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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Consenso a golpes de malho “jornalístico” − A ilusão do debate “midiático”

2/12/2014, [*] Jason HirthlerCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A “ordem” dos dois partidos que rege a “democracia” nos EUA impede que a sociedade norte-americana discuta temas sobre os quais os dois partidos concordam integralmente: sobre manter estrutura monstro de estado militar; exceto no que tenha a ver com manter e ampliar o estado militar, o resto do estado tem de ser encolhido até ser tornado totalmente impotente; sobre a prioridade absoluta assegurada às empresas, contra os cidadãos; sobre restringir liberdades civis, para assegurar que nada ameace as estruturas do status quo do poder militar.


Debate RIDÍCULO: McCain e Carney estão do mesmo "lado"... São "falcões"!
Em artigo recente, a organização Fairness & Accuracy in Reporting, FAIR, revisou todos os achados de pesquisa de seus estudos anteriores sobre a qualidade do “debate” político levado ao ar pelas redes de difusão da imprensa-empresa dominante. Estudou o processo pelo qual foram levadas à opinião pública as intervenções militares, pelos EUA, contra Iraque e Síria. A ideia daqueles jornalistas talvez fosse mostrar o que os EUA aprendemos desde a guerra fraudulenta de que o Iraque foi vítima, em 2003. Pois... parece que aprendemos nada, coisa alguma.

FAIR trabalhou ao longo de pesadas e dolorosas muitas horas, absorvendo toda a desinformação e a informação desimportante pisada e repisada pelos soníferos shows dos domingos, como State of the Union [Estado da União], no canal CNN; Face the Nation [Cara a cara com a Nação], no CBS; Meet the Press [Mesa Redonda com a Imprensa], no NBC; eThis Week [Esta Semana], no ABC, além de alguns dos programas de comentário político mais populares, incluindo Situation Room [Sala de Situação], do canal CNN, perigosíssimo, porque pode induzir surtos de hiperatividade pela Síndrome do Déficit de Atenção [ing.ADHD]; o Special Report do canal Fox News; o venerável sedativo News Hour [Hora da Notícia] do canal PBS; e Hardball [Jogo Duro] do canal MSNBC. Todos conhecemos o elenco que jamais varia: o hiper falante George Stephanopoulos, a direta Candy Crowly, o eternamente sofredor Wolf Blitzer e o esbravejante Chris Matthews. Imagens dessas bocarras que ganem estão implantadas no hipocampo nacional.

No total, 205 porta-vozes repetidores da Casa Branca foram convidados para repetir ante os cidadãos telespectadores nos EUA as respectivas “ideias” espertamente construídas frase a frase para “elevação” da “informação” do público norte-americano. Desses, o espetacular número de 3 (três!) manifestaram-se contra a ação militar dos EUA na Síria e no Iraque. Reles 125 especialistas alinharam argumentos “de especialista” a favor de ação agressiva contra aqueles dois países.

Se se contam só os “especialistas” atuantes nos programas dominicais, 89 “especialistas” convidados foram bem remunerados para educar a obtusa população norte-americana de sofá-e-batata-frita de domingo. Um deles (1!) sugeriu que ninguém fosse à guerra. Ausentes, totalmente ou quase, por difícil que seja acreditar, de lá, estiveram todos os argumentos de lei contra aquelas intervenções ilegais. Alguém “enviesado” a favor do respeito à lei? Não, não, ninguém.

O consenso “midiático” sobre Síria e Iraque não é instância isolada de pensamento-de-grupo. Longe disso. Na verdade, corresponde a um padrão bem claro, cujo núcleo é deliberada desatenção e desapego à lei internacional e a qualquer esforço para fazer valer tratados transnacionais legais e vigentes e leis sobre ação militar. (Mas as leis que regulam o comércio transnacional essas, por razões óbvias, são consideradas importantíssimas e merecedoras de muita consideração e muito respeito, por motivos óbvios).


New York Times, cegamente, sem qualquer investigação ou pesquisa, sem crítica, repete o número que Israel divulgou, de mortos no recente ataque do estado judeu contra Gaza. A jornalista, Jodi Rudoren, considera fontes igualmente dignas e legítimas tanto Telavive (que fala, fala, mas prova, é nenhuma) e a ONU e o vasto trabalho de pesquisa e coleta de informações que fez, bem como organizações palestinas independentes, de direitos humanos, em Gaza. Ela adota uma “definição” israelense, sem qualquer fundamento, do que seja “combatente”, ignorando todo um vasto e rico consenso internacional que contradiz a “definição” israelense. Mistura, suspeitosamente, menores e adultos, e faz sumir o número de crianças mortas por Israel. E por aí vai. Tudo a serviço da posição pró-Israel da empresa-imprensa que publica o NYTimes.

Em 2010, Israel atacou uma flotilha de barcos que levavam ajuda humanitária a ser entregue a palestinos na Faixa de Gaza que Israel bloqueara. Anthony DiMaggio, escritor e analista político coordenou as pesquisas Lexis Nexus, que demonstram como a imprensa-empresa nos EUA em geral, e o NYTimes em especial, evitam cuidadosa e atentamente qualquer tema que faça lembrar a lei internacional, sempre que discutem ações de Israel. Numa análise de artigos do Times e do Washington Post sobre Israel entre 31 de maio e 2 de junho de 2014, apenas cinco textos faziam referência à lei internacional relacionada seja à flotilha humanitária, seja ao bloqueio ilegal.

DiMaggio disseca vários dos meios pelos quais Israel frauda a Carta das Nações Unidas. Diz que Israel já violou mais de 90 resoluções do Conselho de Segurança da ONU relacionadas à ocupação de terras palestinas. Nada disso – nada – aparece publicado na “grande mídia” dominante. Essa omissão é típica: é a regra. A imprensa-empresa norte-americana dedica-se atenta e cuidadosamente a privilegiar a narrativa israelense, não o ponto de vista dos árabes e praticamente ignora a existência de dúzias de resoluções da ONU que condenam as ações criminosas dos israelenses.

O mesmo se constata no “jornalismo” sobre o Irã. Já há anos, Washington alerta o mundo, teatralmente, espalhafatosamente, que o Irã quer construir sua bomba atômica e ameaça com ela todo o Oriente Médio. Para começar, implica “esquecer” que seria suicídio. Todas as agências de inteligência norte-americanas, e muitas outras que acompanham os eventos na região, sabem que a política externa do Irã é política de contenção e que o programa nuclear iraniano tem finalidades pacíficas. Nada e ninguém consegue impedir que o “jornalismo” do canal MSM apresente Teerã como ninho e forno de onde não param de sair os mais ensandecidos terroristas.

Figure 1: New York Times and Washington Post Editorials on Iran’s Nuclear Program
March 16, 2010, through March 15, 2012
New York Times
(18 total)
Washington Post
(22 total)
Considered International Law Implications of US/Israeli Actions and Threats
0
0
Considered Effects of Sanctions on Iranian People
1
2a
Considered Iranian Civilians’ Views on Sanctions
0
0
Recognized Iran’s Right to Pursue Civilian Nuclear Program
1b
0
Mentioned Israel’s Nuclear Weapons
0
0
Supported US/UN Sanctions
17
17
Said or Implied That Iran Is Seeking Nuclear Weapons
17
17


Kevin Young investigou artigos “jornalísticos” sobre as negociações nucleares entre EUA e Irã, com resultados espantosos. Foram analisados cerca de 40 editoriais publicados peloNYTimes e pelo WPost. Precisamente zero editoriais, zero, nenhum, reconhecia as implicações contra a lei internacional, de os EUA viverem a repetir ameaças e a apoiar atos subversivos praticados por Israel – como assassinar cientistas iranianos, e fazer ciberataques, nos dois casos modalidades “inovadoras” da violação padrão de soberania de outros países. Impressionantemente, 34 das tais peças de “informação jornalística” “diziam ou deixavam implícito” que o Irã está trabalhando para construir sua bomba atômica. Esqueçam todos tudo o que disseram 16 agências norte-americanas de inteligência (que o Irã não mantém programa ativo de produção de armas nucleares). Esse “jornalismo” já fez a escolha crucial de operar no campo do boato, da intriga, do ouvir-dizer. Portanto, nada muda, mesmo que haja estudos sérios e/ou crítica ativa que façam-saber que o fato é outro. Mais de 80% dos artigos publicados eram favoráveis às sanções incapacitantes que os EUA insistem em manter contra o Irã – e cuja única justificativa é o fato inventado por esse “jornalismo”, de que o Irã estaria construindo a tal bomba.

Antes do trabalho de Young, Edward Hermann e David Peterson analisaram 276 artigos publicados sobre o programa nuclear iraniano entre 2003 e 2009. O número em si já é espantoso. Mais espantoso ainda se torna, se se o compara ao número de artigos publicados no mesmo período, sobre o programa nuclear israelense: míseros três. [1]

É interessante, se se considera a postura dos dois países em relação a tratados internacionais. Israel armazena livremente pilhas e pilhas de bombas atômicas e mantêm “política de ambiguidade deliberada” sobre as próprias capacidades atômicas, apesar dos frequentes esforços de países árabes para persuadir Israel e reconhecer a existência de seu arsenal atômico (estimado hoje em várias centenas de ogivas nucleares). Israel ainda não assinou o Tratado de Não Proliferação de Armas Atômicas, já firmado por 190 países em todo o mundo [inclusive pelo Irã]. Essa posição intransigente é empecilho sempre ativo contra todos que trabalham para implantar uma zona desnuclearizada naquela região.

Imagem do Google Earth do local (branco, no centro) das instalações nucleares de Fordow, Irã
Compare-se, então, o comportamento de Israel e do próprio Irã – que permitiu inspeções extensivas em suas instalações nucleares. Até o Times  observou recentemente que as principais instalações nucleares iranianas estavam “lotadas de inspetores”.Além de ser signatário do TNP, o Irã é também membro pleno da Associação Internacional de Energia Atômica (AIEA). E o Irã continua a trabalhar em busca de solução racional com o Ocidente, apesar da sanções que os EUA impuseram ao país. O EUA também pressionaram ilegalmente e indevidamente a AIEA para que adotasse outros protocolos, segundo os quais o Irã teria de satisfazer exigências ainda maiores, o que tornou a possibilidade de solução negociada cada dia mais (confortavelmente, do ponto de vista dos EUA) distante. (Aquelas demandas adicionais incluíam, pelo que se soube, que o Irã aceitasse ser vigiado por drones, que “fiscalizariam” desde a origem até o destino, todas as centrífugas que viessem a ser construídas no país, além de aceitar também que os EUA instalassem escutas no palácio do governo. Pois nada disso mereceu sequer uma linha de comentário “objetivo”, dos nossos “especialistas” ou dos nossos “jornalistas”).

A cobertura do Iraque não é diferente, sobretudo o que se viu e vê-se novamente, antes de cada nova guerra periódica ilegal de agressão, pelos EUA, contra aquele país. O ex-Relator Especial da ONU para a Palestina, Richard Falk, e o escritor Howard Friel realizaram, em 2004, pesquisa para avaliar a cobertura pré-guerra do Iraque, que o jornal New York Times ofereceu em 2003. Em mais de 70 artigos, o Times jamais mencionou as expressões “Carta da ONU” ou “lei internacional”. A pesquisa também demonstrou que “Não há qualquer espaço assegurado para divulgação da grande quantidade de argumentos em invocam a lei internacional ou que pregam a preservação da paz mundial, em oposição à guerra”. Mas são argumentos que só se ouvem longe dos corredores ocidentais do poder em Washington, Londres, Paris e Telavive – e que nossos “especialistas” “midiáticos” e jornalistas em geral ignoram completamente.

Isso não é debate, muito menos é debate democrático. A “ordem” dos dois partidos que rege a “democracia” nos EUA impede que a sociedade norte-americana discuta temas sobre os quais os dois partidos concordam integralmente: sobre manter estrutura monstro de estado militar; exceto no que tenha a ver com ampliar o estado militar, o resto do estado tem de ser encolhido até ser tornado totalmente impotente; sobre a prioridade absoluta assegurada às empresas, contra os cidadãos; sobre restringir liberdades civis, para assegurar que nada ameace as estruturas do status quo do poder militar.

Eric Prince - Chefe da gangue Blackwater (hoje Academi)

Assim sendo, no que tenha a ver com Irã, Iraque, Síria e outros casos assemelhados, a questão nunca é se se vai ou não à guerra: a questão é só o tipo de guerra a ser inventada. Falcões querem bombas. Pombos, sanções. A linha mais dura quer pôr os Marines lá. Os Democratas querem um exército de jihadis alugados. Todos querem os mercenários da empresa Academi. (Obama contratou a gangue antes conhecida como Blackwater, para trabalhar como se fosse a CIA, por, secos, US$250 milhões). E quando tivermos dado cabo do Estado Islâmico...

  • A questão não será alguma estratégia de retirada. Não!
  • A questão, então, será se os coturnos norte-americanos [no solo, no ar ou no mar] devem tomar o rumo oeste, para Damasco; ou leste, para Teerã.
  • A questão não é se os EUA devem cortar a ajuda que dão a Israel – por causa dos assassinatos de palestinos em massa, em Gaza e na Cisjordânia – ou se devem manter a ajuda.
  • A questão é quanto de terra os condomínios podem continuar a roubar dos palestinos, no Vale do Jordão, sem gerar incontrolável desprezo contra Israel. (De aplicar a lei internacional, outra vez, nem se cogita).
No front doméstico,

  • a questão não é se haverá pagador único ou assistência médica privada à saúde; a questão é se os cidadãos devem ser obrigados à força & malho, a comprar planos privados, ou se devem ser só aconselhados a comprar os mesmos planos.
  • A questão não é se se mantêm ou não as conquistas do New Deal: a questão é como fazer para destripá-las em tempo recorde.
  • A questão não é se os cidadãos devem ou não poder fiscalizar a ação dos políticos: a questão é onde armazenar os dados e se se roubam metadados de two-hop ou de three-hop.
  • A questão não é se se prendem ou não torturadores conhecidos: a questão é como redigir os relatórios dos ‘eventos’, de modo que os torturadores escapem de qualquer acusação.
  • A questão não é se se regulam ou não os doidos de Wall Street. A questão é, como disse o viscoso advogado Bennett Holiday, da indústria do petróleo, em Syriana, criar “a ilusão do devido processo legal”.
Nada disso implica dizer que os meios de jornalismo de massa não conheçam pontos de vista diferentes dos deles. Eles conhecem, mas só os reconhecem como pontos de vista possíveis se podem ser usados para ‘comprovar’ conclusão já definida. Ao longo do ano que está terminando, os jornais e televisões do noticiário de massa quase cansou a audiência, de tanto que falaram e falaram a favor do respeito à lei internacional.

Ucrânia -Bombardeio de um "check-point" próximo de Lugansk por forças da junta-de-Kiev
Howard Friel rastreou os registros de respostas ao fiasco ucraniano nas páginas do NYTimes. E o que descobriu? Quando a Crimeia, em plebiscito, pediu a reintegração à Rússia, e a Rússia aceitou a reintegração da Crimeia, o  NYTimes investiu furiosamente contra a tal “invasão”, agarrado ao argumento de que seria violação da lei internacional. Oito diferentes editoriais em apenas poucos meses, em tom frenético, para “detonar” o presidente Vladimir Putin da Rússia por causa da tal violação “ilegal” de direitos dos crimeanos, e o “desprezo”, o “pouco caso”, a “flagrante transgressão”, o ataque frontal... à lei internacional. Conclamações sem fim para que se tomassem medidas contra tal desconsideração do consenso global, cínica, descabida. Os aliados ocidentais que tratassem de agir para “reafirmar a lei internacional” e aplicar pesadas penalidades à Rússia, por  “atropelar sem qualquer cuidado” preceito sagrado, hiper-super sagrado, tipo “a soberania ucraniana”.

Em outras palavras, Washington apoia golpes contra governos eleitos em Kiev, na Síria e em Tegucigalpa, envia drones para “atropelar sem qualquer cuidado” fronteiras iemenitas, paquistanesas, somalis e outras fronteiras fracamente protegidas; e manda milhares de soldados, conselheiros e jihadistas armados pelos EUA para proteger os buracos negros onde operam os torturadores da CIA no Iraque e no Afeganistão. Mas melhor não nos metermos nessas contas. Debitemos todos os mortos por conta das brumas da guerra.

Afinal, a única lei que os EUA respeitam é a lei do excepcionalismo autoproclamado, definida em termos claros por Richard Falk como “transparência e prestação de contas à força para os fracos e vulneráveis; e sombras, as mais protetoras e discretas, para os fortes e os poderosos”.
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[*] Jason Hirthler é escritor, estrategista, e articulista com 15 anos de experiência na indústria de comunicações sociais. escreve usualmente para CounterpunchWorld Can not Wait, e outras comunidades políticas. Vive e trabalha em Nova York.
Recebe e-mails em  jasonhirthler@gmail.com
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Nota dos tradutores
[1] O “jornalismo” de O Estado de S.Paulo, que é o pior DO MUNDO, aproveita e “noticia”, logo de vez, a opinião de Israel sobre a bomba atômica do Irã :-D))))) . Totalmente de morrer de rir. Quem duvidar, confira em: Projeto atômico iraniano está mais imprevisível, diz Israel

domingo, 28 de abril de 2013

É a imprensa-empresa, estúpido!


26/4/2013, Robert Parry, Consortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Robert Parry
A imprensa-empresa nos EUA jamais foi “liberal”. Na melhor das hipóteses, pode-se dizer que houve períodos, em passado não muito distante, quando as grandes empresas-imprensa faziam melhor serviço, ao apresentar os fatos. E havia alguma imprensa “underground” que publicava algum material que a grande imprensa-empresa evitava.

Entreouvido na Vila Vudu: no Brasil, a imprensa-empresa jamais foi, sequer, “de centro”: sempre foi da “direita udenista mais fascista”; depois passou a ser “tucana-uspeana à moda Sorbonne & Chicago”; ultimamente, já é sionista, “opusdeizista” e “danuzaleãosista”, sempre fascista.

Segregação Racial nos EUA (anos 1950's e 1960's )
Assim, houve jornalistas que revelaram os horrores da segregação racial nos anos 1950s e 1960s; correspondentes de guerra expuseram parte da cruel violência da Guerra do Vietnã no final dos anos 1960s; algumas grandes empresas-jornais desafiaram o governo dos EUA e publicaram a história real, vazada, daquela guerra, em 1971; o Washington Post revelou uma parte (embora evidentemente não todos) dos crimes políticos de Richard Nixon em 1972-74; e o New York Times liderou a divulgação de uma parte da imunda história da CIA em meados dos anos 1970s.

Apesar de esse trabalho com certeza ofender a Direita e muitas alas do Establishment, todas aquelas matérias tiveram um elemento comum: todas eram histórias verdadeiras. Nesse sentido, não eram nem “liberais”, nem “conservadoras”, nem “centristas”. Eram jornalismo simplesmente acurado, bem feito – e contribuíram para trazer à vida outras instituições democráticas dos EUA, dos protestos nas ruas a pressão, pelos tribunais, contra quem chantageava e pressionava, com lobbies, funcionários do Estado.

História suja da CIA - Central Intelligence Agency (Serviço Secreto dos EUA)
Essa ressurgência da democracia participativa era o que os entrincheirados no poder mais temiam, fosse no sul segregacionista ou nos salões de painéis de carvalho nas paredes dos bancos de Wall Street e grandes empresas. E eles organizaram uma poderosa contra-ação, para simultaneamente (a) impedir novas “revelações” (provavelmente mais ameaçadoras a cada dia) de crimes e erros e vícios, e (b) para reassumir o controle dos canais de informação que influenciam o modo como o povo norte-americano vê o mundo.

Naquele contexto, uma das estratégias mais efetivas de propaganda sempre foi apresentar o jornalismo decente como “de esquerda” e desqualificar os jornalistas decentes como “antiamericanos”. Assim, muitos norte-americanos passariam a duvidar de qualquer informação de boa qualidade; ao mesmo tempo em que passariam a descartar a informação acurada, acusada de ter “viés político”.

Como jornalista empregado da Associated Press e da revista Newsweek nos anos 1980s, conheci várias dessas táticas de jogo duro, quando cobria o governo Reagan, e o governo Reagan tentava manipular a percepção dos cidadãos, inflando o mais possível inúmeras “ameaças externas” (de Manágua a Moscou) e demonizando alguns grupos nacionais (das “rainhas do bem-estar social” aos sindicatos em geral).

Os homens de Reagan referiam-se às suas principais metas como “chutar para bem longe a Síndrome do Vietnã”, quer dizer: apagar, na população dos EUA, qualquer resistência a qualquer movimento para nos arrastar, todos, outra vez, para guerras em países longínquos, empurrados por mentiras. Assista a seguir:


A guerra nas ondas do éter

A chave para o sucesso sempre foi conseguir controlar a maior quantidade possível de veículos de mídia noticiosa – fosse pela propriedade, nesse caso com empresas cujos proprietários fossem da Direita ativa; ou com pressão sobre os executivos dos veículos de notícias para que adotassem postura mais “patriótica”; ou por intimidação direta contra qualquer um que não se alinhasse.

As táticas deram certo, funcionaram como feitiço. Foram ajudadas por uma mudança na Esquerda, que vendeu ou fechou e, no geral, desistiu, de vários dos veículos da imprensa “underground” da era Vietnã, para concentrar-se “no local”, em questões locais: “pensar globalmente e agir localmente”, dizia a palavra-de-ordem daquele momento.

Essa combinação de fatores deu à Direita e aos conservadores do Establishment domínio completo sobre a imprensa de notícias. Como um exército que controlasse os céus, a Direita e os conservadores passaram a poder fazer o que bem entendessem, para detonar qualquer um que se interpusesse, fosse político, jornalista ou cidadão. Nenhum ser humano atento mais ao fato que à versão nunca mais estaria a salvo, na noite escura que desceu sobre o jornalismo-empresa.

O sucesso da Direita pode ser aferido em diferentes momentos do processo: quando os Republicanos conseguiram esconder o escândalo dos “Contra” do Irã, em 1987 e quando o presidente George H.W. Bush disse, depois de destruir o já destroçado exército iraquiano, em 1991: “chutamos para bem longe, de uma vez por todas, a Síndrome do Vietnã”.

Síndrome do Vietnã - os EUA saíram corridos da guerra provocada por eles mesmos
A realidade da imprensa-empresa de notícias – que só fez ampliar-se durante os anos 1990s e no início do novo século – já era, então, que a Direita podia inventar qualquer tema de propaganda, convertê-lo em noticiário e ter certeza de que milhões de norte-americanos engoliriam qualquer coisa. Assim, o presidente George W. Bush conseguiu inventar mentiras para invadir o Iraque em 2003 e os jornais, proprietários e jornalistas das empresas-imprensa não apenas nada fizeram para estabelecer a verdade como, até, o ajudaram a mentir.

Vez ou outra algumas vozes emergiam na Internet e em alguns veículos de baixa circulação e audiência, para desmentir as mentiras de Bush sobre a guerra do Iraque; mas não era difícil para a grande empresa-imprensa desqualificá-los ou ignorá-los. Foi preciso que se acumulasssem os erros e fracassos de Bush na Guerra do Iraque e outras crises locais e internacionais, para que, afinal, aquela potentíssima máquina de propaganda da direita começasse a engripar.

Mas a dinâmica geral nunca mudou. Sim, a rede MSNBC – depois de fracassar na tentativa de posicionar-se tão à extrema direita quanto a rede Fox News – moveu-se um pouco à esquerda, chegou quase ao centro, e conseguiu algum sucesso de audiência com interpretações “liberais” da política doméstica (mas sem jamais desafiar abertamente e seriamente o que o Establishment mandava dizer sobre política externa).

Há também alguns sites na Internet que desafiam a sabedoria convencional e apoiam ativamente o intervencionismo dos EUA em vários pontos do mundo, mas mal sobrevivem, do ponto de vista financeiro, e tem alcance limitado na população em geral.

Comprar as empresas, para escrever as notícias

Agora, tudo leva a crer que, nos próximos anos, a Direita norte-americana consolidará sua dominação sobre a imprensa-empresa de notícias. Em futuro próximo, algumas das mais conhecidas e influentes redes regionais de noticiário poderão já estar sob controle direto de ideólogos ativos da extrema direita nos EUA, como Rupert Murdoch ou os Irmãos Koch.

David e Charles Koch 
As Koch Industries, gigante de petróleo e gás, de propriedade privada, que oferece todos os recursos necessários para que Charles e David Koch financiem fartamente inúmeros think tanks libertaristas e organizações do movimento Tea Party, começam a testar a mão em ofertas para comprarem oito veículos regionais da Tribune Company, incluídos aí o Los Angeles Times, o Baltimore Sun, o Orlando Sentinel, o Hartford Courant e o Chicago Tribune, como se lê em matéria publicada no New York Times domingo passado.

Se comprarem os veículos do grupo Tribune, os Irmãos Koch Brothers ter-se-ão presenteado, eles mesmos, com mais uma importante plataforma para distribuir propaganda de extrema direita e fazer da vida política (e, provavelmente, também privada) dos adversários políticos, um perfeito inferno. Lembro, dos meus dias de repórter, cobrindo o Capitólio, do que todos os jornalistas sabiam: nada assusta mais um deputado ou senador, que a oposição obcecada do jornal regional de sua base eleitoral.

Rupert Murdoch
Outro que também deve apresentar-se para esse negócio, ou para comprar, pelo menos, o Los Angeles Times, é o magnata sionista Rupert Murdoch, que já é proprietário da rede Fox News e de poderosos jornais diários no Reino Unido e nos EUA, dentre os quais o Wall Street Journal

Do outro lado, concorrendo com esses pesos-pesados, há empresários um pouco mais liberais, de olho no Los Angeles Times, mas não se sabe se têm condições de competir com as gordas carteiras dos Irmãos Koch e Murdoch. O New York Times diz que as Indústrias Koch podem ter grande vantagem no negócio, porque comprariam, de uma vez, os oito jornais do grupo.

Alguns, no campo da Esquerda, zombam da ideia de investir na indústria “dinossauro” do jornalismo impresso e questionam o interesse, para a Esquerda, de contar com – que fosse! – pelo menos alguns desses títulos de prestígio no jornalismo dos EUA. Não há dúvidas de que, sim, muitos daqueles jornais estão em decadência, em quase todos os casos por erros de administração, de política empresarial e pela volatilidade dos dólares da publicidade.

Mas ainda são vozes influentes, que falam às populações das áreas metropolitanas interessadas em saber sobre o mundo. Os jornais também definem a pauta de discussão das TV locais e de muitos blogueiros, sobretudo dos blogueiros jornalistas. O Baltimore Sun, por exemplo, produziu a mais importante peça de jornalismo sobre os crimes contra direitos humanos no governo Reagan, na América Central; e publicou inúmeros importantes furos de bom jornalismo sobre espionagem praticada pelo governo Bush contra cidadãos norte-americanos.

Gary Webb
É verdade, sim, que vários dos grandes jornais desgraçaram-se, eles mesmo, nas últimas décadas, como o Los Angeles Times e a vergonhosa campanha que moveu contra o jornalista assassinado Gary Webb, depois que ele trouxe à tona o escândalo de “Contras” e cocaína, do governo Reagan, no final dos anos 1990s.

Mas páginas de Internet – mesmo as páginas, como este nosso Consortiumnews.com que tem declarado e forte interesse em fazer jornalismo investigativo – vivem sob a pressão da falta de recursos financeiros e de material humano para produzir esse tipo de projetos de investigação, que são caros, pelo menos com alguma regularidade.

Se não se organizarem maiores investimentos, de cidadãos e empresas honestas – seja na Velha Mídia impressa ou na Nova Mídia eletrônica, para que se produza jornalismo de melhor qualidade – os EUA continuarão a navegar para o fundo do poço, num mundo de ficção, interesses escusos, paranoia de Direita e fatos falsificados. E isso é grave risco para todo o planeta.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A crise do jornalismo face aos novos desafios da comunicação pública


Carlos CAMPONEZ [Universidade de Coimbra, Portugal], s/d
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

A actual crise dos media deve-se, em grande parte, ao facto de eles fundarem a sua legitimidade numa concepção individualista de liberdade que confunde liberdade de expressão, liberdade de imprensa e liberdade de empresa”.

A liberdade de expressão só para as empresas “de jornalismo”, de fato, não passa de variante ideológica da liberdade (liberaloide) de empreender e da liberdade (liberaloide) que os mercados ditos “livres” reivindicam como direito exclusivo, reservado, só deles”.


Entre a crítica e os “deslizes” contínuos da “mídia”

A crítica dos media não é um fenómeno contemporâneo. Voltaire dizia, já no século XVIII, que

«A imprensa, é preciso admiti-lo, tornou-se num flagelo da sociedade e numa pilhagem intolerável»  [1](3)

Balzac, no século seguinte, concluia a Monographie de la Presse Parisienne com o conhecido axioma:

«Se a imprensa não existisse, seria necessário não inventá-la»[2](4)

Interessa-nos, porém, perceber o renovar do debate e da crítica pública sobre o jornalismo [3](5), sobretudo a partir dos finais da década de 80, princípios da década de 90. Estamos numa altura rica em acontecimentos, desde a queda do Muro de Berlim às guerras na Somália, na Jugoslávia, no Golfo Pérsico. Trata-se, além do mais, de um período marcante também do ponto de vista das mudanças tecnológicas e do impacto das políticas neoliberais no sector dos media, como é o caso da desregulamentação dos sectores do audiovisual e das telecomunicações, na Europa e nos EUA, bem como a formação dos grandes grupos multimédia mundiais, um processo que se acelerou sobretudo no final dos anos 90.

Não temos qualquer pretensão de exaustividade perante a multiplicidade de situações e a riqueza do debate em torno das derrapagens éticas e deontológicas das coberturas jornalísticas dos media neste período. Permita-se-nos, no entanto, recordar a polémica em torno da cobertura jornalística dos acontecimentos em Timisoara, na Roménia, na Guerra do Golfo, no conflito da Jugoslávia, ou em casos em torno de figuras famosas, como Diana, O. J. Simpson e Bill Clinton/ Monica Lewinsky. Se, nestes casos, fomos, em Portugal, mais espectadores que protagonistas, também é verdade que temos as nossas especificidades para contar: Timor-Leste, ponte de Entre-os-Rios, Casa Pia, a morte de Fehér, só para referir alguns casos que, pela sua força, mais polémica geraram ou ainda continuam a ser tema de discussão.

Em 1991, a associação Médias 92 fazia um levantamento crítico dos erros mais comuns cometidos durante a Guerra do Golfo: não identificação das fontes de informação; manipulação dos media pelas autoridades oficiais políticas e militares; monopólio da informação bruta por um único medium (no caso, a CNN) que desempenhou um papel de «oráculo» e de «grossista de imagens»; subordinação da informação e da programação aos imperativos do directo; selecção das informações com base no critério da audiência em detrimento do critério da importância; tratamento hiperbólico da informação tendo por base uma cobertura jornalística em contínuo; cortes arbitrários de entrevistas, utilização de pequenas frases fora do seu contexto e traduções incorrectas; cronologia defeituosa e ausência de datação dos acontecimentos ou dos documentos apresentados; confusão entre as opiniões pessoais dos jornalistas e os seus comentários sobre a actualidade; vedetismo dos jornalistas, por vezes ultrapassando o exercício normal da profissão; corrida à cacha jornalística, à dramatização, à emoção, em resultado da forte concorrência entre os media, as televisões, as redacções e os próprios jornalistas (6)[4].

Não seria muito difícil encontrar estas e outras marcas de derrapagens jornalísticas nos casos portugueses já acima referenciados. No caso da cobertura jornalística do período pós-referendo em Timor-Leste, muitas destas questões puderam ser disfarçadas pelos fortes constrangimentos que pesaram sobre a cobertura jornalística, associada à ideia de uma causa nacional que justificou ou, pelo menos, desculpabilizou os meios utilizados e os erros cometidos[5](7). Mas no caso da ponte Hintz Ribeiro, em Entre-os-Rios, os excessos foram por demais evidentes.

Entrevistas a crianças, interpelação de populares em visível estado de comoção, cobertura extensiva e em directo da tragédia, a folclorização mediática do evento e a degenerescência informativa sob o efeito da concorrência das estações televisivas em busca das audiências, são algumas das referências que podemos encontrar na crítica do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas à cobertura do acontecimento  [6](8). A exaustiva cobertura televisiva transformou o jornalista numa espécie de animador com a função de não deixar espaços em branco durante as emissões desse «Show da Morte» [7](9), tentando trazer as famílias das vítimas para o palco das emoções para lhes perguntar: como se sente? A cobertura jornalística do caso Casa Pia ou, mais recentemente, da morte de Fehér – e, certamente, outros virão – têm servido apenas para reactualizar este debate, não obstante os pareceres das entidades reguladoras e os códigos deontológicos que regem a profissão.

Num levantamento dos textos deontológicos ocidentais, Jean-Marie Charon identifica os valores que regem a profissão.

Em primeiro lugar, destacam-se as questões relacionadas com princípios fundamentais: o respeito pela liberdade de informação, pela Justiça, pelo Estado de Direito e pela verdade/objectividade.

Em segundo lugar, seguem-se os aspectos relacionados com o respeito pelo público: não criar confusão entre informação, publicidade, promoção e propaganda; não truncar a informação; não mentir; não caluniar; não acusar sem provas; ser exacto; não espectacularizar; não discriminar; rectificar os erros.

Em terceiro lugar, aparecem os temas centrais dos códigos deontológicos do jornalismo, relacionados com o tratamento das fontes de informação: o respeito do segredo profissional; a não utilização de métodos de investigação desleais, tais como o recurso à compra de documentos; o respeito pela vida privada; a recusa da calúnia, da injúria e da acusação sem provas; a não alteração ou deturpação de documentos; a identificação das fontes, bem como a distinção entre factos e opiniões ou comentários dos jornalistas.

Finalmente, encontramos um conjunto de regras referentes à conduta entre jornalistas e ao respeito pela própria profissão: reconhecer ou apenas aceitar a jurisdição dos seus pares; recusar o plágio; recusar prendas, viagens, privilégios ou benesses; e respeitar o regime de incompatibilidades [8](10). Em traços gerais, este levantamento é coincidente com outros efectuados por Tiina Laitila [9](11), Benoît Grevisse, Claude-Jean Bertrand, Daniel Cornu, entre outros, sobre os códigos deontológicos do jornalismo europeu e ocidental.

A questão que parece resultar da análise que acabámos de fazer não pode ser outra que a constatação de um impasse: o consenso em torno das normas e dos princípios deontológicos não consegue, por si só, evitar as cíclicas derrapagens da cobertura jornalística, sobretudo em acontecimentos mais mediáticos e susceptíveis de mobilizarem as audiências.

Este facto põe em causa a capacidade de autorregulação dos jornalistas e dos media.

Mas, também aqui, nada de substancialmente novo. Jean-Claude Guillebaud dizia, em 1991, a propósito das críticas acerca da cobertura jornalística da Guerra do Golfo: «De crise em crise, o julgamento dos media prossegue. Mas não necessariamente avança. Conduzido muitas vezes pelos próprios media, hesita entre o exorcismo colectivo, a auto-flagelação e a explicação mono-causal, mais ou menos sentenciosa» [10](12)

O debate em torno das questões deontológicas do jornalismo arrisca-se a cair num cinismo tanto mais evidente quanto mais ele procura iludir as fragilidades dos próprios códigos. A este respeito diz-nos Mário Mesquita: «A deontologia constitui um instrumento de aperfeiçoamento dos jornalistas, individualmente considerados, ou um factor de identidade da profissão no seu conjunto. Mas não possui virtualidades suficientes para explicar as transformações políticas, económicas, sociais, tecnológicas e retóricas da comunicação social, nem as frequentes “derrapagens” mediáticas. A imagem das empresas e dos jornalistas pode reforçar-se ou melhorar com a revalorização da “ética profissional”. Chega sempre o momento das homenagens que “o vício presta à virtude”.

Mas a deontologia-todo-poderosa, salvadora dos cidadãos, essa, só existe na imaginação generosa dos ingénuos ou na estratégia cínica de alguns “comunicadores”» [11](13). João Pissarra Esteves, salienta, por seu lado, a componente ideológica da deontologia no discurso profissional dos jornalistas. «O seu discurso de superfície assume a intencionalidade ética de projectar os media como instrumentos fundamentais da democracia – com base na sua função informativa e num conjunto de valores de referência (neutralidade, verdade, objectividade, distanciamento, etc.). Mas a grande ilusão desta ideologia está na crença de que os jornalistas, só por si e sem qualquer mudança estrutural profunda, podem condicionar decisivamente o funcionamento democrático dos media» [12](14). (...).

Conclusão
Se é verdade que, retomando Wolton, poderíamos dizer que a inovação tecnológica, o fim das ditaduras, o reconhecimento da liberdade de expressão e a superação da debilidade económica dos media aumentaram o seu poder e a sua visibilidade, também não deixa de ser verdade que, concomitantemente, a sua legitimidade tem vindo a ser cada vez mais questionada.

A actual crise dos media deve-se, em grande parte, ao facto de eles fundarem a sua legitimidade numa concepção individualista de liberdade que confunde liberdade de expressão, liberdade de imprensa e liberdade de empresa. Ora, o direito à comunicação é muito mais que um direito de expressão. Ao retirar aos media o monopólio da opinião, estaremos a reduzir o seu poder no quadro da determinação da opinião pública, mas estaremos também a delimitar-lhe as suas responsabilidades e a sua legitimidade. [o que é muuuuuuuuito necessário, urgentíssimo, se queremos ter melhor democracia (Vila Vudu)].
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Notas de rodapé

[1](3) Apud Alain WOODROW, Les Médias – Quatrième pouvoir ou cinquième colonne ?, Paris, Félin, 1996, p. 11.
[2](4) Honoré de BALZAC, Les Journalistes – Monographie de la presse parisienne suivi Des salons littéraires, Paris, Arléa, 1999, p. 143.
[3](5) Élizabeth Martichoux faz eco desse debate em França, através de publicações que foram sucesso de vendas, como foi o polémico livro de Pierre PÉAN e Philippe COHEN, La Face Cachée du Monde (221 mil exemplares vendidos em Setembro de 2003). Élizabeth MARTICHOUX, Les Journalistes, Paris, Le Cavalier Bleu, col. «Idées Reçues – Économie & Société», 2003, p.21.  
[4](6) MÉDIAS 92 e Bertrand COUSIN, Propositions Sur la Déontologie de L’Information – Presse écrite, radios et télévisions, 5 de Fevereiro de 1991. Apud Jacques LEPRETTE e Henri PIGEAT (org.), Éthique et Qualité de L’Information, Paris, Presses Universitaires de France, col. «Cahier des sciences morales et politiques, 2004, p. 28.
[5](7) Cf. Jornalismo e Jornalistas, nº1, Janeiro – Março, 2000.
[6](8) Cf. Jornalismo e Jornalistas, nº 5, Abril-Junho de 2001, pp. 6 a 8. O destaque deste número foi dedicado ao tema «Entre-os-Rios e o Jornalismo», com base no debate realizado na imprensa acerca da cobertura jornalística efectuada aos acontecimentos.
[7](9) José Pacheco PEREIRA, «O “Show” da morte», Jornalismo e Jornalistas, op. cit., p. 8.
[9](11) Tiina Laitila, «Journalistic codes of ethics in Europe», European Journal of Communication, vol. X, nº 4, pp. 527-544, 1995.
[10](12) Jean-Claude GUILLEBAUD, «Crise des médias ou de la démocratie ?», La Revue Nouvelle, nº 6, Junho, 1992, p. 36.
[11](13) Mário MESQUITA, «A turbodeontologia», in: Público, 16 de Março de 2001. Este texto pode ser encontrado na revista Jornalismo e Jornalistas, op. cit., p. 13.
[12](14) João Pissarra ESTEVES, A Ética da Comunicação e dos Media ModernosLegitimidade e poder nas sociedades complexas, Lisboa, Gulbenkian/JNICT, 1998, p. 22.