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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Fracasso do jornalismo e triunfo da propaganda

5/12/2014, Logan Symposium, [*] John Pilger (vídeo 20’49”)
Traduzido da transcrição pelo pessoal da Vila Vudu


Mas a influência nefasta do império de Murdoch não é maior nem mais nefasta que a influência do que se conhece como “imprensa-empresa séria”. A propaganda midiática mais efetiva não se encontra nem no Sun nem no canal Fox News de Murdoch – mas nos jornais e televisões ditos “sérios”, acobertados por um halo de jornalismo liberal e pressuposto respeitável.

Quando o New York Times publicou a notícia inventada segundo a qual Saddam Hussein teria armas de destruição em massa, todos acreditaram, porque o veículo não era o canal Fox News de Murdoch: era o New York Times.



Por que o jornalismo sucumbiu tão completamente à propaganda? Por que censura e distorção são a prática padrão? Por que a BBC é, tão frequentemente, porta voz dos poderosos mais rapaces? Por que o New York Times e o Washington Post mentem diariamente aos seus leitores-consumidores?

Por que os jovens jornalistas não são ensinados a compreender as agendas dos veículos e a se contrapor a elas, denunciando a distância que separa os altos objetivos declarados e a realidade da ‘objetividade’ mais falsa? E por que não são ensinados que a essência de praticamente tudo que costumamos chamar de “imprensa-empresa dominante” nunca é informação, mas é só e sempre, poder?

Essas são perguntas que clamam por respostas urgentes. O mundo está diante do risco de grande guerra, talvez guerra nuclear – com os EUA claramente decididos a isolar e provocar a Rússia e provavelmente, em breve, também a China. Essa verdade está sendo invertida, apresentada de cabeça para baixo e pés para cima, por jornalistas – entre os quais, claro, também os que divulgaram como se fossem notícias, as mentiras que levaram ao banho de sangue no Iraque em 2003.

Vivemos tempos tão perigosos e tão distorcidos, para a percepção pública, que a propaganda deixou de ser, como Edward Bernays a chamou, “um governo invisível”. Agora já é mando autoritário perfeitamente visível. Governa sem medo de ser contraditado e seu principal objetivo é nos conquistar: conquistar para ele a nossa visão do mundo, bloquear completamente nossa capacidade para separar mentira e verdade.

A era da informação é, na verdade, a era da imprensa-empresa. A imprensa-empresa produz guerra; a imprensa-empresa censura; a imprensa-empresa demoniza quem queira; a imprensa-empresa vinga-se; a imprensa-empresa afasta a atenção dos eleitores do que a imprensa-empresa não queira que seja sabido – a imprensa-empresa é uma linha de montagem surreal de clichês de rendição e pressupostos mentirosos.

Esse poder para criar uma nova “realidade” foi construído ao longo de muito tempo. Há 45 anos, um livro intitulado The Greening of America fez furor. Na capa, lia-se:

Há uma revolução em marcha. Não será como as revoluções passadas. Dessa vez, a revolução nascerá com o indivíduo.

Eu trabalhava como correspondente nos EUA e lembro bem como, da noite para o dia, o autor – um jovem aluno de Yale – Charles Reich recebeu status de guru. A mensagem era que a ação política e o trabalho de informar a verdade haviam fracassado, e só a “cultura” e a introspecção poderiam mudar o mundo.

Em poucos anos, movido pelas forças do lucro, o culto do “eu-mesmo-ismo” já atropelara mortalmente nosso senso de ação conjunta, de justiça social e de internacionalismo. Classe, gênero e raça foram separados. Se era individualista e pessoal... era “político”. E empresa-imprensa, já então chamada “mídia”, era a mensagem.

No começo da guerra fria, a fabricação-invenção de novas “ameaças” completou o serviço de completa desorientação política para todos que, 20 anos antes, ainda teriam constituído uma oposição veemente.

Em 2003, filmei uma entrevista em Washington com Charles Lewis, respeitado jornalista investigador norte-americano. Discutimos a invasão ao Iraque, acontecida meses antes. Perguntei-lhe:

E se a imprensa-empresa mais livre do mundo tivesse denunciado as mentiras de George Bush e Donald Rumsfeld e investigado tudo que eles diziam, em vez de pôr em circulação tudo que, como adiante se viu, não passava de propaganda a mais nua-e-crua?

Lewis respondeu que:

(..) se nós jornalistas tivéssemos feito o que era nosso trabalho e nosso deverhaveria boa, muito boa probabilidade de que os EUA não tivessem feito guerra ao Iraque”.

É conclusão estarrecedora, mas apoiada por outros jornalistas aos quais fiz a mesma pergunta. Dan Rather, ex-CBS, deu-me a mesma resposta. David Rose do Observer e consagrados jornalistas e produtores na BBC, que pediram para que seus nomes não fossem divulgados, disseram a mesma coisa.

Em outras palavras: se os jornalistas tivessem feito jornalismo, se tivessem perguntado e investigado, em vez de só repetir e amplificar a propaganda que recebiam pronta, centenas de milhares de homens, mulheres e crianças não teriam morrido; e milhões não teriam perdido as próprias casas; e a guerra sectária entre sunitas e xiitas não teria sido insuflada; e talvez nem existisse o famigerado Estado Islâmico.

Ainda hoje, apesar dos milhões que tomaram as ruas em protestos, a maioria das populações nos países ocidentais absolutamente ainda não tem nem ideia da escala gigante do crime que os governos ocidentais cometeram no Iraque. Menos gente ainda sabe que, nos 12 anos antes da invasão, os governos de EUA e Grã-Bretanha puseram em movimento um holocausto – negando à população civil iraquiana os meios mínimos para a sobrevivência.

Essa são as palavras do principal funcionário britânico responsável por sanções impostas ao Iraque nos anos 1990s – um sítio medieval que provocou a morte de meio milhão de crianças com menos de cinco anos, como a UNICEF relatou. O nome do funcionário é Carne Ross. No Ministério de Relações Exteriores em Londres, ficou conhecido como “Mr. Iraq”. Hoje, se ocupa com contar, afinal, a verdade, sobre como o governo britânico mentia e os jornalistas acorriam, lépidos, sempre dispostos a divulgar o mais possível toda e qualquer mentira que lhes chegasse aos ouvidos.

Alimentávamos os jornalistas com factoides que a inteligência nos passava, depois de “aprovados” – disse-me ele. – Ou os mantínhamos absolutamente longe de qualquer fato.

O principal “sentinela tocador do apito de alarme” durante aquele período negro de informação falsificada foi Denis Halliday. Então Secretário-Geral Assistente da ONU e alto funcionário da ONU no Iraque, Halliday renunciou ao cargo e à carreira, para não ter de implementar políticas que ele descreveu como “genocidas”. Halliday estima que as sanções impostas por EUA e Grã-Bretanha ao Iraque mataram mais de um milhão de iraquianos.

O que então aconteceu a Halliday é muito instrutivo. Foi apagado do mundo. Ou foi convertido em agente do mal. No programa “Newsnight”, da BBC, o apresentador Jeremy Paxman berrou-lhe:

Você não é defensor elogiador de Saddam Hussein?

Recentemente, The Guardian descreveu essa cena como um dos “momentos memoráveis” da carreira de Paxman. Semana passada, Paxman assinou contrato de 1 milhão de libras, para escrever um livro.

Os limpa-penicos da supressão do jornalismo fizeram bem feito o seu trabalho imundo. Considerem os efeitos. Em 2013, pesquisa da ComRes descobriu que a maioria da população britânica acreditava que haviam morrido no Iraque “menos de 10 mil pessoas” – fração ínfima da verdade. O rastro de sangue que vai do Iraque a Londres havia sido esfregado a golpes de “mídia”, até quase sumir.

Rupert Murdoch é conhecido como o chefão da “máfia midiática”, e ninguém deve duvidar do estarrecedor poder de seus jornais – são 127, com circulação somada de 40 milhões de jornais, e de sua rede Fox. Mas a influência nefasta do império de Murdoch não é maior nem mais nefasta que a influência do que se conhece como “a mídia mais ampla”.

A propaganda mais efetiva não se encontra nem no Sun nem no Fox News de Murdoch – mas nos jornais e televisões ditos “sérios”, acobertados por um halo de jornalismo liberal e pressuposto “civilizado”.

Quando o New York Times publicou a notícia inventada segundo a qual Saddam Hussein teria armas de destruição em massa, todos acreditaram porque o veículo não era o canal Fox News de Murdoch: era o New York Times.

O mesmo vale para o Washington Post e The Guardian, empresas-imprensa que, ambas, tiveram função criticamente decisiva no condicionamento dos seus leitores-consumidores, até que aceitassem nova e perigosa guerra fria. Todos esses veículos da imprensa-empresa neoliberal falsearam o noticiário dos eventos na Ucrânia, apresentado como se a Rússia tivesse cometido algum crime – quando, na verdade, aconteceu ali um golpe fascista liderado pelo EUA, ajudado pela Alemanha e pela OTAN.

A inversão da verdade e do fato é tão generalizada, que já nem se discutem, nos EUA, os movimentos de intimidação e provocação militar que Washington realiza contra a Rússia, nem se ouve qualquer oposição a eles. Não se ouve notícia alguma, todas suprimidas e censuradas por trás de uma campanha de geração de medo social, do tipo sob o qual cresci, durante a primeira guerra fria.

Mais uma vez, o império do mal vem nos pegar, liderado por novo Stalin, ou perversamente, por novo Hitler. Escolha seu judas e pode malhá-lo até a morte.

A ocultação dos fatos reais sobre a Ucrânia é processo dos mais completos, de blecaute de notícias de que me recordo em toda a minha vida. E acompanha a maior concentração de militares ocidentais no Cáucaso e no leste da Europa, desde o final da IIª Guerra Mundial.

A ajuda secreta que Washington deu a Kiev e às suas brigadas neonazistas responsáveis por crimes de guerra contra a população do leste da Ucrânia foi apagada do mundo. Todas as provas que desmentem a propaganda segundo a qual a Rússia teria sido responsável por abater em pleno voo um avião civil malaio com 300 passageiros foram apagadas do mundo.

E, mais uma vez, a imprensa-empresa neoliberal pressuposta séria faz as vezes de censor. Apaga fatos, nada de provas, apareceu até um jornalista para identificar um líder pró-Rússia na Ucrânia como o homem que, pessoalmente, teria derrubado o avião. Esse homem, escreveu o tal jornalista, é conhecido como O Demônio. Sujeito assustador, que apavorou o jornalista. Pronto. Está tudo investigado e comprovado.

Muitos, nas imprensa-empresas ocidentais trabalharam duro para apresentar a população de russos étnicos que vive na Ucrânia como outsiders, forasteiros em seu próprio país, nunca como ucranianos que desejam ser integrados à Federação Russa, como cidadãos ucranianos em luta de resistência contra um golpe orquestrado contra governo que eles mesmos elegeram.

O que o presidente da Rússia tenha a dizer não importa; é o vilão da pantomima que se pode malhar à vontade, sem consequências. Um general norte-americano que dirige a OTAN e é perfeita reencarnação do Dr. Strangelove, o “Dr. Fantástico” – o tal general Breedlove – reclama todos os dias de invasões russas, sem um fiapo de comprovação. É a personificação do general Jack D. Ripper, de Stanley Kubrick.

40 mil russos estariam reunidos na fronteira, fortemente armados, disse o Dr. Fantástico, digo, o general Breedlove. Pois foi o que bastou para alimentar o “noticiário” do New York Times, do Washington Post e do Observer – esse último, depois de ter-se destacado pelo empenho com que publicou, como se fosse informação, as mentiras e delírios que serviram de “base” para a invasão ao Iraque ordenada por Blair – como revelou um ex-repórter, David Rose.

Há quase que o “prazer espiritual” de uma reunião de classe. Os batedores-de-tambor de repetição do Washington Post [de O Estado de S.Paulo, da Folha de S.Paulo, da rede Globo, da rede Bandeirantes e toooooodas as unidades repetidoras pelo Brasil inteiro (NTs)] são os mesmos redatores de editoriais que declararam que a existência das armas de destruição em massa de Saddam seria “fato comprovado”.

Se você não compreende – escreveu Robert Parry – como é possível que o mundo tenha chegado às portas da terceira guerra mundial, do mesmo modo como chegou às portas da primeira guerra mundial há um século, tudo que tem de fazer, para entender, é observar a loucura que tomou contra de virtualmente toda a estrutura político-informacional nos EUA [e também no Brasil, porque por aqui não se produz noticiário internacional, só se reproduz, copiado das empresas-imprensa-agências norte-americanas (NTs)], sobre a Ucrânia. Uma falsa narrativa de bons contra maus tomou conta de tudo desde o início. E, com o tempo, tornou-se impenetrável a qualquer fato ou informação racionalmente produzidos.

Parry, o jornalista que investigou e expôs todo o caso dos “Contras” do Irã, é um dos poucos profissionais que investiga o papel crucialmente decisivo que têm as empresas-imprensa da “mídia” no que o ministro de Relações Exteriores da Rússia chamou de “jogo das galinhas assustadas” [que correm cacarejando alto, antes até de saberem o que realmente está acontecendo (NTs)]. Mas será mesmo jogo?

No momento em que escrevo esse texto, o Congresso dos EUA está votando a Resolução n. 758 que, em resumo, ordena “os EUA que se preparem imediatamente para guerra à Rússia”.

No século XIX, o escritor Alexander Herzen descreveu o liberalismo secular como “a última religião, embora sua igreja não seja do outro mundo, mas desse”. Hoje, esse direito divino é muito mais violento e perigoso que qualquer coisa que o mundo muçulmano produza, porque seu principal triunfo é a ilusão da informação livre e aberta.

Nos noticiários, países inteiros são varridos do mundo. A Arábia Saudita, fonte de todo o extremismo e do terror apoiado pelo ocidente, não é assunto – se não quando abaixa o preço do petróleo, apresentada então praticamente como associação de filantropia universal. O Iêmen sofreu 12 anos sob ataques de drones norte-americanos. Quem soube? Quem se incomoda?

Em 2009, a Universidade do Oeste da Inglaterra [orig. University of the West of England] publicou os resultados de um estudo de dez anos sobre a cobertura que a BBC dera à Venezuela. Das 304 matérias levadas ao ar, só três mencionavam qualquer das políticas socialmente mais importantes introduzidas pelo governo de Hugo Chávez. O maior programa de alfabetização em massa (que erradicou o analfabetismo na Venezuela)da história da humanidade recebeu duas linhas de comentário.

Na Europa e nos EUA, milhões de leitores e de telespectadores sabem praticamente nada sobre as mudanças dramáticas, de melhoria na qualidade de vida que foram implantadas na América Latina, muitas delas inspiradas em Chávez. Como na BBC, também as matérias publicadas no New York Times, no Washington Post, no Guardian [em O Estado de S.Paulo, na Folha de S.Paulo, na rede Globo, na rede Bandeirantes e em tooooooodas as respectivas unidades repetidoras pelo Brasil inteiro (NTs)] e no resto de toda a “respeitável” imprensa-empresa “séria” no ocidente, tudo foi sempre redigido e distribuído de má fé. Zombaram de Chávez até em seu leito de morte. E fico a pensar: como será que ensinam a fazer exatamente assim, sempre a mesma coisa, em escolas de jornalismo?

Por que milhões de pessoas na Grã-Bretanha aceitam e deixam-se convencer de que esse castigo coletivo chamado “austeridade” seria necessário?! Que seria, mesmo, recomendável?!

Logo depois do crash econômico em 2008, o que se viu exposto foi um sistema apodrecido. Por um átimo de segundo os bancos foram “noticiados” como escroques, com deveres para com o público que haviam assaltado e traído.

Mas em apenas poucos meses – exceto uma poucas pedras lançadas contra “bônus” pagos pelas empresas de roubo aos roubadores profissionais – a mensagem já mudara completamente. As caricaturas e as críticas contra banqueiros-bandidos desapareceram da “mídia” e dos veículos de massa da imprensa-empresa. E começou o tempo de glorificação de algo chamado “austeridade” – para a desgraça de milhões de pessoas comuns. Houve algum dia tunga mais ousada que essa?

Hoje, muitas das bases e fundamentos da vida civilizada na Grã-Bretanha estão sendo desmanteladas, para pagar dívida fraudulenta, a dívida dos escroques. Os cortes de “austeridade” parecem chegar a 83 bilhões de libras. É quase exatamente o total de impostos sonegados por aqueles mesmos bancos e empresas-imprensa escroques, como a Amazon britânica e o jornal britânico de Murdoch, News UK. E os bancos dos escroques estão recebendo subsídio anual de 100 bilhões de libras, em avais, garantias e seguros grátis – dinheiro suficiente para financiar toda a Saúde Pública Nacional.

A crise econômica é pura propaganda. Hoje, a Grã-Bretanha, os EUA, grande parte da Europa, Canadá e Austrália são governados por políticos extremistas. Quem fala pela maioria? Quem está construindo a narrativa da maioria? Quem oferece informação confiável? Quem organiza e preserva registros corretos de fatos reais? Não é o que os jornalistas existem para fazer?!

Em 1977, Carl Bernstein, afamado depois de Watergate, revelou que mais de 400 jornalistas e diretores de grandes empresas-imprensa trabalhavam então para a CIA. A lista incluía jornalistas do New York TimesTime e das redes de televisão. Em 1991, Richard Norton Taylor do Guardian revelou números semelhantes, sobre seu país.

Hoje já nada disso é necessário. Duvido muito que alguém tenha tido de pagar ao Washington Post e a muitos outros veículos das empresas-imprensa para que se pusessem a acusar Edward Snowden de ajudar terroristas. Duvido que alguém precise pagar os que rotineiramente ofendem Julian Assange – embora, sim, haja muitas recompensas.

Para mim, é perfeitamente claro que a principal razão pela qual Assange atraiu tanta ira, violência e inveja é que WikiLeaks pôs a nu toda uma elite política corrupta que é mantida à tona e no poder exclusivamente por jornalistas e jornalismos.

Ao inaugurar uma extraordinária era de abertura e transparência, Assange fez inimigos mortais, porque expôs o papel das imprensas-empresas, como guardiãs da corrupção. Assange tornou-se, simultaneamente, o arqui-inimigo, um alvo preferencial e, também, uma galinha dos ovos de ouro! [No Brasil TODAS as empresas do grupo GAFE (Globo, Abril, Folha de SP e Estadão)e afiliadas são guardiãs da CORRUPÇÃO e do GOLPISMO (Nrc)].

Assinaram-se contratos lucrativos para livros e para filmes Hollywoodianos, e carreiras chegaram aos píncaros da glória, nas costas de WikiLeaks e seu criador. Muita gente ganhou muito dinheiro, enquanto WikiLeaks lutava para não morrer.

Nada disso foi mencionado em Estocolmo, dia 1/12/2014, quando o editor do Guardian, Alan Rusbridger, partilhou com Edward Snowden o “Right Livelihood Award”, conhecido como o Prêmio Nobel da Paz alternativo. O mais chocante daquele evento foi que Assange e WikiLeaks foram apagados do mundo. Como se não tivessem existido. Como se fossem não pessoas. Ninguém falou em defesa do criador, do pioneiro absoluto do movimento de dar o alarme, de avisar do perigo mortal que se esconde na manipulação do noticiário pela imprensa-empresa. O homem que deu de presente ao Guardian um dos maiores furos de toda a história. E o mais importante de tudo: foram Assange e sua equipe de WikiLeaks quem, de fato – e brilhantemente – resgataram Edward Snowden em Hong Kong e o puseram em total segurança [em Moscou, onde hoje vive e trabalha]. Nem uma palavra.

O que tornou ainda mais gritante, irônica e desgraçada aquela censura por omissão, foi que a tal cerimônia realizava-se no Parlamento da Suécia – parlamento e autoridades cujo vergonhoso silêncio no caso construído contra Assange colaborou para um dos maiores golpes jamais assestados contra a justiça em Estocolmo.

Quando a verdade é substituída pelo silêncio – disse o dissidente soviético Yevtushenko – o silêncio torna-se mentira.

Esse tipo de silêncio-mentira tem de ser quebrado pelos jornalistas. Que todos olhemos nossa própria cara no espelho. Temos de chamar às falas a imprensa-empresa subalterna ao poder e ao dinheiro, e a psicose que mais uma vez ameaça arrastar o mundo à guerra.

No século XVIII, Edmund Burke descreveu o papel da imprensa como um Quarto Estado que fiscalizaria os poderosos. Não sei sequer se alguma imprensa-empresa algum dia fez tal coisa. Mas sei, com certeza absoluta, que, hoje, nenhuma faz. Acho que precisamos de um Quinto Estado: jornalismo que monitore, que desconstrua e que enfrente a propaganda e que ensine os mais jovens a defender os mais fracos e mais pobres, não dos mais ricos e mais poderosos.

Para mim, jornalismo tem de ser a insurreição do saber subjugado.

Estamos diante do centenário da Iª Guerra Mundial. Foi quando começou a glória de jornalistas e repórteres, sempre tão mais prestigiados e recompensados quanto mais dedicados ao silêncio mais acovardado. No auge do banho de sangue, o Primeiro-Ministro britânico, David Lloyd George, confidenciou a C.P. Scott, editor do Manchester Guardian:

Se as pessoas conhecessem a verdade, a guerra acabaria amanhã cedo. Mas não conhecem nem podem conhecer.

Ainda não conhecem. Mas, com certeza, já é hora de conhecerem. 


[*] John Pilger − nasceu em Bondi na área metropolitana de Sydney, Austrália, 9 de outubro 1939. A carreira de Pilger como repórter começou em 1958; ao longo dos anos tornou-se famoso pelos artigos, livros e documentários que escreveu e/ou produziu. Apesar das tentativas de setores conservadores de desvalorizar Pilger, o seu jornalismo investigativo já mereceu vários galardões, tais como a atribuição, por duas vezes, do prêmio de Britain’s Journalist of the Year Award na área dos dos Direitos Humanos. No Reino Unido é mais conhecido pelos seus documentários, particularmente os que foram rodados no Camboja e no Timor−Leste. Trabalhou ainda como correspondente de guerra em vários conflitos, como na Guerra do Vietnam, no Camboja, no Egito, na Índia, em Bangladesh e em Biafra. Atualmente reside em Londres.

domingo, 28 de abril de 2013

É a imprensa-empresa, estúpido!


26/4/2013, Robert Parry, Consortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Robert Parry
A imprensa-empresa nos EUA jamais foi “liberal”. Na melhor das hipóteses, pode-se dizer que houve períodos, em passado não muito distante, quando as grandes empresas-imprensa faziam melhor serviço, ao apresentar os fatos. E havia alguma imprensa “underground” que publicava algum material que a grande imprensa-empresa evitava.

Entreouvido na Vila Vudu: no Brasil, a imprensa-empresa jamais foi, sequer, “de centro”: sempre foi da “direita udenista mais fascista”; depois passou a ser “tucana-uspeana à moda Sorbonne & Chicago”; ultimamente, já é sionista, “opusdeizista” e “danuzaleãosista”, sempre fascista.

Segregação Racial nos EUA (anos 1950's e 1960's )
Assim, houve jornalistas que revelaram os horrores da segregação racial nos anos 1950s e 1960s; correspondentes de guerra expuseram parte da cruel violência da Guerra do Vietnã no final dos anos 1960s; algumas grandes empresas-jornais desafiaram o governo dos EUA e publicaram a história real, vazada, daquela guerra, em 1971; o Washington Post revelou uma parte (embora evidentemente não todos) dos crimes políticos de Richard Nixon em 1972-74; e o New York Times liderou a divulgação de uma parte da imunda história da CIA em meados dos anos 1970s.

Apesar de esse trabalho com certeza ofender a Direita e muitas alas do Establishment, todas aquelas matérias tiveram um elemento comum: todas eram histórias verdadeiras. Nesse sentido, não eram nem “liberais”, nem “conservadoras”, nem “centristas”. Eram jornalismo simplesmente acurado, bem feito – e contribuíram para trazer à vida outras instituições democráticas dos EUA, dos protestos nas ruas a pressão, pelos tribunais, contra quem chantageava e pressionava, com lobbies, funcionários do Estado.

História suja da CIA - Central Intelligence Agency (Serviço Secreto dos EUA)
Essa ressurgência da democracia participativa era o que os entrincheirados no poder mais temiam, fosse no sul segregacionista ou nos salões de painéis de carvalho nas paredes dos bancos de Wall Street e grandes empresas. E eles organizaram uma poderosa contra-ação, para simultaneamente (a) impedir novas “revelações” (provavelmente mais ameaçadoras a cada dia) de crimes e erros e vícios, e (b) para reassumir o controle dos canais de informação que influenciam o modo como o povo norte-americano vê o mundo.

Naquele contexto, uma das estratégias mais efetivas de propaganda sempre foi apresentar o jornalismo decente como “de esquerda” e desqualificar os jornalistas decentes como “antiamericanos”. Assim, muitos norte-americanos passariam a duvidar de qualquer informação de boa qualidade; ao mesmo tempo em que passariam a descartar a informação acurada, acusada de ter “viés político”.

Como jornalista empregado da Associated Press e da revista Newsweek nos anos 1980s, conheci várias dessas táticas de jogo duro, quando cobria o governo Reagan, e o governo Reagan tentava manipular a percepção dos cidadãos, inflando o mais possível inúmeras “ameaças externas” (de Manágua a Moscou) e demonizando alguns grupos nacionais (das “rainhas do bem-estar social” aos sindicatos em geral).

Os homens de Reagan referiam-se às suas principais metas como “chutar para bem longe a Síndrome do Vietnã”, quer dizer: apagar, na população dos EUA, qualquer resistência a qualquer movimento para nos arrastar, todos, outra vez, para guerras em países longínquos, empurrados por mentiras. Assista a seguir:


A guerra nas ondas do éter

A chave para o sucesso sempre foi conseguir controlar a maior quantidade possível de veículos de mídia noticiosa – fosse pela propriedade, nesse caso com empresas cujos proprietários fossem da Direita ativa; ou com pressão sobre os executivos dos veículos de notícias para que adotassem postura mais “patriótica”; ou por intimidação direta contra qualquer um que não se alinhasse.

As táticas deram certo, funcionaram como feitiço. Foram ajudadas por uma mudança na Esquerda, que vendeu ou fechou e, no geral, desistiu, de vários dos veículos da imprensa “underground” da era Vietnã, para concentrar-se “no local”, em questões locais: “pensar globalmente e agir localmente”, dizia a palavra-de-ordem daquele momento.

Essa combinação de fatores deu à Direita e aos conservadores do Establishment domínio completo sobre a imprensa de notícias. Como um exército que controlasse os céus, a Direita e os conservadores passaram a poder fazer o que bem entendessem, para detonar qualquer um que se interpusesse, fosse político, jornalista ou cidadão. Nenhum ser humano atento mais ao fato que à versão nunca mais estaria a salvo, na noite escura que desceu sobre o jornalismo-empresa.

O sucesso da Direita pode ser aferido em diferentes momentos do processo: quando os Republicanos conseguiram esconder o escândalo dos “Contra” do Irã, em 1987 e quando o presidente George H.W. Bush disse, depois de destruir o já destroçado exército iraquiano, em 1991: “chutamos para bem longe, de uma vez por todas, a Síndrome do Vietnã”.

Síndrome do Vietnã - os EUA saíram corridos da guerra provocada por eles mesmos
A realidade da imprensa-empresa de notícias – que só fez ampliar-se durante os anos 1990s e no início do novo século – já era, então, que a Direita podia inventar qualquer tema de propaganda, convertê-lo em noticiário e ter certeza de que milhões de norte-americanos engoliriam qualquer coisa. Assim, o presidente George W. Bush conseguiu inventar mentiras para invadir o Iraque em 2003 e os jornais, proprietários e jornalistas das empresas-imprensa não apenas nada fizeram para estabelecer a verdade como, até, o ajudaram a mentir.

Vez ou outra algumas vozes emergiam na Internet e em alguns veículos de baixa circulação e audiência, para desmentir as mentiras de Bush sobre a guerra do Iraque; mas não era difícil para a grande empresa-imprensa desqualificá-los ou ignorá-los. Foi preciso que se acumulasssem os erros e fracassos de Bush na Guerra do Iraque e outras crises locais e internacionais, para que, afinal, aquela potentíssima máquina de propaganda da direita começasse a engripar.

Mas a dinâmica geral nunca mudou. Sim, a rede MSNBC – depois de fracassar na tentativa de posicionar-se tão à extrema direita quanto a rede Fox News – moveu-se um pouco à esquerda, chegou quase ao centro, e conseguiu algum sucesso de audiência com interpretações “liberais” da política doméstica (mas sem jamais desafiar abertamente e seriamente o que o Establishment mandava dizer sobre política externa).

Há também alguns sites na Internet que desafiam a sabedoria convencional e apoiam ativamente o intervencionismo dos EUA em vários pontos do mundo, mas mal sobrevivem, do ponto de vista financeiro, e tem alcance limitado na população em geral.

Comprar as empresas, para escrever as notícias

Agora, tudo leva a crer que, nos próximos anos, a Direita norte-americana consolidará sua dominação sobre a imprensa-empresa de notícias. Em futuro próximo, algumas das mais conhecidas e influentes redes regionais de noticiário poderão já estar sob controle direto de ideólogos ativos da extrema direita nos EUA, como Rupert Murdoch ou os Irmãos Koch.

David e Charles Koch 
As Koch Industries, gigante de petróleo e gás, de propriedade privada, que oferece todos os recursos necessários para que Charles e David Koch financiem fartamente inúmeros think tanks libertaristas e organizações do movimento Tea Party, começam a testar a mão em ofertas para comprarem oito veículos regionais da Tribune Company, incluídos aí o Los Angeles Times, o Baltimore Sun, o Orlando Sentinel, o Hartford Courant e o Chicago Tribune, como se lê em matéria publicada no New York Times domingo passado.

Se comprarem os veículos do grupo Tribune, os Irmãos Koch Brothers ter-se-ão presenteado, eles mesmos, com mais uma importante plataforma para distribuir propaganda de extrema direita e fazer da vida política (e, provavelmente, também privada) dos adversários políticos, um perfeito inferno. Lembro, dos meus dias de repórter, cobrindo o Capitólio, do que todos os jornalistas sabiam: nada assusta mais um deputado ou senador, que a oposição obcecada do jornal regional de sua base eleitoral.

Rupert Murdoch
Outro que também deve apresentar-se para esse negócio, ou para comprar, pelo menos, o Los Angeles Times, é o magnata sionista Rupert Murdoch, que já é proprietário da rede Fox News e de poderosos jornais diários no Reino Unido e nos EUA, dentre os quais o Wall Street Journal

Do outro lado, concorrendo com esses pesos-pesados, há empresários um pouco mais liberais, de olho no Los Angeles Times, mas não se sabe se têm condições de competir com as gordas carteiras dos Irmãos Koch e Murdoch. O New York Times diz que as Indústrias Koch podem ter grande vantagem no negócio, porque comprariam, de uma vez, os oito jornais do grupo.

Alguns, no campo da Esquerda, zombam da ideia de investir na indústria “dinossauro” do jornalismo impresso e questionam o interesse, para a Esquerda, de contar com – que fosse! – pelo menos alguns desses títulos de prestígio no jornalismo dos EUA. Não há dúvidas de que, sim, muitos daqueles jornais estão em decadência, em quase todos os casos por erros de administração, de política empresarial e pela volatilidade dos dólares da publicidade.

Mas ainda são vozes influentes, que falam às populações das áreas metropolitanas interessadas em saber sobre o mundo. Os jornais também definem a pauta de discussão das TV locais e de muitos blogueiros, sobretudo dos blogueiros jornalistas. O Baltimore Sun, por exemplo, produziu a mais importante peça de jornalismo sobre os crimes contra direitos humanos no governo Reagan, na América Central; e publicou inúmeros importantes furos de bom jornalismo sobre espionagem praticada pelo governo Bush contra cidadãos norte-americanos.

Gary Webb
É verdade, sim, que vários dos grandes jornais desgraçaram-se, eles mesmo, nas últimas décadas, como o Los Angeles Times e a vergonhosa campanha que moveu contra o jornalista assassinado Gary Webb, depois que ele trouxe à tona o escândalo de “Contras” e cocaína, do governo Reagan, no final dos anos 1990s.

Mas páginas de Internet – mesmo as páginas, como este nosso Consortiumnews.com que tem declarado e forte interesse em fazer jornalismo investigativo – vivem sob a pressão da falta de recursos financeiros e de material humano para produzir esse tipo de projetos de investigação, que são caros, pelo menos com alguma regularidade.

Se não se organizarem maiores investimentos, de cidadãos e empresas honestas – seja na Velha Mídia impressa ou na Nova Mídia eletrônica, para que se produza jornalismo de melhor qualidade – os EUA continuarão a navegar para o fundo do poço, num mundo de ficção, interesses escusos, paranoia de Direita e fatos falsificados. E isso é grave risco para todo o planeta.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Acontece nos EUA: Os irmãos Koch disputarão com a “Grande Grana” da “left”-EUA o controle do mercado de mídia


15/3/2013, Esther Zuckerman, The Atlantic Wire   
Traduzido e comentado pelo pessoal da Vila Vudu


Resultado do sarau político/midiático de hoje na Vila Vudu: Aí está notícia interessante, por vários  motivos.

Pra começar, atenção: a “Left” [esquerda] de que fala o título nada tem de “esquerda” como o resto do mundo a conhece ou algum dia conheceu. Por isso traduzimos como aí se vê: “left”-EUA  e, claro, há de haver traduções melhores. É só sugerir à discussão.

Nos EUA, se o cara não for um diabão da falange do Pastor Maldito e/ou da falange da Blogueira Cubana Nefanda... ele já é apresentado como progressista. E se, dentre os progressistas, ele não for um Obama acuado pelo Complexo Industrial-Militar e rendido ao dinheiro dos sionistas norte-americanos, pronto: já é apresentado como se fosse “Left” (podendo, num ou noutro caso ser apresentado – e logo apagado do mundo que a grande imprensa-empresa conservadora inventa – como um “radical”).

É quase impossível traduzir essas designações genéricas, porque quando, nos EUA, se diz liberal, fala-se exclusivamente de liberais progressistas (e o conceito muitas vezes aproxima-se de uma quase-esquerda burguesa, democrática, metida a “ética”; às vezes, até, aproxima-se de alguma esquerda revolucionária).

Quando se diz libertarian nos EUA, fala-se dos malucos do Tea Party, ditos “libertários” porque querem total liberdade pra fazer o que lhes dê nas telhas individualistas, sempre resistindo contra o Estado. Tá cheio de libertarians, nos EUA, que batalham a favor de cada cidadão ter seu canhão privado, em casa, pra poder atirar no coletor de impostos que chegue à sua porta, e em qualquer preto que lhe pareça ameaçador (para os libertarian à americana, todos os pretos são ameaçadores).

Mas a matéria abaixo é interessante também, porque aí se pode começar a ver, por inferência, que NÃO HÁ no Brasil grande empresário, que:

(a)     não seja diabão privatista golpista da falange do Instituto Millenium   
(b)     tenha qualquer interesse em investir dinheiro grosso em grandes empresas de comunicação QUE CONCORRAM disputando audiência, no mercado, contra a Rede Globo, a Abril, o Grupo Folha, o Grupo Estadão (o facinoroso Grupo GAFE).

Em outras palavras: NÃO HÁ, no Brasil, grandes empresários progressistas (mesmo que fossem conservadores progressistas! Nem isso!) interessados em fazer falar e valer, no negócio das comunicações de massa, o tal livre mercado que eles todos tanto dizem crer com fé sólida e profunda, e que tanto querem ver operante, como solução para todos os males.

O negócio é mais ou menos o seguinte: O mercado tem de ser livre e operar livremente em tooooodas as áreas... Exceto no setor das comunicações de massa, que, pelo visto, parece aos nossos empresários progressistas muito bem organizado como está: como propriedade feudal, de poucas famílias. E protegido, além do mais, ainda, por legislação que, quando não é legislação da ditadura, é escandalosa reserva de mercado para alguns remanescentes da aristocracia paulista udenista mais retrógrada, no caso do Estadão; ou para grupos de militantes fanatizados de organizações como a Opus Dei (isso, no Brasil-2012 é, de fato, quase inacreditável. Mas parece ser a mais pura verdade), no caso da Folha de S.Paulo.

Assim se vê que há especificidades mais profundas, que pouco se estudam no Brasil, no problema político (grave!) e comercial (ainda mais grave, porque muito menos estudado!) em que está convertido o pseudo “jornalismo” que um punhado de empresas mal administradas, atrasistas, oligopolistas, oligofrênicas, impingem, sem qualquer concorrência, aos consumidores PAGANTES de informação, os quais, no Brasil, são necessariamente também ELEITORES.

O problema “jornalístico” no Brasil é maior e pior que – e é diferente de – qualquer questão de simples livre, leve, solta, tão bela simples e franca competição por mercados (como os conservadores e reacionários creem que seja e ensinam que seria a concorrência comercial): as grandes empresas de comunicação, no Brasil, não são “um item” de mercado, a ser negociado livremente como tal, dentro de um bloco histórico, num dado contexto histórico, político e social.

No Brasil, elas são, mais que a Academia, a Igreja e o próprio Estado (embora operem, como sempre, articulados), a alma e a espinha dorsal do tal bloco histórico. Por isso, elas mesmas – não algum mercado – controlam quem entra e quem sai do negócio: não por regras de livre mercado, mas por regras de controle fascista e de oligopólio.

Pode-se chamar essa alma e espinha da reação conservadora brasileira mais atrasada, de “UDN ou neo-UDN”. Ou talvez se possa chamá-la até de neo-Senhoras-de-Santana. O que interessa é que são golpistas, no Brasil, desde, no mínimo, 1935. Empresas comerciais e golpistas, metidas a “jornalísticas”, amparadas numa ideologia do jornalismo que tudo justifica. Essa gente monopoliza, no Brasil, como máfia, o negócio da comunicação de massa.

Hoje, essa gente já perdeu TRÊS ELEIÇÕES CRUCIAIS PARA A PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA – o que jamais acontecera antes, em mais de 500 anos de história do Brasil que aquelas empresas regeram como bem entenderam, a favor da ditadura, quando foi o caso; e contra a democracia dos muitos, sempre.

E nós, os muitos, que já os derrotamos nas urnas três vezes, e logo teremos derrotado quatro vezes.

NÓS já temos a presidência, NÓS temos 35 ministros, NÓS temos o Banco Central, NÓS temos maioria na Câmara de Deputados, NÓS temos um governo Dilma considerado em todo o planeta... mas ainda NÃO TEMOS UM JORNAL, UM CANAL DE TELEVISÃO QUE FALE POR NÓS.

O que há de interessante na matéria abaixo é que aí se vê que, nos EUA, já começa a existir concorrência forte, na disputa pelos canais e veículos de comunicação de massa, pelo menos, entre a direita sionista fascista e a direita não sionista e um pouco menos fascista, quase-progressista. Parece pequena diferença, mas não é. É diferença imensíssima e assunto para acompanhar.

Além do mais, pode estar aí, nesse traço do antimercado em que as empresas oligopolistas de comunicações reinam sozinhas no Brasil, a explicação para o projeto em que o Ministro Paulo Bernardo está trabalhando. Ele pode estar tentando organizar, pelo menos, um mercado-mais-mercado. Pode-se não concordar. Pode-se entender que sabe(ría)mos fazer diferente. Mas, por exemplo, o projeto em que trabalhou o ministro-jornalista que o antecedeu, que investia muito no “jornalismo” que há no Brasil, na correspondente teoria liberal burguesa fanada de jornalismo, que por aqui reina, dominante, e nos jornalistas que aqui se formam... foi muitíssimo mais fraco.

Pode-se dizer MAIS, contra o projeto do ministro-jornalista, do que contra o projeto do ministro Bernardo “do mercado”... já que, contra mercados, não se diz, mesmo, coisa alguma.

(Aliás... nem nós dizemos, nem a China diz.)

Mas absolutamente NÃO SE PODE entrar na conversa velha, fraca, superada, reacionária, segundo a qual o ministro Paulo Bernardo seria “entreguista” ou “vendido ao grupo GAFE”. Ele talvez até seja. Ele parece ser homem “do mercado”; e é do PT (desde 1985/1); e é ministro do governo Dilma. Claro: muito provavelmente é homem “do mercado”, pelo menos no sentido de que não tem discurso político consistente antimercado. Mas, isso, ora bolas, NENHUM PETISTA tem e nem o PT jamais tiveram ou deram qualquer sinal de ter interesse em construir.

Se a China trabalha, com sucesso espantoso, para chegar ao socialismo “atravessando” as estruturas do mercado... achamos excelente que o Ministro Paulo Bernardo comece a trabalhar, pelo menos, para tentar rachar, por forças de mercado, a dominação oligopolista que meia dúzia de empresas comerciais exercem no negócio da comunicação de massa, no Brasil. Por que não?!

Em todos os casos (e apesar do pouco que o próprio ministro e o próprio ministério dizem com seriedade e consistência sobre o próprio projeto, dentre outros motivos porque não tem imprensa... a ponto de ter de falar sobre seu projeto nas páginas d’O Estado de S.Paulo!) esse projeto do ministro Paulo Bernardo parece ser projeto MUITO menos delirante que a tal ideia de criar leis de “democratização da comunicação”, as quais NUNCA, never, núncaras, nem em mil anos, conseguirão tornar mais democráticos os discursos e a cabeça dos jornalistas-empregados que a imprensa-empresa brasileira sempre encontrará, no universo gigante – perfeito exército industrial de reserva – dos jornalistas muito reacionários que continuam a sair, aos magotes, da universidade brasileira e dos famigerados, facinorosos cursos de “cumunicação”, para as empresas da “mídia”. (E, isso, quando não são cursos de “cumunicação & marketing”, a pior coisa que a universidade brasileira jamais se atreveu a vender a alunos-consumidores que, se não eram perfeitos imbecis fascistizados ao entrar, com certeza já o serão, ao sair desses cursos.)

Querem mercado? Pois lhes demos mercado à vera, uai. E, depois, a gente conversa outra vez...

Só a luta ensina.

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Eis, então, o artigo em referência

Esther Zuckerman
No início desta semana (10-16/3/2013)noticiamos que pode estar começando guerra comercial pelo controle dos jornais do grupo Tribune Company, especialmente o Los Angeles Times e o Chicago Tribune, entre os irmãos Koch [1] e Rupert Murdoch [2]. Mas agora o Hollywood Repórter noticia que outro concorrente de peso entra na disputa e, dessa vez, do outro lado do muro, também interessado em entrar no jogo dos jornais.

Paul Bond, de THR, noticia que o bilionário Eli Broad, conhecido mecenas e animador de instituições culturais em Los Angeles, uniu-se a Austin Beutner, financista e ex-vice-prefeito da cidade, para apresentar uma proposta para comprar o Times e, possivelmente, outros jornais do Grupo Tribune Company – ou todos.

Broad e Beutner, no campo oposto em que jogam os irmãos Koch e Murdoch, são conhecidos grandes doadores de campanha e apoiadores do Partido Democrata. (...)

Bond informa que Broad já tentara um primeiro movimento para comprar a Tribune Company com Ron Burkle em 2007. Mas, então, Sam Zell levou a dianteira. 

A possibilidade de Broad entrar na corrida para comprar o Times começou a ser noticiada em maio passado, quando começou a circular o que escrevera sobre o destino do grupo Tribune Company em seu livro The Art of Being Unreasonable: Lessons in Unconventional Thinking [A arte de não ser razoável. Lições sobre pensamento não convencional]. Para Broad, assumir o controle do Times faria aumentar sua já considerável influência em Los Angeles. 

Em perfil publicado em 2010 na revista New Yorker, Connie Bruck apresentou Broad como o “Lorenzo de Medici de Los Angeles” – singular senhor da cidade, protetor das artes”.

Não é simples. Os irmãos Koch e Murdoch já manifestaram interesse em comprar o jornal; Broad talvez não consiga. Mas a luta pela propriedade dos jornais do grupo Tribune será luta emocionante.



Notas dos tradutores

Irmãos Koch
[1] Postagens sobre os Irmãos Koch (em português):


Rupert Murdoch
[2] Postagens sobre Rupert Murdoch e suas imprensa-empresas (em português):