la. Outra construção europeia é necessária e urgente. 

O 12M, 12 de Maio de 2012, será, por tudo isso, muito mais decisivo que as eleições de 6 de maio passado.




Nota dos tradutores
[1] O debate (texto em inglês) aconteceu em novembro de 1971, na Escola Superior de Tecnologia de Eindhoven (Holanda). Excerto, em português.  

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Autobiografia de John Brown (João Mouro)


in Tlaxcala, Biografia de John Brown (en español)
Traduzida pelo Coletivo da Vila Vudu

John Brown


Ler também:
John Brown (João Mouro), 11/2/2012,



Vivemos no mundo dos ciclopes, que Homero descreve assim:

“Não têm ágoras onde se reúnam para deliberar, nem leis. Vivem nos picos dos altos montes, em cavernas fundas; cada um impera sobre os próprios filhos e mulheres, e não se intrometem uns com os outros”.

Não há mais bela definição da ordem neoliberal que essa ausência de leis e de espaço público unida à tirania que rege a esfera privada. Nessa ordem de coisas, Ulisses diz ao cíclope Polifeno, que seu nome é “ninguém”, oudeis:

“Meu nome é ninguém; minha mãe, meu pai, meus companheiros me chamam assim, “Ninguém”.

João Ninguém, John Brown, João Mouro, Iohannes Maurus, Oudeis, compartem uma mesma identidade para escapar ao destino anunciado na frase de Wittgenstein: “Do que não se pode falar, melhor calar”.

[assina] John Brown, João Mouro

P.S. John Brown, João Mouro, é autor de La dominación liberal. Ensayo sobre el liberalismo como dispositivo de poder [A dominação neoliberal. Ensaio sobre o liberalismo como dispositivo de poder], Madrid: Ediciones Tierra de Nadie, 2009. (Sobre o livro, ver Rebelión: “Un ensayo sobre el liberalismo como dispositivo de poder)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Baltasar Garzón e a armadilha da Transição espanhola


10/2/2012, John Brown, Blog Iohannes Maurus
Traduzidopelo pessoal da Vila Vudu

Je suis la plaie et le couteau! (Sou a ferida e o punhal!)
Je suis le soufflet et la joue! (Sou o tapa e a cara!)
Je suis les membres et la roue, (Sou pernas e braços, e a roda de tortura)
Et la victime et le bourreau ! (E a vítima e o carrasco!)
Charles Baudelaire, L’héautontimorouménos (O carrasco de si mesmo)

Pode-se dizer hoje, passados já os mais de trinta anos que nos separam dela, que a Transição [orig. Transición] espanhola foi uma armadilha para as maiorias sociais e para as forças que quiseram substituir o regime franquista por uma democracia efetiva. Armadilha é dispositivo no qual é fácil entrar, mas é difícil, mesmo, impossível, sair. O gatilho em que pousam os pássaros atraídos pela comida, ou a ratoeira que se fecha sobre o rato que acorre ao cheiro do queijo, são exemplos conhecidos de armadilhas, mas, talvez, a melhor armadilha, a mais sutil, mais leve, quase imaterial, é a rede de pesca. 

Quando os peixes entram na rede, ela os acolhe sem violência: só quando tentam livrar-se é que acabam bem presos nas malhas, sem poder movimentar-se. Assim aconteceu conosco, na Transição. O mais fácil para alguns movimentos sociais fracos e desorientados e para lideranças políticas da esquerda, mais ambiciosas no plano pessoal, que decentes no plano político, era aceitar o que o regime oferecia: legitimação das estruturas e cargos fundamentais do Estado de 18 de julho [1936] e continuidade legal, em troca de uma transformação interna do Estado, que garantisse um lugar para as diretorias dos partidos e sindicatos da oposição, num marco ampliado de poder. 

Inicialmente, o preço dessa escolha não pareceu excessivo. Apesar das centenas e mortos e milhares de feridos em manifestações nos cinco anos imediatamente depois da morte de Franco e das ações do ETA [1], a transição para um regime de liberdades controladas foi relativamente “pacífica”, se se compara com a derrubada do Xá no Irã ou de Somoza na Nicarágua. Bastante menos “pacífica”, se se compara com a revolução portuguesa que, sim, foi autêntica ruptura com o regime anterior e fez-se sem mortes (exceto um agente da PIDE  [2], que se suicidou). Tudo é relativo.

O regime espanhol converteu-se assim, por um lado, numa partidocracia, com a vida parlamentar sequestrada pelas direções partidárias que fizeram a transição e, por outro lado, numa “democracia antiterrorista” que mantém, renovando-o, o conjunto dos aparelhos repressivos e das leis e tribunais de exceção da fase anterior. O pretexto ideal para manter esses aparelhos foi a – muitas vezes brutal e politicamente absurda – luta armada do ETA, mas a legislação de exceção e suas instâncias judiciais podiam servir-se dos mesmos aparelhos, a qualquer momento, contra qualquer cidadão. As classes dominantes espanholas que em certo momento chegaram a manifestar algum temor pela “incerteza” da transição podiam afinal dormir tranquilas: ali estava o rei que Franco ali colocou; ali estava seu fiel Fraga Iribarne, ali estavam a polícia e o exército da ditadura, intactos; ali estava também a peça mais sensível do aparelho judicial, o Tribunal de Orden Público, sucessor do Tribunal de Represión de la Masonería y el Comunismo, agora denominado Audiencia Nacional. O poder social pertencia aos de sempre, acrescentados alguns recém chegados, que fizeram fortuna com a Transição. Aos de sempre se juntaram os “para sempre”, que uniram intimamente seus interesses aos interesses do regime.

E a monstruosa repressão franquista, que chegou ao genocídio nos primeiros anos, e mantida como signo de identidade através de longo rosário de assassinatos legais (Grimau, Puig Antich, os cinco de 1975 etc.) e de atos sistemáticos de tortura, “foi desaparecida” da memória oficial. Toda a responsabilidade foi apagada pela lei de anistia. Em troca, outros personagens, como Santiago Carrillo, não teriam de prestar contas à justiça como autores de crimes de guerra e do crime de assassinato em massa dos presos que estavam sob custódia do bando franquista em Paracuellos del Jarama, e que Paul Preston documentou em livro recente [3]. 

O holocausto espanhol de que fala Preston foi assim “acertado” e fortaleceu-se o mito de que as centenas de milhares de mortos eram resultado dos rancores e ódios de uma guerra civil sobre a qual “os dois lados foram igualmente responsáveis”. Essa versão foi completamente demolida pelos recentes trabalhos de historiadores do período, que demonstraram com abundante documentação que, embora a violência do lado republicano pudesse ser descrita como “excessos” sempre presentes em guerras civis, as matanças promovidas pelos franquistas foram parte de um plano de extermínio premeditado. O extermínio dos “vermelhos” pelos franquistas foi, de fato, como o demonstra Gustau Nerín em La guerra que vino de África  [4], matança colonial operada pelo exército africanista e seus oficiais, de republicanos espanhóis que os oficiais franquistas chegaram a chamar de “os mouros do norte”. Entregar a narrativa histórica aos vencedores de 39 foi outra das gravíssimas concessões que a esquerda majoritária fez, na Transição.

A armadilha da Transição surtiu seus primeiros resultados nos pactos de Moncloa, quando as direções sindicais e políticas da esquerda decidiram “lutar contra a inflação” limitando o aumento dos salários, o que rendeu à esquerda a liberdade sindical. A mesma armadilha outra vez capturou corpos e mentes da população quando, dia 23/2/1981, os espanhóis apoiaram um rei que, no mínimo, via com simpatia a tentativa de golpe de Estado, como o salvador da “democracia”. Depois de um golpe que não fracassara completamente e que fora precedido pela expulsão de um Adolfo Suárez que levara demasiadamente a sério a democratização do país, o Partido Socialista Obrero Español (PSOE) aplicou em boa parte o programa dos golpistas, freando o desenvolvimento autônomo; organizando resposta legal e ilegal contundente contra as ações do ETA e pondo em marcha a contrarrevolução neoliberal. A política, que parecia haver conquistado algum espaço nos primeiros anos da Transição, viu-se engolida por uma gestão partidocrática e essencialmente bipartidarista do regime (transfranquista e capitalista) que conseguiu seu objetivo: manter a população sob cabresto.

Baltasar Garzón
O juiz Baltasar Garzón, hoje julgado pelo Tribunal Supremo, acusado de vários delitos de prevaricação, foi um dos principais paladinos da democracia antiterrorista. Suas várias sentenças contra o ETA, mas também contra o independentismo político basco, cimentaram sua carreira de juiz. Nessas sentenças, o “juiz estrela” tomou, amparado nas leis de exceção e num certo consenso público antiterrorista, todas as liberdades imagináveis para impedir o direito de defesa, além de ter feito uso “criativo” dos crimes tipificados em lei. Resultado disso é que hoje há, nas prisões espanholas, várias centenas de presos políticos bascos, que jamais tiveram qualquer coisa a ver com a preparação de qualquer atentado e cumprem sentença porque contra eles se aplicaram leis de exceção que estabelecem, antijuridicamente, uma analogia entre os atentados e outras condutas com objetivos políticos idênticos.

O modo como Garzón e seus colegas da Audiencia Nacional aplicam o conceito de “analogia” ao direito penal viola princípios básicos de todo o ordenamento jurídico liberal. Raras vezes, em regime que se denomine “democrático”, usaram-se tão extensivamente os conceitos de analogia e amálgama, em direito penal, como o fez Baltasar Garzón, com sua famosa teoria do “entorno”. Quanto às alegações de muitos, nos casos que julgou, Garzón jamais mandou que fossem seriamente investigadas.

Esse juiz desmedidamente politizado, quis fazer-se de defensor da democracia contra todas as ditaduras e processou o velho ditador chileno Augusto Pinochet, acusando-o de genocídio. Há algo aí de humor involuntário, pois o juiz que perseguia o ditador chileno autor da morte de 3.000 de seus concidadãos, era o representante da continuidade legal e institucional de um regime que havia exterminado, nos seus momentos de implantação, mais de 300 mil concidadãos e recebera Pinochet com honras de chefe de Estado, nos funerais de Franco. 

Augusto Pinochet
O processo contra Pinochet não prosperou, em parte por defeitos técnicos nas preliminares, mas também por pressões políticas internacionais, e o sanguinário “Tata” morreu na cama, em seu país. Além de ganhar fama graças ao processo contra Pinochet, Garzón continuou a perseguir integrantes da esquerda abertzale [em catalão, “patriotas”; é a esquerda basca, que defende a independência do País Basco] e de outros setores da esquerda radical, fechou jornais, proibiu organizações políticas e culturais etc., sempre em nome da defesa do Estado de direito. 

Garzón chegou a iniciar um processo para investigar as matanças e os desaparecimentos de militantes antifranquistas, o que pareceu confirmar que estivesse tomando posição contra todas as ditaduras e a favor da democracia. Depositaram-se neles muitas esperanças de familiares de mortos e desaparecidos. Mas, depois de instruir uma petição inicial com excelente documentação, que lhe foi encaminhada por importantes historiadores, Garzón abandonou o processo, ao concluir que não seria da competência da Audiencia Nacional. 

Nem assim o pseudosindicato “Mãos Limpas” e a Falange espanhola deixaram de acusar Garzón de prevaricação, por ter iniciado o processo. Investigar os crimes do franquismo não teria sentido algum, segundo esses grupos direitistas, porque os crimes estariam prescritos, e Garzón só teria aceito iniciar o processo por razões políticas.

Hoje, o Tribunal Supremo julgou Baltasar Garzón por outra causa: as escutas de  Gürtel. Em flagrante violação do direito de defesa, Garzón ordenou que se plantassem escutas para gravar conversas entre os acusados e seus advogados, no Gürtel. Essas escutas clandestinas são prática corriqueira quando se trata da esquerda abertzale. Mas, se se aplicam os mesmos métodos aos poderosos, a pessoas que têm relações diretas com o Partido Popular (PP) e, sobretudo, de forma mais indireta, com a família real, os poderosos enquadrados enquadram o juiz. 

Iñaki Urdangarín
Viu-se exatamente o mesmo fenômeno no caso do processo contra o genro do rei, Iñaki Urdangarín, contra cujo juiz iniciou-se recentemente uma investigação. No caso das escutas de Gürtel, Garzón já foi inabilitado para exercer a função de juiz por 11 anos. A esquerda oficial revoltou-se com grande alarido. É sem dúvida surpreendente que o primeiro condenado no caso Gürtel seja o juiz, mas essa condenação, perfeitamente justificada, será usada para compensar as sentenças mais “clementes” nos processos dos crimes do franquismo, quando condenação a pena mais leve pode gerar amplo escândalo internacional, nocivo à imagem do regime.

Seja como for, é bom exemplo de como funciona a armadilha da Transição, com dirigentes de esquerda e parte da população de esquerda apoiando Baltasar Garzón aos gritos de “Estou com Garzón”. Como se a causa desse burocrata do próprio regime pudesse ter algo a ver com a justiça que centenas de milhares de familiares de vítimas do franquismo ainda esperam. As manifestações em torno desse julgamento muito “midiático” são boa ocasião para que se divulgue a causa da verdade histórica num sistema político construído sobre a “negação” de um genocídio. Mas qualquer apoio que se dê a Garzón como paladino da verdade e da justiça é perigoso. Cada vez que se apóia o juiz que elaborou a doutrina “do entorno”, apóia-se o conjunto de instituições e normas que se edificaram sobre valas cheias de cadáveres e sobre o cancelamento da memória. 

Apoiar Garzón é resumir toda a política ao regime e não sair de um sistema que não pode fazer justiça nem ao passado nem ao presente; é renunciar a romper com o regime das valas comuns. Existem as duas Espanhas, mas se se examina o presente, a outra Espanha, a Espanha democrática que não se atreve a ser republicana, está presa na armadilha da Transição: quanto mais se esforça para escapar da rede, mais se enreda. 

Para sair dessa armadilha, é preciso definir-se fora dela, negando toda a legitimidade ao regime assassino do 18 de julho [1936, golpe dos monarquistas, de cujo fracasso parcial resulta o início da guerra civil espanhola]. Para isso, ainda falta outro 14 de abril [1931, proclamação da II República espanhola; expulsão do rei; primeira constituição democrática espanhola], seguido de um grande e potente 15M [Movimento dos Indignados, 15/5/2011].




Notas dos tradutores
[1] Movimento separatista basco. A sigla ETA corresponde a “Pátria Basca e Liberdade”, em euskara, o idioma basco.
[2] PIDE, Polícia Internacional e de Defesa do Estado, polícia política portuguesa, que existiu 1945 e 1969 [NTs].
[3] PRESTON, Paul, 2011, (esp.) El holocausto español. Odio y exterminio en la Guerra Civil y después, Barcelona: Editorial Base.
[4] NERÍN, Gustau, 2008, La guerra que vino de África, Barcelona: Ariel.