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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Ciúme agita política francesa




Publicado em 12/06/2012 por Rui Martins*

Berna (Suiça) - De repente, umas poucas linhas num tweet desencadearam um terremoto na política francesa, a apenas cinco dias do segundo turno das legislativas.

Teria sido ciúmes ? Em todo caso, pouco mais de um mês da vitória de François Hollande, o novo presidente se vê às voltas com seu primeiro abacaxi para descascar, envolvendo sua companheira, sua girl friend como dizem os americanos, e sua ex-esposa e por tabela a campanha legislativa do Partido Socialista na circunscrição de La Rochelle.

Ninguém consegue imaginar como o presidente François Hollande, que descartara de seu mandato qualquer mistura com sua vida pessoal, vai sair da confusão criada por Valerie Trierweiler (à direita na foto) em pleno confronto com sua ex-esposa Ségolène Royal (à esquerda na foto).

Há coisas que só acontecem na França, sem qualquer presságio e em meio à calma absoluta. Domingo, os socialistas obtiveram a maior vitória nas eleições legislativas nunca antes registrada. Nem mesmo Mitterrand conseguiu dar aos socialistas uma tal vitória sem compromissos com outros partidos de esquerda.

Havia só um senão – a ex-esposa do presidente François Hollande, ex-candidata à presidenta vencida por Sarkozy, a bela e voluntariosa Ségolène Royal corre o risco de não ser eleita deputada federal. Talvez para não deixar em má situação seu ex-marido, agora presidente, Ségolène não pediu um posto de ministra, mesmo se batalhou pela vitória do pai de seus quatro filhos.

Ségolène decidiu, meio sem consultar seus amigos, se candidatar a deputada federal pela cidade de La Rochelle, com o objetivo declarado de ser a presidenta da Assembléia Nacional, equivalente à nossa Câmara de Deputados. O Partido Socialista autorizou sua candidatura, porém surgiu um problema – um professor socialista da região, Olivier Falorni, conselheiro da governança local, amigo de longa data do atual presidente Hollande, queria se candidatar e não aceitou que em seu lugar fosse colocada Ségolène Royal. Chamado à atenção pela chefe do Partido Socialista, Martine Aubry, e convidado a retirar sua candidatura, Olivier Falorni se declarou dissidente e disputou as eleições como candidato socialista dissidente.

Domingo, conhecidos os resultados, quem chegou em primeiro lugar foi Ségolène Royal, mas seus votos não eram suficientes para se eleger sendo necessária se submeter a um segundo turno a fim de disputar a maioria absoluta. Em segundo lugar, estava Olivier e em terceiro lugar um candidato do partido de direita do ex-presidente Sarkozy.

Como em política as vinganças são comuns, o candidato da direita se retirou da competição mas pediu aos seus eleitores para votarem no candidato local, ou seja Olivier Falorni. É a primeira vez que um candidato de direita renuncia em favor de um socialista, mesmo que seja dissidente. Porém, o ato nada tem de louvável, o objetivo é o de tirar Ségolène Royal da vida política.

Diante disso, todo Partido Socialista se mobilizou e sua presidente, Martine Aubry, foi pessoalmente, nesta terça-feira, fazer campanha por Ségolène Royal, enquanto o próprio presidente deu seu apoio à ex-esposa contra Olivier Falorni.

O escândalo estourou logo de manhã, quando Martine Aubry chegou a La Rochelle. Valerie Trierweiler, quase nesse mesmo momento, enviou por seu tweet uma mensagem de apoio a Olivier Falorni. Bastaram alguns minutos para toda imprensa francesa noticiar nos seus online como a girl friend do presidente Hollande passou por cima de todos os socialistas, inclusive de seu marido presidente, para apoiar o adversário de sua ex-rival.

Enquanto a direita ri de euforia, diante dessa cena de ciúme qualificada de cena de bulevard e a imprensa fala em reedição de um ato digno de Cecília Sarkozy, conhecida por seu temperamento forte, os socialistas se inquietam com receio de que o tweet da companheira do presidente Hollande possa influir nos resultados do segundo turno, domingo, dia 17.

Outros se lembram também de que Danielle Mitterrand também não era mulher de seguir docilmente as decisões do marido. Valerie já havia dito que não queria ser uma mulher-decoração, tanto que decidiu continuar com sua profissão de jornalista na revista Paris Match.

Em todo caso, uma coisa ficou evidente – o presidente Hollande que instaurou a “normalidade” no governo, tem uma mulher “normal”, ciumenta, que não perdoa seus telefonemas escondidos à ex e que, na Bastilha, depois do beijo do presidente no rosto de Ségolène foi exigente – “eu quero beijo na boca”. Sem se esquecer de que Valerie não votou em Ségolène quando sua rival era candidata a presidente.

As mulheres franceses não têm nada a ver com as mulheres submissas dos islamitas.

Rui Martins* reside em Berna (Suíça); é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura, é líder emigrante, ex-membro eleito no primeiro conselho de emigrantes junto ao Itamaraty. Criou os movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado dos Emigrantes. Escreve para o Expresso, de Lisboa, Correio do Brasil e agência BrPress.

Enviado por Direto da Redação

domingo, 10 de junho de 2012

Esquerda vence legislativas francesas


Parlamento francês

Publicado em 10/06/2012 por Rui Martins*

Berna (Suiça) - Não é possível governar sem o Parlamento.

Embora o Brasil tenha um regime presidencialista, diferente do parlamentarismo francês, tanto o ex-presidente Lula como a atual presidenta Dilma sabem bem da necessidade de um apoio dos parlamentares para poder aplicar o programa do governo.

Na França, as coisas são bem mais claras que no Brasil, pois se o presidente eleito não consegue obter a maioria parlamentar não pode ter um primeiro-ministro e é obrigado a aceitar um primeiro-ministro da oposição o que se chamou coabitação no governo de Mitterrand e no governo de Chirac.

Disso decorre uma vantagem – não existe a possibilidade de se comprar os votos dos parlamentares pelos meios aceitáveis e não muito aceitáveis. Se o presidente tem maioria parlamentar pode colocar em execução sua plataforma de governo. Sem maioria parlamentar tem de se sujeitar à oposição.

O novo presidente francês, François Hollande, ao que tudo indica, pois falta ainda o segundo turno das legislativas, poderá contar com maioria na Assembléia Nacional francesa e assim transformar em lei todos os planos e projetos prometidos durante a campanha eleitoral.

Porém, essa maioria do governo socialista não poderá ser considerada absoluta mas relativa, já que será o resultado da soma dos votos socialistas com os votos das outras tendências de esquerda e ecologistas.

Em termos de cadeiras no parlamento, os socialistas terão de 275 a 329 deputados, números reforçados com mais 8 a 18 deputados verdes e outros 13 a 20 deputados da frente de esquerda, somando um total superior às 289 cadeiras necessárias para se ter maioria absoluta na Assembléia Nacional.

Houve um grande retração no número de votantes, pois no primeiro turno da eleição presidencial de 22 de abril tinham votado 79,5% dos eleitores, enquanto neste domingo votaram menos de 60%.

A derrota de Nicolas Sarkozy para um segundo mandato presidencial se refletiu num enfraquecimento do seu partido, o UMP, que sem o chefe, se defronta com uma disputa entre pretendentes à liderança da direita. Isso teve repercussão nos votos e o UMP, com 35% dos votos neste primeiro turno, poderá eleger apenas 210 a 270 deputados.

O partido da família de extrema-direita, Le Pen, agora comandada pela filha Marine, não conseguiu repetir os 17% obtidos nas eleições presidenciais, ficando com cerca de 14% dos votos, insuficientes para formar uma bancada.

Poucos deputados obtiveram a maioria absoluta para serem eleitos neste primeiro turno. O segundo turno será no próximo domingo, dia 17, quando se definirá a composição exata da nova Assembléia francesa.

Será também dia 17, o segundo turno para a eleição dos deputados emigrantes pelos chamados franceses do exterior ou vivendo no estrangeiro, sendo provável que, das novas 11 cadeiras criadas, 7 delas fiquem com a esquerda, socialistas e verdes.

Rui Martins*: jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura, é líder emigrante, ex-membro eleito no primeiro conselho de emigrantes junto ao Itamaraty. Criou os movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado dos Emigrantes, vive em Berna, na Suíça. Escreve para o Expresso, de Lisboa, Correio do Brasil e agência BrPress.

Enviado por Direto da Redação

terça-feira, 15 de maio de 2012

Um país que está à venda


Felipe Calderón


Publicado em 15/05/2012 por Mário Augusto Jakobskind*

O México só aparece no noticiário quando há infomações sobre confrontos e assassinatos na guerra do narcotráfico. O Presidente Felipe Calderón, já em fim de mandato, o principal responsável pela situação atual, é um aliado incondicional dos Estados Unidos.

Por isso e muitas outras, os opositores de Calderón em tom irônico postaram um anúncio nas redes sociais que dá bem a ideia do governo que se encerra nos próximos meses.

O anúncio revela a existência de um “País a venda” e exorta os interessados a “aproveitarem, a oferta”. E segue afirmando: “seminovo, não mais de 200 anos de antiguidade. Todos os climas disponíveis. Rico em petróleo e outros recursos naturais. Problemas de insegurança para os amantes do perigo e as emoções fortes. Informes: @felipe calderon”.

Calderón, do Partido de Ação Nacional (PAN) fez um governo desastroso, aplicando o modelo econômico neoliberal ao extremo. Tem relações carnais com os EUA ao melhor estilo do argentino Carlos Menem.

Colocou o Exército no combate ao narcotráfico nos seis anos de mandato. Deu no que deu, ou seja, o número de mortos chega a 50 mil e diariamente surgem imagens impactantes de corpos degolados sem cabeça na luta sem fim entre as várias quadrilhas.

O esquema Calderón parece estar totalmente esgotado em todos os níveis. As pesquisas indicam que o Partido Revolucionário Institucional (PRI) deve voltar ao poder para governar seis anos com Henrique Peña Nieto, que aparece na frente das pesquisas disparado.

Os outros candidatos para as presidenciais de 1 de julho próximo são: López Obrador, do Partido Revolucionário Democrático (PRD), de esquerda, e Josefina Vázquez Mota, do mesmo partido que Calderón. O quarto pleiteante é Gabriel Quadri, do Partido Nova Aliança, a maior zebra. Os mexicanos elegerão também governadores e parlamentares num total de 638.

O partido que governou o México por cerca de 70 anos, ou seja o PRI, e produziu lideranças importantes, como Lázaro Cárdenas, que nos anos 30 nacionalizou o petróleo e defendeu as riquezas do país para os mexicanos, não é nem a sombra do que já representou.

É importante saber o que está acontecendo no país vizinho dos Estados Unidos, inclusive para os latinoamericanos ficarem alertas em relação a um modelo que só traz desgraças ao povo. Os gregos que o digam. Aliás, já deram o recado nas urnas de que não aceitam a austeridade proposta por Angela Merkel, que no ano que vem será também submetida ao voto popular.

Por falar em Alemanha, neste último domingo a União Democrática Cristã, partido de Merkel sofreu uma fragorosa derrota para o Partido Social Democrata (SPD) na Renânia do Norte-Vestfália. O maior colégio eleitoral do país. Os vencedores governarão com o Partido Verde e segundo analistas o resultado terá reflexos nacionais.

A França deu o recado alijando Nicolas Sarkozy e sufragando o centro-esquerdista François Hollande, que terá uma grande responsabilidade pela frente com reflexos em toda a Europa.

Vale uma observação sobre o resultado da eleição presidencial francesa. Para muitos analistas, a resposta está no voto em massa dos muçulmanos no socialista Hollande. É possível que se não fossem eles a França amargaria mais cinco anos do desastroso Sarkozy.

Hollande tem uma grande responsabilidade pela frente, até porque, se falhar,  a França corre o risco da ascensão da extrema-direita com Marine Le Pen, o que seria o desastre dos desastres e poderia retornar, mesmo como farsa, ao cenário dos anos 30 do século passado.

No tabuleiro internacional, a América Latina, salvo exceções do México, Panamá, Chile e Colômbia, tem produzido governos progressistas, embora alguns com altos e baixos. 

Mesmo na eleição francesa, a opção mais a esquerda de Jean-Luc Mélenchon, que para muitos analistas pode desempenhar papel de destaque em pouco tempo, remeteu de alguma forma para a América Latina, lembrando certa proximidade com o Presidente Hugo Chávez na defesa dos interesses do povo.  

Mélenchon em um ato de extrema coragem política decidiu concorrer nas eleições legislativas na circunscrição de Pas de Calais, em Hénin, para enfrentar a extremista de direita Marine Le Pen. Por isso, a região onde Le Pen ganhou para a Presidência terá uma eleição de caráter nacional e quem não deseja a ascensão desta herdeira do fascismo francês deve torcer ou pedir a Deus que vença Mélenchon.

Portanto, as próximas decisivas semanas devem ser de acompanhamento das urnas na França e México. A Grécia está prestes a entrar em uma nova fase, porque o recado das urnas foi bem claro. E além do mais, o principal partido de esquerda não aceitou abrir mão dos seus princípios, rejeitando assim formar governo de coalizão com os partidos que aceitaram o arrocho do FMI - Fundo Monetário Internacional. Os gregos voltam às urnas em junho.

Já no Brasil, as atenções estão também voltadas para a Comissão da Verdade, que depois da posse solene e concorrida, começará seus trabalhos a partir desta quarta-feira. Dos sete integrantes escolhidos destaca-se a psicanalista Maria Rita Khel, uma figura interessante que no passado foi detonada pelo jornal O Estado de S. Paulo por ter escrito um artigo que desagradou aos quatrocentões Mesquitas. Ela tem se destacado na defesa dos direitos humanos.

Espera-se que a Comissão seja mesmo de verdade, não de meia verdade ou de mentira.

E as Organizações Globo mais uma vez, seja no jornal ou televisão, desinformaram. De acordo com a Revista Forbes, várias mulheres foram relacionadas como as “mães fortes” de 2012.

Em primeiro lugar ficou Hillary Clinton e depois Dilma Rousseff. Cristina Kirchner, também citada entre as dez poderosas, simplesmente foi omitida pela sistema Globo.

O Pravda da antiga URSS, adotava o mesmo procedimento com as figuras no index da burocracia. Leon Trotsky, fundador do Exército Vermelho, por exemplo, foi cortado dos anais. Agora, em defesa intransigente do capital e da mídia-de-mercado, as Organizações Globo não fazem por menos. Retiraram Cristina Kirchner exatamente porque ela governa a Argentina defendendo os interesses do país e muitas vezes entrando em choque com os barões da mídia.

Enviado por Direto da Redação
Ilustração de autoria de Aldo Carlos Malpartida Chaupin


Mário Augusto Jakobskind* é jornalista e escritor. Foi colaborador dos jornais alternativos Pasquim e Versus, repórter da Folha de S. Paulo (1975 a 1981) e correspondente da Rádio Centenária de Montevidéu, além de Editor de Internacional da Tribuna da Imprensa (1989 a 2004) e editor em português da revista cubana Prisma (1988 a 1989). Atualmente é correspondente do semanário uruguaio Brecha e membro do conselho Editorial do Brasil de Fato. É autor, entre outros, dos livros América Que Não Está na Mídia (Adia, 2006), Dossiê Tim Lopes - Fantástico/Ibope (Europa, 2004), A Hora do Terceiro Mundo (Achiamê, 1982), América Latina - Histórias de Dominação e Libertação (Papirus, 1985) e Cuba - apesar do bloqueio, um repórter carioca em Cuba (Ato Editorial, 1986).

sexta-feira, 11 de maio de 2012

França: a batalha pelo significado dos resultados das eleições presidenciais/2012


11/5/2012, “Le Blog de Jean-Luc Mélenchon”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Jean-Luc Mélenchon
Apesar do esforço da mídia-empresa para fazer sumir do mundo o resultado da campanha da Frente de Esquerda, a análise dos resultados do 1º turno das eleições mostra que a Frente de Esquerda foi, dentre todos os concorrentes, o que obteve maior avanço nas presidenciais francesas de 2012. E que a estratégia de enfrentar diretamente Le Pen fez recuar fortemente os votos que a direita recebeu em muitas cidades e áreas populares.

As urnas desmentiram a “análise” da mídia-imprensa, segundo a qual a campanha pela presidência não teria mobilizado os franceses. A participação alcançou 80%, nível alto e relativamente homogêneo em todo o país. 

O que aconteceu foi que os eleitores rejeitaram a cobertura das eleições oferecida pela mídia-empresa e o tratamento ‘midiático’ das questões e das discussões.

Sarkozy e Hollande monopolizaram, durante meses, pelo menos 75% do tempo de transmissão por rádio e TV. Mesmo assim, somados, os votos para esses dois candidatos não chegaram, no 1º turno, a 43% do total. Maioria significativa dos eleitores, portanto, não escolheu os candidatos midiatizados que chegaram ao 2º turno.

Cerca de 80% dos eleitores não votaram, no 1º turno, no candidato que, eleito, terá todos os poderes da presidência. E esse, sim, é sintoma grave de o quanto a monarquia presidencial midiática da 5ª República pouco tem a ver com democracia.

VERDADE: Sarkozy perdeu eleitores 

Nicolas Sarkozy perdeu 1,8 milhão de eleitores, em relação a 2007. A análise dos resultados por região mostra que só a grande burguesia manteve-se fiel a Sarkozy. Nesse grupo, os votos mantiveram-se praticamente idênticos: 46,5% em Versailles hoje, e 47% em 2007; no VIIème. arrondissement  [1] de Paris, Sarkozy até seduziu novos eleitores: passou de 56 a 58%; e também em Neuilly, onde teve 72,64%. As grandes fortunas, pois, cerraram fileiras em torno do presidente dos ricos.

Nos bairros populares, foi onde a direita mais encolheu. Em Pas de Calais, Sarkozy perdeu 50 mil eleitores. Em Saint-Quentin dans l’Aisne, Sarkozy caiu, de 31 a 25% dos votos. E em Perpignan, região popular, ou em Meaux, caiu de 34% a 27%.

VERDADE: A Frente Nacional moveu-se mais para a direita

Marine Le Pen acrescentou 2,6 milhões de votos ao resultado que seu pai obteve em 2007. Com cerca de 18%, ela superou o recorde histórico da Frente Nacional em 2002, mas não ultrapassou a soma dos votos dados a seu pai e a Mégret (19%). 70% desse aumento é resultado do fracasso de Sarkozy. Os votos que Sarkozy perdeu na direita migraram diretamente para Marine Le Pen.

O que se viu portanto foi uma aceleração da direita rumo à extrema-direita, não algum avanço de Marine Le Pen sobre novos eleitores ou sobre o voto popular. Por exemplo, em Florange, comunidade em torno dos altos fornos da indústria Arcelor Mittal, Sarkozy perdeu 606 votos e Marine Le Pen ganhou 636. Mas, aí, a Frente de Esquerda ganhou também 654, votos que, bem claramente, foram conquistados contra a abstenção.

Os vasos comunicantes que ligam Le Pen e Sarkozy à direita são especialmente visíveis no norte e no leste da França, onde a Frente Nacional alcançou seus melhores resultados. Marine Le Pen obteve praticamente o mesmo número de votos que Nicolas em várias áreas: Picardie, Lorraine, Nord-Pas-de-Calais, mas também em Languedoc-Roussillon. Sem o trabalho da Frente de Esquerda, para conter o avanço da Frente Nacional, o cenário em que Sarkozy seria derrotado pela Frente Nacional não estaria muito distante. Le Pen de fato ultrapassou os 20% de votos em 11 regiões (uma, de cada duas) e em 43 departamentos.

VERDADE: A esquerda avançou graças à Frente de Esquerda

O total de votos de esquerda aumentou muito em relação à eleição presidencial anterior: passou, de 13,3 milhões (36,4%) para 15,7 milhões (43,7%). É o melhor resultado eleitoral da esquerda em eleições presidenciais na França, desde 1988. François Hollande é responsável por apenas uma pequena parte dessa dinâmica: teve apenas 770 mil votos a mais que Ségolène Royal. Em Evry, o número de votos dos socialistas estagnou; e em Lille o Partido Socialista perdeu eleitores entre as duas presidenciais.

A parte essencial da dinâmica de avanço da esquerda veio, visivelmente, da Frente de Esquerda, que trouxe 2/3 dos novos votos que a esquerda conquistou.

VERDADE: A Frente de Esquerda sai constituída e fortalecida das eleições


Com cerca de 4 milhões de votos (11,11%), a Frente de Esquerda ganhou 3 milhões de votos, a partir do lançamento de Jean-Luc Mélenchon como candidato às eleições europeias de 2009 (6,5%). A força assim constituída deve ser considerada sólida, sobretudo porque está distribuída por todo o país: em nenhum dos departamentos a Frente de Esquerda teve menos de 7% dos votos; teve 10% e mais em 70 departamentos; e mais de 13% dos votos em 20 departamentos.

Assim se define uma nova força política, que se afirmou em todo o território, em todos os casos com mais votos do que os registrados na implantação histórica das organizações que formam a Frente de Esquerda. Grandes cidades sem qualquer tradição comunista deram mais de 15% de votos ao candidato Jean-Luc Mélenchon da Frente de Esquerda: por exemplo, Grénoble, Toulouse, Lille ou Montpellier. E houve avanços espetaculares, em cidades nas quais Jean-Luc Mélenchon provocou fortes clivagens políticas. Foi o que aconteceu em Alsace, onde a Frente de Esquerda trabalhou a favor da abolição do Concordat, e aumentou o número de seus eleitores em mais de 300%.

Também em Marseille, o discurso claro e sem meias palavras de Jean-Luc Mélenchon sobre os benefícios da mestiçagem encontrou eco popular de massa e empurrou a Frente de Esquerda para cerca de 14% na cidade e para mais de 20% em vários bairros populares da periferia no norte da cidade. Lá também, foi a estratégia de combater diretamente a Frente Nacional que polarizou a discussão e levou a Frente de Esquerda a derrotar a Frente Nacional.

Fato é que, diferente do que disse a mídia-empresa, os muitos votos dados a Marine Le Pen não são votos que teriam sido dados a Jean-Luc Mélenchon. O processo é completamente diferente: nos pontos onde houve avanço da FN, também houve avanço da Frente de Esquerda. Foi o que se viu sobretudo em áreas operárias, que de modo algum foram ‘seduzidas’ por Marine Le Pen.

Por exemplo, em Petit-Couronne na Seine Maritime, onde o fechamento da refinaria Petroplus ameaça com o desemprego 900 trabalhadores – e cidade que foi visitada por todos os candidatos em campanha -, o resultado foi claro: Sarkozy perdeu 249 votos; Hollande ganhou 114; Le Pen, 436; e Mélenchon, 693 e um claro maior avanço dentre todos os candidatos.

Sinal também dos bons resultados da estratégia da Frente de Esquerda, que se dedicou a fazer recuar a direita, os dois departamentos nos quais Sarkozy teve seus piores resultados – Seine-Saint-Denis e Ariège – são os mesmos nos quais a Frente de Esquerda obteve os melhores resultados, com cerca de 17% e picos de 25% em numerosas cidades populares.

TAREFA: Desmentir o discurso da mídia-empresa sobre os resultados

Uma semana depois do 1º turno, os principais veículos apresentaram quadro extremamente deformado da realidade dos resultados. Aqui, um primeiro desmonte das principais mentiras publicadas (e repetidas). 

MENTIRA: Marine Le Pen fez 20% e alcançou seus objetivos

Marine Le Pen
A desinformação sobre os resultados da Frente Nacional começou logo às 20h da noite das eleições, quando vários veículos anunciaram, erradamente, que Marine alcançara e ultrapassara os 20% dos votos. De fato, chegou só aos 17,9%. Além de oferecer números errados (erro de mais de 11%), essa notícia mentirosa deforma completamente o significado do resultado da FN. Porque faz crer que Marine Le Pen teria sido bem-sucedida e teria conseguido o que se propôs conseguir. Não foi bem-sucedida e não conseguiu. A mesma mentira levou a uma comparação errada com o resultado da extrema direita em 2002. De fato, se tivesse recebido 20% dos votos, Marine Le Pen teria ultrapassado o resultado histórico da extrema direita em 2002.

Na verdade, com seus 17,9%, Marine Le Pen recebeu menos votos que seu pai e Bruno Mégreta em 2002. Quanto aos jornalistas que tomaram como prova de alta inteligência esquecer esse argumento, e puseram-se a repetir que ela teria tido 1 milhão de votos a mais, esqueceram também que, em comparação com 2002, havia agora novos 4,8 milhões de eleitores inscritos.

Estranhamente, todos os veículos da mídia-empresa repetiram incansavelmente que a Frente de Esquerda não conseguira ultrapassar Marine Le Pen, mas nenhum se lembrou de dizer que Marine Le Pen fracassou no esforço para alcançar as metas que ela mesma fixara. Não chegou aos 20%. Nem, como também dizia que aconteceria, chegou ao 2º turno. Tampouco os jornais e televisões noticiaram que Marine Le Pen também fracassou no projeto de impedir que Jean-Luc Mélenchon chegasse à metade dos votos que ela receberia. Tivemos mais que isso: foram 62%.

NÃO DEU NA TELEVISÃO: a Frente de Esquerda fez recuar a Frente Le Pen

Embora ainda não tenha tido sucesso no plano nacional, a Frente de Esquerda já começou por alcançar a meta a que se propôs, de aparecer à frente de Le Pen em várias grandes cidades e muitos bairros operários. Em Lille, a Frente Nacional caiu, do 3º lugar em 2002, para o 4º lugar em 2012. A Frente de Esquerda subiu muito: para 15% dos votos. Mesmo cenário em Montpellier: do 2º lugar em 2002, a Frente Nacional caiu para o 4º lugar em 2012. E também aí a Frente de Esquerda teve mais votos e apareceu à frente de Le Pen, tendo subido para o 3º lugar.
A degringolada da Frente Nacional foi ainda mais acentuada nas áreas populares das grandes cidades, como Vaulx-en-Velin, Aubervilliers, Stains ou Mantes la Jolie. Várias vezes vista no 1º lugar nessas regiões em 2002, em 2012 a Frente Nacional apareceu em 4º lugar, amplamente derrotada pela Frente de Esquerda. Em Vaulx-en-Velin, a Frente Nacional passou, da posição de mais votada em 2002, para o 4º lugar em 2012 (21/7% dos votos para o pai, em 2002, e 13,83% para a filha em 2012). E a Frente de Esquerda derrotou a Frente Nacional e chegou ao 2º lugar, com 18,42% dos votos. Em Grigny, na cidade da Grande Borne [aprox. “grande favela”] em Essonne, a Frente Nacional caiu de 17 para 11%; e a Frente de Esquerda apareceu com mais de 21% dos votos.

MENTIRA: Os trabalhadores votam Le Pen

Mais uma ficção criada e divulgada pela mídia-empresa: que os trabalhadores teriam votado Le Pen. Para criar essa ficção, os veículos acreditaram mais em pesquisas que nos números saídos das urnas. Foram “pesquisas de boca de urna”, feitas em amostras não significativas, com apenas algumas centenas de trabalhadores. Estimaram que os votos operários para Le Pen ficariam entre 29 e 35%, variando conforme a pesquisa. E os votos operários para Jean-Luc Mélenchon não ultrapassariam 11% (IPSOS) e 18% (IFOP)! Já a simples diferença entre as estimativas obrigaria a não confiar demais nas “pesquisas”. Mas, mesmo quando são mais confiáveis, as mesmas pesquisas significavam que 65-70% dos operários não votam com a Frente Nacional. E sem considerar a abstenção entre os operários, que os pesquisadores situam em torno de 30%.

Se se correlacionam os votos para a Frente Nacional e o universo dos operários inscritos para votar, 80% dos operários não votam com a Frente Nacional. Pois, nesse contexto, a mídia-empresa falava, já há um ano, de “verdadeiro plebiscito operário, para Marine Le Pen” (Journal du Dimanche, 24/4/2011) ou a apresentavam, generosos, como “candidata preferida dos trabalhadores” (Le Monde, mesma data [2]). Os jornais e televisões da mídia-empresa não reconheceram o erro e, pior, insistiram na mesma via de deformar a realidade, como em matéria de i-télé, no dia seguinte às eleições de 2012, que requentava a metáfora “Marine Le Pen vence o plebiscito operário”. [3] Outro resultado, que se lia evidentemente nas mesmas sondagens, jamais apareceu em manchetes e “análises” jornalísticas: a tendência de voto de comerciantes e chefes de empresas, afinal, votos quase tão importantes quanto o voto operário. Nenhum jornal, revista ou televisão da grande mídia-empresa jamais escreveu, sobre Marine Le Pen, que é “a candidata preferida dos patrões”.

Especialistas em repetir avaliações dos institutos de pesquisa e jamais interessados em analisar detalhadamente os resultados das urnas, os jornalistas da grande mídia-empresa fizeram silêncio absoluto sobre os avanços da Frente de Esquerda entre os operários. Isso, apesar do que se viu em Florange (Arcelor-Mittal), em Montbéliard (PSA Sochaux), em Saint-Nazaire (instalações da transnacional Alstom) ou em Douai; e em Lens, no Nord-Pas-de-Calais, a Frente de Esquerda conquistou mais votos que a Frente Nacional, entre 2007 e 2012.

Os resultados eleitorais em Montbéliard mostram bem a dinâmica operária da Frente de Esquerda.


Essa cidade, que é há muito tempo feudo eleitoral do coordenador geral da campanha de François Hollande, Pierre Moscovici, foi visitada por Jean-Luc Mélenchon dia 24 de janeiro, em apoio à luta dos trabalhadores da empresa PSA - Peugeot Citroën, no principal polo industrial da França.

MENTIRA: Não se viu avanço da esquerda

François Hollande

A falsa impressão de que não teria havido avanço na esquerda francesa resulta de todos os jornais e redes de televisão terem dado atenção exclusiva aos resultados da Frente Nacional. É resultado também de vários veículos da mídia da direita francesa terem apresentado os resultados de Nicolas Sarkozy como se fossem muito maiores do que o previsto. O próprio Sarkozy trabalhou também na direção desse tipo de propaganda de manipulação. Sarkozy disse no jornal republicano Est, dia 25/4: “Não houve qualquer arrancada da esquerda. O total da esquerda foi inferior aos números de outras eleições”. [4]

Nicolas Sarkozy
Os votos dizem exatamente o contrário. A direita perdeu 3,2 milhões de votos (Sarkozy perdeu, só ele, 1,7 milhão) e a esquerda ganhou 2,3 milhões, um dos melhores resultados de toda a 5ª República.

Ao subestimar o avanço da esquerda, a mídia-empresa fez calar também completamente a origem do avanço que houve. 2/3 dos votos que a esquerda conquistou foram votos para a Frente de Esquerda. Foi a primeira vez, em 30 anos, que dois candidatos do campo da esquerda alcançaram porcentagem de votos de dois dígitos. Os votos dados a Jean-Luc Mélenchon permitiram também deslocar o centro de gravidade de toda a esquerda, afinal, para aesquerda. A esquerda autônoma que havia no Partido Socialista sempre representou menos de 20% dos votos. Hoje, representa 30%. E afirma-se, com a Frente de Esquerda, como o único voto útil para fazer recuar a Frente Nacional e forçar adiante o avanço de toda a esquerda francesa.



Notas dos tradutores
[1] Uma das 20 áreas administrativas em que se divide a cidade de Paris. Sobre o VIIème. Arrondissement lê-se na Wikipedia: “É a região da cidade onde vivem os mais ricos, desde o século 17, quando se tornou novo endereço da mais rica nobreza da França”.
[3] Também, um ano depois, dentre outros, em: 23/4/2012, i>TÉLÉ, em: Marine Le Pen plébiscitée par les ouvriers?
[4] 25/4/2012, Est Républican, em: NICOLAS SARKOZY: JE SUIS TRÈS DÉTERMINÉ

quinta-feira, 10 de maio de 2012

França e Grécia: duas eleições e nada resolvido


8/5/2012, John Brown, Blog Iohannes Maurus - Juan Domingo Sánchez
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Juan Domingo Sanchez
(John Brown)

Dia 8 de maio aconteceram consultas eleitorais em dois países europeus, um dos grandes e fortes e outro, menor e marginal na partilha do poder no continente. No país grande, ouviram-se outra vez as solenes tolices da política representativa, com dois candidatos, um mais ridículo que o outro, falando em nome “dos franceses” e sem pejo de dizerem coisas como “os franceses querem”, “os franceses opinam” etc..

O país hexagonal é um dos antigos centros de poder na Europa. A crise campeia, mas, no momento, ainda não se vê ali o desastre social que já desgraça os países da Europa do Sul e, sobretudo, o menor e mais marginal deles, a Grécia. Por isso, ali é ainda possível brincar de democracia representativa, um jogo de espelhos entre a direita e a esquerda, no qual os diferentes componentes do poder do capital declaram dar maior importância ou ao Estado ou ao Mercado, ou à igualdade ou à liberdade para empreender.

Tudo dentro de uma esplêndida continuidade entre os dois polos de um sistema que, de modo algum é questionado nessas categorias que, afinal, são as categorias do próprio sistema. Quem suponha que algum sistema capitalista se autointerditará e reforçará o estado, ou que aumentará a igualdade jurídica entre os cidadãos ignora que o mercado geral, típico do capitalismo, é fruto da atividade do estado; e que a igualdade entre os contratantes é a condição básica para que haja mercados. Como Michel Foucault e Chomsky recordaram naquele debate memorável na televisão holandesa, em 1971 [1], “não se pode combater um regime a partir de seus próprios conceitos e valores”. Por isso, a esquerda representativa só representará, no melhor dos casos, uma classe operária que é parte do tecido do capitalismo, de seu específico modo de distribuir a riqueza. O papel dessa classe operária na luta de classes é pura mistificação; existe para ocultar os antagonismos que há por trás dos valores específicos do sistema capitalista, apresentados como valores “democráticos” ou “valores da República”, sempre com a voz enrouquecida de tanto proclamar mentiras.

No poderoso país hexagonal, o vencedor nas eleições presidenciais venceu por pequena margem; um dirigente do Partido Socialista que se apresentou com programa de crítica moderada às políticas de austeridade, anunciando sua disposição para mudar o pacto europeu de estabilidade. Em lugar da austeridade propõe “crescimento”. Hollande, provavelmente, logo dará marcha a ré nas promessas e voltará ao “realismo” responsável, aceitará a austeridade e os cortes, talvez em nome do crescimento. Na França ainda há espaço para mentir com algum êxito e, também, para cortar gastos públicos e salários.

Enquanto houver essa margem, prosseguirá o teatro cômico-macabro dos candidatos de direita e esquerda, com seus próceres “populistas” de direita e de esquerda, que metem, entre o estado e o mercado, um terceiro personagem da farsa: o povo.

Esse povo que irrompe como se fosse “o outro” em relação ao mercado, no discurso de esquerda de Mélenchon; ou como se fosse “o outro” em relação ao estado, no populismo semifascista da filha de Le Pen. Como se o povo não fosse a unificação, pelo estado e no estado, dos agentes dispersos do mercado.

Os populismos tampouco são qualquer tipo de saída para fora do labirinto de espelhos que é a política representativa, na qual, simplesmente, não há espaço “fora”, nenhum “além” da representação, que não seja a mera criminalidade “terrorista”; e, mesmo essa, é um “externo” mistificado, um falso exterior, absoluta e completamente desenhado pelo poder e a partir do poder.

É impossível qualquer “representação” da luta de classes. A luta de classes é irrepresentável. Só se podem representar os espelhos que reproduzem, ao infinito, a falsa oposição entre estado e mercado, entre povo da esquerda e povo guardião das essências nacionais.

Como na última cena do filme “A dama de Shangai” [dir. Orson Welles, 1946-7], os protagonistas disparam contra as próprias imagens, que veem num labirinto de espelhos, e cada um que dispara contra a própria imagem acaba por matar outro. O capitalismo modificado pelo liberalismo e convertido em liberal, derrota o capitalismo modificado pelo socialismo e convertido em socialista; ou vice-versa. Enquanto isso, se agita o coringa fascista, previamente alimentado com uma estudada xenofobia de estado, para que as opções majoritárias respeitáveis e nada “populistas” possam apresentar as políticas mais brutais como se fossem “um mal menor”... se comparadas ao que viria, se os fascistas vencessem. A existência de um bloco fascista permite aos partidos do regime serem, eles mesmos, fascistas... e acusar a extrema direita de fascismo. É o golpe do policial bonzinho/policial durão.

Também na Grécia houve eleições essa semana, mas com resultados e desenvolvimentos muito diferentes do que se viu na França.

A imprensa-empresa oficialista europeia apresentou os resultados das eleições gregas como se tivesse havido grande avanço da esquerda “radical” e retrocesso dos protagonistas do bipartidarismo helênico, os socialistas do PASOK e a direita do Nea Dimokratia.

De fato, o que aconteceu na Grécia foi muito mais grave: ali se viu que, a partir de um certo nível de representação, a própria representação democrática do capitalismo neoliberal torna-se impossível.

Os dois grandes partidos que defendem a austeridade e o pagamento da dívida, PASOK e Nea Dimokratia têm menos de 33% dos votos parlamentares: todas as demais forças representadas no Parlamento grego são, por sua vez, radicalmente hostis a essa política que está arruinando o país e empobrecendo as classes populares e as camadas médias.

Nada disso impediu o regime de fazer todo o possível para que não houvesse meio pelo qual os cidadãos gregos expressassem o próprio descontentamento: não houve qualquer consulta à população, por referendo, sobre as medidas de austeridade (Papandreu pagou com o próprio cargo, a simples sugestão); e, para impedir a manifestação eleitoral de posições minoritárias, elevou-se de 3% para 5% a porcentagem mínima de votos necessários para eleger deputados. Com isso, ficaram sem qualquer representação cerca de 19% dos eleitores – porcentagem maior de votos, que os votos dados ao partido mais votado, o Nea Dimokratia.

E não foi só: o número de cadeiras no Parlamento para o partido mais votado foi aumentado pouco antes das eleições, criando-se um ‘prêmio’ de mais 50; por isso, o partido Nea Dimokratia, que obteve dos eleitores 18,9% dos votos (só 2% mais que os votos da coalizão Syriza, de esquerda, que teve 16,8%), terá, graças ao generoso “presentão”, 108 deputados; contra apenas 52 da coalizão Syriza. A combinação do mínimo exigido de votos e o “prêmio” ao partido majoritário desfiguram portanto grotescamente a correlação de forças políticas representadas no Parlamento.

Esse autêntico golpe-de-mão legal, inventado para assegurar a “governabilidade”, chegou muito perto de dar certo e permitir um governo de “salvação nacional” formado só pelos partidos Nea Dimokratia e PASOK, dois partidos minoritários que defendem a política de austeridade e contra os quais os eleitores manifestaram-se em alto e bom som. Os resultados finais não permitiram essa solução, porque nem com a fraude legal eleitoral os partidos do Μνημονίο [/minmonío/, “memorando”] pró políticas de austeridade imposto à Grécia pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI – conseguiram chegar à maioria absoluta.

A austeridade, pois, tornou-se ingovernável, sob os parâmetros da democracia grega. E essa é a grande diferença que há entre Grécia e França.

Na Grécia, será praticamente impossível formar algum governo a partir dos resultados que saíram das urnas, porque, embora Syriza tenha alcançado excelente resultado, nem assim terá apoio suficiente. O Partido Comunista Grego, que já se recusou a formar listas eleitorais unificadas com os “socialdemocratas” da coalizão Syriza, porque os considera “europeístas”, tampouco aceitará qualquer outro tipo de coalizão pós-eleições.

Por sua vez, uma direita caricaturesca mas terrível, Χρυσή Αυγή [/crisí augí/, “Aurora Dourada”] já apresentou ao Parlamento projeto de uma política de denúncia das políticas para os migrantes; e de denúncia, também, da “Junta” (palavra hispânica, que se usa, na Grécia, para falar da ditadura dos “coronéis do memorando”). No atual momento, a função dessa formação é semelhante à de Marine Le Pen na França e de outras extremas-direitas: permitir a radicalização neoliberal e xenófoba dos partidos majoritários que modo que passem a apresentar o fascismo como “mal maior”, embora as milícias da extrema direita já estejam nas ruas, em combate contra os imigrados e futuros imigrados...

Na Grécia, as eleições previstas para garantir legitimidade para a dominação do capital financeiro, com implantação de medidas de austeridade e pagamento da dívida, não chegaram a bom termo e não deram o que deveriam ter dado. A austeridade e a dívida tampouco são representáveis, como também não há representação possível para a resistência da multidão em luta contra essas políticas. Os espelhos partiram-se definitivamente, embora ainda seja possível fazer algumas caretas contra esse grande coringa, de mil e uma utilidades, que é a extrema direita.

Nos próximos dias, tudo pode acontecer. Se não há maioria que apóie o plano de salvamento e as medidas de austeridade que o plano carrega, pode acontecer de todos os pagamentos das dívidas gregas serem suspensos; e podem-se suspender também os empréstimos que FMI e financeiras europeias devem fazer à Grécia. É possível também que o país tenha de sair da zona do euro, o que terá repercussões sobre os demais países fracos (Portugal, Espanha, Itália, Irlanda, etc.) e sobre toda a Eurozona.

A Grécia está hoje em situação que faz lembrar a da Alemanha nos anos 30s. As causas são semelhantes: a Alemanha de Weimar foi arruinada pelo pagamento de brutal dívida de guerra imposta pelos que venceram a Ia. Guerra Mundial. Na comissão de reparações de guerra, Keynes havia advertido sobre as consequências desastrosas que adviriam daquela política.

Ante a impossibilidade de uma revolução (impossível, dentre outras coisas, por causa da profunda divisão das esquerdas e por causa do sectarismo do Partido Comunista Alemão), um cabo baixote, feio, ressentido e dado a gritarias, ridículo como os dirigentes do partido Crisí Augí, tomou o poder. O resto da história todos conhecem.

Nesse momento, só uma potente reação em escala europeia contra as políticas de austeridade pode evitar que a barbárie volte ao continente. A Europa terá de ser verdadeiro espaço de cooperação produtiva para a multidão, espaço de democracia e de liberdade, não mera agência de cobrança da odiosa dívida financeira gerida por uma oligarquia dedicada a fazer a gestão racista da imigração. Nem todos se podem permitir o luxo do gran guiñol “republicano” que a França está vivendo; em breve, de fato, já não será possível nem na França.

A Grécia aí está, a mostrar que a prática de usar a dívida para a dominação social não é coisa para a qual haja representação democrática. Para preservar a democracia, é urgente acabar com uma política econômica que, a cada dia, menos consegue esconder o que há nela de plena dominação política.

Mas preservar a democracia e por fim à política econômica para dominar não podem, por sua vez, ser feitos sob o marco dos estados nacionais: a nostalgia soberanista que foi representada no fascismo, e, em certa medida, também nos “populismos”, é hoje uma armadilha.

Problemas que há muito tempo já não são problemas nacionais só poderão ser resolvidos em escala europeia. Se nos fechamos, cada um em seu estado, encontraremos pela frente a violência capitalista cada vez mais brutal, e seremos cada vez mais incapazes de derrotá-la. Outra construção europeia é necessária e urgente. 

O 12M, 12 de Maio de 2012, será, por tudo isso, muito mais decisivo que as eleições de 6 de maio passado.




Nota dos tradutores
[1] O debate (texto em inglês) aconteceu em novembro de 1971, na Escola Superior de Tecnologia de Eindhoven (Holanda). Excerto, em português.