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quarta-feira, 17 de junho de 2015

Ucrânia e o risco apocalíptico da ignorância “noticiada”



16/5/2015, [*] David Swanson, OpEd News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu




Não posso garantir que não tenha sido publicado livro melhor, esse ano, que Uckraine: Zbig’s Grand Chessboard and How the West Was Checkmated [Ucrânia: o Grande Tabuleiro de Xadrez de Zbig, e como o ocidente recebeu xeque-mate], mas tenho certeza de que não houve livro mais importante que esse.
Das cerca de 17 mil bombas nucleares que há no mundo, EUA e Rússia possuem cerca de 16 mil. Os EUA flertam furiosamente com a 3a. Guerra Mundial, o povo norte-americano não tem nem ideia de como ou por quê, e os autores Natylie Baldwin e Kermit Heartsong explicam tudo muito claramente. Agora me digam: pode haver coisa em que vocês gastem seu tempo, mais importante que isso?
Esse livro tem boas chances de ser o mais bem concebido e escrito que li esse ano. Lá estão todos os fatos relevantes – os que eu já conhecia e muitos de que nem suspeitava – expostos de forma concisa e em perfeita ordem. E tudo isso, a partir de uma visão de mundo bem informada. Não tenho nada a reclamar, o que é novidade total em todas as resenhas de livro que escrevi em toda a minha vida. Acho estimulante e encorajador encontrar autores tão bem informados, capazes de captar a significação da informação que buscam e encontram.
Praticamente metade do livro é usada para expor o contexto em que se desenrolam os eventos recentes na Ucrânia. É útil para compreender o fim da guerra fria, o ódio irracional contra a Rússia que invadiu a elite norte-americana, e os padrões de comportamente que se repetem, dessa vez em tonalidade e volume muito mais altos.
Agitar fanáticos armados no Afeganistão e Chechênia e Geórgia, e tomar por alvo a Ucrânia para uso assemelhado: eis um contexto ‘de notícias’ que ninguém jamais encontrará na CNN.
A parceria dos neoconservadores (que armaram e provocaram a violência na Líbia) com os guerreiros “humanitários” (que acorreram para garantir a “mudança de regime”): eis um precedente e um modelo do qual a National Public Radio (NPR) não falará. A promessa que os EUA fizeram, de não expandir a OTAN para os 12 novos países bem ali, junto à fronteira russa, o afastamento dos EUA, que se separaram do Tratado Anti-Mísseis Balísticos (Tratado ABM) e a corrida para implantar “mísseis de defesa” – esse é o contexto que jamais ocorreria à rede Fox News “noticiar” como fatores ou elementos significativos.
O apoio dos EUA a governos de oligarcas criminosos, dispostos a vender recursos do povo russo, e a resistência do governo russo contra esses ardis – aí estão relatos já quase incompreensíveis, se você é consumidor de muitas “notícias” e de “noticiosos” “jornalísticos”. Mas lá estão, no livro, explicados e bem documentados por Baldwin e Heartsong.
O livro inclui excelente contextualização para que se avaliem usos e abusos das lições de Gene Sharp e as “revoluções coloridas” instigadas pelo governo dos EUA. Arremate final é, me parece, tantos aí, na mídia e pelo mundo, sempre a reconhecer e pregar a importância da ação não violenta, para o bem ou para o mal. A mesma lição lá está também (dessa vez para o bem) na resistência civil às tropas ucranianas na primavera de 2014, e na atitude de (alguns) soldados que se recusaram a atirar contra civis.

Revolução Rosa (Georgia - 2003)


A Revolução Laranja na Ucrânia em 2004, a Revolução Rosa na Geórgia em 2003, e Ucrânia II em 2013-2014 são todas bem claramente recontadas, incluindo cronologia detalhada. É realmente impressionante a quantidade de informação que nós, norte-americanos médios (e eleitores voluntários) ignoramos completa e absolutamente.
Líderes ocidentais reuniram-se repetidas vezes em 2012 e 2013, planejando o golpe contra a Ucrânia. Neonazistas ucranianos foram enviados à Polônia para cursos intensivos de golpe contra um estado democrático. ONGs e mais ONGs, que operavam a partir da embaixada dos EUA em Kiev organizaram “seminários” para treinamento de golpistas.
Dia 24/11/2013, três dias depois de a Ucrânia ter recusado um acordo com o FMI, que incluía recusar-se a romper relações com a Rússia, os manifestantes começaram a enfrentar a polícia em Kiev. Os manifestantes agiram sempre com violência, destruíram prédios e monumentos, lançaram coquetéis Molotov, mas o presidente Obama ordenou ao Presidente da Ucrânia que não reagisse com excessiva força. (Que impressionante contraste com o tratamento que Obama ordenou contra o Movimento Occupy! Ou os tiros, numa rua próxima do Senado dos EUA, contra uma mãe que fez uma curva abrupta com seu carro, onde levava o filho bebê, e que pareceu “ameaçadora” aos policiais).
Grupos financiados pelos EUA organizaram uma “oposição” na Ucrânia, fundaram um canal de TV e promoveram a “mudança de regime”, vale dizer, o golpe. O Departamento de Estado dos EUA gastou coisa de US$ 5 bilhões. A Secretária de Estado Assistente, que escolheu e elegeu, só ela, os novos governantes da Ucrânia, levou sanduíches e bolinhos para os golpistas em plena praça.
Quando aqueles mesmos golpistas da praça derrubaram o governo da Ucrânia, em fevereiro de 2014, os EUA imediatamente declararam legítimo o governo dos golpistas. Aquele novo governo extinguiu os partidos políticos, atacou, torturou e assassinou membros dos partidos depostos pelo golpe. O novo governo incluiu neonazistas desde o primeiro dia, e pouco depois passou a incluir também funcionários importados dos EUA.
O novo governo proibiu o idioma russo – primeira língua de muitos cidadãos ucranianos. Monumentos e memoriais russos foram destruídos. Populações falantes de russo foram atacadas e assassinadas.
A Crimeia, região autônoma da Ucrânia, com Parlamento próprio, foi parte da Rússia de 1783 até 1954, e votou publicamente a favor da manutenção dos laços com a Rússia em 1991, 1994 e 2008, e o Parlamento da Ucrânia votou a reincorporação à Rússia em 2008. Dia 16/3/2014, 82% dos crimeanos participaram de um Referendum, no qual 96% deles se manifestaram a favor de a Crimeia ser reintegrada à Rússia.
Essa ação não violenta, sem sangue, democrática e legal, que não violou nem a Constituição nem qualquer outra lei ucraniana, e que foi atacada por violento golpe de Estado... é o que o “ocidente” vive de “denunciar”, como se fosse alguma “invasão da Crimeia” pelos russos.

Resultado final do referendum na Crimeia


ATUALIZAÇÃO: Na mais recente reunião do G7, a Rússia foi alvo da retórica mais ensandecida. O presidente dos EUA, Barack Obama, perguntou, sobre o presidente da Rússia, Vladimir Putin: “Será que ele continua a destroçar a economia de seu país e a manter o isolamento da Rússia, movido por um super orientado desejo de recriar as glórias do império soviético?” (12-14/6/2015, Counterpunch, Vijay Prashad, em redecastorphoto, G7: Moedas a proteger, países a bombardear, traduzido).
Novorrussos, que tentaram tornar-se independentes, foram também atacados por militares ucranianos, um dia depois de John Brennan visitar Kiev e ordenar aquele crime.
Sei que a Polícia do Condado de Fairfax, que nos manteve, eu e meus amigos, bem longe da casa de John Brennan na Virginia não sabiam nem uma linha do inferno que aquele homem havia lançado sobre gente inocente, a milhares de quilômetros dali. Mas tamanha ignorância é, no mínimo, tão perturbadora quanto qualquer ativa má intenção criminosa.
Civis foram atacados por aviões e helicópteros de guerra durante meses, na mais terrível matança, como nunca mais se vira na Europa desde a 2a. Guerra Mundial. O presidente Vladimir Putin da Rússia repetidamente clamou por paz, por uma trégua, por um cessar-fogo, por negociações. Até que, finalmente, dia 5/9/2014, assinou-se um acordo de cessar-fogo.
Chama a atenção, na direção diametralmente oposta do que recebemos como “notícias”, que a Rússia não invadiu a Ucrânia em nenhuma das inúmeras vezes que os “noticiários” “informaram” que teria invadido. Somos pós-graduados em armas inventadas de destruição em massa, em ameaças míticas contra os cidadãos líbios, em acusações falsas de uso de armas químicas na Síria... Agora estamos sendo adestrados a acreditar em invasões que jamais aconteceram.
A “prova” da tal invasão foi cuidadosamente perdida em local incerto e não sabido, sem qualquer detalhe que a identificasse, caso alguém tropeçasse nela. Pois mesmo assim a farsa foi desmascarada.
Cabine do MH-17 metralhada por caça  Su-25 da FA "ukie"

O avião que fazia o voo MH17 foi derrubado: a culpa é da Rússia, mesmo sem provas. E, pior, mesmo contra todas as provas que adiante se exibiram. Os EUA sempre souberam exatamente o que aconteceu. Mas não divulgaram a informação que tinham. A Rússia distribuiu o que tinha e provou, comprovado pelo depoimento de testemunhas em terra e pelos depoimentos dos controladores de voo, que o avião foi derrubado por um ou mais outros aviões. As “provas” de que a Rússia teria derrubado o avião foram expostas como grosseiras falsificações: ninguém em terra jamais viu a trilha de fumaça no céu que o tal míssil russo, se existisse, teria deixado.
Os autores Baldwin e Heartsong concluem seu trabalho com detalhada argumentação para demonstrar que as ações dos EUA recaíram sobre os próprios EUA, que a única verdade é que os cidadãos norte-americanos não têm nem qualquer mínima ideia do que acontece ou deixa de acontecer, que os donos do poder em Washington usam a Segunda Emenda como se fosse direito deles, contra todo o mundo. Sanções contra a Rússia tornaram Putin tão popular na Rússia quanto George W. Bush depois que deu jeito de parecer presidente de alguma coisa, enquanto aviões derrubavam arranha-céus no coração de New York. As mesmas sanções fortaleceram a Rússia, empurrando-a para aumentar a produção interna e para alianças com nações não controladas pelos EUA. A Ucrânia sofreu e a Europa está sofrendo com o corte no fornecimento de gás russo, enquanto a Rússia faz negócios com Turquia, Irã e China. Expulsar a base naval russa da Crimeia é delírio mais sem futuro hoje, do que antes de essa loucura ter começado.
A Rússia lidera o movimento pelo qual mais e mais nações preparam-se para abandonar o dólar norte-americano. Sanções retaliatórias da Rússia, atingem já o “ocidente”. Longe de estar isolada (como delira o presidente Obama, dentre outros), a Rússia está trabalhando com países BRICS, na Organização de Cooperação de Xangai e em outras alianças. Sem dar sinal algum de “empobrecimento” (como nos delírios do presidente Obama, dentre outros), a Rússia está comprando ouro, enquanto os EUA afundam-se cada dia mais em dívidas e desemprego, e sempre, cada dia mais, vistos pelos cidadãos do mundo como agente incapaz de jogar limpo, como jogador-bandido; e já detestados também na Europa, porque os EUA privaram os europeus do comércio com a Rússia.

BRICS - Brasil, Rússia, Ìndia, China, África do Sul


Essa história começa na irracionalidade do trauma coletivo depois do holocausto da 2a. Guerra Mundial, e do ódio cego contra a Rússia. Talvez também termine na mesma absoluta irracionalidade. Se o desespero dos EUA levar o país a guerra contra a Rússia, na Ucrânia ou onde for, em algum ponto da fronteira russa, onde a OTAN vive de joguinhos de guerra e provocações, é possível que essa história, do enlouquecimento dos EUA, seja a última narrativa que a humanidade ouviu sobre ela mesma.
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[*] David Swanson é o autor de When the World Outlawed War, War Is A Lie e Daybreak: Undoing the Imperial Presidency and Forming a More Perfect Union (todos sem tradução para português). Anima 2 blogs: (http://davidswanson.org e http://warisacrime.org). 
Trabalha para a organização ativista on-line http://rootsaction.org.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

EUA: mentalidade binária e política caolha no Mar do Sul da China


Imprensa-empresa aqui e na China: tudo sempre a lesma lerda


2/6/2015, [*] Tom PlateChina Daily
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Patrulha chinesa guarda plataforma Haiyang Shi You 981 (ao fundo)
Rivalidade entre grandes potências não tem, necessariamente, de gerar super atrito. A competição pode produzir excelência e até boas ideias novas. Exemplo disso é o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII).

Enquanto praticamente todos os países do mundo entusiasmaram-se com a ideia desde o início, os EUA não apenas se puseram a criticá-la, como também pressionaram seus aliados, tentando impedi-los de integrar-se ao novo banco. Porque a ideia não foi deles – foi ideia da China. E daí? Até o Reino Unido, com suas ditas “relações especiais” com os EUA, mostrou-se entusiasmado.

Provavelmente, outras boas ideias virão da China – certamente virá de lá alguma boa ideia para acalmar a tempestade no Mar do Sul da China. Então a razão reinará sobre as águas, e a disputa tresloucada por recursos será devidamente contida nos canais da diplomacia.

Mas um grave impedimento para o mútuo entendimento e avaliação ponderada da realidade é a mídia norte-americana. Na questão do Mar do Sul da China, o serviço prestado por jornais e jornalistas norte-americanos foi horrível – tendencioso e ideológico.

Por que tanto insistem em pintar a China como se fosse algum peixe gigante do mal, como o monstro do filme Tubarão, e os EUA, como um golfinho risonho do bem? O mundo real é selva complexa; a vida real geopolítica não é esse tolo arranjo binário.

A China – registre-se, em nome da acuidade e da justiça históricas – há muito tempo já ratificou formalmente a Convenção da ONU para a Lei do Mar para todos os povos. Os EUA até hoje não ratificaram seu compromisso e adiam a ratificação o mais que podem.

Convenção da ONU para a Lei do Mar
Há anos os obstrucionistas no Senado dos EUA impedem a ratificação formal daquele acordo, sob o argumento de que a Convenção da ONU para a Lei do Mar pode vir a obstruir o livre trânsito de interesses dos EUA. Ora, a lei internacional existe para ser aceita e respeitada por todos os povos, não para ajudar só alguns “favoritos” – e sempre os mesmos. Mas até aí, é a boa notícia.

A má notícia é que os EUA ainda insistem em tentar forçar a China e qualquer outro país a “respeitar a lei internacional”, mas só nos casos em que a “lei” vise exclusivamente a manter o status quo geopolítico. Essa é atitude que será muito difícil manter, em tempos em que toda a Ásia – não apenas a China – cresce dramaticamente. Nações que ainda creiam que continuarão a usufruir no século XXI o mesmo status que tiveram no século XX bem farão se reconsiderarem todas essas suas crenças.

Liderar, seja em Washington seja em Pequim, exigirá que ambas as capitais tenham clara compreensão uma da outra. Se a política chinesa se baseasse no pressuposto de que os EUA estariam em rápido declínio, a China erraria. Se a política norte-americana pressupõe que a velha China tenha de ser contida no lugar que lhe competia, alguém nos EUA exagerou nas pílulas para dormir.

A tarefa dos dois governos é acomodar a inevitabilidade da China, de modo a maximizar os interesses comuns de todos – e evitar a guerra.

As piores políticas norte-americanas sempre serão as políticas da hipocrisia: opor-se a uma boa ideia, como é o BAII, por razões de autointeresse; e tentar impor às questões do Mar do Sul da China uma mentalidade analítica simplória, de Guerra Fria, que não dá conta da realidade contemporânea. Nesse ponto, os EUA têm muito com que se preocupar: qualquer envolvimento mais ostensivo dos EUA pode converter a questão do Mar do Sul da China em confronto violento de superpotências, que ninguém deseja.

Mar do Sul da China - Demarcação de águas territoriais de cada país
(clique na imagem para aumentar)
Em vez de inflar o próprio perfil no Mar do Sul da China, os EUA devem acalmar-se e mover-se com a máxima cautela, não importa o quanto eles mesmos digam que suas intenções são as mais santificadas. Bill Hayton, observador das questões asiáticas, em seu inestimável novo livro The South China Sea, cita um diplomata asiático muito respeitado:

Se você empurra uma grande potência contra outra, a dinâmica de superpotência domina a questão e marginaliza qualquer possibilidade de acordo pacífico.

Nisso, acertou perfeitamente.

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[*] Tom Plate foi  editorialista e articulista do Los Angeles Times e fundador da Agência Asia Media International. Profundo conhecedor da Ásia. Obteve doutorado pela Loyola Marymount University com tese sobre Geopolítica do Pacífico Asiático.

domingo, 31 de maio de 2015

“Jornalismo indispensável”, lá como cá, tudo a lesma lerda

“Mídia” tenta afogar campanha de
Sanders num maremoto de silêncio
28/5/2015, [*] Gaius Publius, Down with Tyranny
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Bernie Sanders
por DonkeyHotey
Todos sabíamos que “os falastrões” – palavra que Steve Hendricks usa para designar jornalistas-empregados e “especialistas” midiáticos também empregados – fariam de tudo para afundar a campanha presidencial de (Bernie) Sanders. Como Hendricks diz no artigo adiante citado, os patrões daqueles jornalistas e “especialistas” empregados querem exatamente isso, e empregado não chia, empregado obedece.
Na Columbia Journalism Review, Hendricks escreve que:
Na véspera da eleição presidencial de 1948 Newsweek perguntou aos 50 repórteres que acompanhavam o trem de campanha do presidente Truman quem venceria. Numa só voz responderam o que o jornal Chicago Tribune repetiria, para sua grande vergonha, em manchete, na noite da eleição: “Dewey derrota Truman. Historiadores relembrarão para sempre que Truman não apenas derrotou Dewey, como lhe aplicou verdadeira surra de votos.
Tentando descobrir por que a imprensa errara tão espetacularmente, James Reston, do The New York Times concluiu que ele e seus colegas de profissão e de trem presidencial haviam acabado por ficar parecidos com o governador Dewey, o mais consumado “pavão” de todos os tempos. Dewey dava-se bem com plutocratas e diretores de redação. “Assim como ele estava isolado demais, só convivendo com outros políticos”, Reston escreveu, “assim nós também só convivíamos com outros jornalistas; e nos deixamos impressionar demais pelo que diziam as pesquisas eleitorais”.
Até aí, tudo verdade, mas foi A. J. Liebling, da revista The New Yorker, quem detectou o vício crucial que, nem Reston, nem os jornalistas de cabeça semelhante à de Reston conseguiram ver. Uma grande onda de contrição inundou o mundo dos jornalistas de Washington nos dias imediatamente posteriores àquela catástrofe engraçadíssima.
(...) e o pessoal das redações jurou que nunca mais, até o dia do Juízo Final, deixariam de sair à procura de fatos confirmados, vale dizer, de fatos investigados que realmente refletissem as verdades do dia, como jamais antes haviam procurado.
Mas poucos editores e chefes de redação os estimularam nessas tão boas intenções, e praticamente todos os repórteres voltaram às ruas, mas para só procurar “fatos” que confirmassem a opinião, a fé ou as novas ilusões daquele mês, dos seus patrões.
Como Hendricks escreveu, a mais importante constatação de Liebling é também sua frase mais memorável:

A lei só reconhece a liberdade
de imprensa do dono do jornal

As “ilusões dos jornalistas-empresários e patrões” sobre a campanha de Sanders determinam que Sanders não tem chances de ser eleito e portanto não precisa de chances para ser eleito. Assim sendo, estão fazendo de tudo, os falastrões e seus patrões, para não lhe dar nenhuma chance. Hendricks, sobre o maremoto de silêncio da imprensa-empresa comercial:
Muito mais próximo da verdade é que [Sanders] realmente até “poderia” vencer. Mas tendo já decidido a favor da própria profecia, a imprensa-empresa pôs-se a fazer a cobertura de Sanders & sua candidatura de modo a empurrar a profecia da “própria imprensa-empresa” para que se cumpra completamente.
O NYTimes, por exemplo, enterrou a matéria sobre o lançamento da candidatura de Sanders para o fundo da página A21, apesar de todos os demais que se anunciaram candidatos antes terem sido postos na metade superior da primeira página. A notícia sobre o lançamento da candidatura de Sanders mal chegou a 700 palavras, comparadas às entre 1.100 e 1.500 que mereceram Marco Rubio, Rand Paul, Ted Cruz e Hillary Clinton. Em matéria de conteúdo, os “repórteres” do NYTimes noticiaram os fatos sobejamente investigados e já comprovados de que Sanders é cachorro morto e nunca receberá a indicação dos Democratas porque “Hillary já-ganhou”. Nenhum dos aspirantes à indicação dos Republicanos recebeu tratamento equivalente de morte preventiva por tiro de longa distância, apesar de Paul, Rubio e Cruz aparecerem em 5º, 7º e 8º lugares entre os Republicanos antes de se apresentarem como pré-candidatos.
Há mais no artigo, inclusive as semelhanças entre isso e a cobertura dada também aos que Hendricks chama, não eufemisticamente, de “admiradores” de Sanders.

Candidatos à presidencia dos EUA-2016
Onde está Sanders?
“Mas é eleição tãããããão difícil...”
Hendricks acredita firmemente que Sanders “pode” vencer, afinal de contas (partilho, eu também, dessa crença). Além da sempre possível ocorrência de eventos como os da quase eleição de Eugene McCarthy em 1968, da qual Hendricks não fala, há vários argumentos de peso dos quais Hendricks fala:
Primeiro, há aqueles eventos absolutamente evitáveis, mas que alguém não evitou. Não quero me aprofundar, mas é fato que qualquer cavalo já disparado para a marca de chegada pode ter um evento de Chappaquiddick, uma gritaria filmada e gravada intencionalmente amplificada ou uma queda de avião. Em vez de falar disso, consideremos o simples fato de que nos últimos 40 anos, das sete eleições nas quais o indicado dos Democratas estava “já eleito” – casos em que um presidente Democrata não era candidato à reeleição – os “azarões” venceram a indicação do Partido em três ou quatro casos (dependendo de como você defina “azarão”) e acabaram por chegar à presidência mais vezes que os candidatos favoritos.
Alguns desses aspirantes eram possibilidade muito remota, mesmo. Jimmy Carter era governador apenas mediano de um estado insignificante além de cujas fronteiras poucos o conheciam e menos o queriam eleito presidente. Poucas semanas antes das eleições, Harris Poll [instituto de pesquisas] perguntou aos eleitores o que pensavam de 35 candidatos potenciais. Carter nem foi incluído na lista. Depois de um ano de campanha, apenas poucos meses antes da primeira primária, Carter aparecia invariavelmente com 1 por cento das preferências dos eleitores Democratas; e era o 8º dentre oito Democratas candidatos à indicação do Partido. Pois mesmo assim venceu, porque todos os demais candidatos eram “gente de Washington”, e depois de Watergate e do Vietnã, os eleitores Democratas (e, muito possivelmente, a maioria de todo o eleitorado norte-americano) não queriam eleger mais “daquela gente”, por mais que os jornalistas lhes dissessem que, se não queriam, tinham de querer.
Se você não está vendo a semelhança com o momento atual – tempo de descontentamentos amplos, de Occupy, Black Lives Matter, Moral Monday, Fight for $15, o People’s Climate March, Move to Amend, e mais agitação anti-establishmentista – das duas, uma: ou você está dormindo, ou você é proprietário de jornal/rede de televisão e de chefes-de-redação.  
Michael Dukakis também aparecia com 1 por cento nas pesquisas bem poucos meses antes de lançar-se candidato (por falar nisso, em idêntico momento, Sanders tinha 5-8 por cento das preferências dos eleitores), que desapareciam ante os avassaladores 40- 50% que tinha Gary Hart. Quando a campanha de Hart desceu pelo ralo, como bote carregado de bonecas infláveis e outras de carne e osso, Dukakis foi beneficiado, embora nem aí tenha chegado a ser o favorito. Pouco antes da primeira primária, ainda mal chegava aos 10%, e estava correndo cabeça a cabeça com o inesquecível Paul Simon, 15 pontos atrás de Jesse Jackson e de um Hart renascido das cinzas, porque Dukakis e os demais pareciam tão impotentes, que Hart voltava a sentir-se com boas chances.
Para alguns observadores, Bill Clinton não seria “azarão”, sobretudo porque teve curtíssimo período como tal, depois que saltou para a pista e pôs-se a correr. Mas sua projeção nacional era tão invisível, que nove meses antes das primárias nenhum instituto de pesquisa sequer o consultava como possível concorrente. Até o próprio Bill achava que não tinha chances (Mario Cuomo era candidato previsto, invencível, se concorresse), e não se anunciou aspirante à indicação dos Democratas até cinco meses da data limite. Só a partir dali suas chances aumentaram.
O quixotesco Barack Obama entrou na liça contra um(a) mamute cujos apoios eram tão gigantescos que muitos supuseram que o jovem senador “desafiante” lá estava apenas para se fazer conhecer, pensando em futuras campanhas. Depois de ter feito campanha durante todo o ano de 2007, Barack não apenas não avançara um palmo sobre o campo de Hillary, como se sentia ainda um pouco mais para trás, do que no início (caiu de 24 a 22 por cento, enquanto Clinton avançava de 39 a 45 por cento. Houve rumores até de que ele desistiria de concorrer e sairia da disputa para não enfraquecer aquela candidata “invencível”.
É lista muito decente de casos precedentes. Desses quatro casos, três mudaram-se para a Casa Branca e lá viveram muitos anos.
Já a grana da Hillary Clinton...

E o dinheiro da Clinton?
E há também o caso do dinheiro, especificamente dinheiro da Clinton, que tem a ver com o caso de Sanders. Deixarei que você mesmo leia os contra-argumentos de Hendrick (comece no parágrafo que abre com: “Pesquisas” muito precoces podem ser noticiário espúrio). Mas destaco aqui alguns daqueles contra-argumentos:
A última indicação partidária disputada, em 2008, foi, ela própria, assunto de muito, muito dinheiro, e Obama venceu, apesar de ter começado em posição ainda pior, em termos de finanças, que a de Sanders hoje (Clinton tinha arrecadado US$ 10 milhões no início de 2007, Obama virtualmente zero) e durante todo o ano de 2007 ele perdeu para a Clinton, em arrecadação de fundos para campanha.
Apenas um dado, colhido dentre muitos.
Sanders é candidato demasiadamente distante do “Centro”?
O que leva Hendricks ao argumento final contra a “viabilidade” de Sanders – a distância que o separa do “centro político”. Hendricks, observando várias eleições passadas, observa o quanto essa distância pode ser valiosa. Concordo. O primeiro exemplo que ele oferece é Michael Dukakis – realmente muito distante do centro – e poderia ter acrescentado Jimmy Carter (lá da Geórgia), ou Bill Clinton de Arkansas.
Mas, pensem bem: o que significa o “centro político” nos EUA de hoje? Significa um espaço no qual os desejos dos “Um-porcentistas” – desejos de David Koch e de Jamie Dimon, por exemplo – coincidem perfeitamente. O centro político do povo norte-americano está muitíssimo à esquerda disso.
A seguir assista o vídeo: “Nos EUA, a corrupção é legal”
Por exemplo, 87% dos Republicanos querem que a “tramitação de urgência” e a Parceria Trans-Pacífico de Obama não sejam aprovadas. Republicanos, leiam bem. E aí está, sim, o verdadeiro perigo que tantos veem na campanha de Sanders: porque ela realmente, sim, realmente representa o povo, a imensa maioria do povo norte-americano e, portanto, sim pode ser bem-sucedida, se receber qualquer ventinho de popa. Diz Hendricks:
Estará chegando o dia do socialista IKEA? [1] Os falastrões não conhecem a resposta. O que eles sabem é como fazer absolutamente o d-i-a-b-o para garantir que tal dia jamais chegue.
Eles podem tentar, os falastrões e seus patrões, afogar a campanha de Sanders num maremoto de silêncio. Mas há gente que está falando impressionantemente a favor dele, como Elizabeth Warren. A plataforma do senador Sanders tem megafone potentíssimo. Assista discurso da Sen. Elizabeth Warren a seguir:
Estou tentado a apostar que o megafone de Warren, seja qual for o candidato que ela venha a apoiar no final, não será em vão. Os falastrões terão de falar da senadora, falar mal, que seja! Tudo isso ajuda a campanha de Sanders.
 
Quem quiser ajudar na campanha, clique aqui. Faça como achar melhor. O arquivo do meu trabalho de apoio à campanha de Bernie Sanders está aqui. (Assina: Gaius Publius)

Nota dos tradutores
[1] Parece que IKEA é um tipo de supermercado inventado na Suécia, organizado de um tal modo que o comprador tem trilhas demarcadas pelas quais pode andar, mas das quais não pode sair. O tal supermercado está chegando aos EUA, ou já existe há mais tempo, e essas trilhas demarcadas e regras rígidas têm gerado inúmeros protestos e críticas furiosas, porque seriam “socialistas”. Foi o que conseguimos descobrir.
  • Encontra-se alguma informação sobre essa conversa de alguém ter chamado o candidato Sanders de “socialista IKEA”, mas não aprofundamos a pesquisa.
  • Nosso pesquisador informa que, desafiado por esse conceito de socialismo à moda Tea Party, sentiu-se como Obelix, de “Asterix, o Gaulês”, quando tropeçava em ideias, práticas e conceitos absurdos (todos) dos romanos: São doidos, esses romanos!, a seguir:

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[*] Gaius Publius é escritor profissional e reside na costa oeste dos EUA. É articulista frequente de blogs e sites tais como: DownWithTyranny, digby, Truthout, Americablog, e Naked Capitalism.
Ativo na redes sociais via: Twitter @Gaius_Publius, Tumblr e Facebook