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quarta-feira, 3 de junho de 2015

EUA: mentalidade binária e política caolha no Mar do Sul da China


Imprensa-empresa aqui e na China: tudo sempre a lesma lerda


2/6/2015, [*] Tom PlateChina Daily
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Patrulha chinesa guarda plataforma Haiyang Shi You 981 (ao fundo)
Rivalidade entre grandes potências não tem, necessariamente, de gerar super atrito. A competição pode produzir excelência e até boas ideias novas. Exemplo disso é o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII).

Enquanto praticamente todos os países do mundo entusiasmaram-se com a ideia desde o início, os EUA não apenas se puseram a criticá-la, como também pressionaram seus aliados, tentando impedi-los de integrar-se ao novo banco. Porque a ideia não foi deles – foi ideia da China. E daí? Até o Reino Unido, com suas ditas “relações especiais” com os EUA, mostrou-se entusiasmado.

Provavelmente, outras boas ideias virão da China – certamente virá de lá alguma boa ideia para acalmar a tempestade no Mar do Sul da China. Então a razão reinará sobre as águas, e a disputa tresloucada por recursos será devidamente contida nos canais da diplomacia.

Mas um grave impedimento para o mútuo entendimento e avaliação ponderada da realidade é a mídia norte-americana. Na questão do Mar do Sul da China, o serviço prestado por jornais e jornalistas norte-americanos foi horrível – tendencioso e ideológico.

Por que tanto insistem em pintar a China como se fosse algum peixe gigante do mal, como o monstro do filme Tubarão, e os EUA, como um golfinho risonho do bem? O mundo real é selva complexa; a vida real geopolítica não é esse tolo arranjo binário.

A China – registre-se, em nome da acuidade e da justiça históricas – há muito tempo já ratificou formalmente a Convenção da ONU para a Lei do Mar para todos os povos. Os EUA até hoje não ratificaram seu compromisso e adiam a ratificação o mais que podem.

Convenção da ONU para a Lei do Mar
Há anos os obstrucionistas no Senado dos EUA impedem a ratificação formal daquele acordo, sob o argumento de que a Convenção da ONU para a Lei do Mar pode vir a obstruir o livre trânsito de interesses dos EUA. Ora, a lei internacional existe para ser aceita e respeitada por todos os povos, não para ajudar só alguns “favoritos” – e sempre os mesmos. Mas até aí, é a boa notícia.

A má notícia é que os EUA ainda insistem em tentar forçar a China e qualquer outro país a “respeitar a lei internacional”, mas só nos casos em que a “lei” vise exclusivamente a manter o status quo geopolítico. Essa é atitude que será muito difícil manter, em tempos em que toda a Ásia – não apenas a China – cresce dramaticamente. Nações que ainda creiam que continuarão a usufruir no século XXI o mesmo status que tiveram no século XX bem farão se reconsiderarem todas essas suas crenças.

Liderar, seja em Washington seja em Pequim, exigirá que ambas as capitais tenham clara compreensão uma da outra. Se a política chinesa se baseasse no pressuposto de que os EUA estariam em rápido declínio, a China erraria. Se a política norte-americana pressupõe que a velha China tenha de ser contida no lugar que lhe competia, alguém nos EUA exagerou nas pílulas para dormir.

A tarefa dos dois governos é acomodar a inevitabilidade da China, de modo a maximizar os interesses comuns de todos – e evitar a guerra.

As piores políticas norte-americanas sempre serão as políticas da hipocrisia: opor-se a uma boa ideia, como é o BAII, por razões de autointeresse; e tentar impor às questões do Mar do Sul da China uma mentalidade analítica simplória, de Guerra Fria, que não dá conta da realidade contemporânea. Nesse ponto, os EUA têm muito com que se preocupar: qualquer envolvimento mais ostensivo dos EUA pode converter a questão do Mar do Sul da China em confronto violento de superpotências, que ninguém deseja.

Mar do Sul da China - Demarcação de águas territoriais de cada país
(clique na imagem para aumentar)
Em vez de inflar o próprio perfil no Mar do Sul da China, os EUA devem acalmar-se e mover-se com a máxima cautela, não importa o quanto eles mesmos digam que suas intenções são as mais santificadas. Bill Hayton, observador das questões asiáticas, em seu inestimável novo livro The South China Sea, cita um diplomata asiático muito respeitado:

Se você empurra uma grande potência contra outra, a dinâmica de superpotência domina a questão e marginaliza qualquer possibilidade de acordo pacífico.

Nisso, acertou perfeitamente.

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[*] Tom Plate foi  editorialista e articulista do Los Angeles Times e fundador da Agência Asia Media International. Profundo conhecedor da Ásia. Obteve doutorado pela Loyola Marymount University com tese sobre Geopolítica do Pacífico Asiático.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Por que diabos o mundo inteiro está em guerra contra o povo do Iêmen?!

16/4/2015, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Mapa estimado da situação da guerra no Iêmen
(mapa de 16/4/2015 a ser visto com reservas pois eleborado pela BBC)
Praticamente o mundo inteiro, ao que parece comprado com dinheiro saudita, está em guerra contra o Iêmen.

Se não é isso, como explicar o silêncio que protege a campanha saudita de furioso bombardeio que levará a fome devastadora no Iêmen e fará do país outra, uma segunda Gaza, ainda maior?

O sicofanta Secretário-Geral da ONU, Ban Ki Moon despediu o enviado da ONU ao Iêmen, Jamal Benomar, porque Benomar não aprovou a campanha saudita de bombardeio. Será substituído por Ismail Ould Cheikh Ahmad, da Mauritânia, escolhido dos sauditas:

Antes, no Iêmen, Ismail Ould Cheikh Ahmad foi “um problema”, como várias fontes disseram a Inner City Press. Mas... seja como os sauditas ordenam.

Uma resolução do Conselho de Segurança da ONU contra o povo do Iêmen, praticamente avalizou o bloqueio imposto pelos sauditas, o bombardeio e a campanha de fome, por 14 votos a zero. A Rússia foi criticada por ter-se abstido, não votado contra, a Resolução.

Vejo duas razões para o voto russo. Uma, a Rússia pode estar prevendo que a campanha saudita acabará por ter impacto gravíssimo sobre a Arábia Saudita, com vantagem para a Rússia. E também é possível que a Rússia não tenha vetado porque a China, sabe-se lá por quê, votou a favor da Resolução. China e Rússia preferem votar juntas a correr o risco de ficar cada uma de um lado, ou fora, e sozinhas, responsabilizadas pelo que aconteça.

Os sauditas bombardearam não só campos de refugiados e depósitos de alimentos no Iêmen, mas também redes de comunicação, estações de notícias e redes de eletricidade. Sanaa está sem eletricidade já há 60 horas, no momento em que escrevo. Na 2ª-feira (13/4/2015), os estádios de futebol em Ibb, Aden e Sanaa foram bombardeados. Ontem, 16 postos de gasolina, onde havia longas filas de carros esperando para serem abastecidos, ação que deixou no mínimo 17 mortos e 50 feridos.

Os sauditas bombardearam até estádios de futebol
Entre 26 de março e 11 de abril de 2015, os sauditas bombardearam 1.200 vezes o Iêmen. Segundo relatório anterior do porta-voz do exército iemenita, 2.571 foram mortos, dos quais 381 crianças e 455 mulheres. 1.200 instituições oficiais e 72 escolas foram destruídas. Nas últimas 24 horas, outros 56 civis foram mortos.

O preço do combustível aumentou 600%, o pão, no mínimo 300%. Gás de cozinha já não há, e sem combustível ou eletricidade as bombas d’água não funcionam. As pessoas estão morrendo de fome, mas, por falta de competências “jornalísticas” no país, ninguém perceberá.

Enquanto os sauditas dizem que estariam bombardeando o grupo Ansarullah [“houthis”, para os sauditas], mas só destroem infraestrutura do Iêmen, a al-Qaeda já tem controle total sobre a cidade portuária de al-Mukalla e massacrou 15 soldados iemenitas na província de Shabwa no sul do Iêmen. A 2ª brigada iemenita, comandada por homem dos sauditas, entregou todas as suas armas à al-Qaeda. Os paquistaneses foram espertos o bastante para rejeitar o pedido dos sauditas de que fornecessem soldados paquistaneses de infantaria para morrer no Iêmen. O plano B dos sauditas agora é contratar “forças locais” para fazer o serviço mais sujo, o que significa que os sauditas, como na Síria, financiarão e apoiarão a tomada do Iêmen pela al-Qaeda.

Massacre de civis em Sanaa (14/4/2015)
O Paquistão pode mandar para lá os Talibã, para mostrar aos sauditas as mais modernas técnicas de combate de hiper lunáticos religiosos.

Os EUA estão ajudando os sauditas, não só com armas e munição. Pelo menos 20 oficiais norte-americanos foram mandados para um quartel-general conjunto em Riad, e lá estão, ajudando a construir as listas de matar dos sauditas.

Ninguém, nem em Washington nem em lugar algum acredita que a campanha saudita resolverá alguma coisa no Iêmen. Mas... por que então tanta gente apoia e avaliza e endossa os ataques sauditas e todo o sofrimento que produzem?!


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Barou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

EUA respondem com escalada no conflito no Iêmen

Nikolai Bobkin, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Consequências do bombardeio saudita em áreas civis em Sanaa, Iêmen
Os EUA estão expandindo sua participação nos eventos no Iêmen. Há notícias de que um porta-aviões norte-americano foi despachado para a costa do Iêmen dia 20/4/2015, para se juntar a outros navios americanos preparados para bloquear quaisquer carregamentos de armas que o Irã envie aos rebeldes xiitas “houthis” que lutam no país. O USS Theodore Roosevelt e seu navio-escolta, o USS Normandy, que transporta mísseis Cruisers teleguiados, deixaram o Golfo Pérsico dia 19/4/2015, em rota para o Mar da Arábia, para ajudar a impor o bloqueio. Os navios vão-se juntar à força naval de sete navios de guerra e três embarcações auxiliares implantados no Mar da Arábia, Golfo de Aden e estreito de Bab-el-Mandeb.

Formalmente, a missão visa a garantir que as rotas marítimas vitais da região permaneçam abertas e seguras. A declaração emitida pelo Centro de Relações Públicas do Comando das Forças Navais dos EUA enfatiza que os Estados Unidos continuam comprometidos com seus parceiros regionais e trabalham para manter a segurança no ambiente marítimo.

Mas o verdadeiro propósito do bloqueio naval é impedir o acesso de navios iranianos aos portos iemenitas e privar o movimento Ansarullah [“houthis”, para os sauditas] de qualquer ajuda que o Irã lhe envie.

A Arábia Saudita não está à altura da tarefa. E mais uma vez, lá estão os EUA postados como reforço, ao lado dos inimigos do Irã. Riad sente-se muito confortável sob a proteção dos EUA.

Essa é evolução perigosa, que pode agravar a situação. A Casa Branca deu mais um passo irrefletido, apressado e temerário, na direção de aprofundar o apoio que dá à Arábia Saudita em seu confronto com o Irã. Por alguma razão, o governo dos EUA parece ter certeza de que as tensões regionais exacerbadas, como resultado do conflito no Iêmen, jamais ameaçarão o acordo nuclear com o Irã. Teerã pensa diferente.

MRE do Irã, Mohammad Javad Zarif
NYTimes - 20/4/2015
É tempo de os EUA e seus aliados escolherem entre cooperação e confrontação – como escreveu o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, em referência às negociações nucleares em curso, em coluna assinada no New York Times“Mensagem do Irã”, de ontem, 20/4/2015:

Chegamos a um acordo sobre os parâmetros para eliminar qualquer dúvida sobre a natureza exclusivamente pacífica do programa nuclear do Irã” – escreveu Zarif; o povo iraniano fez sua parte para facilitar um acordo; agora, a responsabilidade recai sobre os EUA e seus aliados, para levar o processo à conclusão que interessa a todos.

É hora de os EUA e seus aliados ocidentais escolherem entre cooperação e confrontação, entre negociações e arrogância, entre acordo e coerção – escreveu o ministro iraniano.

Depois de lançada a campanha aérea contra o Iêmen, diminuiu consideravelmente a intensidade dos ataques aéreos contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Com a unidade de combate USS Theodore Roosevelt deixando a posição original, o Pentágono realmente parou de lutar contra os militantes islâmicos do Estado, e passa agora a participar da operação contra os xiitas do movimento Ansarullah [“houthis”, para os sauditas]. Aquela unidade de combate naval era a principal força de ataque na operação contra o Estado Islâmico. A Casa Branca prevê que as tensões entre a Arábia Saudita e Irã entrem em escalada.

No Iraque, Riad adotou a política de incitar à violência grupos políticos, tribos e clãs, atiçando uns contra os outros, para assim empurrar o país para um atoleiro de caos e tumultos, depois que as forças norte-americanas partiram.

O presidente Obama diz que os Estados Unidos teriam “renovado nossas alianças da Europa para a Ásia”. Não há motivo algum para considerar que isso seja relevante no caso do Oriente Médio. Como antes, os Estados Unidos baseiam-se em alianças militares com Israel e Arábia Saudita. Nada faz crer que os progressos alcançados nas negociações nucleares com o Irã levarão a reduzirem-se as tensões, no que tenha a ver com outros problemas regionais. Nada há, à vista, que sugira normalização das relações EUA-Irã.

Iêmen: resultado do bombardeio Saudita em Saada
16/4/2015
No Iêmen, o governo dos EUA apoiam a operação militar contra os xiitas que controlam a maior parte do país e dão combate aos terroristas da Al Qaeda. É verdade que os Estados Unidos não põe coturnos em solo, como fazia no início do século. Mas a estratégia não mudou. Apenas que, agora, Washington terceirizou o trabalho sujo.

A perspectiva de algum excelente acordo nuclear com o Irã continua puramente hipotética. Dever-se-iam criar novas formas de cooperação regional, para que o acordo fosse ponto de virada no processo de produzir paz para o Oriente Médio. Os americanos acreditam que conseguiriam levar Teerã a esquecer os seus próprios interesses nacionais. O “ocidente” reluta em está relutante em levantar as sanções, porque sem elas perderia influência sobre Teerã. Todas as propostas e iniciativas do Irã para melhorar a segurança regional são recusadas sem sequer receberem qualquer consideração séria.

Dia 14/4/2015, o Conselho de Segurança da ONU impôs um embargo de armas contra os rebeldes do movimento Ansrarullah (“houthis”, para os sauditas e para a empresa-mídia em todo o mundo) e incluiu em sua lista negra, o nome do filho de um ex-presidente do Iêmen e atual líder dos “houthis”. A resolução insiste que os “houthis”, que têm base no noroeste do Iêmen, para que entreguem as áreas que tomaram, bem como suas armas, inclusive “sistemas de mísseis” (sic). Governos árabes declararam que a resolução teria sido “vitória diplomática”.

A resolução permite aumentar a pressão sobre o movimento Ansarullah. Mas a Rússia não está satisfeita com a tal resolução. De acordo com o Vice-Chanceler russo, Gennady Gatilov, é resolução tendenciosa, que condena muito enfaticamente os “houthis”. Para Moscou, a resolução não facilita nem promove as medidas necessárias para superar a crise no Iêmen. O texto não considerou as propostas da Rússia, não exige um cessar-fogo, não considera devidamente as consequências nem a urgência de declarar-se uma pausa para ajuda humanitária. E não fez adequada referência às sanções.

Ban Ki-Moon e Javad Zarif (E) 19/1/2014
De modo geral, o Irã fez eco à posição dos russos. O governo iraniano enviou carta ao Secretário-Geral da ONU, com propostas sobre a gestão da crise no Iêmen. O Ministro das Relações Exteriores do Irã, dia 17/4/2015, entregou carta ao Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, na qual os iranianos oferecem plano de paz de quatro pontos, para o Iêmen. O plano, que o chanceler Mohammad Javad Zarif anunciou no início deste mês, prega cessar-fogo imediato e fim de todos os ataques militares estrangeiros; assistência humanitária; retomada do amplo diálogo nacional e “estabelecimento de um governo inclusivo, de unidade nacional”.

É imperativo que a comunidade internacional envolva-se mais efetivamente no trabalho de pôr fim aos absurdos ataques aéreos e de estabelecer-se um cessar-fogo, que permita que o povo do Iêmen receba assistência humanitária e médica, e que se restaurem a paz e a estabilidade no país mediante diálogo e reconciliação nacionais sem pré-condições – escreveu Zarif naquela carta.

De modo algum o Iêmen pode tornar-se trampolim para que a Arábia Saudita ataque o Irã. Se os americanos prestassem, pelo menos, alguma atenção ao plano do Irã para uma solução pacífica no Iêmen, não estariam hoje obrigados a dar conta de uma situação criada pelos seus “parceiros” árabes excessivamente agressivos.

  Barack Obama e Salman Al Saud, rei da Arábia Saudita
Os EUA devem olhar para o futuro, não para o passado. Os EUA têm feito mais mal que bem ao Oriente Médio. O presidente Obama gosta de repetir que, quando chegou ao poder, havia mais de 180 mil soldados dos EUA no Iraque e no Afeganistão, e que agora o número de soldados é inferior a 15 mil. Muito mais importante seria reconhecer que nenhum desses países conseguiu, até hoje, pôr fim a guerras civis.

Os EUA gastaram mais de 800 bilhões na “Operação Liberdade Duradoura”. A situação do Iraque não melhorou. Não há, à vista, qualquer possibilidade de normalização. No Iraque, os jihadistas do Estado Islâmico controlam um terço do território do país, além de grandes áreas também em território sírio. É bem real a ameaça de que se alastrem por toda a região os ataques daquele grupo terrorista.

Depois de terem desencadeado mais uma guerra agora no Iêmen, os EUA e seus aliados só fazem acrescentar gasolina ao fogaréu.

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[*] Nikolai Bobkin é Ph.D. em Ciências Militares, professor associado e pesquisador sênior no Center for Military-Political Studies, Institute of the U.S.A. & Canada. Colaborador especialista na revista online New Eastern Outlook. Escreve habitualmente para diversos sites e blogs tais como: Strategic CultureTroubled Kashmir, Make Pakistan Better e muitos outros.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Na Grã-Bretanha, a História talvez ria por último

18/9/2014, [*] MK BhadrakumarIndian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Referendum na Escócia de 18/9/2014
Ser ou não ser parte do Reino Unido
O sol talvez nunca mais se erga sobre o Reino Unido, depois deste fim de semana. À hora “do desjejum” na 6ª-feira (18/9/2014), o resultado do referendo na Escócia, disputado voto a voto, já será conhecido. É como jogar para cima uma moeda. Será que a intervenção da Rainha, no último seguindo, alterou o delicado equilíbrio que até ali pendia para o “Não” como resposta à demanda por independência do povo escocês?

Em termos puramente intelectuais, é impressionante que possa vir acontecer, afinal, um divórcio de veludo. Tantas inimizades seculares, tanto sangue derramado entre Escócia e Inglaterra ao longo dos séculos, e, agora, a separação por mútuo consentimento. Claro que os negócios ainda não resolvidos continuarão amargos e não será fácil resolver tudo.

Com toda a certeza, não é essa a maneira como termina a história em muitos cantos do mundo. O preço que o ex-Paquistão Leste pagou em civis mortos, em 1971, ficou entre 300 mil e três milhões de vidas. Todos os países em nossa região enfrentam o desafio do separatismo político. Alguns são desafios agudos, alguns estão cozinhando, outros simplesmente mergulharam no submundo e não se pode vê-los a olho nu – até que reapareçam.

Ato de União da Escócia com o Reino Unido em 1707
A Índia mantém-se na zona de perigo, e é preciso sabedoria, paciência, tolerância e sensibilidade – sobretudo pelo lado de nossa abominável classe política. Nossos “especialistas” apontam dedos contra Jaffna, Baloquistão ou o Tibete, mas se recusam a olhar para dentro de casa – ou fingem que nada veem.

Vastas regiões da Índia sentem a alienação, mas são mantidas sob “comando” mediante a mais brutal coerção estatal. Experimentem, pra ver o que acontece, remover os quartéis do exército nas regiões do nordeste – e todos ouviremos o apito da panela de pressão, daqui até Thiruvananthapuram no sul mais profundo.

Dag Hammarskjöld
Assistindo à cobertura cômica que nossa cômica televisão deu à chegada do Presidente da China, Xi Jinping, ontem, me ocorreu que o Primeiro-Ministro da Índia, Narendra Modi, teria tido pensamentos os mais confusos, se fosse Xi e visse uma demonstração de um grupo de Nagas ou Bodos ou Kashmiris, em frente ao prédio da embaixada da Índia em Kathmandu, bem no dia em que Xi chegou ao Nepal, mês passado.

Claro, sempre se pode dizer que não há comparação possível, porque nós aqui temos “democracia”. Mas... E a Grã-Bretanha não é a mãe de todas as democracias?! Permitam-me que recite uma linha de meu livro favorito, Markings, relato dramático escrito por Dag Hammarskjold de sua luta espiritual:

Quanto mais fielmente você ouve a voz que fala dentro de você, melhor conseguirá ouvir os sons que o cercam. E só quem é capaz de ouvir é capaz de falar.

O que a Escócia destaca é que o nacionalismo e o subnacionalismo têm estranhas vias, e não é o desenvolvimento econômico (ou a privação) que moram na raiz da alienação política – ou, pelo menos, esse não é o único fator subjacente nem é o principal fator.

Identidade cultural, discriminação política (real ou percebida), idioma, etnia, religião e a exuberância de cada um viver a vida à sua maneira – tudo isso pesa em graus variados; e na encruzilhada onde as experiências contemporâneas misturam-se com restos de história formam-se estranhos amálgamas.

Claro que, com população de cinco milhões, a Escócia talvez não seja nem economicamente viável, mas isso não parece incomodar o povo que busca a independência. 

Referendum na Escócia de 18/9/2014
O racha dentro da Grã-Bretanha enviará ondas de tremor para toda a Europa e globalmente. Se a Escócia cai fora, Gales pode vir na sequência. A opinião que cresce pesará fortemente a favor de saírem todos da União Europeia. Ora! Uma União Europeia sem a Grã-Bretanha é evento que tem implicações profundas. A ascendência ou a “assertividade” germânica já está sendo discutida abertamente.

Claramente, a Alemanha caminhará para mais perto da Rússia e a própria União Europeia pode assumir forma diferente. Outra vez, a parceria Trans-Atlântica entre EUA e seus aliados europeus não poderá continuar a mesma. A Grã-Bretanha desempenhou papel chave como “gerente de sucursal” de Washington, na Europa.

Houve altos e baixos nas relações de EUA/Reino Unido, e houve tempos em que o poodle guiava o patrão trôpego por becos sem saída, mas a Grã-Bretanha é, afinal, insubstituível nas estratégias globais dos EUA. É impensável que a agenda dos EUA sobre a expansão da OTAN consiga ser mantida e avançar, sem o papel ativo da Grã-Bretanha. Assim também, sem o eixo anglo-norte-americano, nenhuma Nova Guerra Fria jamais começará na Europa. Polônia ou Lituânia simplesmente não substituem a Grã-Bretanha.

Por fim, quem herdará o lugar da Grã-Bretanha no Conselho de Segurança da ONU? Ironicamente, a agenda de reforma da ONU ganha nova dinâmica (e urgência), se a Grã-Bretanha “cai fora”. E ainda sem dizer que as implicações são sérias para vários teatros da política regional e global contemporânea – Iraque, Síria, Ucrânia, Afeganistão, Irã, Hong Kong, Austrália e por aí vai. 

Partição da Índia imposta pela Inglaterra em 1947
Contudo, o fim da Grã-Bretanha não será lamentado universalmente. A Grã-Bretanha é muito amplamente amaldiçoada por vários continentes, pelo brutal currículo colonial, pela perversão ou pelos muitos crimes (ocultados sob a mais irritante fachada “ético”−arrogante), pela tendência a fazer pregação moralista (por menos que dê qualquer importância à moralidade), pela pose de maior do que de fato é (e “crescendo” sempre graças ao exército, marinha e força aérea dos EUA) e zelo doentio com que explode em atos de violência contra outros povos que nada fizeram de mal, direta ou indiretamente, à Grã-Bretanha.

Do ponto de vista do Sul da Ásia há aqui uma profunda ironia. A Grã-Bretanha conhece a divisão, na sua carne, 67 anos depois que os britânicos impuseram a Partição, ao subcontinente indiano. A história afinal se vinga? Mas a Grã-Bretanha talvez ainda se safe, pagando só uma ínfima parte do preço que a Índia pagou – e ainda paga – pelo corte cesáreo que a Grã-Bretanha cortou na carne do subcontinente, sem qualquer anestesia.

Não posso evitar uma excitação, uma ansiedade, até amanhã à hora “do desjejum”: que modo de terminar, para um império no qual o sol jamais se punha. O Império Otomano foi o último que se dissolveu no ar. Ali, a Grã-Bretanha teve papel mágico. Oh, como o “poder” é efêmero – o modo como, afinal, todos os poderes acabam. Sound and fury signifying nothing... Som e fúria, significando nada.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Obama e Putin disputam a Ucrânia pescoço a pescoço

31/8/2014, [*] MK BhadrakumarIndian Punchline - RediffBLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Dmitry Orlov (em 2009)
Gosto do blogueiro Dmitry Orlov, porque ele diz as coisas claramente, o que me ajuda muito, nessa minha idade, a ver através do fog da guerra na Ucrânia. Pena, só, que ele escreva tão raramente...

Em recente postado em seu blog [já traduzido no blog redecastorphoto], Orlov lista dez sinais indisfarçáveis, incontestáveis, de mudança em solo no leste da Ucrânia, em termos militares, que todos veriam, se forças russas tivessem realmente invadido a região, como a narrativa ocidental insiste em repetir que teria acontecido, desde a semana passada, a partir da cúpula de Minsk na 2ª-feira (25/8/2014), que se realizou entre bem-vindos sinais de que alguma paz começa a ser possível.

É impossível discordar de Dmitry, quando diz que nenhum daqueles sinais é visível no mundo real, pelo menos por enquanto. O que impõe uma grande pergunta: por que a narrativa “da invasão”, tão absolutamente sem provas, está sendo introduzida de modo tão rude pelos EUA, em todos os discursos que tenham a ver com a situação da Ucrânia?

Parece-me que os EUA fazem deliberadamente o que estão fazendo, porque, na “mudança de regime” na Ucrânia, o presidente Barack Obama está liderando da frente, não da retaguarda como na Líbia ou Síria. Disso, não tenho dúvidas.

Samantha Power
Quem duvide, passe os olhos pelo discurso da embaixadora  Samantha Power  dos EUA no Conselho de Segurança da ONU na 5ª-feira (28/8/2014), quando tirou as luvas e sentou a pua. Até faz lembrar o famoso discurso do embaixador Adlai Stevenson dos EUA, na reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU dia 25/10/1962, nas sombras da crise dos mísseis em Cuba.

As trocas de farpas entre Power e o embaixador Vitaly Churkin parecem-se cada dia mais com as de Stevenson com o embaixador russo Valerian Zorin. É, sem tirar nem pôr, cena clássica de Guerra Fria. De diferente, claro, que as falas de Stevenson eram elegantes, bem redigidas, bem lidas, bem pensadas, inteligentes, para acalmar os ânimos; e Power fala aos guinchos, aos pulos, em tom de provocação, intolerante, como se estivesse nas trincheiras da extinta Iugoslávia.

Mas voltando à Ucrânia: o que explica a narrativa explosiva que o “ocidente” está impondo? De fato, realmente não mostraram nem um fiapo de prova de que a tal “invasão” russa teria acontecido. O que nos garante que, como no caso do conto do infeliz avião da Malaysia Airlines abatido a tiros no leste da Ucrânia, toda a conversa sobre “invasão” não seja, outra vez, mais subterfúgios? Claramente, ninguém no ocidente quer voltar, nem agora nem nunca, a falar sobre o avião malaio, sobretudo em Washington.

Voo MH17 da Malasya Airlines
A parte mais perturbadora é que, ao lado da narrativa sobre a “invasão” russa na Ucrânia, há movimentação frenética em solo, do lado da Organização do Tratado do Atlântico Norte,OTAN. Pior: para criar, num momento como o atual... uma Força Expedicionária da OTAN.

A intrusiva narrativa ocidental sobre a “invasão” russa na Ucrânia, da qual não há provas, e que Dmitry Orlov demonstra que é completamente inverossímil, será de fato apenas “sessão de esquenta” antes da reunião da OTAN que acontecerá em Gales, Grã-Bretanha, na 5ª-feira próxima (4/9/2014)? Pode muito bem ser. Considerem o seguinte.

Anders Fogh Rassmussen
Ao longo da semana passada, a liderança pró-ocidente em Kiev começou a clamar que dessem status de membro da OTAN à Ucrânia. O secretário-geral da aliança, Anders Fogh Rasmussen, respondeu imediatamente, como se estivesse à espera, na 6ª-feira (29/8/2014):

Respeitamos integralmente as decisões da Ucrânia sobre a política de segurança da Ucrânia e o pedido de afiliação à aliança. Não interferirei nas discussões políticas na Ucrânia, mas permitam-me lembrá-los da decisão que a OTAN tomou na cúpula de Bucareste em 2008, segundo a qual a Ucrânia receberá status de membro, se, claro, a Ucrânia assim o desejar e a Ucrânia satisfizer os necessários critérios.

O que Rasmussen se esqueceu de registrar aí foi que, na cúpula de Bucareste, o governo de George W. Bush fazia de tudo para promover a expansão da OTAN e incluir a Ucrânia, mas a empreitada foi completamente barrada pela Alemanha; Berlin disse que não; que provocação pela aliança ocidental despacharia as relações entre Europa e Rússia para o fundo do poço.

Será que a Alemanha manterá a mesma posição, ante a narrativa ocidental pilotada de Washington, segundo a qual a Rússia teria “invadido” a Ucrânia? Saberemos no próximo fim de semana, depois da cúpula da OTAN em Gales. O presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, foi convidado para a reunião da OTAN em Gales. (Mas a Rússia foi acintosamente excluída, mais uma vez, como tem sido prática desde meados dos anos 1990s).  

Há crescentes sinais de que a resistência alemã contra a associação da Ucrânia à OTAN está se diluindo numa guerra diplomática de atrito sustentado movida pelo governo Obama. A Grã-Bretanha, como sempre, estará obedecendo ao roteiro que o Pentágono passou-lhe, na cúpula no ninho de Gales, onde, como país anfitrião, tem força especial.

Enquanto isso, Rasmussen revelou que a aliança planeja instalar novas bases no leste da Europa. A ideia é que tropas de países OTAN como Canadá façam estadias nessas bases, de vários meses de cada vez, de modo que Bruxelas não apenas economizará em custos de infraestrutura, como também poderá dizer que não está por ali em caráter permanente (o que seria violar os termos do ato assinado por OTAN-Rússia, em 1997). Cerca de mil soldados canadenses estão partindo para a Europa, com esse destino.

HMCS Toronto da marinha canadense
A Ucrânia forma um padrão na política doméstica canadense, por causa do “banco de votos” da comunidade de emigrados. Ottawa, pois, está assumindo papel protagonista na Ucrânia. O HMCS Toronto foi deslocado para o Mar Negro. A Infantaria de Alberta participou de exercícios militares na Polônia, com soldados dos EUA. Depois disso, unidades de infantaria de Ontário serviram na Polônia. Quatro jatos F-18 canadenses que participavam de “treinamento” na Romênia, foram movidos para a Lituânia (onde há uma das maiores bases aéreas do período soviético). 

Nem é preciso dizer que a retórica russofóbica ajudaria Washington a fazer pressão sobre a União Europeia (que está reunida hoje, 31/8/2014, em Bruxelas) e sobre a OTAN para que ajam no sentido de isolar Moscou, o que se alinharia bem com a estratégia geral de contenção, dos EUA.

Não surpreende, portanto, que nos últimos quatro dias o presidente russo tenha falado por telefone com a chanceler alemã Angela Merkel, com o primeiro-ministro da Itália Matteo Renzi, com o presidente da Comissão Europeia José Manuel Barroso e com o presidente da França François Hollande. O assunto de todas essas conversas foi a reunião entre Putin e Poroshenko em Minsk, Bielorrússia, na 2ª-feira passada (25/8/2014).

Países membros da OTAN
Interessante: todas essas conversas (exceto com Hollande) aconteceram por iniciativa europeia. Depois de conversar com os europeus, Putin falou por telefone com o presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, no sábado (31/8/2014), sobre reunião em Minsk, do Grupo de Contato sobre a Ucrânia (que compreende a OSCE - Organização de Segurança e Coordenação da Europa, a Rússia e representantes do leste da Ucrânia) e o governo ucraniano. Esperemos, agora, o contramovimento de Obama sobre o tabuleiro de xadrez. Semana que vem Obama visitará a Estônia e não viajaria até aquele vizinho mais próximo dos russos, de mãos vazias.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.